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Kuruma'tá | contra o desencanto

A festa literária acabou, mas continua

Revista Kuruma'tá, 28 de julho de 202628 de julho de 2026

TEXTO DE TOINHO CASTRO

A FLIP acabou, mas o trabalho cotidiano da escrita e da literatura continua. Como disse Geraldo Vandré, em fala histórica, “A vida não se resume em festivais”. Dito isto, defendo a festa literária permanente, aquela que acontece todo dia por quem escreve, publica e distribui seu trabalho por aí. Porque nós, que escrevemos com tal amor, precisamos falar da nossa literatura sem medo de ser chato ou de buscar atenção. Pois a atenção das pessoas está indo, em geral, para lugares muito estranhos. Que venha então para minha, para a sua, literatura estranha.

O que é mais divertido na FLIP é ver a quantidade e diversidade de livros que se publicam num país dito “sem leitores”. Eu acredito que o Brasil é um país de leitores tímidos, talvez intimidados; gente que puxa um livro discretamente no metrô. Os números dizem que não, que não há leitores. Mas há muita coisa que os números não dizem. Na verdade, números nem falam. Certo dia, no centro do Rio, na Banca de um amigo livreiro, chegou uma moça pra perguntar o preço de um livro, Iracema, José de Alencar. Primeiro achei lindo uma jovem catar ali na banca um exemplar de Iracema. Ele falou que era dois reais, mas que o livro era dela, que nem precisava pagar. Virando-se para mim, disse: vendo 500 livros todo dia, Toinho.

Brasil leitor esse, que ninguém sabe, comprando livro a dois reais numa banca na rua.

Tem um Brasil que tá lendo os mesmo livros mais vendidos da FLIP, em looping. E tem o Brasil que lê livros que ninguém está esperando, que ninguém está contando. Hoje, eu compro livros basicamente em sebos. Encontro livros livros que não existem mais nas vitrines das livrarias, que rodam continuamente ‘o próximo livro’. Essa máquina de deixar livros para trás. Os sebos são o fundo de catálogo… e vejo muitos brasileiros curiosos, pelos sebos do Brasil.

Saio da FLIP animado com essa gente leitora que se concentrou aqui. Alguma energia doida deve emanar daqui, a despeito das contradições. Assim espero. Eu mesmo saio daqui cheio de ideias e novas amizades. Conversamos muito sobre livros e autores e vivemos a boa vida dos dias de sonho que uma festa assim propicia. Saímos daqui sonhados. Para sonhar mais. Não acredito na distinção entre sonhar e fazer. São coisas que se alimentam. Sabe essa modinha do quântico? Pois, sonhar e fazer estão entrelaçados.

Sonho e escreva. Escrevo e sonho. Escrevo o sonho e o sonhar. Tudo isso é o fazer. Não sei o que será da minha literatura (já me sinto à vontade para falar assim), mas sei que será. Ontem entreguei meus três livros a uma moça que trabalha duro fazendo e vendendo umas coxinhas deliciosas. Ela ficou maravilhada em recebê-los. verdadeiramente encantada com o presente. Ganhar livros. Será que ela vai gostar da leitura. Isso já não importa mais. Polinizar demanda não pensar muito no destino do pólen. Saio da FLIP coberto do pólen de outrem, abelhas e flores que somos.

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