Delícia, Delícia [Mariana Volker ao vivo]

Texto de Toinho Castro

Ontem eu e Raquel assistimos ao novo show de Mariana Volker, Delícia, Delícia, no Teatro PRIO. E, gente… que show. Mariana falou que esse espetáculo era o primeiro, uma sementinha, de algo incrível, que tá em movimento, nascendo e se transformando diante da plateia. O que vimos não foi uma sementinha, mas um jardim inteiro, le jardin féerique! Ou, mal parafraseando Jorge Luis Borges, o jardim das canções que se bifurcam. Isso porque Delícia, Delicia aponta tantas direções. Não porque atira para todos os lados, pois todo o repertório está ligado ao centro poderoso que Mariana, com sua banda, sua fidelíssima parceira de tudo Carol Mathias e suas parcerias preciosas, está elaborando. Tudo está no lugar. Não porque não se mexe. Ao contrário; porque ocupam o espaço e tempo precisos, alentados em sua própria dinâmica e orquestrados num conjunto que encanta.

Que sou fã da Mariana, ao contrário do título de sua nova canção, não é segredo. Falo do trabalho dela pra todo mundo e seu disco Impossível dizer que não senti é um desses que eu queria muito ter em vinil; tem toda aquela carga afetiva que um LP de 12 polegadas carrega. Todo o charme.

Em Delícia, Delícia Mariana conversa com a banda, com a plateia; conversa com Gil (com uma leitura de Feliz por um triz, na edição reloaded dos 41 anos do Raça Humana), com Gonzaguinha, conversa com Sade, com versões absolutamente lindas para Paradise e Is it a crime. Canções inéditas também aparecem, pontuando o show como keyframes, brilhando num cenário já de riqueza e inspiração. É um show de todo mundo e Mariana entrega e se entrega, solta no palco, à vontade e luminosa com sua alegria que fazer o que ama, Sólida, consistente e ousada, ela promete surpresas e emoções nos próximos capítulos desses projeto que já começa lindo.

Delícia, Delícia, o show, é o hoje, é também reunião de um ontem que vibra e já é o amanhã que Mariana desenha ali no palco. E se você perdeu esse, não perca os próximos! Escrevo esse texto feliz de ver uma artista muito ciente de si e sua trajetória. De poder escutar esse conjunto de canções tão bem alinhadas, num palco que diz tanto com seu cenário, luzes, tecidos e gestos, contando uma história nova, que apenas começa e já é grande.

Poemas de Rayana de Carvalho

Rayana de Carvalho nasceu em Santa Rita, Paraíba, em 1993. É poeta,
escritora e educadora popular do campo. Formou-se mestra em educação pela
Universidade Federal da Paraíba, em 2018, e atua como professora da
educação infantil.

Amor fúnebre

A este amor fúnebre, 
revelo,
não há como competir.

Aos mortos, dedica-se tudo que há no mundo. 
Os enlutados reservam o que há de melhor à mesa: 
os rituais,
as saudades, 
o amor,
a prece mais bela. 

A morte é o parâmetro do caráter.
É onde habita a benevolência.
Contraditoriamente, 
revela-nos um lugar de celebração à vida. 
Amam-se os mortos, 
mas não há ninguém que queira estar no lugar deles. 


Sonhos

Na calada da noite 
encontro-me 
em pálpebras
entorpecidas 
na escuridão 
o inconsciente me liberta
deste espaço-tempo
não há passado 
presente 
ou futuro
tudo acontece ao mesmo tempo 
imagens oníricas produzem uma dança
de descoberta a qual me
reinvento
imersa nessas narrativas
vejo-me além 
tudo me é epifânico
encontro-me em estado mítico
no silêncio da noite

são traçados os meus destinos
o inconsciente sabe cousas
impossíveis de prever.


Onírico ou metafísico?

É noite
adormeço
ou melhor
desencarno
vejo um sonho
não, não
vejo um plano
neste lugar imaterial
ocorre o tão esperado encontro
quis dizer
reencontro
tu e eu
separados por uma realidade
extrafísica
espaço-tempo em que
vida e morte se encontram
percebo
não é um sonho
é uma reunião entre espíritos
eu e tu
lucidamente
és sorriso
és real
como da última vez
onde tudo é possível
vida e morte se encontram
para o acerto de contas.


Rayana de Carvalho acredita na potência da literatura, o que a levou a cofundar,
em 2021, o projeto @mulheresquecorremcomlivros, ao lado de Ellaila Andrius e
Rayssa de Carvalho – um clube de leitura voltado à formação literária e à
divulgação da literatura escrita por mulheres, clássicas e contemporâneas.

Em 2024, participou de sua primeira antologia literária, sendo uma das
vencedoras do Concurso Literário Luiza Tereza, com poema selecionado para
o livro intitulado “Um rio na ponta da língua”, publicado com incentivo da Lei
Paulo Gustavo – Governo do Estado da Paraíba em parceria com a Secretaria
de Cultura. No mesmo ano, teve textos publicados em diversas revistas, como
a Acrobata e Ruído Manifesto, além de estrear na narrativa ficcional com um
conto na Revista Sucuru.

Em 2025, ampliará o seu projeto de formação literária, levando-o às escolas da
rede municipal onde atua, por meio de projeto financiado pela Lei Aldir Blanc.

PLAYLOST: A melhor música brasileira é produzida por mulheres!

Uma playlist da Kuruma’tá com uma fração da diversidade múltipla e luminosa da produção musical das mulheres maravilhosas da música brasileira.

Confiram e deixem sugestões nos comentários!

Afogados

Um texto de Hasu Mei


Donatela e Cornélio vieram do interior da Paraíba para a capital pernambucana em busca de capacitação nos estudos. Um dos vários problemas que vivenciaram foram as chuvas e os alagamentos na cidade, contanto sua percepção destes problemas alterna com determinados fatores.


Era 14 de Janeiro de 1990. Donatella Figueiredo já havia completado o ensino fundamental e médio em Conceição da Paraíba, andando todo dia quilômetros para chegar à escola. Era sempre muito concentrada, apesar dos ventiladores quebrados e barulho nas aulas, não ia só pela merenda, como Cornélio de Paulo. “Sua mãe mata duas galinhas por semana pra preparar no almoço e janta e ainda vem pela merenda” pensava. Mas Cornélio ia bem nas provas assim como ela, isso a indignava. Terminaram assim, juntos, numa escola em que a maioria dos alunos ia só para comer mesmo. Donatela, chamada carinhosamente de Dona, vivia numa casa de taipa com um quarto só, apesar de seus sete irmãos, quatro mulheres e três homens, e o banheiro era um buraco cercado de paredes do lado de fora.De lá escutavam-se os choros dos filhos de Maria de Paulo. “Coitados, os filhos de Mariinha estão apanhando de novo”, queixava-se Jandira Figueiredo, mãe de Dona. “Se bem que tem isso, coitados.” Pensou Dona. Cornélio era um dos que apanhava demais, mais que seus também sete irmãos, quatro homens e três mulheres. Há quem ache somente a família desse casal uma coincidência. isso por não saber que Maria de Paulo era prima de Cléber Figueiredo, esposo de Jandira Figueiredo, prima de Breno de Paulo, esposo de Maria de Paulo. E o avô de Jandira tinha uma irmã que veio a se casar com seu sogro, após o falecimento da antiga esposa, sendo também tio avô de seus filhos e se proguir a árvore genealógica isto vira o início do Velho Testamento da Bíblia Sagrada.

Mas eis que estes dois divergiram de seus irmãos e resolveram seguir com os estudos, porém naquela época em Conceição era impossível. Cornélio era mais capacitado para trabalhar em olaria do que qualquer outra coisa em sua adolescência e Dona em cuidar de menino, pois era a irmã mais velha. Tinham um parente distante em comum em Recife, a capital, e sempre ouviram que lá era um paraíso. Pois foi pra lá mesmo que se mudaram, de maleta viajaram numa kombi cujo piso estava com um buraco, fazendo entrar terra vermelha que deixava ruivos os cílios galegos de Cornélio e o cabelo preto de Dona. No momento foi insuportável mas um dia viriam a contar esta história com gargalhadas. Não foi assim que chegaram em Recife. Após dez horas de viagem, desceram no terminal rodoviário. A casa de seu “tio”, ambos o chamavam de tio, apesar de não ser tio legítimo de nenhum, ficava no município de Paulista, na Região Metropolitana, porém não na capital propriamente dita do estado de Pernambuco. Dona e Cornélio não se importavam, estavam acostumados a dificuldades de locomoção e estavam vidrados com a ideia de uma nova vida, um recomeço. Ao se depararem com o que era cobrado no vestibular para a Universidade Federal de Pernambuco, logo perceberam que não possuíam preparo suficiente e que teriam que pagar um cursinho para ingressar. “Não sei o que chamam de matemática básica!” se queixou Cornélio. “Nem eu. E Matemática é minha matéria favorita.” Murmurou Dona. Ambos foram atrás de emprego, o que não era fácil. “Nunca foi fácil pra gente como vocês.” Disse o tio. Dona dividia o quarto com sua filha, enquanto Cornélio dormia numa rede na sala.

A casa tinha dois quartos, uma sala, uma cozinha e uma varanda com quintal e grades. A tia sempre fazia uma refeição gostosa, com ajuda de Dona e era mais simpática, já o tio era sempre muito rigoroso, não permitia que chegassem tarde e só dava carona caso estivessem de banho tomado às cinco horas da manhã. Caso contrário, iam de ônibus mesmo. “É melhor irem estudando logo para concurso, ou vão terminar desempregados ou esse aí de office boy.” Suas palavras eram duras porém foram verdadeiras, o primeiro emprego de Cornélio, com carteira assinada pois já tinha trabalhado criança e como ajudante no bar de seu irmão, foi de moto entregando pacotes. “Tem sorte que sabe andar de moto” tirou a habilitação só depois. Já Dona passou numa prova para ser professora numa escola municipal em São Lourenço da Mata, era uma longa viagem e passava boa parte de seu dia estudando no ônibus. Com esses empregos, dividiram parte para a família na Paraíba, parte para o tio e o que restava servia para pagar um cursinho e sair uma vez por mês no fim de semana. Nem por falta de 10 cruzados, mas porque precisavam dos fins de semana para estudar. Em 1992, Dona passou no vestibular para Ciências Contábeis, Cornélio foi reprovado em Engenharia Elétrica. “Não sei por que botou para Engenharia Elétrica se sua pior matéria é Matemática!” “Não precisa ser tão dura, eu acabei de ser reprovado no vestibular, vou ter que pagar mais um ano de cursinho” “… Tem razão, mas você vai conseguir na próxima.” “Vou colocar para Sociologia da próxima vez” “Esse curso certamente combina mais com você.”

Mesmo estando na universidade, Dona ainda precisava trabalhar e passar por longas viagens para juntar dinheiro, aquele que sobrava. Nunca deixava de dar à família, e nem ao tio. Os alagamentos durante os períodos chuvosos ou mesmo quando caía uma chuva fora de época eram um enorme problema. O medo de adquirir doenças naquela “cidade fedida” e o atraso e lotação do transporte público, bem como a dificuldade de travessia até mesmo dos ônibus, quanto mais pessoas, era e é um problema recorrente em Recife. Já Cornélio passava por todas essas dificuldades, antes e depois de passar em Sociologia, no ano seguinte passou num concurso dos Correios recifense. Dona também foi para a Compesa, a Companhia Pernambucana de Saneamento, ambos na parte administrativa. Dona sempre reclamava da ironia que era trabalhar na Compesa e ter de trazer uma roupa para trocar sempre que ia ao trabalho, pois o escoamento da cidade era horrível e sempre que chovia ela alagava. “Aqui é cheio de ratazana e pombo, bicho que transmite doença, e ainda falam mal da gente chamando de matuto porque usa fossa.”

Dona teve um dia inteiro de azar em Recife no inverno de 1993. Na parada de ônibus, um carro passou encharcando-a antes de seu ônibus chegar, no qual não havia assento e estava muito abafado. Já teve que trabalhar suja e molhada, não havia levado roupa naquele dia pois a chuva tinha parado. Mas os alagamentos foram o suficiente para acabar com o seu dia. Já estava toda rabugenta pela manhã e, quando teve que ir para a universidade para uma aula considerada inútil por ela, mas já estava quase sem faltas, afundou o pé num buraco na lama e prendeu ali. Veio gente tentar ajudar, mas sem sucesso. “O único jeito vai ser cortar” disse um senhor. “A perna?” Gritou Dona. “A roupa.” “Não acredite nesse velho safado, com óleo sua perna sai daqui.” “Óleo?” “Sim, de posto de gasolina, foram buscar já.” Com a ajuda do óleo e mais quatro pessoas, Dona conseguiu se libertar. Mas só passou naquela cadeira porque não faltou mais nenhuma vez. Cornélio passou por uma situação parecida quando o ônibus em que estava afundou em um buraco alagado. O ônibus estava lotado e as pessoas em pânico. Estava abafado e chovendo, as janelas fechadas. Alguns corajosos abriram e pularam da janela mesmo na água da chuva. Cornélio não foi um deles. Ficou até chegarem os reforços para tirarem o ônibus daquela depressão alagada. E mesmo com toda essa história, levou bronca por chegar atrasado na aula. Para completar, também já afundou na lama de moto. A cidade parecia não gostar deles, mas era sua visão como gente de fora, ela era assim com todo mundo.

Donatela sempre fora uma mulher de caráter forte, porém contida, e de beleza inigualável. Pode-se dizer que estava na moda dos anos noventa mesmo antes de se mudar, pois adorava calças e shorts curtos, nunca teve frescura com “gênero de roupa”. Seus encantos captaram Cornélio desde o princípio, ele era apaixonado por ela desde o ensino médio, apesar de já ter namorado outras garotas. Dona não queria saber de um “mulherengo” daqueles, na verdade, não queria saber de homem nenhum, queria mesmo era trabalhar e construir um futuro para si e para sua família. “Não vai ser homem nenhum que vai botar a comida no prato das minhas irmãs” dizia. No entanto, três casaram-se antes dela e constituíram família, emancipando-se de sua ajuda. Uma, inclusive, casou-se com um irmão mais velho de Cornélio, ele era o mais novo entre os homens. Esse fato viria a gerar mais confusão na árvore familiar desses dois, pois já tinham sobrinhos em comum antes de namorarem. Durante o período junino, chove bastante em Recife e é sempre quando buscavam tirar folga do trabalho, afinal, também é uma época extremamente comemorada em sua terra natal e uma oportunidade de ver a família e fugir da cidade, pois também chove na mata do sertão mas estavam acostumados a dançar na terra molhada e não em urina de rato. O lugar onde moravam só alaga passagens de riachos e ainda era longe da cidade. Mas havia dias em que nem carro passava. Ainda assim, estavam acostumados àquela realidade, os alagamentos da cidade lhes pareciam piores comparado àquilo, suas casas mesmo nunca alagam como as do tio ou algumas no centro de Conceição. Puderam curtir uma festa junina tradicional e nostálgica por anos. Foi na volta de uma viagem dessas que Dona, após dançar com vários rapazes e sem pensar em qualquer um, teve seus longos cabelos ondulados e negros penteados por Cornélio. Foi no assento daquele ônibus, em 1995, que os dois começaram a namorar. Saíram da casa do tio e foram morar numa casa em Paulista, ali perto, sofriam com alagamentos frequentemente.

Na segunda semana de outubro de 1998 casaram-se civilmente em Recife. Seu casamento na igreja católica ocorreu uma semana depois em Conceição, na maior igreja da cidade. Já tinham condições de bancar um casamento ali. Ambos já eram concursados, Donatela era contadora dos Correios e Cornélio era professor de Sociologia nos cursos de Direito e Medicina da Universidade Federal da Paraíba, já com doutorado, título que Dona não fez questão de ter por não querer carreira alguma com prova de títulos. Dona estava vestida como uma princesa e a comida na festa de casamento foi vasta. O bolo era um tradicional bolo de ameixa. Ainda moravam no mesmo apartamento, pois Dona era muito apegada e queria juntar dinheiro para um melhor quando mudassem novamente. Seu marido falava em entrar para a política, algo ao que ela sempre foi contra: ter uma vida pública. “Mas Dona, eu já tenho vários contatos, é capaz que eu consiga” “Não duvido que consiga, seu jeito persuasivo é ótimo para a política, mas não quero ser esposa de político. Acabamos de casar e já está querendo filhos. Vamos esperar.” E assim fizeram, dois anos de casados se passaram, e o casal foi acumulando dinheiro a ponto de morar em um prédio no bairro dos Afogados. “Agora sim, temos uma casa segura e podemos ter um filho.”

Dona continuou trabalhando até o sétimo mês de gravidez e no oitavo nasceu um menino, pequeno, esguio e com menos de três quilos. Mal chorava, era uma criança comportada, com exceção de um fato: sempre que ia chover, chorava, esperneava. Sua mãe, perita em padrões, logo percebeu. “Sempre chora quando vai chover” “Ora, meu bem, como pode isso? Nosso filho é abençoado?” “Seria abençoado se não morássemos num prédio ou fosse filho de quem não mora” “Mas há a meteorologia para isso” “Mas nem sempre olhamos, quantas vezes já perdemos móveis, até a televisão que você comprou!” “Veja, está chovendo” “Disse que tem sentidos especiais” “Você o ama mais por isso?” “Eu o amo do mesmo jeito, chorando ou não na chuva, é um menino muito bom” “Pois eu acho que ele precisa de uma educação especial” “Como assim?” “Crianças especiais precisam de educação especial, ele pode estudar em casa” “Mas e o contato com os colegas?” “Talvez possamos colocá-lo numa creche com tutores” “Eu ainda acho que ele é só um menino que chora quando vai chover” “É porque ele não fala ainda, veremos.” “Certo, mas mais uma razão para você tirar da cabeça essa ideia de ser político.” “Uma razão a-” “Menos.”

Quando foi levado à creche, o menino chorava com constância e não havia chuva. “Sente falta dos pais” disseram. “Ele precisa aprender a desapegar dos pais” disse Cornélio. Certo dia, o menino que já sabia balbuciar algumas palavras chegou de joelho ralado, “O que isso, papai?” perguntou. “É sangue.” ele respondeu. Tobias, o menino, também sempre se recusou a usar fraldas, desde que aprendeu a tirá-las, e chorava quando alguém passava perfume perto dele, coisa que não faziam quando era menor por recomendação médica. Disseram que era alérgico mas Dona logo, ou não tão logo assim, percebeu que não era alergia coisa nenhuma, havia algo de errado com o menino e concretizou esse pensamento num dia em que estava menstruada e Tobias perguntou “Mamãe, por que está com cheiro de sangue?” “Era seu olfato, ele tem um olfato diferenciado” ela pensou. Enquanto seus pais se preocupavam com o olfato de Tobias, a cidade recifense se perdia em água e alagamentos e estavam ilhados em um prédio. “Como a chuva está boa hoje” pensavam.

Cornélio já estava com ideias de entrar para a política de novo, contando de como confabulava com os colegas. “Deixe de suas ideias” disse Dona “Vamos ter outro filho.” “Está grávida?” “Não, mas Tobias vive falando em ter um irmão, quatro anos de diferença é uma diferença boa, não é?” “É sim, meu bem! Vamos ter outro filho!” Tiveram uma filha, forte e graúda com quase cinco quilos. “Chamará-se Fabiana!” “Por que você sempre escolhe os nomes?” “Não quero que peguem a maldição da sua família com nomes” “Maldição?” “Clebeilson, Consildo, Cornivaldo, Coentrão, Cornélio, Claudimeire, Cornilda e Clebenilde?” “O que há?” “Se escrever isso num computador o corretor automático vai querer corrigir a maioria!” “Mas-” “Fabiana não está bom? Fabi, um nome tão bonito.” “Está, está bom.” Tobias ficou muito feliz com a chegada de sua irmã e brincava sempre com ela. Chegou a ensiná-la a ler e a escrever. Os dois irmãos eram muito unidos. “Você tem um cheiro bom” “Se você diz, eu acredito.” Fabi era um bebê muito treloso, mas sempre escondia suas artes. Um dia pegou a maquiagem da mãe, que ficou enfurecida procurando-a e, quando a encontrou, a viu toda maquiada, foi quando disse “não fui eu, mamãe” Dona não conseguiu sentir raiva. Quando caía, também tinha medo de seu pai brigar por ela chorar, então nunca chorava e dizia “não doeu, papai”.

Foi quando Tobias completou dezessete anos e Fabi tinha treze que sua “prima-irmã”, chamavam assim pois era filha de Cornivaldo, irmão de Cornélio e de Daiane, irmã e de Donatela, veio morar junto deles para fazer faculdade de Direito em Recife. Gabriela tinha apenas dezesseis anos, entrou numa faculdade particular após concluir o segundo ano do ensino médio. “Você pode ficar aqui, mas nossos horários e as distâncias não batem para darmos carona, é preciso aprender a se virar” “Certo, muito obrigada, tio.” Tobias criou uma fascinação por sua prima e ela por ele, seu dom ou mesmo sina. Emprestava-lhe livros e ele os devorava vorazmente, inclusive livros da faculdade de ciência política. “É incrível que uma criança da sua idade entenda esses livros, você é muito inteligente, Tobias!” Ele ficava todo encabulado. Dona e Cornélio também eram muito orgulhosos de seus filhos, porém Tobias estava sob regime de educação domiciliar desde que sua condição, hiperosmia, foi descoberta. agora o menino insistia que queria ir para a escola, mas seus pais foram contra. “Há muitas maneiras de crianças maldosas te fazerem mal, ou até mesmo sem querer, talvez seja viável no ensino médio, quando estiverem mais maduros.” Enquanto isso, debatia questões políticas com Gabriela e revelou que ouvia as conversas de seus pais sobre ele se tornar político. “No São João vamos pra Paraíba!” “É, e vou poder ver meus pais.” “Você sente falta deles?” “Muitão assim” e arregalou os braços.

O São João, da forma que era nostálgico para seus pais, era um escapismo para Tobias da torre onde vivia. Era sempre doloroso ver sua irmã fardada pronta para ir à escola, mas realmente sentia ânsia de vômito se alguém defecasse de porta aberta ou mesmo ele de porta fechada. “Já me acostumei a defecar, mas tenho uma alimentação restrita e não me acostumei com o dos outros e dizem que essa cidade fede a merda” disse para sua prima. “Algumas partes fedem sim, mas acho que você pode se acostumar com o tempo, agora vamos fazer as malas.” Tiveram que parar no meio da estrada para Tobias vomitar pois havia cheiro de carniça, provavelmente um bicho morto, ele jamais esqueceu esse odor. “Todo dom vem com uma sina” disse seu pai. Aquilo não o consolou. Quando pararam para lanchar ele logo avisou: “Está estragado.” Ninguém sentia o cheiro além deles, mas todos confiaram, menos seu pai, que não queria estragar a comida que havia comprado. O resultado foi um atraso de duas horas na viagem por indigestão do motorista. Ao chegar na parte em que a estrada era de barro, baixaram o vidro, Tobias amava aquele cheiro e não somente ele como todos ali, menos Fabi, que era indiferente, mas cantarolava as canções juninas que aprendera no arraiá da escola lindamente. Seus aniversários eram sempre no São João e comemorava com uma prima que completava no dia seguinte. Este era o motivo de sua ansiedade para chegar ao destino. Ela perguntava “já tá perto?” constantemente, impaciente para ver o restante da família e celebrar sua data de nascimento, exatamente 21 de Junho. “Pai, vai ter fogueira?” “Só não vai ter balão a gás porque não pode.” “Mas vai ter balão de festa?” “Vários balões de festa, estamos levando. Adivinha a cor?” “Verde!” “Isso, sua cor favorita, os balões são verdes e rosas, que é a cor favorita de Bianca.” “Eba! Que nem no desenho!” “Que desenho?” “Um que os personagens tem cabelo verde e rosa.” “Está animada?” “Estou, bem assim!” e abriu os braços como fizera sua prima antes. Ainda havia uma longa estrada de barro, mas já haviam passado pelo centro de Conceição. Estavam próximos.

Ao chegar à casa mudada dos pais de Donatela, mudada porque com seu dinheiro construiu mais cômodos e um poço, o qual abastecia com água limpa o local, seu pai agora criava cabras e três cabeças de gado. A casa dos pais de Cornélio já tinha até piscina e o galinheiro aumentou bastante, havia até ar condicionado em novos cômodos, usados mais quando tinha visita mesmo. Foram primeiro à casa da mãe de Dona, vizinha à de sua irmã, mãe de Bianca, a qual estava à espera de Fabi para brincar. “Já estão cheirando a terra” disse Tobias. “É normal, primo. Brincam na lama assim desde sempre. Quer que eu te mostre um lugar bem legal?” “Que lugar?” “É onde eu costumava brincar com outras primas nossas” “Tem cheiro de terra também?” “Sim, de terra e de árvore.” “Então eu quero.” Ela o levou para fora da vista dos pais, os quais estavam cumprimentando todos que os aguardavam da viagem. “Estão se dando bem” disse a avó dos meninos. “São assim desde sempre, mãe” disse Dona, “feito carne e unha.” Gabriela levou Tobias a um pé de seriguela. “Sabe subir em árvore?” “Sei, nosso primo do outro lado da família ensinou.” “Qual primo?” “Denielson.” “Ah sim, ele tem dois anos a mais que você só, né?” “Sim. Gabi, é verdade que aquela parte da família tem uma coisa com nomes?” “Como assim?” “Eu e você e seu irmão ou minha irmã, não. Mas nosso avô Breno só tem irmãos com nome que começa com B, e é filho de uma Ana que só tem irmãos com nome que começam A. Nossos pais e seus irmãos têm nomes que começam com C e a maioria dos nossos primos de lá tem nome que começa com D.” Enquanto Tobias falava, Gabriela catava seriguelas. “Ah, isso é verdade mesmo. Só nossos pais não quiseram seguir a tradição.” “Minha mãe escolheu nossos nomes.” “Acho que meu pai escolheu o de Felipe e mainha escolheu o meu. Acho que foi bom, isso parece uma maldição geracional.” “O que é geracional?” “Que passa de geração em geração.” “É verdade, acho que ouvi minha mãe falando algo do tipo sobre minha irmã.” “Me ajude a catar as seriguelas.” “Tá bem.” “Tem um galho aqui que quebra se eu subir, mas você consegue, tem um monte lá.” “Elas são cheirosas.”

Indo agora para a casa de sua outra avó, que era próxima, as crianças se empolgaram com coisas diferentes: Tobias, com o cheiro da comida e a própria comida, Fabi, com a piscina. Fez aula de natação e já sabia nadar. A visita era importante para Cornélio e Dona sempre para ver os familiares. “Ela deu bença à avó e saiu correndo pra piscina, nem falou com os tios. “Deixa, Dona, é da idade. Sua filha é um amorzinho de pessoa. E esse rapazinho aqui também é muito inteligente. Ele já sabia que era eu pelo cheiro.” “A senhora usa o mesmo perfume da Gabi.” “É que ela mexeu tanto nas minhas coisas atrás desse bendito perfume que acabei dando um pra ela.” “É cheiroso o perfume.” “Se você diz, não há como negar, rapazinho.” “O almoço está quase pronto.” “Vê só, mana, ele sabe mesmo.” “Sabe disso e mais um pouco.” O comer era farto: galinha guisada com farofa de cuscuz, arroz, feijão macassar, um macarrão delicioso cujo tempero secreto de dona Maria de Paulo era banha da galinha e salada de alface e tomate. Ela sempre cozinhou bem, ao contrário de Jandira, que fazia o que podia com o que tinha para alimentar oito filhos, o marido e a si mesma. Seu Cléber Figueiredo sempre reclamava de sua comida, para o qual recebia a resposta “Venha fazer então.” “Farinha e feijão não é almoço.” “É o almoço de hoje, amasse com as mãos e terá um bolinho gostoso, os meninos gostam.” Isso foi nos anos 60 a 80, agora seu Cléber fazia churrasco de bode com frequência e dona Jandira fazia buchada. Algo que sempre soube fazer, só às vezes faltava leite, era queijo: de coalho e manteiga e de cabra, assim como dona Maria fazia isso e sabiam fazer vários tipos de doce. Doce de leite, de goiaba, de gergelim, de abóbora, as crianças revezavam quem mexia o caldeirão e quem passasse mais tempo podia comer o resto da panela, o mais novo que mexesse ficava com a colher. A diferença é que se os filhos de dona Maria deixassem queimar, levavam surra e os de dona Jandira, não.

Queimavam agora as fogueiras de São João, junto a uma festa infantil. Não era muito de seu gosto, mas Tobias já era habituado ao cheiro de fumaça, coisa que a própria Dona detestava, especialmente se fosse cigarro. Fabi estava linda toda arrumada em seu vestido de chita, com batom nos lábios em formato de coração e nas bochechas espalhado para avermelhar, junto com vários pontinhos de lápis. Havia um bolo de chocolate de dois andares com duas meninas de pasta de açúcar e várias bombinhas para estourar no chão e chuvinhas para acender. Crianças de toda a região foram e pulavam numa cama-elástica, a atração que chamou mais atenção que os docinhos e fogos juninos. Fabi completava treze anos e já dançava forró melhor que Tobias, ele ficava mais entretido conversando com os mais velhos e sentindo o cheiro de comida e fumaça. Foi uma noite de São João daquelas de se lembrar mesmo, com muita música e um friozinho bom. Infelizmente, o dia seguinte veio logo com confusão. “Tio, o senhor não está com o cheiro da tia Judite.” “É mesmo? Onde você estava, Cornivaldo?” “Está com cheiro de perfume de mulher” Judite pegou um chinelo. “Seu mulherengo de uma bexiga, sua filha veio da cidade te visitar e você vai atrás de rabo de saia?” “Menino, você cheirou muita fumaça ontem, está confundindo as coisas!” “Ele nunca confunde cheiro, seu salafrário!” “É o perfume de Gabizinha!” “Não é. Eu conheço o perfume de Gabi.” “Filho, faça silêncio, não piore a situação.” disse seu pai. “Não, tem mais é que falar mesmo” disse sua mãe. Tobias parou de falar mas foi para seguir sua prima que saiu chorando pela porta da cozinha. A confusão foi grande. Judite jogou as roupas do marido em titica de galinha e ainda pisou. “Mulher, você vai fazer isso por causa do que o menino disse? Criança mente demais!” “É verdade que esse safado vem sumindo várias noites e chega bêbado, eu pensando que ele passava a noite só no bar! Tava era no cabaré! Vou conferir com o pessoal do cabaré, viu?” “Faz isso não, Ju.”

Enquanto isso, num quarto climatizado da casa de dona Maria, Gabi perguntou aos prantos: “É verdade o que você disse, Tobias?” “É verdade sim, mas eu não queria causar todo esse alvoroço.” “Meus pais vão se divorciar.” “Eu sinto muito.” Ela o abraçou. “Não é culpa sua. Você só falou o que sabia, até ao significado disso você estava alheio.” “Alheio?” “Sim, não sabia que ter o cheiro de outra mulher significava que meu pai estava traindo minha mãe.” “Ah, sim. Não sabia mesmo.” E o divórcio realmente ocorreu, a mulher em questão já estava grávida, não era do cabaré, Cornivaldo já lhe havia feito várias promessas de que separaria da esposa e se casaria com ela. Não tinha intenção de cumpri-las, mas ser descoberto o fez achar essa a melhor alternativa, ainda mais agora que esperava uma criança. Essa ida à Paraíba foi bem marcante negativamente para toda a família, inclusive Fabi, que se lembrou sempre daquele aniversário lindo e não entendeu parte da confusão.

“Vai chover.” Aquele não foi um vai chover comum de Tobias, que já tinha 15 anos. “Vai chover e vai chover muito.” “Moramos num prédio, filho.” disse Cornélio. “E como levará minha irmã à escola?” “Temos uma caminhonete, certamente a água não será problema.” “E Gabi? Vai inundar tudo, pai. Tudo!” “Filho, você está se preocupando muito à toa.” “Já passamos por muito mais chuvas que você aqui em Recife, desastres podem acontecer, mas conosco estará bem.” “Sim, sentimos muito pelas pessoas que serão afetadas pelos alagamentos, mas não somos uma delas.” “Estou pronta pra escola.” “Está linda, Fabi.” “Ela já aprendeu a lavar o cabelo direitinho.” “Primo, eu vou sair para a faculdade, vai ficar tudo bem, tá?” “Tá.” Já havia começado a chover. Na ida para a escola, a faculdade e o trabalho, de fato a família não encontrou grande problema além do trânsito. Já na volta, começou pela caminhonete, com Fabi e Cornélio dentro. Choveu tanto que o alagamento fez mesmo um carro grande ser engolido pela água numa depressão. Tiveram que ser resgatados por bombeiros e o carro deu perda total. No entanto, o pior aconteceu com Gabi, o Ônibus em que vinha foi soterrado por um deslizamento de terra numa área íngreme de construções irregulares. Contando com os moradores e passageiros, 32 pessoas morreram. E ela foi uma delas. Foi um choque para toda a família. Grande e nuclear. “Filho, nos desculpe por não ter te ouvido.” “Sim, se ouvíssemos o Tobias nada disso teria acontecido.” “Eu não ligo para desculpas, eu quero minha prima de volta.” “Isso é impossível, meu-” “A Gabi morreu, morreu mesmo, mãe?” “Filha, isso discutimos mais tarde com você, vá para o seu quarto.” “Tragam minha prima de volta!” “Você sabe que isso não pode ocorrer, Tobias.” Aquele evento marcou a vida do menino, que se revoltou com a família. A partir dali, queria contato com outras pessoas e sair do regime de estudo a domicílio. “Não tem nada mais fedorento que uma família que não te escuta.”

Ao completar 17 anos, Tobias começou a fumar. O cheiro da fumaça não lhe desagradava tanto e mascarava outros cheiros, impregnava em seu corpo. Dona foi extremamente contrariada com esse fato: “Perdi minha tia e minha avó para o cigarro, agora vou assistir a perda do meu filho?” “Sim” ele respondia “Não vou parar de fumar por sua causa.” “Você nem tem idade pra isso, onde consegue cigarro?” “Com meus amigos da escola” “Está com más amizades” “Meus amigos escolho eu.” Tobias ainda tinha ressentimento de seus pais, porém um grande carinho por sua irmã de 13 anos, o qual era recíproco. Ela não ia tão bem na escola quanto ele, mas era muito popular, todos eram conquistados por seu carisma e sua bondade. Com apenas aquela idade já tinha um traquejo social invejável, mas seus pais a cobravam muito por desempenho escolar, não reconheciam tanto seus outros atributos. Na verdade, a única razão pela qual Tobias não foi retirado da escola após ser pego fumando foi a excelência em suas notas. Fabiana participava de um grupo de apoio a populações vulneráveis, projeto de seu colégio que estudava e ia visitar algum grupo todo mês: ribeirinhos, pessoas em situação de rua, indígenas, idosos em asilo, etc. Lá, conheceu uma colega dois anos mais velha que era karaxuwanassu, povo índígena cuja aldeia cujo território localiza-se na região metropolitana do Recife. Por ter despertado interesse na relação daquelas pessoas com a natureza, Fabi começou a estudar tupi antigo, um dos vários idiomas falados pelos karaxuwanassu. Já Tobias estava no ano de seu exame nacional do ensino médio, apesar disso, decidiu fazer também a prova do vestibular da Universidade de Brasília, os pais o apoiaram nisso e ele queria saber como era morar sozinho. Saiu-se bem em ambos, coisa que foi comemorada por todos, diferente do fato de Fabi já saber falar tupi antigo.

Certo dia, os amigos de Tobias trouxeram um tipo diferente de fumo. “O que é isso?” “Maconha.” “É ilegal, não?” “É, mas a gente pode fumar em frente à polícia militar que não fazem nada.” “A lombra é boa?” “É boa, prova, isso é skunk, da boa.” Tobias deu alguns tragos, de repente, começou a sentir tudo mais devagar. Seus amigos riam e sua percepção do tempo parecia alterada. “Tobias? Você está lento, irmão. É sua vez de dar um trago.” Tobias fumou mais. “Então isso funciona em roda? Não é como cigarro que cada um fuma o seu?” “Nunca tinha ouvido falar em maconha, rapaz?” “Já, mas não sabia como fumava.” “Você segura o beck assim ó” ele mostrou que segurava com a ponta dos dedos. Tobias ouviu uma sirene de ambulância e achou que foi a polícia, ficou muito ansioso. “Acho que não estou me sentindo bem, pessoal.” “É assim mesmo na primeira senta ali e descansa, tem mais cinco becks pra gente fumar.” Ele se deitou num canto e teve sonhos muito esquisitos, acordou com uma fome que nunca sentira. “Tá de larica? Tem salgadinho e refrigerante aí.” Ele comeu como se o mundo fosse acabar. “Quer mais? Só fumamos dois becks enquanto você dormia.” “Uhm? Quero sim.” Na volta pra casa, Tobias se perguntou se sua mãe reconheceria o cheiro de maconha. Por sorte, quando chegou ela havia saído para jantar com o restante da família. Pôs suas roupas na máquina, tomou um banho e foi dormir. Aquele evento viria a se repetir mais vezes, só que ele aprendeu a sair sempre em tardes que sua mãe sairia à noite ou não estaria em casa por alguma razão.

Apesar de tudo, Dona era muito orgulhosa de seus dois filhos e estava próxima de desistir da resistência de seu marido a entrar no mundo político. “No final, não vai adiantar o que eu disser” “Adiantou todos esses anos” “E você vem com essa conversa todo ano também.” “Acho mais importante pensar em como Tobias morará sozinho em Brasília” “Ele não vai precisar estar sozinho se eu for senador” “Lá vai você de novo… Vamos levar o menino ao aeroporto antes de mais nada. Nem sabemos se ele vai se adaptar ao clima seco de lá.” Choveu durante toda a viagem ao aeroporto e Tobias observou os bairros, as casas com escadas para elevar a porta, os morros com escadas e um espaço para escorrer água. Era tudo planejado, na medida do possível, para evitar os males das chuvas. Ainda assim observou umas três pessoas levando água de carro que passava rápido e sem pensar. “Vocês já estiveram assim.” “O quê?” “Afogados.” “Sim, moramos lá.” “Digo literalmente.” Cornélio deu uma risada e disse “Isso já faz muito tempo, filho. Hoje temos mais condições.” No aeroporto, a única despedida calorosa com Tobias foi a de Fabi, de certa forma, seus pais estavam felizes por ele estar longe agora. Seu nariz realmente sangrou com o clima seco de lá. Mal sabia ele que uma pandemia avassaladora viria ao mundo em seu segundo ano de curso.

Com a pandemia de COVID em 2019, todos da família respeitaram as precauções sanitárias, menos Tobias. “Quem dera eu ficasse sem sentir cheiro” dizia ele, em chamada de vídeo com sua irmã, a qual rebatia “Mas é sobre não contaminar outras pessoas também, você que é estudante de medicina devia saber disso!” Fabi estudava sobre os fenômenos causados pelo aquecimento global e o excesso de chuva que ocorria em boa parte do litoral da região Nordeste e em outros lugares do Brasil, bem como ondas de calor que só viriam a piorar nos anos seguintes. A essa altura, já falava bem o tupi antigo e possuía o desejo de visitar a aldeia onde moravam os pais de sua amiga Anahi, porém manteve-se enclausurada durante todo o tempo da pandemia, o que até atrapalhou seus estudos. Foi com a família trancada em casa que receberam a notícia do falecimento de Cornivaldo. Seu filho, que já havia perdido a irmã, ficou revoltado. Deixou além dele mais dois filhos com a segunda esposa e a ex-mulher que sentiu também seu falecimento. Receberam em casa a viúva e seus dois filhos, para não deixá-los desamparados. Fabi ajudava a cuidar e brincar com as crianças. Dons e Cornélio conversaram bastante com a mãe, Geórgia, a qual estava inconsolável, ela realmente amava o marido. Dona deixou de sentir rancor por ela e passou a sentir compaixão. Fabi ia sempre com ela para a “área kids” do prédio com o objetivo de que os meninos brincassem. Era uma área aberta e iam num horário em que não havia ninguém. Durante a pandemia, Tobias fazia videochamadas com a família e saía para com os amigos à noite. Fabi aprendeu a cozinhar com Geórgia, coisa que não sabia, até porque seus pais eram péssimos cozinheiros. Tobias também tinha aulas remotas, mas os laboratórios só foram liberados em 2022, considerando muito atraso em seus estudos. Foi o ano do exame nacional do ensino médio de Fabi, no qual ela não se saiu tão bem quanto Tobias, mas passou vestibular de Medicina na Universidade Católica do Recife, seus pais estavam dispostos a pagar. Ela estudou bastante e finalmente pôde visitar a aldeia karaxuwanassu, onde foi muito bem recebida.

Era um lugar cheio de vegetação em plena metrópole, um caminho de terra coberto de árvores ao redor com um sinal de uma cobra verde e fundo vermelho e preto bem na entrada. Contra os estereótipos, havia construções de tijolos e telhas e locais onde todos reuniam-se num círculo. As mães carregavam seus bebês com uma espécie de lenço no ombro que parecia a Fabi bem ergonômica. Algumas construções possuíam pintado qual era o território indígena de que se tratava. Havia tendas levantadas por tocos de madeira, um rio e, acima de tudo, uma população significante. Pessoas que foram extremamente afetadas pela pandemia, excluídas da prioridade e seus entes morreram em massa, o que a entristeceu, mas conversou em tupi antigo sobre como iniciaria o curso de medicina e pretendia trazer a saúde até eles. Todos foram cativados por seu carisma, até mesmo os mais fechados. “Ela fala um de nossos idiomas.” Disse um centenário em tupi antigo. Lá, ela participou de um ritual religioso e ganhou artefatos artesanais, entre eles, uma curica. “O que é isso?” perguntou. “É para passar rapé.” “O que é rapé?” “Vamos te mostrar, faz bem.” O senhor de 103 anos soprou na sua curica, do lado oposto a onde estava o rapé e Fabiana fez igual numa roda onde utilizavam instrumentos musicais e cantavam. “Não é pra inalar nem engolir, quando sentir o efeito você escarra e cospe.” Fabi começou a chorar na hora e sentiu seu corpo levitando e sua mente esvaziando. “Isso é alguma droga?” pensou. O senhor disse “Se estiver pensando que é droga, não é. Costumam pensar isso porque tem muita droga que se bota no nariz.” “Eu nunca mais havia visto ele tão falante.” Disse uma mulher. “Nem eu.” Respondeu seu marido. “Deve ter gostado muito da mocinha.” “Ela é um amor mesmo. Após o ritual, Fabi viu que todos cuspiam na terra mesmo e fez igual. “E aí, como foi?” Perguntou Anahi. “Nunca me ocorreu nada parecido para comparar.” “Esse rapé é de copaíba, vamos te dar um pouco e você pode soprar na sua própria curica, assim, ó” Anahi demonstrou como se faz. “Mas não recomendo que faça na frente dos outros, ainda há muito preconceito.”

Do outro lado do país, ofereciam cocaína a Tobias. Ele recusou nas primeiras vezes, mas o argumento de que danificaria seu trato olfativo acabou o convencendo. Inalou três linhas finas de uma vez. Se sentiu no topo do mundo, era como se conseguisse inibir completamente sua timidez e falar com qualquer pessoa do mundo, até a Madonna. Conseguia, em sua mente, articular as palavras muito bem e agir com maior precisão. Estava, na realidade, falando muito rápido e com olhos extremamente abertos, quase sem piscar. Ele conseguia ficar com mais meninas sob efeito da droga, só não estava ciente de que era por ser bonito, e não por estar “cheirado”. Acontece que só tomava iniciativa com garotas sob efeito da cocaína. Isso, além de outras coisas, o tornou viciado. Toda festinha ou encontro universitário ele levava seu pequeno recipiente para cheirar pó.

Depois de um semestre usando a droga recreativamente, ele passou a usar também para ficar acordado e estudar para o curso de medicina, que era muito puxado. Enquanto isso, seu pai estava focado em sua campanha política para ser senador pelo PNL, Partido da Nação Libertadora, porém ainda com poucas chances de se eleger. Pediu aos filhos que fizessem propaganda e assim o fizeram, Fabi já fazia parte de conglomerados políticos na faculdade, mas os amigos de Tobias não eram muito afinados com política. Os pais, ocupados com a entrada de Cornélio para a política, nem sequer ficaram sabendo do uso de drogas do filho, o qual era tido como exemplar, enquanto Fabi ficava em sua sombra por precisar que pagassem sua faculdade. Como esperado, ele perdeu a eleição em 2022. Além disso, no ano seguinte veio a notícia de que seu filho estava internado por overdose. “Como assim overdose?” indagou Dona. “Disseram que estava cheirando pó.” “Valha minha nossa senhora!” Ambos viajaram para Brasília, Fabiana gostaria muito de ir, mas precisava dar continuidade aos estudos. Tobias estava internado, sofreu overdose de cocaína, com um ano cursando medicina na UNB. “Ele diz que usava para estudar” “Ma olhe, tem várias fotos dele curtindo em festa e noitada.” “A médica indicou uma internação para desintoxicação.” Tobias foi internado com alguns períodos quebrados no curso de medicina, quase concluindo, numa clínica privada. Fabiana não gostou nem um pouco da notícia, o uso de drogas sintéticas era especialmente ruim em sua opinião, pois aprendeu primeiramente como o rapé como se faz uso de substâncias psicoativas.

Ao acordar amarrado e em abstinência, Tobias entrou em desespero e começou a se debater. Isso chamou a atenção dos enfermeiros, os quais logo injetaram um antipsicótico nele, coisa que o deixou babando e letárgico, mas ainda desconfortável. “Só podemos te desamarrar se você não for violento.” Ele foi solto, mas não conseguia proferir uma palavra, sua dicção estava horrível. Queria perguntar onde estavam seus pais, mas era incapaz. A resposta era na recepção, extremamente preocupado e se perguntando o que houve com seu filho prodígio para acabar naquele estado. “Tobias era um menino de dar orgulho, agora é um drogado.” “Podem deixar que sob nossos cuidados ele voltará recuperado.” “Confie neles, Dona, vamos ter fé na clínica e também em nosso filho.” Dona partiu com o coração partido, assim como seu marido. Seu filho fazia confusão sempre que era capaz, ele foi imobilizado e medicado intravenosa várias vezes, cuspia os remédios e era um paciente muito difícil de lidar. Ele chegou a enfiar a escova de dentes no ânus e lavar a boca com sabonete. Tobias não era louco, só estava agindo como um pela revolta por estar em um lugar assim. Houve o famigerado dia em que espalhou bosta pelas paredes e como era de se esperar, foi amarrado e levou injeção de antipsicótico sedativo. Seus pais não acreditavam nos relatos dos profissionais, mas havia câmeras nos corredores que comprovavam as atitudes rebeldes. “Quando ele vai sair? Já se passaram seis meses!”

Tobias não queria passar o resto da vida ali, nem deixar de sair com seus amigos como fazia e curtir como curtia, então chegou à conclusão de que precisaria fingir ser bom moço para levar alta. Começou a fazer atividades como pintura e hidroginástica, parou de se revoltar e deixou com que cortassem seus cabelos, obteve melhores hábitos de higiene e começou a tratar bem até mesmo os profissionais que odiava. Dessa forma, em quatro meses levou alta da clínica. Sua família ficou muito feliz e ele viajou para Recife enquanto o ano letivo de medicina não começava novamente. “Como está, irmão?” “Traumatizado. Ninguém deveria ser submetido àquilo.” “Ninguém deveria cheirar pó também” disse Dona. “Eu quero trabalhar com redução de danos em medicina” Cornélio interviu “Um ex-drogado vai cuidar de drogados? Você é bom passar num concurso público pois seu nome está manchado para uma clínica privada, até o meu está, como político.” “Agora eu sou responsável pelo senhor não ser eleito?” “Talvez nas próximas eleições.” “Se não for eleito é porque não é popular o suficiente, ponto.” Cornélio enraivou-se e se retirou da mesa. “Filho, a política é muito importante para seu pai, não brinque com isso.” “O tempo que passei internado também é muito importante para mim, ele não devia caçoar disso.” “Vocês dois estão errados.” “Ela tem razão.” disse Fabi.

Ao regressar a Brasília, no segundo semestre de 2024, já médico, Tobias retomou o estilo de vida que adquirira, tomando apenas precauções que aprendera com a redução de danos para não ter uma overdose. Conheceu também em festas a droga quetamina, da qual gostou bastante, porém era de mais difícil acesso. Fabiana já estava no quarto período do curso de medicina e visitava os karaxuwanassu com frequência, nem sequer bebia, o rapé para ela era uma forma melhor de entrar em consonância com seu eu do que qualquer droga e não tinha pretensão de se dopar de forma alguma. Ofereceram-lhe maconha no campus da Universidade Católica, droga que seu irmão usava e também muitos indígenas, porém não como droga mas como medicina, no entanto recusou por medo de ser pega sob efeito por seus pais. Medo este que era válido pois quando Dona a viu passando rapé, lembrou de Tobias e começou a agredi-la fisicamente e xingar, sem dar-lhe oportunidade de explicar que eram coisas completamente diferentes. Ela chegou a ser arrastada pelos cabelos até o banheiro e acidentalmente bater a cabeça no vaso sanitário. Sua curica e o rapé foram confiscados e mais tarde Donatela descobriu que não era nada ilegal, assim, mesmo contrariada, não devolveu. Fabiana teve seu acesso à aldeia restrito, ia apenas de carona com Anahi, escondida de sua mãe. Lá conseguiu uma curica nova.

As chuvas no inverno de 2024 estavam preocupando Fabi demais, pois eram fortes e excessivas, havia muitos bairros afogados, não apenas um. Naquele ano, todos os quatro foram para a Paraíba no tempo junino e lá também choveu tanto que foi difícil fazer qualquer fogueira ou soltar fogos. Por todo o Brasil as mudanças climáticas estavam se intensificando e isso afetava bastante quem vivia da mãe terra. Pessoas perdendo móveis ou mesmo toda a casa, deslizamentos matando pessoas como ocorrera com sua prima, destruindo rios, o genocídio indígena que já vinha ocorrendo há anos com os yanomami e agora também os karaxuwanassu. Passou a acreditar que seu pai poderia fazer alguma diferença sendo senador. Tobias já estava estagiando no curso de medicina e ironicamente cuidava de usuários de drogas, fazendo redução de danos. Sua diversão era ir “a estudo” para raves e festas de música eletrônica para tratar os usuários e também usar muitas drogas. Em um desses eventos, experimentou ayahuasca, achou a experiência amedrontadora. “Fabi” perguntou à sua irmã por videochamada “você, que anda com índio, já usou ayahuasca?” “Primeiro, essa sua pergunta é preconceituosa. Segundo, não.” “Eu passei por uma experiência louca!” “Essa substância não deveria ser usada assim em rave, tem um significado espiritual.” “Eu acho que vi deus e tive morte egoica” “Não quero mais saber das suas experiências com a ayahuasca.” “Do que quer saber? Estamos falando pouco.” “Isso é porque você se… Quer saber? Eu queria falar da eleição de pai como senador em 2026 “”Acha que ele tem chances de ser eleito?” “Acho, o país está numa crise política absurda e extremamente fragmentado nesse sentido” “O que posso fazer para ajudar?” “Vejamos…”

Em sua próxima visita à aldeia karaxuwanassu, Fabi foi surpreendida por um cocar feito à mão pelo centenário que soprou seu primeiro rapé. “Significa guerreira com coragem espiritual” disse em tupi antigo. “Mas não é errado uma branca usar cocar?” “Você já é uma de nós, só precisa ser aceita e conhecer nossos costumes para isso. Coisa que você já fez.” Ela chorou muito. Apesar da situação de crise, fizeram para ela uma festa. “Prometo lutar pela nossa causa também como médica e indígena.” “Eu sabia que isso aconteceria” disse Anahi. Ambas deram um abraço caloroso. Esse dia aqueceu o coração de Fabiana, porém 2025 veio com ondas de calor ainda mais quentes e o povo karaxuwanassu sofria genocídio: alguns territórios eram considerados ocupados. Queimadas ocorriam com frequência em suas terras e algumas eram desapropriadas. Fabiana temia olhar as notícias e a forma como falavam de seu povo. Participava também de movimentos contra o genocídio, sendo considerada uma branca no meio de indígenas, apesar de não ser. Viu em seu pai alguma esperança no Legislativo para defender os indígenas. Tobias concluiria o curso de medicina naquele ano e não poderia ligar menos. “Você parece estar com fantasia de índia com esse cocar” “Você não entende nada de cultura indígena!” “Deixe ela tobias” interveio dona “sabe até tupi guarani” “tupi antigo” “tupi antigo, deve ter feito algo para entrar na comunidade indígena, esses cocares são caros e ninguém deu dinheiro pra ela comprar” “Que seja.” “Não! Pai! Como senador o senhor promete defender as pautas indígenas? Dessa forma eu reúno o pessoal para fazer campanha pro senhor!” “Claro filha, os indígenas merecem todos os seus direitos.” “E sua filha é uma.” “Sim, tem isso também.” “Eu quero logo voltar para Brasília.” Mas não voltou nem tão cedo.

Tobias estava num encontro com uma garota no apartamento dela. Trouxe drogas para experimentar e não perguntou se ela tomava medicamentos. Ambos já estavam tirando as roupas quando ela começou a apresentar sintomas de síndrome serotoninérgica, condição que ocorre com excesso de serotonina no cérebro, normalmente quando faz-se mistura de drogas ou medicamentos, especialmente os dois ao mesmo tempo. Ele olhou a cabeceira da cama e viu antidepressivos e logo assumiu o que era. Ela precisa de atendimento urgente! Ele ligou para o Samu e pediu uma ambulância. A garota apresentava confusão mental, afasia (incapacidade de falar), espasmos e febre alta. Na ambulância o eletrocardiograma apitava sem parar. Tobias a acompanhou ao hospital. “Você é médico?” “Sim” “Não havia nenhum sedativo com você?” “Por que levaria um sedativo para um encontro com uma garota?” “Você levou drogas…” “É, isso vai causar algum problema pra mim?” “Está mais preocupado consigo que com a garota? Já administramos os melhores medicamentos para o quadro dela e ainda não consegue falar.” “É claro que estou preocupado com ela, eu só imaginei que não teria ocorrido nada grave porque você não me falou.” “Você foi denunciado por tráfico ilegal de trogas, tem sorte que não foi estupro de vulnerável se não na cadeia ia ser pior.” Tobias entrou em pânico.

Calor insuportável, claustrofobia. Tobias só não estava amarrado desta vez. Estava irritado, como poderia ser preso por algo que, em seu mundo, todo mundo faz? Donatela apareceu chorando, junto a Cornélio. “Filho, meu filho” Quando você vai aprender? Ainda estava usando drogas? Passou a vender?” “Não vendi nada, mãe! Só carreguei comigo e usei.” “Mas deu pra outra pessoa usar, e isso pôs a vida da menina em risco.” disse Cornélio. “Eu vou sair daqui logo, não vou?” “Vai” disse Dona “Mas isso é porque você é privilegiado e vamos pagar uma ótima advogada para você.” Não adiantou, Tobias permaneceu preso com pena de 5 anos mesmo com os atenuantes que a advogada conseguiu. Fabi foi visitar seu irmão no presídio “Sinto muito que isso tenha acontecido com você” “Sente mesmo? Agora você pode ser a irmã exemplar da família “”Não me sinto assim, me sinto mal pelo meu irmão” Tobias começou a chorar. “Para mim você sempre será meu irmão de quem me orgulho, também não tenho essa visão proibicionista de drogas mas você foi irresponsável.” “Fui mesmo.” “Você já vai sair daqui um médico, e dependendo do comportamento pode até sair antes de cinco anos.” Obrigado.” “Disponha. Sobre a garota com quem você saiu, ela passa bem.” “Valeu por me avisar disso também. Está bem quente.” “As temperaturas estão batendo recordes esse ano. Preciso ir agora, mano. Tenho aula.”

2025 foi um inferno, para quem morava em Recife não foi diferente: chuvas e altas temperaturas batendo recordes logo no começo do ano e o padrão se mantendo pelo restante dos meses. Já a cidade natal de Dona e Cornélio sofria com a seca e o calor. O gado estava morrendo, as plantações também. Ninguém mais tomava banho de piscina. Foi por um boi que uma tragédia aconteceu. Breno de Paulo matou esse boi para fazer o churrasco de seu aniversário, mas, segundo seu irmão, Bernardo de Paulo, aquele animal era de sua posse e enfureceu-se de uma maneira que pegou uma espingarda e atirou em seu tórax duas vezes. O homem ainda custou um pouco a morrer, mas morreu. Já o outro foi preso. Maria de Paulo ficou viúva e muitos lamentaram aquela morte, menos as meninas em quem Breno de Paulo já havia passado a mão, e Fabi era uma delas. O enterro foi católico e tradicional, Cornélio chorou um pouco, mas não muito, Donatela apenas o fez companhia.

A situação em Conceição não estava fácil no sertão e nem na cidade, gente morrendo por falta d’água ou por excesso dela. Os negacionistas do aquecimento global estavam reduzindo gradativamente. Cornélio, por vir do sertão, morar numa capital do Nordeste e ter uma filha indígena, se sentiu com muita propriedade para falar em sua campanha para senador. Sua popularidade estava realmente crescendo, havia esperança para o próximo ano. Fabi estava fazendo estágio e teve o privilégio de vacinar a comunidade karaxuwanassu contra COVID, pois uma nova cepa estava atingindo a região. Tiraram foto e eles até saíram em matéria de revista: Karaxuwanassu vacina seu próprio povo. Seu pai foi recolhendo tudo que poderia utilizar para a campanha, coisa de que Fabi não gostava, mas se fosse pelo seu povo, aceitaria. Já com os indígenas interagia na maior felicidade, maior não que apesar de seu feito ainda estavam sofrendo um genocídio. “Devia se isentar de ir nessas manifestações filha, é perigoso” “Meu povo está perdendo terra e gente, me submeto a algo perigoso se for por isso” a frase foi tão forte que nem Donatela se opôs. Fabi começou a traduzir textos de revistas inglesas de medicina para o tupi antigo, especialmente de temas que acharia que pudessem adicionar aos conhecimentos que sua comunidade já possuía. Entre elas, o uso medicinal da planta canabis, o qual era recente legalmente no Brasil, porém era uma prática milenar para indígenas de várias partes do país. Mas fazia estes estudos escondida de seus pais, na biblioteca da faculdade, pois não queria ser associada a drogas, especialmente depois do que ocorrera com seu irmão. “Com certeza vão tratar com preconceito” pensou. Os textos falavam desde coisas que já ocorriam, mas recentemente, no Brasil, como o tratamento de pessoas transtorno do espectro autista, até aquilo que só se encontrava na gringa, a exemplo da discussão de usuários de cannabis para quem fará transplante de fígado ou em pacientes bipolares: desfazendo estigmas.

O inverno em Recife foi insuportável para qualquer pessoa que não morasse no alto ou precisasse se locomover. As chuvas não paravam, dia e noite, e tudo alagava e deslizava. As notícias eram um terror de assistir, sempre coisas trágicas e deprimentes ocorrendo, o preço dos alimentos havia elevado. “Também, com o preço do dólar a essa altura” “Mas 70% dos alimentos que os brasileiros ingerem vêm da agricultura familiar, pai” “Sei disso, mesmo assim o dólar interfere pois somos um país exportador e de grandes monoculturas” “Verdade.” Fabiana estava certa de que seu pai seria um bom político. “Hoje saio com Anahi, tudo bem, né?” “Sim, vai para a aldeia, né?” “Vou” “Sem problemas, filha. Não se estresse tanto com as coisas da sua mãe. Seu irmão a deixou traumatizada.” “Eu sei.”

Já na aldeia, Fabi se deparou com um rapaz bonito que nunca havia visto. “Olá, ouvi muito falar de você, vim do interior. Meu nome é Marco.” “Prazer Marco, sou a Fabiana, mas pode me chamar de Fabi.” “Vamos almoçar?” “Vamos.” Ele saiu na frente. “Quem é ele, Anahi? É tão bonito!” “Nem eu sei, como ele disse, ele veio do interior. Mas ele fala tupi antigo como você e eu.” O frio e a chuva permeavam a aldeia. A comida era boa como sempre, preparada da colheita da própria agricultura dos karaxuwanassu. Fabi adorava almoçar lá, conversou com Marco no almoço. “Devia vir almoçar aqui mais vezes.” “Só é difícil o deslocamento para mim, não dirijo. Geralmente dependo das caronas de Anahi.” “Daqui a umas horas a gente pode passar um rapé, depois do almoço não é muito bom.” “Eu concordo.” Antes disso, ajudaram os artesãos a fazer mandalas. “Então seus pais são do interior também?” “Sim, mas da Paraíba” “É, mas o sofrimento é parecido, sabia?” “Eu imagino” “Seus pais devem ter muita história pra contar” “Eles têm, vivem contando histórias da família e eu mesma já presenciei fatos absurdos” “Tipo o quê?” “Meu avô que foi morto a tiro por conta de uma cabeça de gado” “Minha nossa! Que crueldade!” “É mas o homem não era bom de todo jeito.” “Entendi.” “Minha mãe morreu de COVID, a vacina demorou a chegar onde morávamos.” “Sinto muito.” “Quero pensar nela e em boas energias quando passar esse rapé de copaíba, fazer uma limpeza profunda e proteção.” “Foi o meu primeiro rapé.” “É bem forte.” “Sim, agora estou com um de cacau, ando muito ansiosa.” “Quando terminarmos aqui vamos passar.” “Sim.” Estavam conversando porém concentrados na produção das mandalas. “Me contaram que você tem cocar e tudo, nem eu tenho um.” “Foi o senhor Kauã que fez pra mim, no dia que anunciaram que eu era uma karaxuwanassu. Ele é todo vermelho.” “Igual seu cabelo.” “Mas isso é pintado.” “Eu sei, linda. Não tem cabelo que nasce dessa cor.” “Verdade.” Fabi riu com vergonha. Finalizaram as mandalas que pegaram ainda incompletas. “Gratidão!” Disseram os artesãos. “Por nada!” Eles responderam, e saíram na chuva para outro lugar, com um banquinho, mas coberto. “Você é habituada a passar rapé?” “Até que sou, viu.” Anahi os viu e preferiu deixá-los a sós naquele momento. Marco chorou copiosamente com a copaíba e Fabi teve um momento de clareza mental com o cacau. Quando se olharam, sentiram vergonha.

“Conheceu bem o Marco, não foi?” “Acho que deu pra conhecer o que dava pra conhecer numa tarde.” “O que achou dele?” “É bonito, inteligente e bom com as mãos.” “Bom com as mãos?” “Falo no sentido de fazer artesanato, sua mente perversa.” Anahi riu. “E como foi passar rapé com ele?” “É sempre um ato de confiança passar rapé na frente de alguém, foi um momento de intimidade, eu diria.” “Ui. Estão mais íntimos!” “Estou falando sério, Anahi.” “Eu sei, perdão, não farei piada de novo.” “Me senti meio esquisita e com a mente clara ao mesmo tempo, foi bom olhar o rosto dele.” “É um bom sinal quando você se sente bem ao olhar pra alguém sob o efeito.” “É. Eu pensei isso também.”

Fabi estava agora ainda mais ansiosa para suas visitas à aldeia, queria encontrar Marco, mas faculdade de medicina a ocupava bastante. “Você já foi médica da gente, né? Me mostraram a revista.” “Fui sim, mas não sou formada ainda como meu irmão.” “Seu irmão é médico?” “Sim, mas está preso agora.” “Preso? Por quê? Se me permite perguntar.” “Tráfico ilegal de drogas.” “Ele foi pego com muita maconha?” “Não, coisa bem pior.” “Fabi.” disse Anahi. “Oi.” “Estão te chamando.” “Para quê?” “Não sei, vai ver.” Fabiana foi até onde a chamaram. “Um ritual de ayahuasca?” “Caapi. Achamos que está pronta, mas você tem todo o direito de negar.” “Dessa vez eu acho que consigo participar.” “Ficamos felizes, será no próximo fim de semana. O vigilante será um dos mais experientes aqui.”

No sábado, dia do ritual, Fabi já estava fazendo a alimentação restrita recomendada por seus companheiros. O vigilante deu a medicina e ela deitou-se na sombra, de olhos fechados. Começou a ver alguns padrões geométricos no escuro e, de repente, o escuro voltou junto com a ausência de seus batimentos cardíacos os quais parou de sentir. Foi avisada de que a morte egoica era normal e apenas fez o sinal de preocupação com a mão. O vigilante fez uma oração e ela entendeu que estava tudo bem com seu corpo. Ainda de olhos fechados, começou a ver várias imagens, algumas pareciam deuses com os quais ela não conseguia se comunicar se não por telepatia. Viu um deus guerreiro com imagem parecida com a sua, de cabelos vermelhos e arco e flecha, atirando uma flecha de fogo que passava por cima de várias cabeças e seguia um caminho infinito. Abriu os olhos dizendo “sou uma guerreira protetora” e o olhou o mundo muito colorido e diferente. Algumas pessoas mal conseguia reconhecer. Viu espirais nas maçãs do rosto de Anahi e cores vibrantes nos cílios de Marco. Dançaram juntos ao som dos instrumentos e cantos de oração. Fabi chegou a ver sua pele verde e suas unhas desaparecerem e imaginou o que os outros estavam vendo. Todos dançavam e oravam, isso é certo. Tudo isso ocorreu com seu coração “sem bater”, quando ele retornou, veio sutil com a perda do efeito, que durou bastante ainda e foi reduzindo aos poucos. “O que você meditou?” disse Marco. “Meditei que sou uma guerreira protetora.” “E é mesmo! Que sua jornada fique ainda mais bonita!” “E você? O que meditou?” “Foi bem diferente que você, eu acordei certo de que meu animal espiritual é a coruja.” “Legal, é sinal de sabedoria, não é?” “Teoricamente sim, espero estar à altura dessa visão.” “Sei que está, não escolhemos o que a caapi nos mostra, só vem. Você não escolheu ver isso, foi isso que te escolheu.” “Tem razão.” “Agora preciso conversar com o vigilante e depois ir, infelizmente.” “Certo. Fabi!” “Oi.” “Venha mais vezes, ok?” “Virei!” Ela se virou com um sorriso. Aproximou-se do vigilante que estava no ritual. “Obrigada por cuidar de nós durante o ritual.” “De nada, menina, qual foi o problema que você sinalizou e depois deixou de lado com minha oração?” “Eu senti meu coração parar de bater” “É normal sentir coisas remetentes à morte, o que você viu ou se chegou à uma conclusão, se me permite perguntar?” Fabi contou tudo o que viu de olhos fechados. “Você deveria pesquisar sobre Oxóssi, sua visão me lembrou muito esse orixá.” “Oxóssi? Certo, pesquisarei. Mas os orixás não são do candomblé e umbanda?” “Aqui há muito sincretismo, assim como algumas pessoas são também cristãs, outras acreditam nas divindades destas religiões de matriz africana.” “Entendi.”

Assim fez a busca por saber quem era Oxóssi e descobriu que era uma divindade da caça e proteção cujo símbolo era o arco e flecha, seus filhos, ou guerreiros, apresentavam muita força, paciência, opulência e inteligência estratégica. Voltou à aldeia para conversar com o mesmo ancião. “Não acho que tenho todos esses atributos, seria pedante da minha parte me considerar filha de Oxóssi.” “Você não precisa ter todos os atributos e precisa ter mais autoconfiança, minha filha. Você já é filha de Oxóssi, leve consigo esse patuá de quartzo verde, é a pedra dela, aceite este presente.” Fabi aceitou hesitante, mas entendeu que aquilo era também uma representação de confiança nela. Aceitou o patuá e fez um artesanato para pendurá-lo no pescoço, mas era um amuleto que não poderia usar sempre ou deixar pessoas tocarem. “Ficou muito bonito no seu pescoço” disse Marco. “Obrigada, você achou? Eu que fiz o patuá.” “Você é boa nisso, tem mãos de médica e de artesã.” Ela tocou seu cabelo. “Sei fazer cafuné.” “Percebi, é muito boa nisso também.” Com vergonha, Fabi não foi além disso e Marco não tomou nenhuma iniciativa, porque ela estava usando o patuá.

Era dia de visita e, apesar de não ir sempre como seus pais, Fabi foi ver seu irmão. Estava até menos magro do que quando chegou. As celas especiais certamente são diferenciadas. “Como vai, mano?” “O tempo passa muito devagar aqui!” “Posso trazer alguns livros pra você ler” “Você só traria livros chatos, né?” “Posso trazer livros de medicina, para que não fique sem se antenar com sua profissão ao sair daqui, terá que passar um bom tempo ainda.” “Está bem, eu aceito os livros, obrigado.” Fabi fez uma seleção especial de livros dos quais ela estava traduzindo alguns textos, seu irmão sabia inglês também. Ao voltar ele até elogiou os livros, provavelmente por serem estrangeiros, mas esse não era o ponto de tê-los selecionado. Eram obras de medicina humanista, ela ainda acreditava que o irmão poderia exercê-la, especialmente após passar pelos sistemas manicomial e penitenciário, respectivamente. Com essa experiência, tinha fé de que Tobias sairia da prisão disposto a ajudá-la a mudar o sistema, como queriam muitos médicos. “Esses livros são muito queridos para mim, leia com cuidado, tá?” “Tá bom, maninha, obrigado por se preocupar com minha carreira no futuro. Creio que precisarei passar num concurso público, pode trazer materiais que me ajudem?” “Posso, mas esses aí já vão te ajudar, garanto-lhe.”

“Está indo muito na aldeia filha, isso é por conta de algum caboclo?” Fabiana enrubesceu inteira. “Ou cabocla, né, querida, esses tempos os jovens estão modernos.” “Pai, mãe, podem parar? Vou lá porque gosto de lá, inclusive, Anahi está ligando, ela chegou.” “Vá com Deus, filha.” “Fiquem com Ele também.” No carro, Anahi indagou: “Menina, por que está vermelha assim?” “Não foi nada, meus pais perguntando besteira.” “Deixa eu adivinhar: perguntaram se você arrumou um namorado na aldeia.” “Foi isso mesmo e você sabe que não quero falar disso.” “Você e Marco são muito lentos! Se fosse eu já teria metido um beijo nele.” “Mas somos lentos mesmo e não tem problema nisso, não sei nem se ele gosta de mim nesse sentido.” “Aí você está sendo modesta ou pirada, é óbvio que ele gosta de você! Devia fazer algo de presente pra ele, você é boa com artesanato. Aliás, é normal esse calor todo na primavera?” “Não, não é normal.” Ao chegarem, após cumprimentar as pessoas, Fabi foi confeccionar uma curica de bambu para Marco, fez toda colorida com linhas e uma pena azul e búzios pendurados. Levou a tarde inteira e mais dois dias para terminar, era um trabalho delicado e ela era especialmente detalhista. Após concluir, voltou lá. “Tome, é um presente relacionado a quando nos conhecemos.” “Que lindo! Deve ter dado trabalho fazer!” “Não foi nada.” ela já estava vermelha. “Não sei como agradecer.” “Não precisa agradecer.” “Obrigado!” Ele a puxou para um abraço. “Você gostaria de ir comigo plantar algumas mudas de reflorestamento?” “Claro!” “Já fez isso antes?” “Já.” Era sempre uma atividade que deixava Fabi bem feliz, reflorestar. E na companhia de Marco, foi melhor ainda. Cada um plantou dez mudas de plantas nativas da mata atlântica. “Nayr me disse que sou uma guerreira de Oxóssi.” “O velho tem um ponto, você é mesmo exuberante e protetora?” “Exuberante? Me sinto tão pequena perto de todo mundo e da mãe terra.” “Sua exuberância vai além do que você sente, não precisa se achar exuberante para ser-lo.” “Se você diz…” “E digo com sinceridade.”

No dia seguinte, quando ela retornou, Marco a esperava com uma pulseira de sementes de açaí. “Uma amiga minha do Pará veio aqui e me deu algumas sementes, fiz isso para você.” “Obrigada, não precisava.” “É gratidão pela curica. Soube que você está traduzindo artigos de medicina.” “Sim, para o português e tupi antigo, darei aulas hoje, se quiser assistir.” “Quero sim.” “Inclusive, aquela maconha que você me ofereceu ontem no reflorestamento, eu acho que vou aceitar hoje, os artigos me convencem mais e mais dos benefícios da erva.” “Falará de maconha nas aulas? Agora é que eu quero ir mesmo.” “Sim, do uso medicinal.” Fabiana falou em um espaço aberto para várias pessoas, ora em português, ora em tupi antigo, sobre os avanços que ocorriam na institucionalização do uso medicinal da cannabis, vários o usos que a comunidade já conhecia mas que não eram permitidos legalmente no país e a importância de buscar essa legislação internacional para tornar legal no Brasil. Não quis fazer campanha para seu pai, mas perguntou ao fim da palestra se alguém queria recomendação de senador para o ano que vem e quem quisesse, ficasse para receber um panfleto. Quase todos ficaram. Após todos saírem, Marco se aproximou. “Vamos fumar?” “Vou precisar tomar um banho depois se não minha mãe me mata.” “Tranquilo, você toma.” Eles se sentaram num banco de madeira e Marco acendeu o que chamava de “dega”, um cigarro de maconha. Sabe tragar?” “Não.” “Eu gosto de puxar com a boca e depois deixar esfriar um pouco nela antes de puxar para o pulmão. Você pode puxar direto para o pulmão, mas como iniciante eu recomendo o meu jeito pois a fumaça vem menos quente.” Ela puxou e tossiu muito na hora. “Isso é normal?” “Sim, quem nunca fumou costuma tossir assim, ainda mais com uma flor dessa.” Ela puxou novamente, dessa vez sem tossir. Começou a escutar música. “É normal ouvir música?” “Não, há música mesmo, estão fazendo uma rodinha, vamos lá quando terminarmos isso aqui, capaz de ter mais lá. “Minha nossa eu vou ficar muito chapada!” “Vai precisar de um banho bem gelado!”

Assim fizeram, Fabi já estava risonha e se sentindo bem, a música parecia outra coisa, sentia uma conexão maior com ela. Marco estava certo, estavam passando na roda mais um dega. “Vai fumar, Fabi?” “Vou!” “Gostei de ver! Essa erva é sagrada e traz muita alegria e saúde!” Ela cochichou: “Talvez me traga coragem para beijar o Marco.” Cochicharam de volta “Coragem pode até trazer, mas você precisa fazer isso outra hora, agora não é hora disso, tome esse chocalho e faça música também.” Fabi o pegou e chacoalhou enquanto dançava na roda. “Você está toda suada, ia precisar de um banho de todo jeito!” “Essa foi uma ótima decisão!” “Foi, agora vamos cantar essa música que eu sei que você sabe!” Era uma canção em tupi antigo. Cantaram. “Depois de traduzir coisas da gringa, estás praticando nossa cultura, não acha simbólico?” “Agora que você mencionou, acho sim. É porque sou uma karaxuwanassu!” “Isso mesmo, é porque você é uma de nós e, assim como todos, ajuda e é ajudada pela comunidade.” “Pensei em tatuar a flecha de Oxóssi no braço.” “Acho que ficaria lindo.” Após passar o efeito da flor, Fabi foi tomar um banho que não estava gelado, a água estava até morna. “Obrigada, Marco.” disse, após se trocar. “Foi ótimo, graças a você.” “Eu que fico grato de ter sido que te apresentou à liamba, erva sagrada.” “Agora é hora de voltar para casa e fingir que nada disso aconteceu.” ela disse, entristecida. “Nunca se esqueça de que aqui também é sua casa.” Isso tirou dela um sorriso. E então retornou para casa. “Chegou tarde hoje, filha.” “Pois é, mas entreguei quase todos aqueles seus panfletos.” “Fico feliz em saber, meu bem!”

Ao sair da aula, Fabi avistou Marco no jardim da Católica. “O que faz aqui? Vai estudar também ou há alguma palestra?” “Eu já sou formado em ciências políticas, vim aqui te ver mesmo.” Havia uma rodinha de pessoas fumando maconha próxima. “Não fazemos isso em público assim, né?” “Depende. Tem gente que faz, meu filtro é sempre fumo quando estou cercado apenas de pessoas de que gosto.” “Quer dizer que você é formado, é tão jovem.” “Você também é e está perto de se formar, eu sou só um ano mais velho que você.” “Então você veio aqui me ver?” “É, estava me perguntando se te veria de jaleco, mas você segue as normas de biossegurança e tira antes de sair do laboratório. “Haha, sim, eu sempre sigo as normas.” “Há várias lanchonetes aqui fora, quer comer algo?” “Quero sim, na sua companhia seria bem melhor.” “O que prefere?” “Estou com vontade de pastel!” “Pastel então.” Comeram meio tímidos e calados. Alguns colegas de classe passaram, a maioria de jaleco, e avistaram Fabi. “Fabi, lanchando com um moço bonito assim! Nem nos apresenta!” disse uma garota. “É seu namorado?” disse um garoto. “Ele parece índio, é da tribo que você vive visitando?” “Dá pra vocês nos deixarem em paz? Não se chega assim num casal que está comendo e enche de perguntas. É falta de educação! Estamos num… encontro! Então nos deixem em paz!” “Ela está certa, desculpe, Fabi, boa sorte com ele!” e saíram. “Desculpe por eles.” “Estou acostumado a ouvir coisas piores. Então estamos num encontro.” “Foi mal, disse isso para-” “Não, estamos mesmo num encontro, se você diz.” Ela novamente ficou vermelha. “Então tá.” “Daqui você quer ir pra casa de uns amigos meus? É perto daqui, podemos ir a pé.” “Claro.” No caminho, Marco pegou em sua mão, o que fez seu coração bater forte. Quando já haviam entrado na propriedade, uma casa com um lindo jardim, ele disse, do lado de fora: “Antes de entrar, posso te beijar? Talvez não dê pra fazer isso lá dentro.” “Pode, eu estava esperando por isso.” Fabiana jamais revelou que aquele foi seu primeiro beijo, mesmo sendo popular na escola, não se interessava por nenhum garoto. Para ambos, foi um ótimo beijo, tanto que repetiram não uma, mas duas vezes. Só então entraram na casa. “Bem vindos, companheiros!” A casa era de Giovana, uma mulher que Fabi via com frequência na aldeia, Anahi era a outra pessoa conhecida que ela avistou. “Então aqui estamos em boa presença.” “Sim, vamos fumar um baseado, você quer?” “Um não! Três!” “Foi por isso que te disse que talvez não fosse possível fazer aquilo aqui.” “O que está sussurrando?” “A Fabi tem paranoia de que os pais possam sentir o cheiro.” “Mesmo se eu tomar banho, pode ficar nas roupas.” “Eu te empresto uma roupa pra fumar e você toma um banho e veste a sua pra voltar, pode ser? Vou abrir as janelas também que aqui está um calor da mulesta!” “Pode ser sim…” Fabiana se vestiu num vestido de Giovana. Puseram uma música agradável e Fabi fumou, junto a todos os outros cinco. Foi um momento de diversão e confraternização. Fabiana percebeu que o uso da cannabis podia ser não apenas medicinal, mas recreativo, e que não havia mal nenhum nisso. O proibicionismo era mesmo sem sentido. “Está viajando, Fabi?” “Viajei, só por um momento.” “Converse mais, você é sempre muito interativa.” “É que eu estou rindo à toa, não consigo terminar uma frase sem rir.” “Ela é fraca mesmo, ainda estamos no primeiro” todos riram. “Vocês comeram ou estou com fome?” “Eu comi mas estou com fome.” “Eu também, comemos um pastel antes de vir, mas isso não impede a larica.” “Tem macarronada, quem quer?” Todos quiseram. Ao final, Fabi tomou um banho e vestiu suas roupas. “Muito obrigada por me receber, Giovana” “Que isso, foi muito divertido, venham mais vezes. Era o fim da primavera, no verão, Fabiana e Marco já estavam namorando.

“Quero te apresentar aos meus pais.” “Eu também, mas os meus estão no interior.” “Poderia vir para um almoço em família na minha casa? Só vai faltar meu irmão.” “Posso sim.” Fabiana preparou um pirão de peixe para o almoço, com peixe frito, arroz e vegetais. “Não precisava desse banquete.” “Claro que precisava, amor. Pai, mãe, esse é o Marco, meu namorado.” “Prazer, Cornélio.” “Prazer, Donatela, mas pode chamar de Dona.” “Eu não pode chamar de corno não, viu?” Ele riu e Marco ficou desconcertado. “É um prazer conhecê-los.” Sentaram-se à mesa. “O almoço está ótimo filha, parabéns!” “Obrigada.” “Devia cozinhar mais assim para a gente.” “Sabe que sou bem ocupada com a faculdade.” “Se ocupa bastante com aquela aldeia.” “Faço campanha pro senhor lá, vai reclamar? Eu posso parar de fazer se achar que está me ocupando demais.” “Tem razão, falando nisso, o que faz da vida, Marco?” “Sou cientista político.” “Ah, já é formado então?” “Sim.” “Isso é ótimo.” “O que faz um cientista político?” “Eu faço estudos da situação política de grupos ou mesmo do país, trabalho com geopolítica e política para de populações vulneráveis.” “Parece bem inteligente, eu sou professor de Sociologia na UFPE, acho que nos daremos bem.” E foi assim durante o restante do almoço, Cornélio alugou Marco e, quando ele saiu, perguntou “Filha, ele é indígena, não é?” “Sim pai… ele é.” “Muito culto o rapaz.”

O ano de 2026 chegara e com ele muita ansiedade por parte de Cornélio para as eleições, pedia sempre a Fabi e seus colegas para que ajudassem na campanha. Como era um bom professor, era popular nas universidades. O calor era avassalador e, por instrução de Fabi, ele incluiu medidas climáticas e socioambientais em suas prioridades. Até mesmo Dona estava na torcida para que ele vencesse. E venceu. O presidente seria reeleito também, mas só no segundo turno. No dia da eleição, fez um churrasco e até Anahi foi. “Anahi, sentimos tanto a sua falta!” “E eu a de vocês, onde está a Fabi?” “Estou aqui! Desculpe a ausência, a faculdade anda puxada esses tempos.” “Está linda! Nem faz tanto tempo, você tem me trazido livros e revistas muito interessantes. Estou pensando em trabalhar com cannabis medicinal.” “Cannabis medicinal? Isso estava no livro que Fabiana deu a você?” “Sim, mãe, era uma das matérias, mas não era fumada, era em óleo ou vaporizada.” “É isso que os indígenas têm ensinado a você?” “Mãe, não vamos começar com preconceito agora.” “Sim Dona, era apenas uma matéria de livro, e realmente a planta está sendo usada como medicina já há alguns anos. Não se estresse por isso, hoje é dia de celebrar.” Dona ficou contrariada, mas aquietou-se. “Uma pena o Tobias não poder estar aqui conosco nesta data.” “Verdade, saudades dele.” Ao fim do dia, num cantinho, Anahi pediu desculpas pela gafe, Fabi disse que estava tudo bem “Quando eu me formar vou trabalhar com isso também mesmo.”

Antes disso, o ano foi difícil para os karaxuwanassu. Terras demarcadas incendiadas, mais mortes por COVID e houve até assassinato de dois índios numa manifestação, por parte das forças armadas. A pauta indígena não estava em alta sem razão, era de fato um genocídio ocorrendo. Obviamente, aquilo estava estressando muito Fabiana. Seu povo estava doente, perdendo terras e companheiros para a violência estatal. Uma das mortes por COVID foi o senhor que fez seu cocar, ela chorou muito sua partida e participou do enterro com muita dor no coração. “Era o senhor mais velho da aldeia.” Fabi tinha alguma esperança de que com seu pai no senado alguma medida importante fosse aprovada. Não foi fácil fazer campanha com luto por seu povo, mas sabia que não seria fácil de todo, pediu a Oxóssi que a ajudasse a ser uma guerreira protetora das matas e das pessoas. Quando seu pai tomou posse em primeiro de janeiro de 2027, ela estava prestes a iniciar o estágio intensivo como médica. Sua intenção era a de fazer uma residência como psiquiatra após se formar. Apesar do que havia dito, Dona a consolou bastante durante os pesares e confessava sentir falta de seu filho, sentimento que toda a família compartilhava. Marco também a ajudou muito a passar por isso e sentiu muito as perdas, estava em todas as manifestações. “Poderia ter sido nós.” “Sim.”

Como senador, Cornélio cumpriu suas promessas mas isso não gerou muito resultado pelo fato de a oposição ser muito forte e isso tornar difícil votar os projetos alinhados com suas pautas. Perdeu a votação para diminuir a emissão de carbono no país, perdeu a votação para projetos de erradicação da fome, mas, usando a imagem de sua filha, conseguiu aprovar um projeto de demarcação de terras indígenas. Conseguiu também aprovar um de acesso à educação para populações indígenas. Dona não estava gostando nada de morar em Brasília, longe dos filhos e num clima que lhe parecia pior que o de sua cidade natal, só estava ali pelo marido, o qual estava muito empolgado com o cargo político. Votou a favor de uma indicação ao Supremo Tribunal Federal. “Nunca imaginei que seria tão importante!” “Você já era, para sua família!” disse Dona. “Há muitos projetos de lei a serem aprovados, mas dependemos da Câmara assim como ela de nós.” “Foque em aprovar os projetos de lei alinhados com sua campanha.” “Eu sei, meu bem. Também reprovar os que estão desalinhados.” Cornélio conseguiu, com seus colegas, barrar uma confabulação para impedir o próximo embaixador da Venezuela, o qual foi aprovado. Seu trabalho na política certamente não acabou sem ser notado. E aquele era apenas o primeiro ano de sua posse.

Fabiana estava não apenas estressada com o genocídio dos karaxuwanassu como seu estágio, gostou muito de estagiar na psiquiatria, porém mudava constantemente de área, pois era importante que o médico conhecesse as áreas antes da residência. Mas esse estresse ainda ficava em segundo plano. Ficou muito feliz com a aprovação da lei de demarcação de terras. Ficou feliz também com o veto a uma lei que tornava mais rigoroso o tratamento a imigrantes no Brasil. No estágio em psiquiatria, trabalhou em um Centro de Atendimento Psicossocial e gostou muito do atendimento provido pelos profissionais ali, apesar de sentir muito a situação de muitos dos pacientes. Já na oftalmologia só observou os médicos realizando exames e fez anotações, não despertou muito seu interesse. Seu namoro com Marco ia bem, ambos se gostavam e se respeitavam, além de compartilharem bons momentos na aldeia. Ele estava fazendo um trabalho social educacional na aldeia, do qual ela fazia parte, como professora. Ele foi convidado então para ir a Conceição para a festa junina, para o qual concordou sem hesitação. Dona e Cornélio viajaram de carro até lá. Marco sugeriu que fosse com Fabi em sua moto, mas ela preferiu que fossem de ônibus. “É uma viagem muito longa para ir de moto!” “Eu também venho do interior!” Assim, foram de ônibus mesmo. Ao chegarem, foram recebidos por um casal de tios por parte de mãe de Fabi, os pais de sua prima que faria aniversário junto com ela. “Vão completar 22 anos!” “E esse rapagão, quem é?” “É meu namorado, tio e tia. Podemos ficar na casa de vocês?” “Claro, querida, o quarto que separei para você já tem cama de casal.” Ela piscou indiscretamente e Fabiana ficou encabulada. Como vamos? “De moto.” “Os quatro?” “Se fosse no meu tempo iam quatro numa moto mas hoje em dia a fiscalização é pesada. Veio eu numa moto e ele em outra quando soubemos que eram dois.” “Eu piloto moto.” “Pois! Podiam ter vindo de moto! Por que não se ofereceu, Fabi? Vir agarradinha no namorado.” “Eu não!” Marco ficou calado. “Mas ele pode ir seguindo vocês até em casa.” “Posso?” “Pode, meu filho!” Andaram até as motos. “Tem preferência de modelo ou pilota qualquer uma?” “Piloto qualquer um, menos aquelas pesadonas que eu não sei pilotar não.”

Os pais de Fabiana já estavam no sítio, se hospedariam na casa da viúva Maria de Paulo, mas estavam na casa da irmã de Donatela para um churrasco que prepararam para recebê-los. “Quanto luxo, tia! Mataram um bode?” “Sim, difícil está sendo manter os bichinhos vivos nessa seca.” “Imagino.” O semblante de Fabi entristeceu, mas logo voltou certo brilho quando lembrou de apresentar Marco aos avós, tios, primos e alguns filhos de primos, a família, que já era grande, estava maior, apesar das perdas. Marco, simpático que era, conseguiu conquistar cada um deles. “Eita que meu sobrinho é tímido no começo mas é desenrolado!” “Quero ver os dois dançando forró! Vai ser bonito!” O churrasco foi farto e dona Jandira ainda preparou uma buchada deliciosa. O dia seguinte seria festa junina e aniversário de Fabi, o primeiro aniversário que passaria namorando Marco. Ele preparou para ela um presente também artesanal, sabia que era o que mais gostava. “Então vocês são índios?” perguntou um tio de Fabi. “Somos.” “Até a Fabi?” “Até ela.” “O que ela precisou fazer pra ser considerada índia?” “Para ser uma karaxuwanassu é necessário ser reconhecido pela comunidade como parte da aldeia e da tradição karaxuwanassu, Fabi já o é´há anos.” “Entendi, então não precisa ser filho de índio?” “Não, não precisa, inclusive alguns filhos de indígenas crescem sem o contato com a tradição e perdem a herança de suas origens.” “Você sabe bastante.” “Ele é cientista político.” disse Cornélio. “Ah, por isso. É estudado.”

A noite foi quente, o que era novidade naquela época e região, mas tinha ventilador num quarto e ar condicionado noutro e ambos os casais estavam acostumados ao zumbido das muriçocas. Antes de se deitar, cada um dos quatro na casa em que estava hospedado saiu para ver o céu. Estava lindo e muito estrelado, mas não como antes, devido às queimadas que estavam sendo realizadas nos arredores. “Estão queimando muito aqui.” disse Fabi. “Queimam muito desde que me dou por gente. Estão queimando mais. “Vamos tomar um banho para tirar essa catinga da fumaça antes de dormir.” “Vamos.” Somente após se lavarem foram se deitar. Fabi acordou com uma linda mesa de café da manhã feita por Marco e seus tios. “Feliz aniversário, amor. Veja o que fiz para você.” Era um bracelete de pedras de quartzo verde. “Filha de Oxóssi.” Fabi abriu um enorme sorriso. “Você é muito bom nisso! Ficou muito lindo e delicado!” “Para uma mulher linda e delicada.” “Uma flor para uma flor?” “Sim, é por aí mesmo!” “Fabi!” disse sua tia. “Também fizemos essas cocadas de presente para você.” “Não seja modesta, Rita, foi você quem fez tudo, eu só lambi a colher.” Todos riram. “Você catou os cocos e lavou a louça inteira, marrapaiz!” “Obrigada tio e tia, eu adorei.” “Sua avó costurou um vestido de chita lindo para você!” “É mesmo? quero ver, mas antes vamos comer este banquete! A festa seria na casa de Jandira, foram para lá de moto. Fizeram mungunzá doce e salgado, o segundo sendo o favorito de Fabi. Estava tudo enfeitado e fogueiras foram preparadas, não houve chuva como os nativos torciam. Fabi estava amando apresentar seu namorado à família, e o fez também como dançarino de forró. Deram um show dançando, como se fosse ensaiado. “O sotaque de Cornélio e Dona já mudou um pouco, não acham?” comentou alguém. “Verdade, dizem que nosso falar é arrastado, mas esse brasiliense é bem enjoado.” “Epa, brasiliense não que minhas raízes ainda são da Paraíba. É verdade, estou chiando demais no ‘D’ e no ‘T’ mas não é pra tanto.” “Cuidado pra não virar colarinho branco!” “Jamais!” “Jamais como? Tu já é um, rapaz!” “Mas sou dos bons, não dos criminosos.” “O papai tem feito um bom trabalho como senador.” A festa durou até o dia seguinte, aniversário de Aninha, prima de Fabi. Marco ficou encantado com a receptividade de sua família e jurou voltar mais vezes, se a patroa permitisse. “Não me chame de patroa.” “É só jeito de dizer, amor.”

A vida na Câmara era luxuosa, Dona e Cornélio perceberam sua grande ascensão social lá em Brasília. Cornélio havia feito amizade com vários senadores e deputados do centro, como lhe foi instruído, inclusive com o presidente da câmara, que era de centro-direita. Fabiana não aguentava ver seu pai de mãos dadas com esses políticos na televisão. “Espero que convença e não seja convencido.” Suas pautas ainda votava com coerência, foi a favor do projeto que teve que ser votado novamente em 2027, o qual já tramitava no congresso em 2025, para institucionalizar o uso medicinal da cannabis para várias doenças, de forma mais aberta, com direito a plantio. Isso elucidou Dona em muitas coisas, como foi ignorante a forma que tratou Fabi ao trazer livros de cannabis medicinal para Tobias. O projeto passou, finalmente, e Fabiana, que estava prestes a se formar, ficou muito feliz. A medida ajudou a ampliar o acesso à medicação e a produção própria do remédio pelo paciente, no caso daqueles que vaporizavam a flor. Também aumentou a quantidade permitida do plantio para fins medicinais pelas associações que o faziam. Isso ajudou muitos pacientes a terem acesso à medicação, muitos moravam num lugar distante ou não tinham poder aquisitivo para comprar a medicação e puderam plantar em casa mesmo. Além disso, eram convidados para eventos e jantares luxuosos por todo o país, “com a ilustre presença do senador Cornélio”. Nesses eventos, falava-se de tudo: política, economia, investimentos, especulação imobiliária. O último chamou a atenção de Cornélio.

Tobias foi bem comportado durante sua prisão e foi liberto também em 2027. Teve muito tempo para pensar sobre suas atitudes e nem precisou pagar toda a sentença. Foi estudar para concursos que não tivessem a ver com redução de danos. Na prisão, trabalhou em obras, era tanto seu direito quanto seu dever. Por ser um rapaz bonito, era assediado constantemente lá. Passavam muito a mão. Teve que fazer amizade com um traficante de drogas influente para se proteger. Mas o tratava apenas como companheiro, não realizava serviço ilegal algum na cadeia. Morria de medo de muitos de seus colegas e tinha o apelido de “traficante de leite”, porque, se caísse, nascia o de verdade. Ficou muito feliz por sair antes de acabar sua sentença. Sua advogada teve um grande papel nisso. A família o recebeu muito bem, especialmente Fabi, que ainda morava em Recife e o visitava com frequência em seu apartamento. Passou rápido em um concurso tendo estudado no presídio, foi aceito como médico plantonista em um hospital público da cidade e naquele emprego se estabilizou. Não voltou a usar drogas mas desenvolveu Transtorno de Ansiedade Generalizada. Fabi o indicou um médico que prescrevia o óleo de canabidiol, um extrato da cannabis sem ser a erva fumada e seus malefícios. Aquilo o ajudou bastante a regularizar o quadro, ficou muito grato por sua irmã não ter seguido seus passos e poder ajudá-lo agora. “Como está indo o tratamento, Tobias?” “Muito bom, Fabi, meu quadro de ansiedade já está estável, muito obrigado pela indicação, nem pensei que a cannabis mudaria minha vida desse jeito. E li os livros e revistas que você me deu na cela.” “Também fico contente que tenha ajudado e que tenha lido o material. Era interessante, não?” “Sim, bastante.” Numa ligação com sua mãe, Fabi ouviu um pedido de desculpas pelo preconceito com a cannabis medicinal, disse ter percebido a melhora no quadro de Tobias e foi graças à planta.

Foi no verão de 2028, com um mar de calor que, na praia, Marco pediu Fabi em casamento, desta vez com um anel padrão. “Casa comigo?” “Sério?” “Sim, trouxe aliança e tudo pra te perguntar isso.” “Minha nossa, é mesmo um pedido de casamento?” “É.” “Eu aceito.” “Sabia que aceitaria.” “Ora, não seja tão exibido.” “Só perguntei porque já nos considerava noivos, queria apenas a confirmação.” “Pois teve! Eu também pensava assim.” “Posso por esse anel no seu dedo anelar direito, então?” “Pode sim.” Ele colocou o anel. E seu noivado foi assim, depois correram para o mar e se beijaram bastante, um lindo casal, comemorando seu noivado. Já em casa, no telefone: “Mãe, pai. Estou noiva.” “Noiva? Do Marco?” “Claro que é do Marco, Cornélio, quem mais seria?” “Sim, do Marco. Marquei um encontro com Tobias amanhã para contá-lo.” “Que coisa boa, minha filha, espero que vocês sejam muito felizes.” “Também espero, minha boneca!” “Nós já somos felizes juntos, desejem mais felicidade.” “Vamos abrir um vinho aqui e brindar seu noivado” “Amor, pega o saca rolhas.” “Não precisa disso.” “Claro que precisa!” Abriram o vinho e colocaram em taças de cristal. “Que sejam mais felizes ainda!” “Que assim seja!” E brindaram. “Obrigada, pai, mãe.” No encontro com Tobias ele a abraçou e ergueu ao alto. “Não acredito que já cresceu tanto!” “Cresci, já estou estudando para a residência em psiquiatria.” “Será uma ótima psiquiatra.” “Gratidão, irmão.” “Isso de falar gratidão é coisa de tilelê, né?” “Como assim, tilelê?” “Aquele povo que paga de boas energias, isso e aquilo. Mas são só ricos com roupa alternativa.” “Tipo como você era?” “Eu?” “Sim, parecia assim me falando de ayahuasca.” “Nossa, eu aprendi muito com a vida.” “Então deve saber que não sou tilelê, falar ‘gratidão’ é comum.” “Sim, perdão pelo que disse.” “Esse grupo de pessoas que você falou é geralmente quem se apropria de tradições indígenas para curtir em festas.” “Entendi. Você é uma indígena de verdade.” “Sou.” “Já usou ayahuasca?” “Participei de um ritual sim. Foi indescritível.” “Só porque ia pedir pra você descrever.” “Não, é algo que guardo para mim, uma memória muito tenra.”

Com os projetos que as conexões que Cornélio fazia estavam permitindo aprovar, ele estava obtendo inimigos políticos. Tanto que decidiu que aquele seria seu último mandato na política e logo após se aposentaria. “Onde pretende se aposentar, querido?” “Estava pensando numa região que mistura nosso gosto por uma casinha calma e a proximidade com Recife.” “Onde é isso?” “Aldeia, um local a vinte quilômetros da cidade e já com restaurantes e bares próximos onde há vários condomínios privados, veja essas fotos” ele mostrou o celular “Nossa, é lindo mesmo, e as casas lá são bem rústicas, do jeito que gostamos.” “O que acha de passar nossa vida de aposentados lá?” “Acho uma ideia incrível. Vamos comprar um terreno e construir uma casa.” “Estava pensando em comprar outros terrenos também, a especulação imobiliária está alta.” “Como quiser, contanto que tenhamos paz.” Enquanto isso, o inverno de 2028 batia novamente um recorde de chuvas e mesmo Fabi, Marco e Tobias sofriam dificuldades com os alagamentos. Era difícil morar numa casa, difícil se locomover pelas ruas e difícil assistir às notícias. “Já estamos sentindo muito o aquecimento global” disse Marco. “Sim, e, na aldeia, inclusive as crianças estão passando fome de novo.” disse, entristecida “Vou fazer um projeto de arrecadação de alimentos na universidade, ajuda muito as causas humanitárias.” “Faz bem, mas não se exceda. Sei que já está estagiando e estudando para a residência ao mesmo tempo.” “Isso é mais urgente, vou ter mais tempo para estudar para a residência assim que me formar.” Deram um beijo e cada um seguiu para sua jornada diária.

Deitada no peito de Marco, Fabi disse: “Marco.” “Oi.” “O que acha de nos casarmos?” Ele arregalou os olhos. “Já?” “Eu confio em você para ser meu parceiro durante toda a vida, você confia em mim?” “Confio.” “Então, vamos nos casar?” “Vamos, meu amor!” Ele a abraçou bem forte. “Que pedido de casamento inusitado.” “Não mais que o seu de noivado.” “É mesmo.” “Quando quer se casar?” “Nos papéis? Amanhã.” “Depois fazemos as outras celebrações de casamento. “Outras? Quer casar na igreja?” “Quero chamar sua família e a minha. Serra Talhada não é tão longe assim de Conceição, né? Quero conhecê-los lá.” “Não, minha família em Serra é muito menor que a sua, é melhor fazer em Conceição e eles viajam.” “Então está bem.” “Estou muito feliz?” “Está?” “Sim, vou casar amanhã.” “Você nem perguntou sobre a outra celebração. “É óbvio que será na aldeia, não é mesmo?” “Sim, fui moleca.” No dia seguinte vestiram roupas simples, mas arrumadas e foram casar no cartório, Anahi e Giovana foram as testemunhas, não contaram a ninguém. Para a família o casamento oficial seria na igreja, e começaram a planejar a festa: os convites, a decoração, a comida. “Não imaginei que seria difícil e caro assim” “Seus pais mandaram dinheiro mais que suficiente.” “Sim, mas me sinto culpada pois poderia usar esse dinheiro para comprar comida para a aldeia.” “É o dinheiro dos seus pais, meu bem, eles mandaram para o casamento. Se quer ajuda para a aldeia, peça, mas não se sinta culpada por usar isso para o fim pelo qual foi lhe concedido.” “Obrigada, amor, você tem razão. Vou pedir também doações a eles.”

Na aldeia, era sempre alegria quando Fabi chegava com mais comida. Foi também alegria quando anunciou seu casamento com Marco. Fizeram um baião de dois e fritaram peixe. Todos comeram e dançaram numa roda em celebração, fumaram liamba e cantaram bastante. Aquela festa não era cara, mas deixou os recém casados muito felizes. Sabiam as cantigas de cor, sabiam as danças e usavam os instrumentos também. O efeito da erva deixou suas veias quentes e sua boca sempre sorridente. Sentiam o batuque da música com o coração, como se fossem um com ela, também sentiram a atração um pelo outro aumentar e dançaram juntos com muita paixão. Já para o casamento na igreja, os pais de Marco concordaram e ficaram felizes que ele se casaria com uma karaxuwanassu. Iriam eles, sua avó e mais um casal de tios com sua filha, prima dele. “Minha família nuclear não é tão confusa quanto a sua.” “Difícil é achar uma que seja.” Os convites foram enviados e Dona e Cornélio fizeram questão de que o casamento fosse na Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, a maior igreja da cidade, com luxuosas pinturas no teto e uma arquitetura barroca e neoclássica, com vários arcos em sua estrutura. Fabi quis reutilizar o vestido de noiva de sua mãe, que casou na mesma igreja. Era um vestido bastante armado a partir da cintura. A comida foi toda preparada por um negócio que uma de suas primas fundou de doceria e buffet de festas, não só por ser negócio da família mas porque ela era muito boa no que fazia. Marco estava muito ansioso em meio a tanta gente de paletó e gravata esperando Fabi, mas, ao contrário dos costumes, ela não quis atrasar. Entrou com Cornélio ao som da marcha nupcial mesmo e foi um casamento lindo, para ambas as famílias, mesmo a de Marco não sendo católica. Na festa os noivos dançaram uma valsa e tocou muito forró. Fabi conheceu finalmente os pais de Marco, que também eram karaxuwanassu. “Ô minha filha, nós morávamos em Recife também, mas as condições estavam tão ruins que fomos para Serra Talhada antes do Marco nascer.” “É um prazer te conhecer, menina.” “O prazer é todo meu!” “No nosso tempo aquilo não era nada, não davam posse nenhuma a índio.” “Os tempos mudaram um pouco, mas mudaram.” O jantar estava incrível e também o bolo de noiva e os docinhos. Fabi conseguiu aproveitar e deixar de lado a insegurança que sentia porque seus pais fizeram uma doação generosa para a aldeia. “Amor, não deixe de aproveitar o que pode” Marco era sempre muito sábio e a ajudava muito a carregar psicologicamente o rojão pelo qual estava passando. Mudaram-se juntos para o apartamento onde Fabi residia.

Agora ainda era fim de primavera e o calor batia recordes novamente na estação, havia protestos karaxuwanassu com mais frequência do que nunca. Em um dos que Fabi não pôde atender por estar ocupada no estágio, a polícia militar interviu pesadamente e Anahi levou um tiro no peito que atingiu seu pulmão, matando-a. Todos ficaram indignados com o caso e a mídia utilizou muito o termo “idígena formada em direito” ao se referir a Anahi. “Como se nossas vidas valessem menos por escolaridade” desligou a TV Fabiana, ainda chorando. Marco desta vez não conseguia consolá-la por estar também muito mal. “É um misto de tristeza pelo luto e raiva pelas condições em que a morte ocorreu.” “Sim.” Uma mensagem da minha mãe está pedindo para ligar a TV. Era Cornélio fazendo uma manifestação ao vivo de repúdio ao que tinha ocorrido com Anahi, menina que ele conheceu pessoalmente e era muito inteligente. Reforçou a necessidade do fim do genocídio indígena. Ao fim de sua fala, Fabi desligou a televisão. 2029 chegou ainda com luto e calor. Era o último ano do mandato de Cornélio, havia um projeto de lei para aumentar a verba cedida à Funai, Fundação das Nações Indígenas. Cornélio falou bastante, mas não conseguiu fazer com que o projeto fosse aceito, nem impedir que aprovassem medidas favoráveis à monocultura e agropecuária voltada para exportação, mesmo repetindo o que Fabiana lhe dizia de que setenta porcento do que está no prato dos brasileiros hoje provém de agricultura familiar. Foi um ano de fracassos nas tentativas políticas com exceção de um projeto que deixou Fabi muito feliz: Aumentar a verba do SUS, essa verba foi amplamente utilizada para melhorar a infraestrutura dos centros de atendimento psicossocial e iniciar o projeto de construção de mais deles.

Fabi finalmente se formou já passando na prova para residência em psiquiatria pela Universidade Federal de Pernambuco. Seus pais fizeram uma festa, metaforicamente, pois ela não quis festa alguma por esse feito. “Veja de onde saímos agora temos dois filhos médicos e você conseguiu ser senador federal” “Nossa ascensão de vida foi bem significativa não é, querida?” “Sim, e a Fabi fez por onde pagarmos a faculdade de medicina a ela.” “Vou devolver cada centavo se fazem questão.” “Não, querida, temos um ótimo plano de aposentadoria, não se estresse com isso.” Marco, ao contrário, animou muito Fabi por passar em sua residência. “Amor, estou muito feliz por você!” “Obrigada, meu bem!” “Ser uma guerreira protetora. É pra você mesmo!” O ano acaba, e, com ele, o mandato de Cornélio. No fim de dezembro, Fabi visitou com marco o túmulo de Anahi.

Ao retornar para Recife, Cornélio revelou a Fabiana e Tobias: “Não quero mais ser político, já estou podendo me aposentar, eu e sua mãe. Vamos receber aposentadoria e fazer especulação imobiliária aqui. Moraremos numa chácara.” “Especulação? Onde?” Perguntou Tobias. Fabi estava calada. “Em Aldeia.” “Aldeia? Aquele lugar no meio do mato cheio de condomínios privados?” Fabi já sabia do que se tratava há muito tempo, aquele lugar era próximo de onde ia sempre. “Sim, os terrenos lá estão valorizando muito.” “Pai, esses terrenos eram terra no-” “Já temos uma chácara em construção e cinco terrenos em condomínios privados.” “Devolva!” Ela se referia aos territórios que nunca foram indígenas mas eram seus por direito, por terem lutado séculos atrás por eles. “Como assim?” “Aldeia faz parte do genocídio karaxuwanassu, pai, essas terras são originalmente nossas. Toda a região de Aldeia devia pertencer à nossa aldeia! Por isso o nome muito mal escolhido!” “Filha, ninguém toca na reserva ecológica de lá, que bom que vamos morar perto de sua aldeia, mas Aldeia é um outro lugar, os terrenos lá são privados há muitos anos.” “Foram desapropriados, o senhor que aprovou a lei de demarcação de terras indígenas devia entender!” “Não entendo porque está tão estressada, esse plano de aposentadoria meu e de sua mãe já é muito antigo.” “Estou estressada porque resolveram se aposentar em terras karaxuwanassu!” Fabi saiu dando um estrondo na porta.

Revoltada, ela contou o que ouviu a Marco. Ambos decidiram revelar à aldeia, a qual demonstrou tanta indignação que foram fazer um ato contra a desapropriação de suas terras para a existência de um local de elite chamado Aldeia em frente à casa que os pais de Fabi construíam. Pela filha do ex-político estar presente numa mobilização contra o próprio pai, o evento chamou atenção da mídia e atraiu curiosos e também a polícia militar. Estavam todos vestidos com camisetas políticas e com cartazes em mãos, que diziam “ESTAMOS AQUI HÁ SÉCULOS” ou “CHEGA DE GENOCÍDIO E LEVAREM NOSSAS TERRAS”, alguns vestiam cocares e estavam todos com muita raiva, mobilizaram mais pessoas que em qualquer ato anterior. A polícia tentou deter o movimento, sem sucesso. Fabi foi xingá-los e foi empurrada por um escudo militar, caiu no chão. Quando isso ocorreu, Marco foi tentar ajudá-la a levantar e tomou um tiro no pescoço, morreu na hora, sua última visão em vida foi Fabiana. Fabi começou a gritar, chorando. Toda a sua trajetória com Marco, seu papel de proteção, lhe vinha à mente. A revolta borbulhava em suas veias. O sangue dele manchava seu corpo e os de mais companheiros. O fato estava sendo filmado ao vivo. Gritou. “É isso? É essa a sua política?” com ele em seu colo.


Os karaxuwanassu são um povo de origem peruana, boliviana e pernambucana, com várias etnias, dentre elas Xukuru, Karapotó, Fulni-ô, Pankararu, Wassu cocal, Ka’eté e Warao, que ocuparam Recife e sua região metropolitana por denominarem-se povos originários daquele local. Infelizmente, sofreram fortes repressões e um povo indígena sem terra sequer é considerado um povo. Restam as questões: quem tem direito àquelas terras? Negá-las a um povo é negar sua existência? A resposta desta obra é implícita.

Hasu Mei

Sou autora iniciante residente
em João Pessoa e nascida em Recife,
filha de cearenses.

Dicas Kuruma’tá — Três artistas incríveis

Texto de Toinho Castro

Hoje tem dica de livro e de música na nossa Kuruma’tá!

Deixo pra vocês esses dois livros recém lançados pela Macabéa Edições. Desenterrar os ossos, da Priscila Branco e O carro de Apolo capotou no horizonte, de Milena Martins Moura. Ambos os livros trazem poemas inéditos dessas duas grandes poetas, cujo trabalho eu simplesmente amo e respeito demais. Priscila nos devia a beleza de sua poesia desde 2021, quando lançou seu primeiro livro, Açucar, também pela Macabéa; e o pequeno e lúdico Uma pitada de prosa, em que navega pela prosa poética. Milena nos encanta mais uma vez com a força da sua poesia. Seu livro anterior, O Cordeiro e os Pecados Dividindo o Pão, foi semifinalista do prêmio Jabuti de 2024. Preciso falar mais!? Sim, preciso! Priscila e Milena despontam como o presente e futuro da poesia brasileira; poetas que trabalham para a poesia ter mais visibilidade, ser mais lida e compreendida como uma sólida região da literatura brasileira. Elas integram essa linhagem que nos trouxe tanta beleza, que vem passando pela poesia marginal e pela clássica tradição poética do nosso país, com nomes como Lucila Nogueira, Cecília Meireles, Maria de Lourdes Hortas (também editada pela Macabéa), entre outras tantas que iluminam nossa poesia. Assim… muito foda.


Mariava Volker, uma das minhas artistas prediletas na música brasileira, lança seu novo single, ou melhor, sua nova canção. É segredo já está rodando no streaming e chega carregada de afeto, delicadeza e sensualidade. Tem uma cadência que só se acha no Brasil, um Brasil que Mariana lê com propriedade e curiosidade, trazendo para a sua obra com desejo, com envolvimento. Com riqueza de tons, timbres e poesia. Musica pra se escutar da janela, em noite de serenata, Música pra dançar coladinho com o par, como se não houvesse um mundo pegando fogo. Uma música que cessa todo o ruído e se impõe com carinho ao nosso ouvido.

Lugares para chorar no Recife

Texto de Toinho Castro

Não tenho fila de leitura. Meus livros estão espalhados, e vou pegando um ou outro a esmo. Interrompo um livro aberto pra ler o trecho de outro. Emendo parágrafos de livros diferentes; e vou terminando um ou outro ao sabor dos dias, dos ventos, dos acasos. Gosto de ler devagar. Sem aperreio, sem meta ou método. Gosto de ler aos poucos, como quem não quer nada. Como quem não lê. Foi assim que li Lugares para chorar no Recife e outros (editora Seja Breve), do querido Helder Aragão, ou DJ Dolores, como ele assina sua vida de artista.

Feito de textos/crônicas, e poemas/letras de música, Lugares para chorar é um desses livros oraculares, de consulta, que você leva com você mundo afora. O mesmo mundo afora que o autor explorou em suas andanças de DJ, de migrante, de explorador. Mundo feito, sobretudo de encontros, narrados em cada página com doçura e curiosidade. Com olhar crítico, muitas vezes de estrangeiro, mas sempre amarrado às pessoas, ao humano contido em tudo. São lugares onde talvez nunca estaremos, como Abu Dhabi, ou ruas da infância em Propriá, Sergipe, como as ruas de tantas infâncias, muitas vezes escondidas sob camadas e camadas de cidade.

Em tudo se mistura a música, o espírito punk, a Cena, como se diz, fervilhante do Recife, que nos é mitológica e que é feita de jovens, subúrbios, discos emprestados, sonhos malucos, vestuários inventados e estuários. Feito de uma cidade, o ponto fixo nesse Pêndulo de Foucault que é o livro: Recife. No entanto, move-se.

E tudo gira.

Como gira um disco nos bares da zona portuária do Recife ou a ciranda de Lia ou ainda as rodas do Rio Doce/CDU, que conduziu o mangue pra lá e pra cá na Manguetown, essa cidade pra se chorar. Porque entre voos, sets musicais, Naná e Erasto Vasconcelos, filmes de Sganzerla, a croata Slagena e os encontros com Gil e Gonzagão… estão espalhados pela cidade do Recife os lugares para chorar. Como keyframes, Dolores vai alinhando ao longo do livro suas instruções para chorar na Cidade Maurícia, ecoando um Cortázar debruçado no guarda-corpo da ponte Buarque de Macedo, a mesma do poema de Augusto dos Anjos, a cismar com o Capibaribe. E é uma lindeza que se chore assim, ali, no Recife. É também uma leveza esse permitir-se chorar e fazer disso uma invenção.

Li o livro lendo a mim mesmo, eu também que cheguei de fora, pequeno demais ainda, do Rio Grande do Norte. Recife, ponto fixo. E naturalmente procurei nas páginas, e encontrei, os cruzamentos de linha com meus livros, Imbiribeira e Nada existe. Porque crescemos ali, compartilhamos cenários, pessoas e histórias contadas e mal contadas. Estamos, ambos, escrevendo de uma época, de um mundo, mas com os pés nesse aqui e nesse agora. E também o tal do coração. Quando já no finalzinho do livro, ele me fala de Sérgio Loreto, me comovi… porque tem essa passagem no Nada existe, dos meus pais na praça Sérgio Loreto, posando para fotos em 1958. Me vejo acendo, do ônibus, para eles.

De repente falou-se de uma certa cidade chamada Recife, Meus livros, Retratos Fantasmas, de Kléber, e agora Lugares para chorar no Recife e outros. Tem algo de geracional, mas também algo da cidade chamando por essa memória, por essas pessoas. Por essa literatura.

Veja bem, pegue seu exemplar de Lugares para chorar no Recife e outros e meta no bolso. Sm, cabe no bolso. E saia por aí, rumo ao Recife, onde pode-se chorar em paz, mas também escutar uma boa música e encontrar pessoas maravilhosas pra conversar e beber caldinho. Ali mesmo, onde o Capibaribe e o Beberibe se encontram para formar o oceano Atlântico. De onde se vê o mundo.

Da beira | Música de Gabriê

Texto de Toinho Castro

De que margem você é? De que beira? Dizem que… ao redor do buraco tudo é beira. E o buraco é grande, é fundo. E se você olha pro buraco, ele olha de volta pra você. É da beira que se vê o mundo.

Como tudo na cultura, ou na vida, é puxando o fio das coisas que as coisas aparecem. E foi puxando o fio de Patrícia Bastos, uma maravilha de intérprete do Amapá, que me encantou com seu disco Zalusa e segue me encantando. Seu trabalho mais recente, A voz da Taba, é de uma beleza danada!

Mas foi puxando o fio de Patrícia Bastos, no Instagram (Isso precisa servir pra alguma coisa que valha a pena!), que cheguei a Gabriê! O som dessa jovem compositora e intérprete, nascida em Porto Velho, Rondônia, atravessou o Brasil e mexeu comigo aqui no Rio de Janeiro.

Que voz é essa dessa moça! E com que força ela canta o Norte do nosso país nessa coisa linda que é Da Beira. Canção de um Brasil periférico, que vive e cresce à margem.

Recordo de quando estive em Porto Velho, anos atrás, e o por do sol era filtrado pela fumaça das queimadas. E à despeito da beleza daquele sol avermelhado, eu assistia àquilo assustado. Temeroso de saber da cortina de fumaça que a tudo cobria. Era como uma fronteira do mundo, distante da zona sul do Rio. Eu estava ali, onde se sente mais forte o impacto da devastação. O sol de um mundo acabando.

Mas é desse mundo, de dentro da cortina de fumaça, que vem a força do som de Gabriê e outras tantas vozes do Norte, a nos alertar, a nos encantar, como se fosse o som das matas, dos igarapés e das chuvas a dizer: Ainda estamos aqui.

Da Beira é um testemunho, não um testamento. É vida pura e vibra onde quer que ressoe.

Fico feliz demais de descobrir músicas assim. Veja só, mesmo com indicação ao prêmio Multishow e participação no The Voice, Gabriê havia me escapado. Mas isso agora mudou. Tô aqui na beira que me cabe nesse mundo, olhando pro Norte, de olhos e ouvidos atentos… porque há algo poderoso contra a fumaça, contra a devastação. Uma afirmação do peixe com farinha, do tacacá, dos povos do dentro das florestas e da beira dos rios.

Tenho esse carinho pelo Norte desde criança, que vem do meu pai, que tanto viajou pra lá, que tanto andou por aquelas cidades. Voltava trazendo, ele nem imaginava isso, ícones, símbolos intensos do lugar. Artesanias e histórias, mitologias que se enredaram na minha visão encantada do mundo. Depois de adulto pude cumprir a mesma senda, trajetos e cidades e encontrar o Norte com sua verdade e sua riqueza.

Escutar da Beira é estar lá, é ser da margem de lá. Por que o Eu sou que Gabriê canta, é carregados de Nós somos. Da beira. Do Norte. Do Brasil.

É que meu santo é forte
Eu nasci no norte
Eu venho da beira
Da beira do mapa
Da beira do sonho
Lá do rio madeira

Cabo de Vassoura | Miniconto de Mayra Alpine

Uma pequena história que retrata um pensamento ansioso
no qual já me encontrei algumas vezes
e que pude relacionar a outras analogias da vida

— Mayra Alpine


Meus ombros já estão cansados. Principalmente o ombro esquerdo. É o ombro que suporta mais confortavelmente esse tipo de alça de mala. No outro fica a bagagem mais leve. Às vezes os troco, mas o ombro direito não sustenta muito e logo acovarda. Cada ombro tem sua mala, entende? Dói demais. Minha vizinha dizia que de tanto carregar mala, ficou torta. Corcunda, mas não para frente, para os lados. Nessa história, teve que se adestrar com vassoura. Botava a vassoura no ombro e tinha que caminhar. Pra lá e pra cá. Sou eu que me boto nessa situação, para que tanto troço? Você entende que não é culpa minha, três peças de roupa já faz um estrago enorme e você precisa arrumar uma vassoura. Têm bem mais de três peças aí, se é como eu tô lembrando. É, mas nem são pesadas, são leves, bem leves mesmo, daquele pano macio, leve. Leve. Tá calor, abafado. Que tempo quente. Um monte de pano leve junto dá um prejuízo e o ombro cai para os lados e precisa arranjar uma vassoura. Você sabe que tem que escolher um par de sapatos, dois não dá. Sapato vai no pé, não no ombro, você sabe. Tempo quente assim, abafado, quente, é indício de chuva. Lembra? Frente fria, no mínimo. Vai chover, parece que alguém varreu o céu. Isso é chuva, sugere chuva. Se chover, vai fazer frio à noite, sempre faz, assim que acontece quando chove essas horas. Tá tarde, tá ficando tarde. Entende que sua roupa leve tá doendo, mas não vai servir de nada? Se chover enquanto eu estiver aqui, esperando, vai ser sofrido. Minha pele vai ficar úmida, meu pé vai grudar no chão. Meus dedos vão ficar melados da mesma maneira que meu pé vai colar no chão. Tá tão pesado. — Querida, você tem horas?

Infância, quase Pasárgada | Poema de Eva Vilma

de tarde vou-me embora
aqui o tempo é sisudo
e faz medo
de tarde a Infância me recebe
com gosto de pitanga
e cheiro de flor de jambo…

de tarde vou-me embora
aqui o tempo é sisudo 
e faz medo 
de tarde a Infância me recebe 
com gosto de pitanga
e cheiro de flor de jambo
o arrebol de Infância tem cores de ipê 
e textura de corpo na lama 
de tarde, depois da chuva
a Infância me recebe à luz de lamparina 
com livros na cama
e piaba na goela
de tarde a Infância é rio corrente 
sou sereia d’água
de tarde
com vento secando a saia
e mão entrepernas
de tarde
com roupa no quarador
e pés sem chinela
de tarde
com sol no chão do quintal
e canto pra Santa Clara
de tarde
vai chuva, vem sol
pra enxugar o meu lençol
de tarde
meu sapo coaxa debaixo da cama
a velha debaixo da cama
a velha criava um sapo
debaixo da cama com piso de chão
debaixo da casa com teto de céu
de tarde
o rádio com pilha Rayovac
atenção menina, ouça aqui o seu horóscopo
de tarde
o pé de jamelão carregado
a meia três quartos
a Conga fazendo calo
de tarde 
tanajura adivinha chuva
o balde na goteira
nessa casa tem goteira, pinga ni mim
vou-me embora pra Infância
de tarde
vou sim.


Eva Vilma é um tanto de seres que se reinventam sempre. Mãe, escritora capoeirista, feminista e ativista literária pelos coletivos Mulherio das Letras e Tarja Preta de Literatura  Independente. Tem participação em coletâneas de poemas e cartas. É autora dos livros para infância “Ela é…” e “O Fantástico Relógio da Rute”, coautora do livro pra infâncias “Onde está?” Também são de sua autoria os livros de poesia “INômoda” e “Incandescente”. Ambos compondo coleções do Mulherio das Letras, e “Nudes”, de crônicas. Publica nas redes sociais através da página  Arranjos Para Voos Poéticos, no Facebook e em sua página pessoal no instagram @eva.vilma.338.

Fogo nos lampiões: Arco é o novo e comovente trabalho de Marcos Sacramento

Texto de Toinho Castro

Nos tempos dourados pré-pandemia, quando uma turma de poetas e etcéteras se reunia ali na saída do metrô da Carioca, sob a égide solene da ACACANCACA (Academia Carioca dos Acadêmicos Cariocas e Não Cariocas da Carioca), estávamos, pois, a discutir algum tema vibrante quando junto a nós, no corre-corre daquele ponto de passagem, um moço bonito, animado, de dread, exaltou-se ao passar por nós, gesticulante: Mas o que é essa reunião? Seria uma Academia?!

Do jeito que veio, entre cumprimentos e gestos efusivos, seguiu no fluxo que se impõe no rush das tardes. Rimos muito e brindamos. Era o Marcos Sacramento que passara por nós. Certamente ele não recorda desse episódio, perdido na confusão de tanta noite e tanto dia. Mas se as mesmas noites e dias não tivessem dispersado a ACACANCACA, estaríamos hoje, nessa tarde maravilhosa, conversando sobre ARCO, esse disco maravilhoso que ele acabou de lançar, em pleno novembro passado, enquanto se aproxima o verão.

À falta de uma mesa de chopes na Carioca, o que faço, sentado em frente ao computador, em Vila Isabel, é compartilhar ao máximo link do disco, no streaming, com minhas amizades e membros da ACACANCACA, na aposta de que isso vai tornar o dia dessa gente muito melhor.

Arco dá vontade de dançar e cantar, e vem carregado de uma profunda alegria, portador que é do Brasil que corre pelas ruas, becos, comunidades, morros, areias do Rio de Janeiro. Disso tudo que cresceu em volta da Baía da Guanabara. Um disco de quem passa pela Carioca e fala com estranhos. Arco é de conexões, de encruzilhadas e encontros. Isso tá no repertório, no rico arranjo de gentes que tecem a trama de canções em que a voz de Sacramento se espalha, com emoção e brilhantismo.

É um disco comovente, de dores e carnavais. Abre um arco… sim, um arco, de gerações, que vai de Cazuza, Todo amor que houver nessa vida, auspicioso dueto com José Ibarra, passando por Baden Powell, Josyara, que traz sua Bahia – Rio e sua voz para o disco. Rio, Niterói, a ancestralidade do Salgueiro. Passado, presente e futuro, elegantemente alinhados e entrelaçados em onze canções impecáveis.

Luminosidade contra a escuridão é o que eu deixo, por fim, sobre esse disco. É uma afirmação da criatividade e sonoridade universal do povo brasileiro. Desculpa aí, mas Arco me deixou emocionado.