O sertão de Pombal, terra das terras

Pelo rio, embora assoreado e habitado pelas gigogas e outras plantas, assenta-se o verde em suas margens, banha-se a verde vida nos meninos imberbes nele mergulhando. O céu é profundamente azul, pelo dia, e profusamente estrelado, durante a noite. Nos intervalos do dia, na aurora, e da noite, no entardecer, o sangue do sol pintará seus desesperos. [Texto de Aderaldo Luciano]

Texto de Aderaldo Luciano


A rua da Matriz – Foto de Aderaldo Luciano

A cidade de Pombal, no sertão paraibano, foi agraciada pela geografia, pela arquitetura, pela intervenção criativa do povo, pelo nascimento, nela, de Leandro Gomes de Barros, o pai do cordel brasileiro, o fundador do sistema literário cordelístico, marca nordestínica, emblema nacional.

Pombal é uma cidade plana, acorda na planície, nela se revela e vive e cria. Talvez por isso, e mesmo por isso, em sua tangente corre o Rio Piancó na busca do Piranhas, mais abaixo. O rio não corta, nem esquarteja a cidade, o rio como que a delimita, dá-lhe ordem de não avançar sobre si.

A BR 230, iniciada no litoral, nas pestanas cavilosas de Cabedelo, adentra a Paraíba, apartando-a em dois cordões: o azul e o encarnado. Em Pombal, essa BR, seu asfalto quentíssimo e escaldante, tenta ser um rio, mas seu fluxo é de mão dupla, seu caminho é ambidestro, não corre só para o mar, nem foi pensada para tal.

Pelo rio, embora assoreado e habitado pelas gigogas e outras plantas, assenta-se o verde em suas margens, banha-se a verde vida nos meninos imberbes nele mergulhando. O céu é profundamente azul, pelo dia, e profusamente estrelado, durante a noite. Nos intervalos do dia, na aurora, e da noite, no entardecer, o sangue do sol pintará seus desesperos.

O azul e o encarnado nos folguedos – Foto de Aderaldo Luciano

O azul e o encarnado são as cores do povo, lembrança e resquício remoto de Dom Sebastião, de Maurício de Nassau, do Rei Janduhí, dos Pegas e Panatis, dos galegos espadaúdos, dos negros assinalados, da lança e dos clavinotes sangrentos de Teodósio de Oliveira Ledo. São as cores intensas e fumegantes, desafiadoras e desafiadas, espadas matizadas, maracás de fundos decibéis.

A Igreja do Rosário, o rosário de Nossa Senhora, e essa senhora sendo do Rosário dos Pretos, desfralda sua presença inaugurando a Praça do Centenário, deixando aberto o maior pátio de igreja de toda a Paraíba, imagem de um tempo de longas vigílias e intensas manifestações. Da porta centenária dessa igreja, esculpida, a porta, em madeira fixe e inexpugnável, quem olha para o lado direito vê a antiga cadeia pública, hoje Casa da Cultura. E é essa casa que deveria reger aquele destino.

A antiga chaminé da Brasil Oiticica S/A, produtora de óleo vegetal extraída do fruto que deu nome à fábrica, sobreviveu, como muitas pelo país, à decadência e queda de suas bases de tijolo e cimento, de vigas e almas trabalhadoras. Venceu a especulação imobiliária, desafiou as máquinas Caterpillar e os tratores de esteira. É um portal para outra dimensão. Para a dimensão de um tempo fausto e astuto, açoitador de trabalhadores, bajulador de capitalistas.

A chaminé da Brasil Oiticica – Foto de Aderaldo Luciano

Mas eis que, debaixo de seu guarda-chuva, sob as penas de sua vida malfadada, pisando os tapetes encarnados e azuis, aos quais me referi anteriormente, desfilam, pactuados com o mesmo tempo, os Congos, trazendo um Rei que tudo pode, guizos que tudo tocam, canções que a tudo encantam, indumentárias que reciclam os costumes, coroas e paletós, saiotes e chapéus pontiagudos, passos e coreografia imutáveis, sorrisos e olhares desafiadores.

Logo a seguir percebe-se o Reisado, plantado, como os Congos, na carga da cor e da origem, rasgados coros africanos, espátulas e espadas guardiãs, mais coroas de ouro imaginário e pedras rutilantes catadas nas estrelas do Carreiro de São Tiago. Vê-se acolá, no centro de suas pupilas, o desbravar do povo que nunca apagou sua chaminé e, como aquela da fábrica, vencedora e guerreira, sustentáculo e cetro, trono e imensidão, sol pontiagudo e Vento Aracati.

Ó, Pontões pombalenses, vós que trouxestes a espontaneidade no canto e na dança, no corpo e espírito, no sopro de vida e na vida malsinada, escrevei com vossas lanças e cores um tempo precioso no qual o respeito pelas tradições e a formação de quadros sejam a fumaça intensa a anunciar que nos porões dos que em nada contribuem já se incineram sua falta de delicadeza com as coisas do povo.

E vem a procissão da Irmandade do Rosário desafiar os brancos senhores que em tudo mandavam. Ela chega com muita calma e esperança, cautela e arquitetura, louvar a Virgem de Nazaré, conquistando seu lugar à sombra, alcançando seu lugar devido, sequestrado pelos anos pesados, e ainda não devolvido. A Irmandade é a sentinela, está a postos na defesa da tradição, cantando e rezando e pegando nas armas se preciso for.

E nesse rosário de fé e resistência aproxima-se, nos mesmos tapetes, vestindo o branco da paz inexistente, a capoeira nada sutil em seus passos de luta, lúdica e telúrica, manhã de Zumbi, tarde da Escrava Anastácia, noite de João Cândido, madrugada de João do Vale, eternidade da resiliência. Os mestres postam-se ao lado de Besouro. Os neófitos já voam nos seus cangapés. Saudáveis instrumentos na santa cozinha em que fervem os refrões. Paraná, ê, Paraná, ê, Paraná!

E o Boi Iaiá assobe-se das cinzas, realiza-se, não como visão, mas como possibilidade. O boi é tão mágico, e tão visagem, e tão imaginário, e tão presente que os meninos o temem, que os antigos não querem domá-lo, e os que brincam o tangem como o boi mais brabo de todo sertão. É o Boi Misterioso cantado por Leandro Gomes de Barros, o Boi Surubim, o Boi Espácio, o Boi Soberano, o boi aruá. Tudo e todos transformam Pombal no polo cultural do sertão paraibano.


Elegeram Daniel rei | Parte I

O inspetor chegou a esboçar uma contenção, mas o menino já tinha se virado sobre a lateral e espalmado a mão no chão para se levantar. Mas uma fratura de Colles no rádio direito, como mais tarde anunciaria para a diretora da escola o ortopedista do pronto-socorro, o impediu: numa manifestação exuberante da elasticidade da pele humana, o peso do corpo fez a mão de Vítor se desencaixar, indo parar na metade do braço. [Texto de Diego Franco Gonçales]

Texto de Diego Franco Gonçales


Na rua, pais ainda se aglomeravam em frente à escola, as últimas crianças se despedindo sob mochilas azul-marinho medindo metade delas. No pátio, as séries primárias começando a formar filas, a poucos minutos de seguir cada uma para sua sala, sua professora e seus cadernos encapados. Era o início de um dia escolar, e os alunos, bem-dormidos e dispostos, decoravam o ar com um mosaico sonoro nada preguiçoso. Mas para um grito daquele, eletrizando a manhã que ficaria marcada como a em que elegeram Daniel rei, era cedo demais.

Som assim, o rasante de uma estridência coesa, só era registrado em recreios, e dos mais problemáticos. O inspetor sabia disso, e quando deixou seu posto de organizador de começo de dia foi para assumir o de convicto disciplinador de momentos críticos. Algumas crianças correram, abandonando filas e rodas de conversa e brincadeira; o inspetor leu nelas a direção a ser seguida. Meticuloso, engrenou sua progressão de emergência, rápida o suficiente para alcançar algumas das crianças e paralisá-las com um toque no ombro e um estralar de língua, mas não o bastante para ser considerada uma carreira aberta. Seco e determinado como seu bigode fino, um praticante de marcha atlética em trajes sociais, foi estancando alunos até aquela curva à esquerda, bem no final do pátio, onde começa o corredor que dá no parquinho. Ali, quatro merendeiras amontoavam as cabeças na janela da cozinha em um dégradé de expressões: curiosidade alegre, interesse apreensivo, aflição contida e temor sofrido, e para elas o inspetor exibiu a palma da mão em um misto de “fica aí” com “deixa comigo”.

A mesma mão subiu à testa na forma de viseira assim que ele deixou a cobertura do pátio. O sol daquele novembro, as pessoas não esquecem, esbanjava potência já antes das oito da manhã. Enquanto seus olhos, acostumados ao esmaecido do pátio, tentavam se adequar à luminosidade, o inspetor apenas distinguia, e mal, o tatuzão, a casa na árvore, o escorregador, brinquedos de maior volume, e um contra-fluxo de crianças, algumas chorando, e bem. Era a medida que ele precisava para elaborar, baseado em experiências regressas, uma intuição do que estaria acontecendo e até a causa. Lezinho, pensou, e agora ele correu.

(Seus muitos anos de experiência profissional concorrem com os poucos junto ao Lezinho para firmar a lógica da sua dedução. Nisso, o inspetor é irrepreensível, e mais à frente esse foi o argumento da sua defesa – argumento que, embora não o tenha salvo da exoneração, foi aceito para livrá-lo de um processo criminal.)

Havia até meninas andando de costas, perplexas com a mão na boca, quando o inspetor chegou ao que parecia ser o epicentro da ocorrência – um círculo de crianças posicionado embaixo da casa na árvore, pequena cabana de madeira a uns dois metros e meio de altura, construída sobre o tronco de um flamboyant morto há muitos anos. Dá licença, dá licença, e no centro do círculo, barriga para o chão, braços e pernas tortos como os desenhos de assassinados feitos com giz em filme policiais, desacordado na melhor hipótese, Vítor.

O inspetor pouco podia fazer por Vítor além de conferir respiração e batimento cardíaco. Respirava e batia. Seu curso de primeiros socorros doutrinava a não remoção de vítimas de traumas, desacordadas ou não, e doutrina é coisa séria. O inspetor olhou por ali e detestou o que viu. Só crianças, ninguém da equipe. O apito negro era seu único recurso.

A professora de artes foi a primeira a acorrer ao chamado ardido do apito do inspetor. Sua sala é a mais próxima do parquinho, proximidade conquistada no começo daquele ano quando ela venceu o professor de educação física, seu principal concorrente na disputa pela sala bem-localizada, distribuindo aos demais professores cópias mimeografadas do seu texto “Indução da criatividade lógico-espacial-estética no 1º grau: uma defesa heurístico-paisagística do uso da sala 7 pela disciplina de Educação Artística” – todos na Reunião de Planejamento Anual/1992 da “E.E.P.S.G. Sandra Souza Suzuki” houveram por bem concordar com ela tão rápido quanto possível para matar no berço o demônio que ameaçava prolongar aquele encontro. Ela armava uma roda de carteiras para uma aula sobre cores quando ouviu a primeira sequência de silvos picados. Imaginou um proibidíssimo futebol de bola de papel sendo dispersado pelo inspetor e continuou seu trabalho, mas mais e mais sequências de apitos a levaram até a janela. O inspetor, de pé, tinha um braço para baixo, apontando uma criança caída de bruços, e o outro para cima, balançando nervoso.

— Aiaiai, quem é essa crian… ô, meu Deus, é o Vítor! – a professora disse conforme corria, a interjeição ainda na saída do prédio e o nome da criança já ao lado do inspetor.

— Professora, a senhora pode, por favor, ficar aqui enquanto eu vou à secretaria telefonar pra uma ambulância? – E, falando para as crianças, o inspetor arqueou as sobrancelhas – Vocês, comigo.

À exceção de uma menina da 4ª série, as crianças imediatamente se ajuntaram ao redor do inspetor. Para ela, o inspetor arqueou também o bigode e repetiu:

— Co-migo.

Ainda assim, ela não se moveu. Vítor estava acordando, e para a menina aquela cena conseguia ser mais premente que as sobrancelhas, o bigode e as sílabas tensionadas do inspetor.

O inspetor chegou a esboçar uma contenção, mas o menino já tinha se virado sobre a lateral e espalmado a mão no chão para se levantar. Mas uma fratura de Colles no rádio direito, como mais tarde anunciaria para a diretora da escola o ortopedista do pronto-socorro, o impediu: numa manifestação exuberante da elasticidade da pele humana, o peso do corpo fez a mão de Vítor se desencaixar, indo parar na metade do braço. Ele gritou mais um daqueles gritos elétricos, rolou até ficar de costas no chão, e, com a mão quebrada pendendo como uma bandeira a meio-mastro, esgoelou com toda a saúde de um pulmão de dez anos:

– Eu vou morrer! Eu vou morrer! Eu vou morrer!


Do que eu esperava encontrar…

Teve aquela hora ontem, no show OK OK OK, do Gilberto Gil, em que todo mundo saiu do palco e ficou só ele, aquele senhor lindo de 77 anos, cabeça branca, com seu violão. E o que ele cantou ali, sozinho… sozinho não, corrijo-me agora mesmo, carregado da tradição da música brasileira, dos quintais, das mangueiras, da gente da calçada, da conversa fiada dos vizinhos, das badaladas das seis horas, hora do Angelus, da troca da guarda. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Teve aquela hora ontem, no show OK OK OK, do Gilberto Gil, em que todo mundo saiu do palco e ficou só ele, aquele senhor lindo de 77 anos, cabeça branca, com seu violão. E o que ele cantou ali, sozinho… sozinho não, corrijo-me agora mesmo, mas carregado da tradição da música brasileira, dos quintais, das mangueiras, da gente da calçada, da conversa fiada dos vizinhos, das badaladas das seis horas, hora do Angelus, da troca da guarda. Estava ali com seus pais, seus avós, seus outros tantos que atravessaram o oceano e ainda antes, sob sabe-se lá que baobá que ainda hoje deve viver em algum lugar. Ali, no palco, sozinho como não estava, cantou, ou entoou, Se eu quiser falar com Deus.

Quando a gente assiste a um espetáculo como esse, e vai escrever sobre isso, a gente quer falar dos detalhes, né? Do som, do setlist, das participações, dos destaques… quero não. Estava eu ali com seu Gilberto, com sua história, sem cordas pra segurar.

Ele ali, cantando essa canção lançada no distante ano da graça de 1981, era como um elo, um halo no meio do palco, esse lugar em que se sente tão bem. Vejo artistas que chamam pessoas da plateia para o palco, essa gentileza de nos permitir o lugar do sagrado. Seu Gilberto não chamou a plateia para o palco ontem. Ao som e sabor de Quem quiser falar com Deus fomos carregados, embalados, e o palco estendeu-se, como um lençol que se estende sobre as pedras junto ao rio para quarar. Quero só falar disso. Desse sol em nosso lençol.

Um espetáculo assim, um encontro desse tamanho, é sempre um momento de alegria. E como tal, um momento de aprendizado. A música é aula do que somos e aprender é lembrar do que sabemos. Seu Gilberto é que nem aqueles totens no nicho da sala, talhado na madeira, a nos atiçar a memória. A dizer: Recorda, pessoa! E aí você lembra. E aí você canta baixinho com ele, feitio de oração, os versos da canção, da poesia, do vão entre as gerações e do mar que vai subindo e preenchendo o vão. Bem sei que tô falando demais e talvez falando bobagem. Mas aprendi mesmo com esse mestre da nossa música que falar é bom, que falar besteira é bom, é necessário pra falar de nós. É bom ser caudaloso e perder um pouco o rumo e controle das palavras, para que elas falem para além do que nós falamos.

Pois perdoe que eu seja eloquente sobre uma canção tão contida, tão delicada. É que saí dali com vontade de falar, de cantar, de recuperar tudo isso que a gente vai perdendo no cotidiano de ruídos e conflitos e aperreios que o mundo nos joga aos nossos pés pra que a gente atravesse.

Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar
Tenho que dizer adeus
Dar as costas, caminhar
Decidido, pela estrada
Que ao findar, vai dar em nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Nada, nada, nada, nada
Do que eu pensava encontrar

Termino esse texto com um agradecimento, não ao artista somente, mas a tudo que ele concentra, encarna, desmancha, desfaz no ar para nós. Criatura, entidade, inscrição, sentado com seu violão terno sobre o palco, foco da luz branca que atravessa o escuro, dos olhares, de todos aqueles ouvidos, de todos aqueles corações abertos ao seu canto.

Saí dali e pensei: Há quanto tempo, meu Deus, essa voz me acompanha!


O carro do ferro-velho

Somente o homem do ferro-velho, o dono do carro do ferro-velho, junto com seus asseclas, poderá nos falar do futuro dessas traquitanas. Para saber do que essas estranha pessoas seriam capazes, para entender o que elas estariam tramando por trás dessa óbvia fachada de coletores de velharias ferruginosas, eu e o Zé José seguimos a kombi surrada no seu trajeto monótono pelo bairro e através de outros bairros, num percurso cada vez mais circular e labiríntico… achávamos mesmo que não conseguiríamos voltar. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Compro ferro velho, compro chumbo,
cobre, geladeira velho,
ar-condicionado velho,
fogões velho.
compro panelas velho,
portões velho…

Essa é a litania que escutamos todas as manhãs enquanto o carro do ferro-velho percorre nossas ruas com suas asas sombrias e sua voz metálica, arrastando com ele restos vazios de geladeiras e peças de metal cuja origem já não conseguimos identificar. Pedaços de mecanismos obscuros, restos de ar-condicionados que gelaram quartos onde coisas estranhas, talvez sinistras, aconteceram. Redemoinhos de parafusos e fios já sem uso, perdidos da sua utilidade original. Pouco sabemos do passado dessas coisas, dessa maquinaria abandonada.

Somente o homem do ferro-velho, o dono do carro do ferro-velho, junto com seus asseclas, poderá nos falar do futuro dessas traquitanas. Para saber do que essas estranhas pessoas seriam capazes, para entender o que elas estariam tramando por trás dessa óbvia fachada de coletores de velharias ferruginosas, eu e o Zé José seguimos a kombi surrada no seu trajeto monótono pelo bairro e através de outros bairros, num percurso cada vez mais circular e labiríntico… achávamos mesmo que não conseguiríamos voltar.

Pobre de quem, gente boa, acha que está sendo discreto. Num dos becos escuros do caminho fomos abordados, amarrados, vendados e acomodados na caçamba da kombi. Rolamos naquela situação pela periferia da cidade, que poderia ser qualquer cidade em qualquer das dimensões que supomos existir. Havia momentos em que parecia que circulávamos sem gravidade, envolvidos nas nebulosas e árvores dos subúrbios. Não sei nem quando nem onde viemos a aportar depois de largar a alma pelo caminho.

Ao nosso redor jaziam montanhas de lataria que dariam tétano em escala planetária. Muitos homens trabalhavam naquilo, separando, juntando, operando máquinas enormes e complexas. Diante do cenário evitamos falar e trocamos alguns olhares furtivos que não passaram desapercebidos.

— Testemunhas oculares… — falou o motorista da kombi, agora sentado perto de nós, junto a uma espécie de casa que parecia ser um escritório, velho como tudo ali. Estávamos, os três, sentados no chão, no cimento cru de uma calçada e já tinham retirado nossas amarras e os melancólicos sacos pretos da nossas cabeças. — Testemunhas da história. — completou o motorista.
— Como assim? — Atrevi-me a perguntar, já esperando ser escolhido como primeiro a ser fuzilado.
— Vocês… seguiram a gente até aqui porque queriam ver a nave com seus próprios olhos. queriam acreditar.
— Bem, a gente não seguiu vocês até aqui, né?! Parte do roteiro foi a contra gosto… — Mas o Zé me interrompeu porque de repente eu estava agindo como se estivesse num filme ruim e ele precisava me deter.
— Claro que a gente sabe, claro que sim! O mantra do ferro-velho. A gente veio até vocês, até aqui, porque a gente quer precisa saber mais.
— Tenho três séculos de idade. Acreditem ou não… não tenho provas. — Falou não exatamente para ser ouvido.
— O galpão. A nave está no galpão.

No fundo do terreno, junto ao morro de rocha que desaparecia na luz vaga, erguia-se um galpão quase destroçado mas de pé ainda, sabe-se lá com que forças. Suas portas entreabertas revelavam uma escuridão no seu interior, exceto por luzes intermitentes e movimentos de lanternas. Heronides, era esse o seu nome, conduziu-nos até lá, até aquelas portas imaculadas que foram abertas para a nossa passagem. E lá estava o que não esperávamos… a Nave. Ninguém poderia apostar que aquele amontoado de peças voaria rumo ao espaço exterior, mas era essa a ideia. Olhávamos atentos e até reconhecíamos certos objetos em meio ao estranho projeto. Aqui e ali identificávamos enceradeiras ou ar-condicionados e janelas eram facilmente reconhecíveis pelos reflexos nos vidros.

A turma do ferro-velho sabia que o mundo havia sido invadido, assim como nós já desconfiávamos. Por sua vez, tomaram iniciativa e tinham seus próprios planos sobre o que fazer a respeito. Iriam embora. Partiriam logo, num próximo amanhecer. Heronides, por fim, nos tirou do estado de estatelamento e nos conduziu ao suposto escritório. Seu interior estava cheio de diagramas e mapas espalhados pelas paredes. Um velho globo com estrelas e linhas pintadas, reinando sobre uma mesa, era estudado com compassos e lupas por um grupo de… sabe-se lá! Engenheiros? Astrônomos? Mecânicos? Lunáticos?!

— É o navegador principal. Isso nos dará um rumo para seguir. — Disse Heronides.
— Como vocês sabem que não serão vistos e seguidos pelo sistema solar afora?
— Não sabemos. Não há garantias, meu amigo. Mas partiremos assim mesmo, arriscando tudo. Já estamos sendo seguidos nas nossas ruas, nas nossas vidas. Venham conosco… esse mundo aí fora do ferro-velho, já era.

O fato consumado é que eu e o Zé sabíamos que não poderíamos voltar, pois os invasores certamente já haviam cercado nossas casas. Nos engajamos nos trabalhos e apagamos nosso passado naquele velho galpão, aguardando a partida. Todos os dias, três ou quatro kombis saíam pela cidade em busca de peças, de equipamento, como dizem por aqui. Uma delas resgatou minha cadela, a Nina, e muitas vezes levaram cartas nossas para o mundo invadido. Cartas de despedida, recomendações e pistas falsas sobre o nosso paradeiro.

Outro dia um helicóptero sobrevoou o galpão. Duas vezes. Fomos às armas e esperamos pelo ataque que não aconteceu. Engraçado que construam naves, atravessem o universo e acabem voando nos nossos helicópteros. É muita vontade de colonizar um planeta. Brinquei com Heronides que deveríamos ir até o mundo deles e explodir tudo por lá. Ele riu, apontou para uma estrela qualquer no navegador e disse-me:

— Fica bem aqui… passaremos perto. O suficiente para sermos explodidos, e não explodi-los. Com sorte não seremos notados.

Era noite e as kombis chegavam. Nina corria pelo terreno e latia. Zé e os outros descarregaram as tralhas e vieram até nós:

— É o fim, não poderemos mais voltar à cidade. O aviso foi claro.
— Não vão nos confinar. É hora da partida, — Disse Heronides, que de repente pareceu mais alto e heroico.

O navegador foi cuidadosamente levado até a Nave para ser instalado. Olhamos lá para fora dos portões do ferro-velho uma última vez e os fechamos. Nunca mais os usaríamos novamente, só havia agora um único caminho para nós. Para cima, para o alto. Para nunca mais. E a Nina ia com a gente!

Para Zé José


Aos que resistem [Poemas do livro Ovos de ferro]

É uma alegria publicar na Kuruma’tá a poesia de Maria Cristina Martins. Somos amigos há muito tempo e por conta dos desvios e desvãos da tal da vida, ou das vidas, tantas vidas, paralelas, cruzadas, entrecortadas, que vivemos, acabei por perder de vista o lançamento do seu livro Ovos de ferro, no cada vez mais distante ano da graça de 2016. Sem dramas! Eis aqui a poesia de Maria Cristina, poesia que resiste com voz ativa, poesia que dá vontade de ler em voz alta e cabeça erguida, da janela do quarto para o mundo. [Poemas de Maria Cristina Martins]

É uma alegria publicar na Kuruma’tá a poesia de Maria Cristina Martins. Somos amigos há muito tempo e por conta dos desvios e desvãos da tal da vida, ou das vidas, tantas vidas, paralelas, cruzadas, entrecortadas, que vivemos, acabei por perder de vista o lançamento do seu livro Ovos de ferro, no cada vez mais distante ano da graça de 2016. Sem dramas! Eis aqui a poesia de Maria Cristina, poesia que resiste com voz ativa, poesia que dá vontade de ler em voz alta e cabeça erguida, da janela do quarto para o mundo. Imagino essa cena e já imagino janelas outras se acendendo na noite, tantas incomodadas, outras tantas atentas, decorando, sorvendo os versos, para recitá-los enquanto a noite não acaba.

Maria Cristina, seja bem-vinda, com seus versos luminosos, à Kuruma’tá.

Toinho Castro (Editor)

Poemas de Maria Cristina Martins


o amor? pássaro que põe ovos de ferro.
[guimarães rosa]

a desobediência é […] a virtude original do ser humano
[oscar wilde]

naquele tempo o tempo parecia bom
tempo de caminhar a favor do tempo
de zombar do tempo
de vencer o tempo
correndo e beijando
e bebendo e falando e pensando
e tentando mudar o mundo
empunhando armas
requebrando os quadris
no entanto abril chegou
chocando os ovos de ferro
servidos em dezembro
quatro anos depois
afinal


o anestesista pediu acetona, tirou o esmalte prateado da unha do meu fura-bolo e aplicou a anestesia. seu rosto teria sido o último rosto que teria visto antes de morrer, se tivesse morrido naquele dia. tive o abdome remexido e costurado tipo uma roupa rasgada. de lembrança uma cicatriz que atravessa verticalmente o umbigo. uma centopeia retorcida pelo calor, que para antes de avançar para o órgão seguinte. penso que posso ter morrido e, antes de ter concluído a passagem para o mundo dos mortos, ter me transformado numa espécie de vampiro ou zumbi. zumbi, não, porque zumbi é o morto que ressuscita. vampiro é aquele que antes de morrer definitivamente sofre uma mutação. posso ter sido vítima da burocracia celestial: são benedito manda um memorando em quatro vias para são judas tadeu avisando que eu vou morrer no dia 2 de agosto de 1997, de hemorragia no baço ou isquemia no intestino. são judas tadeu guarda uma das vias, carimba as outras três e as repassa para o rh do céu, coordenado por santa helena. santa helena arquiva uma das vias, coloca mais um carimbo nas que sobram e manda para são pedro. com esse trâmite demorado, agravado por um feriado no meio do caminho, são pedro acaba recebendo essas vias bem no dia fatal, na hora da cirurgia, repassando, com atraso, uma delas para a morte, que já estava a par da situação, mas ficou com receio de me levar sem ter a ordem formal, por escrito, carimbada e assinada por todos os responsáveis. aí fiquei assim, entre dois mundos, como num limbo. pior, que nem limbo existe mais: o papa bento xvi acabou com o limbo; não sei se francisco, o argentino, revogou essa ordem. meu destino, que se encerrava naquele dia, naquela hora, prosseguiu sem previsões, sem demandas, sem razão. pode ser que ninguém venha a reparar nesse erro. as vias foram arquivadas, a operação foi dada como exitosa, e a única que realmente sabe do equívoco, a morte, não vai querer levantar uma questão que pode acabar gerando problema para ela. afinal, a corda arrebenta sempre do lado mais fraco, dizem. isso tudo considerando que eu iria para o céu, claro. não estou muito certa disso. ou será que o inferno é aqui? talvez as teorias sobre mundos paralelos expliquem. morri em uma dimensão, mas continuei em outra, tendo minha vida reproduzida de forma grotesca, como a liga da justiça do mundo bizarro. será que é um carma? pecados de vidas passadas? desta mesma? talvez cada um tenha o seu demônio, representado por aqueles que mais deveríamos amar e em quem mais deveríamos confiar. talvez eu tenha escolhido errado entre a mãe real e a mãe-monstro.


protect me from what i want
[placebo]

na caixa onde guardo meus pesadelos
há um sem número de rostos estranhos
busco reconhecê-los nas ruas
com avidez pelo ignorado

(sempre parece proposital)

na caixa onde guardo meus pesadelos
há tentativas de fuga malogradas
os pés grudados no asfalto
não andam não correm

na caixa onde guardo meus pesadelos
há vozes que parecem revelar
o significado da minha existência
mas não escutam os ouvidos
como que sujos de cera

a caixa onde guardo meus pesadelos
agora fica em lugar seguro
um pano invisível a cortina
da minha própria curiosidade
um dente de alho a protege
do meu próprio veneno


vii.i – gato preto

estou na estação
esperando a barca
esperando alguém
esperando o que não se deve esperar
porque não vem

o gato preto surge da baía
escala o muro que separa a baía da estação
me chama para voltar à baía com ele
dizendo que não faz mal a poluição
não atrapalhará nossa missão
que eu não entendo bem o que é

há uma missão
eu acho que ela está carregada de utopias
digo isso ao gato
que me responde que ainda estou muito presa
a minha vidinha correta concreta
que utopia é ficar assim quieta
que utopia é ficar aqui esperando a barca
fazendo rimas estúpidas
e se achando morta

eu nego
mas sei que ele está certo
em silêncio vou com ele
como se não quisesse
como se não estivesse
tomada de desejo de baía


campanário ainda silencioso:
o dia não chegou na metade
ou o som do badalo não foi capaz
de me tirar do sono atrasado

acompanho a subida lenta porém decidida
de um pequeno réptil
pelo umbral esquerdo da janela
onde ontem apoiei as duas mãos
para tentar uma posição diferente de amor

feito dançarina busco o mais alto
fincada no chão
(não como raiz – presa imóvel)
feito lutadora de arte marcial
em autodefesa
feito barco sem pressa
feito água que ocupa o recipiente
vaza
feito barco a motor contra correnteza
reagrupada se não na totalidade
um parcial que basta para seguir
um vez em quando que reabastece

quando se deu o septingentésimo quadringentésimo
trigésimo quinto dia
parei de analisar o fato
não tracei mais hipóteses
me livrei da obsessão do detalhamento
do perfeccionismo da análise

que se quebrem os ovos
e se façam omeletes


Kuruma’tei-me

Dito isso, vou contar para vocês um pouco da minha jornada até aqui. Tudo começou quando recebi de minha mãe um livro de poemas escrito pela minha bisa Auta, poetisa fluminense que fez parte da Academia de Letras de Barra Mansa. Infelizmente não a conheci em vida, mas ao terminar de ler o seu único livro, senti como se ali se abrisse o mundo da produção literária para mim, ao mesmo tempo em que se fechava a porta do que chamo de prisão poética: uma vez que se faz a conexão de uma mente, um coração e a poesia, nos tornamos servos de nosso próprio ofício. [Texto de eduardo Maciel]

Gente, tá chegando uma voz nova na Revista Kuruma’tá. Assim sendo a gente dá as melhores boas-vindas ao caríssimo Eduardo Maciel, poeta, artista múltiplo, que se encantou da nossa revista e agora, como encantado, vai escrever pra gente ler muita coisa boa aqui nas páginas eletroeletrônicas da Kuruma’tá!

Eduardo, seja muito bem-vindo! — Toinho Castro (Editor)

Texto de Eduardo Maciel


Verbo pronominal conjugado na primeira pessoa e no passado. Usado para indicar ações relativas ao sujeito que as pratica. No caso, eu sendo o sujeito. Eu e meu pronome oblíquo, me apresentando como o mais novo colaborador da revista. Muito prazer!

Antes de falar sobre mim um pouquinho, preciso dizer que é com imenso contentamento que inicio minha caminhada colaborando com a Kuruma’tá. Conheci a revista através de uma querida que cuida das minhas obras com relação à imprensa, a Andrea Drummond. E a partir daí venho devorando (quase) todos os textos publicados.

E caso me permitam, gostaria de afetuosamente expressar o quanto me sinto agradecido pelo convite do Toinho Castro, que, além de ter escrito uma das críticas mais lindas sobre minha obra poética já lançada, me permitiu adentrar a boca do peixe.

Dito isso, vou contar para vocês um pouco da minha jornada até aqui. Tudo começou quando recebi de minha mãe um livro de poemas escrito pela minha bisa Auta, poetisa fluminense que fez parte da Academia de Letras de Barra Mansa. Infelizmente não a conheci em vida, mas ao terminar de ler o seu único livro, senti como se ali se abrisse o mundo da produção literária para mim, ao mesmo tempo em que se fechava a porta do que chamo de prisão poética: uma vez que se faz a conexão de uma mente, um coração e a poesia, nos tornamos servos de nosso próprio ofício.

Sim, independe até mesmo da minha vontade. Eu simplesmente PRECISO escrever. Da necessidade surgiu a inclinação pelos sonetos, muito embora eu não me resuma a eles. Mas então por que sonetos? Simples. Porque amo o desafio de encaixar pathos, emocão, sentimentos e percepções em métrica e rima fixadas em sua forma.

Descobri que desde o século XIII existiam dezenove tipos de sonetos catalogados, e pelo que pude pesquisar, não achei ninguém escrevendo em todos esses tipos no planeta! Se encontrarem alguém por favor me digam… Enfim… A essa altura, a prisão poética já não tinha ares de inclinação, mas sim de missão.

Foi então que decidi nadar contra a correnteza da poesia contemporânea e me colocar a serviço dos sonetos.

Tanto e com tanta vontade que criei eu mesmo um tipo de soneto para se somar com os demais e trazer para vinte os tipos em catálogo. Ainda não sei o resultado disso, porque o “soneto carioca” será inaugurado no meu próximo livro, a ser lançado ainda nesse semestre. Por outro lado, a arte não flerta comigo apenas na literatura. É por todo lado que ela se infiltra, e quanto mais me toma mais me entrego, com a humildade de saber que não sou eu a segurar a rédea, e sim o oposto. A arte que me monta, sem sela sem nada, o fazendo quando quer. E eu confesso: adoro.

Meu projeto envolvendo os sonetos será uma cavalgada em sete temporadas, cada uma com cinquenta episódios. Cada soneto um episódio, e cada temporada, uma oportunidade de fazer com que os sonetos conversem com outras linguagens da arte. Já temos duas temporadas nas prateleiras, que alegria! Em outro momento conto pra vocês sobre esse projeto com mais detalhe.
Por hora me despeço: me chamo Eduardo Maciel, escravo da poesia e da prosa, mas também da música, da fotografia, das artes cênicas e de tudo que possa ser invadido pelas águas fluidas da cultura e da arte.

Kuruma’tando-me orgulhosamente.


Aqueles que foram vistos dançando

Naquela noite, demorou os três acordes da última música para que os dois fixassem os olhares de uma maneira que, sabiam, seria única. Fagulhas, centelhas, as agruras das velhas canções de amor. Estavam no mesmo lugar, na mesma hora, no mesmo compasso. No entanto, malogravam em cruzar os passos. Seguiam diagramas mentais, nas quais marcas de sapato indicavam direções. [Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota


Naquela noite, demorou os três acordes da última música para que os dois fixassem os olhares de uma maneira que, sabiam, seria única. Fagulhas, centelhas, as agruras das velhas canções de amor. Estavam no mesmo lugar, na mesma hora, no mesmo compasso. No entanto, malogravam em cruzar os passos. Seguiam diagramas mentais, nas quais marcas de sapato indicavam direções. Dançarinos solitários, completamente descompassados por uma ordinária perda de tempo. Ele num canto, ela no outro, ambos descontentes. Enquanto cruzavam o salão, em plena rota de colisão, fez-se silêncio.

O baile findou-se em um frêmito.

Ainda assim, sem música, dançavam, os dois. Cada qual desejando um recital inteiro. Os olhos também se mexiam, querendo ver de perto uns os outros. Bailavam uma sinfonia inteira que mal cabia na partitura de suas vidas, uma composição com abertura e elegia. Os pés exasperados, as pernas soltas, os quadris exagerados e quase trôpegos para chegar ao outro o mais breve possível.

Quando ele estendeu o braço para amparar a cintura dela, foi surpreendido por um rodopio que ganhou velocidade e, em frações de suspiros, a afastou para outro flanco. Ela virou a cabeça antes do dorso para enxergá-lo melhor. De novo, os olhares à procura. Evoluiu desairosamente em meio ao silêncio e, quando seus ombros esperavam ser laçados, os joelhos dele comandaram uma mudança de direção.

Agora, além da música, a luz começava a desbotar as paredes. Tateavam muros invisíveis com cuidado para não deixar a dança se apagar de vez. A coreografia da vida mantinha os corpos abertos ao contato, com as pontas dos dedos feito antenas para captar a presença do outro.

E quando se cruzaram novamente, puderam sentir as respirações se embaralhando despudoradamente. Os dois cerebelos comandaram uma descarga pelos corpos, dos pés aos cabelos. Mas ninguém foi testemunha de que se tocaram – apenas com a ponta das unhas. Eles ainda dançavam no escuro, às escuras, mas não cessavam a procura. Como dançarinos incansáveis, mantinham uma donairosa postura.

É que esse tipo de dança não se encontra transcrito em partitura. Nenhuma.
“E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música.” (Friedrich Nietzsche)

Foto: The British Film Institute

Loucura e magia no Sertão do Cariri com Júnior Cordeiro

Uma vez eu sentei no batente lá de casa, de noite. Olhei para o céu e senti uma vontade de morrer, só para saber como é do outro lado da porta da Vida. Nesse tempo, muito jovem ainda, imaginava que a vida era um sonho e cada um sonhava a sua. Logo, a Vida seria uma biblioteca de sonhos, um apanhado onírico, uma sinfonia de onde, a qualquer momento, seríamos resgatados. E esse resgate deveria ser, naquele tempo, para mim, a Morte, o despertar. [Texto de Aderaldo Luciano}

Texto de Aderaldo Luciano


Uma vez eu sentei no batente lá de casa, de noite. Olhei para o céu e senti uma vontade de morrer, só para saber como é do outro lado da porta da Vida. Nesse tempo, muito jovem ainda, imaginava que a vida era um sonho e cada um sonhava a sua. Logo, a Vida seria uma biblioteca de sonhos, um apanhado onírico, uma sinfonia de onde, a qualquer momento, seríamos resgatados. E esse resgate deveria ser, naquele tempo, para mim, a Morte, o despertar.

Tempos depois, estava num ônibus, também de noite, indo de Caruaru, no Pernambuco, para Propriá, no Sergipe. À meia-noite, paramos em São Miguel dos Campos, Alagoas. Um sujeito aproximou-se e ofereceu-me uma aliança de ouro. Preço baixo: queria voltar para sua terra, no Sertão. A aliança era falsa e o sujeito, um trambiqueiro. Mas o Sertão, ele pronunciou essa palavra com tanta ternura que, a partir daquele encontro, passei a imaginar a Vida como um naco de Sertão, sendo um outro naco, a Morte. Tudo Sertão. Tudo Vida.

Alguns anos depois, em 1988, acordei em uma cama do Hospital Pinel, no Rio de Janeiro. Estava amarrado em cruz na cama de metal. Minha calça branca estava molhada de urina. Meus braços e o tórax tatuados de hematomas. Na enfermaria, comigo, três ou quatro outros, conversando naturalmente, rindo. E eu amarrado. A Vida, eu pensei, é uma loucura só. A Morte, o mundo lá fora, com seus milhões de carros e holofotes.

E agora, ouvindo atentamente as 15 faixas de um disco de Júnior Cordeiro, senti-me aveludado, elevado pelos galopes, toadas, xotes, canções do galego das terras de São João do Cariri. As pradarias celestiais são certamente bolsões de Sonhos, Sertão e Loucura. Esses metais, sopros, pandeiros, violas, violões, acordeons, assim mesmo no plural, são a trilha sonora da viagem eternal. E essa voz estranha, britadeira emplumada, serra elétrica espumante, choveu no meu cérebro bastardo.

Belo coreto sonoro, de onde provém a máxima “a força é desconhecida e é divina…” Citações diluídas, entre Kafka, Pinto e Marinho, Saramago, Machado, Veríssimo, o beato Zé Lourenço, Marquez, Foucault, Freud, Calligaris, o Capitão-Mor e o “Véi”. Não o escute desavisado. Os arranjos são delírios, as quebras rítmicas estão presentes com constância, uma hora galope, outra coco, uma reggae logo mais xote. Ê baião, jazz. E rock. Os ecos, Maniqué!

Outro disco do “galego” traz uma sequência interiorana que é a presença do mágico, do maravilhoso, da magia negra, das artes demoniais. Um disco temático pensado e produzido como um todo. Nada nele é aleatório, nada é emenda. Tudo é um sistema musical e poético, profundo e trabalhado de tal maneira que não há furo ou lacuna. Aliás me pergunto porque um artista desse talento e técnica, pesquisador e ensaísta musical encontra pouco espaço nas manifestações e eventos artísticos paraibanos. Procuro e não encontro os motivos. Será porque lhe falta moldura, figurino? Não pode ser. Será que é porque lhe registram pouca importância? Não sei bem, mas sei que o Capa Preta é um exemplo de trabalho, engenho e arte, fé e muita luta.



Pertinho

O som dos pássaros na ponta da varanda. Uma cama que eu tenho saudade. Música bonita pra dormir. Luz lilás para dormir. Ou azul. Eu me sirvo de água – enquanto ainda tem para comprar – e me deito. Eu me deito como se o meu lençol fosse o teu. Como se o meu travesseiro fosse, pra você, o meu colo. Imito gestos seus – sem querer – para te ter em mim. [Texto de Caru]

Texto de CARU


O som dos pássaros na ponta da varanda. Uma cama que eu tenho saudade. Música bonita pra dormir. Luz lilás para dormir. Ou azul. Eu me sirvo de água – enquanto ainda tem para comprar – e me deito. Eu me deito como se o meu lençol fosse o teu. Como se o meu travesseiro fosse, pra você, o meu colo. Imito gestos seus – sem querer – para te ter em mim. Pra te ter perto. Coisas que estão virando nossas. Só se passaram 24 horas. E esse desespero de ter o que a gente gosta, perto. Dia após dia. Ter a pele que a gente quer, perto. O cheiro que a gente quer, perto. Ouvir o que a gente quer ouvir, bem perto do ouvido. Com o lábio que a gente quer ter (perto) roçando na bordinha da nossa orelha. É “só” bonito. Coisas que esse mundo de agora “só” quer afastar. Enquanto escolho arrastar meu braço em suas costas. E afastar somente a distância. Tudo por um dia. Pertinho. Sem pressa. Aproveito os 12 segundos do meu olhar, que fica parado, catando 2 cílios contados, que caíram no seu rosto. A pressa, estacionei. O andamento da música que eu freio pra gente tocar junto. A respiração só é rápida na nossa cama. E quando estamos pertinho


Experiência Copacabana #2

Texto de Experiência Copacabana


Às vezes, na correria do dia a dia, acabamos não dando o verdadeiro valor ao que está ao nosso redor. Não elogiamos ninguém que passa pelo nosso dia. Hoje eu parei e resolvi retribuir um pouco dessa energia boa que nos cerca. Enchi de elogios a máquina de autoatendimento do mercado aqui perto de casa. Agradeci por ela não me julgar porque estou bebendo um pouco demais e me alimentando pessimamente. Afaguei com carinho sua tela de touch screen, que por sinal é muito mais sensível e precisa que a do caixa eletrônico. Essa androide fascinante, além de ter um dos melhores leitores óticos de código de barras que eu já vi, também pesa precisamente as frutas e os vegetais. Ela faz um barulhinho delicioso quando você digita algo nela. Esses dias ela fez uma gentileza para mim. Ela fez questão de não me cobrar pela sexta cerveja que eu levei. Eu já to craque no movimento de fazer ela ler o código de barras da long neck. Depois de bater cinco ela simplesmente ignorou a sexta e me fez essa merecida cortesia. Agradeci e na hora de sair disse para o gerente que ela merecia o melhor que existe em matéria de manutenção e atualizações de softwares, para que ela nunca se torne obsoleta. Estou agora degustando minha cervejinha brinde e pensando em mundo dominado por máquinas. Que tipo de papel a gentil máquina de autoatendimento teria nessa sociedade? Espero que um papel de imenso destaque.

Sempre que eu penso em Copacabana no futuro eu não consigo ver nada de bom pro nosso bairro. Esses dias eu tenho feito uma dieta e toda hora que eu tenho fome, eu vou nos grupos dos bairros e fico lendo os comentários, até que eu esbarro com algum que de tão verminoso, me tira o apetite na hora. Um deles foi uma sugestão de uma moradora. Eu queria que ela me explicasse a logística por trás dessa ideia, mas tudo bem. Eu sei que ela não pensou nisso. Ela apenas quer. Basicamente assim:

Dona Stephany Brito – A prefeitura tinha que fechar e controlar todas as entradas de Copacabana e revistar as pessoas que forem entrando. Revistar todo mundo. Só assim poderá ter eventos populares no nosso bairro.

Com essa eu ri e aí acabou me dando fome. Fiquei imaginando essa logística no Ano Novo. Lanchas patrulhando a costa. Morros cercados. Aí nas entradas de acesso 20 mil funcionários e a polícia revistando as pessoas uma por uma. Cachorros policiais nervosos e armamento pesado. Maior fetiche da classe média copacabanense. Copacabana sitiada. Com entrada controlada. Putas só depois da meia noite. Áreas divididas. Favela evangelizada. Catraca nas praias. Ingressinho para entrar no Leme, perto do forte e no Arpoador. Áreas vip na praia! Isso passa sem dúvida na reunião da Associação de Moradores do Bairro como uma pauta pertinente. Ainda estão agitados essa semana e cheios e razão porque teve aquele corre-corre aqui no bloco. Enquanto isso estão tomando banho de água com merda e nadando na água com merda. Pagando caro na água mineral. Mas isso não faz tanta diferença assim para classe média. Por enquanto…

Leia mais na página Experiência Copacabana!