Lugares para chorar no Recife

Texto de Toinho Castro

Não tenho fila de leitura. Meus livros estão espalhados, e vou pegando um ou outro a esmo. Interrompo um livro aberto pra ler o trecho de outro. Emendo parágrafos de livros diferentes; e vou terminando um ou outro ao sabor dos dias, dos ventos, dos acasos. Gosto de ler devagar. Sem aperreio, sem meta ou método. Gosto de ler aos poucos, como quem não quer nada. Como quem não lê. Foi assim que li Lugares para chorar no Recife e outros (editora Seja Breve), do querido Helder Aragão, ou DJ Dolores, como ele assina sua vida de artista.

Feito de textos/crônicas, e poemas/letras de música, Lugares para chorar é um desses livros oraculares, de consulta, que você leva com você mundo afora. O mesmo mundo afora que o autor explorou em suas andanças de DJ, de migrante, de explorador. Mundo feito, sobretudo de encontros, narrados em cada página com doçura e curiosidade. Com olhar crítico, muitas vezes de estrangeiro, mas sempre amarrado às pessoas, ao humano contido em tudo. São lugares onde talvez nunca estaremos, como Abu Dhabi, ou ruas da infância em Propriá, Sergipe, como as ruas de tantas infâncias, muitas vezes escondidas sob camadas e camadas de cidade.

Em tudo se mistura a música, o espírito punk, a Cena, como se diz, fervilhante do Recife, que nos é mitológica e que é feita de jovens, subúrbios, discos emprestados, sonhos malucos, vestuários inventados e estuários. Feito de uma cidade, o ponto fixo nesse Pêndulo de Foucault que é o livro: Recife. No entanto, move-se.

E tudo gira.

Como gira um disco nos bares da zona portuária do Recife ou a ciranda de Lia ou ainda as rodas do Rio Doce/CDU, que conduziu o mangue pra lá e pra cá na Manguetown, essa cidade pra se chorar. Porque entre voos, sets musicais, Naná e Erasto Vasconcelos, filmes de Sganzerla, a croata Slagena e os encontros com Gil e Gonzagão… estão espalhados pela cidade do Recife os lugares para chorar. Como keyframes, Dolores vai alinhando ao longo do livro suas instruções para chorar na Cidade Maurícia, ecoando um Cortázar debruçado no guarda-corpo da ponte Buarque de Macedo, a mesma do poema de Augusto dos Anjos, a cismar com o Capibaribe. E é uma lindeza que se chore assim, ali, no Recife. É também uma leveza esse permitir-se chorar e fazer disso uma invenção.

Li o livro lendo a mim mesmo, eu também que cheguei de fora, pequeno demais ainda, do Rio Grande do Norte. Recife, ponto fixo. E naturalmente procurei nas páginas, e encontrei, os cruzamentos de linha com meus livros, Imbiribeira e Nada existe. Porque crescemos ali, compartilhamos cenários, pessoas e histórias contadas e mal contadas. Estamos, ambos, escrevendo de uma época, de um mundo, mas com os pés nesse aqui e nesse agora. E também o tal do coração. Quando já no finalzinho do livro, ele me fala de Sérgio Loreto, me comovi… porque tem essa passagem no Nada existe, dos meus pais na praça Sérgio Loreto, posando para fotos em 1958. Me vejo acendo, do ônibus, para eles.

De repente falou-se de uma certa cidade chamada Recife, Meus livros, Retratos Fantasmas, de Kléber, e agora Lugares para chorar no Recife e outros. Tem algo de geracional, mas também algo da cidade chamando por essa memória, por essas pessoas. Por essa literatura.

Veja bem, pegue seu exemplar de Lugares para chorar no Recife e outros e meta no bolso. Sm, cabe no bolso. E saia por aí, rumo ao Recife, onde pode-se chorar em paz, mas também escutar uma boa música e encontrar pessoas maravilhosas pra conversar e beber caldinho. Ali mesmo, onde o Capibaribe e o Beberibe se encontram para formar o oceano Atlântico. De onde se vê o mundo.

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