Maracatron | Parte 4

Então ele me explicou que percebeu variações inexplicáveis em certos gráficos durante os bombardeios regulares no núcleo do Maracatron. Mapeando o complexo em busca de distorções de realidade, encontrou alguns pontos de reverberação de onde emanavam sons que provinham da superfície, do estádio, através de caminhos tortuosos pelos dutos e paredes, chegando apenas a esses pontos milimétricos da estrutura ao nosso redor. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Montagem a partir de imagens de PxHere

Quando foi a última vez que assistimos um bom jogo? Quando foi a última vez que subimos à superfície e andamos pelas galerias do estádio? Na minha gaveta ficam jogadas algumas fotos que registram nossa alegria, minha, do Jamerson e do Jadeir, assistindo a uma partida de futebol. Hoje caminhamos pelos corredores escuros onde piscam luzes intermitentes, vermelhas, amarelas… caminhamos e mal esbarramos em alguém. Ouvimos ecos da torcida logo acima, que nos ignora. Sentimos um certo arrepio por sabermos, intuitivamente, que a bola raspou a trave, que noventa minutos ainda não definiram um jogo.

Outro dia flagrei Johnson, o filho de John, com a orelha pressionada contra uma parede, tenso, tentando escutar o desenrolar, segundo ele, de um jogo da seleção brasileira, que se propagava em ondas, aparentemente desde a superfície até aquele ponto exato. — Contra quem? — Perguntei. 

— Não sei, mas estamos perdendo. — De repente ele olhou para mim e completou:

— Tem três dias que tô acompanhando esse jogo.

Então ele me explicou que percebeu variações inexplicáveis em certos gráficos durante os bombardeios regulares no núcleo do Maracatron. Mapeando o complexo em busca de distorções de realidade, encontrou alguns pontos de reverberação de onde emanavam sons que provinham da superfície, do estádio, através de caminhos tortuosos pelos dutos e paredes, chegando apenas a esses pontos milimétricos da estrutura ao nosso redor. Nesses pontos, com estetoscópios, ou com o rudimentar método de colar a orelha contra a parede, podia-se escutar o desenrolar da tal partida, entre o Brasil e uma seleção desconhecida. Esse looping dimensional já durava três dias, até onde podíamos saber.

Deixei Johnson monitorando o jogo e saí a procura do Jadeir, aquele cínico. Acabei por encontrá-lo no controle central, debruçado sobre os monitores, atento aos gráficos e números que se multiplicavam nas telas, em busca das coordenadas específicas que irradiavam aquele jogo bizarro.

— Pelo visto não fui o único a encontrar o Johnson…

— E você acha mesmo que eu precisaria encontrar com Johnson para saber que algo está fora do lugar?

— O que será que tem por trás desse jogo?

— O de sempre… o estagiário de sempre bombardeou a partícula errada de sempre com outra partícula errada e agora deve estar tomando café no 5º subsolo. Como sempre. Filho sabe-se lá de quem… Se você quiser destruir o mundo, basta alocar um estagiário no lugar certo, fazendo a coisa errada.

— Como vamos sair dessa? onde a gente acha esse estagiário?

— Quem disse que ele arrumou um estágio aqui? — Respondeu Jadeir, como sempre, ignorando minha pergunta e criando ainda mais dúvidas na minha cabeça. Enigmático, maldito enigmático. Onde ele queria chegar?

— E agora… o que vamos fazer?! — Insisti.

— Temos que descobrir qual é o outro time e utilizar esse dado no reversor fatorial de nêutrons. Talvez assim a gente consiga anular o looping e acabar com esse jogo.

— Mas a gente tá perdendo, Jadeir. Esse jogo não pode acabar agora.

— Volte para a sua cela!

— Jadeir, a gente não vive em celas aqui… mas em alojamentos.

— Chame como quiser… olha, vou dar uma chance pros palhaços. Se esse jogo já dura três dias, a gente pode deixar rolar mais um pouco. Não creio que vá fazer mal maior do que já foi feito à tecitura do que quer que seja.

De repente escutamos a voz de Johnson ecoando pelos corredores e salas:

— Levamos mais um!

Jadeir correu desesperado para pegar o reversor fatorial de nêutrons e executou cálculos complexos que eu jamais esperaria ele que conhecesse. Foi como se a minha mãe começasse a falar aramaico de uma hora pra outra.

— Vamos acabar com esse merda agora! Aposto que é a Argentina!

Jogou o Argentina codificado e anagramatizado no reversor, que emitiu sinais e ruídos típicos de um reversor fatorial de nêutrons. Por fim um apito pareceu soar dentro da minha cabeça. Caí ajoelhado…

— É o apito final… o apito final. — murmurou Jadeir.


Será?

e agora, esse disparar de corpo que não quer ir e não quer voltar. essa adrenalina de dentes. essa coisa fósforo acesso na mente e entre as pernas colorindo o rosto de vermelho. essas perguntas todas, como gigantes cães de algodão, flutuando e ganindo baixinho. ignorando a rua que está num abandono de dar nó no peito e na garganta. ignorando o perigo do grito que não terá ouvidos. [Texto de Laura Limp]

Uma voz nova chegando na Revista Kuruma’tá! Enquanto participávamos do atentamente do Festival Levada recebemos essa mensagem, perguntando se tínhamos espaço para uns textos… e sim, tínhamos. E temos. E assim Laura Limp, atriz, feminista, mãe de três, poeta, letrista, performer, fotógrafa, diretora, tradutora e inquieta. Sim, tudo isso e ainda mais. Quem chega na Kuruma’tá é sempre múltiplo! Detalhe, Laura estava trabalhando com o Levada e foi assim que as pontes se deram!

E aqui está seu primeiro texto carregado de poesia, lírico e onírico e desafiador. Bem-vinda, Laura!

Toinho Castro (Editor)

Texto de Laura Limp


e a feira começando seu monta-monta colorido. e o dia ameaçando chegar mas não chegando. e o vento fazendo as folhas fofoqueiras e amareladas das copas largas das árvores conversarem comigo. e eu lá, meio fingindo que não escutando, mas meio sabendo do que falavam. e essa vontade de sair correndo até que os pés desistam do solo.

e todos os detalhes da minha antiga rua (que é caminho pra sua casa) subitamente tão diferentes. e tudo de estranho nesse trajeto que faço agora, à contra gosto, de volta pra minha casa, ferindo meus  olhos. como a santa na portaria do prédio que eu sabia de cor, porque queria habitar como planta as varandas dele. como o formato de rosto na parede descascada do outro prédio de esquina ou aquela pomba amassada na calçada e ainda viva, sofrendo em silêncio, perto do meio fio partido. e tem também aquele fusca cor de barbante estacionado que nunca saiu de lá e não vai sair porque eu proíbo.

tudo que fazia aquela rua me ser conhecida e ser trajeto (e de um jeito meio bobo ser também afeto) vai virando do avesso, como minhas veias-galhos sufocando os músculos cansados daquela dança estúpida que teimamos em não dançar.

e agora, esse disparar de corpo que não quer ir e não quer voltar. essa adrenalina de dentes. essa coisa fósforo acesso na mente e entre as pernas colorindo o rosto de vermelho. essas perguntas todas, como gigantes cães de algodão, flutuando e ganindo baixinho. ignorando a rua que está num abandono de dar nó no peito e na garganta. ignorando o perigo do grito que não terá ouvidos.

mas depois de tudo pelo avesso e tomando vento e tomando vento e ardendo e retendo poeira e ardendo mais, nada mais assusta. é translúcida a  vontade de sair caminhando assim, num trajeto de flecha torta.  o rosto contorcido e perplexo, antecipando o rio que chega, desgovernado feito tromba d’água, e não poder (ou querer) fazer nada além de deixar que ele siga seu curso como sigo o meu.

sair caminhando, roçando a sola do all star encardido no concreto-tinta-sujeira-cocô-e-pó e sentir a eletricidade dos cabos de alta tensão nos cabelos soltos e o calor do vento atravessando o peito de chuva que vai chegar. enquanto isso, observar os pássaros, que talvez sobrevoem a minha imaginação sonhando, em pleno vôo, com os dias esverdeados de mar.

saí de entre travesseiros e olhares-esfinge com vontade de ficar mais e me dissolver entre as estampas feias do teu lençol e a cor morena da tua pele. para que nunca mais sentisse essa coisa que é partir sem saber de nada, nem de si. para que desaparecesse, como quem nunca esteve caminhando por aí, quase entendendo as coisas. para que desfraguimentasse minhas partículas-memórias em esquecimento líquido e selvagem até ser capaz de, novamente, frequentar aquela feira e seus ruídos sem estremecer com a vontade que me arrasta o espírito, contrariado, até a sua porta. só para juntar os seus caquinhos de mal-entendidos idiotas.

tudo isso porque, um dia, alguém te disse que a gente não era possível. meu amor, te canto como Marina: “pátrias, famílias, religiões e preconceitos. quebrou não tem mais jeito não.”

Imagens de Laura Limp

Cidade do caos | Parte III

Agachada e longe da janela, esticou a mão para o capote largo que deixava sempre na cadeira da escrivaninha, pronto para qualquer eventualidade. Na bolsa, uma peruca loura e óculos escuros. Calçou um par de tênis leves, para o caso de precisar sair correndo, e meteu o 38 no bolso do casacão. Achava que assim estaria irreconhecível. O fato de fazer um calor de rachar parecia irrelevante. [Noveleta de Octavio Aragão]

Noveleta de Octavio Aragão


No aparelho na rua Uruguai, Lara, codinome Adriana, esperava. Três meses e nenhuma notícia de Joel, codinome Eduardo, que havia partido para a Bahia e nunca mais voltou. O Partido não sabia do paradeiro de Eduardo (era importante pensar nele assim, como “Eduardo”, como uma ficção), mas recomendou que ficasse quieta, escondida, pois as paredes tinham olhos, ouvidos e até línguas. Dormir era um luxo ao qual não se permitia desde que o grande líder José Arruela foi executado a tiros dentro de um cinema, logo ali, na Praça Saens Peña, assistindo a um desenho animado. Num momento ouvindo a Cinderela, no outro, varado a bala.
Às sete da manhã, Lara (não, Adriana!) mastigava um pão velho, longe da janela, da qual não se aproximava, quando ouviu a gritaria. Seguiu as regras de segurança, pegou o 38, enfiou-se debaixo da escrivaninha de madeira reforçada e aguardou as bombas de fumaça. Mas não fazia sentido. Não poderiam saber que ela estava ali. Resolveu esperar, sem permitir que a paranóia, essa velha companheira, a dominasse. Afinal, a pessoa perfeita para o paraíso que viria depois da Revolução não poderia ser assim, descontrolada. Teria de ser forte para guiar as massas, os infelizes dominados pela ditadura capitalista, incapazes de pensar por si mesmos.
Esperou acocorada, protegida. Acalmou-se pensando no futuro, num amanhã glorioso que não tardaria, ela ao lado de Joel – não, Eduardo – livres, sob o sol da democracia popular, todos iguais, irmanados pelo país e, depois, pelo mundo. Adormeceu, sonhando com o jardim perfeito, um céu límpido e uma sirene horrível.
Deu com a cabeça no fundo da escrivaninha. Sirenes. A esta hora. Só podia ser uma coisa. Os malditos a tinham descoberto, mas não queriam dar chance de fuga ou resistência. Usavam as sirenes para espantar o povo, liberar a área, como se o prédio dela estivesse em chamas. Desgraçados, desgraçados, desgraçados. Mas não seria fácil. Ela não cairia nas mãos desses covardes.
Agachada e longe da janela, esticou a mão para o capote largo que deixava sempre na cadeira da escrivaninha, pronto para qualquer eventualidade. Na bolsa, uma peruca loura e óculos escuros. Calçou um par de tênis leves, para o caso de precisar sair correndo, e meteu o 38 no bolso do casacão. Achava que assim estaria irreconhecível. O fato de fazer um calor de rachar parecia irrelevante.
Sempre agachada, esticou a mão e abriu a porta dos fundos do apartamento. Esgueirou-se, rezando para nenhum vizinho vê-la (pois caso acontecesse, teria de matar, tudo em prol da Revolução). Saiu pela garagem, que dava para a rua Pontes Correa, e caminhou para a Maxwell, de onde poderia, com sorte, pegar um táxi até o Comando Central, no Méier, e informar ao Partido que tinha sido descoberta.
Na esquina da Maxwell, deu de cara com uma viatura policial e recuou, mantendo o revólver na mão, escondido no bolso. Lembrou do quartel do 1º Batalhão da Polícia Militar, na Rua Barão de Mesquita. O Partido achou que seria uma boa ideia manter um aparelho por ali exatamente por ser próximo dos inimigos. “Eles jamais procurariam tão perto”, foi o que disseram, porque, claro, todos os militares eram burros como portas. Agora, ela estava encurralada.
O que Jo… Eduardo faria? Tentaria criar uma bagunça com um rifle de precisão, mas ela não era boa de mira. Sua especialidade eram explosivos e, nesse caso, de nada adiantaria uma bomba.
E então, do nada, um táxi. Do outro lado das pistas duplas da Maxwell, mas, com sorte e uma boa corrida, com certeza chegaria lá, se jogaria dentro do carro e partiria na direção contrária ao fluxo. Rumo à salvação. Não havia escolha, tinha de ser já. Em três passos estava na pista, mais cinco e pegaria o carro, que já estava engatando a primeira. Lara, Adriana ou seja lá quem ela fosse naquele momento acelerou a corrida.
Mas o carro, um velho DKW, já ia longe. Ela xingou e correu, desvairada, uma mulher de casaco, peruca loura e óculos escuros, numa manhã de segunda-feira ensolarada, berrando palavrões atrás de um táxi no meio da rua. Um homem muito sujo, talvez um mendigo, vendo a cena, apiedou-se dela e fez sinal ao carro, que parou. Laradriana agradeceu à boa sorte, mas infelizmente o casaco, com um peso no bolso, desequilibrou a corrida, fazendo com que sua perna direita batesse no pé esquerdo. A mulher resvalou na calçada, e correu por alguns metros buscando manter-se de pé, mas foi impossível. Lara, sim, Lara, estatelou-se no chão e o revólver saiu do bolso, girando pela calçada.
O homem que parou o táxi correu para ajudá-la, mas congelou ao ver a arma. Ela levantou-se como pôde, apanhou o revólver e ainda tentou pegar o táxi, mas dessa vez não houve milagre. O motorista, antevendo problemas com mulheres armadas e mendigos fedorentos, acelerou e desapareceu. O homem imundo esticou o braço, tentou falar alguma coisa em um tom de voz ameno, mas Lara estava surda. Com o cotovelo machucado, ela se ateve à programação: “sem testemunhas”.
Levantou a arma e disparou. Para alguém ruim de mira e com o braço ferido, o tiro foi certeiro. O homem imundo caiu morto com uma bala na testa.
O som do disparo atraiu a atenção de um grupo de pessoas que vinha do rio Maracanã e logo um deles, Lara não sabia qual, mas pela voz aguda deveria ser uma mulher, gritou:
– Aquela loura atirou no homem! Deve ter sido ela quem matou as crianças!
Sem largar a arma, Lara desembestou pela Maxwell, fugindo do grupo. Ficava se perguntando quem seriam as crianças mortas e o que tanta gente estava fazendo na rua, perto do rio. Tinha até um sujeito com uma câmera de filmagem. Não podia ser por causa dela, devia ser alguma coisa no rio e sua intuição a fez se aproximar da margem.
Lá estava resposta. Os malditos fascistas e sua sanha torturadora. Por entre os urubus, estavam corpos mutilados, cortados, desmembrados, e, olhando com cuidado, ela conseguia identificar detalhes. Aquele pano estampado… não era uma camisa com motivos havaianos que ela havia dado ao Joel. Uma representação do Paraíso que viria? E aquele aro de metal preso no que parecia uma mão descarnada seria uma aliança? Seria possível que fosse Joel ali, despedaçado pelos cães militares?
– Solte a arma, moça! – gritou uma voz, talvez de um policial, talvez de um militar, com certeza de um inimigo.
Lara virou atirando. Acertou um, errou três. Foi alvejada quinze vezes e caiu de costas, ao lado do que acreditava ser o corpo de Joel. Morreu feliz, abraçada à carne pútrida.


*Montagem a partir de foto de arquivo pessoal e imagem do Freepik.

O mar da História é manchado

Com o óleo manchando as águas claras, cristalinas, as águas verdes e mornas do Nordeste, a Revista Kuruma’tá não pode ficar calada. A gente fica inquieto, agoniado, longe que estamos daquele litoral que se estende do Maranhão à Bahia. Resta-nos a palavra, pois como logo diz o mestre Nonato Gurgel nos poemas que aqui e agora apresentamos, nada mais político que falar. Então a gente fala. A gente fala no vento que sopra para aquelas bandas, a gente sopra contra a corrente do óleo que avança. Palavra é sopro. Com vocês, a força da poesia de Nonato Gurgel.

Com o óleo manchando as águas claras, cristalinas, as águas verdes e mornas do Nordeste, a Revista Kuruma’tá não pode ficar calada. A gente fica inquieto, agoniado, longe que estamos daquele litoral que se estende do Maranhão à Bahia. Resta-nos a palavra, pois como logo diz o mestre Nonato Gurgel nos poemas que aqui e agora apresentamos, nada mais político que falar. Então a gente fala. A gente fala no vento que sopra para aquelas bandas, a gente sopra contra a corrente do óleo que avança. Palavra é sopro.

Poemas de Nonato Gurgel


Foto de Toinho Castro – Mar do Rio Grande do Norte

I – Nada mais político do que falar

Desde o final de agosto
ventos e ondas arrastam
manchas escuras pelas praias
dos nove estados do Nordeste

São manchas que se deslocam
manchas que voltam revoltam
manchas que partem repartem
dão cria a manchas menores

Pedras de óleos também são vistas
tartarugas e peixes morrem
barris amarelos boiam
no verde azul do alto mar

Venezuela e Shell na jogada?
o real chapa hum mas se um
muito estranho 194 localidades
o que dizem os silêncios da Marinha?

II – Nada mais político do que limpar

Numa torrente coletiva
moradores e voluntários
da Praia dos Carneiros
limparam 30 toneladas
de óleos

Até 20 de outubro
Pernambuco retirou
de suas praias
70 toneladas
de óleos

III – Nada mais

O ministro do meio ambiente sobrevoa
o crime ambiental que atinge
mais de 2 mil km da costa

Condenado por ações ambientais no Sudeste
o ministro sobrevoa mas não limpa
o óleo entre pedras praias vegetais

IV – Nada

Ele não
ele nada
ele sequer vê as manchas
ele vai viajar para longe
Tóquio Pequim Emirados

Ele extinguiu o Comitê contra os desastres por óleos?

V – Águas agitadas como os mares da História

Na noite das águas problemáticas
pescadores e marisqueiros narram
o óleo que a maré leva aos rios e cidades
Oito rios de Sergipe
12 cidades de Alagoas

Somem os turistas da foz
do São Francisco e Arembepe
Cabo de São Roque Maracajaú
Maragogi Costa dos Corais
Caraúbas Tamandaré

O Ministério Público acusa
de omissão o governo e pede
que seja acionado o Plano Nacional
de Contingência para incidentes
de poluição por óleo em águas


Iremar de Zé Pereira, poeta em seu dia

Fomos até Iremar. Casa fechada, nenhuma respiração, nenhuma luz. Bateu-se à porta. Chamou-se-lhe o nome. Proclamou-se o prefixo. E Iremar respondeu. O castelo se abriu e nós entramos na pedra. Queríamos ver os poemas. Mais do que os poemas observamos o seu trabalho beneditino. Na cabeça seus cabelos são versos de cordel. A vasta cabeleira é uma coleção de sextilhas. A cabeça toda uma biblioteca cordelística a ser desbravada. A pequena máquina datilográfica sobre um tamborete. Papel, tesoura e cola. [Texto de Aderaldo Luciano]

Texto de Aderaldo Luciano


Guardei para o dia do poeta essa história de um poeta passada em 2014. Em São João do Cariri, ali onde o Rio Taperoá carrega as almas em tempo de cheia e em tempo de seca se vêem suas assombrações, viveu um antigo Capitão-Mor já descrito e sonhado por Júnior Cordeiro, galego e feiticeiro. Esse capitão aparecera em sonho e entregara sua botija a uma senhora. É de conhecimento popular que só quem recebe a botija é quem poderá arrancá-la da terra onde está bem guardada. Mas não é sobre essa botija que quero contar. Nem sobre o capitão. Nem sobre a senhora que sonhou o capitão. O caso trata de Iremar de Zé Pereira.

Francisco Almeida (Xicão, artesão e mágico) falou-me de Iremar e de sua veia poética. Disse-me ainda que Iremar vivia sozinho, costumava sair pouco de casa, preferia não receber visitas e desconfiava desses doutores da cidade que aparecem guiados por alguma estrela, de templos em templos. Da Muralha do Meio do Mundo, depois de ficarmos entalados nas pedras, descemos à cidade para encontrar Iremar. Cruzamos a vasta rua principal com seu casario colonial, fomos ao casarão mourisco, atravessamos a rua com destino à ponte velha. No escurecer do dia, quando a natureza está trocando a guarda…

Fomos até Iremar. Casa fechada, nenhuma respiração, nenhuma luz. Bateu-se à porta. Chamou-se-lhe o nome. Proclamou-se o prefixo. E Iremar respondeu. O castelo se abriu e nós entramos na pedra. Queríamos ver os poemas. Mais do que os poemas observamos o seu trabalho beneditino. Na cabeça seus cabelos são versos de cordel. A vasta cabeleira é uma coleção de sextilhas. A cabeça toda uma biblioteca cordelística a ser desbravada. A pequena máquina datilográfica sobre um tamborete. Papel, tesoura e cola. É assim que ele trabalha. Datilografa as estrofes de quatro em quatro, recorta-as a vai colando no livrinho. Terminado, dobra e costura. Ali está o folheto.

Queria dizer aos senhores que Iremar nunca leu Ezra Pound. Iremar é um poeta do Brasil profundo. Iremar conhece as minúcias e minudências do cordel brasileiro. Joga razão sobre a métrica, deita fogo sagrado sobre as rimas. Trabalhou nas frentes de emergência, naquele tempo de seca braba. Talvez tenha até mascado pedras e se banqueteado com suculentas folhas de palma e bananas da macambira. Ou feito amor com algum pé de xique-xique. Não sei. Estava lá no seu poema uma série de verdades. E invenções. Talvez a alma daquele antigo Capitão-Mor tenha sussurrado coisas ao seu ouvido, lhe passado o caminho das ervas, a estrada da solidão. Fui lendo seu texto e solicitando que Xicão fosse fotografando nossa conversa, nosso encontro, nosso espanto.

E aconteceu, como contei a algum amigo secreto, que no meio do poema vi estupefato um acróstico. Não era o acróstico de Iremar. Era o acróstico de Ezra Pound. Mas não podia ser porque nunca que Iremar ouvira falar de Pound ou lera as merdas daquele poeta chato, mas interessante. Estava ali e hoje procuro explicação para isso. Procurou-se e retirou-se de uma bolsa qualquer uma teoria junguiana para o fato, mas não convenceu-me. Ainda. Atribuo o fato à presença do espírito daquele capitão-mor malassombrado que persegue os sonhos segurando um mapa do tesouro. Comprovem comigo. Iremar merece mais que uma crônica sem futuro no Facebook. Iremar de Zé Pereira, hoje é seu dia, o dia do poeta, que é todo dia.


Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa: A Biblioteca Universal

A Revista Kuruma’tá apresenta a série Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa, do escritor e tradutor Fábio Fernandes! Alegria pra gente é ver gente boa alinhando com a Revista Kuruma’tá, chegando junto, acreditando. E agora chega com a gente mais um grande nome da literatura de ficção científica brasileira e fantasia: Fábio Fernandes! Autor de livros publicados no Brasil e exterior, como a coletânea de contos Interface com Vampiro e os romances Os Dias da Peste e Back in the USSR, Fábio também é tradutor de maravilhas como Laranja Mecânica, O Homem do Castelo Alto e Belas Maldições.

Da série Pequeno dicionário de arquétipos de massa

Alegria pra gente é ver gente boa alinhando com a Revista Kuruma’tá, chegando junto, acreditando. E agora chega com a gente mais um grande nome da literatura de ficção científica brasileira e fantasia: Fábio Fernandes! Autor de livros publicados no Brasil e exterior, como a coletânea de contos Interface com Vampiro e os romances Os Dias da Peste e Back in the USSR, Fábio também é tradutor de maravilhas como Laranja Mecânica, O Homem do Castelo Alto e Belas Maldições.

E hoje começamos a publicar na Kurum’tá sua série de textos Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa. Somos brindados então com a presença regular da Fábio na Revista. Seja bem-vindo!

Toinho Castro (Editor)

Texto de Fábio Fernandes


e quem nos livrará dos sonhos com coisas impossíveis, eu me perguntava no instante em que atravessava os pórticos imensos da Grande Biblioteca, entrando naquele espaço positivista, grande, escuro e opressor por fora como convém, mas surpreendentemente claro por dentro, composto de salas pequenas repletas de prateleiras menores ainda, armações toscas de madeira mal pintada de branco que mal batiam à altura da minha cintura mediana de um brasileiro de um metro e setenta e dois centímetros, e uma vez dentro estava dentro, não cabia a mim questionar qual o significado do sonho, um bom bibliófilo não questiona essas coisas, apenas cuida de escarafunchar estantes, é essa a sua função. Mas qual não foi minha surpresa, após poucos minutos vasculhando as prateleiras, ao descobrir um libro de bolsillo, uma edição argentina, emecé editores talvez, uma tradução para o espanhol de um livro de Foucault analisando Corto Maltese, livro bastante raro inclusive se considerarmos o fato de que ele não existe, pelo menos no nosso mundo, que segundo alguns, é apenas um de muitos. Não foi minha única surpresa, pois logo a seguir encontrei um livro precioso, raro até mesmo no mundo dos sonhos (intuo isso porque o livro estava caindo aos pedaços, e sua encadernação dava a entender que fosse um exemplar impresso na década de trinta ou quarenta), e que era uma compilação de ensaios sobre crítica literária escritos por Graciliano Ramos. Se eu pudesse ao menos ter lido os livros em sonho, mas acabei despertando durante uma das buscas pelas prateleiras brancas e empoeiradas, enquanto me desviava de outras pessoas, talvez outros sonhadores como eu, a gente nunca tem como saber dessas coisas, e foi justamente então que acordei, incrivelmente consciente do sonho, mas incapaz de ter trazido os livros comigo. Desde então os procuro, mas nunca mais consegui voltar à Grande Biblioteca.

Foto: Montagem a partir de duas fotos do Pxhere (Biblioteca e Nuvem)

As origens do Coringa não estão nos quadrinhos

Nunca fui fã das histórias em quadrinho de super-heróis e, por conseguinte, de suas adaptações para a tela grande. Em grande parte, meu descontentamento vem do maniqueísmo de cartilha que impede a construção mais aprofundada do comportamento tanto dos heróis quanto dos vilões. Comumente, o bem e o mal precisam de estereótipos para sustentar a simpatia e a antipatia do leitor – ou espectador – para que as revistas – ou filmes – rendam alguns trocados. [Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota


Nunca fui fã das histórias em quadrinho de super-heróis e, por conseguinte, de suas adaptações para a tela grande. Em grande parte, meu descontentamento vem do maniqueísmo de cartilha que impede a construção mais aprofundada do comportamento tanto dos heróis quanto dos vilões. Comumente, o bem e o mal precisam de estereótipos para sustentar a simpatia e a antipatia do leitor – ou espectador – para que as revistas – ou filmes – rendam alguns trocados.

Imagine o Batman jogando uma guimba de cigarro na rua, ou o Homem Aranha avançando um sinal vermelho, ou o Capitão América não cedendo seu lugar num vagão de metrô lotado para uma senhora de idade.

O filme do Coringa passa longe de estar na prateleira de adaptação de histórias em quadrinho. Nem mesmo é um filme sobre vilania. Não fosse a personagem sabidamente a antagonista do Batman, seria uma produção dramática com um certo viés noir. É, sim, um filme de formação.

Não vou falar da atuação monumental de Joaquin Phoenix, nem da iluminação, nem da montagem, nem da edição, nem da fotografia… Muito se falou também das referências ao “Rei da Comédia”, inclusive com a participação de seu protagonista, Robert de Niro.

Mas pra mim, é impossível não lembrar de duas figuras, uma da música e outra do folclore medieval.

A primeira é GG Allin, vocalista de uma banda obscura de punk rock chamada The Murder Junkies. Os shows não eram famosos por conta da música que tocavam, mas sim pelo festival de escatologia que Allin promovia no palco, que incluía defecar ao vivo, beber xixi de prostitutas, bater com o microfone na testa até sangrar e se mutilar com lâminas de barbear. As pessoas pagavam para ver um ser humano incapaz e decadente se humilhar por alguns míseros dólares.

O resultado disso foi o suicídio de Allin, que tinha plena consciência do que fazia e assim o fazia para entreter uma dúzia de espectadores. Todd Phillips, bem antes de ser alçado ao estrelato com sua franquia “Se beber, não case”, fez um documentário perturbador sobre ele, chamado “Hated”. Um dos filmes mais difíceis e pesados que já vi.

Guardadas as devidas proporções, lembra a cena do número de stand up comedy de Coringa.

A outra figura que o Coringa me lembrou é o personagem do século 16, não se sabe se fictício ou real, Till Eulenspiegel. Reza a lenda que ele era um bufão miserável que, expulso da corte por seus números extravagantes, andava por vários reinos fazendo troça dos mais abastados – incitando, inclusive, levantes contra a igreja e a nobreza. O nome do nosso acento ortográfico é exatamente uma alusão à figura de Till, que era considerado um “herói torto” das massas.

Guardadas as devidas proporções novamente, impossível não lembrar da luta de classes que serve como pano de fundo em “Coringa”.

O riso cínico do Coringa, que quando ainda era Arthur era encarado como um problema neurológico, é também uma tomada de consciência quase impossível em uma história em quadrinho do Batman. Não há tempo, naquele suporte, para dirimir o maniqueísmo.

Só queria dizer isso mesmo.

Escultura em bronze: Gerhard Marek, Foto: Christine Faust

A intimidade da dedicatória

Havia nesse livro que eu peguei com o Olivar uma dedicatória linda. Escrita com letra delicada, caneta de ponta porosa, preta, e adornada com desenhos que evocam a história contida no livro, a dedicatória é endereçada a um casal, familiares de quem a escreveu. Na mesma hora me animei a escrever um texto sobre essa dedicatória para a Revista Kuruma’tá. Na mesma hora pensei em fotografar o livro, a caligrafia cursiva e flagrar aquela gentileza, possivelmente carregada de amor. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Ontem estive na banca do querido Olivar, aqui na Carioca, centro de Rio de Janeiro, com meu sobrinho, o Gabriel. Se você não conhece o Francisco Olivar, nem o trabalho incrível que ele faz, clique aqui e leia um texto que escrevi sobre ele e sobre esse tal trabalho incrível que o move há 40 anos… vender livros. Mas vender livros, para Olivar, é na verdade o último passo de um processo que envolve muito amor pelo livro e conhecimento da causa, da importância de não permitir que os livros morram, de colocá-los, sempre, em circulação; sempre na mão de alguém.

Mas eu estava falando mesmo era da minha ida à banca do Olivar com Gabriel, e já ia contar do livro que acabei trazendo comigo pra casa. Mais um livro usado para a minha modesta biblioteca alimentada cada vez mais por livros usado. E não faça pouco caso dos livros usados, pois os livros novos tornam-se usados na mesma hora em que são comprados. Livros usados são aqueles que realmente existem; os que moram no limbo das estantes e vitrines das livrarias estão apenas aguardando para se tornarem livros.

Uma das coisas que me maravilha nos livros que compro nos sebos são as dedicatórias. A dedicatória faz parte do livro tanto quanto um prólogo ou os capítulos. Uma vez inscrita na folha de rosto, a dedicatória torna qualquer livro um objeto único, influencia a forma como o lemos, muda seu sentido. Quando leio uma dedicatória num livro, penso naquelas duas pessoas, naquele encontro. Penso no momento mágico em que uma deu com o livro em alguma livraria e pensou na outra…. essa coisa do presente é muito linda, né?! Não falo das obrigações, das datas, de ter que dar um presente. Falo dessa outra situação, carregada de vontade, muitas vezes de espontaneidade, quando uma pessoa se conecta a outra por meio de um objeto mágico, como um livro. Penso logo numa molécula, dois átomos unidos por uma forte ligação que os transforma, a ambos, em uma outra coisa.

Havia nesse livro que eu peguei com o Olivar uma dedicatória linda. Escrita com letra delicada, caneta de ponta porosa, preta, e adornada com desenhos que evocam a história contida no livro, a dedicatória é endereçada a um casal, familiares de quem a escreveu. Na mesma hora me animei a escrever um texto sobre essa dedicatória para a Revista Kuruma’tá. Na mesma hora pensei em fotografar o livro, a caligrafia cursiva e flagrar aquela gentileza, possivelmente carregada de amor.

Só que percebi que quem escreveu a dedicatória foi a mesma pessoa que escreveu o livro, um livro de memórias. Memórias compartilhadas amavelmente com aqueles dois, não só nas páginas como na vida. As histórias ali contadas eram histórias da família, de suas aventuras e graças. Um resgate de infância, um gesto de registrar coisas que de outro modo estariam dormindo no passado e aos poucos sumiriam. Então de repente me veio um pudor… o pudor de abrir a caixinha em que o livro havia se transformado e revelar os protagonistas daquela intimidade. Lembre que quem escreveu aquelas páginas ainda está entre nós e que, de alguma maneira, aquele presente foi parar nas mãos do Olivar, no centro do Rio de Janeiro. Pensei nos mil caminhos que levaram o livro até ali e todos me pareceram meio tristes. Pensei que relevar esse deslocamento seria expor, talvez, um dessas histórias tristes e suas personagens. Será que o casal presenteado faleceu e no desmontar de seu lar os livros foram dispersos, numa diáspora impossível e rastrear? Ou doados? Ou perdidos?

Achei por bem então manter fechada a caixinha dessa narrativa que se criou a partir de uma dedicatória. Teria sido feita num dia de chuva ou de noite estrelada? No aconchego de casa ou na festa do lançamento do livro, em meio a sorrisos e gente estranha? E ali a família subitamente reunida em torno de uma coleção de memórias, de dias na praia, de primos, tios, avós… E aqueço-me na pequena vaidade de compartilhar da intimidade dessa dedicatória, de ser o sujeito oculto, observador de tantas linhas temporais e afetivas se cruzando num pequeno texto, escrito a mão, num certo setembro de 1991.

Contenho minha ansiedade e me sinto o guardião silencioso de um registro de carinho, de palavras de afeto. Desse momento único em que pessoas queridas se encontram e fortalecem, por meio de um objeto mágico, um vínculo que os transforma numa molécula, em algo vivo e vibrante, que brilha à distância. No tempo e nos espaço.


PS. Ainda sobre dedicatórias e meu amor por elas, você pode ler o texto Com um beijo de Judite, que escrevi aqui para a Kuruma’tá, em março desse ano.

Cidade do caos | Parte II

Num misto de curiosidade e caridade, abraçando as bisnagas como se fossem seus filhos, Maria Luiza se aproximou do grupo. Sofreu algumas cotoveladas, mas conseguiu chegar à margem do rio. O que viu ali ficaria com ela para sempre em seus pesadelos, até a noite em que morreria cercada pelos netos ainda não nascidos, num casebre não muito maior que aquele que habitava. [Noveleta de Octavio Aragão]

Noveleta de Octavio Aragão


Maria Luíza passou a noite em claro e agora dormitava no trem, a caminho do trabalho. O tiroteio tinha durado umas três horas, mas foi o suficiente para deixar os nervos despedaçados e espantar qualquer possibilidade de sono. Os vizinho diziam que era uma caçada a criminosos, alguma coisa assim, como no tempo em que o Cabeça de Cavalo assombrava os morros, dando trabalho para os policiais. Agora os bandidos eram outros, uns tais que a patroa chamava de comunistas e que ela não entendia bem o que faziam.
– Ah, eles são um terror – dizia dona Melissa, que preferia ser chamada de “dona Mel”, do alto de seus sapatos – Assaltam bancos, querem tirar nossas casas. Dizem que, quando não têm comida, devoram crianças pequenas. E esses monstros querem derrubar o governo.
– Que horror! E por que o governo deixa essas pessoas existirem, dona Mel?
– Como assim, Maria? O governo não pode exterminar pessoas como se fossem baratas, por mais nojentas que sejam. Afinal, vivemos numa democracia.
Maria Luiza não sabia bem o que era democracia, mas pensava que devia ser uma coisa muito boa. De qualquer maneira, comer crianças pequenas… Se a polícia estava caçando essas baratas humanas, então o tiroteio era um mal necessário e, quando dormiu embalada pelo sacolejar do vagão, o sonho foi um arremedo de filme de terror, com baratas gigantes encurralando a ela e aos filhos no canto do barraco até que um policial parecido com os que o marido assistia na televisão matava os bichos. Onde andava o marido nessas horas ela não sabia dizer, mas o sonho acabou ao som do apito do trem, avisando a chegada à Central do Brasil.
A esquisitice começou na saída da estação do Maracanã, quando a multidão foi parada por um bloqueio policial.
“Não parecem com o moço com o qual sonhei”, pensou Maria Luiza, que tentou passar pelo homens suarentos, barrigudos e mal encarados vestidos com a farda azul da Polícia Militar.
– Não dá para passar, não, moça – disse um brucutu.
– Mas como assim? Preciso trabalhar!
Um rapaz de seus vinte anos, irritado com o impedimento, gritou.
– Uns comunistas fizeram baderna e a gente é que paga? Quem vai explicar ao meu patrão que cheguei atrasado?
Diante do cassetete do policial, o moço achou por bem guardar sua indignação na garganta, mas Maria Luiza fechou a cara em desaprovação. Como assim, uns comedores de criancinhas fazem o que bem entendem e prejudicam pessoas de bem? Não, ela iria passar e ninguém a deteria.
Deu um jeito de circundar o quarteirão, tomando distância do cerco que se estendia por três ruas, visivelmente preocupado apenas com quem desembarcava do trem, como se as pessoas não pudessem chegar por outros caminhos. Com sorte, perderia apenas uns dez minutos, conseguiria chegar incólume à Rua São Francisco Xavier e ainda passar na padaria a tempo de levar uns pães fresquinhos para dona Melissa. Vai que ela adiantaria umas rabanadas para o Natal, na quinta-feira.
Foi na saída da padaria que viu a aglomeração perto do rio Maracanã. Um menino de olhos arregalados passou correndo, quase esbarrando nela.
– Os defuntos, tia, os defuntos no rio!
Num misto de curiosidade e caridade, abraçando as bisnagas como se fossem seus filhos, Maria Luiza se aproximou do grupo. Sofreu algumas cotoveladas, mas conseguiu chegar à margem do rio. O que viu ali ficaria com ela para sempre em seus pesadelos, até a noite em que morreria cercada pelos netos ainda não nascidos, num casebre não muito maior que aquele que habitava.
O mais assustador eram os ossos escuros, despontando da carne vermelha, rasgada pelo que pareciam golpes de um facão. Um emaranhado de carne que com certeza eram os restos mortais de três pessoas de sexo indefinido, circundados por arames farpados, cordas e panos nos quais Maria Luiza reconhecia restos de roupas. Pessoas que pareciam mastigadas, moídas, boiando meio submersas entre os dejetos de dois bairros da Zona Norte. E aquele cheiro…
Um homem com um microfone aproximou-se dela. Devia ser um repórter da televisão.
– Senhora, por favor, poderia nos dizer o que acha que aconteceu aqui? Olhando para a câmera, está bem?
Maria Luiza, sentiu-se tomada por uma força maior. Cabia a ela falar para o Brasil o que estava acontecendo naquele bairro chique, onde coisas horrendas não deveriam aflorar.
– Foram os comunistas. Eles mataram as pobres crianças. Comeram pedaços delas e jogaram os restos no rio. Foi esta noite. Eu ouvi os tiros. Meu Deus, as crianças…
E Maria Luiza foi tomada por um acesso de choro convulsivo, afagando as bisnagas, apertando-as ao ponto de partir uma ao meio. Não lhe ocorreu que os tiros que ouvira na noite anterior foram disparados na Zona Oeste.

Crédito da imagem: Montagem feita a partir de foto de Rodrigo Soldon
Fonte: Wikipédia


Marília Parente: um petardo e um sopro

O disco (e eu queria perguntar aos mais agressivos se ainda se pode nominar de disco o edifício musical dos trabalhos dispostos nas plataformas digitais), continuando, o álbum (e repito aquela mesma pergunta) Meu céu, meu ar, meu chão e seus cacos de vidro, disposto nos alfarrábios do Spotify, onde o escuto há dias, repetidamente, foi disponibilizado aos mortais em setembro. [Texto de Aderaldo Luciano]

Texto de Aderaldo Luciano


Foto: Capa do álbum / Por: Renê Porfírio

Outro dia, uma declaração de Milton Nascimento causou espanto em nós os orelhudos da música nacionalística. “A música brasileira está uma merda!” ecoou pelas línguas digitais e pelos tímpanos formais da turba atordoada. Eu, membro da patuleia, pensei nas possibilidades miltonianas ao proferir o desabafo. Milton é uma de nossas estacas florais. Mas e talvez nunca tenha ouvido Marília Parente. Aliás poucos a ouviram, pelo menos nos quatro cantos (não confundam com os Quatro Cantos olindenses).

O disco (e eu queria perguntar aos mais agressivos se ainda se pode nominar de disco o edifício musical dos trabalhos dispostos nas plataformas digitais), continuando, o álbum (e repito aquela mesma pergunta) Meu céu, meu ar, meu chão & seus cacos de vidro, disposto nos alfarrábios do Spotify, onde o escuto há dias, repetidamente, foi disponibilizado aos mortais em setembro. Há muito eu gritava como Milton, bombardeado por elementos estranhamente mortíferos. E trombei com Marília.

Lembram daquela mordida que Mike Tyson deu na orelha de Evander Holyfield? Aquela que arrancou um pedaço da cartilagem auricular do fortão dos ringues? Foi assim. A voz, de amplo espectro e poderoso alcance, veio-me do meio do mato caatingueiro, um cardo-petardo. Veio-me também da beira, da terceira margem de algum Riacho do Navio celestial ou do franciscano rio cortando o nordeste em duas metades. Dizem que, no dia seguinte ao da mordida de Mike Tyson, uma empresa de chocolates lançava a orelha de Holyfield em chocolate. Foi assim também comigo.

O grito musical de Marília me fez tremer e me recheou de chocolate, acalmando-me o corpo e a alma. Seus cantos, litúrgicos, benditos, aboios trazem um resumo da música brasileira de primeira. Citações belas, construções inusitadas em melismas, frases tão fortes, instrumentos sertanejos, em cordas e ferros, em céus e praias ensolaradas. Queria que não passasse despercebido, queria que nem passasse, mas se materializasse em shows pelo Brasil e entrasse sem pedir licença na casa de Milton, o nascimento.

Há algo de mantra, há algo de vaqueirama, há algo de urbanidade de inspiração rural. Marília Parente não repete o antigo, nem se mete ao novo, voa pelo céu possível, pelo mar invisível, pelo chão palpável, como o faquir sobre sua cama de vidros ou pregos pontiagudos. Belo caminho aberto entre as pedras que não mais gritam. Nessa situação existencial-política na qual nos metemos e nos meteram, com um diabo-mor de olhar enlouquecido no planalto central do Brasil, ouvir o trabalho dessa pernambucana ousada me fez acreditar na Revolução.



Marília Parente – Foto de Renê porfírio

Escute a entrevista de Marília Parente para o Programa na Ponta da Agulha, com Jorge LZ