Londres chamando para cirandar

Quando olhei para os meus discos e vi esses dois LPs em destaque na estante, Vamos cirandar, reunindo cirandas pernambucanas e o London Calling, álbum seminal do Clash, tive que sorrir, confrontando o adolescente tímido e enclausurado no Rock é rock mesmo. Precisei de muitos anos para chegar até o que essa foto representa e entender o quanto esses dois discos estão, na verdade, conectados. Ambos são insurreições. Sons periféricos. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Eu era um adolescente que gostava de rock, minha turma gostava de rock; e eu gostava de rock por conta da minha turma. Simples assim. Era o que a gente ouvia quando estávamos juntos, na casa de um de nós, com os discos que levávamos para lá e para cá, debaixo do braço; era o que eu ouvia quando não estávamos todos juntos. E quando falo de rock, falo do que a gente tinha pra ouvir, naquele tempo, naquela cidade. Ou seja, o rock dos anos 60 e 70. Led Zeppelin, Deep Purple, Pink Floyd e afins. Beatles, claro. Ouvíamos o rock disponível nas lojas de então. Depois conheci outras lojas, mais sofisticadas, cuja oferta de discos incluía coisas importadas, difíceis de aparecer (e de comprar!) no Recife. Havia ainda o sebo do Humberto… mas isso foi uma coisa só surgiu para mim mais tarde, eu já estava no segundo grau na escola. Eu costumava ir com amigos e lá encontrava outros amigos; lá eu fazia amigos. Todos do rock. Muitas vezes nem tínhamos dinheiro pro vinil mais barato, mas era bom ir lá assim mesmo. Era a atmosfera que nos alimentava.

De qualquer forma, it was all about rock’n’roll. Éramos, sem saber, meio nerds. Adolescentes solitários, sem ter pra onde ir a não ser mergulhar nos próprios discos. Quando chegou a Disco Music, abominamos a Disco Music. Éramos adoradores dos sons de guitarra, baixo e bateria. E dos teclados progressivos de bandas cabeludas. Até que o punk apareceu, com sua ferocidade suja, no altar solene das nossas humildes vitrolas brasileiras. Mas isso é outra história, até porque, gostar do punk me conduziu pela senda que me distanciava da seita musical que até então havia me acolhido e à minha solidão. E acho que essa turma do rock’n’roll de raisz nunca me perdoou por eu ter desviado do caminho. E meu caminho passava então, inexoravelmente, pelo Clash, Buzzcocks, Joy Division, New Order,
Happy Monday , a música eletrônica dançante, chegando até o Chemical Brothers, a música da África, por várias vias,, Fela Kuti, Afrika Bambaataa emulando a geada sonora Kraftwerk, o som espacial de Cabo Verde, Senegal… África por toda parte. E o Brasil, recheado dos ritmos do continente ancestral, de tambores negros mesclando-se com cantos indígenas, para nos alcançar a alma num botequim ou numa praia do Nordeste.

Escrevo tudo isso para falar dessa foto aí acima, que ilustra esse texto. Eu estava aqui, anos depois (muitos anos depois), no meu Rio de Janeiro, fazendo alguma coisa na sala quando olhei para os meus discos e vi esses dois LPs em destaque na estante. Vamos cirandar, reunindo cirandas pernambucanas e o London Calling, álbum seminal do Clash. Tive que sorrir, confrontando o adolescente tímido e enclausurado no Rock é rock mesmo. Tive que sorrir porque esses dois discos, juntos ali, eram um retato do quanto a gente pode mudar e, mudando, agregar um novo vocabulário. Esse disco de ciranda seria impensável quando nos trancávamos no quarto do meu amigo Alexandre, lá na Imbiribeira, uns quatro ou cinco garotos, para escutar The dark side of the moon.

Precisei de muitos anos para chegar até o que essa foto representa e entender o quanto esses dois discos estão, na verdade, conectados. Ambos são insurreições. Sons periféricos. A crueza das cirandas do Mestre Baracho, das Mestras Lia de Itamaracá e Dona Duda, que parecem saídas de dentro da terra, dos pés de quem dança. Hipnóticas, ritualísticas… Mântricas mesmo. O chamado para a dança que não é diferente das batidas de London Calling e sua Londres clamando pelos excluídos, chamando para a roda.

London calling to the underworld
Come out of the cupboard, you boys and girls

São discos coerentes um com o outro. Escutá-los é abrir uma tampa de bueiro enorme para uma cultura que rola subterrânea, contra as expectativas dos mercados, das tendências. Ainda que o Clash tenha se tornado uma banda mundialmente conhecida, um produto industrial em muitos sentidos. Nada disso importa. A música e seu poder incrível de resgatar a noite interior e a tribo reunida, o anseio comunitário de dar as mãos e dançar ao ritmo, o ritmo, até o amanhecer. Dopado da música, do tambor.

Aqueles homens e mulheres, lá em Pernambuco… há um fio que passa por eles, atravessa as matas amazônicas, atravessa oceanos, passa pelo Clash, conecta-se à África e coloca em sintonia fina pessoas que não sabem umas das outras.

Isso tudo é uma viagem da minha cabeça, eu sei. Esses elos imaginários ligam-se em mim. Quando eu só escutava rock eu não tinha ideia do quão negro ele era. Sabia de forma automática, não processava aquele saber porque era um moleque precisando aprender. Mas rompi essa pequena bolha e vi que a bolha não era o rock, que estava ligado a tudo. A bolha éramos nós. Garotos, meninos, inventando uma pureza para nos salvarmos de nós mesmos. Assim o London Calling e o Vamos cirandar, juntos, na minha coleção de discos, me dá vontade de chorar. Porque esses dois discos falam de quem eu sou, de quem me tornei, e me falam dos que vieram antes de mim. E do que virá depois.

Texto de Toinho Castro


Uma pausa para Augusto dos Anjos

E o que queria o poeta? Apenas que o presidente lhe concedesse uma licença com vencimentos, uma pequena garantia, para que lhe fosse possível aquela viagem ao Rio, onde pudesse apresentar seus poemas, encontrar os nomes da literatura de então, conseguir entrar para a história da formação da literatura brasileira…. [Texto de Aderaldo Luciano.]

Texto de Aderaldo Luciano


Já era a terceira ou quarta vez que Augusto dos Anjos falava sobre o mesmo assunto com o Presidente João Machado. Augusto se sentia preso, ilhado na Paraíba, enquanto a vida literária se desdobrava ávida na capital do país, o Rio de Janeiro. Todos os amigos haviam partido, inclusive Órris Soares, a quem tanto se apegara. Tentava jogar a última carta no diálogo com o Presidente. Esperava lograr êxito e partir tranquilo, com um pouco de dinheiro e a esperança de encontrar Santos Neto, seu amigo e incentivador.

Por conta de arranjos políticos, sua família se determinara a apoiar o nome de João Machado para presidente do estado da Paraíba, indicado que foi pelo chefe maior, o major Álvaro Machado, do Brejo de Areia, oligarca e mandatário. Como se diz hoje em dia: o Chefão. Aliás, sobre ele podemos dizer duas coisas: ao mesmo tempo em que criou A União, o jornal mais longevo do estado, fez vistas grossas quando a polícia incendiou e empastelou as oficinas e escritórios dos jornais O Combate (dos irmãos Oscar e Órris Soares) e O Comércio, alguns anos antes, em 1904, quando era ele o presidente. Mas voltemos ao caso de Augusto.

Muito bem, o poeta raquítico saúda o presidente e, pisando em ovos, começa novamente aquela conversa. Estava ele como professor substituto no Liceu Paraibano, tinha como aluno um dos filhos do presidente, a família fechara questão em torno do nome do mandatário, o próprio presidente o havia convidado para abrir as celebrações da data da Abolição, no Theatro Santa Rosa. Era flagrante o clima de intimidade entre eles. Saliente-se que o poeta desposara Ester Fialho, filha de Agnelo Cândido Lins Fialho, também do Brejo de Areia. Augusto pensara que estava tudo em casa.

E o que queria o poeta? Apenas que o presidente lhe concedesse uma licença com vencimentos, uma pequena garantia, para que lhe fosse possível aquela viagem ao Rio, onde pudesse apresentar seus poemas, encontrar os nomes da literatura de então, conseguir entrar para a história da formação da literatura brasileira e, quem sabe, ser nomeado para a melhor escola do país: o Colégio Pedro II. Não era um sonho impossível e acreditava mesmo que tudo pudesse transcorrer como no sonho, como no desejo.

O que ouviu de João Machado foi um peremptório “NÃO!” E mais: um “RETIRE-SE!”. Segundo a cunhada, Irene Fialho, fora: “Ora, Dos Anjos, não me amole mais!”. O suficiente para a ficha cair por dentro do cofre da compreensão e as tripas requererem uma urgente tomada de decisão. E foi assim que o Poeta Superior da Paraíba chegou em casa mais pálido do que já era, trêmulo e desiludido, e disse para a esposa: “Vamos para o Rio. Nunca mais porei o pé na Paraíba!” Dito e feito.

Já no Rio, vivendo as agruras de sua decisão, morava em pensões e se revirava para dar aulas particulares aqui e ali, como diz Agripino Grieco: “revejo aquela singular figura, qual a vi em 1912, nas vizinhanças da Muda da Tijuca, onde o pobre Augusto ia, premido pela necessidade, dar lições a uma família abastada do bairro.” Augusto escreve para a mãe, relembrando o rompante de João Machado: ”O procedimento do João Machado foi aqui muito censurado, sendo louvado com os panegíricos mais veementes meu ato de reação contra a diatribe do Joque.”

Joque era o apelido de guerra do presidente. Mas a cartinha de Augusto não fica só nessa oração. Diz mais: “Todos os políticos dessa terra me tem prometido emprego. Não sei se o fazem por delicadeza convencional do momento, ou se movidos pelo intuito sincero de me prestarem reais benefícios.” Ingênuo poeta. Inocente Augusto. Não entendia ainda que esse mundo da política provinciana é um eterno rio de malquerenças. Nenhum deles, jamais, lhe conseguiria qualquer ocupação, qualquer emprego, qualquer trabalho.

A cartinha cita o nome dos políticos de então: “Tais indivíduo se chamam: Valfredo Leal, Simeão Leal, Seráfico da Nóbrega, Castro Pinto e outros da mesma espécie.” Acredito que os nomes de Valfredo Leal e Simeão Leal sejam nossos conhecidos. Mas, enfim, que é do poeta? Sofre, desterrado, entre seus conterrâneos. Sem dinheiro e vivendo dificultosamente, vê sua esposa perder o primeiro filho e sente seus problemas de saúde se agravarem. José Oiticica descreve o seu estado como o de “penúria”. O irmão Odilon salva-lhe a posteridade arcando com as despesas do “EU”. E os seus, aqueles que tanto lhe prometeram? Desapareceram.

O resto da história todos vocês já conhecem. João Machado, Álvaro Machado, Valfredo Leal, Simeão Leal, Seráfico Nóbrega não passam de uma nota de pé de página da história e, para alguns nascidos nas terras do Brejo de Areia, na Paraíba do Norte, “nomes ilustres”. Pois bem, o Poeta Maldito, o sofredor, não pôde ver o que aconteceu depois: sua poética revirando as tripas do mundo da crítica nacional, seus versos declamados na boca do povo, seu nome salvaguardando toda a posteridade, inclusive os poetas desinteressantíssimos de hoje e de amanhã.


Lembrete: para a escrita desse texto foi tomado como base o livro Augusto dos Anjos – Obra Completa, da editora Nova Aguillar, de 1995, com organização e fixação do texto e notas por Alexei Bueno. Inclusive a fotografia dos poemas e da iconografia.

Texto de Aderaldo Luciano


Sou papa-jerimum!

Cortei o jerimum comprado na feira, já cortado em e sem casca, em pedaços menores. Sem necessidade porque o cozimento é rápido. Talvez para usar as mãos, para exercer algo que é ancestral e fala comigo desde longe, que é cortar os alimentos para prepará-los. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Peguei o jerimum comprado na feira, já cortado em bandas e sem casca, e cortei em pedaços menores, meio que sem necessidade, já que o cozimento é rápido, mesmo que os pedaços sejam grandes. Talvez o fiz para usar as mãos, para exercer algo que é ancestral e fala comigo desde longe, que é cortar os alimentos para prepará-los. Mas foi na hora que peguei o processador, no qual jogaria os pedaços cozidos para fazer um creme ou purê, que o vento mudou na minha cabeça.

De repente veio a mim a roça de jerimum que nunca vi, a cadeia de mãos, como as minhas mãos, só que rude e hábeis, que talharam a terra e a semearam, atravessando chuvas e secas. O esforço enorme de gerações pelas ramas espalhadas sobre o solo, brotando frutos igualmente enormes, de carne laranja. E eu ali, com uma máquina do futuro, cheia de lâminas, a desfazer o jerimum de mil passados em purê. Era como um oxímoro, palavra que aprendi tardiamente e que gosto de usar; uma figura de linguagem que consiste em relacionar numa mesma expressão ou locução palavras que exprimem conceitos contrários.

A questão, sabe, é que nasci em Natal. Aos pouco versados em geografia, trata-se da capital do estado do Rio Grande do Norte. Muito cedo eu soube que era um papa-jerimum. Crescido no Recife, aviso tratar-se da capital de meu Pernambuco, não esqueci essa marca de nascença, esse signo de um pertencimento. Lembro cristalinamente da nossa mãe, minha e dos meus irmãos, informando-me sobre um passado que era um destino: Você nasceu em Natal. Você é papa-jerimum!

Papa-jerimum e Potiguar, que por sua vez significa comedor de camarão. Esses dois elementos nos dão uma combinação culinária que é um tipo de arte; o jerimum recheado com camarão. Iguaria que une o mar à terra, os reinos animal e vegetal numa simbiose única. Um sabor que é motor de muitas narrativas. Recordo que no bairro de Ouro preto, em Olinda, havia uma casa de família que preparava esse prato. Era necessário que se telefonasse combinando a data e informando quantas pessoas iriam. Não era um restaurante, mas gente de casa, que abria suas portas e recebia estranhos, todos unidos pelo elo sagrado do jerimum com o camarão.

A verdade é que não sei exatamente de onde vem essa expressão papa-jerimum. Diz-se que vem de uma história de tal governador, que pagou os funcionários do estado com jerimuns. Pouco interessante dito assim. Interessante mesmo são os jerimuns, que no Sudeste chamam de abóbora. Abóbora, fruto da aboboreira. Jerimum, fruto da fala, dos jeitos do Nordeste. Fruto do barro das casas espalhadas em roçados que se sobrepuseram a outros roçados postos sobre roçados.

Eu que sou urbano, de duas capitais, conheci o jerimum pelas mãos da minha mãe, comprados na feira, ou nos mercados. Parece-me que dentro de cada um deles, por baixo da casca rija, há uma luminosidade amarela, quente, que emana e transporta quem a percebe para os campos onde crescem, das mãos de quem planta. É preciso, cada vez que se cozinha um jerimum, prestar algum tributo a essa história, sobretudo quando se é, como eu, papa-jerimum.


Pesquisando um pouco enquanto escrevia esse texto descobri um poema, escrito por Henrique Douglas de Oliveira. Ele tinha 12 anos quando escreveu esse poema e é potiguar como eu. Como eu, é papa-jerimum. Henrique Douglas é do pequeno município de José da Penha (alguém recorda Severino de Maria, dos versos de João Cabral de Melo Neto no seu poema Morte e vida Severina?), no interior do Rio Grande do Norte, perto de Mossoró e Pau dos Ferros. Com seu poema Henrique ganhou a medalha de ouro na Olimpíada de Língua Portuguesa daquele ano de 2012. Trecho do poema foi ainda utilizado numa questão do ENEM. Esse sucesso de 6 anos atrás e tão distante do Rio de Janeiro onde me encontro escrevendo, deixou-me orgulhoso do meu conterrâneo.

Tomo a liberdade de reproduzir aqui seu trabalho, que fala do sertão, da visita da chuva, do gibão e do gerimum… sim, com G mesmo. Leia o poema e descubra a razão.


Ôde casa?!

Ê, Ê, Ê… Morena
Ô, Ô, Ô… Machada
Ê, Ê, Ê… Grauno
Ô, Ô, Ô… Pelada.

O vaqueiro solta a voz
No oco do mundo,
Com seu aboio dolente
Em poucos segundos,
Encanta gente e gado
“Eita” aboio profundo!

Chapéu de couro e gibão
Luvas e peitoral,
Perneiras e sandálias
Tudo artesanal,
Ofício de meu pai
Vaqueiro magistral.

O sertanejo anseia
Uma visita em nossa terra,
Faz as honras da casa
E ansioso espera,
São José intercede
E o povo por ela reza.

Quando a visita chega
Molha o tapete vermelho,
Desbota todo ele
O caminho é só lameiro,
Pra nós é festa
É festa “pros violeiro”.

Eles cantam e encantam
Aqui no nosso recanto,
Em noite de cantoria
Improvisam com seu canto,
É coisa da nossa gente
Aqui do nosso canto.

Sítio Gerimum
Este é o meu lugar,
Pedaço de chão resistente
Como o povo que aqui está,
Que vive sempre firme
Firme no seu caminhar.

Meu Gerimum é com “G”
Você pode ter estranhado,
Gerimum em abundância
Aqui era plantado,
E com a letra “G”
Meu lugar foi registrado.

Este ano a visita
Raramente nos visitou,
Sua ausência causou tristeza
E nosso sertão chorou,
Nem as lágrimas derramadas
O chão seco molhou.

O tempo parece mudado
Mudou o verde do capim,
A brisa está mais quente
Não faz um carinho assim,
Até os passarinhos
Voaram pra longe de mim.

Espero que os bons ventos
Fluam na nossa cidade,
Visitem José da Penha
Sem nos deixar saudade,
Tragam-nos boa nova
Espalhando prosperidade.

Enquanto espero a visita
Você pode entrar,
Também é meu convidado
Pode se aproximar,
Nossa essência permanece
Sinta… Está no ar!

Henrique Douglas de Oliveira


Para encerrar, uma música de João Silva, parceiro de Luiz Gonzaga em músicas como Nem se despediu de mim e Pagode russo. A voz é de Marinês. De quem mais poderia ser? É tempo, é história e saudade.

Obrigado, Jerimum, por ter me dado assunto numa manhã abafada no Rio de Janeiro.

Texto de Toinho Castro


Dez livros lidos livremente

Por volta do ano de 1972, com 8 anos, lembro-me bem que se iniciaria aí minha sina de leitor. Li avidamente durante 10 anos, sem horário para parar, nem para iniciar. Fiquei conhecido em minha cidade como “o menino que não dormia” e que, todos os dias, à meia-noite, fazia uma ronda pelas ruas malassombradas do lugar. [Texto de Aderaldo Luciano]

Texto de Aderaldo Luciano


Por volta do ano de 1972, com 8 anos, lembro-me bem que se iniciaria aí minha sina de leitor. Li avidamente durante 10 anos, sem horário para parar, nem para iniciar. Fiquei conhecido em minha cidade como “o menino que não dormia” e que, todos os dias, à meia-noite, fazia uma ronda pelas ruas malassombradas do lugar. Acordava tarde, por ter adormecido mais tarde ainda. Diziam, e muitos ainda dizem, que eu não gostava de trabalhar. E é verdade: eu gostava de ler. Passei à cidade a figura de um “cabra” preguiçoso. E ninguém nunca me elogiou por conta dos livros que eu lia.

Só que em 1972 eu era um ajudante de feira. Um daqueles meninos que ficava por ali, aos sábados, com um balaio, esperando que alguma senhora passasse e me chamasse para carregar a sua feira. Era o dia todo com balaios pesadíssimos e algum dinheiro no final do dia. Esse dinheiro servia-me para três coisas: ir ao cinema todos os dias do final de semana; fazer um lanche depois do cinema na lanchonete de Zé Nunes (onde tomei minha primeira coca-cola e detestei, eu gostava de “gelada”); e comprar gibis e revistas na banca de Seu Carneiro. Um dia essa constância foi quebrada pela presença, na feira, de um homem cantando e vendendo folhetos de cordel.

Desse homem comprei o primeiro cordel: Vicente, O Rei dos Ladrões, de Manoel D’Almeida Filho. E esse foi o primeiro livro que determinou muita coisa em minha vida. A ele sou grato por tornar-me um estudioso dessa arte literária. Digo mesmo sem falsa modéstia: sou um estudioso. Não sou um curioso ou alguém que se autodetermina pesquisador. Carreguei para dentro dos meus estudos de graduação, de mestrado, de doutorado e de pós-doutorado e expandi para a vida meu deslumbramento com o cordel brasileiro, graças a esse primeiro encontro. Para mim, Vicente, O Rei dos Ladrões é o livro mais importante de minha existência como leitor.

Esse encontro se deu na segunda infância. Ainda nessa época descobri a biblioteca do Centro Social Pio XII, pertencente à Paróquia, sob a direção do Padre Ruy. Foi meu paraíso. Todas as noites da semana, a partir das 19 horas, eu estava lá. Naquelas mesas enormes li pela primeira vez: 20 Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne. A aventura do Capitão Nemo, o Nautilus, Ned Land e todas as maravilhas de um mar que ficava longe de onde eu morava, mas que me seduzia de maneira estranha, abriram-me a escotilha do sonho e da esperança. Li a obra completa de Júlio Verne, mas a chave mestra foi 20 Mil Léguas e sua continuação A Ilha Misteriosa. Foi o segundo livro mais importante de minha vida.

Naquela mesma biblioteca descobri a coleção completa das obras de Jorge Amado e Jubiabá marcou-me tão abruptamente que não consegui parar de ler até terminar. Pedi à moça que tomava conta da biblioteca que me deixasse levar aquele livro para casa. E secretamente ela me concedeu, contanto que eu o trouxesse de volta no outro dia para que ninguém notasse a falta do exemplar na estante. Foi a noite mais gostosa de minha vida. Ainda hoje quando vou a Salvador procuro os lugares citados pelo velho Jorge: a ladeira do Taboão, o elevador, a Barra. Portanto, Jubiabá completava a Regência Trina de meus dias como leitor. Não preciso dizer que entrei no mundo de Jorge Amado e fiquei decepcionado quando, na Faculdade, notei que ninguém estudava a obra do bom baiano.

Mas ali, no meio das estantes amarrotadas de coisas sensacionais, passeando o olhar, descobri, com o dorso voltado para dentro, como se alguém o quisesse esconder, um antigo exemplar de Zé Limeira, Poeta do Absurdo, de Orlando Tejo. Minhas mãos tremiam sacudidas pela ansiedade. Segurei aquele livro como uma joia que fosse feita de maizena, não podia esfarelar, nem deformar-se. Sentei e li, do começo, do prefácio, cada capítulo, cada verso, cada título, cada pormenor. Causou-me tamanho impacto que, trinta e poucos anos depois eu publicaria algo inspirado nele: O Auto de Zé Limeira, que transformou-se em música, em canto jogral, em trilha de minissérie na Globo, em livro.

Fui orientando minhas leituras para as noites, cada vez mais aprofundadas porque o dia ficava, metade para a escola, metade para brincar. Ganhei muitas vezes o prêmio de melhor aluno. Nunca fui um aluno estudioso, nunca estudei em casa, nunca fiz exercícios, resolvia tudo, sempre, nos minutos anteriores às aulas e muita coisa entrava mesmo durante elas. Eu gostava mesmo era de ler. Me divertia. Havia uma leitura básica e outras leituras mais amenas, gibis e revistas, fotonovelas e livros de bolso (da CEDIBRA ou da Monterrey), fossem de faroeste ou ficção ou espionagem. Quando migrei da biblioteca do Padre para a Biblioteca Municipal, descobri o livro esquisito de um certo Edgar A. Poe: Histórias Extraordinárias. O Barril de Amontilado, O Poço e o Pêndulo, A Queda da Casa de Usher e todo o universo noturno como eu. Todos os dias lembro de Poe.

Alinhados, na mesma estante de aço, estavam Poe e Balzac. Meu Deus!? Depois de Poe entrou-me A Comédia Humana. Agradeço todos os dias ao filho da mãe que não sabendo o que fazer com os livros, com a biblioteca, amontoou-a naquele prédio da Rua do Sertão. Livros velhos, poeirentos, cheios de ácaros e que eu descobri enfileirados. Sonhei dias e noites e sóis e luas com Paris. Vasculhei cada centímetro daquela coleção da antiga Editora Globo, de Porto Alegre. Foi perdido por aí que, acho, encontrei o texto A Procura do Absoluto. Essa novela de Balzac trucidou-me. Mas o pior que poderia me acontecer é que na cidade não havia ninguém com quem eu pudesse trocar ideias a respeito. Solitariamente eu sofria por conta de minhas leituras, sem ter com quem falar de minhas inquietações. Foi foda. Virei o menino estranho, preguiçoso e que não dormia de noite.

Já avisei aos amigos, por diversas vezes, que a cidade onde nasci, por opção de minha mãe, chama-se Areia, na Paraíba do Norte. Na biblioteca, agora meu refúgio, ao lado de Poe e Balzac, não foi difícil chegar a Borges. Estava na mesma estante aquele estranho Ficções. Caralho, meus amigos, caralho, como diria Bukowiski, num acesso furioso. Que coisa mais louca para minha frágil cabeça adolescente, mas que magnetismo me suspendia do chão mortal. O Milagre Secreto, O Jardim de Veredas Que se Bifurcam, As Ruínas Circulares, O Fim: que plantação mais poderosa de cravos e de rosas. Foi Borges o responsável por tudo. E fui lendo. Por essa época conheci Bastim, hoje o professor Sebah. Ali, eu tinha com quem conversar. O que ele descobria passava para mim, o que eu descobria passava para ele.

Caminhando não sei para onde, trocava passos vagarosos. Nesse mesmo período, e parece que esses livros que nos mudam ou nos completam, vão se sucedendo assim num mesmo tempo, um tempo conspirador, aguardavam meus olhos um exemplar da primeira edição do EU, de Augusto dos Anjos. Ainda com as páginas coladas. Parece que ninguém se deixara seduzir por aquele grosso e amarelado volume. Com uma régua fui rasgando as dobraduras e de dentro delas foram saltando os sonetos mais contundentes que pude ler em toda minha pouca vida. A poesia e a biografia do poeta raquítico faziam mais um refém. Decorei vários poemas e, já com um violão a tiracolo e tendo conhecido a cachaça brejeira, aliados a uma represa que queria explodir, fui acrescentando adjetivos à minha existência areense. Agora eu era o louco.

Eu já estava no ensino médio. Estava me preparando para o vestibular. E aconteceu uma ruptura. Uma oportunidade de mudar de cidade, sonho que sempre acalentei. No último ano resolvi, com 16 anos, que entraria na Fraternidade Marista, em Lagoa Seca, perto de Campina Grande, e faria a experiência que me ofertaria a possibilidade de ver o outro lado do mundo. Fui estudar no Colégio Diocesano Pio XI, na Presidente Vargas, perto do Cine Avenida, em Campina. Eu queria fazer Comunicação Social, mas foi Adonhiran, professor de História, quem, durante uma aula, falou de História da Riqueza do Homem, de Leo Huberman. Eita, piula. Saía do mundo literário, da ficção, do cordel, das aventuras, da poesia, para a reflexão histórico-social e no final do ano, nem vestibular, nem Campina. Fui-me embora para Propriá, no Sergipe, viver a vida das comunidades eclesiais de base e a Teologia da Libertação.

O Irmão Salatiel, meu superior, era assinante do Círculo do Livro, todo mês entrava livro novo em nossa casa da Rua Japaratuba. Até que, naquele dia, eu peguei Não Verás País Nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão. Esse livro fecha a lista daqueles que muito me influenciaram e que transformaram minha vida. Este em especial por conta de eu ter me sentido durante todo o tempo como um homem marcado: um homem com um furo na mão, uma marca que, por mais que eu tente esconder, ela grita. A maldição que me persegue me faz ser irmão de muitos outros homens que, neste momento, estão tentando entender sua existência. Homens que se acham especiais, mas que precisam comprar pão para comer. Homens que amam a humanidade, mas que se sentem enojados com as merdas que ela produz. Homens cheios de esperança, mas que em algum momento têm coragem de se matar. Homens que não agridem uma borboleta, mas passam ao largo de um mendigo e podem até agredi-lo. Há uma marca em nós: a marca da letra, a marca da besta, a marca do sonho, a marca do zorro. São esses meus dez livros, livres.

Texto de Aderaldo Luciano


A morte do anjo

Conheci Bruno Ganz, provavelmente em 1988, como Damiel. Recordo sua aparição na tela do cinema, com seu par de asas sobre a Gedächtniskirche, a igreja bombardeada que ali está a lembrar-nos os tempos de guerra. Ele olha do alto a Berlin dividida pela mesma guerra. Ruas divididas, pessoas partidas. [Texto de Toinho castro]

Texto de Toinho Castro


Anjos não morrem. Dito isto, morreu um anjo. Não qualquer anjo, se é que há anjo qualquer. Morreu um anjo cinematográfico, ilusório. Ao mesmo tempo que anjo, um ser humano e também um ator monumental. Bruno Ganz, o anjo Damiel de Asas do desejo (Der Himmel über Berlin ,Win Wenders, 1987), morreu na madrugada de hoje. Na madrugada, como cabe aos anjos.

Conheci Bruno Ganz, provavelmente em 1988, como Damiel. Recordo sua aparição na tela do cinema, com seu par de asas sobre a Gedächtniskirche, a igreja bombardeada que ali está a lembrar-nos os tempos de guerra. Ele olha do alto a Berlin dividida pela mesma guerra. Ruas divididas, pessoas partidas. Tudo preto e branco num filme de amor. O amor de um anjo por uma trapezista de um circo mambembe. Por causa desse mesmo amor o anjo se torna homem,ponte entre dois mundos perdidos, dois ermos. Vá e veja o filme.

Quando conheci Bruno Ganz ele já tinha uma longa filmografia, que só cresceu depois de Asas do desejo. Vê-lo em outro filme era sempre uma experiência curiosa, porque para mim, lá no fundo, no mais dentro, estava o anjo. Mal sabia que o anjo estava em mim também. Como ainda está.

Não assisti A queda — As últimas horas de Hitler. Vi sequências de passagem no Youtube, vi paródias que infestaram a internet. Vi ali , nesse pouco, o mesmo grande ator que jamais esquecerei desde aquele dia, num cinema perdido no Recife, em que, junto com ele, vi Berlin do alto.


Éramos um grupo de amigos, na universidade, e amávamos cinema. Compartilhávamos gostos e experiências. Víamos filmes juntos, discutíamos nossos diretores preferidos e os grandes temas da arte cinematográfica e… éramos amigos de um projecionista. Com quarenta anos de trabalho nas salas escuras do Recife, Seu Alexandre, como o chamávamos, era um senhor gentil e generoso com aqueles jovens a rondá-lo por histórias. Tivemos, pois, a graça de assistir Asas do desejo com Seu Alexandre no comando do projetor. Ao final do filme, recordo, o encontramos na sala de projeção para conversar. Saímos de lá com vários pedaços do filme. Sim, pedaços mesmo.

Quem cresceu com o mundo digital não imagina que ao falar pedaços, falo mesmo da fita que era usada para projetar o filme. Ao longo das muitas projeções os rolos dos filmes se fragilizavam e se partiam com certa facilidade. Ao projecionista cabia aparar os pedaços e acertar as emendas. Nós, curiosos e amantes do cinema, ficávamos com as sobras desse processo. Por vezes seu Alexandre cortava um pedaço do filme e nos presentava; nos 24 quadros por segundo, que falta faria alguns quadros?

Guardo ainda hoje essas joias, esse pequeno tesouro da memória que agora une Seu Alaxandre, que também já se foi, com Bruno Ganz.

O que me restou de Asas do desejo, Seu Alexandre e Bruno Ganz

Bem antes de Bruno Ganz, havia nos deixado a atriz Domartin Solveig, muito jovem, aos 45 anos de idade. Ela era a trapezista. Vou me conceder o singelo direito de imaginar esse reencontro.

“Eu sei agora o que nenhum anjo sabe”

Texto de Toinho Castro


Eu vi a espinha dorsal da memória

É aquele livro que todo mundo que curte ficção científica no Brasil já leu, ou quer ler. Acontece que o livro anda esgotado. Sem edição comercial resta aos ávidos leitores do gênero os sebos ou os amigos que tenham coragem de emprestá-lo [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Vídeo com trilha de Aderaldo Luciano e imagens de Toinho Castro

A espinha dorsal da memória. Taí um título fantástico para um livro, ainda mais um livro de ficção científica. Quem escreveu essa joia foi Braulio Tavares, paraibano de Campina Grande. Achando pouco ser escritor Braulio é também poeta, músico/letrista, roteirista, dramaturgo e por aí vai. Trouxe A espinha dorsal da memória à luz e com ele foi ganhador do importante prêmio Caminho de Ficção Científica, em 1989, tendo sido publicado pela Editorial Caminho. Ou seja… 30 anos a serem celebrados agora em 2019.

Trata-se basicamente daquele livro que todo mundo que curte ficção científica no Brasil já leu, ou quer ler. Acontece, para desgosto de muitos, que o livro anda esgotado. Sem edição comercial. E o que resta aos ávidos leitores do gênero? Os sebos ou os amigos que tenham coragem de emprestá-lo. sempre corre-se o risco de perdê-lo nessas operações de generosidade.

A minha edição é essa aí da foto, da editora Rocco, que comprei num sebo da rua Buarque de Macedo, no Catete, o Beta de Aquarius. Esse livro é meio mágico, porque mais ou menos na metade ele vira outro livro. A quarta capa é, na verdade, uma outra capa de cabeça pra baixo. Chama-se Mundo fantasmo esse outro livro, de 1994. Um livro invertido, meio reflexo. Viraram circunstancialmente livros irmãos, emendados, siameses. O que os separa é um estranho símbolo que parece flutuar na página, indicando que nada é real.

Não vou aqui tecer comentários críticos pois muitos já o fizeram; com mais propriedade que eu, diga-se. Deixo aqui meu relato pequeno, de leitor fascinado. De virar páginas e páginas e ir adentrando esse mundo sem volta, que não é a Paraíba, não é hoje, nem amanhã. Há algo de familiar em tudo, algo pop, não só pelas referências musicais mas pela cadência. Por ler e sentir que Braulio ouviu muitas das músicas que ouvi também, ou leu muita coisa que eu li ou quero ler, e reconhecer isso nas entrelinhas. Esse mundo sci-fi é algo pop, mas solene, e Braulio sobe como poucos mexer com esse equilíbrio de forças.

No mais, li o livro de uma lapada só. Fiquei sem voz, sem palavras. Parecia que tinha lido em voz alta e gastei o que tinha a dizer. Ao escrever isso lembro dos tempos em que eu e meu amigo Roberval não tínhamos o que dizer dos livros que líamos. Apenas ficávamos surpreendidos, suspenso no ar. Eu vi o mundo fantasmo! Escreveu Guimarães Rosa no seu Grande sertão: Veredas. Era isso. O espanto encantado. Aí um olhava pro outro e dizia: Terminei de ler tal livro. Que livro! E assim não trocávamos opiniões, mas compartilhávamos o espanto.

Pois então, que livro esse tal de Espinha dorsal da memória! E o Mundo fantasmo, que vem encangado com ele, também. Um é o labirinto do outro. Seria bonito uma edição nova, comemorando os 30 anos do Espinha dorsal, né?! Seria bonito esse livro de volta às prateleiras das livrarias, pra ninguém precisar roubar o exemplar dos amigos, como tenho certeza que ocorre.

Capa da edição de 1996, que vem com o livro Mundo fantasmo

Texto de Toinho Castro

A peleja de Zé Limeira e Orlando Tejo

Abrimos o blog Kuruma’tá com um livro em que tudo é lenda: Zé Limeira, o porta do absurdo, do poeta e jornalista Orlando Tejo, paraibano de Campina Grande. Um livro que em suas páginas cristaliza a história de Zé Limeira, cantador nascido no município de Teixeira, no Sertão da Paraíba, cuja poética transcende as amarras, as convenções em que se meteu o verso. [Textos de Aderaldo Luciano e Toinho Castro]

Textos de Aderaldo Luciano e Toinho Castro


Eu me chamo Zé Limeira
de Lima Limão Limança;
a estrada de São Bento
bezerro de vaca mansa…
Valha-me Nossa Senhora,
tão bombardeando a França!

O blog Kuruma’tá abre suas portas com um dueto de Aderaldo Luciano e Toinho Castro sobre um livro em que tudo é lenda: Zé Limeira, o poeta do absurdo, do poeta e jornalista Orlando Tejo, paraibano de Campina Grande. Um livro que em suas páginas cristaliza a história de Zé Limeira, cantador nascido no município de Teixeira, no Sertão da Paraíba, cuja poética transcende as amarras, as convenções em que se meteu o verso.


Há quem veja no livro de Tejo uma biografia pra lá de romanceada do poeta alucinado de Teixeira. Há quem diga que os versos compilados por Tejo e atribuídos a Limeira sejam do próprio biógrafo, num arroubo de suprir lacunas e dar uma dimensão da loucura e ousadia de Limeira. Há mesmo quem diga que Zé Limeira não existiu e que se trata da grande invenção de Orlando Tejo. Essa última hipótese é improvável, pois há registros e testemunhos da presença do negro cantador, filho do sítio Tauá.

De qualquer maneira o livro está suficientemente mergulhado em histórias e lendas. Quase em adivinhações e conjuros. Leitura obrigatória, o livro anda fora de catálogo, mas há de haver, por aí, planos de trazê-lo à tona.

Kuruma’tá chama agora o poeta Aderaldo Luciano, que traz seu texto chamando a atenção para importante data na cronologia do Poeta do Absurdo!

Em seguida Toinho Castro entra ciranda do absurdo com um relato que envereda por sebos, sites e vielas em busca do Graal de Limeira.


Zé Limeira, o poeta do absurdo

Por Aderaldo Luciano

O ano de 2019 será repleto de glórias para a cultura paraibana. A celebração do centenário de de Jackson do Pandeiro, os 105 anos de Manuel D’Almeida Filho, e, nas mesmas importâncias: os 65 anos de morte de Zé Limeira, recantado no livro Zé Limeira, O Poeta do Absurdo, do poeta Orlando Tejo.

Entrei em contato com Zé Limeira por volta de 1975 quando encontrei na Biblioteca do Centro Social Pio XII, em Areia, na Paraíba do Norte, a terceira edição do famoso livro. Eu tinha então 11 anos e li-o no decorrer de 3 tardes. Foi decisivo para mim, acho mesmo que esse livro salvou-me a vida.

Os versos apresentados por Orlando Tejo, mesmo que não tenham saído do canto de Zé Limeira, como dizem alguns, mostraram-me uma possibilidade além do mundo poético que eu conhecia até ali. As imagens complicadas, surrealistas na maioria das vezes, careciam de leitura ritmada e melódica.

Como já conhecia o universo musical das modalidades da cantoria, fui lendo com os olhos e cantando mentalmente. Aquele exercício foi um bálsamo para minha cabeça rebelde. Como todos os poetas que se encontraram com o Poeta do Absurdo, no livro, fui imediatamente alçado à categoria de imitador.

O tempo já vai longe. Na semana passada, fazendo a limpeza de minha biblioteca encontrei dois exemplares do livro: a terceira e a quarta edições. A terceira (de 1974) tem ilustrações e capa de Deodato Borges, o pai de Mike Deodato, ilustrador de quadrinhos da Marvel. A quarta (de 1978) traz capa de Tônio e ilustrações de Chico Pereira.

O livro, assim como o poeta e o autor, tornaram-se mitos. Todas as 11 edições esgotadas. Gente correndo atrás. Em conversa com Karla Melo, editora da Confraria do Vento, do Rio de Janeiro, casa que detêm os direitos autorais, fomos informados que já se prepara uma 12a. edição.

Foi Egeu Laus quem alertou-me para essa efeméride. Esperamos que não passe em lacuna. Para quem não sabe do que se trata vou linkar nos comentários o documentário O Homem Que Viu Zé Limeira, uma abordagem da TV Senado, falando do autor do livro, Orlando Tejo, e do seu objeto, Zé Limeira — O Poeta do Absurdo.

Como foi noticiado, aos 64 anos de morte de Zé Limeira, no ano passado, Orlando Tejo, seu biógrafo-poeta, partiu ao encontro do mestre poeta pelos labirintos da linguagem, nas modalidades poéticas da cantoria nordestina. Orlando cantou, em julho de 2018, os versos enigmáticos e proféticos de A Pavoa Devoradora. Como Limeira, partiu em suas asas.


E a história de Toinho Castro, que deu seu raro exemplar do Poeta do Absurdo para um primo querido, com certeza de que logo encontraria outro volume nos muitos sebos do Brasil. Ledo engano.

Do livro existido, emprestado, sumido e encontrado

Por Toinho Castro

Cantador pra cantar com Limeirinha
É preciso ser muito envernizado,
Ter um taco de chifre de veado
E saber decorado a ladainha,
Ter guardado uma pena de andorinha,
Condenar pra sempre o carnaval,
Guardar terra de fundo de quintal
E é preciso engrossar o pau da venta,
Beber leite de peito de jumenta,
Ediceta, pei-bufo, coisa e tal!

Recebi aqui no Rio de Janeiro a visita do primo de Natal, por parte de mãe, família de poetas, cantores, artistas em geral. Anos com as distâncias entre nós, o reencontro foi regado pelos versos descabidos e elaborados de Zé Limeira, nas páginas do livro já quase sagrado de Tejo. Esse livro, O poeta do absurdo, fez parte da nossa juventude; nos divertia e impressionava. Queríamos ser capazes daquela dimensão.

Na partida do primo querido, Wellington, como o pai, presenteei-lhe de coração com meu próprio exemplar do livro, uma edição então mais recente, da editora Caliban. Eu tinha a fé iludida de que facilmente o reencontraria nos sebos da vida. Pois que o primo foi-se e fiquei eu ver navios, tendo dos versos de Zé Limeira e da Ousadia de Orlando Tejo, apenas o que trazia de memória. O danado do livro simplesmente não existia mais. Um livro desaparecido das prateleiras.

Olhe, foram anos pelejando nos sebos e na internet em busca desse livro, que só me apareceu uma única vez, por audaciosos 300 reais, num dos sebos que vendem pelo site Estante Virtual. Naturalmente deixei passar. Mas taí uma busca que só não foi mas vã porque a cada ida num sebo, a cada visita aos sites, eu acabava achando outro livro que trazia alegria a minha tímida biblioteca. Mas o absurdo de Limeira que é bom, nada!

Mas os anos de busca inglória acabaram por findar quando entre, por acaso, num sebo aqui do centro do Rio e perguntei distraidamente e sem qualquer esperança:

— Moço, eu sei que não, mas o senhor não teria aí o livro Zé Limeira – O poeta do absurdo, de Orlando Tejo?

Tão distraidamente quanto eu ele me respondeu que sim. Retornou dos labirintos do sebo com o exemplar em mãos, o Graal, pelo qual paguei deliciosos 30 reais. Paguei em dinheiro e saí dali fugido,embaralhando meus rastros pelas vielas.

Ao chegar num canto sossegado pude apreciá-lo e ainda descobri uma dedicatória misteriosa. Gosto de especular sobre ela.

A dedicatória misteriosa. Alguma ideia sobre quem ou o que seja o “Vento Leste”?

Veja também o filme produzido pela TV Senado, O homem que viu Zé Limeira