Poemas de Joaquim Cesário de Mello

Em meio ao pequeno caos de um inbox mal gerenciado, esbarro com os poemas que o querido Joaquim Cesário de Mello enviou um ano atrás. Escrevi-lhe imediatamente, para não perder ainda mais tempo… e eis que sua gentileza permitiu que publicasse aqui os poemas, mesmo com tamanho atraso. Obrigado, poeta.

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COMO JÁ DIZIA SARTRE

Quando me lembrei de mim
já havia nascido
e penteado os cabelos
frente ao espelho
dos olhos da minha mãe

Não me lembro
do meu primeiro aniversário
porém se ainda hoje faço aniversários
é porque um dia já fiz o primeiro aniversário

Não me lembro
da vez que experimentei melão
mas como não gosto de melão
é porque não devo ali ter gostado

Não me lembro
de quando provei o sal do mar
entretanto minha esposa vive me dizendo
que meus beijos são muito salgados

Das milhares de horas em que fui forjado
há tanta coisa que não me recordo
e por isso eu devo ser uma amnésia que fala
mas que não se lembra do que antes foi falado

Minha certidão de nascimento
antecede a minha essência

 


OLD MAN

Te amo com o amor de ontem
um amor antiquado que nem nos retratos
que guardam o rosto dos meus antepassados

Te amo um amor longevo
que vem dos tempos distantes
quando os homens usavam chapéus
as mulheres se abanavam com leques
as crianças trajavam calças curtas
e as braguilhas eram com botões
ao invés de serem com fecho-éclair

Te amo um amor remoto e recuado
corado de preto, branco e cinzento
um amor com cheiro de papel novo e tinta fresca
que nem as fotonovelas que se lia antigamente

Te amo um amor vintage
que embora velho e arcaico
tem o atrativo de um charme nostálgico
um amor um tanto ferrugento
que hoje já não se usa mais
no decorrer da liquidez de que falava Bauman
mas o que é que eu posso fazer
se só sei amar aqui no presente
como se vivesse amando lá de onde vim
que foi em meados do século passado

I am old man
e meu coração é totalmente retrô

 


MEDO NOSSO DE CADA DIA

Tem medos que acontecem
do lado de fora da realidade

Medo de barata
de lagartixa
de quarto escuro
de trovão
de agulha de seringa
de assombração
de altura
de elevador
de multidão
e até do gato preto do azar

Medos assim são como ladrões
que nos roubam desejos e sonhos
medos que nos sonegam
o que da vida podemos retirar
ou o que na vida podemos colocar

Quem tem medo de cair não anda
quem tem medo de subir continua sentado
quem tem medo de se mexer fica parado
quem tem medo de nadar um dia morre afogado

O medo como cautela é necessário
mas o medo pelo medo é estagnante
já a fobia é por natureza é esquivante
e o pavor, então, é aterrorizante

Stendhal já dizia
que o medo não está no perigo
mas no interior de cada um de nós

Por isso quando tenho medo
de viver
de morrer
de amar
de sofrer
de ser abandonado
corro e vou logo escrever um poema
para protegido dormir com ele abraçado

 


MOCIDADE

Minha mocidade
vem de longe
lá do passado do século passado

Minha mocidade
é uma camisa desabotoada
em meio a um guarda-roupa arrumado
que existe vivendo dizendo não

Minha mocidade
é que nem bicho indomável
feroz, selvagem e ferino
e ai de quem lhe encostar a mão

Minha mocidade
é ardente e audaciosa
que tem algo de estonteada loucura
que a uso em quase toda ocasião

Há quem não entenda minha mocidade
quanto a isso não posso fazer nada
afinal levei muito tempo para nela chegar
e se entranhou nas costelas do interior de mim

Vou levar minha mocidade até à velhice
para bagunçar o que o destino me reservou

 


BUG
 
Uma mariposa entrou na minha cabeça
logo agora que estava escrevendo um poema
e começou a comer as beiradas dos neurônios
embaralhando os sons que vêm do fundo
murmurante mais íntimo do meu interior
 
Portanto, senhoras e senhores
ppppp   eeeee    çççççç   ooooo
des
cul
                   cul
     pas
                                               p   a     s
p       orém…
…não con… con…sigo 
ter
                 mi
nar
 
eeeeeeesssssstttttteeeeee
o
p
m
a e
 
piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii
 

O AGITADO MAR DOS PENSAMENTOS

Por que penso o que penso
eu que penso que penso tantas coisas?
Mas quando penso sobre o que penso
penso que penso sempre o que sempre penso

Qual foi a última vez que pensei
um pensamento para chamar de meu
um pensamento que fosse um pensamento novo
um pensamento que jamais pensei nele antes?

Tenho pensamentos
que nem aos meus pensamentos revelo
Tenho pensamentos caducos
outros inusuais aos pensamentos dos outros
pensamentos ferrugentos e desusados
pensamentos masculinos, femininos e ambidestros
inclusive tenho pensamentos importados
introduzidos desde ante do final do século passado

Tenho pensamentos para quase todo gosto
alguns picantes, salgados, metálicos
outros que de tão amargos têm sabor de vinagre
mas também existem pensamentos adocicados
que sorriem em minha mente quando sonho acordado

Amiúde desconfio de alguns pensamentos
quando me vejo pensando como foi que eles
chegaram ao interior barulhento de mim
Todavia descubro pensamentos insubordinados
indomáveis que nem cavalos selvagens
que bagunçam o armário do fundo esquerdo
que é lá onde guardo o pouco das minhas certezas

Pensamentos são células neurais conversando
em um incessante bate-papo que chego
até mesmo a ficar muitas vezes cansado

Entretanto quando meus pensamentos viram palavras
vencendo a barreira do ordinário e do trivial
corro em direção à ponta delicada dos dedos
e aguardo ver se eles se tonarem poemas


Joaquim Cesário de Mello é psicólogo, psicoterapeuta e professor universitário, residente e domiciliado em Recife (PE). Em meados dos anos 1980 participou do Movimento de Escritores Independentes e foi colunista da Vida Crônica (1998 – 2002) do encarte JC Cultural do Jornal do Commercio (PE). Escritor e poeta, participou de várias antologias literárias, entre elas Nouveaux Brésils Fin de Sciècle (2000), Poesia Viva do Recife (CEPE, 1996) e Cronistas de Pernambuco (Carpe Diem, 2010), Poesia na Escola (Palavra e Arte, SP, 2021). Autor dos livros Dialética Terapeuta (Litoral/PE, 2003), A Alma Humana (Labrador/SP, 2018), A Psicologia nos Ditados Populares (Labrador/SP, 2020), A Vida Como Um Espanto (Labrador/SP. 2021) e No Cemitério das Nuvens (Folheando/2022).

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