D’água | Chegou o disco da Julia Vargas Revista Kuruma'tá, 15 de abril de 202615 de abril de 2026 Por Toinho Castro Gente, acordei com um disco novo da Julia Vargas. Não um single (Nada contra!), mas um disco inteiro. E um disco lindo. Absolutamente lindo. Sou fã da Julia desde quando ouvi na sua voz Canoa, canoa, do mestre Milton Nascimento. E ela pegou aquela música e fez dela o que eu não esperava. Porque a gente sempre pensa que o que Milton fez, ninguém fará. E ela não fez, porque ela fez outra coisa! Outra lindeza, com uma voz e uma profundeza de rio que maravilharam. Canoa, canoa, com Julia Vargas, é uma música que eu revisito mais que a original. D’água, esse LP que já merece o vinil, girando nos lares brasileiros, traz essa Julia intérprete foda, mas traz também a Julia compositora, assinando três canções. Duas (Vem e Atrás da cortina da pantera, só dela. A terceira, Pavio, como a também maravilhosa Duda Brack). Mas é a intérprete que abre o disco com uma versão inacreditável de Comportamento Geral (1972), de Gonzaguinha, que segue atualíssima e necessária. Com seu baixo de filme de suspense, a musica evolui num clima denso, . Ironia fina e poesia, a serviço da condição humana; a serviço da leitura da vida dura de nós todos, nesse moedor de carne neoliberal. Você merece! viva Gonzaguinha! Não sou crítico e nem quero me meter a isso. Quero mais é espalhar a palavra. D’água é um desses discos que cala a boca dos que não largam o discurso Porque a música brasileira não é mais o que era e afins. Em tempo, a música brasileira não é mais mesmo o que era; é outra. Não é melhor ou pior. É nova, vibrante, inteligente, desafiadora. Escuto o disco da Julia com alegria, música após música. Meio blues, meio rock, algo de xote; tem Luhli & Lucina (Flor Lilás) tem Zélia Duncan (Maluca) e Roberta Sá (Em Sinceramente… uma piscadela nordestina e cadente), grandes mulheres alinhadas sob as águas, ternas, tumultuosas, reviradas e derramadas do álbum. D’água é disco de beleza sonora e poética; recomendo não pular faixas e apreciar cada canção com a devida atenção. Não vai ser difícil, porque, de tão bem encadeados, cada tema vai ocupando espaço na sua curiosidade, na sua afetividade e no seu corpo. D’água mexe com o corpo e com o juízo, numa dança que te envolve e carrega. Destaques para as parcerias, para a banda impecável [Gabriel Barbosa na bateria, Gui Marques nos sintetizadores e coprodução musical, João Bittencourt, teclados e acordeom e Marcos Luz no baixo], que dá a liga perfeita para a voz de Julia. Destaque para a capa luminosa e para o repertório sagaz, preciso, afiado. Tudo é destaque, Toinho?! Sim, destaque pra tudo. Que sensação boa deve ser gravar tudo isso e, depois, sentar pra escutar, sabendo que fez um bom trabalho, que mandou bem e alinhou uma seleção musical de dar gosto e que vai marcar a alma da gente espalhada por aí. Parabéns, Julia. Sigo seu fã! A