BUHR, assim, só BUHR, o que não é pouco, botou seu disco na rua. Feixe fogo chega vibrante, com pulso quente, e abre intenso, afirmativo e quase ritualístico, como quem procura raízes.
BUHR vem de Maracatus, não no sentido de ter saído deles, mas no sentido de permanência neles. Então seu espírito é do chão, da terra batida ao calçamento de pedra das ladeiras da nossa Olinda em comum.; caminhos das andanças pelas ruas e lugares das cidades irmãs, Olinda e Recife. Ali, já pura música. E o futuro escreveu bem demais sua carreira. Feixe de fogo é um álbum rico, de muita maturidade, um passo largo, que leva BUHR tão adiante. BUHR que não tem medo de ir. E que chama a gente lá pra frente!
O feixe de fogo queima, ilumina, cega, assusta e encanta. Chama!
São onze música autorais; são participações especiais de gente linda: Moon Kenzo, de Sobral, Josyara, baiana de Juazeiro, Negadeza, nascida no Recife, Russo Passapusso, de Feira de Santana; ainda a presença igualmente preciosa de Ubiratan Marques (Orquestra Afrossinfônica), Dadi Carvalho, Novo Baiano eterno, Edgard Scandurra, Régis Damasceno, Arto Lindsay, Fernando Catatau e Rami Freitas, arrodeando e entrelaçando a voz de BUHR, como quem desenha uma urdidura para o que BUHR tece; e tece e lê a cidade vazia, destruída pelo dinheiro, os quartos, as altas horas; encontros e cigarros no cinzeiro, lagrimas secas.
Pode se dizer que é um disco com tensão, com enfrentamentos; mas deve-se dizer de certa doçura, de algo gracioso que se insinua aqui e ali, como uma pontuação, como uma vontade de dançar e de recostar a cabeça em algum lugar, pra sossegar enquanto o mundo pega fogo. Desejos e amores esvoaçam. Seilasse o amor…
Amei Seilasse, amei Oxê, Feixe de fogo eu amei. Amei muito esse disco todo, que não largo e tá sendo trilha sonora da minha viagem pelo interior do Maranhão. Me recordando do país ao meu redor, das pessoas, das lutas mínimos e imensa, interiores e planetárias, das amizades que dançam ao nosso redor. BUHR nasceu na Bahia, cresceu e brilhou no Recife. Feixe de luz é seu quinto disco, o primeiro em sete anos, foi o que li. BUHR é aquela voz que tá sempre soprando aqui por perto, desde bastante tempo. Tenho aquele disco lindo, em vinil, Eu menti pra você, presente do meu amigo Jorge Lz. Hoje não paro de escutá-la, nesse dia de chuva em Itapecuru Mirim.
Feixe de fogo é som de novos tempos. Corra pra escutar! Acenda seu lume.
D’água | Chegou o disco da Julia Vargas
Por Toinho Castro
Gente, acordei com um disco novo da Julia Vargas. Não um single (Nada contra!), mas um disco inteiro. E um disco lindo. Absolutamente lindo. Sou fã da Julia desde quando ouvi na sua voz Canoa, canoa, do mestre Milton Nascimento. E ela pegou aquela música e fez dela o que eu não esperava. Porque a gente sempre pensa que o que Milton fez, ninguém fará. E ela não fez, porque ela fez outra coisa! Outra lindeza, com uma voz e uma profundeza de rio que maravilharam. Canoa, canoa, com Julia Vargas, é uma música que eu revisito mais que a original.
D’água, esse LP que já merece o vinil, girando nos lares brasileiros, traz essa Julia intérprete foda, mas traz também a Julia compositora, assinando três canções. Duas (Vem e Atrás da cortina da pantera, só dela. A terceira, Pavio, como a também maravilhosa Duda Brack). Mas é a intérprete que abre o disco com uma versão inacreditável de Comportamento Geral (1972), de Gonzaguinha, que segue atualíssima e necessária. Com seu baixo de filme de suspense, a musica evolui num clima denso, . Ironia fina e poesia, a serviço da condição humana; a serviço da leitura da vida dura de nós todos, nesse moedor de carne neoliberal. Você merece! viva Gonzaguinha!
Não sou crítico e nem quero me meter a isso. Quero mais é espalhar a palavra. D’água é um desses discos que cala a boca dos que não largam o discurso Porque a música brasileira não é mais o que era e afins. Em tempo, a música brasileira não é mais mesmo o que era; é outra. Não é melhor ou pior. É nova, vibrante, inteligente, desafiadora. Escuto o disco da Julia com alegria, música após música. Meio blues, meio rock, algo de xote; tem Luhli & Lucina (Flor Lilás) tem Zélia Duncan (Maluca) e Roberta Sá (Em Sinceramente… uma piscadela nordestina e cadente), grandes mulheres alinhadas sob as águas, ternas, tumultuosas, reviradas e derramadas do álbum.
D’água é disco de beleza sonora e poética; recomendo não pular faixas e apreciar cada canção com a devida atenção. Não vai ser difícil, porque, de tão bem encadeados, cada tema vai ocupando espaço na sua curiosidade, na sua afetividade e no seu corpo. D’água mexe com o corpo e com o juízo, numa dança que te envolve e carrega.
Destaques para as parcerias, para a banda impecável [Gabriel Barbosa na bateria, Gui Marques nos sintetizadores e coprodução musical, João Bittencourt, teclados e acordeom e Marcos Luz no baixo], que dá a liga perfeita para a voz de Julia. Destaque para a capa luminosa e para o repertório sagaz, preciso, afiado. Tudo é destaque, Toinho?! Sim, destaque pra tudo. Que sensação boa deve ser gravar tudo isso e, depois, sentar pra escutar, sabendo que fez um bom trabalho, que mandou bem e alinhou uma seleção musical de dar gosto e que vai marcar a alma da gente espalhada por aí.
Parabéns, Julia. Sigo seu fã!
Gosto de festa!
Por Toinho Castro
Fachada do Cinema São Luiz e panorama do Rio Capibaribe, Recife – Foto de Toinho Castro
O Globo de hoje estampa na manchete: Derrota de ‘O agente secreto’ no Oscar deixa gosto amargo. Como de hábito, começo o dia discordando do Globo. Não tem derrota e nem tem gosto amargo. Tem sabor de festa, isso sim. Dali, daquele teatro cintilante, ninguém sai perdedor. É tudo vitória. Que elegância do Paul Thomas Anderson, que levou o boneco dourado pra casa, melhor filme, ao citar a cerimônia de 1976, em que “competiam” Um Estranho no Ninho, Tubarão, Nashville, Um Dia de Cão e Barry Lyndon. O que ele quis falar foi sobre as escolhas impossíveis e também da qualidade inerente a tudo que está ali representado, naqueles filmes. Sejam quais forem. De onde forem.
Com sua participação no Oscar, O agente secreto amealhou ainda mais prestígio internacional, jogou, como Ainda estou aqui, luzes e interesses na filmografia brasileira. Levou para o mundo rostos, vozes e modos de ser até então invisíveis numa tela de cinema. Abriu portas e janelas, pelas quais muitos poderão passar, e reafirmou que realizar com qualidade técnica impecável há muito deixou de ser um privilégio do eixo Rio-São Paulo. Foi até lá, no quintal alheio, e brilhou. Foi lá na festa deles ser feliz.
Lembro-me que na Universidade Pública, onde a gente se encontrou, eu, Kleber e um grupo querido de amizades, nosso pensamento era Vamos fazer um filme! E foi o que fizemos. Começou ali. Gravamos em VHS, editamos em videocassetes, recorremos aos equipamentos da Universidade, das produtoras amigas que abriam portas. Tivemos e realizamos um monte de ideias, boas e ruins. Rimos, nos divertimos, debatemos calorosamente e fizemos filmes. E isso não aconteceu só com a gente… aconteceu no Acre, no Pará, na Bahia, em tantos e diversos lugares. Está acontecendo agora, em algum recanto desse país. Sem recurso, inventando e ousando, o cinema de amanhã está nascendo todo dia no Brasil. Cada vez mais onde menos se espera, que é do onde sai o que mais surpreende. No futuro, ninguém se surpreenderá mais ou estranhará os filmes de qualquer lugar.
Recentemente publiquei uma crônica, no Correio Braziliense, em que disse que não sabíamos como o Oscar terminaria, mas sabíamos como começaria; com festa! E terminou com festa também. Tivemos um tapete vermelho na frente de um cinema de rua, com telão junto de um rio no centro da cidade e uma multidão vibrando. Quando teve isso? O povo brasileiro produziu esse “filme”. Cinema é, definitivamente, uma arte coletiva. E um filme somente o sonho e realização de um diretor e sua equipe. Quem faz um filme é o país. Por isso é tão triste quando um país se volta contra seus cineastas. O agente secreto, seu sucesso, sua trajetória premiada, o reconhecimento desses artistas, é a realização de um Brasil que quer fazer cinema, que quer ganhar prêmio e que dá aula de paixão, bom humor e inventividade.
E tudo isso não tem nada a ver com gostar ou não de O Agente secreto; tem a ver com gostar de cinema e ficar feliz com o país investindo nessa arte, com ares de indústria, gerando emprego, receita, representatividade e encantamento.
Detalhe do slogan clássico da rede Severiano Ribeiro, no Cinema São Luiz – Foto de Toinho Castro
Em meio ao pequeno caos de um inbox mal gerenciado, esbarro com os poemas que o querido Joaquim Cesário de Mello enviou um ano atrás. Escrevi-lhe imediatamente, para não perder ainda mais tempo… e eis que sua gentileza permitiu que publicasse aqui os poemas, mesmo com tamanho atraso. Obrigado, poeta.
Quando me lembrei de mim já havia nascido e penteado os cabelos frente ao espelho dos olhos da minha mãe
Não me lembro do meu primeiro aniversário porém se ainda hoje faço aniversários é porque um dia já fiz o primeiro aniversário
Não me lembro da vez que experimentei melão mas como não gosto de melão é porque não devo ali ter gostado
Não me lembro de quando provei o sal do mar entretanto minha esposa vive me dizendo que meus beijos são muito salgados
Das milhares de horas em que fui forjado há tanta coisa que não me recordo e por isso eu devo ser uma amnésia que fala mas que não se lembra do que antes foi falado
Minha certidão de nascimento antecede a minha essência
OLD MAN
Te amo com o amor de ontem um amor antiquado que nem nos retratos que guardam o rosto dos meus antepassados
Te amo um amor longevo que vem dos tempos distantes quando os homens usavam chapéus as mulheres se abanavam com leques as crianças trajavam calças curtas e as braguilhas eram com botões ao invés de serem com fecho-éclair
Te amo um amor remoto e recuado corado de preto, branco e cinzento um amor com cheiro de papel novo e tinta fresca que nem as fotonovelas que se lia antigamente
Te amo um amor vintage que embora velho e arcaico tem o atrativo de um charme nostálgico um amor um tanto ferrugento que hoje já não se usa mais no decorrer da liquidez de que falava Bauman mas o que é que eu posso fazer se só sei amar aqui no presente como se vivesse amando lá de onde vim que foi em meados do século passado
I am old man e meu coração é totalmente retrô
MEDO NOSSO DE CADA DIA
Tem medos que acontecem do lado de fora da realidade
Medo de barata de lagartixa de quarto escuro de trovão de agulha de seringa de assombração de altura de elevador de multidão e até do gato preto do azar
Medos assim são como ladrões que nos roubam desejos e sonhos medos que nos sonegam o que da vida podemos retirar ou o que na vida podemos colocar
Quem tem medo de cair não anda quem tem medo de subir continua sentado quem tem medo de se mexer fica parado quem tem medo de nadar um dia morre afogado
O medo como cautela é necessário mas o medo pelo medo é estagnante já a fobia é por natureza é esquivante e o pavor, então, é aterrorizante
Stendhal já dizia que o medo não está no perigo mas no interior de cada um de nós
Por isso quando tenho medo de viver de morrer de amar de sofrer de ser abandonado corro e vou logo escrever um poema para protegido dormir com ele abraçado
MOCIDADE
Minha mocidade vem de longe lá do passado do século passado
Minha mocidade é uma camisa desabotoada em meio a um guarda-roupa arrumado que existe vivendo dizendo não
Minha mocidade é que nem bicho indomável feroz, selvagem e ferino e ai de quem lhe encostar a mão
Minha mocidade é ardente e audaciosa que tem algo de estonteada loucura que a uso em quase toda ocasião
Há quem não entenda minha mocidade quanto a isso não posso fazer nada afinal levei muito tempo para nela chegar e se entranhou nas costelas do interior de mim
Vou levar minha mocidade até à velhice para bagunçar o que o destino me reservou
BUG
Uma mariposa entrou na minha cabeça
logo agora que estava escrevendo um poema
e começou a comer as beiradas dos neurônios
embaralhando os sons que vêm do fundo
murmurante mais íntimo do meu interior
Portanto, senhoras e senhores
ppppp eeeee çççççç ooooo
des
cul
cul
pas
p a s
p orém…
…não con… con…sigo
ter
mi
nar
eeeeeeesssssstttttteeeeee
o
p
m
a e
piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
O AGITADO MAR DOS PENSAMENTOS
Por que penso o que penso eu que penso que penso tantas coisas? Mas quando penso sobre o que penso penso que penso sempre o que sempre penso
Qual foi a última vez que pensei um pensamento para chamar de meu um pensamento que fosse um pensamento novo um pensamento que jamais pensei nele antes?
Tenho pensamentos que nem aos meus pensamentos revelo Tenho pensamentos caducos outros inusuais aos pensamentos dos outros pensamentos ferrugentos e desusados pensamentos masculinos, femininos e ambidestros inclusive tenho pensamentos importados introduzidos desde ante do final do século passado
Tenho pensamentos para quase todo gosto alguns picantes, salgados, metálicos outros que de tão amargos têm sabor de vinagre mas também existem pensamentos adocicados que sorriem em minha mente quando sonho acordado
Amiúde desconfio de alguns pensamentos quando me vejo pensando como foi que eles chegaram ao interior barulhento de mim Todavia descubro pensamentos insubordinados indomáveis que nem cavalos selvagens que bagunçam o armário do fundo esquerdo que é lá onde guardo o pouco das minhas certezas
Pensamentos são células neurais conversando em um incessante bate-papo que chego até mesmo a ficar muitas vezes cansado
Entretanto quando meus pensamentos viram palavras vencendo a barreira do ordinário e do trivial corro em direção à ponta delicada dos dedos e aguardo ver se eles se tonarem poemas
Joaquim Cesário de Mello é psicólogo, psicoterapeuta e professor universitário, residente e domiciliado em Recife (PE). Em meados dos anos 1980 participou do Movimento de Escritores Independentes e foi colunista da Vida Crônica (1998 – 2002) do encarte JC Cultural do Jornal do Commercio (PE). Escritor e poeta, participou de várias antologias literárias, entre elas Nouveaux Brésils Fin de Sciècle (2000), Poesia Viva do Recife (CEPE, 1996) e Cronistas de Pernambuco (Carpe Diem, 2010), Poesia na Escola (Palavra e Arte, SP, 2021). Autor dos livros Dialética Terapeuta (Litoral/PE, 2003), A Alma Humana (Labrador/SP, 2018), A Psicologia nos Ditados Populares (Labrador/SP, 2020), A Vida Como Um Espanto (Labrador/SP. 2021) e No Cemitério das Nuvens (Folheando/2022).
Bethânia e o espelho do que fui
Texto de Tiago Gonçalves
Sábado, Maria Bethânia. O tempo parece ter parado, ou talvez tenha se dobrado sobre si mesmo, porque ainda sinto os instantes reverberando dentro em mim, silenciosos e insistentes. Algumas experiências são grandes demais para os ontens. Certos momentos continuam acontecendo muito depois de terem acabado. Eu estava ali, sentado, e não era espectador. Não podia ser.
Tudo nela me dizia respeito. Tudo na voz, no corpo inteiro, nos olhos que se perdiam em transe na canção, e voltavam satisfeitos; tudo nos pequenos gestos que, delicados, carregavam o mundo. Tudo me atravessava, e eu nem respirar conseguia direito. Sentia cada pausa como se fosse minha própria falta. Cada nota parecia falar dos caminhos que escolhi, daqueles que não pude trilhar, da música que deixei de tocar, do verso que deixei de escrever, da voz que guardei na gaveta. E tudo ao mesmo tempo me lembrava que o sonho não se apaga – e não envelhece. Ele apenas se transforma, ressignificando-se. Havia em mim um trovador calado, que não sobe ao palco, mas que ainda existe em alguma taberna escura. Que ainda sente. Que ainda se deixa atravessar.
Durante anos sonhei ser artista. Não qualquer um, e sim alguém capaz de tocar o invisível, de transformar o pressentido em movimento, em canto, em palavra que fosse música, poema ou luz. Talvez por isso eu a imitasse tanto. Talvez por isso cada movimento dela me devolvesse um espelho em que me via, pequeno, desejando compreender a calma que incendiava sem alarde.
Enquanto ela cantava, enquanto o samba tímido ria nos seus pés descalços, enquanto os ombros se moviam, enquanto os dedos ajeitavam os cabelos já brancos, enquanto a mão tremia no esforço de sustentar o microfone, enquanto a respiração se fazia entre cada verso, eu absorvia tudo, como quem tenta guardar o orvalho antes que o sol o leve de volta para si. Não era só Bethânia no palco. Era tudo o que eu fui, que eu poderia ter sido, que ainda posso ser, se houver coragem de sentir de novo.
Cada silêncio, cada intenção, cada nota suspensa era um lembrete de que o desejo não se perde. Ele se transfigura. E que arte não é só criar, ou escrever, ou cantar. É sentir a vida inteira, mesmo quando se escolhe outro caminho; mesmo peregrinando trilhas mais concretas, mais ordenadas, mais burocráticas e acadêmicas, a vida está, urgente. Mesmo sem os holofotes e os aplausos, ainda assim o coração se lembra. A memória. O corpo. A música. Tudo agarrado em algo que não cabe.
Saí da sala sem sair do instante. Ele me acompanhava e atravessava. Fiquei parado, em silêncio, como quem voltou de um rito ancestral e não quer quebrar o encanto. Percebi que ainda sou artista. Não porque subo ao palco, mas porque continuo tentando traduzir o indizível. Porque continuo permitindo que a vida me perfure, transpasse, rasgue e transverta.
Há pessoas que não apenas visitam este mundo. Vivem. E encantam a vida. Que tocam sem que se saiba como. Que entram em nós e deixam a bússola desregulada. Quem as
vê, quem as escuta, quem se deixa tocar, numa mais será o mesmo dos ontens. Nunca mais será o mesmo de antes do instante em que se entregou inteiro, sem defesas, sem distâncias. Talvez seja exatamente isso que chamamos arte: a vida virando outra dentro de nós, dentro dela, dentro do silêncio que continua ressoando muito depois do último acorde.
Lançamento: Trajetória de um mergulho, de Viviane de Freitas
“Trajetória de um mergulho” é uma coletânea de contos sob a ótica de personagens femininas lidando com reflexões e sentimentos provocados por isolamento, doenças, limitações com o corpo, perda da liberdade, questionamento da fé, entre outros acontecimentos comuns à experiência humana.
Memória e conflitos psicológicosna prosa de autoria feminina:escritora lança quarto livro em São Paulo, na Vila Mariana.
A memória como temática é uma constante na literatura brasileira, desde Clarice Lispector, Machado de Assis, até a última década, com nomes tais quais Itamar Vieira Júnior, Marcelo Rubens Paiva, Eliane Alves Cruz e Rafael Gallo. Com novos contornos, Viviane de Freitas, escritora independente, lança seu quarto livro pela Editora Mondru através do exercício criativo de se pensar novas relações em torno das subjetividades femininas.
O lançamento acontecerá no dia 07 de março na Fábrica de cânones, em São Paulo, na rua Professor Miguel Milano, 80 – Vila Mariana, próximo do metrô Ana Rosa, de 16h às 20h.
“Os contos foram escritos entre 2015 e 2019 e o ponto de partida foi a oficina de Escrita Curativa da autora/professora Geruza Zelnys. Geruza Zelnys foi minha orientadora na PUC-SP e trabalha a escrita como forma de reelaboração do trauma. Todos os textos nascem desse lugar, como reelaboração de pequenos e grandes traumas.” — Viviane de Freitas
Com fortes traços poéticos, o lirismo da obra se relaciona com o gênero do conto, envolvendo as tantas histórias de mulheres em torno da introspecção de suas experiências, muitas vezes negativas, para se chegar a uma “catarse”.
Confira um trecho:
“Sua vida palpitava no ritmo do sobrenatural. Subia e descia. E não era alucinação, seguia bem acordada. Feliz, envolvida em presente e presença. Só se, talvez, fosse ela a morta. Ou, seu próprio corpo respirava tão profundamente que o embalava, movia tudo ao redor pela força de sua vida premente. Subia e descia. Ficou olhando, sem pressa. Esqueceu-se da pressa, não precisava mais afligir-se porque descobria que a vida é eterna”.
Novos poemas de Otávio Moraes
A porta da Kuruma’tá está aberta! E por ela chegam poemas, cantos, histórias, mundos. Hoje publicamos três trabalhos inéditos do poeta Otávio Moraes. Que a Kuruma’tá possa ser o primeiro espaço de publicação desses poemas, isso muito nos alegra.
Seja bem-vindo, Otávio. Que sua poesia chegue a todas e todos que passam por aqui, e se multiplique nessas vozes.
Trova, o mais perto possível do verbo lua.
Lira, máquina composta de vento e corda.
Verso, viúva enamorada de marinheiro distante. Ela, Estância. Ele, Instante.
Antigos poetas cantaram a epopeia do desejo, suas sete mil armadilhas: um banquete de corpos convulsivos uivando sem lua.
Eu canto duas ou três novelas: donzelas nuas, caravelas, duas, em flor. Canto o cheiro do mar.
Conto os pares de namorados com seus corpos sólidos de peixe e de ar.
Deito-me, homem feito, na praia. Exausto das lides da poesia e do amor] Durmo um sono, não o sonho dos justos, mas apenas o dos cansados. O corpo furtado ao espírito, apenas ventre, espuma e mar.
Das listas (poema infinito)
Dos bichos vistos no jardim: caramujos marrons, joaninhas rubras, larvas esbranquiçadas, moscas verdes, besouros amarelos.
Dos dias da semana: quinta-feira — pelo que promete, pelo que já atravessou. Domingo, apesar da segunda. Melhor: manhã de domingo. Se possível: domingo azul, solar, preguiçoso. E, por fim, terça-feira — por ter sobrevivido à segunda. Um dia veterano.
Das matérias da escola: primeiro, a redação. Nunca a literatura — museu de nomes e datas. Depois, a biologia: reinos, filos, pterodáctilos. Por fim, a geometria: ângulos lindos, nomes bárbaros — isósceles, hipotenusas, catetos.
Otávio Moraes é poeta, professor e pesquisador brasileiro radicado na França. Doutor em letras, atua como leitor de português na Universidade de Nantes. Publicou os livros de poesia Um tigre, um anzol (Caravana, 2023) e História dos pássaros (Nauta, 2025).
Pitombeira do Elefante
Por Toinho Castro (No Rio de Janeiro, com saudades de Olinda)
É tanta Pitombeira pelo mundo que só me lembro do Elefante! Com a camiseta absolutamente viral da troça/bloco olindense, promovida a estrela pelo sucesso planetário de O agente secreto, parece que nasceu um pé de pitomba no quintal do coração de cada brasileiro. E isso é lindo. Isso é bom. Fez-me recordar, também, da Festa da Pitomba; na verdade, uma celebração a Nossa Senhora dos Prazeres, no município vizinho e guerreiro de Jaboatão dos Guararapes. Virou Festa da Pitomba porque se realiza justamente na época a fruta que, como a camiseta da pitombeira, enche as ruas das cidades da região. Lembro de estar na Imbiribeira, ligação entre o bairro de Afogados e Jaboatão, e ver os ônibus com destino ao vizinho ostentando letreiros anunciando a Festa da Pitomba. Fui quando criança. Cresci e me interessei por outras coisa. Mas o letreiro Festa da Pitomba estampado no vidro do ônibus, trago até hoje comigo.
Mas o tema dessa… o que, crônica? Sim, é o Elefante.
Fundado num apropriado fevereiro de 1952, o Clube Carnavalesco Misto Elefante de Olinda é um gigante no Carnaval de Olinda; há que se falar de há rivalidade amigável, gostosa, com a Pitombeira. Porque no carnaval de Olinda tudo é amizade e encontro e festa. Inclusive, o encontro, nas ruas de Recife ou Olinda, dessas duas forças do carnaval pernambucano é tipo um momento sempre memorável e define a dimensão dessa festa profundamente brasileira, essa festa de irmãos e irmãs.
Então com as camisetas amarelas da Pitombeira, solares, como lâmpadas acesas pela cidade, venho falar do Elefante e seu brilho vermelho e branco, e seu hino, que é uma das coisas mais bonitas já feitas. De autoria de Clídio Nigro e Clóvis Vieira, o hino do Elefante é uma joia incrustrada nesse anel de ouro que é Olinda. Praticamente um hino dssa cidade antiga, de 490 anos; mãe e irmã do Recife. Com seus versos “Olinda, quero cantar a ti essa canção”, ela faz a multidão espremida, comprimida nas ruas da cidade alta, explodir como uma super nova de alegria e devoção, às ladeiras, ao casario e ao povo. O hino do Elefante de Olinda é, em si, uma instituição.
Como quase todas as agremiações do Carnaval de Pernambuco, o Elefante nasceu de uma brincadeira de amigos. No dia 12 de fevereiro de 1952 Alrivelto Lopes, Caio Gomes, Élcio Siqueira, Walter Damasceno, Claudio Nigro, Expedito e Marcone Felizola saíram da Rua do Bonfim em direção aos Quatro Cantos. Além de alegria carregavam um biscuit (uma espécie de massa de modelar) de um elefante.
A brincadeira pegou tão forte que no ano seguinte a recém-nascida troça já desfilava com um estandarte. Os uniformes eram emprestados pelo Bonfim Atlético Clube, que não mais existia, mas terminou por batizar com suas cores o futuro gigante. Em 1968 a troça virou clube e eternizou-se de vez no Carnaval de Olinda com seu hino, uma das músicas mais ouvidas e cantadas a plenos pulmões nos carnavais da vida.
Fonte: Prefeitura de Olinda
Imagino que não sejam poucas as versões para essa história. O fato, é que ela segue até hoje, vibrante e poderosa, com o Elefante iluminando as ruas por onde passa, encontrando com a Pitombeira, e arrastando uma multidão que se acumula, ao longo dos anos, num retrato diverso e gratificante do país. Se hoje a Pitombeira ganha esse merecido destaque, graças ao filme de Kleber Mendonça, certamente se eleva junto com ela todo o carnaval de Olinda e sua tradição, o Elefante, seus blocos e troças e seus nomes inesquecíveis, e os quadros de Bajado e Zé Som, e a figura do Lorde de Olinda, o coco de Dona Aurinha, Joana Batista e seu Vassourinhas, as pedras do calçamento das ladeira e tantos outros signos e símbolos dessa identidade, dessa entidade que é nosso carnaval.
Ah, que saudade que dá de chegar nos Quatro Cantos com hino do Elefante tocando em toda parte.
Ao som dos clarins de Momo O povo aclama com todo ardor O Elefante exaltando as suas tradições E também seu esplendor Olinda, este meu canto Foi inspirado em teu louvor Entre confetes e serpentinas Venho te oferecer Com alegria o meu amor
Olinda! Quero cantar a ti esta canção Teus coqueirais, o teu sol, o teu mar Faz vibrar meu coração, de amor a sonhar Em Olinda sem igual Salve o teu Carnaval!
Manda ver, Jéssica! Você nos representa!
Em 2021 a Kuruma’tá recebeu alguns belos poemas no e-mail. Animação total com a beleza e dimensão daqueles versos. Publicá-los não era apenas óbvio, era necessário! Jéssica Iancoski, que nos brindou com essas poesias, é agora reconhecida, pela Revista Forbes, como jovem com até 30 anos que se destaca em seu ramo de atuação. Estar presente nessa lista, publicada em fins de 2025, é um atestado do que a gente já sabe de cor: Jéssica é uma força cultural; uma realizadora que o Brasil merece, que o Brasil precisa. Alguém que pegou a poesia e criou um caminho para multiplicá-la; um caminho de portas abertas para revelar novas vozes e potências poéticas. A Toma Aí Um Poema é uma das coisas mais bonitas que já vi surgir nesse país. Acompanho de perto com brilho nos olhos.
E que orgulho e alegria ter publicado os poemas de Jéssica… poeta, empreendedora, visionária e inspiração pra todos nós.
Das maravilhas da Kuruma’tá, a mais linda é a que nos chega pelas redes e pelo e-mail. Gente do Brasil todo que manda seus textos, seus poemas… que beleza. Dessa vez, veio esse poema da Suênia Livene, que compartilhamos com alegria com vocês.
Um brinde ao encontro das retinas entrelaçadas, pelo visor de um portal com gamas de cores ou em preto e branco e um regente apaixonante.
O intangível ecoa as dimensões aprazíveis pela sutil sensibilidade de capturar momentos…
“Escritas com luz” transportam sujeitos e emoções para memórias atemporais: sejam em texturas negativas, multicolores significantes e mais…
Suênia Livene, aprendiz de poesias, admira as artes e as culturas. Para Livene a poesia é uma ponte de encontros com a leveza e a contemplação da subjetividade