Logo abaixo você terão a oportunidade de ler um release muito completo e bem feito sobre o livro Pequeno manual para ensaiar o grito, da poeta Aline Cardoso, que de pequeno, aliás, não em nada. É enorme. Gigante e corajoso. Mas antes de você chegar ao release, quero dizer que… nem li tudo ainda, enquanto escrevo e publico essas linhas. Mas nem preciso ler tudo para já avaliar em potência os poemas que o constituem. Não se avexe não nessas páginas; cada poema é uma leitura; cada poema é uma necessidade de parar, ler, reler, respirar fundo, repetir em voz alta cada verso. A cada homem, pois, recomendo que leia assim, em voz alta, para materializar as palavras, as dimensões da dor que carregam e afirmam.
Aline Cardoso escreve com maestria e precisão. Seu grito poético, doloroso e dolorido, vai ao cerno, narrativamente, da violência sistêmica, estrutural, contra a mulher, desde a infância, atravessando corpos e sonhos, trajetórias e ideias. Que ela tenha transformado isso em poesia, brutal, por vezes chocante, que alerta e desperta, não me surpreende. Que ela seja a poeta pra dar esse grito e fazer que viremos, todos, o rosto em sua direção, de olhos abertos, também não me surpreender. Aline é a grande poeta paraibana hoje. Com a Triluna, sua editora, ela abriu portas, espaços, janelas; escancarou vozes de mulheres, cis e trans, homens negros, indígenas e pessoas LGTQIAP+, sempre navegando no território da independência. Sempre afirmando a luta, a necessidade de olhar de frente o outro e dizer oque veio a dizer. Só orgulho e alegria com o trabalho de Aline.
Pequeno manual para ensaiar o grito, é o grito dado. Não escutá-lo é cumplicidade com o silêncio. Escutá-lo é multiplicá-lo. É contribuir para que se espalhe e que mais pessoas possam ouvi-lo e reproduzi-lo. Que mais gente possa ensaiar esse grito e possa gritar. Você pode gritar.
por Toinho Castro

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A escritora paraibana Aline Cardoso lança Pequeno manual para ensaiar o grito (Editora Triluna, 2025), uma obra de poesia contundente que atravessa experiências coletivas de violência de gênero, racismo estrutural, trauma, maternidade e resistência feminina no Brasil contemporâneo. O livro chega ao público em um momento simbólico: os 10 anos da Lei do Feminicídio, quando os dados revelam que a violência letal contra mulheres, especialmente mulheres negras, segue em crescimento alarmante no país.
Pequeno manual para ensaiar o grito se afirma como um gesto ético e político ao ser disponibilizado gratuitamente ao público, ampliando o acesso à literatura e à informação em um país marcado por desigualdades profundas. Ao optar pela circulação livre da obra, Aline Cardoso reafirma o compromisso com a democratização do livro, entendendo a literatura como direito e ferramenta de enfrentamento à violência, e não como privilégio restrito. O acesso gratuito reforça a dimensão coletiva do projeto, permitindo que o texto alcance mulheres que, muitas vezes, estão fora da lógica do mercado editorial, mas dentro do centro das violências narradas pela obra.
Com uma escrita direta, por vezes brutal, e profundamente literária, a obra constrói uma espécie de cartografia da violência, da infância à vida adulta, sem recorrer à amenização do trauma, ao contrário, através de uma escrita corajosa e potente a autora assume o risco ético, político e estético de nomear o indizível. Em versos que misturam memória, denúncia e elaboração poética, a autora escreve a partir do trauma, do corpo e da experiência, segundo a autora: “Ser mulher negra no Brasil é como viver em constante estado de fratura exposta”.
Os poemas abordam temas sensíveis relacionados à violência de gênero, entre eles: abuso, violência doméstica e conjugal, controle reprodutivo, violência obstétrica, assédio no trabalho, racismo institucional e feminicídio. A infância surge como território de ruptura precoce, marcada por silêncios impostos e violências normalizadas: “Voltei pra sala sentindo as mãos sujas… mas a sensação de vespeiro não saía com água e sabão”. Ao longo do livro, a violência não aparece como episódio isolado, mas como continuidade histórica que atravessa relações afetivas, instituições e o Estado.
Mais do que um livro de poemas, Pequeno manual para ensaiar o grito é, nas palavras da autora: “Um gesto poético – político – revolucionário”. Aline escreve como quem sobrevive, confronta estatísticas de morte e reivindica o direito à palavra como forma de ruptura com ciclos históricos de silenciamento. O título anuncia a proposta da obra: não oferecer respostas fáceis, mas ensinar, ainda que dolorosamente, a gritar. “Escrevo enquanto driblo estatísticas de morte e destruição. Ainda que o meu tempo não colabore para isso, estou viva”, afirma a poeta.
A maternidade negra atravessa o livro como força de recomposição e projeto de futuro. Ao falar da maternidade, Aline desloca a narrativa da dor para a possibilidade de interrupção do ciclo da violência: “Refaço o caminho por onde minha filha há de passar, estou removendo pedregulhos, armadilhas e crenças feitas para nos neutralizar”. O gesto poético se transforma em estratégia de sobrevivência e reinvenção.
A edição traz logo na abertura um alerta de gatilho, além de informações sobre a rede de proteção às mulheres e contextualização histórica sobre a Lei do Feminicídio, reforçando o compromisso da obra com a responsabilidade social e a formação de consciência crítica. O livro também evidencia a dimensão racial da violência no Brasil, lembrando que cerca de 68% das vítimas de feminicídio são mulheres negras, dado que atravessa muitos dos poemas.
Aline Cardoso é escritora, professora, curadora, produtora e gestora cultural. Fundadora da Editora Triluna, atua há mais de uma década na formação cultural e literária, com foco em vozes negras, nordestinas e dissidentes. É autora de seis livros, Mestra em Linguística (UFPB) e Coordenadora Geral da Pós-Graduação em Gestão e Produção Cultural (Secult/UEPB).
Pequeno manual para ensaiar o grito é um livro necessário, incômodo e urgente. Uma obra que transforma a dor em linguagem e faz da literatura caminho para o enfrentamento de violências, espaço discursivo de batalha e reelaboração do futuro, gestos urgentes, pois, como afirma a autora, “não há como escapar do peso que uma sociedade inteira deposita sobre nós”. Resta, então, gritar.
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