A Elegeram Daniel rei | Parte I Revista Kuruma'tá, 5 de fevereiro de 202029 de julho de 2020 O inspetor chegou a esboçar uma contenção, mas o menino já tinha se virado sobre a lateral e espalmado a mão no chão para se levantar. Mas uma fratura de Colles no rádio direito, como mais tarde anunciaria para a diretora da escola o ortopedista do pronto-socorro, o impediu: numa manifestação exuberante da elasticidade da pele humana, o peso do corpo fez a mão de Vítor se desencaixar, indo parar na metade do braço. [Texto de Diego Franco Gonçales] Continue a leitura...
A O carro do ferro-velho Revista Kuruma'tá, 30 de janeiro de 202031 de janeiro de 2020 Somente o homem do ferro-velho, o dono do carro do ferro-velho, junto com seus asseclas, poderá nos falar do futuro dessas traquitanas. Para saber do que essas estranha pessoas seriam capazes, para entender o que elas estariam tramando por trás dessa óbvia fachada de coletores de velharias ferruginosas, eu e o Zé José seguimos a kombi surrada no seu trajeto monótono pelo bairro e através de outros bairros, num percurso cada vez mais circular e labiríntico… achávamos mesmo que não conseguiríamos voltar. [Texto de Toinho Castro] Continue a leitura...
A Aqueles que foram vistos dançando Revista Kuruma'tá, 25 de janeiro de 202026 de janeiro de 2020 Naquela noite, demorou os três acordes da última música para que os dois fixassem os olhares de uma maneira que, sabiam, seria única. Fagulhas, centelhas, as agruras das velhas canções de amor. Estavam no mesmo lugar, na mesma hora, no mesmo compasso. No entanto, malogravam em cruzar os passos. Seguiam diagramas mentais, nas quais marcas de sapato indicavam direções. [Texto de Eduardo Frota] Continue a leitura...
A Pertinho Revista Kuruma'tá, 22 de janeiro de 202011 de março de 2021 O som dos pássaros na ponta da varanda. Uma cama que eu tenho saudade. Música bonita pra dormir. Luz lilás para dormir. Ou azul. Eu me sirvo de água – enquanto ainda tem para comprar – e me deito. Eu me deito como se o meu lençol fosse o teu. Como se o meu travesseiro fosse, pra você, o meu colo. Imito gestos seus – sem querer – para te ter em mim. [Texto de Caru] Continue a leitura...
A Duas badaladas para as duas da madrugada Revista Kuruma'tá, 13 de janeiro de 20201 de agosto de 2020 Os sinos estão tocando. Você escuta também? É uma espécie de hino que inunda o tímpano. Consegue ouvir os timbres? Tateiam livres o ar até entrar no escuro da cabeça, outrora oca. Ouça! Os sinos estão tocando em mim e já me confundo, porque não sei dizer se isso é o começo de algo lindo ou se é de algo ruim, [Texto de Eduardo Frota] Continue a leitura...
A Agora ele flutuava no espaço Revista Kuruma'tá, 6 de janeiro de 20201 de janeiro de 2020 Entrou no mar com os dois pulmões cheios de ar, o direito e o esquerdo, um tanto sôfrego, à procura do amor. A primeira onda farfalhou pelo corpo e afagou a alma. A segunda o atingiu violentamente no rosto, como uma bofetada. A terceira o cobriu por inteiro, da cabeça aos pés, afogou a alma. Não havia mais horizonte. [Texto de Eduardo Fronta] Continue a leitura...
A Experiência Copacabana #1 Revista Kuruma'tá, 1 de janeiro de 20201 de agosto de 2020 Hoje acordei cedo para ver se a prefeitura limpou essa porcaria dessa Copacabana direito. E até que tava descente. Tendo em vista o hecatombe de humanos que vieram assistir os fogos. Ainda tinha bastante gente dormindo bebadas pelas ruas. Eu tenho um pouco de inveja de quem consegue beber assim. Beber até cair. Não tenho essa manha. Por falar nisso. Sabe quando você tá num bar as oito da manhã virado no rolet, tomando a décima quinta saideira e daí passa alguém com fone de ouvido indo correr. Hoje era eu esse cara! Eu alterno, eu alterno. [Texto de Francisco Paschoal] Continue a leitura...
A Ano que vem será diferente Revista Kuruma'tá, 31 de dezembro de 201911 de março de 2021 O moço que passou da direita para esquerda – atrás de mim – passa agora da esquerda para a direita e tira a segunda foto. Outras cores. Outras sensações. Influenciada, eu também tiro outra. Vício do compartilhar mais uma vez. Eu quero e não quero voltar pra casa. Talvez eu deite aqui na balaustrada mesmo. Talvez eu entre pela porta da sala. Talvez eu entre com fones de ouvidos desligados. Mas isso só eu vou saber. Eu só queria silêncio. Comportamentos quase que obrigatórios. [Texto de CARU] Continue a leitura...
A Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa: A Arte da Guerra (para Marçal Aquino) Revista Kuruma'tá, 20 de dezembro de 201920 de dezembro de 2019 É assim: enfie a faca sempre abaixo do peito, três ou quatro dedos abaixo do centro. É nesse ponto que fica o diafragma. É o ponto mais macio dessa área, porque não tem osso. Enfiar um objeto perfurocortante no peito de alguém é algo que só pode fazer quem tem muita força no braço, senão corre o risco da faca ficar presa no esterno, e pra tirar não é fácil. [Texto de Fábio Fernandes] Continue a leitura...
A A vida é tão possível, neném Revista Kuruma'tá, 13 de dezembro de 201911 de março de 2021 Ela acha. Eu paro quando ouço seu nome. Paro e penso em como é bom estar perto. Já fingi até aqui. Já tentei. Só que não dá mais. Nem quero mais tentar. Agora eu paro – outra vez – porque tenho saudades. E a primeira palavra do meu contrato era não. Eu lembro. Se soubesses o quanto eu tentei cumprir o que escrevi […] Mas a cada vez que eu saía de casa e meu olhar cruzava com o seu, um papel daquele extenso documento – da última à primeira – se dissolvia no espaço-tempo. [Texto de Caru] Continue a leitura...