Cabo de Vassoura | Miniconto de Mayra Alpine

Uma pequena história que retrata um pensamento ansioso
no qual já me encontrei algumas vezes
e que pude relacionar a outras analogias da vida

— Mayra Alpine


Meus ombros já estão cansados. Principalmente o ombro esquerdo. É o ombro que suporta mais confortavelmente esse tipo de alça de mala. No outro fica a bagagem mais leve. Às vezes os troco, mas o ombro direito não sustenta muito e logo acovarda. Cada ombro tem sua mala, entende? Dói demais. Minha vizinha dizia que de tanto carregar mala, ficou torta. Corcunda, mas não para frente, para os lados. Nessa história, teve que se adestrar com vassoura. Botava a vassoura no ombro e tinha que caminhar. Pra lá e pra cá. Sou eu que me boto nessa situação, para que tanto troço? Você entende que não é culpa minha, três peças de roupa já faz um estrago enorme e você precisa arrumar uma vassoura. Têm bem mais de três peças aí, se é como eu tô lembrando. É, mas nem são pesadas, são leves, bem leves mesmo, daquele pano macio, leve. Leve. Tá calor, abafado. Que tempo quente. Um monte de pano leve junto dá um prejuízo e o ombro cai para os lados e precisa arranjar uma vassoura. Você sabe que tem que escolher um par de sapatos, dois não dá. Sapato vai no pé, não no ombro, você sabe. Tempo quente assim, abafado, quente, é indício de chuva. Lembra? Frente fria, no mínimo. Vai chover, parece que alguém varreu o céu. Isso é chuva, sugere chuva. Se chover, vai fazer frio à noite, sempre faz, assim que acontece quando chove essas horas. Tá tarde, tá ficando tarde. Entende que sua roupa leve tá doendo, mas não vai servir de nada? Se chover enquanto eu estiver aqui, esperando, vai ser sofrido. Minha pele vai ficar úmida, meu pé vai grudar no chão. Meus dedos vão ficar melados da mesma maneira que meu pé vai colar no chão. Tá tão pesado. — Querida, você tem horas?

Infância, quase Pasárgada | Poema de Eva Vilma

de tarde vou-me embora
aqui o tempo é sisudo
e faz medo
de tarde a Infância me recebe
com gosto de pitanga
e cheiro de flor de jambo…

de tarde vou-me embora
aqui o tempo é sisudo 
e faz medo 
de tarde a Infância me recebe 
com gosto de pitanga
e cheiro de flor de jambo
o arrebol de Infância tem cores de ipê 
e textura de corpo na lama 
de tarde, depois da chuva
a Infância me recebe à luz de lamparina 
com livros na cama
e piaba na goela
de tarde a Infância é rio corrente 
sou sereia d’água
de tarde
com vento secando a saia
e mão entrepernas
de tarde
com roupa no quarador
e pés sem chinela
de tarde
com sol no chão do quintal
e canto pra Santa Clara
de tarde
vai chuva, vem sol
pra enxugar o meu lençol
de tarde
meu sapo coaxa debaixo da cama
a velha debaixo da cama
a velha criava um sapo
debaixo da cama com piso de chão
debaixo da casa com teto de céu
de tarde
o rádio com pilha Rayovac
atenção menina, ouça aqui o seu horóscopo
de tarde
o pé de jamelão carregado
a meia três quartos
a Conga fazendo calo
de tarde 
tanajura adivinha chuva
o balde na goteira
nessa casa tem goteira, pinga ni mim
vou-me embora pra Infância
de tarde
vou sim.


Eva Vilma é um tanto de seres que se reinventam sempre. Mãe, escritora capoeirista, feminista e ativista literária pelos coletivos Mulherio das Letras e Tarja Preta de Literatura  Independente. Tem participação em coletâneas de poemas e cartas. É autora dos livros para infância “Ela é…” e “O Fantástico Relógio da Rute”, coautora do livro pra infâncias “Onde está?” Também são de sua autoria os livros de poesia “INômoda” e “Incandescente”. Ambos compondo coleções do Mulherio das Letras, e “Nudes”, de crônicas. Publica nas redes sociais através da página  Arranjos Para Voos Poéticos, no Facebook e em sua página pessoal no instagram @eva.vilma.338.

Fogo nos lampiões: Arco é o novo e comovente trabalho de Marcos Sacramento

Texto de Toinho Castro

Nos tempos dourados pré-pandemia, quando uma turma de poetas e etcéteras se reunia ali na saída do metrô da Carioca, sob a égide solene da ACACANCACA (Academia Carioca dos Acadêmicos Cariocas e Não Cariocas da Carioca), estávamos, pois, a discutir algum tema vibrante quando junto a nós, no corre-corre daquele ponto de passagem, um moço bonito, animado, de dread, exaltou-se ao passar por nós, gesticulante: Mas o que é essa reunião? Seria uma Academia?!

Do jeito que veio, entre cumprimentos e gestos efusivos, seguiu no fluxo que se impõe no rush das tardes. Rimos muito e brindamos. Era o Marcos Sacramento que passara por nós. Certamente ele não recorda desse episódio, perdido na confusão de tanta noite e tanto dia. Mas se as mesmas noites e dias não tivessem dispersado a ACACANCACA, estaríamos hoje, nessa tarde maravilhosa, conversando sobre ARCO, esse disco maravilhoso que ele acabou de lançar, em pleno novembro passado, enquanto se aproxima o verão.

À falta de uma mesa de chopes na Carioca, o que faço, sentado em frente ao computador, em Vila Isabel, é compartilhar ao máximo link do disco, no streaming, com minhas amizades e membros da ACACANCACA, na aposta de que isso vai tornar o dia dessa gente muito melhor.

Arco dá vontade de dançar e cantar, e vem carregado de uma profunda alegria, portador que é do Brasil que corre pelas ruas, becos, comunidades, morros, areias do Rio de Janeiro. Disso tudo que cresceu em volta da Baía da Guanabara. Um disco de quem passa pela Carioca e fala com estranhos. Arco é de conexões, de encruzilhadas e encontros. Isso tá no repertório, no rico arranjo de gentes que tecem a trama de canções em que a voz de Sacramento se espalha, com emoção e brilhantismo.

É um disco comovente, de dores e carnavais. Abre um arco… sim, um arco, de gerações, que vai de Cazuza, Todo amor que houver nessa vida, auspicioso dueto com José Ibarra, passando por Baden Powell, Josyara, que traz sua Bahia – Rio e sua voz para o disco. Rio, Niterói, a ancestralidade do Salgueiro. Passado, presente e futuro, elegantemente alinhados e entrelaçados em onze canções impecáveis.

Luminosidade contra a escuridão é o que eu deixo, por fim, sobre esse disco. É uma afirmação da criatividade e sonoridade universal do povo brasileiro. Desculpa aí, mas Arco me deixou emocionado.

Jabuti pra Bianca

Por muito tempo na História, Anônimo era uma mulher.
Virginia Woolf


Bianca Garcia, queridamente, maravilhosamente, levou seu Jabuti, o prêmio, pra casa. Objeto dessa alegria? Seu livro breve ato de descascar laranjas, lançado em 2023, numa bonita noite de encontros e poesia. No meu exemplar tem uma dedicatória dessa noite. Estava lá, nessa apresentação que se faz de um livro ao mundo. Um momento auspicioso, como um ponto fixo na linha temporal. Com o breve ato nas mãos, já em casa, folheei o azul profundo de suas páginas e suas lâminas de memória, slides de cianotopia projetados no ar fino, rarefeito, que nos falta quando o luto. O luto que travessa o livro e nos atravessa, engasgando em alguma parte de nós, próxima ao coração.

Cerca de um ano após o lançamento, com Jabuti na estante, gente muito mais preparada falou e escreveu com muito mais propriedade sobre esse livro que eu. O que posso dizer, diante do meu computador em Vila Isabel, é que eu recomendo essa leitura, essas páginas tingidas de azul. Não por ser premiada, mas por ser necessária. Naquela primeira noite, de lançamento, já em casa, vi que o livro seria desses livros que nos orbitam. Que me orbita. Porque ao alcançá-lo, esticando o braço até essa estratosfera em que ele gira, eu alcanço uma palavra que preciso ler. Que ao ser lida, me transforma, sacode, acalanta, me desmente e me desafia a seguir em frente mesmo assim, ainda assim, apesar de, até que.


E esse Jabuti, que vem não só pra Bianca, mas também para a Macabéa Edições, essa editora linda que publicou o livro em parceria com essa outra lindeza que é a 7Letras. É a constelação das iniciativas independentes na literatura. Aponte para o céu e veja. Publicando exclusivamente mulheres, a Macabéa tem uma trajetória de luta e riqueza. Um catálogo impecável, que o Jabuti vem para reconhecer e fortalecer. Porque não é fácil publicar de forma independente, publicar mulheres e furar bolhas, publicar livros que são preciosidades visuais. Só tenho elogios e sou suspeito. Quero ser suspeito. Viva a Literatura Independente feita por mulheres independentes. Que esse prêmio signifique leitores.

Foto de Bianca Garcia

Independência Poética: Juciane Reis

Aqueles com os quais tento apre(e)nder o escrever. Dois exemplos são Ciclo e Troca-Pele. É a busca por si, por um espelho que reflita a nossa face, a nossa multiplicidade, a história que pouco se revela, mesmo a nós, e onde sejamos inacabáveis. Obras em cíclica rebentação e arrebatamento.

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Juciane Reis

Profa. Substituta do Departamento de Educação (UEFS). Doutoranda em Literatura e Cultura (UFBA). Mestra em Estudos Literários (UEFS). Licenciada em Letras com Francês (UEFS). É autora de prosa e poesia. No momento, parte de seus estudos se concentra em investigar a mitopoética dos orixás utilizando, principalmente, Exu como fundamento epistemológico. É a terceira filha da família Reis-Santana. É autora da narrativa curta “(Amor)talhamento”, de viés afrofuturista, pela Editora Kitembo. Publicou “Umbilicus”, coletânea de poemas, pela Editora Segundo Selo, na coleção DasPretas. Foi finalista do 6º Prêmio Kindle de Literatura com “Xirê das Águas”. Este é o seu romance de estreia. Concebe a escritura como ofício invocação ancestral e sagrada.

O que te inspirou a começar a escrever?

Ter sido apresentada a leitura desde muito cedo, além de ter nascido cercada por palavras. Na minha família, apesar da ordem excessiva, da quantidade de regras, limites e normas, deixava-se espaço, mesmo que menor, para o corpo que artístico e impregnado de corporeidade e vida, cantava um samba, tirava um choro no cavaquinho e dançava valsa pela sala, rodopiante. Ter essa existência tão paradoxal, oscilante e intensa, própria do viver cosmoperceptivamente, levou-me ainda em tenra idade a querer refundar mundos com o poder da palavra-movimento de Exu.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Busco refúgio na criação. Somente lá, eu encontro vias para o produzir fértil e abundante. Tudo o que utilize os sentidos, que me provoque e me tensione. As muitas artes que produzimos. Os encontros, desencontros e reencontros. Tudo o que eu acredite ser matéria de poesia, consegue me destravar e desbloquear. E eu me torno mais uma vez água imparável.

Seu maior sonho como escritor(a)?

Acredito que trocar com aqueles que, como eu respondi o chamado para a escrita, respondem o convite para a leitura. No momento em que habitei a poesia, que ela circulou feito cinzas e retornou a mim como fênix, eu pude tomar posse de meus territórios, do meu corpo em semeadura, o meu ser em estilhaço e (re)construção. Sempre que escrevo eu me (re)crio mais uma vez, tomo todas as formas que aparecem nos meus versos, contos e romances. Eu me sinto inesgotável. Fonte que não cessa. É uma forma de também ser raiz e me aterrar.

Assunto preferido de escrever?

Tudo pode e deve ser matéria da escrita. Mas concentro as minhas obras nos temas que me atravessam, tocam e (com)movem. Eu busco o que nos aponta o aforismo de Exu, ser a pedra que foi atirada hoje e matou um pássaro ontem e amanhã ainda estará em trajetória. Eu digo que o pássaro acertado incessante, é a escrita, o texto-tecido de nossa matéria-vida.

Um elogio para sua própria escrita?

Fluídica, intuitiva e sensível.

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Sim. A narrativa curta afrofuturística, intitulada (Amor)talhamento, pela Editora Kitembo; Umbilicus, meu livro de poemas, pela Segundo Selo, Selo DasPretas; e o meu romance de estreia finalista do Prêmio Kindle 2021, Xirê das Águas, em Pré-venda pela Editora Patuá.

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

Tudo o que me instigue e encruzilhe, faça-me habitar, ser e ter morada. Tudo o que me coloque na encruzilhada da vida, em face de caminhos, esquinas e sendas.

Qual dos seus poemas mais te define?

Aqueles com os quais tento apre(e)nder o escrever. Dois exemplos são Ciclo e Troca-Pele. É a busca por si, por um espelho que reflita a nossa face, a nossa multiplicidade, a história que pouco se revela, mesmo a nós, e onde sejamos inacabáveis. Obras em cíclica rebentação e arrebatamento.

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

Para mim, a escrita é o meu refúgio, o meu lugar seguro. Ainda que tão íntima, que me desnude, deixe-me indefesa, ela consegue ser uma concha, a fabricar os meus risos e lágrimas perolados. Ela me oferece riquezas, corais de tantas cores e formas e texturas. Ela me torna espuma, tsunami ou redemoinho.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Eu absolutamente amo todas as obras de Conceição Evaristo. Obras de autoras como Carolina Maria de Jesus, Toni Morrison, Maria Firmina dos Reis, Miriam Alves e Octavia Butler também estão entre as que alicerçam a minha escrita e as quais sempre releio, em busca de novos aprendizados e mergulhos. Um caminho muito próspero já foi delineado e apontado pelas mais velhas.

Um livro de Juciane Reis

Nome da obra?

Umbilicus.

Quando e em qual editora foi publicada?

Quando e em qual editora foi publicada?

Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

Sim. Os cursos e fluxos de um rio. Sou filha das águas e os poemas se dividem em sete pontos-forças das corredeiras de um rio (Pàdé, Caminhos, Matripotentes, Fluviais, Meandros, Afluentes, e Desemocaduras).

As poesias são divididas em fases nessa obra? Se sim, o que te motivou a fazer isso?

Eu buscava a origem da palavra enterrada no umbigo do rio. Buscava a orixá Oxum, as águas que primeiro lavam o próprio corpo e joias, para se purificar e fortalecer, a fim de então banhar os/as filhos/as. Encontrei-me lá, ainda, com as orixás Nanã e Iemanjá, águas do mangue e do rio, que desaguam no mar que sou. As águas são incontornáveis em minha natureza e na minha vida. As ìyáàgbá são soberanas em mim e na minha escrita. Uma escritura que se banha no feminino da criação. Seu mote, cerne e nascente.

O que te incentivou a escrever esse livro?

O meu umbigo. A cicatriz de minhas origens. A impressão que indica o meu nascimento nos/dos braços de Oxum. Ela foi a Ìyáàgbá que primeiro me embalou. Eu sou parte do seu corpo amniótico. Da sua gema dourada. Do seu acalanto, eu soube que a palavra não morreria diante do luto, não pereceria diante da dor ou ficaria inerte em face da tormenta marítima que eu carregava. Ìyá Oxum, que é pura fertilidade e fartura, semeou em mim a abundância narrativa.

É possível destacar uma poesia que mais se assemelha a seu cotidiano?

Sim, na verdade, uma passagem de um dos meus poemas, intitulado Mar de Sal: “o umbigo é o mesmo”. Fala de nossas trocas, intercâmbios e heranças. De como vivemos em diáspora e somos transatlânticos. Das ancestralidades que carregamos e se (re)conectam, alimentam e correspondem. Dos cordões umbilicais que nos ligam à memória viva de nossa origem e de nossos trânsitos muitos ainda em processo.

A sequência dos poemas conta alguma história?

A narrativa da criação. Do nascimento ao passamento. Os fluxos, desvios, confluências, quedas, levantes e espraiamento de nossas águas nos cursos da vida.

Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

Sim. As vozes que revelam as faces-fases de uma mulher negra que costura a palavra com fios de sangue no tecido sacro-ancestral

Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?

As vozes que se apresentam em Umbilicus são marés, rios, fios d´água, tanto em levante, quanto murmurantes ou tempestuosas. Muitas das vezes, acredita-se que seja água rasa, mas ali se criou profundezas abissais, e é uma água funda, que se deve pedir agô para entrar e a benção para sair, pois é capaz de promover travessias e deságues dos mais diversos.

Qual a poesia mais marcante desse livro?

Existem muitos poemas que considero importantes, como Exu Inventa o seu Tempo, (Des)parição, Mãe-Ancestre, Mar de Sal, Marianas, e Epistemicídio. Todos falam do poder da palavra, do movimento e da voz, das narrativas que viabilizamos e damos visibilidade, a memória que carregamos em nossa impressão psíquica, de um passado que ainda se mostra futuro, da ligação com a natureza, dado o nosso corpo sagrado, receptáculo e propagador de vida, como ainda estamos enredados em um tempo outro, de uma memória que pede dengo, zelo e acalento, que sangra e não se cura totalmente, que retorna, assombra e permanece. A mesma que, muitas das vezes, se quer aniquilar ou esquecer. E, apesar de tudo, desabrocha, é puro florescer.

Água limpa

Texto de Anderson Nogueira — O último rebento cresceu, “como o tempo passa rápido igual carreira de bode”, assim se diz por aqui. Já tem sombra de bigode e tanta espinha na cara que parece mandacaru de janeiro, que não fulora na seca. Quase nunca viu chuva, nem se lembra quantas vezes. Não conhece enchente, temporal nem sabe o que é. Água limpa nunca viu. Nem bebeu, não sabe do sem-gosto da água limpa: “água tem gosto de terra”.

Texto de Anderson Nogueira


Nasceu em noite de lua cheia, redonda tal qual queijo branco e brilhante; mas queijo por aqui só se conhece de ouvir falar pois nem as cabras dão mais leite pra fazê-los, tal a secura do pasto nesse estio que teima em não cessar. O céu, estrelado antes parecia revoada de tanto vaga-lume que nunca se vira um tantão assim por essas bandas; de tempos pra cá o calor anda tanto que nem vaga-lume tem dado as caras, só se vê vôo de mariposa asa de bruxa e de formiga arará.

O cenário que emoldurava a chegada do rebento, mais um na prole numerosa, tinha tudo pra ser poético, mas o calor extremo, a secura do chão, a chuva que teimava em não cair tornavam qualquer ternura em tormento, poesia em agonia, alento em sofrimento.

Nasceu. E como todo recém-nascido, sujo de sangue, sebento. Limparam-no com um pano quase branco – já tinha sido branco há tempos, quando aqui chovia e tinha água pra lavar… Não pode ser banhado pela parteira, água não havia quase, não se carecia desperdiçar, ia faltar pra beber. Quando tinha água pra beber…

A vida é dura por aqui, o chão é duro por aqui – não chove água pra molhar a terra, pra afofar o chão daqui. Nunca se vê lama por aqui – nem se sabe o que isso é nas bandas daqui…

A mãe do recém-nascido quase parece vó de tão enrugada, rosto envelhecido muito antes do tempo certo, a pele da cara é o espelho do solo do lugar: rachado, quebradiço, poeirento. Sem expressão. Sem alento. O suor que escorre marca a poeira grudada no rosto.

Não chora lágrimas da dor do parto, nem da alegria da maternidade; as lágrimas secaram, seja pela dor que já se acostumou – “nasceu rápido, tem boa passagem”, disse a parteira; seja pelo tamanho da prole já numerosa, “é o nono filho! Seis vivos”, disse o marido acendendo um cigarro de palha.

As lágrimas devem ter evaporado tal qual o açude da Vila, que nem o riacho que descia do morro marrom do qual sobrou só o leito, tal é o calor que faz aqui. Se tivesse lágrimas chorava muito só pra ver se juntava água, ainda que salgada.

O último rebento cresceu, “como o tempo passa rápido igual carreira de bode”, assim se diz por aqui. Já tem sombra de bigode e tanta espinha na cara que parece mandacaru de janeiro, que não fulora na seca. Quase nunca viu chuva, nem se lembra quantas vezes. Não conhece enchente, temporal nem sabe o que é. Água limpa nunca viu. Nem bebeu, não sabe do sem-gosto da água limpa: “água tem gosto de terra”.

A pouca água que por vezes cai do céu – de quando em vez São José abençoa, cai na terra e evapora. A que sobra vai pro raso açude barrento, pisado de gado magro, remexido de lata d’água e cuia de cabaça. É raso, mas não se vê o fundo, tem pouca água, quase nada, rasa e turva que nem vista cansada.

“Ouvi dizer que água era limpa, clara e cristalina que nem vidro de janela.” Nunca viu assim não, quando cai do céu é tão pouca que não junta, quando tá na terra mistura e ganha cor. Pra beber não presta não, mas se não beber não sobrevive.

Dizem que na cidade grande tem de tudo: trabalho, mar, moça pra casar – e água limpa. “Vou pra lá, minha mãezinha”. Juntou as tralhas, bem pouquinha, fez sinal pra carona no caminhão que vai pra cidade, lá bem longe. “Diz que lá tem muita água, tem até uma tal de inundação de tanta água que chove. Sei dizer o que é não, ninguém voltou de lá pra contar. Deve ser bom”.

Saltou da carona na cidade perto da estação central de trem. Falatório, correria, confusão. Nunca vira tanta gente junta, “parece até enxame de formiga carregadeira, meu Deus!” Largou no chão o bornal com as poucas tralhas que carregava de tonto que ficou. “Perdeu, mané!” Ouviu o grito e lá se foi a pouca bagagem que tinha, sumida dentre a multidão.

Sem a pouca bagagem, sem paradeiro pra onde ir, se deu conta do tamanho do problema que tinha naquele lugar desconhecido. Vagou sem saber pra onde ir, adormeceu na marquise acompanhado d’outros tantos como ele, sem pouso certo pra ficar. Puxou conversa, “onde tem água limpa por aqui? Rio que se vê peixe nadar, que se vê pedra no fundo?”

“Água até tem, logo depois no viaduto pra lá do sinal; já água limpa é ruim, hein. O rio daqui é o canal do mangue, quase dá pra andar por cima d’água; e nem precisa ser homem santo. Peixe? Tá de sacanagem, né.”

Foi lá pra conferir: corre uma vala de água cinza, fedorenta, grossa que gruda nas pedras. As pedras ficam ensebadas e nem se tivesse mil panos quase brancos, daqueles com que a parteira o limpou conseguiria descobrir a cor das pedras. Ouvira dizer que água era cristaliza, sem cheiro, sem cor. Sem gosto de nada, o que não entendia muito bem: “como pode ser boa se nem gosto tem.”

Escreveu carta pra mãe: “Não creia, que nem eu, que água é coisa limpa que nem céu sem nuvem, clara como vidro de janela – isso não existe! Deve ser fruto de contação de história de cigana. Água é cinza, sebenta, tem cheiro ruim, tentei até beber – vomitei. É ruim por demais. Acho que água boa só tem aquela que cai por aí de quando em vez, cada vez menos. Pelos menos se bebe.” A carta, guardou no bolso de trás da calça desbotada, não tinha dinheiro pra mandar. E se tivesse, ainda assim ele chegaria antes em casa. “Vou voltar pra casa na primeira carona de volta”, falou com seu pensamento – “daqui já vou rezando pra São José pra chuva de quando em vez cair no sertão. Água boa por aqui, cidade grande, não existe não.”

Uma noite, outra depois, mais uma também depois de cada dia de sol. No quarto dia o tempo fechou em nuvens cinzentas, clarão de raio e barulho de trovão lhe chamaram a atenção. “Hoje a chuva vem, vamos ver se é boa mesmo, se dá inundação. Vou tomar banho de água limpa, vou beber água limpa também.”

A chuva caiu forte, nunca vira tanta assim. De repente correria, tumulto, gritaria. Tinha mais barulho além do som de trovão: “corre!” “pega!” “para!” A correria foi seguida de barulho de tiros. A chuva caiu forte, as trovoadas aumentaram o volume, os clarões dos relâmpagos confundiam-se com os clarões das rajadas de balas do tiroteio.

“Tá chovendo, meu Deus!” gritou sem ser ouvido em meio ao tumulto na multidão. “Água limpa!” Nunca vira tanta, em tamanha quantidade. Estava tão extasiado com a profusão de pingos grossos na face lavada que nem deu importância para o baque forte no ventre – porrada ardida que doeu qual ferro em brasa. Hipnotizado pela água farta que nunca tinha visto, olhou em volta – de cima caía limpa, no chão, aos seus pés a água estava tingida de carmim – vermelho que nem pena de passarinho tiê.

Alvejado pela bala perdida morreu na poça d’água limpa com que sempre sonhara. Água ainda quase limpa, manchada com seu sangue…


Anderson Almeida Nogueira nasceu em Magé/RJ em 26/12/1966, é morador de Cachoeiras de Macacu/RJ. Autor independente tem seis livros publicados. Os estilos de suas publicações são variados, indo do cotidiano ao técnico; do biográfico à ficção, preferindo as modalidades de conto e crônica. Utiliza, além da escrita, fotografias de sua autoria e imagens de domínio público para ilustrar suas obras. É Presidente da Academia Cachoeirense de Letras desde 2018, onde ocupa a Cadeira de nº 18. Seu conto “Vazio” foi publicado na Revista Innombrable de Medellín, na Colômbia em 2020 com título em espanhol (Vacío). O poema “Rio” foi classificado em 2° lugar no Concurso Jardim Botânico 2023 em Coimbra, Portugal.


Dr. Alpha: A primeira viagem espacial da literatura brasileira em nova edição após 116 anos!

Em 1907, As viagens maravilhosas do Dr. Alpha ao mundo dos planetas começaram as ser publicadas na revista O Tico-Tico. Logo a história escrita e ilustrada por Oswaldo Silva chamou a atenção por seu pioneirismo, ao ser a primeira obra da ficção científica brasileira a descrever uma viagem espacial.

Mais de um século depois, as editoras Minna e Mamakoosa têm a honra de relançar esse tesouro literário perdido há tanto tempo e garimpada com muita pesquisa por Gabriel Billy, em uma edição primorosa e ilustrada feita em parceria pelas duas editoras. Esta edição conta com o prefácio de Gabriel Billy, acabamento brochura e páginas coloridas. Além disso, teremos um conto inédito de literatura fantástica abrindo o livro!

As viagens maravilhosas do Dr. Alpha aos mundos dos planetas é o primeiro livro da COLEÇÃO IGNOTOS, um projeto em parceria das editoras Mamakoosa e Minna, que lançará todos os textos originais de onde saíram os 8 personagens centrais da HQ Ignotos, escrita por Gabriel Billy e desenhada por Thiago Lima. A HQ Ignotos reúne em uma aventura inédita os personagens mais importantes da ficção científica brasileira do início do século, e é claro que conta com as presenças ilustres da Rainha do Ignoto, obra publicada pela editora Minna, e do próprio Dr. Alpha.

SINOPSE

As Viagens Maravilhosas do Dr. Alpha aos Mundos dos Planetas é uma fascinante aventura que nos transporta para um universo repleto de mistérios e descobertas extraordinárias. Quando o protagonista herda uma vasta biblioteca de seu pai, ele depara-se com um misterioso cofre contendo um manuscrito do lendário Dr. Alpha Latinus.

Movido pela curiosidade, ele mergulha na leitura desse tesouro esquecido, encontrando a minuciosa narração das viagens interplanetárias realizadas pelo Dr. Alpha na máquina voadora que ele mesmo inventou e chamou de Meteoro. Assim, somos transportados pelas incríveis aventuras e pelas maravilhas dos astros, acompanhamos o Dr. Alpha em suas explorações por planetas e civilizações até então inacessíveis à curiosidade humana.

Repleto de emoção e mistério, As Viagens Maravilhosas do Dr. Alpha aos Mundos dos Planetas cativa com sua narrativa envolvente, levando-nos a sonhar com as possibilidades infinitas do cosmos e a questionar os limites da ciência e da exploração espacial.


LEIA UM TRECHO!

Acalmai a vossa paciência, leitorzinho, deixe-me, antes de começar a relação das maravilhas de uma viagem aos astros, fazer um pequeno prólogo, que me é muito necessário para o esclarecimento desta verídica narração.

O manuscrito

Meu avô era um apaixonado colecionador de livros, e, como tal, consumia os poucos haveres que possuía na aquisição de alfarrábios, memórias, brochuras, documentos, enfim, de qualquer papelucho garatujado, quer de filósofos de outras eras, quer de escritores do seu tempo.

Como era de esperar, foi a sua colossal biblioteca a única herança que legou a meu pai, que, para cúmulo dos meus trabalhos, herdou não só a empoeirada livraria do bibliófilo, como também a sua louca mania.

De sorte que, quando o meu progenitor entregou a alma a Deus, achei-me possuidor da mais vasta e disparatada biblioteca que pode sonhar um particular.

A primeira ideia que me ocorreu quando me vi perdido naquela Babilônia de papel empoeirado, habitada por algumas centenas de ratos, traças e baratas, foi vende-la por qualquer preço, mas lembrando-me de que os filhos não devem vender o que pertenceu aos seus pais, senão em caso de quando necessidade e, para falar a verdade, porque eu também tinha sangue de livreiro, resolvi escolher as melhores obras, e o resto lançar ao fogo.

Mal sabia eu que esse trabalho havia de ser recompensado com uma descoberta tão original quanto interessante.


 


Independência Poética: Roberta Lantyer

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Roberta Lantyer

Roberta Lantyer tem 32 anos. É soteropolitana e bancária por sobrevivência, bacharel Interdisciplinar em Artes e mestra em Literatura e Cultura pela UFBA. Não vive sem café e antes dele não é boa companhia. Gosta livros, trilhas e de água: seja do rio, do mar ou da chuva. Escreve para desopilar e deixa-se fluir no papel. Escreve porque a tarefa de tentar entender o mundo parece menos insana na palavra desenhada. É autora da Newsletter (gratuita): “Poesia se vende”. Publicou sua primeira poesia na antologia bilíngue da Editora Lura, “Onde Canta o Sabiá” (2022). Faz parte da equipe de poetas do Portal Fazia Poesia, disponível no medium.com. Além de Um aguaceiro só, em pré-venda pela editora Toma Aí Um Poema, quer publicar um livro infantil e ser levada para onde mais a palavra resolver lhe guiar. Enquanto isso, aproveita o caminho e tenta não se perder.

O que te inspirou a começar a escrever?

Quando era criança, gostava de criar histórias, escrevia grandes redações que, naquela época não sabia, mas já eram contos. Durante a adolescência gostava de escrever diários, mas a literatura, após alguns bloqueios gerados por livros escolares obrigatórios que não eram apropriados para a minha idade, havia deixado de ser uma paixão. Comecei a escrever e tive a certeza de que essa paixão havia retornado, sem chances de ir embora, na universidade, na aula de criação literária da professora doutora Lívia Natália. A paixão pela poesia em Lívia é tão intensa que contagia e sinto que foram as aulas dela que desenterraram em mim um amor pela palavra que sempre esteve lá. As aulas de Lívia Natália foram as águas que faltavam para renascer as flores poéticas plantadas na infância.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Eu tento entender que tudo que é vivo é cíclico. Então, procuro não ficar ansiosa com o que parece ser um bloqueio criativo. Acredito que quando o poema não aparece, é porque a palavra é viva e o que é vivo precisa de tempo para ser. Audre Lorde, em A poesia não é luxo, fala da “poesia como iluminação, pois é através da poesia que damos nome à quelas ideias que – antes do poema – não têm nome nem forma, que estão para nascer, mas já são sentidas”. Eu acredito que o tempo sem o poema é o tempo da palavra sendo gestada. A poesia vem antes do poema e a poesia está sempre lá. Então, nos tempos sem poema, eu quero manter a poesia viva, eu exercito a curiosidade pela vida, estudo, faço cursos com outras poetas e artistas, eu assisto filmes, escuto música, eu vou à praia, eu simplesmente vivo. De repente (ou não) o poema nasce. Sinto, existo, vivo e, só depois, nasce o poema.

Seu maior sonho como escritor(a)?

Meu maior sonho é fazer minha poesia ser levada para mais leitores e que ela toque as pessoas. Quero que a minha poesia seja viva e movente.

Assunto preferido de escrever?

Talvez eu não tenha um assunto preferido, mas costumo ser muito inspirada pelos mistérios e pela beleza das águas.

Um elogio para sua própria escrita?

Minha escrita é fluida.

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Meu primeiro livro de poemas, “Um aguaceiro só”, está em pré-venda pela editora Toma aí um poema e será publicado em breve.

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

As minhas dores e as que são do mundo e me atravessam, normalmente precisam escoar para o papel. A observação da natureza e de tudo que é vivo também despertam poesia em mim.

Qual dos seus poemas mais te define?

É uma pergunta difícil, acho que tenho muitos poemas que dizem muito de mim, mas ao mesmo tempo, penso que, como tudo que é vivo é cíclico, o poema diz de mim no momento que é escrito e talvez daqui a pouco tempo, já eu mesma já seja outra. Por isso, acho que se tem um poema para exemplificar isso que digo e o que sou, seria Páura.

Paúra

De todos os medos que tenho
o de calar é o pior,

ainda que eu lhe pareça tímida
ainda que meu sangue congele ao abrir a boca
ainda que minha voz tenha o som da batida do meu coração

ainda assim,
o silêncio é a minha versão mais terrificante.

Como pedras que me enfiaram goela abaixo,
o silêncio é da ordem das coisas imóveis.

Eu tenho medo daquilo que petrifica,
não do que aterra;
aterrar é fazer raízes
crescer pra cima
frutificar.

Petrificar é parar
e eu me arrasto como rio.

Se a palavra não emergir,
afundo-me
alago pra dentro.

Movo-me,
ainda que seja em direção ao abismo.

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

A parte mais fácil da escrita é passar para o papel o que se sente. Depois disso vem o trabalho de fazer do sentimento, poema, trabalhar a palavra, a música da palavra. Mas acho que a parte mais difícil não é o trabalho com a palavra, mas a divulgação. Não sou fã das redes sociais e para mim o mais difícil é criar conteúdo e tentar fazer chegar para mais pessoas, entendendo que existe um algoritmo por trás do que tento divulgar.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Poemas da recordação e outros movimentos, de Conceição Evaristo.


Um livro de Roberta Lantyer

Nome da obra?

Um aguaceiro só.

Quando e em qual editora foi publicada?

Em pré-venda pela editora Toma Aí Um Poema.

Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

Digamos que a água é personagem principal.

As poesias são divididas em fases nessa obra? Se sim, o que te motivou a fazer isso?

O livro Um aguaceiro só é separado em três partes: Nascente (ou O olho-d’água); Estuário e Oceano.
Em resumo, em penso em escoar silêncios nesse meu livro de estreia. Para isso, dividi o livro em três partes pensando não em início e fim, mas em ciclos.

O que te incentivou a escrever esse livro?

O desejo de me afirmar enquanto poeta e finalmente escoar todos os meus silêncios para, quem sabe, inspirar outras pessoas a perceber a poesia que pulsa na vida.

É possível destacar uma poesia que mais se assemelha a seu cotidiano?

Acho que “Respira” é um bom poema para exemplificar um exercício cotidiano de acalmar as ansiedades e acolher as fases, inclusive os silêncios.

Respira

acolher palavra
deixar tudo em calma
ainda que não haja nada
acolher a palavra que falta
a palavra que se arrasta na relva
que vira limo na pedra
fazer ficar em paz
a palavra

A sequência dos poemas conta alguma história?

Sim. “Um aguaceiro só” foi pensado para fazer mover a palavra e poeta. Então, a primeira parte, Nascente – ou Olho d’agua, é onde a palavra e a poeta se mostram ao mundo. Onde minam poemas-raízes. A segunda parte, Estuário, é onde as águas de encontram, nessa parte do livro a palavra ganha um erotismo próprio das pororocas. A terceira parte, Oceano, é a desembocadura, mas jamais o fim, nessa parte do livro existe dor, mas existe principalmente o desejo de que a palavra pulse ininterruptamente em direção a um novo mundo.

Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

Em tudo que sou e que escrevo existe política. Então, esse livro é político, escrito por uma mulher baiana que deseja na literatura e na vida mais encantamento e mais liberdade.

Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?

Acho que a água é a “personagem” principal desse livro de poemas e sua relevância está na própria constituição do livro como ele é e como ele quer ser para as pessoas que vão lê-lo.

Qual a poesia mais marcante desse livro?

É uma pergunta difícil, mas acho que Paridura pode ser um dos poemas mais marcantes do livro.

Paridura 

a palavra 
que me falta 
aqui entalada 
presa na garganta 
onde o ar passa devagar 
a palavra que 
me falta 
nesse mundo 
insano 
entre a pele e a carne 
se movimenta 
dura 
seca 
afiada nos ossos 
a palavra que me falta 
gestada em muitos ventres 
expulsa 
peixeira 
rasga 
sangra 
e grita 
como criança  
parida 


A poesia de Clara Bezerra

Seja bem-vinda, Clara, à Kuruma’tá. Te recebo com um abraço de conterrâneo, potiguar que sou, nascido em Natal!

Toinho Castro, editor da Kuruma’tá

Clara Bezerra é potiguar, nascida em Acari e criada em Cruzeta. Aos 15 anos foi morar em Natal para fazer o ensino médio. Na sequência, se formou em Letras – Língua Portuguesa e em Comunicação Social – Publicidade. Fez especialização em Planejamento Estratégico em Comunicação e mestrado em Estudos da Mídia. Trabalha com Comunicação Institucional e escreve de forma paralela, além de estudar psicanálise e dançar por prazer. “Roupa de Ganho”, obra publicada pela editora Paraquedas, é seu primeiro livro.

Água de anil

Vejo cenas
Pequenas pedras azuis
Desmanchadas n’água
Para alvejar, clarear
Misticismo, espiritualidade, intuição
A nódoa, a mancha, a sujeira que encarde
O que se dissipa pela mão
Esfrega, coloca de molho, estende ao sol
[para quarar

O tecido se enche do cheiro
Impregnado pela luz
É o tempo que diz
Qual a hora de enxaguar
A água ganha cor
Azul
É assim com a vida
A bacia
O anil
Estava tudo o tempo todo aqui
Só precisava mergulhar

 


valença

Que rio é que eu parto?
Que rota me reparto?
Que mar eu me reparo?
Se caço, corro
Se corpo, morro
Se passo
Mato

 


óvulo

De que sou feita
Eu?
De mares, paisagens
Paranoias, prisões
Navios negreiros
Veleiros, velas, porões
Escuro
Terras áridas, úmidas
Visões
Descobrimentos
Encantos
Eu, esse pedaço de dor
Dividida em tratados
Tordesilhas
Essa terra descoberta
Essas veias externas, expostas
Os caminhos
Os erros todos do mundo
Jorrando sangue, canhões
Guerras
Ressentimento de tudo
Os gritos de libertação
Tambores, canções
Essa que sou eu, aqui
Muitas que fui
Antes de mim
Muitas que fluem
De onde vim

 


No errático
Incerto
Destino
Amor

 


casulo

Um libertar-se
Próprio, profundo
Único e universal
Um desfazer-se
Até descobrir o prazer
Do fazer
De si
Grão
Solto e solitário
Tocar todos os cantos
Da pele
Ouvir todos os pontos
De areia
Até trocar
De pele
Para sentir
O outro
Sentir-se
Ouro
Em flor
De céu
De sal
De sol
Transformar-se
No seu valor
Mais grão
Espalha
Expande
Chama
Chão
Na teia
Ateia-se
De si
Enfim
Liberta
Libélula
Li bela


Se liga no Pedro!

Pedro é cantor, compositor e multi-instrumentista baiano. Em 2018 resolveu largar tudo pra buscar o sonho de viver de música, e presta um serviço de criação de músicas por encomenda no projeto Quero Cantar Sua História, além de ser cantor e compositor independente com canções lançadas no Spotify, Deezer, Youtube etc.

Pedro é cantor, compositor e multi-instrumentista baiano. Em 2018 resolveu largar tudo pra buscar o sonho de viver de música, e presta um serviço de criação de músicas por encomenda no projeto Quero Cantar Sua História, além de ser cantor e compositor independente com canções lançadas no Spotify, Deezer, Youtube etc.

Sua trajetória:

Dos 17 aos 21 anos eu fui guitarrista de algumas bandas de Salvador. Por demandas profissionais, encerrei a carreira profissional para me dedicar à Comunicação, que é a minha formação acadêmica. Aos 28, depois de ter formado, especializado, empreendido e morado em outro país, decidi largar tudo para voltar ao sonho inicial de trabalhar e viver com música – cuja atividade nunca deixei de lado, sempre compondo em todo esse tempo. Em 2018 iniciei os trabalhos cantando em bares e eventos privados, em 2019 também passei a dar aulas de violão e ukulele para iniciantes e também a cantar em casamentos. Em 2020 iniciei o projeto Quero Cantar Sua História, cuja atividade se tornou principal até hoje.

Sobre o projeto Quero Cantar Sua História:

O projeto traz a possibilidade de pessoas comuns protagonizarem a narrativa de uma canção, e transformarem um sentimento, um momento ou comemoração em um presente único e eterno, que é a música.

O Quero Cantar Sua História nasceu de uma ideia antiga de fazer canções sobre temas variados que as pessoas me mandavam. Em 2019, no dia do compositor, eu abri uma caixinha de perguntas no Instagram e pedi que as pessoas enviassem qualquer tema pra eu transformar em música. Em 24h eu criei 44 músicas de 15 segundos, dentre elas, duas temáticas de nascimento de crianças: Liz e Bernardo. Ambas emocionaram bastante os pais que solicitaram através da caixinha.

Em 2020, com a pandemia, a agenda de shows e casamentos estava fechada e na época, eu também dava aulas de violão e ukulele para iniciantes, mas também não podia dar seguimento. Foi então que em maio daquele ano eu lancei o projeto para atender à demanda de Dia dos Namorados. Vendi 9 músicas naquele período e decidi profissionalizar a ideia.

Em 29 de maio de 2023 o projeto completou 3 anos, com mais de 180 histórias afetivas dos mais variados tipos transformadas em canção, videoclipe, com variados arranjos e enviados pra vários estados e países.

Spoiler !

Pedro é um dos colaboradores do “Sarau Preamar” um lugar de experimentação de poesias, músicas, mas também de encorajamento de artistas iniciantes ou não, a se mostrarem, iniciarem algo novo, diferente, sem rótulos ou pré julgamentos. Saraus são feitos pra lapidarem a arte, seja na representação dela própria, ou na exposição do artista junto ao público. Logo mais traremos informações sobre o SARAU.