A porta da Kuruma’tá está aberta! E por ela chegam poemas, cantos, histórias, mundos.
Hoje publicamos três trabalhos inéditos do poeta Otávio Moraes. Que a Kuruma’tá possa ser o primeiro espaço de publicação desses poemas, isso muito nos alegra.
Seja bem-vindo, Otávio. Que sua poesia chegue a todas e todos que passam por aqui, e se multiplique nessas vozes.
Trova,
o mais perto possível
do verbo lua.
Lira,
máquina composta
de vento e corda.
Verso,
viúva enamorada
de marinheiro distante.
Ela, Estância.
Ele, Instante.
Antigos poetas
cantaram a epopeia
do desejo,
suas sete
mil armadilhas:
um banquete
de corpos convulsivos
uivando sem lua.
Eu canto duas
ou três novelas:
donzelas nuas,
caravelas, duas,
em flor.
Canto o cheiro do mar.
Conto os pares de namorados
com seus corpos sólidos
de peixe e de ar.
Deito-me, homem feito, na praia.
Exausto das lides da poesia e do amor]
Durmo um sono, não o sonho dos justos,
mas apenas o dos cansados.
O corpo furtado ao espírito,
apenas ventre, espuma e mar.
Das listas
(poema infinito)
Dos bichos vistos no jardim:
caramujos marrons,
joaninhas rubras,
larvas esbranquiçadas,
moscas verdes,
besouros amarelos.
Dos dias da semana:
quinta-feira —
pelo que promete,
pelo que já atravessou.
Domingo,
apesar da segunda.
Melhor: manhã de domingo.
Se possível: domingo azul,
solar, preguiçoso.
E, por fim, terça-feira —
por ter sobrevivido à segunda.
Um dia veterano.
Das matérias da escola:
primeiro, a redação.
Nunca a literatura —
museu de nomes
e datas.
Depois, a biologia:
reinos, filos, pterodáctilos.
Por fim, a geometria:
ângulos lindos,
nomes bárbaros —
isósceles,
hipotenusas,
catetos.
Otávio Moraes é poeta, professor e pesquisador brasileiro radicado na França. Doutor em letras, atua como leitor de português na Universidade de Nantes. Publicou os livros de poesia Um tigre, um anzol (Caravana, 2023) e História dos pássaros (Nauta, 2025).