Independência Poética: Daniela Rezende

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA
Poeta de hoje: Daniela Rezende

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Daniela Rezende

Daniela Rezende é escritora e artista educadora. Bacharela em história da arte pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e mestra em letras pela Universidade de São Paulo (USP), nasceu e mora em São Paulo. Publicou textos em revistas virtuais e zines. Teve um videopoema apresentado no 4º Concurso de Videopoesia da Desvairada – Feira de Poesia de São Paulo (2020). Integrou o Curso Livre de Preparação de Escritores – CLIPE, pela Casa das Rosas (2021). Pela editora Urutau, lançou Uma mulher só não faz verão (2022).

O que te inspirou a começar a escrever?

Questões pessoais, relacionadas a processos de autocompreensão com os quais eu não sabia lidar muito bem. Eu estava com vinte e oito anos quando comecei a escrever – e a publicar nas minhas redes sociais os textos que eu escrevia – e passava por uma grande crise de identidade, advinda do término de um casamento, da finalização de um mestrado e do desemprego, por consequência.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

A questão do bloqueio é sempre uma dificuldade. Em geral, eu tento lembrar que ele é uma fase, algo temporário, e ficar tranquila com isso. Se o bloqueio vem quando estou no meio de um projeto, eu tento trabalhar em outras frentes: na continuação das pesquisas para a escrita, de forma a me alimentar o máximo possível sobre aquele tema ou aquela estrutura poética que venho desenvolvendo, ou na releitura e reescrita do que já foi feito.

Se, por outro lado, o bloqueio vem em um momento entre projetos, tento não me preocupar tanto e escrever um pouquinho a cada dia, nem que seja uma frase ou um verso, sobre qualquer coisa. Isso tudo apenas para manter a escrita e a atenção para a escrita sempre fluindo.

Seu maior sonho como escritor(a)?

Não sei responder exatamente. Talvez meu maior sonho como escritora tenha algo a ver com o reconhecimento público da minha atividade, da minha obra e daquilo que escrevo.

Assunto preferido de escrever?

Gosto de escrever sobre mulheres, sobre suas vidas interiores e perspectivas. Também gosto muito de escrever sobre animais e bichos – provavelmente, pois adoro a parte da pesquisa que envolve conhecer mais sobre a natureza.

Um elogio para sua própria escrita?

Um elogio recorrente que a maior parte dos leitores faz em relação à minha escrita é o de que ela é muito forte e muito cortante. Tenho a impressão de que as pessoas verdadeiramente não esperam por isso, por essa contundência, quando me conhecem.

Já um dos elogios mais recentes que uma pessoa em uma live de poesia disse – e que me deixou muito feliz e reflexiva – é o de que minha poesia é inovadora. Eu não sei se compreendo exatamente o que aquela pessoa quis dizer naquele momento, mas considero um grande elogio para um escritor.

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Sim, publiquei um livro de poesia chamado “Uma mulher só não faz verão”, em 2022, pela Editora Urutau.

Também participei de uma antologia de contos para mulheres escritoras no ano de 2022, organizada pela Editora Primata. A publicação se intitula “Cartografias – vol. 1: contos de autoras brasileiras”.

Por fim, em 2023, aguardo a publicação da plaquete de poesia “Mãe fantasma”, uma vez mais pela Editora Primata.

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

As coisas que sonho, as coisas que sinto e as coisas que observo no dia a dia. Essas são as minhas principais inspirações para escrever.

Contudo, uma grande parte dos meus poemas vem daquilo que roubo de tudo o que está ao meu redor, cotidianamente. Assim, as histórias que os amigos me contam, os programas de televisão, um trecho de um livro, uma fala em um podcast: tudo acaba virando material bruto para a escrita.

Qual dos seus poemas mais te define?

Todos eles, sem exceção.

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

Acredito que iniciar e terminar um poema é, ao mesmo tempo, a parte mais fácil e a mais difícil da escrita. Mas isso depende muito do dia.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Tenho muitas obras favoritas e a maior parte delas é formada por romances. Costumo dizer que o meu livro preferido do mundo é “A insustentável leveza do ser” (1983), do escritor tcheco Milan Kundera. Jamais superei a leitura dessa obra.


Um livro de Daniela Rezende

Nome da obra?

“Uma mulher só não faz verão”.

Quando e em qual editora foi publicada?

Em 2022, pela Editora Urutau.

Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

Sim, os temas centrais dos poemas deste livro são: mulheres, bichos, corpos e violências.

As poesias são divididas em fases nessa obra? Se sim, o que te motivou a fazer isso?

Não, elas são organizadas a partir das relações temáticas estabelecidas entre os textos.

O que te incentivou a escrever esse livro?

O fato de que eu estava fazendo um curso de escrita, o CLIPE – Curso Livre de Preparação do Escritor, oferecido pela Casa das Rosas em São Paulo, SP.

Como, ao longo do curso, estava produzindo muito e conversando com outros poetas, todas as semanas, a ideia de organizar esse livro foi tomando corpo aos poucos e passei, então, a escrever e a pesquisar para a escrita com mais consciência e intencionalidade.

É possível destacar uma poesia que mais se assemelha a seu cotidiano?

Acho que não. Todas partiram de algo muito específico e, sem dúvida, ligado ao cotidiano.

A sequência dos poemas conta alguma história?

De alguma forma, sim. Contudo, essa história – ou histórias – não deve ser lida e entendida de forma linear, progressiva, mas, sim, circular, cíclica.

Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

Sim. Não apenas nessa obra, mas em tudo o que eu faço, seja na literatura, no meu trabalho como educadora em museus, ou na minha faculdade e formação acadêmica, existe uma posição política bastante clara de minha parte sobre os feminismos e as questões raciais e de gênero que me tocam profundamente.

Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?

Eu adoro contar histórias. Logo no início do livro há, por exemplo, um poema intitulado “mugido”, no qual incluo a personagem Paulo, um açougueiro. Essa personagem vive se repetindo nos meus textos, inclusive se desdobrando para além da poesia, em contos e em trechos de prosa que venho produzindo. Penso que a relevância dela para a minha obra é, ao mesmo tempo, simbólica e material e pode ser compreendida como uma encarnação da própria violência que acomete determinados corpos em nossa sociedade.

Qual a poesia mais marcante desse livro?

Para mim ou para os leitores? Para os leitores, eu diria que alguns dos poemas mais marcantes são “mugido”, “a buceta da brasileira vale menos do que o kg do feijão”, “georgia” e “poema das pernas que abrem”. Já para mim, é impossível apontar um texto só.


Dizer meu bem

Texto de Toinho Castro — “Meu bem”, que coisa linda de se dizer a alguém. Fiz esse quase poema meio sem querer, ou talvez porque com “meu bem” não reste nada a dizer além da poesia. Outro dia de manhã, na padaria, a moça atrás do balcão me falou assim: Vai querer o que, meu bem?

Texto de Toinho Castro


Ilustração de Edmundo Rodrigues, para o livro A ilha perdida, de Maria José Dupré

“Meu bem”, que coisa linda de se dizer a alguém. Fiz esse quase poema meio sem querer, ou talvez porque com “meu bem” não reste nada a dizer além da poesia. Outro dia de manhã, na padaria, a moça atrás do balcão me falou assim: Vai querer o que, meu bem?

De repente ela pareceu-me cheia de magia, de poderes, coo se pudesse realizar sonhos antigos. Quase que eu digo: quero ser astronauta. Voar até a lua. Quero ter um submarino. Quero ter vivido a história de A ilha perdida, de Maria José Dupré. Tal é o poder do “meu bem” quando a gente o escuta, vindo de alguém.

Conformei-me com média e pão na chapa. Mas certamente carregados de algo bom, que não sei o que.

“Meu bem” é mais bonito que “meu amor”, que tem, talvez, algo de impositivo, de definitivo. E ao mesmo tempo pede algo, quase exige um posicionamento. Algo de filma americano com final feliz, a muito custo desenhado pelos roteiristas. “Meu bem” é de uma leveza, de uma finura. Você pode ouvir, sorrir e mexer o café no balcão da padaria. E sua vida vai seguir. Parece sempre que logo depois a gente vai ouvir uma promessa, uma jura. “Meu amor” fecha uma porta. “Meu bem” abre janelas, areja a sala. Chama você pra entrar e se fazer de casa. Parece casual e displicente. Por isso, real.

Talvez você ache que estou viajando, delirando, jogando assunto fora. Não, meu bem. Sei muito bem o que estou a dizer. Quando escuto um “meu bem”, mesmo que nem seja pra mim, aposto num dia bom. Mesmo que não seja pra mim.


O ser amor

Texto de Ana Egito — Pra tudo tem o olhar, pra todos basta o nosso olhar que interpreta o sonho, a sanha, o bem e o mal, o medo e esperança, o cinismo onde dói e lateja a dor da incapacidade de ser melhor do que o espelho reflete, o convexo diante de nossos próprios olhos.

Texto de Ana Egito


O Ser Amor Me encantei com o que me fez sorrir, escolhi ser meu ofício o que pudesse me permitir estar entre o tempo e o além dele, mesmo sabendo que tudo poderia ruir, se extinguir, mas a possibilidade sempre presente de reversão de todo e qualquer mal, me fez acreditar que o horizonte é infinito e tem o brilho do renascimento.

Pra tudo tem o olhar, pra todos basta o nosso olhar que interpreta o sonho, a sanha, o bem e o mal, o medo e esperança, o cinismo onde dói e lateja a dor da incapacidade de ser melhor do que o espelho reflete, o convexo diante de nossos próprios olhos. Embora pareça ser o luar encanto dos apaixonados, desdenha-se do pavor a quem na escuridão da noite se esconda e nos açoita, o medo é também parte de uma cultura que sobrevive há séculos nos mais ingênuos atos, cantigas de ninar, sedução em plena pele, na seda, nas pedras, no reflexo das águas, calmaria, tempestade. 

Quem não guarda dentro de si, vozes ocultas na ternura do colo de mãe, ou mesmo nos braços protetores que abraçam e abrandam, ainda, nas vielas sombrias que só a espera do milagre aqueceu um coração?

Em tudo vejo vontade, mas vantagem, me arrisco a dizer que é privilégio dos que ofertam, somente um coração tomado pela compaixão é capaz de reconhecer o encantamento ao findar do ato, o olhar que sobressaltado à surpresa feliz se encontra, momento mágico, luz! 

Este é meu ofício, busca intensa e incansável por uma vida que possa prolongar a alegria por um minuto que seja, pelas palavras, sons, cores e gestos que a natureza nos ensina desde nossa chegada. O que me encanta me faz sorrir, e como é emocionante ver alguém sorrindo!


Alguns poemas de pin

Pin. É como se assina André Egídio. Ainda há pouco também se assinou Egídio Mutamba. A vida são muitas vidas. A vida são muitas assinaturas. Pin é paranaense vivendo em Goiânia. Trabalha com barro, trabalha a cerâmica. Com mãos leves e sensíveis analisa a terra bruta, acaricia o ventre do chão. São poemas e anunciações em caminhada.

Pin. É como se assina André Egídio. Ainda há pouco também se assinou Egídio Mutamba. A vida são muitas vidas. A vida são muitas assinaturas. Pin é paranaense vivendo em Goiânia. Trabalha com barro, trabalha a cerâmica. Com mãos leves e sensíveis analisa a terra bruta, acaricia o ventre do chão. São poemas e anunciações em caminhada.

Pin chega na Kuruma’tá certeiro, com pequenos poemas que são como a Tardis do Doctor Who…
maiores por dentro que por fora

Arte de Pin

Eu 1

Eu soube, desde princípio,
Que Eu
Não chegaria a lugar nenhum

 


Palavras

Eu não sou muito bom com as palavras
Mas sou muito pior sem elas
Não vim para este mundo para ter medo de usá-las

 


Diabo

Andei por toda a cidade
Passei por todo tipo de lugar
Músicas, festas, buzinas e gritos
Mas só escutei falar do diabo quando passei
pelas igrejas

 


Todo mundo quer ser artista

Depois que o acesso às câmeras fotográficas foi
“democratizado” todo mundo virou artista, todo
mundo quer ser fotógrafo.
Isso é ótimo, porque o mundo precisa de mais
e mais artistas e menos gente obsessivamente
preocupado com cudosotro…

 


Eu 2

Eu não sou quem você pensa que é
Você não é quem eu penso que sou

 


Chaleira

O que esperar de uma casa sem chaleira?
Manhãs monótonas, sem sentido, bucólicas

Sem o amargo bem cevado logo cedo, não tem
porque acordar!

 


Escravocrata

Eu sou doente
Sempre tenho que corrigir
Aquele amigo que diz
Lisboa sua linda
Quando é Lisboa sua escravocrata demente!
Não é possível separar o passado do presente!
Há que se respeitar
(h)a gente!

 


Coisas da vida

Nessa vida podemos admitir muitas coisas
Mas coiso, nenhum!


O poço profundo da Península de Kola

Texto de Toinho Castro – Você sabe onde fica a Península de Kola? Não sabe? Pois bem, fica no muito norte do território da Rússia, já depois de ultrapassar o Círculo Polar Ártico. Lá, na tal Península de Kola, estão os restos, o que sobrou, de uma experiência científica comparável, talvez, à conquista do espaço. Trata-se do poço super profundo de Kola.

Texto de Toinho Castro

Você sabe onde fica a Península de Kola? Não sabe? Pois bem, fica no muito norte do território da Rússia, já depois de ultrapassar o Círculo Polar Ártico. Lá, na tal Península de Kola, estão os restos, o que sobrou, de uma experiência científica comparável, talvez, à conquista do espaço. Trata-se do poço super profundo de Kola. Sua perfuração, iniciada em  24 de maio de 1970, pelos soviéticos, alcançou em 1982, a profundidade assombrosa de cerca de 13km, varando a crosta terrestre rumo ao manto. É o poço, dizem, mais profundo já cavado pelo ser humano.

Ainda assim, com toda essa profundidade, digna de filosofias, o projeto não logrou o intento e alcançar o manto, a camada logo abaixo do 40 km da crosta (naquela região), e que se estende até os limites externos do Núcleo. Os anos de esforços não foram suficientes para transpor a barreira das rochas, das altas temperaturas, maiores que o esperado, e dos custos da operação… e também dos mistérios revelados pela jornada terra adentro. Com o fim da União Soviética, em 1991, o projeto foi para o espaço, ou melhor, para o buraco. As instalações foram fechadas e abandonadas, o poço vedado e hoje tudo é ruína.

Há quem o visite lá naquele ermo. Os moradores da região acreditam que quase se alcançou o Inferno. Há quem escute os gritos das almas sofredoras…

Os americanos tiveram a mesma iniciativa e tentaram cavar seu poço no leito do oceano Pacífico, nos anos 1960, com o projeto Mohole. Nas profudenzas dos oceanos há regiões em que a distância a ser percorrida através da Crosta, até o Manto, é bem menor. Mas naqueles tempos as tecnologias de perfuração submarina ainda não haviam surgido e precisaram ser desenvolvidas. O fantasma do alto custo também assombrou as águas do Pacífico. O projeto Mohole acabou por ser cancelado.

Há na Alemanha um outro poço, outra tentativa de desafiar as forças enormes que fundem o chão sobre o qual pisamos, o German Continental Deep Drilling Programme. Lá a artista holandesa Lotte Geeven “mergulhou” um microfone, com proteção térmica, e gravou o ranger de dentes da terra profunda. Seu corpo a contrair-se e dilatar-se. Sua respiração.

Da experiência de Kola hoje restam ruínas, expostas às intempéries e à curiosidade de ousados turistas radicais que alcançam aquela região. Restam seus fantasmas perambulando pelo frio cortante, sem deixar pegadas sobre a neve. Lacrado, o poço guarda, ou esconde, o que não sabemos, o que não conhecemos. O que tememos?

Parece que saíram às pressas. Fugindo de quem? Do quê? Sabemos apenas que jamais retornaram. Sabemos que o que ficou para trás jaz em silêncio e ninguém, em lugar algum, fala sobre o que ali de fato aconteceu. Será que a terra gira, ou se arrasta, em torno do poço profundo de Kola?


Escute a música que fiz inspirado por essas histórias…

Independência Poética: Flora Miguel

Tempo sem cruz, lançado pela Editora Primata – e que ganhou versão de bolso bilíngue (português-espanhol) com tradução do Lucas Gaspar, e a plaquete IRA (outro lançamento Primata), escrita com a Priscila Kerche e a Camila Martins.

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Flora Miguel

Flora Miguel é jornalista, trabalhadora da cultura e poeta. Tem textos esparramados por veículos literários no Brasil, Portugal e México. Estudou dramaturgia na SP Escola de Teatro. Formada no CLIPE (Curso Livre de Preparação de Escritores da Casa das Rosas – São Paulo). Vencedora do VII Festival Manoel de Barros de Poesia e Literatura – Modalidade Concurso Nacional de Poesia Inédita. Assina a canção “Pela Cidade” em parceria com o duo A Transe. Idealizadora, curadora e produtora do evento lítero-musical BRECHA, ao lado da poeta Jeanne Callegari. Autora do livro “tempo sem cruz” (Editora Primata) e da plaquete “IRA” (Editora Primata), escrita com as poetas Camila Martins e Priscila Kerche, lançada na Flip – Festa Literária Internacional de Paraty.

O que te inspirou a começar a escrever?

Quando era criança tinha um personagem de alguma marca, um ratinho meio humanóide, que eu gostava bastante. Fiz um desenho dele e mandei pro endereço postal da marca, e me responderam mandando uma agenda toda acolchoada e colorida e estampando ostensivamente o ratinho que eu gostava. Foi irresistível.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Quando dá, viajo. Estar em movimento e em contextos diferentes sempre inspira.

Seu maior sonho como escritor(a)?

Ter mais tempo pra me dedicar a escrever.

Assunto preferido de escrever?

Tive aula com o Dirceu Villa e foi muito importante no meu processo de desenvolvimento poético, e uma vez ele disse que eu conseguia enxergar a sombra no sol do meio dia. Acho que minha escrita tem um pouco desse olhar pros desvios e pro incômodo, é claro que sou tocada pela beleza das coisas mas acho que a treta me marca mais.

Um elogio para sua própria escrita?

Não se levar tão a sério. No fim tem que ser divertido, porque se tá lidando com algo que não tem exatamente razão, serventia nem garantia.

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Tempo sem cruz, lançado pela Editora Primata – e que ganhou versão de bolso bilíngue (português-espanhol) com tradução do Lucas Gaspar, e a plaquete IRA (outro lançamento Primata), escrita com a Priscila Kerche e a Camila Martins.

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

Sonhos, filmes, o noticiário, caminhar pelas ruas das cidades, flanar por aí… Mas principalmente, ler poesia.

Qual dos seus poemas mais te define?

Não sei, vou arriscar bandeiras.

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

A mais difícil acho que é lidar com a insegurança, com certa sensação de “eu sou mesmo capaz de fazer isso?”, e a mais fácil é transpor as ideias pra escrita, quando elas chegam. Sempre muito prazeroso.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Injusto falar de uma obra só, mas fico com Um útero é do tamanho de um punho, da Angélica Freitas, que é um livraço em muitos sentidos, temática, figura de linguagem, sonoridade, ritmo, método criativo.


Um livro de Flora Miguel

Nome da obra?

IRA.

Quando e em qual editora foi publicada?

Editora Primata, 2023.

Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

Pra escrever esse trabalho a Priscila Kerche, a Camila Martins e eu nos debruçamos sobre o sentimento de ira e como ele pode ser um motor pra ruptura de padrões.

As poesias são divididas em fases nessa obra? Se sim, o que te motivou a fazer isso?

A plaquete é dividida em 3 partes a partir de temas centrais, tendo 3 poemas, um de cada uma das autoras, em cada parte.

O que te incentivou a escrever esse livro?

Quando estudei na Casa das Rosas, onde fiz o Clipe, que é um curso livre de preparação de escritores, conheci a Camis, que estudou comigo, e a Pri, da turma anterior. A gente logo se conectou, como mulheres e como escritoras, e quando a Editora Primata, que já tinha lançado um livro meu, abriu uma chamada para envio de plaquetes originais, convidei as duas pra nos juntarmos na minha casa e pensarmos num trabalho conjunto.

É possível destacar uma poesia que mais se assemelha a seu cotidiano?

Tem um poema, que fecha IRA, chamado inscrição, que esconde uns segredos cotidianos.

A sequência dos poemas conta alguma história?

Acho que primeiro falamos da violação do corpo da mulher, depois de sua privação, e por fim do seu caráter rebelde, insurgente.

Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

Tão político e cultural quanto tudo aquilo que não é natural/da natureza mas é fruto da ação humana e pretende fomentar algum tipo de deslocamento do olhar e do pensamento.

Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?

São personagens da vida real e essa é a maior relevância deles. A suicida que sobre violência hospitalar, uma criança tentando realizar um aborto, a menina com fome no centro da cidade, todas baseadas em histórias verdadeiras.

Qual a poesia mais marcante desse livro?

Grazielle, da Priscila Kerche, que é assim:

dois dedos de homem
abriam caminho 
entre seus lábios
quando voltou do próprio suicídio

esteve em coma
chamaram o procedimento
higiene íntima

morreu de novo
enquanto se debatia
quatro enfermeiros a tinham
o segurança do hospital agarrou seu peito
disseram que era preciso
conter o grito
conter a mente da louca
dentro da boca
impedir

a palavra liberdade.

O banzo e os afetos de Terezinha Malaquias

Muitas vezes, enquanto estou fazendo o jantar, eu observo da janela da minha cozinha um casal de vizinhos do sétimo andar, e sempre vejo os dois caminhando de mãos dadas. Isso me lembra os meus pais, eles caminharam juntos e de mãos dadas por quase cinquenta e três anos.

Hoje de manhã, bem cedinho, encontrei esses vizinhos no supermercado, que ca a cerca de um quilômetro do nosso prédio; eles empurravam um carrinho de compras. Quando me viram na entrada do estabelecimento, me cumprimentaram sorridentes e festivos. Depois nos encontramos novamente nas bancas de verduras, legumes e frutas. Assim como eu, eles vão e voltam sempre a pé.

Ela tem 88 anos e ele tem 92. Ela é alemã e ele, polonês.”

Você acabou de ler um trecho de Banzo e afetos (Páginas Editora, 2023), novo livro de Terezinha Malaquias, sobre a experiência da escritora, que vive atualmente na Alemanha, durante o peso e a dor da pandemia.

A palavra Banzo, termo com que pessoas escravizadas no Brasil se referiam ao sentimento de falta do seu lugar de origem, é uma palavra poderosa. Aprendi com minha mãe, que a evocava de saudades de sua cidade natal. Até hoje falo banzo… penso muito em palavras que são, em si, um poema. Banzo é uma dessas palavras. Carrego como amuleto.

Banzo e afeto, como diz o título do livro, atravessam suas páginas. É uma escrita simples, amorosa e direta. A intenção é lembrar ao leitor que a beleza e a felicidade podem estar, por exemplo, em contemplar o nascer ou o pôr do sol, numa xícara de café ou chá com quem amamos, ou ainda  receita da avó que segue sendo passada em frente a gerações”, explica a autora.

“O começo da pandemia me fez refletir muito sobre a vida. O processo foi mudando aos poucos. Teve dias que escrevi todos os dias, em outros dias não conseguia escrever, porque a dor e a preocupação eram grandes demais”, relembra. “Escrevo também como um processo de cura para mim e para o coletivo”. 

As seções do livro, crônicas, contos e poemas, atravessam as dimensões do pessoal e do coletivo, sob o contexto pandêmico em que o mundo mergulhou.

Compre Banzo e afetos

Além de “Banzo e Afetos”, Malaquias também é autora dos livros “Do Jeito da Gente” (2021), com edições bilíngues Portugues-Alemão e Português-Inglês e “Menina Coco” (2018), em Português-Alemão — ambos títulos voltados ao público infantil —; além de “Teodoro” (2021), “Modelo Vivo” (2005) e outras obras e coletâneas publicadas em que é co-autora. 


Antonio Bivar e os Verdes vales do fim do mundo

Texto de Toinho Castro

Gente, que livro maravilhoso de ler é o Verdes vales do fim do mundo, do dramaturgo Antonio Bivar! E não, não se trata de uma peça, mas um registro em prosa da temporada de Bivar, numa espécie de auto exílio na Londres dos Seventies, por um ano e uma semana, de 1970 a 1971, no que o autor classificou como o ano mais feliz da minha vida desde os 15 anos de idade.

O livro foi publicado pela primeira vez na primavera de 1984, pela LP&M, na incrível coleção Olho da rua. Foi mais ou menos nessa época que li o livro, movido por outros tantos livros que falavam da contracultura e temas afins. Uma viagem ao velho mundo, como aquela que empreendera Bivar, era tudo que eu sonhava. Mas nasci meio tarde pra isso. Aquele mundo da psicodelia, da Paz e do Amor, das grandes bandas e grandes shows, de Janis e Hendrix, estava se transformando num outro mundo. O mundo que eu habitaria.

Verdes vales do fim do mundo nos carrega com Bivar pelas ruas de Londres, Salisbury, Ilha de Wight, Picadilly, Stonehenge e outros tantos nomes que encantam nosso imaginário desde a velha GRã-Bretanha. São apartamentos, pensões, hotéis baratos, festas, celebridades. São encontros, afetos, dúvidas e anseios. E aquele olhar terno, saudoso, preocupado com o Brasil. Pelas páginas do livro passam tantas figuras, anônimas e famosas, que é impossível não ficar fascinado pela diversidade humana que desfila diante dos nossos olhos. Lá estão Caetano e Gil, também no exílio forçado pela ditadura que sangrava o Brasil, Antonio Abujamra, o também dramaturgo José Vicente (E que linda a amizade desses dois…), e Rory, Naná,Jody, Caroline… Pessoas se esbarrando no mundo. Encruzilhada (Exu no comando!) de muitas vidas, muitos caminhos e descaminhos e alentos.

Depois que passou todo mundo, comecei a refletir sobre o sentido exato da palavra solidão. Olhei para um relógio de rua e vi que faltavam dois minutos para a meia-noite. Experimentei um bem-estar, uma sensação muito agradável… Não me senti nem um pouco só. Me senti inteiro, livre e em paz.

Um livro de liberdades, em que uma prosa e um cotidianos cheios de poesia e descobertas se desenha ao longo da nossa leitura. E tudo que queremos é fazer parte daquele mundo, adentrar os portões de Avalon e encontrar Bivar.

Antonio Bivar, Antonio como eu e meu pai, diretor, produtor musical, dramaturgo, roteirista compositor, biógrafo, jornalista, escritor, tradutor e ator. Morreu em 5 de julho de 2020, em decorrência da Covid, aos 81 anos. Que perda enorme.

Nas últimas semanas reli Verdes vales (agora numa edição pocket, ainda com o selo da querida LP&M) , depois de mais de 30 anos, e o Antonio Bivar, que encontro nessas páginas, ainda é o Bivar que quero conhecer, com quem quero sentar em algum banco que possa existir no Hyde Park ou num boteco de Ipanema, para conversar e sorrir e falar de quando éramos assim, cheios de tantos sonhos. Que a nossa sorte é que os sonhos não nos abandonam. Pra dizer a ele que são lindas as páginas que ele escreveu. Que são simples e que são lindas, como se deve ser.

ANTONIO BIVAR [Foto: Tika Tiritilli / Divulgação]

Que pena que Bivar morreu. Quanta gente boa a Covid nos levou. Quanta morte desnecessária. Então, Verdes vales do fim do mundo torna-se um livro necessário, cheio de vida que ele é. Cheio de vida que era Bivar, com um sorriso aberto e belo (vi nas fotos!). Saudade de Bivar sem mesmo conhecê-lo, só porque viveu o que eu quis viver e não deu. E eu estava justamente pensando nisso, que a riqueza da literatura e viver o que quer que seja pelas palavras de outro alguém. Que toda vivência humana é, necessariamente, compartilhada.

Li nas páginas de John Cage um dito de Buckminster Fuller: Se um ser humano passa fome, toda raça humana passa fome. Creio que isso vale para tudo. Bivar foi a Londres, viveu o que viveu e vivemos com ele.

Obrigado, Antonio Bivar. Que triste você ter morrido tão jovem, aos 81 anos.


E como tudo que é bom pode durar mais um pouco, vou agora enveredar pelas páginas de Longe daqui aqui mesmo, espécie de segundo volume das aventuras de Bivar no velho mundo (sem nunca perder o fio de prata com o Brasil!). Publicado em 2006, o livro atende ao anseio de muita gente que ficou órfão na última página de Verdes vales.

Ambos os livros tem o preço generoso dos pockets da LP&M e valem a ida a uma livraria ou, ainda melhor, um bom sebo (inclusive na Estante Virtual)!

Maria Bethânia em texto de Antonio Bivar, A trapezista do circo, no disco ao vivo Drama 3º ato, de 1973

Se liga na Raissa Araújo!

“O Ep Amarelo chega para falarmos de amor!!”

Raissa Araújo, baiana, cantora e compositora, começa a se apresentar em bares em 2017. Em 2018 participa do The Voice Brasil no time de Lulu Santos. Em 2021 lança seu primeiro Ep “Luz Azul”, 2023 lança o single “Me Deixa” e agora será lançado o Ep “Amarelo”, no qual a faixa Amarelo é uma canção de amor, composta por Raissa. Gravada no Estúdio Beco do Groove e Estúdio Cromo, conta com nomes como Denner Souza, Roberto Cândido, Luciano da Silva e a participação especial de Nairo Elo na Bateria.

Sobre seu novo Ep.

O Ep Amarelo chega para falarmos de amor!!!
Assista o VISUALIZER!

AMARELO

Intérprete: Raissa Araújo
Composição: Violões, guitarra, cavaquinho, baixo, teclados e Programações: Denner Souza
Vocais, Violão e Baixo: Cândido
Percussão (congas, moringa e efeitos): Luciano
Arranjos: Denner Souza
Produção Musical: Denner Souza, Cândido e Raissa Araújo
Edição, Mix e Master: Cândido
Participações especiais: Nairo Elo – Bateria

FICHA TÉCNICA VISUALIZER
Filmaker: Diogo Florez
Diretora de Arte: Bianca Rocha
Finalização e montagem: LinkCult
Assessoria de comunicação/ designer: LinkCult
Produção: Raissa Araújo
Casal: Raissa Araújo e Luciano

Ouça Amarelo nas principais plataformas de música!

RAISSARAU!

” Eu vim da Bahia, mas eu volto pra lá..”

Passando pela minha terra, onde nasci pequenininha, e claro que cantarei ! Portanto, quinta dia 6 de julho tem Raissarau no @oportalbar com convidadx incríveis e para ser mágico conto com a presença de todos vocês. Para esta edição teremos a regência poética do meu muso @_lucasdematos , a participação de @ocantodasereiapreta e as cantoras deusas e poderosas diretamente do Rio de Janeiro, @simone_faitu e @patchamora2 .

Yaba mandou , a gente obedece e agradece.


A Lenda da Sereia Katuapó, pelo Mestre Tinga das Gerais

Mestre Tinga das Gerais é ator, cantor, compositor e poeta, natural de Corinto, centro geográfico de Minas Gerais.

Mestre Tinga – Fonte da foto: Blog Preta Joia

Mestre Tinga das Gerais é ator, cantor, compositor e poeta, natural de Corinto, centro geográfico de Minas Gerais.

O Vento que viaja lá nas barrancas do Rio das Velhas, conta a lenda da Sereia Katuapó ao Raimundo do Bento.

Ela é metade índia e a outra metade, peixe. Loira, olhos verdes e tem os cabelos longos que carregam uma enorme pena de Arara e gosta de se perfumar com as flores do cerrado. Carrega um espelho, onde fica a contemplar a sua beleza. Se quiser ver o lindo sorriso da Sereia Katuapó é presenteá-la com as flores do cerrado.

Nas noites de lua cheia, pontualmente à meia-noite, as águas dos rios silenciam e nas grandes pedras das barrancas a Sereia Katuapó pode aparecer com seu canto, encanto e magia.

Os pescadores se embriagam com aquela melodia tão linda que até as estrelas saltitam no firmamento.

Sabendo desta lenda, o Raimundo do Bento saiu no final da tarde a colher belas flores de Ipê e flores de Alecrim do campo, para presentear a bela Sereia Katuapó.

Em silêncio ele prepara a tarrafa, a rede, confere o remo e dentro dele a esperança de encontrar aquela Sereia tão linda que o vento dissera.
Ele ergue os olhos aos céus, e a tarde indo embora sem pressa é presságio de uma noite de mistérios e desejos daquele que quer desvendar um enigma às margens do glorioso Rio das Velhas.
Alguns pescadores retornando das suas sagas,notava-se que pelas remadas o cansaço imperava, mas, era mais um dia de busca pela sobrevivência.

Anoiteceu e o Raimundo do Bento vendo que já aproximara a meia-noite, saiu para a pescaria a qual ele fazia com gosto e também para realizar um desejo e poder contar mais uma história em suas andanças e paragens.

Num passe de mágica, o vento se assanha e o redemoinho na noite fica iluminado, as estrelas bailavam na imensidão, a lua faceira se apresenta em suas quatro fases, as águas do rio paralisaram e nas corredeiras se transformaram num espelho e dele exala um perfume indecifrável que alastra nas barrancas do Rio das Velhas e faz girar a canoa do Raimundo do Bento.

De repente, tudo para e ele sentiu o silêncio profundo à sua volta e num clarão sobre a pedra, lá estava a Sereia katuapó, linda e maravilhosa, espelho na mão, cantando em baixo tom. Ele se aproximou da pedra e a presenteou com as belas flores. O sorriso brotou na face da Sereia para a felicidade de Raimundo do Bento.
De repente aquele alvoroço e o encantamento fizeram com que num passe de mágica a Sereia Katuapó – com seu belo canto – os peixes saltarem para dentro da canoa do Raimundo do Bento.

Ali embriagado de alegria e vendo aquela fartura de peixes, Raimundo do Bento agradece:

— Ó minha Sereia! Muitio agardicido! Agora eu tenho alimentação em abundança!

Ela com aquele belo sorriso:

— Ó meu Senhor! Não há de quê! Trouxeste para mim as mais belas flores do cerrado! Agradecida! Vá! Quando precisar de mim é só me chamar, Eu sou a Sereia Katuapó e sempre estarei contigo neste rio.

Ele saiu rio acima e depois de algumas remadas, olha para trás e não mais viu a Sereia katuapó que mergulhou nas profundezas e foi contar a história aos peixinhos.

Trêmulo, o Raimundo do Bento volta para casa numa felicidade incontida e ao longe a mulher e os filhos a espera daquela alimentação.

E a Benedita:

— Nossa home! Dadonde ocê rumô tanto pêxe? Que fartura!

E ele calmamente olhando para o rio:

— Segredo do rio muié! Segredo do rio!

Pela manhã, os Socós, os Biguás, as Garças e toda a passarada, exibiram um cântico exuberante que mais parecia uma orquestra, aos olhos da aurora boreal, com a magia criada por Deus.

Em suas andanças ele conta esta história e à sua volta o silêncio de mulheres, homens e crianças, que atentamente ouvem aquele que com muita maestria colheu as flores no cerrado para ofertar à bela Sereia Katuapó.

E você? Vai pescar hoje?

Vá ao cerrado e colha algumas flores…quem sabe você se encontra com a Sereia Katuapó!

Inté!