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Kuruma'tá | contra o desencanto

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Kuruma'tá | contra o desencanto

Poema de Júlia Ottoni

Revista Kuruma'tá, 17 de julho de 2026

Júlia Dias Ottoni é gaúcha e vive em Florianópolis. Escreve desde os nove anos — contos, crônicas, prosa poética, ensaios —, mas nunca publicou. Advogada por formação, escritora por devoção. Mantém o Pragmatismo Poético, projeto que une escrita, arte e voz. Uma iniciante para o mundo e iniciada por ela mesma.

Conheça também o podcast Pragmatismo Poético – Spotify


CADA PALMO DESSE CHÃO
um poema sobre as enchentes que ocorreram em 2024 no Rio Grande do Sul.

Em cada palmo desse chão, existe uma história
A cada instante se faz uma memória.
Quantos desencontros
Quanta palavra trocada
Quantas coisas não ditas
Quanta gente enganada
A história que hoje se mostra não é a mesma que aconteceu
O que dizem as plantas, os bichos, as águas, a terra, o fogo e o céu?
Se eles pudessem falar, ou se o homem pudesse ouvir
Como seria contada a história?
Quais são as memórias do vento?
Por quantas mentiras ele já teve que passar?
E as lágrimas das águas, que escorrem entre lavouras, cidades e jardins, porque não tem mais por onde correr.
Quanto mato e quanto pampa se perdeu
E junto com eles quanta serpente, lobo guará, tatu, quero-quero, onça, jaguatirica, tamanduá, João de Barro, graxaim, zurrilho e bugio.
Quanta araucária, erva-mate, pitangueira, jaboticabeira, figueira, butiazeiro e ipê amarelo.
E quais foram as dores de forçar essas partidas?
Quais foram as lágrimas?
Além da própria Terra, quem sofreu? Quem sentiu?
E quem permitiu?
Agora se foi gente, se foi cão, cavalo, gato.
Se foi prédio, casa e pátio. Se foi porco, frango e gado.
Mas sempre se foi tanto.
A cada dia
E ninguém via.
Em cada palmo desse chão existe uma história.
A cada instante se faz uma memória.
Dá pra tentar fazer de conta
Dá pra mentir o tempo inteiro
O que fizemos?
Pelo que lutamos?
O que dizem as plantas, os bichos, as águas, a terra, o fogo e o céu?
Que fechamos os olhos
Que nos escondemos
Que fazemos de conta
E hoje choramos, porque nossa mentira foi descoberta
Porque o mato, o pampa, os bichos, o vento e a terra sempre souberam.
Porque a Mãe sempre sabe. Sempre sente. E faz tempo que ela chora.

A

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