Poemas de Joaquim Cesário de Mello

Em meio ao pequeno caos de um inbox mal gerenciado, esbarro com os poemas que o querido Joaquim Cesário de Mello enviou um ano atrás. Escrevi-lhe imediatamente, para não perder ainda mais tempo… e eis que sua gentileza permitiu que publicasse aqui os poemas, mesmo com tamanho atraso. Obrigado, poeta.

Leia também, aqui na Kuruma’tá: A orfandade das fotos


COMO JÁ DIZIA SARTRE

Quando me lembrei de mim
já havia nascido
e penteado os cabelos
frente ao espelho
dos olhos da minha mãe

Não me lembro
do meu primeiro aniversário
porém se ainda hoje faço aniversários
é porque um dia já fiz o primeiro aniversário

Não me lembro
da vez que experimentei melão
mas como não gosto de melão
é porque não devo ali ter gostado

Não me lembro
de quando provei o sal do mar
entretanto minha esposa vive me dizendo
que meus beijos são muito salgados

Das milhares de horas em que fui forjado
há tanta coisa que não me recordo
e por isso eu devo ser uma amnésia que fala
mas que não se lembra do que antes foi falado

Minha certidão de nascimento
antecede a minha essência

 


OLD MAN

Te amo com o amor de ontem
um amor antiquado que nem nos retratos
que guardam o rosto dos meus antepassados

Te amo um amor longevo
que vem dos tempos distantes
quando os homens usavam chapéus
as mulheres se abanavam com leques
as crianças trajavam calças curtas
e as braguilhas eram com botões
ao invés de serem com fecho-éclair

Te amo um amor remoto e recuado
corado de preto, branco e cinzento
um amor com cheiro de papel novo e tinta fresca
que nem as fotonovelas que se lia antigamente

Te amo um amor vintage
que embora velho e arcaico
tem o atrativo de um charme nostálgico
um amor um tanto ferrugento
que hoje já não se usa mais
no decorrer da liquidez de que falava Bauman
mas o que é que eu posso fazer
se só sei amar aqui no presente
como se vivesse amando lá de onde vim
que foi em meados do século passado

I am old man
e meu coração é totalmente retrô

 


MEDO NOSSO DE CADA DIA

Tem medos que acontecem
do lado de fora da realidade

Medo de barata
de lagartixa
de quarto escuro
de trovão
de agulha de seringa
de assombração
de altura
de elevador
de multidão
e até do gato preto do azar

Medos assim são como ladrões
que nos roubam desejos e sonhos
medos que nos sonegam
o que da vida podemos retirar
ou o que na vida podemos colocar

Quem tem medo de cair não anda
quem tem medo de subir continua sentado
quem tem medo de se mexer fica parado
quem tem medo de nadar um dia morre afogado

O medo como cautela é necessário
mas o medo pelo medo é estagnante
já a fobia é por natureza é esquivante
e o pavor, então, é aterrorizante

Stendhal já dizia
que o medo não está no perigo
mas no interior de cada um de nós

Por isso quando tenho medo
de viver
de morrer
de amar
de sofrer
de ser abandonado
corro e vou logo escrever um poema
para protegido dormir com ele abraçado

 


MOCIDADE

Minha mocidade
vem de longe
lá do passado do século passado

Minha mocidade
é uma camisa desabotoada
em meio a um guarda-roupa arrumado
que existe vivendo dizendo não

Minha mocidade
é que nem bicho indomável
feroz, selvagem e ferino
e ai de quem lhe encostar a mão

Minha mocidade
é ardente e audaciosa
que tem algo de estonteada loucura
que a uso em quase toda ocasião

Há quem não entenda minha mocidade
quanto a isso não posso fazer nada
afinal levei muito tempo para nela chegar
e se entranhou nas costelas do interior de mim

Vou levar minha mocidade até à velhice
para bagunçar o que o destino me reservou

 


BUG
 
Uma mariposa entrou na minha cabeça
logo agora que estava escrevendo um poema
e começou a comer as beiradas dos neurônios
embaralhando os sons que vêm do fundo
murmurante mais íntimo do meu interior
 
Portanto, senhoras e senhores
ppppp   eeeee    çççççç   ooooo
des
cul
                   cul
     pas
                                               p   a     s
p       orém…
…não con… con…sigo 
ter
                 mi
nar
 
eeeeeeesssssstttttteeeeee
o
p
m
a e
 
piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
 

O AGITADO MAR DOS PENSAMENTOS

Por que penso o que penso
eu que penso que penso tantas coisas?
Mas quando penso sobre o que penso
penso que penso sempre o que sempre penso

Qual foi a última vez que pensei
um pensamento para chamar de meu
um pensamento que fosse um pensamento novo
um pensamento que jamais pensei nele antes?

Tenho pensamentos
que nem aos meus pensamentos revelo
Tenho pensamentos caducos
outros inusuais aos pensamentos dos outros
pensamentos ferrugentos e desusados
pensamentos masculinos, femininos e ambidestros
inclusive tenho pensamentos importados
introduzidos desde ante do final do século passado

Tenho pensamentos para quase todo gosto
alguns picantes, salgados, metálicos
outros que de tão amargos têm sabor de vinagre
mas também existem pensamentos adocicados
que sorriem em minha mente quando sonho acordado

Amiúde desconfio de alguns pensamentos
quando me vejo pensando como foi que eles
chegaram ao interior barulhento de mim
Todavia descubro pensamentos insubordinados
indomáveis que nem cavalos selvagens
que bagunçam o armário do fundo esquerdo
que é lá onde guardo o pouco das minhas certezas

Pensamentos são células neurais conversando
em um incessante bate-papo que chego
até mesmo a ficar muitas vezes cansado

Entretanto quando meus pensamentos viram palavras
vencendo a barreira do ordinário e do trivial
corro em direção à ponta delicada dos dedos
e aguardo ver se eles se tonarem poemas


Joaquim Cesário de Mello é psicólogo, psicoterapeuta e professor universitário, residente e domiciliado em Recife (PE). Em meados dos anos 1980 participou do Movimento de Escritores Independentes e foi colunista da Vida Crônica (1998 – 2002) do encarte JC Cultural do Jornal do Commercio (PE). Escritor e poeta, participou de várias antologias literárias, entre elas Nouveaux Brésils Fin de Sciècle (2000), Poesia Viva do Recife (CEPE, 1996) e Cronistas de Pernambuco (Carpe Diem, 2010), Poesia na Escola (Palavra e Arte, SP, 2021). Autor dos livros Dialética Terapeuta (Litoral/PE, 2003), A Alma Humana (Labrador/SP, 2018), A Psicologia nos Ditados Populares (Labrador/SP, 2020), A Vida Como Um Espanto (Labrador/SP. 2021) e No Cemitério das Nuvens (Folheando/2022).

Bethânia e o espelho do que fui

Texto de Tiago Gonçalves

Sábado, Maria Bethânia. O tempo parece ter parado, ou talvez tenha se dobrado sobre si mesmo, porque ainda sinto os instantes reverberando dentro em mim, silenciosos e insistentes. Algumas experiências são grandes demais para os ontens. Certos momentos continuam acontecendo muito depois de terem acabado. Eu estava ali, sentado, e não era espectador. Não podia ser.

Tudo nela me dizia respeito. Tudo na voz, no corpo inteiro, nos olhos que se perdiam em transe na canção, e voltavam satisfeitos; tudo nos pequenos gestos que, delicados, carregavam o mundo. Tudo me atravessava, e eu nem respirar conseguia direito. Sentia cada pausa como se fosse minha própria falta. Cada nota parecia falar dos caminhos que escolhi, daqueles que não pude trilhar, da música que deixei de tocar, do verso que deixei de escrever, da voz que guardei na gaveta. E tudo ao mesmo tempo me lembrava que o sonho não se apaga – e não envelhece. Ele apenas se transforma, ressignificando-se. Havia em mim um trovador calado, que não sobe ao palco, mas que ainda existe em alguma taberna escura. Que ainda sente. Que ainda se deixa atravessar.

Durante anos sonhei ser artista. Não qualquer um, e sim alguém capaz de tocar o invisível, de transformar o pressentido em movimento, em canto, em palavra que fosse música, poema ou luz. Talvez por isso eu a imitasse tanto. Talvez por isso cada movimento dela me devolvesse um espelho em que me via, pequeno, desejando compreender a calma que incendiava sem alarde.

Enquanto ela cantava, enquanto o samba tímido ria nos seus pés descalços, enquanto os ombros se moviam, enquanto os dedos ajeitavam os cabelos já brancos, enquanto a mão tremia no esforço de sustentar o microfone, enquanto a respiração se fazia entre cada verso, eu absorvia tudo, como quem tenta guardar o orvalho antes que o sol o leve de volta para si. Não era só Bethânia no palco. Era tudo o que eu fui, que eu poderia ter sido, que ainda posso ser, se houver coragem de sentir de novo.

Cada silêncio, cada intenção, cada nota suspensa era um lembrete de que o desejo não se perde. Ele se transfigura. E que arte não é só criar, ou escrever, ou cantar. É sentir a vida inteira, mesmo quando se escolhe outro caminho; mesmo peregrinando trilhas mais concretas, mais ordenadas, mais burocráticas e acadêmicas, a vida está, urgente. Mesmo sem os holofotes e os aplausos, ainda assim o coração se lembra. A memória. O corpo. A música. Tudo agarrado em algo que não cabe.

Saí da sala sem sair do instante. Ele me acompanhava e atravessava. Fiquei parado, em silêncio, como quem voltou de um rito ancestral e não quer quebrar o encanto. Percebi que ainda sou artista. Não porque subo ao palco, mas porque continuo tentando traduzir o indizível. Porque continuo permitindo que a vida me perfure, transpasse, rasgue e transverta.

Há pessoas que não apenas visitam este mundo. Vivem. E encantam a vida. Que tocam sem que se saiba como. Que entram em nós e deixam a bússola desregulada. Quem as

vê, quem as escuta, quem se deixa tocar, numa mais será o mesmo dos ontens. Nunca mais será o mesmo de antes do instante em que se entregou inteiro, sem defesas, sem distâncias. Talvez seja exatamente isso que chamamos arte: a vida virando outra dentro de nós, dentro dela, dentro do silêncio que continua ressoando muito depois do último acorde.

Lançamento: Trajetória de um mergulho, de Viviane de Freitas

Trajetória de um mergulho” é uma coletânea de contos sob a ótica de personagens femininas lidando com reflexões e sentimentos provocados por isolamento, doenças, limitações com o corpo, perda da liberdade, questionamento da fé, entre outros acontecimentos comuns à experiência humana.

Memória e conflitos psicológicos na prosa de autoria feminina: escritora lança quarto livro
em São Paulo, na Vila Mariana
.

A memória como temática é uma constante na literatura brasileira, desde Clarice Lispector, Machado de Assis, até a última década, com nomes tais quais Itamar Vieira Júnior, Marcelo Rubens Paiva, Eliane Alves Cruz e Rafael Gallo. Com novos contornos, Viviane de Freitas, escritora independente, lança seu quarto livro pela Editora Mondru através do exercício criativo de se pensar novas relações em torno das subjetividades femininas.

O lançamento acontecerá no dia 07 de março na Fábrica de cânones, em São Paulo, na rua Professor Miguel Milano, 80 – Vila Mariana, próximo do metrô Ana Rosa, de 16h às 20h.

“Os contos foram escritos entre 2015 e 2019 e o ponto de partida foi a oficina de Escrita Curativa da autora/professora Geruza Zelnys. Geruza Zelnys foi minha orientadora na PUC-SP e trabalha a escrita como forma de reelaboração do trauma. Todos os textos nascem desse lugar, como reelaboração de pequenos e grandes traumas.” — Viviane de Freitas

Com fortes traços poéticos, o lirismo da obra se relaciona com o gênero do conto, envolvendo as tantas histórias de mulheres em torno da introspecção de suas experiências, muitas vezes negativas, para se chegar a uma “catarse”.

Confira um trecho:

Sua vida palpitava no ritmo do sobrenatural. Subia e descia. E não era alucinação, seguia bem acordada. Feliz, envolvida em presente e presença. Só se, talvez, fosse ela a morta. Ou, seu próprio corpo respirava tão profundamente que o embalava, movia tudo ao redor pela força de sua vida premente. Subia e descia. Ficou olhando, sem pressa. Esqueceu-se da pressa, não precisava mais afligir-se porque descobria que a vida é eterna”.

Novos poemas de Otávio Moraes

A porta da Kuruma’tá está aberta! E por ela chegam poemas, cantos, histórias, mundos.
Hoje publicamos três trabalhos inéditos do poeta Otávio Moraes. Que a Kuruma’tá possa ser o primeiro espaço de publicação desses poemas, isso muito nos alegra.

Seja bem-vindo, Otávio. Que sua poesia chegue a todas e todos que passam por aqui, e se multiplique nessas vozes.


Trova,
o mais perto possível
do verbo lua.

Lira,
máquina composta
de vento e corda.

Verso,
viúva enamorada
de marinheiro distante.
Ela, Estância.
Ele, Instante.


Antigos poetas
cantaram a epopeia
do desejo,
suas sete
mil armadilhas:
um banquete
de corpos convulsivos
uivando sem lua.

Eu canto duas
ou três novelas:
donzelas nuas,
caravelas, duas,
em flor.
Canto o cheiro do mar.

Conto os pares de namorados
com seus corpos sólidos
de peixe e de ar.

Deito-me, homem feito, na praia.
Exausto das lides da poesia e do amor]
Durmo um sono, não o sonho dos justos,
mas apenas o dos cansados.
O corpo furtado ao espírito,
apenas ventre, espuma e mar.


Das listas
(poema infinito)

Dos bichos vistos no jardim:
caramujos marrons,
joaninhas rubras,
larvas esbranquiçadas,
moscas verdes,
besouros amarelos.

Dos dias da semana:
quinta-feira —
pelo que promete,
pelo que já atravessou.
Domingo,
apesar da segunda.
Melhor: manhã de domingo.
Se possível: domingo azul,
solar, preguiçoso.
E, por fim, terça-feira —
por ter sobrevivido à segunda.
Um dia veterano.

Das matérias da escola:
primeiro, a redação.
Nunca a literatura —
museu de nomes
e datas.
Depois, a biologia:
reinos, filos, pterodáctilos.
Por fim, a geometria:
ângulos lindos,
nomes bárbaros —
isósceles,
hipotenusas,
catetos.


Otávio Moraes é poeta, professor e pesquisador brasileiro radicado na França. Doutor em letras, atua como leitor de português na Universidade de Nantes. Publicou os livros de poesia Um tigre, um anzol (Caravana, 2023) e História dos pássaros (Nauta, 2025).

Pitombeira do Elefante

Por Toinho Castro (No Rio de Janeiro, com saudades de Olinda)

É tanta Pitombeira pelo mundo que só me lembro do Elefante! Com a camiseta absolutamente viral da troça/bloco olindense, promovida a estrela pelo sucesso planetário de O agente secreto, parece que nasceu um pé de pitomba no quintal do coração de cada brasileiro. E isso é lindo. Isso é bom. Fez-me recordar, também, da Festa da Pitomba; na verdade, uma celebração a Nossa Senhora dos Prazeres, no município vizinho e guerreiro de Jaboatão dos Guararapes. Virou Festa da Pitomba porque se realiza justamente na época a fruta que, como a camiseta da pitombeira, enche as ruas das cidades da região. Lembro de estar na Imbiribeira, ligação entre o bairro de Afogados e Jaboatão, e ver os ônibus com destino ao vizinho ostentando letreiros anunciando a Festa da Pitomba. Fui quando criança. Cresci e me interessei por outras coisa. Mas o letreiro Festa da Pitomba estampado no vidro do ônibus, trago até hoje comigo.

Mas o tema dessa… o que, crônica? Sim, é o Elefante.

Fundado num apropriado fevereiro de 1952, o Clube Carnavalesco Misto Elefante de Olinda é um gigante no Carnaval de Olinda; há que se falar de há rivalidade amigável, gostosa, com a Pitombeira. Porque no carnaval de Olinda tudo é amizade e encontro e festa. Inclusive, o encontro, nas ruas de Recife ou Olinda, dessas duas forças do carnaval pernambucano é tipo um momento sempre memorável e define a dimensão dessa festa profundamente brasileira, essa festa de irmãos e irmãs.

Então com as camisetas amarelas da Pitombeira, solares, como lâmpadas acesas pela cidade, venho falar do Elefante e seu brilho vermelho e branco, e seu hino, que é uma das coisas mais bonitas já feitas. De autoria de Clídio Nigro e Clóvis Vieira, o hino do Elefante é uma joia incrustrada nesse anel de ouro que é Olinda. Praticamente um hino dssa cidade antiga, de 490 anos; mãe e irmã do Recife. Com seus versos “Olinda, quero cantar a ti essa canção”, ela faz a multidão espremida, comprimida nas ruas da cidade alta, explodir como uma super nova de alegria e devoção, às ladeiras, ao casario e ao povo. O hino do Elefante de Olinda é, em si, uma instituição.

Conta a história:

Como quase todas as agremiações do Carnaval de Pernambuco, o Elefante nasceu de uma brincadeira de amigos. No dia 12 de fevereiro de 1952 Alrivelto Lopes, Caio Gomes, Élcio Siqueira, Walter Damasceno, Claudio Nigro, Expedito e Marcone Felizola saíram da Rua do Bonfim em direção aos Quatro Cantos. Além de alegria carregavam um biscuit (uma espécie de massa de modelar) de um elefante.

A brincadeira pegou tão forte que no ano seguinte a recém-nascida troça já desfilava com um estandarte. Os uniformes eram emprestados pelo Bonfim Atlético Clube, que não mais existia, mas terminou por batizar com suas cores o futuro gigante. Em 1968 a troça virou clube e eternizou-se de vez no Carnaval de Olinda com seu hino, uma das músicas mais ouvidas e cantadas a plenos pulmões nos carnavais da vida.

Fonte: Prefeitura de Olinda

Imagino que não sejam poucas as versões para essa história. O fato, é que ela segue até hoje, vibrante e poderosa, com o Elefante iluminando as ruas por onde passa, encontrando com a Pitombeira, e arrastando uma multidão que se acumula, ao longo dos anos, num retrato diverso e gratificante do país. Se hoje a Pitombeira ganha esse merecido destaque, graças ao filme de Kleber Mendonça, certamente se eleva junto com ela todo o carnaval de Olinda e sua tradição, o Elefante, seus blocos e troças e seus nomes inesquecíveis, e os quadros de Bajado e Zé Som, e a figura do Lorde de Olinda, o coco de Dona Aurinha, Joana Batista e seu Vassourinhas, as pedras do calçamento das ladeira e tantos outros signos e símbolos dessa identidade, dessa entidade que é nosso carnaval.

Ah, que saudade que dá de chegar nos Quatro Cantos com hino do Elefante tocando em toda parte.

Ao som dos clarins de Momo
O povo aclama com todo ardor
O Elefante exaltando as suas tradições
E também seu esplendor
Olinda, este meu canto
Foi inspirado em teu louvor
Entre confetes e serpentinas
Venho te oferecer
Com alegria o meu amor

Olinda! Quero cantar a ti esta canção
Teus coqueirais, o teu sol, o teu mar
Faz vibrar meu coração, de amor a sonhar
Em Olinda sem igual
Salve o teu Carnaval!

Manda ver, Jéssica! Você nos representa!

Em 2021 a Kuruma’tá recebeu alguns belos poemas no e-mail. Animação total com a beleza e dimensão daqueles versos. Publicá-los não era apenas óbvio, era necessário! Jéssica Iancoski, que nos brindou com essas poesias, é agora reconhecida, pela Revista Forbes, como jovem com até 30 anos que se destaca em seu ramo de atuação. Estar presente nessa lista, publicada em fins de 2025, é um atestado do que a gente já sabe de cor: Jéssica é uma força cultural; uma realizadora que o Brasil merece, que o Brasil precisa. Alguém que pegou a poesia e criou um caminho para multiplicá-la; um caminho de portas abertas para revelar novas vozes e potências poéticas. A Toma Aí Um Poema é uma das coisas mais bonitas que já vi surgir nesse país. Acompanho de perto com brilho nos olhos.

E que orgulho e alegria ter publicado os poemas de Jéssica… poeta, empreendedora, visionária e inspiração pra todos nós.

Viva a poesia!

Leia os poemas de Jéssica Iancoski na Kuruma’tá!
Leia mais sobre Forbes Under 30 em: https://forbes.com.br/under-30/under30-2024/

“Escritas com luz…” | Poema de Suênia Livene

Das maravilhas da Kuruma’tá, a mais linda é a que nos chega pelas redes e pelo e-mail. Gente do Brasil todo que manda seus textos, seus poemas… que beleza. Dessa vez, veio esse poema da Suênia Livene, que compartilhamos com alegria com vocês.

Um brinde ao encontro
das retinas entrelaçadas,
pelo visor de um portal
com gamas de cores
ou em preto e branco
e um regente apaixonante.

O intangível ecoa
as dimensões aprazíveis
pela sutil sensibilidade
de capturar momentos…

Essa tátil transição
registra presenças,
acalanta ausências,
enaltece experiências,
revela injúrias,
discursa estéticas,
artes, culturas,
filosofias, políticas,
reflexões afetivas e
instintivas…

Há nos flashs fitados:


toques estimulantes,
focos transpirados,
fragmentos capturados,
contrastes abraçados,
e estilos significados…

“Escritas com luz” transportam
sujeitos e emoções para
memórias atemporais:
sejam em texturas negativas,
multicolores significantes
e mais…


Suênia Livene, aprendiz de poesias, admira as artes e as culturas. Para Livene a poesia é uma ponte de encontros com a leveza e a contemplação da subjetividade

“Pequeno manual para ensaiar o grito”: Nos 10 anos da Lei do Feminicídio, a poeta Aline Cardoso lança livro-manifesto

Aline Cardoso escreve com maestria e precisão. Seu grito poético, doloroso e dolorido, vai ao cerno, narrativamente, da violência sistêmica, estrutural, contra a mulher, desde a infância, atravessando corpos e sonhos, trajetórias e ideias. Que ela tenha transformado isso em poesia, brutal, por vezes chocante, que alerta e desperta, não me surpreende.

Logo abaixo você terão a oportunidade de ler um release muito completo e bem feito sobre o livro Pequeno manual para ensaiar o grito, da poeta Aline Cardoso, que de pequeno, aliás, não em nada. É enorme. Gigante e corajoso. Mas antes de você chegar ao release, quero dizer que… nem li tudo ainda, enquanto escrevo e publico essas linhas. Mas nem preciso ler tudo para já avaliar em potência os poemas que o constituem. Não se avexe não nessas páginas; cada poema é uma leitura; cada poema é uma necessidade de parar, ler, reler, respirar fundo, repetir em voz alta cada verso. A cada homem, pois, recomendo que leia assim, em voz alta, para materializar as palavras, as dimensões da dor que carregam e afirmam.

Aline Cardoso escreve com maestria e precisão. Seu grito poético, doloroso e dolorido, vai ao cerno, narrativamente, da violência sistêmica, estrutural, contra a mulher, desde a infância, atravessando corpos e sonhos, trajetórias e ideias. Que ela tenha transformado isso em poesia, brutal, por vezes chocante, que alerta e desperta, não me surpreende. Que ela seja a poeta pra dar esse grito e fazer que viremos, todos, o rosto em sua direção, de olhos abertos, também não me surpreender. Aline é a grande poeta paraibana hoje. Com a Triluna, sua editora, ela abriu portas, espaços, janelas; escancarou vozes de mulheres, cis e trans, homens negros, indígenas e pessoas LGTQIAP+, sempre navegando no território da independência. Sempre afirmando a luta, a necessidade de olhar de frente o outro e dizer oque veio a dizer. Só orgulho e alegria com o trabalho de Aline.

Pequeno manual para ensaiar o grito, é o grito dado. Não escutá-lo é cumplicidade com o silêncio. Escutá-lo é multiplicá-lo. É contribuir para que se espalhe e que mais pessoas possam ouvi-lo e reproduzi-lo. Que mais gente possa ensaiar esse grito e possa gritar. Você pode gritar.

por Toinho Castro

BAIXE AQUI O PDF DO LIVRO

A escritora paraibana Aline Cardoso lança Pequeno manual para ensaiar o grito (Editora Triluna, 2025), uma obra de poesia contundente que atravessa experiências coletivas de violência de gênero, racismo estrutural, trauma, maternidade e resistência feminina no Brasil contemporâneo. O livro chega ao público em um momento simbólico: os 10 anos da Lei do Feminicídio, quando os dados revelam que a violência letal contra mulheres, especialmente mulheres negras, segue em crescimento alarmante no país.

Pequeno manual para ensaiar o grito se afirma como um gesto ético e político ao ser disponibilizado gratuitamente ao público, ampliando o acesso à literatura e à informação em um país marcado por desigualdades profundas. Ao optar pela circulação livre da obra, Aline Cardoso reafirma o compromisso com a democratização do livro, entendendo a literatura como direito e ferramenta de enfrentamento à violência, e não como privilégio restrito. O acesso gratuito reforça a dimensão coletiva do projeto, permitindo que o texto alcance mulheres que, muitas vezes, estão fora da lógica do mercado editorial, mas dentro do centro das violências narradas pela obra.

Com uma escrita direta, por vezes brutal, e profundamente literária, a obra constrói uma espécie de cartografia da violência, da infância à vida adulta, sem recorrer à amenização do trauma, ao contrário, através de uma escrita corajosa e potente a autora assume o risco ético, político e estético de nomear o indizível. Em versos que misturam memória, denúncia e elaboração poética, a autora escreve a partir do trauma, do corpo e da experiência, segundo a autora: “Ser mulher negra no Brasil é como viver em constante estado de fratura exposta”.

Os poemas abordam temas sensíveis relacionados à violência de gênero, entre eles: abuso, violência doméstica e conjugal, controle reprodutivo, violência obstétrica, assédio no trabalho, racismo institucional e feminicídio. A infância surge como território de ruptura precoce, marcada por silêncios impostos e violências normalizadas: “Voltei pra sala sentindo as mãos sujas… mas a sensação de vespeiro não saía com água e sabão”. Ao longo do livro, a violência não aparece como episódio isolado, mas como continuidade histórica que atravessa relações afetivas, instituições e o Estado.

Mais do que um livro de poemas, Pequeno manual para ensaiar o grito é, nas palavras da autora: “Um gesto poético – político – revolucionário”. Aline escreve como quem sobrevive, confronta estatísticas de morte e reivindica o direito à palavra como forma de ruptura com ciclos históricos de silenciamento. O título anuncia a proposta da obra: não oferecer respostas fáceis, mas ensinar, ainda que dolorosamente, a gritar. “Escrevo enquanto driblo estatísticas de morte e destruição. Ainda que o meu tempo não colabore para isso, estou viva”, afirma a poeta.

A maternidade negra atravessa o livro como força de recomposição e projeto de futuro. Ao falar da maternidade, Aline desloca a narrativa da dor para a possibilidade de interrupção do ciclo da violência: “Refaço o caminho por onde minha filha há de passar, estou removendo pedregulhos, armadilhas e crenças feitas para nos neutralizar”. O gesto poético se transforma em estratégia de sobrevivência e reinvenção.

A edição traz logo na abertura um alerta de gatilho, além de informações sobre a rede de proteção às mulheres e contextualização histórica sobre a Lei do Feminicídio, reforçando o compromisso da obra com a responsabilidade social e a formação de consciência crítica. O livro também evidencia a dimensão racial da violência no Brasil, lembrando que cerca de 68% das vítimas de feminicídio são mulheres negras, dado que atravessa muitos dos poemas.

Aline Cardoso é escritora, professora, curadora, produtora e gestora cultural. Fundadora da Editora Triluna, atua há mais de uma década na formação cultural e literária, com foco em vozes negras, nordestinas e dissidentes. É autora de seis livros, Mestra em Linguística (UFPB) e Coordenadora Geral da Pós-Graduação em Gestão e Produção Cultural (Secult/UEPB).

Pequeno manual para ensaiar o grito é um livro necessário, incômodo e urgente. Uma obra que transforma a dor em linguagem e faz da literatura caminho para o enfrentamento de violências, espaço discursivo de batalha e reelaboração do futuro, gestos urgentes, pois, como afirma a autora, “não há como escapar do peso que uma sociedade inteira deposita sobre nós”. Resta, então, gritar.

BAIXE AQUI O PDF DO LIVRO

Quem é o Agente Secreto?

No filme de Kleber, Marcelo, interpretado por Wagner Moura, um cientista, funcionário público da universidade, incomoda um figurão civil do regime militar e, a mando deste, é perseguido e tem sua vida ameaçada. Em torno desse núcleo mínimo, dança a cidade. O tempo, como a cidade, é cenário e personagem.

Texto de Toinho Castro

O FALSO PROBLEMA — Lembro quando cheguei no Rio pela primeira, em 1993, e parecia que eu tinha lido um manual sobre a cidade. Parecia que que desde sempre havia percorrido aquelas ruas, observado aquelas montanhas e rochas diante do mar. Eu tinha, de longe, vivido o Rio de Janeiro.

Quantos filmes precisarão ser rodados no Recife, ou em Maceió ou Caicó, para que um brasileiro se sinta à vontade nessas ruas, vidas e histórias?


Eu entendi O Agente Secreto! Mas sei que já vão me acusar de ter crescido no Recife. Alguns hão de me acusar, inclusive, de ser amigo do diretor, Kleber Mendonça Filho, e deter, por isso, informações altamente privilegiadas, que me permitem compreender essa complexa trama, dita regionalista. Pois que o resto do Brasil, quando não Rio de Janeiro ou São Paulo, é regional; incompreensível a quem flana em Ipanema ou nos Jardins. Pois é, eu entendi O Agente Secreto e não vou revelar a vocês o grande mistério do filme. Vocês, que entenderam Bergman e Antonioni, talvez por conta dos ancestrais europeus, embora não tenham crescido nas ruas de Upsalla ou Ferrara.

No filme de Kleber, Marcelo, interpretado por Wagner Moura, um cientista, funcionário público da universidade, incomoda um figurão civil do regime militar e, a mando deste, é perseguido e tem sua vida ameaçada. Em torno desse núcleo mínimo, dança a cidade. O tempo, como a cidade, é cenário e personagem. Passado, presente e futuro dialogam, trocam informações, mensagens. É o tempo quem nos dirá, que responderá as perguntas que se acumulam ao longo do filme.

Passado em 1977, no Recife, como todos já sabem, o filme expõe e a relação perniciosa da sociedade civil com os militares. Muito falamos de soldados, tanques e torturas, e falemos mais e mais, mas o filme enfia, preciso, o dedo na ferida do empresariado apoiador dos soldados, dos tanques e torturas, para disso se beneficiar, tirar vantagem, ganhar dinheiro e perseguir desafetos. E se há os que perseguem. Há os que acolhem. E, em tempos difíceis, esses vivem na margem, na surdina. Nas ruas em que se trama a morte, trama-se também a vida. E a vida de Marcelo, pendurada pelo fio da urgência, oscila entre a fuga e o afeto, o medo e a determinação. A afirmação da justiça e o desalento da solidão. Assistindo ao filme, lembrei dos versos finais do poema Primeiros encontros, de Arseni Tarkovski, poeta e pai do cineasta russo Andrei Tarkovski.

Enquanto isso o destino seguia nossos passos
como um louco de navalha na mão.

Enquanto o destino não o alcança, Marcelo encontra Dona Sebastiana, vivida pela maravilhosa Tânia Maria, e sua luminosidade, em meio a uma cidade de ruas escuras onde a bandidagem trama encontrá-lo; as ruas por onde corpos circulam, torturados e clandestinos, nos porta-malas da ditadura, para nunca mais serem encontrados. Marcelo encontra Dona Sebastiana e seu protetorado, numa Recife que agora é de frutas e árvores e terreiro.

Pernambuco, tão masculino,
que agrediu tudo, de menino,

é capaz das frutas mais fêmeas
e da femeeza mais sedenta.

(As frutas pernambucanas, de João Cabral de Melo Neto)

Dona Sebastiana é um marco, é vida. Humor, deboche e amor. Em Dona Sebastiana tem sonho e realidade. Não separados, como água e óleo, não como opositores, mas entrelaçados. Pois um depende do outro. Um constrói e sustenta o outro. A casa de Dona Sebastiana é um centro de acolhimento e dispersão, de proteção, encontros e despedidas. Um ponto convergente de gente que nunca mais vai se ver.

Quero falar do filme sem contar o filme. Quero tangenciar as narrativas, muitas, que se perseguem no Agente Secreto. Você, que não assistiu ao filme, quero que você fique curioso. Quero que você saiba que não precisa ter nascido no Recife e crescido nas suas ruas então escuras, para compreender a injustiça, o amor, a solidariedade de um povo e sua luta em tempos de escuridão. Tem de tudo no filme. Tem beijo e tem bala, tem sangue como nos bons faroestes, tem o desenredo da burocracia publica, aa informação e a desinformação, tem paixão e susto, tem a Perna Cabeluda assombrando e divertindo os incautos, tem homens perdidos e mulheres rainhas de seus destinos, tem bandido e anjo da guarda. Tem o Brasil inteiro, seus conflitos históricos, sua violência e redenção, dentro de uma única cidade. Recife. São muitas camadas, numa espécie de arqueologia, revelando peças que vão se juntando na nossa cabeça, na nossa memória, dando formar a algo impronunciável: o terror do estado contra o cidadão. Ontem, como hoje.

E se você se dispuser a ser brasileiro no século 21, a ter coração e indignação, vai entender facilmente O Agente Secreto. Vai se acostumar rapidamente com as ruas que não são do Rio de Janeiro e com o sotaque, que é mais um sotaque nesse país de tantos sotaques, tantas falas e gírias que se encontram e se misturam e se comunicam. Não é turismo. É encontro.

Então assista ao Agente Secreto e encontre comigo. Com meu pai, que, segundo minha irmã, com seu trabalho em transportes rodoviários, ajudava jovens a escaparem do regime. Com meu tio que foi preso, com gente que sumiu, com famílias despedaçadas pelo sequestro e pela tortura; com Dona Sebastiana e a gente das ruas, como você. Assista e descubra quem é o Agente Secreto, a grande pergunta que não quer calar. Eu tenho uma teoria… o agente secreto é o próprio filme! Espionando as entranhas dos anos 1970, infiltrado na resistência ao regime, codificando e carregando mensagens para futuro, para contar uma história que precisa ser contada, entendida e passada adiante. Para que NUNCA MAIS aconteça de novo.

‘Sem título’ aprisionada

Texto de Toinho Castro

A primeira vez que a vi foi na Uruguaiana. Épico! Parecia-me um animal antigo, poderoso, congelado em pleno passo de sua caminhada, eras atrás, muito antes de haver uma cidade ali, muito antes do ser humano se espalhar pelas matas. Talvez um visitante gigante de outras esferas, explorando um mundo, para ele, alienígena. Algum evento inexplicável o capturou ali, naquela posição, naquele meio de caminho. E a cidade cresceu ao seu redor, os homens formigaram ao seu redor e, eventualmente, tiveram ideias e fizeram planos e não o incluíram nesses planos. Falo da escultura Sem Título (1997), de Ivens Machado, instalada na Uruguaiana, já perto do Largo da Carioca, e que de lá foi removida, em 2014, por conta da realização de obras no local de sua instalação. Passado o período das obras, a escultura não retornou ao seu lugar original. Seu lugar, talvez, de origem.

Vista de Sem título, a partir do Lago da Carioca. Fonte: Google Earth, recuperado de https://www.google.com.br/maps, novembro de 2013.

Sempre que passo na Uruguaiana, fazendo o caminho que tantos fazem, que tantos devem ter feito, imagino a sombra de Sem Título sobre a calçada; posso imaginar sua presença holográfica, como numa ficção científica, sendo trespassada pelos pedestres, pra lá e pra cá, ignorando sua presença mágica; sua ausência triste. Sinto falta de vê-la, de desafiá-la e ser desafiado por ela. De tentar entender sua linguagem antiga, e me comunicar com ela e sua linhagem. E com isso compreender sua história. A história que ela conta.

Anos atrás a descobri, por acaso. Uma cena, ou um cenário, que me encheu de tristeza. Pude, ao passar num táxi pela Presidente Vargas, vislumbrar seu corpo enorme, abandonado no pátio da 1ª Gerência de “Conservação” (Assim mesmo, com aspas), na Praça Noronha Santos. Mais que abandonada, ela encontra-se aprisionada numa estrutura de metal, que pretende estabilizá-la. Aparenta, porém, a necessidade de contê-la em sua força. Impedi-la de, novamente, caminhar com seus “passos largos”, enviesados, pela cidade. Simboliza, de fato, um aprisionamento da sensibilidade artística, essencialmente humana.

Desde que ali a descobri, anos atrás, passo por ela com frequência, na celeridade dos meios de transporte. E em todo esse tempo pensava em fotografá-la em seu cárcere. Algumas vezes puxei a câmera ou o celular no ônibus ou no táxi, mas nunca logrei uma boa imagem, que expressasse como eu a enxergava. Na semana passada, numa tarde nublada, da pressa e um Uber, eu a capturei num frame, num lapso de segundo, e a congelei no tempo outra vez. No tempo de uma foto, em que contrasta o borrado da passagem com a nitidez do seu estado de animação suspensa.

Você pode ver a foto abaixo.

Sem título aprisionada – Foto de Toinho Castro (novembro de 2025)

Aprisionada, enjaulada, Sem Título deteriora aos olhos da cidade. A sombra da sua ausência assombra a Uruguaiana. Numa foto que ilustra o artigo acadêmico Escultura Sem título de Ivens Machado na Rua Uruguaiana: instalação, permanência, deslocamento e abandono, de Juliana Maria Jabor Santos Faria, cuja leitura recomendo fortemente, para contextualização e entendimento dos destinos da da obra, podemos ver como ela foi arrancada do chão, com as pontas dos seus vergalhões expostas nos seus pés. Na sua base. Um ato violento como uma amputação, como um desmatamento. Daí para o apagamento, é questão somente de deixá-la onde está, na inércia da coisa pública; nos pátios e galpões onde tudo finda. Vide tantas obras cujo destino, hoje, é incerto, duvidoso. Vide a Estrela do mar, de Tomie Ohtake, que acabou vendida como sucata.

Que a arte caminhe livremente pela cidade, sem a ameaça dos vândalos e ou do estado, isso é o que queremos. Isso é o que imagino para o Rio de Janeiro quando passo na Presidente Vargas e observo, sempre de passagem, Sem Título lutando para se libertar. Engana-se quem a pensa inerte. As tensões que a constituíram fluem através do seu corpo, e não duvido que rompa a prisão. Não duvido que atravesse a avenida e caminhe pela cidade, arrasando postes e arrastando fiações, com os guardas de trânsito correndo atrás dela, para se fixar no lugar de onde não deveria ter saído. Onde sua sombra a espera. Repousando livre, em arco torcido, portal que voltaremos a atravessar cotidianamente. A cidade voltará a dançar sua ciranda de doido ao seu redor.

Quem sabe, um dia, as criatura do espaço que ali a depositaram, para investigar, para explorar um novo mundo, retornem para recuperá-la; e assim sua missão estará cumprida.

A missão da arte, se há alguma, passa por estimular essa imaginação, torná-las possíveis. Nos deslocar do centro magnético do eu para a periferia das ideias. Sempre que vi, ou que vejo, Sem Título, sou arremessado na sua dimensão narrativa.

Quero revê-la livres, ela e eu.