+ poesia de outono azul a sul

A poesia vai e volta, ressurge do lago inesperada. Vem na onda que quebra ali na areia, logo à nossa frente. Publicada aqui, pela primeira vez, no último agosto, retorna à Revista Kuruma’tá a poesia viva de Calí Boreaz. Dizer que Calí tem voz própria, sensibilidade… é nada dizer. Não quero cair das armadilhas dos adjetivos e elogios sem rumo. Deixo então aqui a sua poesia, que diz mais e melhor. São poemas do livro outono de azul a sul, um livro de beleza rara, ao qual eu também retorno sempre.

Poemas de Calí Boreaz


Foto original de Calí Boreaz

A poesia vai e volta, ressurge do lago inesperada. Vem na onda que quebra ali na areia, logo à nossa frente. Publicada aqui, pela primeira vez, no último agosto, retorna à Revista Kuruma’tá a poesia viva de Calí Boreaz. Dizer que Calí tem voz própria, sensibilidade… é nada dizer. Não quero cair das armadilhas dos adjetivos e elogios sem rumo. Deixo então aqui a sua poesia, que diz mais e melhor. São poemas do livro outono de azul a sul, um livro de beleza rara, ao qual eu também retorno sempre.

…um roteiro poético de 8 anos de exílio — desejado — no Brasil, tendo como protagonistas o ser deslocado, e por isso mais atento, e mais disponível para o espanto, o artista traindo o burocrata, o amante que não consegue habitar o amor. é, essencialmente, sobre clandestinidade, sobre estar num lugar de erro — geográfico ou taquicárdico.


fortaleza

ver-te é o poema — a ver se te vê
por tempo que chegue para te ver
por trás dos olhos quando ver-te
for invisível
ver-te ouvir-te tocar-te imensa-me
há vento em amar-te e isso dispersa-me
sangue para um lado átomos para outro
sou o desencontro do meu corpo
clamando que o reúnas em maior beleza
obra de arte amar-te
na infinita-metragem dos turning points
que afortalezam o saber-me tua
ainda que
no buraquinho discreto que faço na noite
mas é nesse buraquinho que se acoita o ato-lua
de me debruçar sobre o mundo
e sobre o tempo — e me rir deles
porque te conheci


fóton

isso era no tempo em que
a luz de maio entrava
pontualmente
às quatro da tarde naquela
avenida da Urca com aquela
soberba dourada bêbeda de américa
e se refratava nos recortes
insuspeitos dos troncos dos coqueiros
do alcatrão malemolente
para finalmente se alojar
em algum indício corpóreo
de uma microexplosão
e durava quatro minutos
precisamente — a luz dos maios rotos
e logo mais à frente
o verde dos morros
a respirar nuvens

isso era no tempo
em que maio explodia e éramos jovens
de nós — e logo esplendia
pelos ralos tudo que escrevíamos
com luz


pelos vidros

seguro o pequeno espelho e o lápis de olho.
como os girassóis em sua amarelitude
nos fazem cócegas líricas sem
suspeitarmos que
tanto viço pode ser
não um desbunde de lourice — mas
o grito de desespero
pelo alimento-sol que rude lhes escapa
num horizonte prateado
como as cerejeiras em flor
da minha terra
podem estar nos entregando
não poemas de primavera — mas
os pomos extremos de uma agonia
de uma maldição de imobilidade
como a ilusão do canto dos pássaros
que em verdade podem estar
murmurando de fome de vertigem de vento
enquanto em enlevo
os escutamos
assim eu traço beleza
em meus olhos que não
te podem ver mais


efeito kahlo kuleshov

estou imóvel
suspeito que me tornei um quadro
com debrum de areia pequenas conchas
e pontas de cigarro
à minha beira está o mar em março
ele desatentamente cospe nos meus pés. e através
de mim desamarro o vendaval morse
/ não escutes. ainda estou imóvel
sobre mim-onde há uma constelação
de abutres como uma indecisão boiando
aos fundos de mim-quando há a ficção
citadina inacessível
entre o tempo da água e o destempero do asfalto
a destempo tento — ainda — criar poesia
/ ay llorona / olhos negros /
e crio silêncios. basaltos. silêncios
a fazerem sala às tuas perguntas
no horário nobre do despresente
faço um esforço — me recorto
dou um passo na via láctea
meus pés imprimindo a marca de água
e enquanto me arranco à imobilidade
/ as tuas perguntas /
a cidade se petrifica
basaltos. silêncios. solidões acústicas
presas na véspera — ou num dia advindo
a gastarem-se companhia
no horário nobre da vida

que é a fina presença da morte
agarro com força a escuridão
e dou mais um passo
o garoto de short azul na areia sentado
ficou ali com o olhar perdido no desenho de um nome
a cadeirante com o paninho de chão ao ar erguido
ficou ali com a mão esperando os 4 reais
o velho de 88 anos cansado demais
ficou ali com a expressão do primeiro estremecimento
do infarto
passo por todos passando neutra por mim mesma
vou direto à tua porta
enquanto junto pedaços

                 em morse
                                                                            amar-se
                                       em março
              um amor se
                                             maio
                                                                    ainda for
                              tempo

estou batendo. batendo: atendo?


hora de vagar

substrato da poesia
uns restos de tarde
ainda boiando
sobre o precipício ansioso
das horas
a desoras
um exílio costeiro
na costura de um sonho
sob o ato da poesia

(…)

dez horas
um vago lume se acende e eu vagamente
subo e trato da poesia


a(l)titude

o vento que se
ouve dentro:
invento


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Para aquele senhor de branco ali na janela

Um dia, no entanto, outro visitante apareceu. Inesperado, lá estava ele sentado no parapeito. Vestia calça de linho crua, camisa branca com as mangas impecavelmente dobradas e sapatos lustrosamente brancos. Em uma das mãos, segurava um cigarro aceso que parecia nunca ser consumido pelo tempo, nem apagado pelo vento. Ele não dizia nada. Apenas olhava para ela com um semblante sereno, tranquilo, como se estivesse contentado em não receber atenção de ninguém. [Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota


A janela do apartamento era ampla, com as cortinas sempre abertas, deixando a luz do dia banhar a pequena sala e tocar o piano silencioso que ficava em um dos cantos do cômodo. Houve um tempo em que todas as manhãs, do alto do sexto andar, ela se debruçava no parapeito e observava o movimento lá embaixo. Depois, abria o piano e tocava a valsa que compôs aos 15 anos de idade para o namorado, que mais tarde viraria seu cônjuge, que muito mais tarde faria o passamento deixando-a saudosa.

O processo de senilidade se instaurou de forma abrupta. Não chegava mais à janela, nem tocava no instrumento, agora já enclausurado pelo tempo. A janela, esta era aberta todos os dias pela acompanhante para que a luz continuasse banhando o recinto e para que o vento fizesse suas visitas diárias.

Um dia, no entanto, outro visitante apareceu. Inesperado, lá estava ele sentado no parapeito. Vestia calça de linho crua, camisa branca com as mangas impecavelmente dobradas e sapatos lustrosamente brancos. Em uma das mãos, segurava um cigarro aceso que parecia nunca ser consumido pelo tempo, nem apagado pelo vento. Ele não dizia nada. Apenas olhava para ela com um semblante sereno, tranquilo, como se estivesse contentado em não receber atenção de ninguém.

Ela pediu para que a acompanhante oferecesse café e bolo.

— Para quem?
— Para aquele senhor de branco ali na janela.

No mesmo dia, as filhas foram informadas do acontecido. Explicaram a ela que não havia ninguém ali e que isso nem ao menos seria possível. Como o senhor de sapatos brancos teria subido os seis andares da fachada do prédio? Ela foi levada ao médico, que receitou alguns remédios. Contrariada, engoliu cápsulas coloridas, torcendo, no fundo, para que o visitante de branco voltasse no dia seguinte.

Na manhã que se seguiu, ele apareceu novamente, mas desta vez na janela do banheiro, minúscula, enquanto ela tomava banho. Ruborizada, pediu que ele virasse o rosto, ao que foi prontamente atendida. Sentia certa intimidade e por isso não o enxotou dali. Enquanto era secada pela cuidadora, pediu que fossem providenciados café e bolo

— Para quem?
— Para aquele senhor de branco ali na janela.

As filhas começaram a ficar preocupadas com a recorrência do que acreditavam ser uma piora dos sintomas. O médico prescreveu outro medicamento. Ela engoliu mais cápsulas coloridas, mais contrariada do que nunca. Queria vê-lo novamente no dia seguinte e oferecer pelo menos café e bolo. Foi dormir ressabiada.

Quando acordou, ele estava na janela do quarto, de cigarro em punho, asseado e bem vestido. Ela chamou a cuidadora e pediu para que a mesma passasse um café, sem dizer que o visitante ali se encontrava. Para acompanhar, gostaria de um bolo. Assim foi atendida prontamente. Sozinha, colocou a bandeja ao lado dele, que sorriu. No entanto, antes mesmo que ele pudesse tocar no que lhe era oferecido, a cuidadora retirou a bandeja da janela e a colocou na mesa de jantar. Ela retrucou que isso era falta de educação com o visitante, que o café e o bolo não eram para ela.

— Para quem?
— Para aquele senhor de branco ali na janela.

Durante algum tempo, talvez por conta do novo receituário médico, ela não mais o viu em nenhuma das janelas do apartamento. Na incapacidade de servi-lo como uma boa anfitriã, lembrou-se de ter guardado o antigo cinzeiro que seu finado e amado esposo usava todos os dias. Colocou-o delicadamente sobre o peitoril da janela da sala e se afastou, sem dizer uma palavra.

Em uma manhã de sol, na qual a luz banhava o piano no canto do cômodo, resolveu tocar aquela antiga valsa. Ao terminar a última nota, foi à janela debruçar-se para observar o movimento lá embaixo, algo que não fazia há tempos. A vida lá fora continuava, ocupada, a rua estava viva, movimentada. Olhou para o cinzeiro e percebeu que ali havia cinzas.

Sentou-se à mesa da sala de jantar e chamou a cuidadora. Pediu um café fresco e um pedaço de bolo. Comeu e bebeu, refestelada, em silêncio, enquanto as filhas eram informadas que, ao que parecia, ela havia decidido começar a fumar escondida aos 90 anos de idade.

Foto: Rita Hayworth em Gilda / Crédito: Alamy

Levando comigo a última estrela tropical – poemas de João Augusto

Ao longo de A última estrela tropical vamos reencontrando poetas, porque a poesia de João é um diálogo permanente com um panteão particular da poesia… Florbela Espanca, Orides Fontele, Maiakóvski, jorge de Lima! Não guiando sua mão mas possivelmente observando o evoluir de cada página, de cada poema-sonho. Assentindo o lirismo e uma linha de melancolia que a cada poema parece trespassar. Poemas-arquipélagos, feitos de versos que são como ilhas, algumas com escarpas vertiginosas. [Texto de Toinho Castro, sobre livro de João Augusto]

Poema de Toinho Castro


Sentado aqui, no meu canto de mudo em Vila Isabel, lendo esse livro lindo chamado A última estrela tropica – Volume 1: diálogos e sonho. Um livro de nome igualmente belo, desse poeta chamado João Augusto. Sendo sincero eu não sabia de João Augusto. Adoro como as coisas chegam até a Kuruma’tá. Nesse caso foi pelo messenger; uma voz amiga que soprou esse livro no meu ouvido, atiçou minha curiosidade e me abriu a porta para essa poesia que acabou, como toda boa poesia, por me surpreender.

Começa que o livro, o objeto livro, é uma beleza. Que edição bonita, bem cuidada, dessas que dá gosto ter nas mãos. Aí citações/epígrafes de Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto nos apontam o rumo dos sonhos que estamos a descerrar. É como um chamamento… Quando três poetas assim te chama, você vai.

E logo ali, uma página depois, chega João com seu verso que abre o livro: Não sei soletrar a palavra mundo/ Sem abrir nela uma rosa, uma infância. Eu também não sei, João! Será isso coisa de poeta? Uma conexão, uma lâmpada que se acende dentro da gente e nos guia através de um livro que nos cativa?

Ao longo de A última estrela tropical vamos reencontrando poetas, porque a poesia de João é um diálogo permanente com um panteão particular da poesia… Florbela Espanca, Orides Fontela, Maiakóvski, jorge de Lima! Não guiando sua mão mas possivelmente observando o evoluir de cada página, de cada poema-sonho. Assentindo o lirismo e uma linha de melancolia que a cada poema parece trespassar. Poemas-arquipélagos, feitos de versos que são como ilhas, algumas com escarpas vertiginosas.

Não vou aqui, pois como leitor não tenho esse desejo, destrinchar e explicar esses poemas que João põe no papel. Quando leio poesia me sinto não crítico, mas poeta também. Ao menos quando leio boa poesia. Peguei, pois, o livro e o carrego comigo, para os lugares onde vou, porque o livro de João me leva também a lugares. Leio:

A minha poesia nasce do que me emudece. E na mudez incontida, encontro o silêncio que me leva a outro sentido qualquer. Todo verso é uma forma de manipular distâncias. Estar perto do fim é estar longe de si. O homem será sempre o eterno começo.

Bebedouro, 1167 de janeiro de 2011

Poemas marcados com um GPS e datados me fazem viajar, no espaço e no tempo. Imagino Bebedouro, a cidade onde, no primeiro dia de 2011, um poema foi escrito e chegou até a minha atenção, quase nove anos depois. E assim a poesia percorre caminhos entre que a escreve e quem a lê. A última estrela tropical tem 50 poemas traçando esses caminhos, caminhos da alma, nesse livro que abre portas e janelas, como o vento.

Poesia, esse encontro. Fecho o livro sabendo que ele é circular e que outros poemas virão se inserir nesse círculo. Ponho o livro na bolsa e o retomo no ônibus indo para o centro da cidade. Converso com meu amigo Francisco Olivar, livreiro por 40 anos, com esse livro de poesia na cabeça e nas mãos. A cidade passa ao meu redor… São mais felizes os que enxergam na ausência, escreve o poeta. Levo esse verso comigo.


Os nossos mortos

Hoje é 2 de novembro, dia de finados, dia os mortos. Lá fora, no prédio vizinho, brincam as crianças. lembrei que meus avós, meus bisavós, tavez tenham brincado assim. Talvez tenham corrido pela rua de terra, em alarido, imaginando um futuro que talvez tenha sido outro. Há outros, para além dos meus bisavós, mergulhados num passado que não alcanço. Seus nomes se perderam, as casas em que cresceram. Nada mais existe. [Poema de Toinho Castro]

Poema de Toinho Castro


Hoje é 2 de novembro, dia de finados, dia os mortos. Lá fora, no prédio vizinho, brincam as crianças. lembrei que meus avós, meus bisavós, talvez tenham brincado assim. Talvez tenham corrido pela rua de terra, em alarido, imaginando um futuro que talvez tenha sido outro. Há outros, para além dos meus bisavós, mergulhados num passado que não alcanço. Seus nomes se perderam, as casas em que cresceram. Nada mais existe. Ou ainda existe, num plano paralelo ou transversal a esse? Vieram antes de mim e sobrevivem em mim de um jeito que nem eu entendo. Estão aqui. meus mortos.

Meus bisavós, avós da minha mãe

onde estão
os nossos mortos
se estão
se há um lugar
além daqui
um segundo andar
uma sala branca
para se deixar
ficar
e se não há
esse lugar
os nossos mortos
onde ou quando
devem estar
em que simulação
de mundo
ou abismo profundo
em que rede posta
devem descansar
depois de tanto
depois de muito
depois desse insano
culto ao mundo
pergunto-me
porque pergunto
porque aos vivos
cabe perguntar
sem respostas
encontrar
sem janelas
por onde olhar
para esse mundo
para esse outro mundo
esse poço escuro
e profundo
onde os mortos
nossos mortos
devem estar

novembro de 2019


Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa: Avatar

E está no ar mais um “verbete” do Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa, série do caríssimo escritor Fábio Fernandes que está sendo publicada periodicamente, a cada 15 dias, na Revista Kuruma’tá, para a nossa imensa alegria!

Texto de Fábio Fernandes


Imagem a partir de foto original disponível na Wikimedia – Domínio público

Você não é você.
Você é muitos, em você cabem multidões. Walt Whitman disse isso.
Você é muitos e muitas. E qual é o problema?
Nenhum.

Outro poeta – Oscar Wilde, você sempre faz questão de lembrar aos seus amigos menos esclarecidos – diz que a melhor maneira de acabar com uma tentação é cedendo a ela. E você segue Mr. Wilde à risca.
Por isso você se monta para a noite.

A cueca dá lugar à calcinha, a calça e a camisa ao vestido, os cabelos curtos à peruca, os óculos às lentes de contato. Olho por olho, dente por dente. Macho por fêmea. Plug and play.

Girls just want to have fun. E você – que tem horror de Nelson Rodrigues e nunca, jamais, em tempo algum quis ser, como ele tantas vezes disse a respeito de outros em suas crônicas, um contínuo de si mesmo, uma pessoa medíocre – sai pra rua pra se divertir.

Corra, Lola, Corra. Que a noite é uma criança, e agora você é uma estrela.


“Que nada nos distraia do amor” — Flaira Ferro Virada na Jiraya

Eu conheci a Flaira Ferro porque ando bem acompanhado. Ou pelo menos porque acompanho as boas redes. De olho no Instagram de Chico César eu vi uma postagem que ele fez cantando com a Flaira a deliciosa Cruviana, que está no seu último álbum do paraibano de Catolé do Rocha, O amor é um ato revolucionário. E é mesmo! A partir aí comecei a companhar também o perfil da Flaira e vi chegando esse disco que agora está nas tais das plataformas de streaming e no Youtube: Virada na Jiraya! [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Eu conheci a Flaira Ferro porque ando bem acompanhado. Ou pelo menos porque acompanho as boas redes. De olho no Instagram de Chico César eu vi uma postagem que ele fez cantando com a Flaira a deliciosa Cruviana, que está no seu último álbum do paraibano de Catolé do Rocha, O amor é um ato revolucionário. E é mesmo! A partir aí comecei a companhar também o perfil da Flaira e vi chegando esse disco que agora está nas tais das plataformas de streaming e no Youtube: Virada na Jiraya!

Poucas vezes vi um título definir tão bem um disco! Virada na Jiraya é essa disposição absoluta, esse estado de fúria e encantamento, energia explosiva que derruba portas, porteiras, paredes, que não cabe em si e transborda.

E que disco é esse, gente? É um disco transbordante! Enfurecido e aliviado em 12 músicas que se você botar pra tocar vão mudar seu dia num grande dia. É como se a caravana do Circo chegasse na cidade, adentrasse a praça central para se instalar luminoso, animado, chamando todo mundo pra participar, pra junto, pra cantar palavras de ordem, palavras de poesia e cantos às nossas mães, aos nossos ancestrais, ao nosso futuro contra toda escuridão que parece cerrar o horizonte. É um disco político. Como poderia ser diferente? Não, não de resistência, mas de reação, de partir pra cima de peito aberto. Como poderia ser diferente? Nunca é tarde pra reagir, canta Flaira, com as cantoras e compositoras Isaar, Ylana, Sofia Freire na comovente Germinar. É disco pra ir pra rua, pra cantar juntos.

Faixa após faixa é uma riqueza de ritmos e versos, é teatro, performance e dá uma vontade danada de dançar. Vai do frevo ao rock passando por muitos lugares, numa atemporalidade de dar gosto. A língua afiada de Flaira, irônica e lírica, claro, sai rabiscando poesia nos muros que ela vai por abaixo logo em seguida, contra a boçalidade e o totalitarismo, a favor do amor, do amor, do amor!

Que nada nos distraia do amor
nem mesmo as vitórias da vida
Que nada nos distraia do amor
Nem mesmo confetes e serpentinas
Que nada nos distraia do amor
Nem mesmo os picos de adrenalina
Que nada nos distraia do amor
Que tudo nos atraia o amor

— Versos de Ótima

E num disco tão rico e tão pleno lá está Recife, Pernambuco, os cais, as pontes, o frevo, as ladeiras de Olinda, a rua da Aurora recebendo o sol pela manhã. Talvez eu veja isso por saudade de Recife, que me assombra como a Perna Cabeluda a vagar pelas ruas do centro. Talvez por causa do sotaque ou pelo espírito definitivamente brincante de Flaira. E eu já ia dizer que Recife é essa caixinha de surpresas, mas não há qualquer surpresa com uma artista assim surgindo lá. Recife é isso, é essa vibração atômica. tem sido sempre. A surpresa é esse disco chegar aqui e agora, nesses dias que se pretendem sombrios mas que tem a sombra rasgada por essa energia febril.

Viarado na Jiraya é como todos deveríamos estar. É mão dada e pé na porta! Ou nada muda e a gente não pula o muro pra roubar fruta com as amizades. Aliás, bom dizer, é um disco de amizades e participações, de trocas e união, porque é assim que tem que ser. Tudo vibra pro bem, pro melhor. Que nada nos distraia do amor. Que discos assim nos atraiam o amor. Que a gente escute Flaira Ferro virados na Jiraya, prontos pra ir pra rua, ao sabor dessas doze canções e nos sentindo ótimos!

[Pois é, fiquei empolgado! Bom demais, né?]


Coisa mais bonita



Cidade do caos | Parte IV

Hoje chegamos ao capítulo final desse texto inquieto e provocador do caríssimo Octavio Aragão. É o quarto episódio da saga anarcoartística de Carlo Rabbio e você vai querer saber como termina, ou se termina… nesse país em looping. — O quadro se fechava na boca escancarada da mulher que gritava em silêncio, mas cuja leitura labial permitia ao público entender a frase “Meu Deus, as crianças”. E fim. Cidade do Caos terminava sua primeira exibição sob silêncio absoluto, numa sala de projeção do DOPS.

Hoje chegamos ao capítulo final desse texto inquieto e provocador do caríssimo Octavio Aragão. É o quarto episódio da saga anarcoartística de Carlo Rabbio e você vai querer saber como termina, ou se termina… nesse país em looping.

Octavio, que grande prazer de publicar essa história na Kuruma’tá! Uma história que tá merecendo uma versão em quadrinhos! Olha lá, fica a dica!

Noveleta de Octavio Aragão


O quadro se fechava na boca escancarada da mulher que gritava em silêncio, mas cuja leitura labial permitia ao público entender a frase “Meu Deus, as crianças”. E fim. Cidade do Caos terminava sua primeira exibição sob silêncio absoluto, numa sala de projeção do DOPS.
– Vocês sabem que isso é genial, não é? – disse Carlo Rabbio ao público composto por militares, os chefes do SNI e do DOPS do Rio de Janeiro e mais algumas autoridades, entre elas, um ministro. Nenhuma delas particularmente satisfeita. Gautério Pedro estava quieto e pretendia se manter assim até o fim dos tempos.
Depois de um minuto constrangedor, o governador se manifestou.
– Os senhores tem noção que provocaram, no mínimo, três mortes e uma dezena de feridos, fora o pânico nas ruas por doze horas até a polícia conseguir resolver tudo?– Vai me desculpar, excelência – disse Rabbio, como se falasse com uma criança – mas creio que nós apenas demos voz ao que corrói a população.
– Chega, Carlo – disse Gautério, rompendo a promessa auto-imposta.
– Não sei onde estou que não boto esses subversivos no pau de arara – falou o chefe do DOPS num tom monocórdio.
– Não vamos botar ninguém em pau nenhum – disse o ministro da cultura, limpando os óculos com um lenço de cambraia – Vamos lançar o filme.
Ninguém perguntou “o quê?” em uníssono, mas era óbvio que a pergunta ressoava, inclusive nas cabeças dos autores.
– Em primeiro lugar, – continuou o ministro – o senhor Rabbio tem razão. O filme, em termos artísticos, é bom. Diria até muito bom. A questão é de ponto de vista. Onde os senhores vêem um ataque às instituições governamentais, eu enxergo um alerta contra a iminência de uma invasão comunista. Onde os senhores vêem um povo paranóico, eu enxergo uma população consciente do perigo vermelho. Em segundo lugar, com uma ou duas alterações de montagem aqui e ali, teremos em mãos nosso próprio “O Triunfo da Vontade”, o filme que prova e aprova nosso regime, produzido pelas mãos de dois dos maiores artistas contemporâneos. Lembrem-se, graças à produção desse documentário, eliminamos uma terrorista perigosíssima que procurávamos há anos. Querem melhor carta de apresentação que essa?
Rabbio e Gautério estavam apopléticos, embasbacados, congelados em seus assentos enquanto o ministro continuava.
– Vamos inscrever Cidade do Caos em todos os festivais internacionais. Cannes. Veneza e até Berlim. Não será irônico se ganharmos o Oscar com esse filme? É claro que se nossos gênios das artes plásticas e do cinema se recusarem a reeditar a película em pequenas partes, seremos obrigados a tomar atitudes lamentáveis e suas famílias não saberão de seus paradeiros por, digamos, uns cinquenta anos.
– Por favor, senhores, – disse o chefe do DOPS – recusem.
Eles não recusaram. O filme foi lançado e Cidade do Caos (com o sugestivo subtítulo de “um dia à sombra do perigo vermelho”), apesar do investimento do governo militar, não ganhou prêmio algum. A União Soviética e Cuba boicotaram a exibição do longa, acusando-o de “propaganda descarada de um regime fascista”. Rabbio pensou em reclamar, citando Eiseinstein como o maior panfletário da história do cinema e nem por isso menos genial, mas Gautério o convenceu a ficar calado.
Em meados da década de 80, Gautério morreu de câncer. O regime militar andava mal das pernas e Rabbio havia desaparecido há dez anos, alguns diziam que estava envolvido num projeto de grande porte, mas nada aparecia. Outros afirmavam que estudava telecomunicações ou lecionava em cursinhos no interior.
Um dia, a profecia de Rabbio se concretizou e todas as pessoas, independente de classe social, idade ou posse possuíram aparelhos com câmeras. E foi então que, no dia primeiro de abril de um ano num futuro impensável para os artistas que viveram a ditadura, todos os grandes rios das capitais brasileiras amanheceram com coisas estranhas boiando, montes de carne e metal, engrenagens e ossos, galhos de árvores e estruturas de alumínio. cada uma delas com câmeras acopladas, todas em rede e transmitindo para algo que se chamaria Internet imagens de pessoas assombradas, maravilhadas, aterrorizadas, enojadas, refletindo seus medos, seus sonhos e fantasias em pequenas telas. E então, quando as manifestações tomaram conta do Brasil, clamando por igualdade social e justiça, finalmente o velho Rabbio, com poucos cabelos e a barba completamente branca, deu o ar de sua graça, chefiando um grupo numeroso de artistas gráficos, comunicadores e cineastas de todos os cantos do país, cada um gritando em milhares de celulares, computadores e aparelhos de TV:
– Esses são vocês. Esses somos nós.
E, mais uma vez, veio o caos.


Zerinho

Mas com esse trabalho miúdo, de formiguinha, como se diz, a Kuruma’tá vai cegando aqui e ali. E a gente sabe disso quando, do nada, chega-nos uma mensagem de alguém, dizendo assim: tenho uns textos para publicar. O que acham de dar uma olhada?! Ah, a gente acha ótimo dar uma olhada, ler e se empolgar. E foi assim que nos chegaram os textos lindos do Diego Franco Gonçales. Out of the blue, dizem os americanos. Diego é lá de Caraguatatuba, no litoral de São Paulo. É professor de comunicação, revisor de texto e instrutor de krav-maga. E escreve… escreve bem que só. Seus textos me lembram um amigo querido lá do recife, que escrevia com essa liberdade, esse frescor de palavras. Diego é muito inventivo e muito bem-vindo à Kuruma’tá! A gente publica esse conto, Zerinho, com muita alegria.

A Revista Kuruma’tá ainda é pequena, e snem sabe ainda se quer ser grande, com todas as condições estranhas e obrigatórias de ser grande. A gente gosta de se enxergar como uma aventura e não como uma produção, um projeto ou uma dessa palavras que são usadas pára dizer que algo é um empreendimento sério.

Mas com esse trabalho miúdo, de formiguinha, como se diz, a Kuruma’tá vai cegando aqui e ali. E a gente sabe disso quando, do nada, chega-nos uma mensagem de alguém, dizendo assim: tenho uns textos para publicar. O que acham de dar uma olhada?! Ah, a gente acha ótimo dar uma olhada, ler e se empolgar. E foi assim que nos chegaram os textos lindos do Diego Franco Gonçales. Out of the blue, dizem os americanos.

Diego é lá de Caraguatatuba, no litoral de São Paulo. É professor de comunicação, revisor de texto e instrutor de krav-maga. E escreve… escreve bem que só. Seus textos me lembram um amigo querido lá do recife, que escrevia com essa liberdade, esse frescor de palavras. Diego é muito inventivo e muito bem-vindo à Kuruma’tá! A gente publica esse conto, Zerinho, com muita alegria.

Toinho Castro (Editor)

Texto de Diego Franco Gonçales


foto: PxHere

Foi aos 11 anos que Thi descobriu ser o laser a sua solução.

Diguin apareceu no recreio com aquele objeto ilógico: do tamanho e espessura de um toco de lápis, feito de um plástico vagabundo, com um botãozinho que a cada pressão fazia um crec duvidoso, mas que soltava um feixe de luz verde, concentrada, irreal. O habitat de Diguin – uma roda à sua volta – brotou nem mal ele anunciara a novidade. Seus pais eram os donos da única loja de quinquilharias importadas de toda aquela região, e nos recreios, magnânimo que só, ele concedia a quem pedisse um breve contato com suas maravilhas. Essas ocasiões davam em Thi vontade de colocar tachinhas na cadeira do colega, mas ele não conseguia deixar de fazer parte da plateia.

Que tempo crédulo. Um menino particularmente suscetível entrou em pânico quando o laser – acionado pela menina que, cochichava-se, tinha beijado Diguin – projetou-se do teto do pátio para seu peito. Os demais caçoaram dele enquanto disfarçavam um passo para trás. Ninguém ficou lá muito convencido com o argumento de que não havia perigo: todos viam na TV do que um laser era capaz.

— De verdade, não serve pra muita coisa. — o dono do laser insistiu. — O que de mais legal eu fiz até agora foi desligar a luz de um poste da minha rua.

Desligar, luz, poste: não teve jeito, Thi precisaria conversar com Diguin.

***

Uns dias antes, Thi aprendera que planejar é uma má opção.

A ideia era quebrar a pedradas a lâmpada de um poste que ficava bem na metade do Largão, ladeira próxima a sua casa à qual confluía toda tardinha uma turma de meninos e meninas, ele incluso. Entre conversas e disputas, ali descobriam modos de dar vazão à repentina atividade de suas gônadas, e desde uns tempos corridas de carrinho de rolimã eram a preferência. Thi munir-se de um punhado de pedras para subir o Largão não deixava de ser uma participação nessa busca coletiva — mas fazê-lo sozinho era o seu modo particular. Ninguém saberia.

Ele nunca tinha reparado como um poste podia ser alto, e nem levara em conta a carapaça vítrea que protegia aquelas antigas lâmpadas de vapor de sódio. Até ali, parecia suficiente ter programado duas providências: escolher um ângulo que evitasse acidentes com as janelas das casas e assobiar despreocupado se algum carro ou pedestre porventura passasse. E agora?

Thi tremia um pouco. Respirar era difícil e gostoso ao mesmo tempo. Demorou muito mais do que ele planejara, mas, à custa de quase todo seu arsenal, ele enfim quebrou a proteção da lâmpada. Thi agora inspirou tanto ar de uma só vez que precisou sentar-se no meio-fio. Ficou por ali, desprevenido, olhando os cacos de vidro e já se enxergando sobre o carrinho de rolimã num Largão vitoriosamente escuro, a turma em algazarra e um par de olhos, em especial, pregado nele; e foi por ali que a Portuguesa, moradora da ladeira especialista em doces e disciplina, o pegou pela orelha e o plano descambou. Todos saberiam.

— Tão quietinho… Vandalismo! De onde veio isso? Meu menino tá mudando tanto… — no fim daquele dia a mãe de Thi conversava com o teto, deitada na cama ao lado do pai que só queria dormir.

***

Escaldado, Thi esforçava-se em não pensar sobre como faria a abordagem.

Mas Diguin sentar-se à primeira fila o atrapalhava. Thi era obrigado a olhar para as costas do colega enquanto copiava da lousa a lição de casa de Ciências. “Explique, com suas palavras, a diferença entre geocentrismo e heliocentrismo” misturava-se a “Então, Rodrigo. Não. Diguin. Então, Diguin.”; “Faça um texto sobre os experimentos de Galileu. (20 linhas)” a “Me empresta o laser? Não. Eu posso ver o laser?”; “Abóboda celeste” a “Você se acha. Me dá essa merda.” A caneta fazia sulcos fundíssimos no caderno.

O sinal da saída convenceu Thi de que o melhor mesmo era deixar o laser de lado. Bobagem enorme, afinal, aquela em que ele vinha pensando. Usar a escuridão para se exibir? E para quem nem parece saber direito que ele existe? Pior ainda: tramar tudo isso e atrair sobre si sabe-se lá que maus espíritos e azares? Thi guardou seus materiais na mochila se sentindo aliviado, sensato e um pouco cinza, e o zíper fechando soou como um bom fim de sua infância.

Ele ainda tinha essa decisão na cabeça quando, já na calçada da escola, passou por um grupo formado por Diguin e três amigos. Thi assustou-se ao ver escapulir de dentro dele a pergunta “Como apaga poste?” numa voz que foi pouco menos que um grito. O grupo todo ficou sem saber muito bem como reagir à aparição estrondosa de Thi, e o pipoqueiro se pôs em prontidão para apartar os moleques caso aquilo evoluísse para uma briga. Thi apressou-se em lembrar da conversa do recreio — o laser não servia para apagar poste? O desconcerto virou curiosidade, e Diguin respondeu tirando o laser do bolso e o apontando na direção do poste. Um ponto verde, minúsculo e vivo, tremelicou numa caixinha preta presa perto da lâmpada. Era simples: quando escurecesse, tinha que mirar bem ali e apertar por um tempinho o botão do laser.

— Deixa eu ver. — Thi pegou o laser. Levíssimo. A esfera na ponta dele era feita de futuro. — Te trago segunda? Eu preciso dele.

Thi já ia longe, segurando-se para não correr ou chorar no caminho de casa, quando Diguin — que havia assentido com o empréstimo — discutia com os amigos se era Thiago ou Thiérri o nome daquele bicho caladão e estranhamente persuasivo.

Quando a lâmpada apagou, os gritos da turma foram um misto de vaia e comemoração.

Ninguém percebera o responsável, mas a gritaria trouxe a Portuguesa à janela, e ela ali coçando a cara foi um lembrete a Thi de que tudo estar como o planejado era um sinal de perigo. Muito cuidado com os próximos passos: não se podia pensar neles.

Thi arrastou seu carrinho até o alto do Largão sem acompanhar a tagarelagem dos demais competidores — ocupava-se em esvaziar a cabeça. Dali ele via a sua cria: a faixa sem iluminação no meio do percurso da corrida. As regras daquela semana determinavam ser lá o local onde os competidores precisavam dar um zerinho: um cavalo-de-pau com o carrinho de rolimã, criando o máximo possível de faíscas com o atrito entre asfalto e o metal das rodinhas. Chegar mais rápido no fim da corrida era menos importante do que dar um bom zerinho, e as meninas e meninos do resto da turma, responsáveis pela aferição dessa qualidade, ficavam também perto do poste agora desligado. Vendo-os lá de cima, Thi saía-se mais ou menos bem em não pensar, não planejar. Conseguia evitar a imagem — meticulosamente construída e lustrada até o incidente das pedradas — de si mesmo ressaltando suas faíscas com a escuridão, mas não era capaz de impedir o surgimento de uma pergunta — ela vai olhar pra mim? — e de um desejo — ela vai olhar pra mim.

Um, dois, três, já. A gravidade e a metalurgia fizeram seu papel. Tamanho era o declive do Largão e a eficiência dos rolamentos que os carrinhos atingiram máxima velocidade pouco depois de dada a largada. E então ficou fácil não pensar.


Escorpião Sob o Signo da Seca

Neste dia 27 de outubro o poeta Nonato Gurgel aponta sua pena para o Nordeste, para a Seca, para os sonhos possíveis e os sonhos desfeitos. A literatura, a política, meios de transformar o mundo. Dois aniversariantes no dia de hoje. Duas celas. Duas obras. O Brasil. Obrigado, Nonato. Que poema lindo.

Neste dia 27 de outubro o poeta Nonato Gurgel aponta sua pena para o Nordeste, para a Seca, para os sonhos possíveis e os sonhos desfeitos. A literatura, a política, meios de transformar o mundo. Dois aniversariantes no dia de hoje. Duas celas. Duas obras. O Brasil. Obrigado, Nonato. Que poema lindo.

Poema de Nonato Gurgel


Um escreveu Vidas Secas Caetés
O outro nasceu em Caetés
Irrigou vidas secas
À margem do Velho Chico

O Velho Graça fez em 1ª pessoa
Luiz da Silva em Angústia
O outro é o próprio Luiz
Angústia da Silva em pessoa

O escritor ex-prefeito é lido como
Ficção e confissão segundo Cândido
E diz no Auto retrato aos 56
Que gosta de beber aguardente

O narrador ex-presidente é fundador
De um partido político com Cândido
E diz na cela aos 74
Que faz o melhor café

Ambos viveram e um escreveu
Memórias do Cárcere onde se lê
A ‘desgraça do capitalismo’ e ‘Não há
nada mais precário que a justiça’


Praia de Maracajaú, Rio Grande do Norte – Carnaval de 1998

Hoje a minha mãe, Lenira Castro, faz aniversário. Enfim ela retornou à sua Natal, no Rio Grande do Norte, depois de um longo caminho por outras cidades, principalmente o Recife. Ali, na rua Pampulha, vivemos muitos anos, mais do que ela gostaria ou esperaria. Seu sonho de voltar à sua terra, à rua, sua Avenida Um, origens e família mais próxima, se realizou. Em sua homenagem, por assim dizer, publico esse seu texto de 1998. [Toinho Castro – Editor e filho de dona Lenira]

Hoje a minha mãe, Lenira Castro, faz aniversário. Enfim ela retornou à sua Natal, no Rio Grande do Norte, depois de um longo caminho por outras cidades, principalmente o Recife. Ali, na rua Pampulha, vivemos muitos anos, mais do que ela gostaria ou esperaria. Seu sonho de voltar à sua terra, à rua, sua Avenida Um, origens e família mais próxima, se realizou. Em sua homenagem, por assim dizer, publico esse seu texto de 1998, em lembranças às noites estreladas de sua infância. Esse texto é também uma delicada homenagem à minha tia Bita, irmã da minha mãe, citada de passagem no texto. Uma pessoa que assim, nas entrelinhas, junto com seu marido, meu tio Wellington, proporciona à irmã tantas coisas maravilhosas que é difícil enumerar aqui.

Seu sonho sempre foi também publicar livros, escrever poemas, crônicas… aqui cumpro um pouco desse sonho.

Toinho Castro (Editor e filho de dona Lenira)

Texto de Lenira Castro


Minha muito querida irmã comprou uma bela casa, numa praia linda, como todas as outras da minha terra, e neste carnaval fomos pra lá. Mar azul, infinitamente azul e belo durante o dia. À noite o acho dantesco e tenebroso, é uma escuridão sem fim.

A praia deserta e sem luz me fez lembrar da minha rua, a rua da minha infância, onde me encantava com as noites escuras, porque o céu era um manto negro cheio de brilhante que me faziam sonhar.

De repente senti uma vontade imensa de olha pra cima, como se algo tivesse me dito: Vê se encontras o teu céu perdido… Meu Deus, que surpresas me reservastes? Lá estava o céu da minha infância, igual como eu o deixei. Cheguei a gritar de emoção, chamei todos para ver comigo. Eu queria testemunhas do meu reencontro com as estrelas que eu procurava há tanto tempo. Mais de meio século que não as via, brilhantes, reluzentes sobre o mar de Maracajaú, na minha terra amada. E lá estavam o barquinho, as casinhas e tudo mais, no lindo céu do mundo.

O meu céu perdido no passado.


Mais de dez anos depois, gravando os depoimentos que vieram a se tornar o filme Avenida Um, ela contou novamente essa história, dessa vez para a câmera. Você pode também assistir ao filme completo no YouTube.

Trecho final do filme Avenida Um