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Kuruma'tá | contra o desencanto

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Kuruma'tá | contra o desencanto

Terraço Baldio. É só subir

Revista Kuruma'tá, 19 de julho de 202619 de julho de 2026

Ontem me larguei para São Gonçalo com o amigo Bráulio Tavares, para algumas horas de cantoria, poesia e encontros. Fazia muito tempo que eu não ia a São Gonçalo, e atravessar a Rio-Niterói, numa noite de sábado, conversando sobre literatura com Bráulio, sobre a linguagem dos animais, das feras, com um violão ao lado, foi uma missão quase aventurosa, ficcional e alentadora, nesse mundo que se revela tantas vezes tosco e violento, mas que também, ainda bem, é belo e delicado, com as luzes misteriosas dos navios brilhando na Baía da Guanabara. Lá pelas tantas chegamos ao nosso destino, o Terraço Baldio.

Na subida da ladeira da avenida Martins Ferreira, no bairro de São Miguel, o Terraço Baldio ocupa um amplo espaço no primeiro andar de uma boa casa de subúrbio, que evoca mesmo a pequena cidade do disco Cidade Coração, de Egberto Gismonti. Mundo de realejos, noites de calçada e conversa jogada fora. Talvez eu esteja romantizando a cena, influenciado pela poesia prometida para noite. Que seja assim. refiro sempre o sonhar. E subindo pela escadinha lateral que nos leva ao terraço, a gente adentra sim um território sonhado, tanto pela ambientação movida a arte e alegria, quanto mesmo pelo papel que ocupa, de ponto cultural certificado pelo Ministério da Cultura, na dinâmica artística e social da cidade.

Pense num lugar carinhoso, em que você é recebido como se estivesse voltando pra casa. Anfitriões como antigas amizades, convivas que chegam e se cumprimentam, gatos circulando e muita arte pendurada nas paredes, fazendo jus à ideia de um espaço cultural para propagação do livre pensamento e da liberdade artística. Cerveja gelada, livros pela casa, petiscos deliciosos e pura simpatia energizando a noite. E a noite foi de Bráulio Tavares, com sua voz, violão e verso; poeta, escritor, roteirista, compositor, um sujeito de muitos haveres e fazeres, que nos brindou com uma verdadeira aula-espetáculo, desfiando canções de sua lavra e também de suas influências, num passeio por uma história muito bem costurada da música brasileira. E que música brasileira é essa afinal? É o que pergunta a narrativa que Bráulio desata para nós, privilegiados… ou melhor, sortudos em ter ele como menestrel. Nós, plateia comovida.

Findo o espetáculo, chamemos assim, pudemos nos alongar em conversas sobre livros, música, cordel e tantos outros temas que merecem muitas conversas. E em tal ambiente, sair de mãos vazias é improvável. Ganhei discos do Edu Aguiar, que escuto enquanto escrevo esse texto, e ainda um livro do poeta Rômulo Narducci, com um escafandrista na capa. Maravilhoso. Recordei-me imediatamente de certa história que contava Ferreira Gullar, do sujeito que entrou no bar Zeppelin vestido de escafandrista, pedindo um maço de cigarros no balcão. E teria comentado o poeta diante da cena: Eta gente esnobe. Olha só, está todo mundo fingindo que um escafandrista entrar num bar é a coisa mais natural do mundo!

Quando a gente vai em lugares assim, cruzamentos de paralelos e meridianos de sensibilidades, as histórias vêm à tona, um verso puxa outro, todo mundo se torna poeta de súbito. Viva o Terraço Baldio, que eu possa frequentá-lo, atravessando ocasionalmente a cidade, de Vila Isabel até lá. Retornamos, após despedidas e abraços, com a madrugada já dando o sinal da graça. E que graça. Com gente assim, como nós, dispostos à aventura do poético, os assuntos não têm fim.


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