Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa: Buraco Negro
O pior não é a perda de memória, você pensa. O pior é você não esquecer que está começando a esquecer as coisas. A consciência da perda é o que mais incomoda. Mas os médicos já desenganaram você: não tem jeito, esse tipo de doença degenerativa funciona assim. Chega um ponto em que você só conseguirá se lembrar de uma coisa: que não lembra mais de nada. [Texto de Fábio fernandes]
O que era mesmo que você tinha que fazer no banheiro?
Os olhos percorrem o armário escancarado atrás do espelho. Então você vê a caixinha de Tranxilene e lembra. Engole o comprimido em seco.
O pior não é a perda de memória, você pensa. O pior é você não esquecer que está começando a esquecer as coisas. A consciência da perda é o que mais incomoda. Mas os médicos já desenganaram você: não tem jeito, esse tipo de doença degenerativa funciona assim. Chega um ponto em que você só conseguirá se lembrar de uma coisa: que não lembra mais de nada. E você já está tão anestesiado pelos remédios que nem consegue mais ficar triste com isso. Mas o que era mesmo que você tinha que fazer no banheiro?
Você vê a caixinha de Tranxilene e lembra. Engole o comprimido em seco e vai saindo. Anda até a cozinha e vê as horas no relógio do lado do armário da louça. Você não tinha que ir ao banheiro?
Tilia L.
Lucía tinha acabado de descobrir, ao ir num enterro, o primeiro naquela terra, que a morte é o nascimento ao contrário. Não o contrário do nascimento. E que se viemos do nada e nos transformamos em matéria, o nada não chega a ser nada, mas alguma coisa. Mesmo raciocínio com a morte, que dizem nos levar ao nada que, no entanto, também é a mesma coisa de antes do nascimento, ou seja, alguma coisa. Procurava explicações pra tudo embora quase nunca as encontrasse. [Texto de Adriana Nolasco]
Lucía precisava de um chá. Precisava de muitas coisas, embora soubesse que a simplicidade era a chave do seu portão. Porém, sabia, não se sabe como, que simples não queria dizer fácil. Queria dizer, isso sim, tantas coisas. Ela também. Que na verdade gostava de café, mas a bebida tinha sido proibida, ao menos por um tempo (que não se esgota) por causa da gastrite que ganhou quando começou a sentir medo. Nesse período também não podia beber álcool, mas podia sim tomar pílulas de diferentes tamanhos e cores que tinham a função de domar seus neurotransmissores, que insistiam em transmitir sem parar, a despeito de tudo.
Lucía tinha acabado de descobrir, ao ir num enterro, o primeiro naquela terra, que a morte é o nascimento ao contrário. Não o contrário do nascimento. E que se viemos do nada e nos transformamos em matéria, o nada não chega a ser nada, mas alguma coisa. Mesmo raciocínio com a morte, que dizem nos levar ao nada que, no entanto, também é a mesma coisa de antes do nascimento, ou seja, alguma coisa. Procurava explicações pra tudo embora quase nunca as encontrasse. Nem mesmo nos dicionários e livros que lia com muita atenção, principalmente aos errros ortográficos, considerados um tesouro em meio a tantas regras e certezas. Amava os erros, assim como o rótulo das coisas.
Tilia L. é um génerobotânico pertencente à famíliaMalvaceae. A ele pertencem as árvores de nome comum tília. É típica de regiões de clima temperado, com estações do ano bem demarcadas. Para os germânicos, as tílias eram árvores sagradas com poderes mágicos que protegiam os guerreiros.
Pela sua leveza e outras características, a madeira de tília (em inglês: basswood) é utilizada na construção de corpos de guitarras maciças, como alguns modelos da Fender fabricados no Japão, e na construção de baterias. A maior tília existente em Portugal (em Paredes) tem 22 metros de altura e 24 metros de diâmetro de copa e, segundo o seu proprietário a colheita da sua flor ocupa 20 homens durante 3 dias.
Visitando o Recife, bebendo cerveja no Bar Frontal, encontro com o amigo Afonso. Amigo de longa data e muitas conversas. Acabamos, eu e Afonso, conversando sobre a Kuruma’tá e o desafiei, por fim, a escrever para a revista. Do celular ele sacou esse texto que agora publicamos aqui. Ali mesmo, na mesa do bar, levantamos umas fotos no Instagram para ilustrar o conto/crônica. E é assim que a Kuruma’tá funciona, de uma hora pra outra, no ímpeto de fazer algo e abraçar os amigos!
Texto de José Afonso Silva Junior
Visitando o Recife, bebendo cerveja no Bar Frontal, encontro com o amigo Afonso. Amigo de longa data e muitas conversas. Acabamos, eu e Afonso, conversando sobre a Kuruma’tá e o desafiei, por fim, a escrever para a revista. Do celular ele sacou esse texto que agora publicamos aqui. Ali mesmo, na mesa do bar, levantamos umas fotos no Instagram para ilustrar o conto/crônica. E é assim que a Kuruma’tá funciona, de uma hora pra outra, no ímpeto de fazer algo e abraçar os amigos! Seja bem-vindo, Afonso, à Kuruma’tá!
Toinho Castro [Editor]
Tobias chegou em casa. Fim de tarde de uma sexta feira. Suando frio. Trânsito horrível. Emprego horrível. Salário horrível. Semana horrível. Brigou com a namorada. Levou bronca do chefe. Abre a caixa do correio. Cobranças e mala direta. No email, só spam. Redes sociais regurgitando ódios. Toma um banho frio. Analisa as possibilidades dadas pelo horrível que o órbita. Acende um cigarro. Pensa.
Olha o celular. Pensa em ligar para alguém. Mas talvez ninguém o suporte. Poupa os amigos de si mesmo. De sua presença. De sua voz. Abre a geladeira. A semana foi horrível. Não fez supermercado. Só tem sobras de almoço. Água. Tem ovo. Não tem pão. Abre a carteira. 20 reais o olham. O que fazer com isso. Procura uma camisa em meio a cama desarrumada. Acha uma usada, mas que aguenta. A veste, atravessa a sala catando as sandálias Havaianas. Sai de casa. Aperta o botão do elevador. E… Falta luz.
É uma boa noite para voltar a beber. Mas não tem cerveja que queira conversar. Tá escuro. Tateia e acha o buraco da chave. Retoma a sala, o quarto. Devolve a camisa usada sobre a cama. Escuta. Longe reverbera um som. Acende um cigarro. Anda pela sala iluminada pelo isqueiro até a varanda. Acha o celular. Busca nomes. Acha o de Leda. Sarro da escola que há muito não vê. Liga. Da caixa de voz. Liga para Marlene. Não atende. Marlene também levou esporro do chefe. Talvez um desabafo, uma solidariedade ou apenas uma punheta. Sabe lá. Marlene não atende.
Da varanda vê um grupo de garotos e garotas. Improvisam som de maracatu em meio a noite. Recife tem dessas coisas. Olha. Demora. Olha de novo. O cigarro quase no fim.
Sexta-feira é fim. À noite é fim. No meio, tem Tobias. Tem o apartamento vazio. Tem a falta de luz. São 16 andares até o térreo. São só 20 reais. Descer é mole. Subir cobrará os anos de consumo contumaz de Marlboro. Avalia. Não desce. Tem falta de elevador. Ter falta é fim. O que sobra?
Começa a chover, fininho. A luz dos prédios e ruas chegam ao seu rosto. Driblam a atmosfera úmida e rasgada por pingos. Tateia a carteira. Acabaram os cigarros.
Chove, falta luz, elevador, televisão. Falta cigarro. Falta voz. Tem longe um som de gente se divertindo. Tobias se sente muito só. E esta com insônia. Amanhã talvez seja melhor.
Violão Orixá – Homenagem a João de Aquino
Amanhã, 22 de novembro, é aniversário da nossa querida demais cidade Niterói! São 446 anos sendo banhada pela Baía de Guanabara e pelo Oceano Atlântico, 446 de muita história, cultura, encontros e futuros. E dentro do ciclo de comemorações teremos, amanhã mesmo, esse espetáculo inédito, necessário, que é Violão Orixá, uma justa homenagem ao músico João de Aquino! [Dica da Kurtuma’tá]
João de Aquino – Foto: Cris Vicente Fotografia
Amanhã, 22 de novembro, é aniversário da nossa querida demais cidade Niterói! São 446 anos sendo banhada pela Baía de Guanabara e pelo Oceano Atlântico, 446 de muita história, cultura, encontros e futuros. E dentro do ciclo de comemorações teremos, amanhã mesmo, esse espetáculo inédito, necessário, que é Violão Orixá, uma justa homenagem ao músico João de Aquino!
Com participação confirmada de Monarco, Áurea Martins, Biro e Marcelle Motta e do percussionista Esguleba, a festa é, nas palavras de Gabriel de Aquino, filho de João e diretor musical do espetáculo,”uma celebração à vida e obra de um grande mestre que participou ativamente da história da música brasileira e tem um valor inestimável para a Cultura Nacional. Violão Orixá é uma celebração à natureza e suas particularidades, às forças que movem ventos, marés e principalmente à música!”.
Neto de maestro, primo de Baden Powell, o premiado João de Aquino tem um daqueles caminhos de brilhantismo na música brasileira, junto à outros mestres ele vem moldando a sonoridade do que há de melhor chegando no nossos ouvidos, coisas perenes, né?! Músico, arranjador, produtor… João é ponte entre conectando tradição e modernidade, conectando talentos e deixando sua assinatura no trabalho de muita gente boa!
Áurea Martins – Foto de Sergio Caddah
Monarco
Fica aqui essa dica imperdível da Kuruma’tá, que nos chegou via a querida Belmira Comunicação! Se organize aí na sua agenda e vá amanhã prestigiar o aniversário de Niterói e o nosso grande João de Aquino, com seu Violão Orixá, na novíssima Sala Nelson Pereira dos Santos, do Reserva Cultural!
VIOLÃO ORIXÁ – HOMENAGEM AO MESTRE JOÃO DE AQUINO
QUANDO: sexta-feira, 22 de novembro, às 20h ONDE: Sala Nelson Pereira dos Santos – Av. Visconde do Rio Branco, 880 , em São Domingos, Niterói QUANTO: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia-entrada) Confira o evento no Facebook!
Objetos transnetunianos podem ser vistos a corações nus
Quando acontecia o momento no qual as órbitas dos dois planetas se encontravam, vencendo a distância, o sistema todo entrava em festa. Ali, as características de cada um não eram mais diferenças, eram apenas arestas, que eram aparadas a cada translação. Tudo fazia sentido e, assim, ocorria naturalmente a lei da atração. Havia tanto movimento que a estrela, lá no meio, brilhava. Cada vez mais forte, feito ouro. Era possível ver no céu de um o brilho do outro. [Texto de Eduardo frota]
Eram dois planetas que orbitavam a mesma estrela, chamada MU-Zk – uma gigante amarela que, apesar de incandescente, era admiravelmente bela. E-41 e B-38 tinham as atmosferas bem parecidas, mas algumas características acentuadamente distintas.
A gravidade era uma delas. No planeta E-41 ela era tão imperceptível, que seus habitantes quase flutuavam, mais parecendo balões de hélio. Meio de transporte preferencial? Dirigível. Em B-38 não era que as pessoas não flutuassem, mas permaneciam mais tempo em contato com o solo. Meio de transporte? Helicóptero.
B-38 era um planeta em que fazia mais frio. Uma das indústrias que mais florescia por lá era a de edredons e cobertores, bem como a de chocolate quente e aquecedores. Em E-41 o calor era praticamente sentido a todo o instante, o que irritava, a longo prazo, todos os seus habitantes.
A gastronomia era o ponto alto de B-38. Os melhores restaurantes daquele sistema estelar, quiçá daquela galáxia (não podemos ter certeza porque não há estudos que apontem outros planetas habitáveis naquelas regiões longínquas), estavam lá. E-41 tinha mais livrarias, muitas delas, com estantes abarrotadas de livros de poesia.
Quando acontecia o momento no qual as órbitas dos dois planetas se encontravam, vencendo a distância, o sistema todo entrava em festa. Ali, as características de cada um não eram mais diferenças, eram apenas arestas, que eram aparadas a cada translação. Tudo fazia sentido e, assim, ocorria naturalmente a lei da atração. Havia tanto movimento que a estrela, lá no meio, brilhava. Cada vez mais forte, feito ouro. Era possível ver no céu de um o brilho do outro.
E quando se distanciavam novamente, os habitantes de B-38 deixavam marcas lindas e indeléveis nos habitantes de E-41 – e vice-versa.
Nos observatórios, calculavam os especialistas que era matematicamente provável a possibilidade dos núcleos dos dois planetas, numa dança cósmica que poderia ser vista com o auxílio de lunetas, se fundirem. Quanto tempo isso iria levar? Os astrônomos ainda não sabem dizer.
Foto: Maria Mitchell (second from left) and her students measure the Sun’s rotation from the movement of sunspots.Credit: ID 08.09.05, Archives & Special Coll., Vassar College Lib. Link > https://www.nature.com/articles/d41586-018-05458-6
“A música é meu Quilombo” | A vida raspando com Ludi Um
Ludi Um é aquela pessoa que muito admiro, tanto pelo seu trabalho artístico como também pela sua postura diante do mundo. Um sujeito aguerrido, com muita clareza em sua luta. Conheci Ludi na Universidade das Quebradas, uma iniciativa de rara beleza, capaz de agregar as mais sinceras vozes da periferia para mostrar que o centro está em toda parte, que talento, desejo e potência estão lá, na Maré, no Acari, no Dendê… e lá estava Ludi, nascido no Morro do Dendê, participando desse espaço de trocas com sagacidade. [Texto e entrevista Toinho Castro]
Ludi Um é aquela pessoa que muito admiro, tanto pelo seu trabalho artístico como também pela sua postura diante do mundo. Um sujeito aguerrido, com muita clareza em sua luta. Conheci Ludi na Universidade das Quebradas, uma iniciativa de rara beleza, capaz de agregar as mais sinceras vozes da periferia para mostrar que o centro está em toda parte, que talento, desejo e potência estão lá, na Maré, no Acari, no Dendê… e lá estava Ludi, nascido no Morro do Dendê, participando desse espaço de trocas com sagacidade.
Fomos aos poucos, sobretudo pela web, travando o que se chama de amizade e fiquei de olho nele, aguardando o lampejo de suas músicas. Recentemente vi que ele estava com um single apontando na esquina dos serviços de streaming e me liguei na expectativa. “Raspando” foi lançada na semana passada e veio carregada da poesia do amigo, que já me era familiar. Chegou tinindo, certeira em cada verso, traçando sem medo a vida desse cara de voz rouca e muita vontade política e poética.
Tive então a oportunidade de sentar com esse mestre lá na Casa Naara, no centro do Rio, espaço acolhedor e necessário numa cidade cada vez mais fechada e dividida e machucada. Conversamos e escutei mais do que falei, sobre os caminhos de Raspando e do disco que ela anuncia, um trabalho em processo de criação que logo mais despontará na atenção. A infância, a música, o aprendizado da poesia e da palavra e os muitos caminhos que desaguam nessa presença que Ludi, abraçado aos seus Orixás.
Agora vamos escutar essa conversa boa, devidamente gravada, enquanto esperamos ansiosos o disco Xangô|Oxum, que não tarda!
Não, o cenário não é desértico. É preciso procurar, ter curiosidade e parar de dizer que o mundo acabou, que a arte acabou, que o diálogo acabou. Trabalho de formiguinha, olhos e ouvidos abertos ao novo, que tá surgindo o tempo todo. Aí, quando a gente descobre uma voz, um olhar, certo gesto, que nos encanta, comove ou nos tira do sério, a gente precisa ter essa generosidade de compartilhar, de jogar uma luz boa em cima. Iluminar mesmo e trazer mais gente pra junto. [Dicade Toinho Castro]
Não, o cenário não é desértico. É preciso procurar, ter curiosidade e parar de dizer que o mundo acabou, que a arte acabou, que o diálogo acabou. Trabalho de formiguinha, olhos e ouvidos abertos ao novo, que tá surgindo o tempo todo. Aí, quando a gente descobre uma voz, um olhar, certo gesto, que nos encanta, comove ou nos tira do sério, a gente precisa ter essa generosidade de compartilhar, de jogar uma luz boa em cima. Iluminar mesmo e trazer mais gente pra junto.
Há tempos que me encantei com a escritora e ilustradora Aline Valek. Esse encantamento nasceu com um livro que ela escreveu e que descobri ao acaso das marés. Dei com esse título enquanto vasculhava a web em busca de novas leituras: As águas-vivas não sabem de si. Que bonito, né? Havia ali um chamamento… que sabia eu de mim? Prendi a respiração e mergulhei na história de Corina, mergulhadora profissional que participa do projeto de um laboratório submarino, nas profundidades de um mundo silencioso e escuro. Escrevi sobre o livro, aqui mesmo, na Kuruma’tá, tempos atrás: Nossa noção de tempo, espaço e do que é vida, do que é estar vivo, são desafiadas numa narrativa fluida e bem construída. Ir fundo para Corina não é simplesmente uma profissão mas uma maneira de enfrentar a si mesma, suas limitações e ansiedades. E Corina se move ainda atrelada a uma trama sobre a busca da vida, da inteligência… na verdade de uma outra inteligência na vertigem dos abismos marinhos. Haverá caminho? Haverá volta? Ficou com curiosidade? Essa é a ideia! Não perca tempo e mergulhe também nesse livro lindo.
Mas o que eu quero mesmo falar sobre outra descoberta os fazeres da Aline Valek: O Podcast Bobagens Imperdíveis, que ela está produzindo e apresentando, desde maio desse ano. Os episódios, que vão ao ar a cada 15 dias, são histórias curtas sobre assuntos interessantes, como diz a própria Aline. Trata-se de explorar o mundo; falar de ciência, arte, comunicação; conversar com pessoas inspiradoras; mergulhar no ser humano. Que convite fantástico! Eu aceito e convido você também.
O podcast conta, até agora, com 16 episódios, que versam sobre os mais diversos temas, como música, literatura, fotografia, culinária… com convidados que alimentam conversas muito boas, com uma leveza instigante e inteligência. Pô, é dar play e não desgrudar. E se encantar.
Fica aqui essa dica Kuruma’tá, fazendo conexão, via Aline Valek, comm muitos assuntos, muitos temos que nos enriquecem e fazem a gente pensar, coisa cada vez mais necessária nos dias atuais. Uma dica que nos diz que temos gente boa, temos boas vozes e espaço iluminados pela vontade de fazer, de reunir e de espalhar o que tem de melhor na nossa cultura, das nossas narrativas e encontros.
PS. Para a minha surpresa um dos episódios, Bobagens Imperdíveis #12: De Palmas para a Rússia, tem a participação de uma amigo muito querido, o caríssismo Chrysippo Aguiar, falando sobre sua experiência de estudar medicina na Rússia!
Quando penso no Recife
Esse poema, com alguma modificação, foi publicado no Lendário Livro, coletânea de poesia reunindo trabalhos meus e dessa turma de poetas: Aderaldo Luciano, Braulio Tavares, Nonato Gurgel, Numa Ciro e Otto Ferreira. É um poema que nasceu da minha agonia com a verticalização acirrada do Recife, do seu céu sangrado de arranha-céus. Mas onde resiste o Recife? resistirá? O que resta, que réstia da cidade onde cresci? Não é possível deter as transformações do mundo, mas não deveriam ser essas transformações uma força destrutiva. Recolho em versos minha indignação e espero que reverbere, para que reste um Recife digno do Capibaribe. [Poema de Toinho Castro]
Esse poema, com alguma modificação, foi publicado no Lendário Livro (Maio de 2017 – Editora Rubra), coletânea de poesia reunindo trabalhos meus e dessa turma de poetas: Aderaldo Luciano, Braulio Tavares, Nonato Gurgel, Numa Ciro e Otto Ferreira. É um poema que nasceu da minha agonia com a verticalização acirrada do Recife, do seu céu sangrado de arranha-céus.
Mas onde resiste o Recife? resistirá? O que resta, que réstia da cidade onde cresci? Bem sabemos que não é possível deter as transformações do mundo, mas não deveriam ser essas transformações uma força destrutiva. Recolho em versos minha indignação e espero que minha voz reverbere, para que reste um Recife digno do Capibaribe e seus cais.
Penso no Recife e já não há Recife. Mil anos se foram, mil anos derrubados; chão de assoalho, cobogó quebrado.
Recife de ninguém, quarenta andares de ninguém.
Pra quê tanto?
Recife se foi, sem horizonte; restou nem ponte. Só prédios pontiagudos, desalmados e edifícios.
Rio sem margem, tudo à margem e no centro o concreto, revestido disso e daquilo. Reboco e mal acabamento. E garagens, para os carros para os homens, de carro.
Mas em becos se esconde, Recife se esconde, de fininho, disfarçado, pés molhados, do rio.
Que rio?
Que se foi o rio, já foi. Tudo aterro, tudo enterro, cidade cheia, de lápides enormes, imensas, frágeis lápides de cidade morta, soterrada, enterrada, sepultada, sem memória, sem lembrança.
Somente rua, nem mesmo rua. Aurora sem aurora, cais sem cais e nunca, nunca mais.
Baú do Braulio: Kurt Vonnegut Jr.
Vonnegut tinha uma relação conflituosa com a literatura de ficção científica, cujos temas ele utilizava, mas a cuja comunidade afirmava não pertencer, talvez com medo de ser discriminado. Para uma crítica literária pretensiosa e desinformada, como é grande parte da norte-americana, o simples fato de alguém escrever dentro de determinado gênero cancela por antecipação qualquer possibilidade de boa literatura. [Texto de Braulio Tavares]
Em 11 de novembro de 1922, ano do centenário da independência do Brasil, ano da Semana de Arte Moderna, nascia o escritor americano Kurt Vonnegut Jr., autor de livros super importantes da ficção científica e da literatura contemporânea americana. Se vivo, Kurt faria hoje 97 anos. Logo mais é seu centenário e a gente vai comemorar até lá lendo mais dos seus livros.
Por ocasião da data mergulhamos no Baú do Braulio, o Mundo Fantasmo, e resgatamos esse texto que ele escreveu quando Kurt morreu, em abril de 2007.
O Baú do Braulio é uma seleção, ou como se diz hoje, uma curadoria de artigos que o poeta Braulio Tavares vem publicando ao longo dos anos no seu blog, o Mundo Fantasmo.
Li não sei onde que idade madura é quando começam a morrer os nossos ídolos, e velhice é quando começam a morrer nossos colegas de faculdade.
Ao que parece ainda estou no primeiro estágio. Morreu aos 84 anos Kurt Vonnegut Jr., escritor para quem o fato de estar vivo era uma mera casualidade, e que sempre encarou com desconfiança o planeta Terra, a humanidade que o habita e ele próprio.
Vonnegut tinha uma relação conflituosa com a literatura de ficção científica, cujos temas ele utilizava, mas a cuja comunidade afirmava não pertencer, talvez com medo de ser discriminado. Para uma crítica literária pretensiosa e desinformada, como é grande parte da norte-americana, o simples fato de alguém escrever dentro de determinado gênero cancela por antecipação qualquer possibilidade de boa literatura.
O grande clássico de ficção científica de Vonnegut, na opinião da crítica, é As Sereias de Titan. Pelo meu gosto pessoal, seu melhor livro é Matadouro 5, em que ele mistura o bombardeio americano a Dresden, na II Guerra Mundial (ao qual ele escapou, pois na época estava prisioneiro dos alemães nessa cidade), com as aventuras de Billy Pilgrim, um rapaz que é abduzido por extraterrestres e passa a viajar aleatoriamente no Tempo, fazendo um ping-pong caótico entre Passado, Presente e Futuro.
Vonnegut era sardônico, amargo, irascível, e, como muitos indivíduos portadores destes traços, dado a rasgos melodramáticos e sentimentais. Parecia-se muito (e não só fisicamente) com Mark Twain.
Seus livros de maior sucesso são muitos: Almoço dos Campeões, Pastelão, ou Solitário Nunca Mais, Galápagos, Hocus Pocus e vários outros. Tinha um estilo telegráfico, de frases curtas, bordões repetidos, personagens que se comportavam às vezes como personagens de histórias em quadrinhos. Algo no seu sarcasmo lembrava os filmes de Robert Altman e as HQs de Robert Crumb.
Vonnegut criticava com acidez a cultura-de-massas, como no conto “Harrison Bergeron”, em que um personagem é levemente mais inteligente que a média da população, e o Governo implanta um rádio-transmissor em seu cérebro, o qual emite um sinal ensurdecedor de 20 em 20 segundos, para impedir que ele use sua inteligência e obtenha vantagens. O sujeito está conversando e quando está prestes a ter uma idéia, o transmissor soa: “Seus pensamentos fugiram em pânico, como ladrões ouvindo um alarme”.
Vonnegut dizia que um leitor diante de uma página impressa é como um violinista diante de uma partitura: metade da obra está ali diante dele, e a outra metade cabe a ele executar no seu instrumento, que no caso do leitor é sua própria mente.
Vonnegut nunca desistiu. “O planeta está tentando se livrar de nós,” dizia ele. “Depois de duas Guerras Mundiais, e do Holocausto, e da Guerra dos Bálcãs, ele chegou à conclusão de que somos uns animais inviáveis”. Daí viriam os terremotos, tsunamis, e até mesmo a Aids. “É o sistema imunológico da Terra que está nos perseguindo”.
Escrito em 24 de abril de 2007 e publicado em Mundo Fantasmo em 28 de setembro de 2009
Escrita dos Fatos
No Manifesto da Poesia Pau Brasil, Oswald de Andrade diz que a ‘poesia existe nos fatos’. ‘Os fatos explicarão melhor os sentimentos; os fatos são tudo’, escreve Machado de Assis no livro Papéis Avulsos. Quem também demonstra um imensurável apreço pelos fatos, é o biógrafo Peter Gay, autor de Freud: uma vida para o nosso tempo: ‘a teoria está muito bem, mas isso não impede que os fatos existam. … a obediência… do cientista aos fatos não é a adversária, mas a fonte e a servidora da teoria’. [Texto de Nonato Gurgel]
No livro Rua de Mão Única, Walter Benjamin diz algo que considero um dos meus primeiros alumbramentos em torno da escritura dos fatos: ‘A construção da vida, no momento, está muito mais no poder de fatos que de convicções’. Quanto mais vivo, mais reverencio os fatos. Quanto mais vivo, mais preguiça tenho das falas e discursos convictos, articulados, mas com pouca ou nenhuma conexão efetiva com a concretude dos atos, dos fatos, sejam esses fatos referenciais ou estéticos ou subjetivos.
No Manifesto da Poesia Pau Brasil, Oswald de Andrade diz que a ‘poesia existe nos fatos’. ‘Os fatos explicarão melhor os sentimentos; os fatos são tudo’, escreve Machado de Assis no livro Papéis Avulsos. Quem também demonstra um imensurável apreço pelos fatos, é o biógrafo Peter Gay, autor de Freud: uma vida para o nosso tempo: ‘a teoria está muito bem, mas isso não impede que os fatos existam. … a obediência… do cientista aos fatos não é a adversária, mas a fonte e a servidora da teoria’.
Benjamin, Oswald, Machado, Freud. Lembro desses autores diante dos fatos – os dados divulgados pelo IBGE: 13,5 milhões de brasileiros abaixo da linha da pobreza, além dos quase 13 milhões de desempregados. Os 13,5 milhões de miseráveis formam um contingente superior à população de países como Bolívia, Grécia e Portugal. Impressiona a nossa letargia frente a números que remetem a fatos incontestáveis: desde que aconteceu o golpe, 1 milhão de brasileiros, por ano, desceu abaixo da linha de pobreza entre 2015 e 2018. Nesse mesmo contexto, um banqueiro do Itaú disse que nunca viu isso acontecer antes, ‘nunca lucramos tanto’.
Essa gana neoliberal lembra um samba antigo que tento parodiar: tá legal, eu aceito o argumento, mas não altere os fatos tanto assim. São quase 27 milhões de desempregados aflitos e de miseráveis. Todo mundo sabe que aflição e miséria juntas geram violências. Chega de milícias digitais. Aos fatos, Brasil, por que a foto do Bozo está no perfil do Whats App do acusado de matar Marielle? Quem matou Marielle?