Poemas de Joaquim Cesário de Mello Revista Kuruma'tá, 3 de março de 20263 de março de 2026 Em meio ao pequeno caos de um inbox mal gerenciado, esbarro com os poemas que o querido Joaquim Cesário de Mello enviou um ano atrás. Escrevi-lhe imediatamente, para não perder ainda mais tempo… e eis que sua gentileza permitiu que publicasse aqui os poemas, mesmo com tamanho atraso. Obrigado, poeta. Leia também, aqui na Kuruma’tá: A orfandade das fotos COMO JÁ DIZIA SARTRE Quando me lembrei de mimjá havia nascidoe penteado os cabelosfrente ao espelhodos olhos da minha mãe Não me lembro do meu primeiro aniversárioporém se ainda hoje faço aniversáriosé porque um dia já fiz o primeiro aniversário Não me lembro da vez que experimentei melãomas como não gosto de melãoé porque não devo ali ter gostado Não me lembrode quando provei o sal do marentretanto minha esposa vive me dizendoque meus beijos são muito salgados Das milhares de horas em que fui forjadohá tanta coisa que não me recordoe por isso eu devo ser uma amnésia que falamas que não se lembra do que antes foi falado Minha certidão de nascimentoantecede a minha essência OLD MAN Te amo com o amor de ontemum amor antiquado que nem nos retratosque guardam o rosto dos meus antepassados Te amo um amor longevoque vem dos tempos distantesquando os homens usavam chapéusas mulheres se abanavam com lequesas crianças trajavam calças curtase as braguilhas eram com botõesao invés de serem com fecho-éclair Te amo um amor remoto e recuadocorado de preto, branco e cinzentoum amor com cheiro de papel novo e tinta frescaque nem as fotonovelas que se lia antigamente Te amo um amor vintageque embora velho e arcaicotem o atrativo de um charme nostálgicoum amor um tanto ferrugentoque hoje já não se usa maisno decorrer da liquidez de que falava Bauman mas o que é que eu posso fazer se só sei amar aqui no presentecomo se vivesse amando lá de onde vimque foi em meados do século passado I am old man e meu coração é totalmente retrô MEDO NOSSO DE CADA DIA Tem medos que acontecemdo lado de fora da realidade Medo de baratade lagartixade quarto escurode trovãode agulha de seringade assombraçãode alturade elevadorde multidão e até do gato preto do azar Medos assim são como ladrõesque nos roubam desejos e sonhosmedos que nos sonegamo que da vida podemos retirarou o que na vida podemos colocar Quem tem medo de cair não andaquem tem medo de subir continua sentadoquem tem medo de se mexer fica paradoquem tem medo de nadar um dia morre afogado O medo como cautela é necessáriomas o medo pelo medo é estagnante já a fobia é por natureza é esquivantee o pavor, então, é aterrorizante Stendhal já dizia que o medo não está no perigomas no interior de cada um de nós Por isso quando tenho medode viverde morrerde amarde sofrerde ser abandonadocorro e vou logo escrever um poemapara protegido dormir com ele abraçado MOCIDADE Minha mocidadevem de longelá do passado do século passado Minha mocidadeé uma camisa desabotoadaem meio a um guarda-roupa arrumadoque existe vivendo dizendo não Minha mocidadeé que nem bicho indomávelferoz, selvagem e ferinoe ai de quem lhe encostar a mão Minha mocidadeé ardente e audaciosaque tem algo de estonteada loucuraque a uso em quase toda ocasião Há quem não entenda minha mocidadequanto a isso não posso fazer nadaafinal levei muito tempo para nela chegare se entranhou nas costelas do interior de mim Vou levar minha mocidade até à velhicepara bagunçar o que o destino me reservou BUG Uma mariposa entrou na minha cabeça logo agora que estava escrevendo um poema e começou a comer as beiradas dos neurônios embaralhando os sons que vêm do fundo murmurante mais íntimo do meu interior Portanto, senhoras e senhores ppppp eeeee çççççç ooooo des cul cul pas p a s p orém… …não con… con…sigo ter mi nar eeeeeeesssssstttttteeeeee o p m a e piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii O AGITADO MAR DOS PENSAMENTOS Por que penso o que pensoeu que penso que penso tantas coisas?Mas quando penso sobre o que pensopenso que penso sempre o que sempre penso Qual foi a última vez que penseium pensamento para chamar de meuum pensamento que fosse um pensamento novoum pensamento que jamais pensei nele antes? Tenho pensamentos que nem aos meus pensamentos reveloTenho pensamentos caducosoutros inusuais aos pensamentos dos outrospensamentos ferrugentos e desusadospensamentos masculinos, femininos e ambidestros inclusive tenho pensamentos importados introduzidos desde ante do final do século passado Tenho pensamentos para quase todo gostoalguns picantes, salgados, metálicosoutros que de tão amargos têm sabor de vinagremas também existem pensamentos adocicadosque sorriem em minha mente quando sonho acordado Amiúde desconfio de alguns pensamentosquando me vejo pensando como foi que eleschegaram ao interior barulhento de mimTodavia descubro pensamentos insubordinadosindomáveis que nem cavalos selvagensque bagunçam o armário do fundo esquerdoque é lá onde guardo o pouco das minhas certezas Pensamentos são células neurais conversandoem um incessante bate-papo que chego até mesmo a ficar muitas vezes cansado Entretanto quando meus pensamentos viram palavrasvencendo a barreira do ordinário e do trivialcorro em direção à ponta delicada dos dedose aguardo ver se eles se tonarem poemas Joaquim Cesário de Mello é psicólogo, psicoterapeuta e professor universitário, residente e domiciliado em Recife (PE). Em meados dos anos 1980 participou do Movimento de Escritores Independentes e foi colunista da Vida Crônica (1998 – 2002) do encarte JC Cultural do Jornal do Commercio (PE). Escritor e poeta, participou de várias antologias literárias, entre elas Nouveaux Brésils Fin de Sciècle (2000), Poesia Viva do Recife (CEPE, 1996) e Cronistas de Pernambuco (Carpe Diem, 2010), Poesia na Escola (Palavra e Arte, SP, 2021). Autor dos livros Dialética Terapeuta (Litoral/PE, 2003), A Alma Humana (Labrador/SP, 2018), A Psicologia nos Ditados Populares (Labrador/SP, 2020), A Vida Como Um Espanto (Labrador/SP. 2021) e No Cemitério das Nuvens (Folheando/2022). Poesia