‘Sem título’ aprisionada

Texto de Toinho Castro

A primeira vez que a vi foi na Uruguaiana. Épico! Parecia-me um animal antigo, poderoso, congelado em pleno passo de sua caminhada, eras atrás, muito antes de haver uma cidade ali, muito antes do ser humano se espalhar pelas matas. Talvez um visitante gigante de outras esferas, explorando um mundo, para ele, alienígena. Algum evento inexplicável o capturou ali, naquela posição, naquele meio de caminho. E a cidade cresceu ao seu redor, os homens formigaram ao seu redor e, eventualmente, tiveram ideias e fizeram planos e não o incluíram nesses planos. Falo da escultura Sem Título (1997), de Ivens Machado, instalada na Uruguaiana, já perto do Largo da Carioca, e que de lá foi removida, em 2014, por conta da realização de obras no local de sua instalação. Passado o período das obras, a escultura não retornou ao seu lugar original. Seu lugar, talvez, de origem.

Vista de Sem título, a partir do Lago da Carioca. Fonte: Google Earth, recuperado de https://www.google.com.br/maps, novembro de 2013.

Sempre que passo na Uruguaiana, fazendo o caminho que tantos fazem, que tantos devem ter feito, imagino a sombra de Sem Título sobre a calçada; posso imaginar sua presença holográfica, como numa ficção científica, sendo trespassada pelos pedestres, pra lá e pra cá, ignorando sua presença mágica; sua ausência triste. Sinto falta de vê-la, de desafiá-la e ser desafiado por ela. De tentar entender sua linguagem antiga, e me comunicar com ela e sua linhagem. E com isso compreender sua história. A história que ela conta.

Anos atrás a descobri, por acaso. Uma cena, ou um cenário, que me encheu de tristeza. Pude, ao passar num táxi pela Presidente Vargas, vislumbrar seu corpo enorme, abandonado no pátio da 1ª Gerência de “Conservação” (Assim mesmo, com aspas), na Praça Noronha Santos. Mais que abandonada, ela encontra-se aprisionada numa estrutura de metal, que pretende estabilizá-la. Aparenta, porém, a necessidade de contê-la em sua força. Impedi-la de, novamente, caminhar com seus “passos largos”, enviesados, pela cidade. Simboliza, de fato, um aprisionamento da sensibilidade artística, essencialmente humana.

Desde que ali a descobri, anos atrás, passo por ela com frequência, na celeridade dos meios de transporte. E em todo esse tempo pensava em fotografá-la em seu cárcere. Algumas vezes puxei a câmera ou o celular no ônibus ou no táxi, mas nunca logrei uma boa imagem, que expressasse como eu a enxergava. Na semana passada, numa tarde nublada, da pressa e um Uber, eu a capturei num frame, num lapso de segundo, e a congelei no tempo outra vez. No tempo de uma foto, em que contrasta o borrado da passagem com a nitidez do seu estado de animação suspensa.

Você pode ver a foto abaixo.

Sem título aprisionada – Foto de Toinho Castro (novembro de 2025)

Aprisionada, enjaulada, Sem Título deteriora aos olhos da cidade. A sombra da sua ausência assombra a Uruguaiana. Numa foto que ilustra o artigo acadêmico Escultura Sem título de Ivens Machado na Rua Uruguaiana: instalação, permanência, deslocamento e abandono, de Juliana Maria Jabor Santos Faria, cuja leitura recomendo fortemente, para contextualização e entendimento dos destinos da da obra, podemos ver como ela foi arrancada do chão, com as pontas dos seus vergalhões expostas nos seus pés. Na sua base. Um ato violento como uma amputação, como um desmatamento. Daí para o apagamento, é questão somente de deixá-la onde está, na inércia da coisa pública; nos pátios e galpões onde tudo finda. Vide tantas obras cujo destino, hoje, é incerto, duvidoso. Vide a Estrela do mar, de Tomie Ohtake, que acabou vendida como sucata.

Que a arte caminhe livremente pela cidade, sem a ameaça dos vândalos e ou do estado, isso é o que queremos. Isso é o que imagino para o Rio de Janeiro quando passo na Presidente Vargas e observo, sempre de passagem, Sem Título lutando para se libertar. Engana-se quem a pensa inerte. As tensões que a constituíram fluem através do seu corpo, e não duvido que rompa a prisão. Não duvido que atravesse a avenida e caminhe pela cidade, arrasando postes e arrastando fiações, com os guardas de trânsito correndo atrás dela, para se fixar no lugar de onde não deveria ter saído. Onde sua sombra a espera. Repousando livre, em arco torcido, portal que voltaremos a atravessar cotidianamente. A cidade voltará a dançar sua ciranda de doido ao seu redor.

Quem sabe, um dia, as criatura do espaço que ali a depositaram, para investigar, para explorar um novo mundo, retornem para recuperá-la; e assim sua missão estará cumprida.

A missão da arte, se há alguma, passa por estimular essa imaginação, torná-las possíveis. Nos deslocar do centro magnético do eu para a periferia das ideias. Sempre que vi, ou que vejo, Sem Título, sou arremessado na sua dimensão narrativa.

Quero revê-la livres, ela e eu.

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