Existência e coragem

Texto de Aline Valente — Depois de algum tempo olhando para aquela mulher, eu compreendi a legitimidade da falta de vontade de viver. Viver era só enfretamento para ela. A existência exigia muita coragem. E a coragem não legitimava a existência. Eu fiquei ali olhando para ela enquanto ela falava. Me perguntava de qual lugar abscôndito ela tirava força para se levantar, o pouco que fosse. Fosse pouco, era muito para enfrentar o passado e o presente.

Por Aline Valente

Eu percebi que uma base
do imponderável se fez ali naquele
tempo-espaço entre nós duas.

Ela sentia fortes dores de cabeça. Não tinha vontade de viver. Ficava deitada quase o dia todo por causas das dores de cabeça e pela falta de vontade de viver. Tomava remédios que a ajudava dormir. Quando a vi pela primeira vez, estava em uma bicicleta voltando da escola do filho mais velho e me contou dessas dores, logo no nosso primeiro encontro. Ela encostou a bicicleta e começamos a prosear. Ela me contou que o filho mais velho era muito agressivo e constantemente ela era chamada para ir à escola.

— Tenho que ficar lá na escola com ele, assistindo aula para não deixar ele bater nas outras crianças. Eu fico nervosa com isso. Ele me dá muito trabalho, bate nas crianças lá.

— Ele toma algum remédio?

— Toma remédio controlado. Eu não tenho afeto por ele. Não sei gostar desse menino. É muito difícil pra mim, ele me lembra muito o pai dele.

Depois de algum tempo olhando para aquela mulher, eu compreendi a legitimidade da falta de vontade de viver. Viver era só enfretamento para ela. A existência exigia muita coragem. E a coragem não legitimava a existência. Eu fiquei ali olhando para ela enquanto ela falava. Me perguntava de qual lugar abscôndito ela tirava força para se levantar, o pouco que fosse. Fosse pouco, era muito para enfrentar o passado e o presente. Eu olhava para ela e queria perguntar como conseguia criar condições para a sua existência, embora eu não conseguisse elaborar uma pergunta. Talvez as condições não existissem. Havia uma aparente força que a fazia existir.

— Eu casei muito nova com o pai desse menino. Ele me dava tudo, roupa, sapato. Ele fazia tudo para mim. Mas me agredia. Quando eu engravidei, ele me bateu muito. Esse menino é assim porque apanhou muito quando estava na minha barriga.

— Você não tem culpa.
Eu me apressei em afirmar isso a ela. Queria garantir que ela não se sentisse culpada. O coração apertou. A gravidez de uma mulher que deveria ser celebração, foi melancolia. Eu talvez não assimilei, naquele momento, a lacuna que ela possivelmente não vai preencher. E também não assimilei porque naquele dia ela reviveu esses momentos vividos. Era uma história que não parava de existir. Na memória. Na coragem. Na força.

— Eu não tive coragem de ir embora.

— Mas você não tem culpa.

— É, não tenho.

Ela afirmou sem acreditar. Talvez era um pecado ela não ter culpa. Culpa por não ter coragem. Eu me lembro de achar que não tinha o direito de estar ali, de acessar aquela história, aquela culpa, aquela coragem para existir. Eu tinha ido fazer um trabalho de campo. Era ir e voltar. Mas essa mulher chegou com a bicicleta quando voltava da escola do filho mais velho e me atravessou. Os atravessamentos designam nossos caminhos, nossa memória, e as histórias – dos outros e a nossa história. Continuamos ali, de pé, em frente a um galpão de madeira de uma associação de agricultores rurais. É de histórias como essas que muitas mulheres vieram, são dessas histórias que pertencemos. De onde pertencemos, e de onde há tanta falta e ausência é que devemos sedimentar nossa luta. Naquele dia, eu e ela entendemos isso. A vida, afinal, tinha seguido em frente.

— O pai do seu filho mora aqui?

— Não, em outra cidade.

— Então você teve coragem de ir embora.

— Tive, mas deixei meu filho para trás. Quando ele nasceu, o pai dele me trancou em um quarto e deixava comida na porta. Fiquei nessa condição durante um mês. Eu tinha decidido que quando conseguisse sair, ia embora. Ia deixar o filho com ele, porque ele tinha dinheiro e seria um bom pai. Ele era ruim comigo. Com o filho, eu tenho certeza que ele seria bom. Eu não convivi com meu filho. Vim embora. Depois de seis anos, ele devolveu esse menino pra mim. Não consigo gostar dele. É a cara do pai. Toda vez que eu olho pra ele, lembro de tudo que eu passei com o pai dele.

— Seu filho também não tem culpa. É preciso cuidar de você, eu disse. É importante se manter acordada, sem dores. Você já foi ao médico para investigar essa dor de cabeça?

— Fui sim. Eu tive uma sequela da raqui (anestesia), quando eu tive meu segundo filho.

Eu olhava para essa mulher e a via tão forte que me assustava. Parecia tão preparada pra tudo. Mesmo ela me tentando dizer o contrário.

— Meu segundo filho é do meu atual marido. Depois que eu vim embora, um dia reencontrei um homem que eu tinha conhecido na minha adolescência. Conversamos, relembramos o passado e começamos a namorar. Vim para esse lote aqui com ele e com a família dele. Comecei junto com ele a reconstruir a minha vida. Ocupamos essa área junto com outros produtores rurais e construímos nossa casa. Comecei a fazer parte desse movimento de luta aqui, a fazer parte da associação. Sonhamos em fazer nossa casa aqui, em produzir e vender, viver dessa terra. Eu quis engravidar do meu segundo filho. Eu amo esse menino. É diferente do outro. Não gosto quando o meu filho mais velho me abraça.

— Seus filhos brincam juntos? São amigos?

— São, mas o mais velho bate no mais novo. Porque ele é agressivo. Aí eu bato muito nele. Eu bato nele todo dia.

— E o seu marido?

— Ele é bom. Mas ele não vai ficar comigo muito tempo não. Às vezes ele quer sair, ir na casa da família dele e eu só quero dormir, sinto muitas dores de cabeça, não quero ver ninguém. E nenhum homem aguenta isso. Acho que ele é compreensivo, mas não sei por quanto tempo.

— As dores de cabeça são sequelas da raqui (anestesia)?

— São sim. Eu senti logo depois que o efeito da anestesia passou. Senti muita dor, passei mal, quis logo vir embora do hospital.

— E porque você não falou com o médico? Você não poderia ter saído do hospital nessas condições?

Eu percebi que uma base do imponderável se fez ali naquele tempo-espaço entre nós duas.

— Médico não se importa comigo, eu sou preta e pobre. Eu tinha até medo de falar com o médico que estava sentido dor. Eu tomo meus remédios para dormir, a dor passa, eu durmo, não tem remédio para esquecer das coisas que já passei, mas eu durmo e quando eu estou dormindo eu não lembro. Então é bom.


Aline Valente, desenvolve trabalhos com mulheres e comunidades. Articula e mobiliza junto com elas, ofícios como expressão de resistência e pluralidade. Porto Seguro, Bahia, Brasil.


Ligação Criminosa, poema de Nighel Jhullian

Nighel Jhullian, artista Pernambucano, iniciou sua carreira no fim de 2019. Sua delicadeza de se fazer arte, identidade única e as construções artísticas é seu grande diferencial. Em Outubro de 2020 lançou sua primeiras caixa de lambe-lambe chamada ‘Morrendo de Saudade’ em formato digital.

Às vezes chega pra gente, no nosso inbox mágico, somente isso, um nome e um poema. O que, definitivamente, não é pouco. E quando nos desperta a alegria de ler um poema assim bonito, a gente corre atrás e pesquisa… Pois:

Nighel Jhullian, artista Pernambucano, iniciou sua carreira no fim de 2019. Sua delicadeza de se fazer arte, identidade única e as construções artísticas é seu grande diferencial. Em Outubro de 2020 lançou sua primeiras caixa de lambe-lambe chamada ‘Morrendo de Saudade’ em formato digital. Após vários experimentos e colaborações em outros projetos, Nighel deu mais um passo na carreira com o seu mais recente Curta-metragem o ‘Claridades’ que foi produzido inteiramente na cidade de Garanhuns, relacionando a sua sexualidade com a cidade em que vive.

Mais sobre Nighel Jhullian


Ligação Criminosa

Lembro como se fosse hoje
Quando seus olhos se cruzaram com os meus
Uma conexão inimaginável
Não sabia descrever o que estava sentindo
Apenas que aquele olhar impuro
Foi capaz de me deixar tão louco
Tão sem jeito
Mal podia imaginar
Que o destino iria nos colocar frente a frente novamente
Fico tentando entender até agora
Como
Como que uma troca de olhares
Em um bar extremamente movimentado
Cheio de gente cult
Iria ser o point
Para encontrar você
Realmente não consegui entender
Mas quem disse que preciso entender alguma coisa
A verdade é que você
Os seus olhos
Me deixa em êxtase
Como se estivesse alucinando
Em outra dimensão
Uma atração incontrolável
Que me faz imaginar coisas impróprias
Coisas que me dão prazer
Prazeres sexuais
E o destino resolveu nos unir
Na realidade foi Valéria que realmente nos uniu
Não sei como
Não sei quando ela viu
Ou percebeu que a gente iria dar certo
Uma ligação desconhecida
Passou a ser conhecida
Por mim

Agora

O garoto que me dava prazer só de olhar
Me fazia gozar
Com sua voz doce e calma
Passávamos madrugadas conversando
Das coisas mais idiotas às mais indecentes
Trocadas em uma ligação
Até hoje fico preocupado
Será que as operadoras de chips
Tem algum tipo de programa
Uma forma criptografada de deixar guardadas
Todas as ligações que fazemos
É
Talvez sim
Talvez isso
Seja só viagem da minha cabeça
Se realmente elas tivessem
Ajudariam nas investigações de crimes por exemplo
Agora
Pensa
Imagina se realmente existisse?
Seríamos presos por passar horas falando putarias
Trocando afetos que nos fazem bem
Que infla nosso ego
Prefiro permanecer acreditando que não
Que não seremos presos
Por trocar amor e prazer
E se de alguma forma
Um de nós for preso por cometer esse crime
Será o crime
Mais
Gostoso
E
Safado
Que
Eu
Cometi

Nighel Jhullian, artista Pernambucano

Haikais de Daniel Rodas

Hoje, na Kuruma’tá, temos a alegria de publicar uma seleção de dez haikais, tradicional e mínima forma poética japonesa, do querido amigo, poeta, dramaturgo e agitador cultural com sua Revista Sucuru, Daniel Rodas!

Hoje, na Kuruma’tá, temos a alegria de publicar uma seleção de dez haikais, tradicional e mínima forma poética japonesa, do querido amigo, poeta, dramaturgo e agitador cultural com sua Revista Sucuru, Daniel Rodas!


montanha fria
no silêncio a vida se revela
um palmilhar de gotas

*
crepúsculo morno
à luz do cajueiro em flor
duas mariposas

*
pequeno caracol
subindo o pico do Jabre –
devagar… devagar…

*

vassoura na mão
o velho varre a poeira
pro próprio rosto

*

pinheiro seco
no sertão o frio é escasso
ventania e folhas

*

o tempo
ao redor do jardim –
borboleta em âmbar

*

cinco crianças
brincando de roda
na foto da avó

*

aqui e agora
o gato adormece
no altar do Buda

*

cigarra escondida
o vento não permite o canto –
adormecem as formigas

*

pedaço de estrada
nas árvores o vento dança
ao som dos bem-te-vis


Daniel Rodas no lançamento da coletânea Engenho Arretado: poesia paraibana do século 21 (Patuá, 2023)

Daniel Rodas é escritor, poeta e dramaturgo. Graduado em Letras e Mestrando em Literatura e Interculturalidade (UEPB). Editor da Revista Sucuru. Autor da plaquete Eros e Saturno (Editora Primata, 2021) e do livro Umbuama (Editora Urutau, 2021). Integrou as antologias Poesia fora do eixo (Toma Aí Um Poema, 2022), Engenho Arretado: poesia paraibana do século XXI (Patuá, 2023) e Casa Encantada: o conto fantástico paraibano (Arribaçã, 2023). Tem textos publicados em vários meios eletrônicos nacionais e internacionais, a exemplo das revistas Mallarmargens, Ruído Manifesto, Germina, Toró, Subversa, Kuruma´tá, Entreverbo, Trajanos, Aboio, Sepé, Literarte (Argentina) e Granuja (México). Fez parte do grupo de teatro ExperIeus da cidade de Monteiro-PB, onde colaborou como ator. Pensa na poesia como um fluxo, como o fluir incontrolável da vida.


Independência Poética: Alyne Castro

Fui tantas, sou tantas e serei tantas de mim, que abraço por inteiro quem sou, na minha pluralidade e singularidade. Brincando com minha loucura e me deliciando com ela. – Alyne Castro.

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Alyne Castro

Designer de comunicação, poeta, ilustradora, contadora de histórias, virginiana, druidesa, mãe e uma caminhante dos sonhos. Fui tantas, sou tantas e serei tantas de mim, que abraço por inteiro quem sou, na minha pluralidade e singularidade. Brincando com minha loucura e me deliciando com ela.

O que te inspirou a começar a escrever?

Aprender a ler. Ler histórias e poder fazer parte delas sempre foi magia para mim. E queria poder dar essa magia a todos. Desde que aprendi a escrever crio pequenas rimas, escrevo cartas e tento eternizar momentos com poesia. Escrever é isso, eternizar momentos e emoções, preencher uma folha em branco com ideias, sensações, que pode até não fazer sentido, mas foi necessário naquele momento. A possibilidade de colocar em frases o que em alguns momentos não se consegue falar. O universo de possibilidades de interpretação do que constar num micro poema.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Caminho, vou a um café, observo a vida que pulsa ao meu redor. Coloco uma música que ressoa no momento em meu coração para tocar mil vezes e danço. Meditar também tem me ajudado, rsrs, acalma a mente e coloca algumas coisas em ordem. Minha espiritualidade também me inspira diariamente, a conexão com minha soberania e natureza.

Seu maior sonho como escritor(a)?

Penso que seja pertencer. Pertencer a um momento. Que pelo menos um poema pertença ao momento de alguém, que faça sentido e traga emoção. Que emocione.

Assunto preferido de escrever?

Escrevo poemas, poesia confessional. Gosto de escrever sobre o cotidiano, as sensações que tenho. Sobre espiritualidade. E estou me aventurando em contos.

Um elogio para sua própria escrita?

Depois de tanto ter medo, ela sai sem medo.

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Participei de duas coletâneas: I Tomo das Bruxas – Do ventre a vida e Coletânea Semente Poética – Turma 4 da Yara Fers. E lancei um livro artesanal, pela editora Arpilerra, chamado Onirismo.

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

Meu filho, minhas práticas espirituais, um café, olhar pela janela. Escutar a conversa de alguém sentado próximo. Quando a gente se permite sair do automático, a vida é um prato cheio de sabores e aromas a serem absorvidos e vivenciados e isso é inspiração pura.

Qual dos seus poemas mais te define?

Anatomia, que está no meu primeiro livro de poesias, Onirismo

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

Nos dias de muita inspiração, as palavras fluem, e fica fácil. Escrever sobre o que sinto, vivencio, sobre o que acredito é fácil. Ando sempre com caderno e pequenos blocos, para escrever no momento que a inspiração vem. Envio áudio para mim mesma quando não consigo escrever. O mais difícil é se estou preparada para colocar num papel o que estou sentindo, se estou preparada para ser lida. Algumas palavras são íntimas demais, mas precisam ser escritas.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Tenho algumas, O oceano no fim do caminho do Neil Gaiman. Sobre a escrita do Stephen King. História sem fim do Michael Ende. The Awful Rowing Toward God (O Terrível Remar Rumo A Deus) de Anne Sexton.


Um livro de Alyne Castro

Nome da obra?

Onirismo

Quando e em qual editora foi publicada?

Publicado em Abril de 2023 pela Editora Arpillera.

Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

No Onirismo, o tema é sobre o sonhar, sobre insônia, sobre minha relação com o onírico.

As poesias são divididas em fases nessa obra? Se sim, o que te motivou a fazer isso?

Não. Elas são um convite para sonhar.

O que te incentivou a escrever esse livro?

Escrever um livro sempre foi um sonho. E tinha tanto medo de realizar que fiquei empurrando e me escondendo atrás das minhas inseguranças e medos. Até que resolvi ser apenas eu e nada mais. Ser dona de mim e da minha soberania, e escrever sempre fez parte de mim, e sempre esteve presente em todos os momentos da minha vida. Então, relendo meus poemas, percebi um tema constante: o universo dos sonhos Coincidiu com o chamado de lançamento da editora Arpillera, que tem a proposta de ser subversiva e artesanal, e resolvi tentar. Reuni meu sonho e poemas sonhos e enviei o manuscrito. E foi uma felicidade ser selecionada.

É possível destacar uma poesia que mais se assemelha a seu cotidiano?

Sim, A arte negra diálogo com Anne Sexton.

A sequência dos poemas conta alguma história?

Conta sobre sonhos, insônias e vigílias. Sobre se permitir delirar, fantasiar e, também, despertar.

Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

Respirar é um ato político. Então gosto de pensar que meus poemas e a realização do sonho de lançar meu livro, seja inspiração para que as pessoas percebam que é possível sim acreditar em um sonho e ele se tornar realidade. Que sonhar, desejar é subversivo, é combustível para lidar com os dias ruins e fazer acontecer uma real mudança em sua vida. Que acreditar em si mesmo e em seu potencial é resistir.

Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?

É sobre a importância de sonharmos

Qual a poesia mais marcante desse livro?

É um poema que não tem título, mas que tem muitas sensações.

“às vezes, me perco além do olhar

vejo futuros possíveis, passados refeitos

rostos que já não estão mais aqui

imagens dançam em minha frente

e bailo com elas sob os raios de sol

então percebo que estou de olhos abertos

 

a mente deseja que seja real

estico os braços para sentir

mas, como nuvem

tudo se dissipa

onde foi parar?

em algum lugar entre lucidez e delírio

respiro fundo e fecho os olhos

sem adormecer, me percebo desperta

sem enlouquecer, caminho fingindo

fingir normalidade é o que me resta

até a noite chegar e poder mais uma vez sonhar”


Comentário a respeito do livro A última noite de José Wilker, de André Balaio

Texto de Toinho Castro

Uma grande alegria me veio ao ler o primeiro parágrafo do novíssimo livro de contos, ou melhor, histórias, do querido amigo André Balaio. Ler livros das amizades é sempre uma grande armadilha, até que se confirme como algo maravilhoso. E é, por fim, uma maravilha a leitura de A última noite de José Wilker, publicado pela Caos & Letras. Balaio sabe escrever, e a gente sabe que saber escrever não é alinhavar letras e palavras em frases e parágrafos, mas envolver, tecer um espaço de pertencimento, de encontro. Nesse espaço se desenrolam as histórias, as lendas e mitologias, as invenções humanas para transcender nossa limitada presença no mundo.

A sensação é de que cada página virada dos contos de Balaio nos atrai, segurando nossa mão, para um mundo de espelhos levemente distorcidos. Há algo de (Jorge Luis) Borges perscrutando os parágrafos. Não é exatamente fantástico, no sentido de gênero literário. Mas o tempo inteiro, sentimos algo a espreita. Algo imperceptivelmente fora do nosso controle. Esse espaço de encontro que André tão habilmente descortina (porque ele já existe em algum lugar. E isso é assustador e fascinante), é um espaço de encontro com o inusitado, com o inesperado; pequenos desvios em que o mundo se transforma e somos arrebatados por uma estranheza.

São quatro contos e uma pequena, mas notável, novela, que dá título ao livro. Que coisa bonita alguém que gosta de escrever assim, que se dá ao prazer de construir cenários, personagens reais (mas como nos espelhos), e acontecimentos que se desenrolam com desenvoltura, sem tropeços. Nos enlaçando, nos enredando e nos entregando algo que só a literatura pode nos entregar, porque é isso que André Balaio, habilidosamente faz: literatura.

A última noite de José Wilker é um desses livros que eu adoraria ter encontrado por acaso, num sebo, na banca do Olivar, lá na Carioca… Porque seria uma espécie de operação de magia, muito condizente com as narrativas que o atravessam. Incauto leitor, se em 20 anos você esbarrar com esse livro num sebo, compre! Será estranho, e bonito.

PS. André, eu sei, amo o cinema. E o cinema está ali em cada página. Assisti muitos filmes lendo esse livro.


Poemas de Alessandra Martins

Alessandra Martins nasceu em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, hoje vive entre Brasil e Estados Unidos. É pesquisadora, escritora, poeta, ativista social e autora do livro de poesia marginal Voa, Sankofa, Voa! (Chiado Books, 2021). É graduada em Letras e especialista em História e Cultura Afro-brasileira e Indígena, cursa pós-graduação em Literatura, Artes e Filosofia pela PUCRS e MBA em Marketing pela USP.

Alessandra Martins nasceu em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, hoje vive entre Brasil e Estados Unidos. É pesquisadora, escritora, poeta, ativista social e autora do livro de poesia marginal Voa, Sankofa, Voa! (Chiado Books, 2021). É graduada em Letras e especialista em História e Cultura Afro-brasileira e Indígena, cursa pós-graduação em Literatura, Artes e Filosofia pela PUCRS e MBA em Marketing pela USP.

Jurema Preta

Na noite
a chuva regou
as folhas da umbaúba
que belamente cresceu
Ao amanhecer
alfazema
tomilho, funcho e alecrim
no jardim floresceu

Verde, vida, amor
As borboletas passeiam
O vento suspira
A abelha namora a flor

Ela nasceu no inverno
Intensa.
É de Osun – além de
amarela, também ama azul

Ar fresco, sombra, flores
ela sente que renova
ela sente que é ela
Radiante
Jurema Preta é o nome
dela

Ao falar
ao olhar
ao sorrir
onde ela chega
traz cores
beleza
faz o dia florir

Seu aroma é forte
cítrico
exala capim limão
ao caminhar todos
a olham
presença marcante
tem o mundo nas mãos

Ela brilha concomitante
com o sol no horizonte
o som do atabaque se
encontra com o seu
coração de poesia
pulsante

Tudo ecoa
São sons de vida

Ela desperta do sono
Em seu sonho se vê
sambando

Entre flores de
girassol
Toma banho de
arruda
E os aromas se
misturando
espalhando
a terra
contagiando
flores
folhas
energia
O chocalho agita no
morro

Ao subir a ladeira
chegando pede
agô e fala adupé!
Ela reverbera sua luz
Os irmãos
respondem axé!

 


Bicho solto

Espírito meu,
teu, nosso
Nasceu para
ser livre.

Não se deixe
aprisionar.
Não permita
grilhões nos
seus tornozelos,
nem correntes
nos seus pulsos.

Nada que te faça
parar.
Grades? Corte-as!
Fechaduras? Quebre-as!
Cordas? Arrebente-as!

Não permita que
te impeçam de ver
o infinito do céu.
Lute, mas também
Descanse.

Aproveite as
abundâncias da vida
Saboreie do néctar,
do mel.
Permita-se ser amado
e amar.
Viaje, dance, beije,
viva, voe, navegue.
Descubra o infinito
do céu, a imensidão
do mar.

 


Negra Soul

Eu sou a negra que
você olha
e acha que não
vai conseguir.

Eu sou a negra
que você
tentou diminuir.

Eu sou a negra
que você
xingou, bateu.

Eu sou a negra
que você
desmereceu.

Eu sou a negra
que você
não quis namorar,
muito menos se casar,
só comeu.

Eu sou a negra parada
no canto.

Eu sou a negra que
acorda e vai dormir aos
prantos.
Eu sou a negra que na
escola você apelidou,
que na vida você
engravidou e abandonou.

Eu sou a negra
que você
manipulou e que
no passado se odiou.

Eu sou a negra
que
você mata 
e não dá em nada.

Eu sou a negra que
você diz ser moreninha,
mulata e parda.

Eu sou negra!
A mesma negra que
você passou a mão,
a mesma que você
enxerga
como produto, objeto,
exploração.

Eu sou a negra
que é negra. Que tem
consciência e orgulho
no peito.
Que é humana e
merece igualdade 
e respeito. 

Eu sou a negra que
honra seus ancestrais.
Que sobrevive e vive
conquistando seus
ideais.

Sou a negra que no
passado e no presente
lutou e luta por libertação. 

Eu sou negra!

Sua lança não pode
mais me atingir.
Porque você querendo
ou não.
Eu existo e vou resistir.

Você tentou me calar, 
mas minha história não seu
apagou.
Negra de corpo e alma. 
Negra soul.


Independência Poética: Dheyne de Souza

Dheyne de Souza é poeta, goiana e feminista. Publicou poesia no livro lâminas (Martelo, 2020), além da plaquete era uma promessa; era pra cuidar; ela engravidou; ela se perdeu; (lola frita, 2022)

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Dheyne de Souza

Dheyne de Souza é poeta, goiana e feminista. Publicou poesia no livro lâminas (Martelo, 2020), além da plaquete era uma promessa; era pra cuidar; ela engravidou; ela se perdeu; (lola frita, 2022). Faz parte de um coletivo de poetas mulheres (@bidecoletivo), com uma antologia a ser lançada em 2023 pela Editora Urutau, selo Hecatombe. Está no prelo, pela editora Aboio, seu primeiro romance. É doutoranda em Literatura Brasileira (USP). Usa a rede social @dheynedesouza.

O que te inspirou a começar a escrever?

Não me lembro muito bem o que exatamente me moveu a começar a escrever. Talvez tenha sido uma série de circunstâncias, como a vontade de ficar só, a ânsia de inventar mundos e personagens, a curiosidade pelos detalhes do chão. Acho que escrevo desde muito criança, antes mesmo de saber grafar as imaginações. Um pouco aérea, um pouco estranha, um pouco calada, penso que tudo isso foi se misturando entre o que eu parecia, o que eu era e o que venho (sub)vertendo em escrita. Talvez as várias faces e fases do silêncio. Talvez o barulho incontrolável do mundo, das pessoas, das faltas. Tomara que tudo.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Hoje em dia, eu espero. Já houve época em que me desesperava muito por não conseguir escrever, inventava que estava passando por fases, que depois viria uma transformação mirabolante e uma nova vertigem na linguagem. Mas agora entendo que faz parte do processo. Pode ser que, à medida que os anos vão passando, a vida vai se mostrando mais feroz, travando uma luta conosco, nem sempre justa, nem sempre leal, especialmente se somos mulheres. Fico pensando que depende de nós mesmas e de nossas circunstâncias várias, quem sabe, sopesar o que vale a pena. Confesso que, muitas vezes, deixo algumas armas de lado e deito no campo. Recuperar forças, escudos e ânsias. Digo a mim mesma que me tornarei mais inquebrantável. Às vezes funciona

Seu maior sonho como escritor(a)?

Acho que nunca pensei nesses termos, mas o que me veio à mente como utopia foi: sobreviver de escrita. É um ofício cruel, de diversos modos. Condições formais, temáticas, econômicas, raciais, socioculturais, de gênero(s), de geografias, de opções e demandas. Acho que não tenho um sonho maior, talvez vários.

Assunto preferido de escrever?

Isso varia muito. Nos últimos anos, tenho sentido um ímpeto do pensar político. De reconhecer-me nas intersecções, de encontrar o outro, as outras.

Um elogio para sua própria escrita?

Difícil responder tão de dentro. Acho que, pelo tempo que sei que levo trabalhando nisso, diria que as camuflagens da linguagem.

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Já publiquei livros de poemas. O primeiro foi pequenos mundos caóticos (PUC/Kelps, 2011), depois lâminas (Martelo, 2020) e uma plaquete chamada era uma promessa; era pra cuidar; ela engravidou; ela se perdeu; (lola frita, 2022). E está no prelo, pela editora Aboio, meu primeiro livro em prosa, um romance.

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

Acho que depende do cotidiano, talvez tudo. Morando no centro de São Paulo, um grande despertador de reflexão é a condição desumana das pessoas em situação de rua e dos dependentes químicos, no que chamam de Cracolândia, ou Centro do Medo, segundo Datena, ou ainda, para muitos moradores, efeito de especulação imobiliária. Já tentei escrever sobre os vários tipos de sentimentos que tenho ou acho que as pessoas têm, mas ainda estou processando essas experiências. O que falamos, o que fazemos, o que somos como humanidade, não sei aonde viemos parar.

Qual dos seus poemas mais te define?

Bem difícil. Não sei se minhas produções literárias realmente me definem. Talvez, lá no fundo, eu ache que a poesia ou a prosa não define ninguém, e talvez mesmo esteja na contramão disso, talvez nem seja esse o campo, enfim. Tergiversando um pouco a pergunta, tem um poema que é uma conjugação de memória, de sensação e de invenção do que acho que foi minha primeira relação com o ato poético. O poema se chama poiesis e está no livro lâminas (Martelo, 2020):

poiesis

enquanto os risos escorriam nos pés
na grama
nos galhos
nos céus
dos outros no tempo
em que sempre voltamos
jamais estaremos

uma criança, longe, muda, exangue, sentada
num canto daquele muro
(como no canto dos outros muros que agora a
derrubam
feito um sino mudo)

nesse canto lhe deram uma rosa
era uma rosa comum, cor-de-rosa, jovem, justa, virgem
não soube o que fazer com tanta verdade
embora sequer soubesse disso
de que agora a memória sabe
do jeito que a memória sabe saber reticente

poderia ter passado a tarde toda
aquela criança
talvez eras
com a rosa nas mãos

poderia dizer do cheiro daquela pétala uma obra aberta
do tônus firme do seu corpo frágil
das inverossimilhanças do contorno
na sua cor silenciosa
dos rosas da rosa

se fosse dizível

mas quando o sol se punha
naquela época

pés sujos
risos suados
cabelos ventados
fôlegos rotos

mas a rosa
intacta
naquelas mãos tão pequenas meu deus e que já sustinham o medo
de ser túmulo

qual teria sido o erro
que cometeram aqueles dedos
incapazes ainda de todo mal que agora teciam tão displicentemente

tomaram-lhe a rosa sem
não foi sequer capaz de
despedaçaram todas as pétalas e sépalas
ouviam-se ranger suas veias
enquanto ensinavam que era assim
que se brincava com as flores

foi a primeira vez para ela
que a poesia
colheu o seu silêncio
humano

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

Não consigo pensar em uma parte fácil. Acho que rememorar, elaborar, refletir, expressar, revisar, escrever, apagar, esquecer, sobreviver, tudo são dificuldades, internas e externas. Escolho trabalhar com as dificuldades da escrita e descobrir em cada um desses processos e produtos suas dificuldades – e, quem sabe, além de sofrer, aprender com elas.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Talvez, a narrativa “O oco”, de Hilda Hilst. Não sei se pelo contato muito próximo nos últimos anos, mas, a cada vez que releio essa narrativa ou mesmo trechos dela, fico abismada com o trabalho submerso com a linguagem e curiosíssima com os desconhecidos que ela lacuna.


Um livro de Dheyne de Souza

Nome da obra?

lâminas.

Quando e em qual editora foi publicada?

Publicada em 2020, pela Martelo Casa Editorial, uma editora independente de Goiânia-GO..

Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

Eu acho que não existe um tema central. Gosto bastante de trabalhar com metalinguagem e questões político-sociais e feministas, mas não só.

As poesias são divididas em fases nessa obra? Se sim, o que te motivou a fazer isso?

Eu não dividi em fases os poemas desse livro. Na verdade, sou péssima para pensar uma história e uma ordem, talvez porque eu considere, ao menos nesse caso, cada poema um universo em si. Estou tentando exercitar isso hoje em dia, mas tenho dificuldades de ordenar. Em lâminas, publicado em 2020, o editor, Miguel Jubé, contribuiu com sugestões para alterar a ordem dos poemas, até porque enviei pra ele em ordem cronológica, que é a que costumo fazer em meus arquivos pessoais. Esse livro reúne poemas de cerca de uma década, entre 2011 e 2020, então muitas temáticas e experimentações formais e linguísticas passaram por mim e por eles. No momento atual, estou trabalhando em um próximo livro de poemas, e neste sim estou procurando exercitar um ordenamento de poemas e de ritmos temáticos, organizados de modo mais consciente das questões políticas, sociais e feministas que o atravessam.

O que te incentivou a escrever esse livro?

Esse livro reuniu alguns dos poemas que escrevi nesse período de quase dez anos, que foi a lacuna temporal desde o livro anterior que havia publicado de forma impressa. Eu não estava pensando em publicar lâminas. Foi conversando com amigos e com o editor que resolvi selecionar os poemas, com ajuda e incentivo deles. Então, foi uma reunião de poemas diversos e, ao mesmo tempo, que testemunham uma década de muitas transformações pessoais e coletivas, sociais e estéticas.

A sequência dos poemas conta alguma história?

Não exatamente. Partindo do que comentei antes, talvez haja um testemunho, em cada poema, de um tempo e de um espaço ao longo de uma década. Mas é só uma interpretação minha, não costumo falar muito disso, gosto mais de ouvir as impressões dos outros.

Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

Sim. E acho que em toda obra há.

Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?

Em cada poema, acho que há uma história, que depende muito da pessoa que lê, de como chega, bate e reverbera nela. Bom, talvez esse seja um sonho, um desejo, um convite. Dizendo por mim, como leitora da minha própria obra – se for possível pensar nesses termos –, no poema que citei antes, o “poiesis”, a personagem daquela criança traz memórias e ficções muito particulares para mim, mas acho que as imagens ali podem remeter cada um a um canto muito singular da sua infância. Enfim, talvez devesse apenas dizer: os mistérios.

Qual a poesia mais marcante desse livro?

Para mim, acho que a última, “80 tiros”. O próprio título remete a um fato histórico de que trata o poema e que me causou e me causa imensa preocupação, enorme indignação, extrema necessidade de escrever.

80 tiros

80 tiros 80.
do gatilho o estado fardado armado rindo 80
uma família.
um civil negro.
80 tiros.
não era o alvo
foi engano
80 tiros
ensurdecendo o país. o judiciário não
80 tiros. uma pessoa humana, era o princípio da dignidade. fundamental. o judiciário não
80 tiros. garantindo o direito individual, coletivo e social, o judiciário não
80 tiros. crime militar. judiciário 80
como foi o som do primeiro tiro 80?
apologia à tortura 80 ustra 80 o judiciário não
banalização, legitimação, estímulo
80 tiros
e nenhuma palavra sã do executivo
quem executa
o judiciário não pergunta não responde não garante
80 tiros. oitenta.
como foi o som do último tiro 80?
como é o som do judiciário
80
como vamos contar?
80
como vamos seguir?
80
como se judicia
80
judiciário ouça
80 tiros.
arma. flash. fim.
do estado 80
do judiciário 80
do cidadão
80 tiros ultrapassaram a constituição
o juízo
qual foi seu juízo final, cidadão
qual será
80 tiros e nenhuma
80 tiros não foram balas perdidas
que as balas nunca são na verdade perdidas na era da tecnologia legalização morte
80 o porte
a cor da bala é negra 80
80 cápsulas no seu colo, judiciário
conta o seu poder
80 tiros
qual a justiça
estadual, militar, eleitoral, do trabalho, federal,
superior
supremo
socorro
qual o seu papel 80
80 cápsulas
80 tiros
oitenta vezes
oitenta judiciário
oitenta executivo como não lhe cabe juízo de valor 80
quanto vale vida tiro oitenta
legislativo
socorro
o judiciário cala
80 mata
morremos assim na velocidade do tiro
qual o cheiro da pólvora estado?
um tiro mata
oitenta tiros eu não sei contar eu não sei medir eu não sei rezar eu não sei 80
o judiciário sabe.
80 tiros nunca poderão esgotar como
ordem
já podeis da pátria filhos
ver
80 tiros
na área de jurisdição militar
o que significa que
80 repita comigo oitenta não desce oitenta não sai oitenta não dá oitenta tente fugir oitenta pro estado oitenta tenta dizer tenta um murro na parede oitenta vezes tenta oitenta vezes gritar tenta oitenta caracteres oitenta não cabe não sai não engole
80 tiros
do estado
o poder emana do povo 80
80 vezes
oitenta
como incidente lamentável judiciário executivo legislativo foram oitenta tiros do estado
não há incidente a mira é negra
não há lamento a mira 80
medo surpresa ou violenta emoção
80 tiros o que são
o judiciário o que faz
pra quem serve 80
80 quando se diz oitenta
é um som é um número é um fuzil
passando na rua 80
a via é pública
a vida não
a cor o buraco negro oitenta
oitenta clarice oitenta
o que faremos
pra quem pedimos
pra que morremos
80
não cabe num poema não cabe 80 sangra
tenta
80 o som do tiro
80 foi engano
80 rindo
80
rindo
tiro
culatra
pólvora
o estado rindo
ruindo
o judiciário o que
oitenta
somos 80 o que somos somos 80 o que somas não somos 80
o som
o tom
o músico da cor

80

j u d i c i a r o i t e n t a


O jogo

Texto de Toinho Castro — Marlene sorriu porque tinha acabado de levar uma bronca do jogo, por algo que dissera. E que eu nem percebera, porque eu olhava para os búzios jogados sobre o tecido branco que cobria uma pequena área da pequena mesa.

Texto de Toinho Castro

Xilogravura de José Lourenço (Juazeiro do Norte – CE)

Marlene sorriu porque tinha acabado de levar uma bronca do jogo, por algo que dissera. E que eu nem percebera, porque eu olhava para os búzios jogados sobre o tecido branco que cobria uma pequena área da pequena mesa. De olhos fixos no jogo, eu imaginava as linhas de força que ali se cruzavam, ou dali emergiam. Lembrava daquelas ilustrações dos velhos livros de ciência, das linhas de força de um campo magnético em torno de um imã. Ou mesmo as recentes representações das trajetórias explosivas de partículas no LHC.

Aquilo estava falando sobre mim. Sem que eu pudesse escutá-lo. Ou seria aquele ruído que parecia sublinhar o aparente silêncio da sala. De súbito ela me disse, tirando os olhos do jogo e me alcançando como se fosse de longe:

— Não era pra você ter nascido.

E isso, meu nascimento, só se deu pelas forças de Oxalá e Iansã, que me insistiram no mundo. Sim, meu parto foi difícil. Foi cesárea, ou nem seria. É o que dizem, o que ouvi de minha mãe, que não sabia dessas duas forças a me puxar, a me disputar com… com o quê? A morte? O oco do tempo? Só sei que venceram o cabo de guerra, e eu só soube disso naquela sala com Marlene, que era vetor das palavras que contam a história escondida de cada pessoa.

Ela ia narrando tortuosamente, e pontualmente me relacionando mais e mais a Oxalá, lembrando-me sempre, como uma nota de rodapé, como um beliscão: mas tem Iansã. E eu fico aqui, perscrutando a dança desses dois, que só agora sei que são os que estão. Oxalá sábio, velho. Oxalufã… Mas tem Iansã. E hoje, com essa ventania de chegada de frente fria, como não lembrar dela? Sou desses que abre janelas na tempestade. Sou desses.

Marlene disse que sou antigo

Foi meu primeiro jogo. Eu não sabia o que dizer, o que perguntar. Se deveria perguntar ou saber. Deixei-me levar. Ouvi e acreditei naquela forma antiga, ancestral, de saber das coisas e dizê-las. E curiosamente agora sei ainda menos do que sabia, porque vislumbro que há tanto mais que não sei. Porque portas e janelas só se abrem para o desconhecido. Quando não vemos o que não sabemos, é porque está tudo fechado.

Agradeci a Marlene. Agradeço ainda.

Não era pra ter nascido. Mas eu nasci, porque era pra eu nascer. Que mundo incrível em que essas duas afirmações podem ser verdadeiras, como o Gato de Schrödinger.


Poemas de Míriam Freitas

Inbox mágico trazendo versos pra gente! Seja bem-vinda, Míriam!

Escritora, mineira e doutora em literatura comparada. É professora no IFSUDESTE- Juiz de Fora. Publicou contos, ensaios, poemas e narrativas curtas. A memória é uma oficina de ossos (Urutau, 2023) é o seu quarto livro de poemas.

A generosidade é um gole d’água
na boca do deserto.


SÓS

Ficar só
como um único peixe no aquário
é habitar no ventre a água
de um mar sem violinos.

 


SOBRE DOAR

A generosidade é um gole d’água
na boca do deserto.

 


SOLIDÃO I

Olhe para dentro,
há o turbilhão das vozes,
íntimas raízes, mortos que falam.
O solitário não fala, mente.
Traduz de si para si
o calendário da alma.
Dentro
− realisticamente −
ninguém
ninguém.

 


PISCA- ALERTA

Hoje acordei
para alimentar os pássaros
e libertar as crianças
dos cardumes da violência.

 


CONSTATAÇÃO

Lendo (agora) um poema de Whitman
sei que os cemitérios estão dentro
de cada homem
ou mulher
na travessia em direção
ao deserto das sombras.

Sei que no útero da loucura
reside a morte.

(Também) sei que
os hospícios são a morada dos pássaros.

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Impermanência com disfarces sociais. Escutar o ar. Antes do tempo das cordas, de T.S. Eliot, e de um caracol que ressoa pelo mundo, de Octavio Paz, a poesia surgiu nos ossos. Cava. Na origem do vazio, sobra a sede de “Luz e sal”, o silêncio, a sombra de sua sombra, como bem dito por Alejandra Pizarnik, por aqui sopra sobras. Freitas parece se conectar exatamente com essa esfera quando apresenta A memória é uma oficina de ossos, obra de fôlego e de impacto, viajante dos símbolos da finitude, livro-nauta da sobrevivência de tuk-tuks nervosos, pois “de um relógio/à procura de novos instintos” permanecemos com um grito, sorrindo, alados. Viver também é grafar um piano constante: nestes densos poemas há vibrações de toques como uma “Sonata ao Luar”, de Ludwig Van Beethoven “embaixo das unhas/dentro dos ouvidos”. Mírian ludibria e convida “à caça do tigre de papel”, em um girassol espelhar refugiando a memória do mundo: porque somos ninguém no mesmo sonho, vícios à imagem prelúdica de “forças ciprestes”. E deitados ao sol, de repente, escutamos assobios, e você já me lê, ao vivo. Continue: “o corpo cresce:”.

Mariana Basílio


Um grito em cada poema | Girvany de Morais

Nasci no dia 27 de março de 1965, num lugarejo chamado Vaqueta, no município de Açucena, às margens do Rio Santo Antônio, sendo meus pais Maria Dias Martins e Juventino Martins de Morais, portanto há 51 anos estou pelejando nesse mundo remando minha canoa, como fazia nos velhos tempos, no Rio Santo Antônio, rio que navega de forma indelével na minha vida.

Sempre gostei de ler, eo meu primeiro livro, ganhei do meu irmão mais velho, livro pedido pela escola, que se chamava “As mais belas estórias”, não me lembro do autor que fez a compilação das estórias.

Desde a tenra idade, toda manifestação artística me encantava, em especial a Literatura. Gosto de Drummond, Pablo Neruda, Mário Quintana e Bertold Brecht, não querendo ser pretensioso, confesso que fui influenciado por ele; gosto também de Charles Baudelaire, Pedro Tierra e, na prosa, admiro João Guimarães Rosa, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Ernest Hemingway, cujo livro “O velho e o Mar” já o reli quatro vezes; cito também, como meu escritor predileto, Gabriel Garcia Marques, como é maravilhoso. Cem Anos de Solidão! É puro êxtase.

Digo com ironia que não consegui ser nada na vida, inventei de ser poeta, não sei se sou dos bons.

Trabalho na Prefeitura Municipal de Açucena, no setor de fiscalização. Como podem ver, sou funcionário público. Como dói, como diria Drummond.

Girvany de Morais


SELEÇÃO DE POEMAS

A MORTE DA POESIA

A poesia saiu a caminhar pela cidade e tinha chovido,
veio um carro em alta velocidade e jogou lama na poesia,
em seguida veio um carro velho e jogou dióxido de carbono na cara da poesia, como vivia no mundo da lua, quase foi atropelada por um motoqueiro que a xingou:
— Saia do meio da rua, filha da puta. Veio a bicicleta que desviou dela numa fração de segundos,

veio o cavaleiro esporeando seu animal e quase a pisoteou,
a moça que sonhava com seu namorado nem deu bom dia,
o político que cumprimentava seus eleitores, nem a reconheceu, poesia não dá voto.
A louca a falar mal dos problemas da cidade a xingou – Vá caçar serviço sua vagabunda!
O policial quase a prendeu por vadiagem, os cães a lambia,
o pedreiro nem dava importância, tinha paredes a levantar, o gari quase a varreu, o professor, fez troça: afinal era de exatas o homem

de negócios a odiou ,não cogitava a hipótese de perder tempo, a municipalidade pensava seriamente em decretar a sua inutilidade pública, e varrê-la através de Decreto Municipal para outras bandas.

 


A ZÉ CELSO

Um louco tropical desfila em terra brasilis,
o seu coração está pleno de plumas e paetês, arlequim desvairado, transfigurando em terras tupiniquins, os seus delírios,
lembrando que na terra dos falsos Messias,
é sempre desejos latentes,
a inundar nossos corpos lascivos.

 


DESJEJUM

Traga-me café com leite, pão com manteiga, degustarei como se fosse um banquete real.
Traga-me um guardanapo, que é pra limpar os restos
como convém as boas normas de educação,
e depois de saciada a fome, andar a esmo,
digerir o tempo.

 


HOMOFOBIA

Ouvi uns que gritavam nomes feios.
Vi outros armados de pau, senti o cheiro daqueles que exalavam ódio.
Ouvi a maldição dos crédulos, que entoavam as suas iras
nos altares.
Vi os homens que marcharam pela moral e bons costumes. vi os jornais, vi as TVs, ouvi o
rádio, propagando as suas ideias. vi o cerco fechado,
vi o beco sem saída,

quando ouvi outros que gritaram: VIVA O AMOR!!!

 


LAMENTO

O Rio Santo Antônio deságua nas minhas veias,
e transborda no meu coração, por isso minha saudade está inundada
de sonhos, e desejos de navegar.