A Poesia de Nakamela na Kuruma’tá

Que alegria essa irmã angolana cruzando o Atlântico, para alcançar aqui a Kuruma’tá, em terras brasileiras, com sua poesia. Maria Chimbili, ou Nakamela, em sua identidade poética, é uma poeta/ escritora, nascida na cidade de Huambo, e que reside atualmente na África do Sul. Nossa revista chegou ao seu conhecimento e ela se aventurou, enviou sua mensagem e nós a recebemos comovidos. Que essa seja apenas a primeira ponte com o continente africano e sua diversidade.

Bem-vinda à Kuruma’tá, Nakamela!


(I)ACEITA.AÇÃO

Entre idas e vindas 
   subidas e descidas
   enquanto a vida acontecia 
   encontrei à mim e me vi
Voltei a apaixonar-me
   por respirar
   e dessa pele que me acolhe 
   aprendi a cuidar
Com tudo o que envolve ser eu
   das falhas aos ganhos 
   entre altos e baixos
   eu me escolhi.


(II) Doação ( almas que dão )

Não é errada a forma como me doô
   O problema surge quando  
   tento reconstruir pontes 
   que por mim não tenham sido queimadas
O problema está em fechar os olhos 
   quando o mundo iluminado 
   expõe as mil cores carregadas 
   por cada uma dessas almas
Quando abro os braços 
   e convido outro coração 
   a sincronizar com o meu
   que segue fraco machucado desde a última lesão
O problema é ter medo da solidão 
   ao ponto de alavancar trocas 
   com almas que tiram 
   mais do que dão.


(III) Frequências

Quanta graça 
se aqueles
que preenchem 
o coração 
preenchessem
Os lugares à mesa
Quanta graça 
se as frequências
Continuassem ligadas
E a morte 
Não Interrompesse
Nossas conversas
Quanta graça.


(IV) O que eu desejo

É ser querida pelas pessoas que eu quero 
Quero ser acolhida 
Quero ser bem-vinda 
Ter a sensação de estar dentro
Mesmo estando de saída 
Quero ser procurada
Requerida
Quero que o esforço de criar amor
Seja mútuo e co-criado
Quero que seja nosso, nosso
E que sejamos uns dos outros 
Quero sentir no outro 
O calor que emana de mim
Criar um mar quente 
Com lágrimas derramadas 
De olhos que choram de felicidade 
Quero ser mimada, abraçada, beijada. Quero ser amada, de verdade. 


(V) Ser kota cansa

Não é sobre querer, é sobre ser 
Sobre a consciência transparente
Do nosso papel nesse roteiro. 
É pesado, exige coragem
Coragem, sê leve contigo 
Aprende a falar de amor em voz alta 
Ser kota cansa
Es muito jovem para ir depressa 
E velho demais para perder tempo
O tempo passa, o people baza 
Nos tornamos kotas e os kotas também
Confrontados com dores invisíveis
E decisões difíceis 
Dor no coração é quase normal
Tal como as marcas deixadas 
pelas lágrimas em nossos rostos
Ser kota cansa
Somos acordados pela ansiedade
Quando a depressão nos põe na cama 
Mil caminhos, mil realidades, mil sonhos 
Não temos para onde fugir
O último a sair apaga a luz 
Com o coração pesado
medo do passado
É um futuro incerto
Problemas têm o peso da idade
E o tamanho da cidade 
A verdade é agoniante
Não era esse o nosso sonho 
Não foi esse o nosso desejo 
Lutamos as nossas batalhas 
Lutamos batalhas alheias 
Arenas externas e conflitos internos
“ Possas, tipo que vou pro inferno “
Ser kota cansa
É sobre o brada que faz o que pode
mas nesse caminho ele só f*de
Mas como é que olha para os olhos da mãe 
Que chegou à casa a sangrar depois de um dia 
De luta com aqueles que lhe tiram o pão 
Para poderem ter pão 
Ser kota cansa 
É sobre o medo de ter filhos
Medo de não ter filhos 
Medo de errar a trilha 
Medo 
Ser kota é fingir ter uma força 
Que não se tem 
Ser kota é enganar o coração 
E a mente
enganar o mundo e as vezes 
enganar a nossa gente 
É fingir que está tudo bem
Porque é nisso que precisamos de acreditar 
Até que fique tudo bem
Aqui dentro pelo menos 
Porque chove lá fora 
E o sol se apagou 
Deixa a lágrima cair 
Respira e avança 
Eu sei… ser kota cansa.


GLOSSÁRIO
Kota – adulto
Brada – irmão 


A poeta e escritora angolana Maria Chimbili, conhecida como Nakamela, nasceu no Huambo em 1994. Formada em ciências sociais, a escritora analisa a “cura” como mudança social, pois acredita que o autoconhecimento seja uma das formas de alcançá-la, impulsionando o desenvolvimento pessoal e profissional de cada cidadão.

“Gosto de acreditar que a minha escrita funciona como uma maquina do tempo que leva as pessoas para o passado e para o futuro, aquecendo sentimentos que se encontravam frios e acendendo luzes em quartos esquecidos. Desejo escrever livros que sirvam como arma contra sentimentos que matam.”


A poética Trilogia da palavra, de Mucane Silva

Bem-vindo demais à Kuruma’tá, M. Kenne! Compartilhamos sua paixão desesperada pela poesia e pelo vai-vem da palavra! Sua poesia é mais uma colaboração valiosa que nos chega pelo indox mágico da kuruma’tá! Vem lá das terras da Paraíba, de João Pessoa, onde fica o Cabo Branco, desafiando o Atlântico e as distâncias!

Desesperadamente apaixonado por poesia

Bem-vindo demais à Kuruma’tá, Mucane Silva! Compartilhamos sua paixão desesperada pela poesia e pelo vai-vem da palavra! Sua poesia é mais uma colaboração valiosa que nos chega pelo inbox mágico da kuruma’tá! Vem lá das terras da Paraíba, de João Pessoa, onde fica o Cabo Branco, desafiando o Atlântico e as distâncias!


Maquinári[d]o

Pensa
Pensa
Pensa

Escreve
Escreve
Escreve

Gritavam incansáveis.
mas a mão não obedece

Pensa
Pensa
Pensa

Escreve
Escreve
Escreve

Mas, não
sabem eles que a escrita é manufaturada
Fratura-se a alma do texto
em alinhamentos regrados

A escrita é desengonçada
ziguezagueia
entre o que é
e até onde vai
a mão cambaleante

Pensa
Pensa
Pensa
E as máquinas encaixam
os ossos nos papéis mortos

Perde-se a criação.
A vida e as vísceras
do que se escreve
Escreve
Escreve escreve

Escreve-se o quê, afinal?

 


Calo

o som distoa
a glote se aninha em fuga
e a voz já não sai [como antes]

Nós
empurrados goela abaixo
me dão indigestão

reviram-se, cá dentro
enlaçados
não encontram saída
um após o outro
Nós

a garganta reduz-se
ao mais estridente silêncio
que a rompe

 


Pendendo da boca

A palavra guarda
os mais astutos subterfúgios
Quieta
à espreita. Desliza
em dança na boca
Hip
no
ti
za
Seduz
pronta
pra dar
o
Bote



Professor e poeta, M. Kenne é graduado em Letras – Francês e especialista em Língua Francesa e suas Literaturas pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Tem na palavra o ofício e o reduto, acumulador de histórias, desesperadamente apaixonado por poesia e pelo vai-vem das palavras… que nunca se acabam. Nasceu em outubro de 1997 na cidade de João Pessoa (PB), onde reside e compôs sua primeira coletânea de poemas, “Verter-se em Caos” (2022), pela Editora Triluna.

O Amor Em Silêncio

Texto de Ana Egito


Acompanho-te há tanto tempo, nem percebeste a sombra que desenhava teu corpo, foram palavras e palavras no silêncio dos meus pensamentos.

Iluminaste as folhas que desenhei com teu olhar, nas palavras que saltavam do meu mais tenro desejo.

Cultivei o que me fez viver por longo tempo, o amor silencioso e solitário, nos mornos dias, a lembrança do teu sorriso largo aqueceu minha carne que fraca, não sucumbiria a desejos tórridos, pois que a paixão não se eterniza na febre do querer, por minhas mãos, pude sentir o carinho generoso e fiel a tamanho encanto. Quando levei comigo os nossos encontros literários,  tuas palavras a me embriagar, libertaram o que pensava ser profano, tal medo de liberdade excessiva me feria como desgraça? que nada, o medo do incompreensível prende a língua e os pensamentos, deixando morto o corpo que arde e queima.

Tão perto não te quero, intento assim, platônico, intocável,  insaciável, para te ter nas minhas horas somente, as tuas a meu lado, serão alegremente comuns aos desejados dias certos em nosso comum calendário,  compromisso com livros,  sorrisos, palavras e abraços.


Poemas de Nina Camargo

Inbox da Kuruma’tá à todo vapor! Bem-vinda, Nina Camargo, às águas da Kuruma’tá, com sua poesia destemida e jovem. A nós muito alegra receber talentos como o seu e compartilhar força assim.

Caiçara de Ilhabela, Nina reside em São Paulo, e sua voz fala com gente de toda parte que quiser ouvir. “Eu me pergunto”, diz Nina nos seus versos, nesse mundo de homens e violência e opressão. Se perguntar é subversivo.

sobreviver é histeria

o que é mais feminino do que ser forçada a ficar sozinha
o que é mais feminino do que não ser capaz de se ver sozinha
o que é mais feminino do que ter medo de ficar sozinha
o que é mais feminino do que querer – e não conseguir – estar sozinha
o que é mais feminino do que sobreviver

o que é mais feminino do que não morrer de raiva
porque ensinar já virou rotina
porque cuidar já virou rotina
porque pedir desculpas já virou rotina

o que é mais feminino do que competir por uma vida que não quer
porque nasceu ou se descobriu mulher
porque querer ser mulher é fraqueza
porque não ser mulher, mas acharem que você parece mulher, é fraqueza

o que é mais feminino do que não ser suficientemente mulher
o que é mais feminino do que não ser suficiente

quando penso em quantas vezes mascarei a compulsão com o fumo
quando penso em quantas vezes cobri o seio para não fechar o punho
quando penso em quantos deles se sentaram ao meu lado sem assunto

eu me pergunto

o que é mais feminino do que o silêncio
o que é mais feminino do que gritar e te mandarem fazer silêncio
o que é mais feminino do que não pedir socorro e te perguntarem
mas por que é que você fez silêncio

mãos abanando

nunca toquei as linhas tênues do teu rosto
e as sinto lamber as linhas da minha palma
como se trocassem teorias, gracejos, lágrimas
como se algo nessa troca fosse mais que esboço

entre agonias, subentendidos e pressupostos
encaixei-o em fantasias tolas
como se alguma delas fosse mais que tosca
como se algo nelas fosse um pouco nosso

ouvi as tuas músicas de novo
nunca ouvi tua voz assim tão perto
como se algo aqui fosse concreto
como se nenhum fragmento estivesse solto

ah, meu bem, conte-me: quando, afinal, você vem?
quando, afinal, você vai embora?
quando compreendo que, sem demora,
eu já deveria ter fugido, também?

brinco aqui com esboços de rostos
brinco aqui com linhas tênues de pressupostos
as mesmas músicas velhas de novo
a mesma leveza do que não é nosso

ainda assim, meu bem, eu sufoco
por engrandecer o que não compreendo
por sentir o encontro na passagem do tempo
por sentir o tempo na passagem do encontro

qualquer dia, meu bem, isso passa
dessa vez, quando choro, é sem peso
não sinto medo do depois que desconheço
e o que conheço agora já me transpassa

bons tratos e mariposas

fugir da dor de cabeça três vezes em uma terça,
debruçar-se na mesa torta, odiar o formato da boca.
escrever em silêncio escondida do sol,
odiar o ministro, tentar ser mais boba.

fazer-me de sonsa cinco vezes até quinta,
ter preguiça de justificativas e de moscas.
ter a impressão de não ser tão sensível
por gostar de ser bons tratos e de mariposas.

impor uns limites aqui e acolá, nem todos muito justos,
mas há de se reconhecer a coragem do intento.
ainda não saber o que gosta de si, o que gosta da vida;
ser indecisa, ingênua e não saber abraçar o contentamento.

há um longo caminho até se parecer consigo mesmo;
há camadas impostas o bastante para que se viva abrindo janelas. antes da segurança e da certeza, portanto,
esqueçamos um pouco o reconhecimento
e passemos a enxergar a beleza das frestas.


Nina Camargo tem 21 anos e é pedagoga, estudante de História da Arte e poeta. É caiçara de Ilhabela, mas mora em São Paulo. Ama gatinhos, crianças, padarias e livros de fantasia. Em seu Instagram, @iapoes, compartilha poemas inspirados em obras de arte e experiências cotidianas.


Mostra Itinerante de Curtas

Gente, Kuruma’tá chegando em cima do lance pra falar desse projeto lindaço que é a Mostra Itinerante de Curtas, uma iniciativa que nasceu no Rio de Janeiro em 2011, e agora chega a outros quatro Estados pela primeira vez. São alunos de Ensino Médio e Fundamental de Camaçari (Bahia), Várzea Paulista (São Paulo), Vitória (Espírito Santo), Macaé, Duque de Caxias e Niterói (Rio de Janeiro) que participaram das oficinas de Cinema que resultaram na produção de curtas metragens concebidos e realizados por eles – do roteiro à edição final .

A Mostra Itinerante de Curtas apresentará os resultados da 12ª edição do Programa Imagens em Movimento (PIM) em sessões gratuitas e abertas ao público, a serem realizadas até o dia 8 de dezembro, nos 7 municípios em que o projeto atua. Ao todo, serão exibidos 35 curtas-metragens seguidos de debates com os jovens realizadores brasileiros, além de curtas feitos por estudantes de outros países. 

O público do Rio de Janeiro verá os filmes dos jovens a partir desta terça, 22 de novembro, das 9h às 12h, em sessão no Planetário do Rio, na Gávea. No dia seguinte, 23, também das 9h às 12h, será a vez de ocupar o Espaço Itaú de Cinema, em Botafogo. A garotada de Niterói vai se encontrar na sexta, dia 25, das 12h às 15h, na Reserva Cultural Niterói, em São Domingos. E a última sessão no Rio será na quinta, dia 1º de dezembro, das 13h30 às 16h, no Memorial Getúlio Vargas, na Glória. Depois das exibições, haverá debates com alunos da rede pública.

“Esse projeto nasceu de um desejo que poderia ser considerado utópico, de colocar os estudantes de escolas públicas brasileiras em situação de igualdade com alunos de outros países como França, Alemanha ou o Japão. É claro que eles vivem realidades absolutamente distintas, inclusive no que diz respeito ao contexto da educação pública de cada lugar. Mas através da experiência criativa do cinema e do encontro com essa arte, tem sido possível, sim, realizar este sonho”, conta Ana Dillon, diretora do Programa Imagens em Movimento e fundadora da ONG Raiar.

A juventude fazendo filme é de emocionar!

Confira alguns curtas!




PROGRAMAÇÃO DA MOSTRA ITINERANTE DE CURTAS METRAGENS DO PIM (sessões gratuitas e abertas ao público em geral)

ESPÍRITO SANTO | Vitória

QUANDO: 16 novembro (quarta), das 11h às 12h

ONDE: Auditório da EMEF Moacyr Avidos – Av. Jurema Barroso, 58, na Ilha do Príncipe, em Vitória, no Espírito Santo – ES

RIO DE JANEIRO | Macaé

QUANDO: 17 novembro (quinta), das 14h às 16h

ONDE: Auditório do NUPEM/UFRJ – Av. São José do Barreto, 764, em São José do Barreto, Macaé – RJ

RIO DE JANEIRO | Capital

DIA 1

QUANDO: 22 de novembro (terça), das 9h às 12h

ONDE: Fundação Planetário da Cidade do Rio de Janeiro – Rua Vice-Governador Rúbens Berardo, 100, na Gávea, no Rio de Janeiro – RJ

Debate com alunos das escolas municipais Orlando Villas Boas, Calouste Gulbekian e Frederico Trotta

DIA 2

QUANDO: 23 de novembro (quarta), das 9h às 12h

ONDE: Espaço Itaú de Cinema – Praia de Botafogo, 316, em Botafogo, no Rio de Janeiro – RJ
Debate com alunos do Colégio Estadual Adelina Castro e do Colégio Estadual José de Souza Marques

DIA 3

QUANDO: 25 de novembro (sexta), das 12h às 15h

Local: Cinema Reserva Cultural Niterói – Av. Visconde do Rio Branco, 880, em São Domingos, em Niterói – RJ
Debate com alunos das Escolas Municipais José Emygdio de Oliveira, Profª Lúcia Maria da Silveira Rocha, Profº Dario Souza Castello e Maestro Heitor Villa Lobos

DIA 4

QUANDO: 1º de dezembro (quinta), das 13h30 às 16h

ONDE: Memorial Municipal Getúlio Vargas – Praça Luiz de Camões, s/n, subsolo, na Glória, no Rio de Janeiro – RJ
Debate com alunos das Escolas Municipais Ayrton Senna da Silva, Roraima, Pracinha João da Silva e Araújo Porto Alegre

SÃO PAULO | Várzea Paulista

DIA 1

QUANDO: 28 de novembro (segunda), das 9h às 12h

ONDE: Grupo Cine (Shopping Alegria) – Av. Duque de Caxias, 2225, no Sítio do Moinho, na Várzea Paulista – SP

Debate com alunos das escolas E.E. Tiburcio Estevam de Siqueira, E.E. Mitiharu Tanaka, E.E. Monsenhor Hamilton José Bianchi e E.E. Lavignia Ribeiro Aranha

DIA 2

QUANDO: 29 de novembro (terça), das 9h às 12h

ONDE: Grupo Cine (Shopping Alegria) – Av. Duque de Caxias, 2225, no Sítio do Moinho, na Várzea Paulista – SP

Debate com alunos das Escolas Municipais Armando Dias e João Nalini


BAHIA | Camaçari

DIA 1

QUANDO: 7 dezembro (quarta), das 13h30 às 16h30

ONDE: Teatro Alberto Martins – Rua Eixo Urbano Central, no Centro, em Camaçari – BA

Debate com alunos da Escola Municipal Cosme de Farias e dos Colégios Estaduais Professora Nadir Araújo Copque e José de Freitas Mascarenhas


DIA 2

QUANDO: 8 dezembro (quinta), das 8h30 às 11h30
ONDE: Teatro Alberto Martins – Rua Eixo Urbano Central, no Centro, em Camaçari – BA

Debate com alunos do Centro Territorial de Educação Profissional Região Metropolitana, Colégio Estadual Gonçalo Muniz e Colégio Modelo Luís Eduardo Magalhães Camaçari-BA

Arrastando | texto de Rafaela Navas

Mais uma bela colaboração que nos chegou via nossa chamada aberta para publicação. Essa resposta é maravilhosa e nos dá gás e alegria para continuar. Rafaela Navas é do interior de Rondônia! Isso é o Brasil nos abraçando.

Fiquem agora com esse texto bonito da Rafaela. Que venham outros. Estamos aguardando, Rafaela! Seja muito bem-vinda!


Nos arrastamos todos os dias.
Da cama, do quarto, de casa.
Do trabalho para casa, de casa para o trabalho.

Às vezes estamos arrastando aquilo que chamamos de corpo para festas, bares, shoppings e outros lugares. Nada disso faz sentindo na sua vida, portanto continua a se arrastar para lá e para cá. Só que chega uma hora que isso cansa, que não suportamos mais viver se arrastando, damos como vencido para o cansaço, nos entregamos.
E sabe o que acontece?
Nada. Não acontece absolutamente nada.

Deixamos a vida passar, tudo continua e não vamos nos arrastar mais. Isso ficou lá no passado; não importa mais! A vida, a família, nós mesmos.

O tempo só flui através do universo, pessoas tristes fingem estar felizes o tempo todo; pessoas felizes fingem estar feliz quando não está; e nada e nem ninguém pode mudar. Quando desistimos ninguém se importa, nem a gente mesmo. Então por isso continuamos nos arrastando por ai sem rumo, sem direção exata, sem vida e sem futuro.

Aonde é que vamos chegar?

Isso que não consegues falar; está te sufocando e você não sabe quando parar, dar um pause e não se entregar, a vida é um mistério, é um carrossel que não para de girar, um soneto uma peça para mudar.
Uma hora terá que parar de se arrastar.


Rafaela Navas é acadêmica em Medicina Veterinária pelo Instituto Federal de Rondônia; reside no interior do estado de Rondônia. Escritora e Poetisa, já teve suas escritas publicadas em antologias e revistas nacional e internacional, teve o seu primeiro livro de poesias publicado aos 19 anos intitulado por “Se o Universo falasse” pela editora curitibana Toma Aí Um Poema.


PS. Não consegui identificar o autor da arte que ilustra esse texto, mas mantive sua assinatura. Se alguém souber, avise a gente, que quero creditar.


A poesia de Lorena Lacerda

O inbox da Kuruma’tá é uma caixa mágica. Uma caixa poética, por onde me chegam as vozes diversas desse Brasil múltiplo, singular. E hoje é a vez de Salvador, Bahia, nos encantar com a poesia de Lorena Lacerda, que nos chega numa flecha só.

O inbox da Kuruma’tá é uma caixa mágica. Uma caixa poética, por onde me chegam as vozes diversas desse Brasil múltiplo, singular. E hoje é a vez de Salvador, Bahia, nos encantar com a poesia de Lorena Lacerda, que nos chega numa flecha só.

Seja bem-vinda, Lorena! A Kuruma’tá é nossa!


Uma flecha só

No meio da mata
A onça me ataca,
Como um camaleão
Eu me camuflo
Ela não me escuta
E nem me vê

No meio da mata
Eu vou à caça,
E então me deparo
Com uma naja,
Mas como uma boa caçadora
Já tenho meu plano B

Na caça da vida
Sou atiradora,
Não fujo de batalha
Por mais que seja desesperadora

Na caça da vida
Vou com uma flecha só,
Analiso o perímetro
Cálculo os riscos
E atiro.
Eu atirei e ninguém viu,
Senhor Oxossi é quem sabe
O que a menina pediu.


As moças que todos temem

Não é novidade pra ninguém
Que mulher com poder
Respeito não tem.

Não é novidade pra ninguém
Que ter Maria no nome
Pode assustar alguém.

Mas… As Marias dessa poesia
São as mais temidas,
São as famosas Pombagiras.

Da calunga à estrada
Da malandragem de Navalha
Temem, mas sabem pedir.

As moças sempre te ajudam
Mas da mesma forma que o mundo faz com as Marias encarnadas
Depois delas fazerem sua “função”,
Falam mal
E descarta-as


Trovões

Trovejou,
Ventou,
É o sinal….
Ela levantou.

Saiam da frente,
Com a força do búfalo
Ela irá passar,
Mas não se preocupem,
Como uma bela borboleta
Isso vai te encantar.

Me ensinou que ser forte
Não é ser bruta,
Que a vida é uma luta
Que devo ganhar de forma astuta.


Ser sua

Vire o espelho para si
Se admire em cada detalhe
Se idolatre

Não, não é egoísmo
Você precisa está bem
Faça o que lhe convém

Quem me ensinou
Foi uma bela iabá
Que se enche de ouro
A riqueza de oxalá
Principalmente quando se encontra
Com as águas de mãe Iemanjá

Colha os lírios
Fique sob o clarão da lua
E sinta como é bom
Ser sua.


Sereia

Sim, sou sereia
Com minha pele preta
Meu corpo gordo
E de cabelo curto,
Sereia que canta em um tom grave
E tem posicionamento astuto.

Com olhar nem um pouco angelical,
Sereia de água quente,
Onde o mar quase pega fogo
Onde marinheiro passa e faz cara de desgosto.

O marinheiro queria…
A minha bela voz doce,
Os meus cabelos longos e pretos,
O meu corpo curvado, perfeito!

Ah… Marinheiro
O mar pegou fogo
O peixe palhaço deu sinal,
Por que essa sereia no seu corpo
Respeitou sua ancestral.

SEREIA – Arte digital de Toinho Castro

Lorena Lacerda é poeta, Auxiliar de Secretaria e estudante das Terapias Integrativas. Soteropolitana, amante de todas as vertentes da arte, umbandista que faz parte da curimba do seu terreiro, o Templo e Escola Umbandista Pai José de Aruanda, onde canta e toca atabaque. A escrita e a música são as bases que compõem quem é Lorena, e ela compartilha tudo isso no Instagram @ecleticalorena.

Misericordia Dei

Texto de Ana Egito — Compaixão,  sentimento presente nas almas humanas que desconhecem a solidão, assim como o não, suas frases, narrativas, tem sempre a primeira palavra a que conforta, anima, enaltece, desenhando a mão estendida, o braço a sustentar o peso que a vida suporta.

Texto de Ana Egito


Compaixão,  sentimento presente nas almas humanas que desconhecem a solidão, assim como o não, suas frases, narrativas, tem sempre a primeira palavra a que conforta, anima, enaltece, desenhando a mão estendida, o braço a sustentar o peso que a vida suporta.

Bendita é a voz que chama, ao ver em aflição os que só conhecem a voz interior,  onde só Deus está presente, bendito é o amor que traz de volta a paz sonhada.

Uma guerra está prestes a surgir quando o mundo se enche da incapacidade de respostas, o conhecimento faz um rei, a ignorância cria ditadores, a inveja veste os incrédulos, a soberba crava a coroa na cabeça que de vazia, tomba a esmagar os que galgam o progresso para o bem de todos.

Escalar a montanha e se despir de suas próprias vontades, é mesmo um sacrifício,  e se Deus é a personificação do amor, louve a cada passo, agradeça e será agraciado, no topo, vislumbrará as velas acesas dos que elevaram seu pensamento para que seu sacrifício fosse reconhecido por virtudes que só os abençoados são capazes, os que crêem na força capaz de remover cicatrizes doloridas e insuportáveis causadas pelas chagas de um tempo de lágrimas e pouca fé.

Se acredita, será essa a verdade, ela é luz em sombra, mansidão na hora mais esperada, uma porta que se abre, hora de recomeçar.

Foto de Ana Egito

Elis e Karen, 1981

É com alegria gigante que a gente recebe na Kuruma’tá, o escritor, o amigo, Rodrigo Santos, autor dos livros Macumba, Carcará, agraciado com o Prêmio Kuruma’tá de melhor livro de 2021, e o recente Fogo nas Encruzilhadas, entre muitos contos publicados na mais diversas antologias!

Texto de Rodrigo Santos

Foto: Anibal Philot / agência O Globo 1981

— Vambora, meu povo, vamos dar adeus a 1981!

Eu me escorava em um canto, esperando o White Horse falsificado se diluir um pouco no gelo e se tornar minimamente agradável, enquanto a socialite Dorinda de Assis Garcia borboletava pelos convidados como uma fada — uma fada bêbada, é bem verdade — conjurando o ano bom que se iniciava, em sua cobertura em Copacabana.

Eu havia publicado algumas crônicas no Jornal do Brasil, sobre cultura em geral, inclusive música, o que me havia angariado o convite de Nelson Motta para aquela festa. “Precisamos de artistas, escritores, poetas! Essas festas são o auge da caretice carioca, precisamos de amor!”, me dissera ao telefone que eu mal conseguia pagar, naquele kitinete da Rua da Conceição, em Niterói.

Foi assim que, do nada, o escritor de São Gonçalo debutava no grand monde, com glamour e sem dinheiro. A primeira barca de volta para Niterói saía às cinco e meia da manhã — era a minha meta final — enquanto eu tentava fazer contato com algum editor que se dispusesse a publicar meu romance de estreia, o “Mágoa”.

“Parece um romance de alguém que não é romancista”, havia me dito o Cléber Rocha, do jornal “O Fluminense”, o mais vendido em Niterói, cidade que havia sido capital do Estado e que agora amargava uma segunda divisão política. Mesmo assim, era melhor do que ficar em São Gonçalo, minha cidade natal, sendo reduzida gradativamente de cidade industrial para cidade dormitório. Mas nada disso importava naquele momento, ali eu tinha uísque (mesmo que de procedência duvidosa) e canapés. Meu último réveillon tinha sido na portaria do prédio, com coxinhas e Brahma Chopp quente, então eu estava no lucro.

Rostos conhecidos circulavam na multidão, como era de se esperar. Nelsinho passou e me apresentou ao José Augusto, grande compositor. “Tão grande quanto o Roberto, bicho!”, dizia ele. “Este é o escritor de que te falei”, complementava, apenas para trocarmos o olhar condescendente de quem está na pista há muito tempo.
Eu estava prestes a cumprimentar o craque Zico e sua esposa, a Sandra, quando Nelson me chamou num canto. O Flamengo havia acabado de ganhar o campeonato mundial, e eu, como bom rubro-negro (quase me chamei Mengálvio, vejam só) ansiava pelo momento de apertar a mão do Galo. Até porque estávamos entrando em ano de Copa, e não tínhamos tanta certeza de um caneco desde 1970! Mas Nelsinho tinha outros planos.

— Esse aqui é o escritor de que falei, Rodrigo Santos. De São Gonçalo.

A pequena notável então abriu o sorriso com os olhos, e exibiu os dentes pequenos. Eu já entrara em anos, não me deixava levar pelas modas musicais desde a decepção com a bossa nova, mas Elis era diferente. Transcendente, reluzente, picante.
Não lembro exatamente do que falei (aquele White Horse certamente era paraguaio), mas não acredito que tenha conseguido me comunicar com muita clareza. Elis vinha com o César, seu marido — e grande pianista — e as crianças. João Marcelo era grande, 11 anos já, parecia querer sair dali pra brincar, mas tinha que olhar seus irmãos menores, o Pedro e a Maria, de 6 e 4 anos.

“Gostei muito da versão de Carinhoso que você fez com o Delmiro”, falei com o César, meio balbuciante, mas não acredito que ele tenha prestado muita atenção. João Marcelo tinha sumido, Elis segurava o Pedro pela mão, Maria chorava. Voltei para o copo vazio, e acendi um Continental sem filtro.

A festa se completava em volume e espécie. Renée de Vielmond transitava e exibia o luxo de estar no ar com a novela “Brilhante”. Todos esperavam por Tarcísio Meira, o protagonista, mas ele não apareceu. Lucinha Lins e Cláudio Tovar exibiam sorrisos solares, apagando a vaia do recente festival. Eu fiquei conversando com o César sobre jazz, MPB e escrituras. Lembro inclusive de conversamos sobre mitos gregos na literatura, e acredito até que tenhamos falado sobre Édipo e Jocasta, que anos depois seriam tema de novela e trilha sonora.

Deviam ser já quase onze horas quando eles entraram. O Brasil ainda era uma colônia provinciana que se recusava a entrar nos anos 80, então não se surpreenda que gringos — ainda mais gringos famosos — nos deixassem extasiados. Ele, de cabelinho Príncipe Valente e smoking, branco como uma vela, destoava. Ela, uma beleza no olhar e no sorriso, mas um manequim vazio em seu vestido azul de franjas, despertava um misto de pena e amor de pai em todos nós, quase pedindo um abraço. Os Carpenters.

Nelsinho, onipresente, em poucos minutos nos unia.

— Essa é a Karen, e seu irmão Richard. Richard! — Esse já havia se esgueirado com um novo amigo, um moreno de Copacabana que eu apostava ser um desses arruaceiros que chamavam de Gracie.
Foi quando a pequena Maria correu e puxou o vestido de Karen, trazendo sua mãe a tiracolo.
— Olha, que criança linda! — vou poupar vocês de anglicismos, a tradução é gratuita na maior parte do tempo.
Maria apenas sorriu, envergonhada, e escondeu o rosto na barra do vestido da mãe. Usava uma presilha vermelha nos cabelos, combinando com seus óculos e sua bochecha rosada.
— Karen, esse é o César, grande pianista.
— Ah, olá!
— Vou deixar você aí, tenho que falar aqui com o pessoal.
Nelsinho então nos deixou a sós. Eu, um escritor provinciano e penetra, batendo um papo com Karen Carpenter e César Camargo Mariano. E Elis.
— Ah, você é a Elis Regina! — Disse Karen. — Ouvi falar de você. Lembro de ter visto um vídeo seu, cantando uma música chamada… Desculpa, meu português é péssimo. Como nosso país, é isso mesmo?
Elis, que tirava uma colher de plástico da mão de Maria, entrou na conversa.
— Isso, isso mesmo. Como nossos pais.
— Quando cantei com a Ella também me falou muito bem do Brasil… Falou-me sobre você, sobre Elza Soares. Até brincou com a semelhança dos nomes, Ella e Elis.

E o papo engrenou. Elis estava em cartaz no Canecão com o show “Trem Azul”, de seu último disco; Karen e o irmão haviam feito um show nas Casas Sendas, no mês anterior. Para o mundo, a turnê dos Carpenters tinha acabado em novembro, mas os irmãos (muito mais por insistência do Richard, devido a sua amizade com o Badu, dos Tincoãs) decidiram ficar para o réveillon de Copacabana — que não tinha ainda a grande queima de fogos, mas já trazia suas multidões vestidas de branco para saudar Iemanjá, independente do credo.

Eu ainda tentei entrar no papo umas duas vezes — quando falavam de praias, não pude deixar de vender Itacoatiara, claro — mas a estupefação era maior. Pedro e Maria estavam brigando por algum motivo, e eu separei, protegendo a menina, que sorriu pra mim.

— Então, você é escritor? Escreve o quê?
Richard Carpenter havia se desvencilhado de seu boy e decidiu socializar com os outros mortais.
— Romance — novel, isn´t it? — Poemas.
— Ah, eu gosto de poemas! Sobre o que fala seu romance? Sobre carnaval, futebol? Já sei, sobre macumba? — E abriu o seu sorriso marca registrada.
Os gringos sempre acham que a gente vive sambando, rezando, fazendo embaixadinha e bebendo caipirinha.
— Não, não. Mas pode deixar, no meu próximo livro eu falo sobre macumba. — A ideia não era de todo má, não é?
— Ah, awesome! Batmacumba yê yê, batmacumba obá! — Ainda bem que ele era pianista.
— Você curte um pó? Caía bem agora…
— Pó? Não, obrigado. Mas pera aí que vou ver se descolo um para você.

Nem foi difícil, em menos de dez minutos Nelsinho trazia Daniel Filho, que salvava a gente. “Você vai ficar só nesse cavalo paraguaio aí?”, ainda fez troça da minha cara. Mas meu negócio era só birita mesmo. Talvez um fino, mas não queria perder nada daquela noite.

— Vamos todos saudar 1982, o melhor ano de nossas vidas está chegando! — Dorinda assim chamava a todos para o espetáculo da queima de fogos. Olhei para o relógio, faltavam poucos minutos para a meia-noite. Garrafas de champanhe e taças começavam a passar de mão em mão, e uma logo escolheu a minha mão como pouso e repouso, amém.

Fomos para a sacada, um grupo feliz entre tantos outros. Elis ria, jogando a cabeça para trás, e bebia o champanhe, brindando com Karen. Richard coçava o nariz e olhava em volta, à procura de algo (ou alguém?). César segurava em seu colo o pequeno Pedro, que já dormia. Pelo canto do olho eu vi o Sérgio Machado, filho de Seu Alfredo, um dos fundadores da editora Record. “Bom, não vim aqui apenas pra beber champanhe”, mas não consegui me desvencilhar do grupo pois Maria segurava a minha mão.

Após a contagem regressiva, o mundo se iluminou em barulho, com fogos e saudações efusivas. Maria, com medo, pulou no meu colo, e juntos vimos 1982 nascer, entre gritos de “Feliz Ano Novo!” e taças se partindo. Karen nos deu um abraço conjunto, amassando a menina e lhe dando um beijo estalado na bochecha — que Maria logo limpou com as costas da mão.

— Quem é essa moça?
— É a segunda maior cantora do mundo. — Eu falei.
— Mamãe é a primeira?
Apenas sorri.
— Você também vai ser cantora quando crescer?
— Eu não. — respondeu, balançando a cabeça com força e pulando do meu colo e indo pegar na mão da mãe.

Eu tinha que seguir com o meu plano inicial, Sérgio já me escapava do foco. Dei um beijo na cabeça da menina Maria, e cumprimentei Elis, com felicitações de Ano Novo. Karen Carpenter chegou, com mais uma taça de champanhe. Eu segurava a minha garrafa fechada com egoísmo de quem tinha o ano de 1982 pela frente para beber Brahma Chopp quente.

— Nelsinho! — Pronto, achei a ponte que me levaria ao Sérgio. Mas não podia ir embora sem me despedir da estrela estadunidense.
— Karen! Prazer viu? Olha, deixa eu te dizer uma coisa. — Peguei no ombro de Elis e a virei na nossa direção. — Você é maravilhosa, mas a nossa superstar é essa aqui, tá? — e fugi para o salão, saindo com Nelsinho à procura daquele que poderia finalmente publicar o meu primeiro livro, o “Mágoa”.

O resto é resto. O ano de 1982 acabou não sendo o melhor ano de nossas vidas, como a nossa anfitriã previu. Menos de dois meses depois, o mundo perdia a sua maior cantora, a mãe de João, Pedro e Maria. A melhor seleção brasileira de todos os tempos não trouxe a taça pra casa e, pra piorar, no ano seguinte a segunda maior cantora também nos deixou. Não consegui publicar o “Mágoa” pela Record — o que não significou muito, o livro foi um fracasso. Ironicamente, anos depois, lancei um livro chamado “Macumba”, que dediquei ao Richard pela ideia. Cheguei a lhe enviar um exemplar, mas nunca obtive resposta.

E a pequena Maria, de óculos e presilha de cabelos vermelhos, medo de fogos de artifício e bochecha rosada, virou um grande cantora, como aquelas que saudaram a chegada do ano de 1982 na sacada da cobertura de Dorinda de Assis Garcia, acompanhadas de um escritor medíocre — porém esforçado — de São Gonçalo.


Vencemos | Pela lente de Ana Vallestero

Comemoração da vitória de Lula no Recife pela lente de Ana Vallestero — Foi uma alívio no peito, o sopro de angústia que nos deixou. Sabíamos que ele iria utilizar-se da máquina para tentar modificar o destino. Mas se tem algo que não se muda é a força de vontade do Nordestino. A gente é Carcará, não adianta tentar desviar, o bote é certeiro!

Celebrações da vitória de Lula no Recife


Foi uma alívio no peito, o sopro de angústia que nos deixou. Sabíamos que ele iria utilizar-se da máquina para tentar modificar o destino. Mas se tem algo que não se muda é a força de vontade do Nordestino. A gente é Carcará, não adianta tentar desviar, o bote é certeiro! O resultado já estava escrito pelo povo guerreiro, espalhados por todo o mundo mas concentrado numa região que grita e quando grita o resto do mundo ouve. E nesse dia todos nós em uma só voz gritamos “Lula Presidente do Brasil!” Na verdade foi… “Ei Bolsonaro, Vai tomar no … O resto vocês já sabem.

— por Ana Vallestero