Midsommar

O argumento é brilhante, ainda mais se tratando de um diretor estadunidense: estudantes de antropologia viajam até uma vila longínqua na Suécia para participar de um festival em homenagem ao solstício de verão. A namorada de um deles, que não tem na “bagagem” referências como o estruturalismo, as manifestações totêmicas ou o determinismo é a protagonista que encaminha toda a linha narrativa. Psicóloga de formação, viaja abalada por uma tragédia pessoal.

Crítica de Eduardo Frota


O primeiro filme de terror de que se tem notícia tinha a mera intenção de entreter o público. Foi em 1896 que Georges Méliès apresentou um curta de apenas dois minutos chamado A mansão do Diabo. Resultado? Uma incauta plateia de cabelos em pé! Bem mais tarde, mais precisamente em 1920, O gabinete do Dr Caligari se tornou o primeiro longa de horror, colocando em discussão o tabu da morte e da quiromancia – quando o doutor em questão, também praticante de quiromancia, prevê a morte de um homem e… acerta! O gênero ganhou força e serviu como um espelho dos medos e anseios de nós mesmos, humanos. No início do século passado, muitos foram os clássicos da literatura de horror que foram transcritos para a tela grande.

Aí vieram os clássicos: filmes de vampiros, zumbis, espíritos e psicopatas. Também houve uma época em que qualquer animal gigante era aterrorizante e rendia bilheteria. Formigas gigantes, aranhas gigantes, vespas gigantes e até lesmas gigantes destruindo os sonhos da sociedade de consumo que se via em pleno declínio em meio a duas guerras mundiais. O contraponto era bem claro. Diferentemente dos insetos sociais, que vivem em colônias, o ser humano não conseguia se organizar para viver em comunidade.

Hollywood percebeu esse filão mercadológico e tratou de se apropriar das narrativas de terror. Cunhou uma estética que há muito tempo se mantém praticamente intocada: paga-se para levar sustos. E aí, convenhamos, sempre vemos mais do mesmo… É boneco assassino, palhaço do mal, criança fantasma, remake de terror japonês e uma série de produções que se prestam apenas a provocar pulos na poltrona e render continuações (já perdemos a conta de quantas vezes Jason já ressucitou). No entanto, dificilmente quem curte o gênero sai realmente assustado de uma dessas sessões. Poucas foram as produções que de fato marcaram a história do cinema e deixaram uma geração com medo de dormir no escuro, como O exorcista, A hora do pesadelo ou O iluminado.

No entanto, desde A Bruxa o cinema de horror ganhou um certo fôlego. Como Méliès já tinha provado, mais bacana do que pregar sustos é fazer com que o espectador fique amedrontado o tempo inteiro, até mesmo depois da sessão. É aquela história: não adianta ver o filme com uma almofada para cobrir o rosto em uma determinada sequência (ou tapar os ouvidos). O terror está lá o tempo inteiro.

Midsommar, do diretor Ari Aster, um dos produtores de A Bruxa, faz isso como poucos. Esqueça os sustos, a trilha sonora incidental que entrega o clímax e esses outros artifícios efêmeros. Nada de monstros, espíritos, possessões ou afins. Nem mansões caindo aos pedaços, casas assombradas ou cemitérios indígenas. Pelo contrário. A vila em que a narrativa acontece é idílica, com moradores receptivos e prestativos, vestidos de branco, no que mais parece ser um Éden. Aqui, o homem é algoz dele mesmo.

O argumento é brilhante, ainda mais se tratando de um diretor estadunidense: estudantes de antropologia viajam até uma vila longínqua na Suécia para participar de um festival em homenagem ao solstício de verão. A namorada de um deles, que não tem na “bagagem” referências como o estruturalismo, as manifestações totêmicas ou o determinismo é a protagonista que encaminha toda a linha narrativa. Psicóloga de formação, viaja abalada por uma tragédia pessoal.

Lá, o grupo de estrangeiros percebe que a linha que separa o que é cultura e o que é maldade é muito tênue. Impossível não lembrar de um texto que circulava pelas aulas de antropologia no primeiro período de algumas universidades, chamado “Os sonaciremas“. Enquanto os aspirantes a antropólogos tentam relativizar práticas nada convencionais, a protagonista encara uma jornada pessoal bem pesada, na qual êxtase e angústia andam de mãos dadas.

Como em seu filme anterior, Hereditário, Aster faz uma direção de atores brilhante. Diferentemente do primeiro trabalho, em Midsommar ele não utiliza reviravoltas mirabolantes e se atém ao argumento até o fim, o que mostra maturidade no ofício de diretor. Inclusive, não há nenhuma surpresa no desfecho. Sua força está na forma como é filmado – diga-se de passagem, irretocavelmente.

Os espectadores com estômago mais sensível talvez precisem de uma almofada em uma ou outra cena, porque a violência em certos momentos é brutal e até mesmo escatológica. Porém, é bem encaixada e coesa com a proposta.

Muito bom poder escrever isto > taí um belo filme de terror!


Cidade do caos | Parte I

Hoje, na Revista Kuruma’tá, temos a honra e alegria de receber um trabalho de Octavio Aragão, bravo escritor com três romances e inúmeros contos, publiocados em diversos países, e criador do inventivo projeto Intempol. Octavio nos chega com o inédito Cidade do Caos, um conto em quatro partes, escrito em 2017 e simplesmente atual e necessário nesse 2019 que se encaminha para o fim. Eu e Octavio, em 2010, sob os auspícios da de Elisa Ventura, da Blooks Livraria, engendramos o SpaceBlooks, um encontro das feras da Ficção Científica no Brasil. E o Brasil do jeito que tá pede mais encontros, mais contos como o de Octavio! Que venham! E agora, com vocês, a primeira parte de Cidade do Caos, de Octavio Aragão! Seja muito bem-vindo à Kuruma’tá!

Hoje, na Revista Kuruma’tá, temos a honra e alegria de receber um trabalho de Octavio Aragão, bravo escritor com três romances e inúmeros contos, publiocados em diversos países, e criador do inventivo projeto Intempol. Octavio nos chega com o inédito Cidade do Caos, um conto em quatro partes, escrito em 2017 e simplesmente atual e necessário nesse 2019 que se encaminha para o fim.

Eu e Octavio, em 2010, sob os auspícios da de Elisa Ventura, da Blooks Livraria, engendramos o SpaceBlooks, um encontro das feras da Ficção Científica no Brasil. E o Brasil do jeito que tá pede mais encontros, mais contos como o de Octavio! Que venham!

E agora, com vocês, a primeira parte de Cidade do Caos, de Octavio Aragão! Seja muito bem-vindo à Kuruma’tá!

Toinho Castro (Editor)

Noveleta de Octavio Aragão


– Será um filme diferente – Rabbio, bateu com a xícara de café na quina da mesa, respingando na calça manchada de tinta. As gotas logo entraram em comunhão com a padronagem, assumindo uma invisibilidade camuflada – Uma mistura de documentário e ficção.
– Isso não tem nada de diferente – Gautério, atento à porta do botequim, sequer alterou o semblante – O Resnais já fez. É superestimado, mas tá lá, existe.
– Seria diferente. Vamos mexer com o inconsciente desta cidade, mesclar artes plásticas e cinema como ninguém fez antes.
– Nem o Warhol?
– Você está de sacanagem com a minha cara? Eu sou Carlo Rabbio. Você é Gautério Pedro. Quem é esse tal de Warhol? Um impressor de camisetas, um artista de circo, uma farsa. Faremos o filme definitivo, um documentário sobre estes dias fétidos, uma metáfora da ditadura…
– Outra? Só eu já fiz duas – Gautério olhou em torno, discretamente. O governo militar costumava pegar leve com artistas premiados internacionalmente, mas não era bom arriscar discursos subversivos em lugares públicos. Felizmente, o único prestando atenção neles era o garçom, que se aproximava com o pedido. Feijoada no verão é coisa de gringo, ou seja, coisa do Rabbio.
– Não venha me falar do Lua em Trâmite, aquilo não é metáfora, é uma tentativa de filmar George Orwell com abacaxis no Parque Lage. É uma chanchada. Boa chanchada, mas ainda assim…
– Também não gosto muito do filme, mas é meu e enchi o rabo de dinheiro com ele. Ainda ganhei uns prêmios aqui e ali. Não vou cuspir para cima. Mas o que me diz de Os Três Reis Magos à Porta da Babilônia? Também não gosta?
– Alegorias… alegorias… – disse Rabbio com a boca cheia, caldo de feijão salpicando a barba – Estou falando de algo épico, real. Câmera na mão, sim, mas com o mundo aos nossos pés, emoção crua.
Gautério bebeu o chope, sempre com colarinho para manter a temperatura, e fez uns cálculos mentais. A ideia não era tão genial assim, mas tinha suas qualidades, sendo que a principal era o custo baixo. E também seria uma obra de caridade com o amigo, depois do fiasco no Museu de Arte Moderna.
Rabbio tinha sido convidado com toda a pompa para expor suas obras mais recentes – as Parcas Porcas, três esculturas orgânicas concebidas com carcaças de suínos, trapos e galhos de árvores – e, por conta da dificuldade de transporte (e do cheiro) foi obrigado a deixá-las do lado de fora do museu um dia antes da vernissage. O vigia noturno, sujeito muito cioso de sua função, porém pouco afeito a ler a programação do Museu, ao se deparar com aqueles monturos apoiados na parede, provavelmente obra de algum vândalo, não pensou duas vezes e jogou tudo dentro dos contêineres de lixo. Foi um dia animado, que começou com todo mundo correndo ao aterro sanitário para tentar resgatar as peças antes que se deteriorassem por completo e terminou com uma sala empesteada no MAM. Dizem que até hoje, um ano depois do ocorrido, ainda dá para sentir o cheiro e a consequência principal foi Rabbio virar sinônimo de piada no mercado de artes plásticas.
– Deixe ver se entendi, você quer refazer as Parcas Porcas e filmar as reações das pessoas, é isso?
– Basicamente. Percebi que o grande barato daquele fiasco do ano passado foi o que não percebemos, a interação do público com as obras, o quanto elas impactaram sensorialmente quem as observou a ponto de forçarem uma ação retaliativa.
– Por sensorialmente você se refere ao cheiro ou à aparência?
– Também, também… mas o importante foi que aquilo era tão repulsivo que forçou o porteiro a tomar uma atitude. E se conseguíssemos reprisar esse tipo de reação, mas fazendo um paralelo com, sei lá, o governo, os militares? Se juntássemos as duas podridões e jogássemos esse símbolo na cara do povão? Por exemplo, na Central do Brasil, às sete da manhã. Ou melhor, no Rio Maracanã, boiando? O que as pessoas fariam? É um roteiro improvisado, mas acho que dá muito pano pra manga. Poderíamos ter uma obra prima nas mãos.
Gautério pegou outro chope, como se quisesse afogar o lado esquerdo do cérebro em álcool. Tudo aquilo começava a fazer sentido.
– Olha, pode dar certo, mas não vou investir um centavo nisso. Vou usar restos de filme, ok? No final, talvez possamos fazer uma produção surrealista tipo Buñuel.
Rabbio bateu na mesa com força. Os garçons, essa espécie que raramente olha quando precisamos, viraram as cabeças como em uma parada de sete de setembro.
– Não, nada de surrealismos. Vamos nos ater aos fatos. A única ficção virá dos transeuntes. É sobre isso que construiremos a história. O povo escreverá o filme. Quanto ao dinheiro, não se preocupe. Darei um jeito. Sabe, ainda haverá um dia em que todos teremos uma câmera, cada cidadão poderá gravar seu dia-a-dia e mostrar ao mundo.
– Sei, todo mundo mostrando o que faz dentro de quatro paredes – Gautério gostava de Rabbio por causa dessas viagens – E perdendo o pouco de privacidade que ainda temos. Esse será um dia que prefiro não ver.

Continua…


Baú do Braulio: A matéria dos sonhos

Jorge Luis Borges fala, em seu conto “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, de um planeta fantástico em que as coisas são criadas pelo pensamento. Por exemplo: Fulano perde uma caneta no escritório e pede aos colegas que a procurem. Depois, percebe que tinha deixado a caneta em casa, mas esquece de avisar. Um dos amigos, movido pela expectativa de que a caneta está no escritório, encontra-a e entrega ao dono, que agora tem duas canetas idênticas. [Texto de Braulio Tavares]

Mais uma relíquia, dessa vez uma Relíquia Macabra, com o perdão do trocadilho, emergindo do Mundo Fantasmo para o Baú do Braulio!

O Baú do Braulio é uma seleção, ou como se diz hoje, uma curadoria de artigos que o poeta Braulio Tavares vem publicando ao longo dos anos no seu blog, o Mundo Fantasmo.

Texto de Braulio Tavares


Jorge Luis Borges fala, em seu conto “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”, de um planeta fantástico em que as coisas são criadas pelo pensamento. Por exemplo: Fulano perde uma caneta no escritório e pede aos colegas que a procurem. Depois, percebe que tinha deixado a caneta em casa, mas esquece de avisar. Um dos amigos, movido pela expectativa de que a caneta está no escritório, encontra-a e entrega ao dono, que agora tem duas canetas idênticas. 

Em outro exemplo, ele fala de uma expedição arqueológica em que os trabalhadores recebem uma descrição prévia dos artefatos que se espera desenterrar ali; eles são encontrados, mas sempre com alguma deficiência, devido aos ruídos de comunicação no processo. Encontram, por exemplo, moedas enferrujadas que têm gravada uma data posterior à da escavação.

Oscar Wilde, que muito influenciou Borges, dizia com razão que é mais frequente a vida imitar a Arte do que o contrário. 

Vejam por exemplo o caso do filme O Falcão Maltês, o clássico do filme policial “noir” dirigido por John Huston. O falcão é uma estátua negra que se diz valer mais de 2 milhões de dólares, e pela qual os indivíduos traem e assassinam uns aos outros durante uma hora e meia. 

Era um filme “B”, estreia do diretor (Huston só tinha trabalhado até então como roteirista). Humphrey Bogart, que interpreta o detetive Sam Spade, fez o filme inteiro usando suas próprias roupas, de tão minguado que era o orçamento. Para o falcão foram confeccionadas algumas estátuas de cobre, outras de resina (mais leves). A fabricação de todas elas juntas custou cerca de 700 dólares. 

Estas estatuetas valem hoje cerca de 2 milhões de dólares, ou seja, exatamente o que o falcão valia no filme (e mais, também, do que o orçamento completo do filme). Por que? Contêm jóias, tesouros? Não: contêm (na frase famosa de Sam Spade que encerra o filme) “a matéria de que os sonhos são feitos”.

Todas as riquezas humanas são riquezas simbólicas. Valem porque acreditamos que valem. Um cheque ou uma nota de 100 reais só valem isto por uma convenção, um acordo tácito. O papel de que são feitos não pode valer tanto. 

Os falcões valem porque o filme tornou-se (indiretamente; não foi feito com este propósito) um enorme comercial despertando nas pessoas o desejo de possuí-los, porque se tornaram símbolos de algo famoso. É o nosso desejo que os torna reais, em primeiro lugar, e depois os torna valiosos.

Uma frase famosa de G. K. Chesterton diz que “os romanos não amavam Roma porque ela era uma grande cidade; ela se tornou uma grande cidade porque eles a amaram”. É o sonho nosso que projetamos nas coisas que as faz crescer de importância e de valor. 

A Bolsa de Valores, p. ex., surgiu de início como uma aferição do valor das empresas, e depois virou um sistema de avaliação que depende mais do estado de espírito de compradores e vendedores (seus sonhos, expectativas e ilusões) do que da solidez da empresa em si.

Publicado em Mundo Fantasmo em 28 de dezembro de 2010


VIXE | A poesia e o desenho de Marrisson

Você tá em casa, de bobeira, aí, de repente, recebe uma mensagem do além. Ok, não do além, mas do desconhecido. [Poemas e desenhos de Marrisson]Alguém que não é seu amigo está te enviando uma mensagem via Facebook. Clico para conferir e dou de cara com Marrisson, que, recomendado pelo amigo, poeta e colaborador Márcio Fabiano, veio perscrutar as águas da Kuruma’tá e fazer essa oferta dos seus versos e desenhos, pra gente publicar.

Você tá em casa, de bobeira, aí, de repente, recebe uma mensagem do além. Ok, não do além, mas do desconhecido. Alguém que não é seu amigo está te enviando uma mensagem via Facebook. Clico para conferir e dou de cara com Marrisson, que, recomendado pelo amigo, poeta e colaborador Márcio Fabiano, veio perscrutar as águas da Kuruma’tá e fazer essa oferta dos seus versos e desenhos, pra gente publicar.

Marrison é de Irecê, na Bahia, mora em Juazeiro e resolveu, na cara-de-pau, misturar palavras e desenhos… não que estes sejam ilustrações das primeiras. São entidades independentes, de vida própria, que convivem com os versos de Marrisson, nem complementando, nem contradizendo.

Esse trabalho é muito bem-vindo na Revista Kuruma’tá e é com ele que eu deixo vocês.

Poemas e desenhos de Marrisson


confusa linguagem

há vontade de tocar
há vontade de compor
acobertando os olhos
desvendando a língua
perdido na linguagem
produzindo ele mesmo
ele fica em cada página
perdido em partes.


variação de um

na possibilidade de ser vários
pra quê ser um só?
demorei sentar e escrever
era Deus
foi eu lírico
será…
o que?
na possibilidade de ser vários
me escondo ou me exponho
tortuoso ou centrado
romântico ou pé no chão
complexo ou simples
na verdade…
nessas possibilidades
sou simplicidade
o complexo me cansa
de tudo, sou eu
dentro ou fora
influência e influenciado
na possibilidade
sou todos.


me apago

escrevo mais pra mim
mais apago que escrevo
o desenho é mais fluido
sou extintor de mim mesmo.


fingidor

eu me perco, Pessoa
quem sou eu?
ou
qual sou eu?
produção ou pessoa?
talvez eu seja tinta.


Marrisson lançou recentemente o livro Vixe, que pode ser adquirido clicando aqui! Ou na imagem!



Deixa o sal limpar | As estranhas melodias de Livia Nery

O Festival Levada trouxe uma brisa fresca e poderosa para o Rio de Janeiro nos últimos meses de agosto e setembro. Vento bom, de gente nova e cheia de energia e talento. Frequentar os shows do Levada foi uma renovação de fé, que pega aquela velha conversa de que a música brasileira está acabada e joga no lixo. O Levada mostra que a música brasileira está viva, inventiva e vibrante. Dentre as surpresas que me reservou o festival encontrei a Livia Nery. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Capa de Estranha Melodia – Foto e direção de arte de Caroline Bittencourt | Projeto gráfico de Olápis | Estilo de Isadora Gallas | Make de kaká Ribeiro | Assistência de produção de Bruna Palma

O Festival Levada trouxe uma brisa fresca e poderosa para o Rio de Janeiro nos últimos meses de agosto e setembro. Vento bom, de gente nova e cheia de energia e talento. Frequentar os shows do Levada foi uma renovação de fé, que pega aquela velha conversa de que a música brasileira está acabada e joga no lixo. O Levada mostra que a música brasileira está viva, inventiva e vibrante. Dentre as surpresas que me reservou o festival encontrei a Livia Nery, artista baiana que lançou há pouco o disco Estranha melodia (Máquina de Louco, 2019). Adentramos então o espaço Labsonica, no Lab Oi Futuro, sem saber o que nos esperava, ou mais precisamente sem nada esperar. Fiz uma estranha questão de não escutar o disco da Livia antes do show, coisa que poderia ter feito via plataformas de streaming. Queria chegar ali para o que desse e viesse. E veio!

Livia Nery e sua banda não cabiam no estúdio do Labsonica. Diga-se que os shows do Levada no Labsonica foram uma peculiaridade. Um grande espaço com um estúdio de gravação no meio, onde os músicos tocavam, como num aquário. A gente ficava de fora, assistindo, ouvindo, curtindo separados por pelas camadas de vidro que isolavam o estúdio. Parecia que não ia funcionar. Mas funcionou lindamente. E de dentro desse aquário de som e luz, Livia Nery e mandou muito, mas muito bem. Deixou-nos a todos impressionados com o alcance de sua voz, a riqueza deus seus arranjos e repertório. respirei aliviado e feliz com cada música que dali saía.

Para mim, nordestino errante no Rio de Janeiro, que carrega raízes de sertões e de mangues, a música de Livia foi um feliz reencontro. A música de Livia carrega também raízes e memória. Por outro lado tem esse namoro com o contemporâneo, os beats e bits das maquininhas eletrônicas que fornecem pulsação a esse coração que viaja pela roça, pela praia, pela cidade.

Estranhas melodias tem dez anos de gestação antes de ser vir à tona longe da Bahia, em São Paulo, produzido pela própria Livia e pelo músico e produtor Curumin. E o que eu li sobre o processo de produção desse disco envolve muita generosidade, muita troca e sutilizes para imprimir no mundo um trabalho de tamanha sutiliza. Medida certa entre acústico e eletrônico, conversa afiada de instrumentos e voz como se um precisasse do outro, como se estivessem continuamente a se complementar. A gente não vê excessos, sobras, penduricalhos… a gente escuta um disco preciso, milimétrico em sua desenvoltura, sem deixar de ser espontâneo, livre, quente. Gente, tá tudo o lugar. Incrível. Livia, sua banda e participantes ( Edgard Scandurra, Lucas Martins, Edy Trombone, Maurício Badé, Tatiana Lirio, Johanna Gaschler, Marcelo Galter, Israel Lima e Jorge Solovera) formam um sistema muito harmônico, que faz de Estranhas melodias, ao contrário do que propõe o título, algo tão familiar, tão perto da gente… que é difícil largar a audição. No dia seguinte ao show o disco não saiu do looping aqui na Kuruma’tá!

Uma coisa que mexe no disco é a questão da memória. Quando escuto Ave sal, impossível não mergulhar nas minhas próprias lembranças do banho de mar, da água morna do Nordeste te acolhendo e os ruídos do mundo submergindo.

Noite quente do sol
do dia todo
que esquentou
água do porto
só pra gente mergulhar

bem fundo
na Pedra do Ouriço
depois encostar o umbigo
devagar no chão do mar

E no instante da maré vazante
o corpo flutuando
deixa o sal entrar

Em Cantoria, um contraponto de lirismo em relação ao groove que permeia o disco, a memória está ali, quase como um filme sobre essa vida do campo, em que a dureza dialoga com a delicadeza, da madeira queimando, da lua e da viola esquentando a noite. Tudo é um registro sensorial…. a mão na enxada, a mesma mão que carrega o milho, a lenha, que produz o afago e arpeja a melodia.

A poeta Livia Nery emerge da noite na roça com toda força, para traçar/escrever uma cena brasileira inesquecível: o terreiro, a noite, as gentes. O amor, enfim.

Depois de um dia cheio
na cabeça da enxada
subo aqui nesse lajedo
hora de voltar pra casa

Da vereda pego atalho
pra chegar bem mais ligeiro
que o perfume que me espera
eu chega até sentir o cheiro

Levo paca e milho verde
que catei na velha estrada
que de noite tem banquete
para toda filharada

Menino, dê cá a lenha
é noite de lua cheia
a coruja sai da toca
e o fogo queima a madeira

Viola encostou no peito
esquentando a noite fria
as crianças no folguedo
nossa reza é cantoria

Na esteira em que eu me deito
guardo um credo
pra meu deus
agradeço a minha sorte
por tudo que ele me deu

No lajedo, um casebre
na ribeira, um roçado
e no peito acesa a chama
de amar e ser amado

O que nos aproxima de um trabalho de arte, muitas vezes, é o quanto ele conversa conosco sobre quem somos. Sobre o que trazemos na bagagem da memória, no tecido do corpo. Trabalhamos cotidianamente com a ideia de que a memória está na cabeça, na mente… mas a memória habita todo o corpo. Livia parece que sabe disso e a memória está impregnada em seu trabalho por gestos, toques, movimentos.

Sacudindo nos caminhos de Vinte léguas, música da cantora Evinha, do trio Esperança, do seu álbum solo de 1974… única canção dos disco que não é de autoria de Livia, mas que se encaixa no todo com elegância, peça de Tetris que ocupou seu preciso, e necessário, espaço. Música que se espalha por um Brasil estradeiro, de tantas distâncias, mas também um caminhar pra dentro, balançando o coração. Uma canção que faz uma ponte coerente que sai da musicalidade contemporânea e chega a esse território da música brasileira que transitou com o soul, o jazz, numa modernidade impressionante, que soa atualíssima.

Irresistível falar de cada canção do disco, mandar um faixa por faixa integral, mas quero mesmo é te deixar com essa curiosidade que arrepia e que te faz correr pra ouvir um disco… essa coisa mágica que é um disco. Essa coisa mágica, cheia de entalhes e filigranas, apoiada em raízes, histórias e corações que é estranha melodia. Essas pérolas estão brotando no terreno fértil do nosso cancioneiro. seja curioso, não espere pela TV ou pela rádio para te dizer o que escutar. Busque caminhos alternativos, festivais como o Levada, procure saber o que seus amigos estão ouvindo. Música é troca e aprendizado.

Confira o bate-papo de Toinho Castro com Livia Nery na ÁudioKuruma’tá!


Livia Nery e banda no Festival Levada, 19 de setembro de 2019
(Fotos de Toinho Castro)



Não se esqueça de fazer um pedido quando atravessar a ponte

A vontade é a construção de uma ponte, lenta e custosamente, para ligar uma margem a outra. Uma ponte de estrutura sólida, mas que também precisa ser maleável para suportar a ventania. A passagem deve ser livre, sem pedágios, sem cancelas e com portões sempre abertos em ambos os lados. [Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota


Há um rio corrente entre as duas margens e não se sabe como chamá-lo, nem ao menos se deve ser chamado. Como disse Mário Quintana: nunca dê um nome a um rio, pois sempre é outro o rio a passar. Caminho, um caminho para passos que levam invariavelmente a querer fazer a travessia, a querer que o outro também experimente o que é a travessia. 

— Atravessar é fugir com vontade de voltar atravessado. 

A vontade é a construção de uma ponte, lenta e custosamente, para ligar uma margem a outra. Uma ponte de estrutura sólida, mas que também precisa ser maleável para suportar a ventania. A passagem deve ser livre, sem pedágios, sem cancelas e com portões sempre abertos em ambos os lados. Para que, em festa, um receba o outro de braços também abertos. 

— A ponte é um caminho cujo retorno só é possível quando já se chegou a outro lugar.

Barcos, remos, rumos. Durante a construção, pode-se atravessar esse rio inominável que flui entre as margens a nado também. Demora um pouco mais, é um mergulho solitário, mas é uma ótima atividade para o corpo e para a mente.

Até o dia em que não precisemos mais procurar em vão uma terceira margem, aquela ininteligível de Guimarães Rosa. A ponte, a esta altura, estará adornada feito aquela do quadro de Monet, em Giverny, com o espelho d’água pontilhado de lindos lírios. 

Enquanto o rio inominável da vida flui, olhe para a outra margem. Vê o sinal? 

— Vem, atravessa.


Maracatron | Parte 3

Todos nós corríamos exultantes pelos corredores circulares, e até ameaçávamos subir para o gramado do estádio, enquanto ele, calmamente, bebia café e organizava sua coleção de revistas em quadrinhos. Quando encontramos com ele deu de ombros balbuciou com tédio e ironia indisfarçáveis algo como: Ah, claro.. as partículas inexistentes devem estar bem felizes que vocês finalmente as descobriram… [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Aqui, embaixo do Maracanã, a tabela periódica é um papel sem valor, sendo utilizada basicamente como alvo para jogar dardos. Os elementos com os quais lidamos no nosso cotidiano são outros, de outra ordem. Falo, naturalmente, das instáveis partículas inexistentes, cuja inexistência foi verificada aqui mesmo no Maracatron. Jadeir, como sempre, agiu como se soubesse da existência das partículas inexistentes desde o ano anterior. Ele sempre age como se tivesse tido conhecimento do que quer que seja um ano antes de qualquer um da equipe. Todos nós corríamos exultantes pelos corredores circulares, e até ameaçávamos subir para o gramado do estádio, enquanto ele, calmamente, bebia café e organizava sua coleção de revistas em quadrinhos. Quando encontramos com ele deu de ombros balbuciou com tédio e ironia indisfarçáveis algo como: Ah, claro.. as partículas inexistentes devem estar bem felizes que vocês finalmente as descobriram…

As partículas inexistentes merecem esse nome porque elas simplesmente não existem. Mas assim como as coisas que existem, as que não existem também cumprem determinadas funções na ordem do cosmos. A descoberta dessas partículas nos permitiu entender a mecânica da inexistência e a sua influência sobre os acontecimentos que envolvem as coisas que existem. Sei que o que existe já dá muito trabalho, e agora ter que lidar com o que não existe parece uma tarefa idiota. Talvez, realmente, o seja… mas não há como voltar atrás nesse passo da ciência, ou o que quer que se faça aqui no Maracatron. As partículas inexistentes, definitivamente, está provado, existem. Ou não existem?

Jadeir acha que esse assunto deve ser, como sempre, levado às últimas conseqüências. Ele gosta de dizer, com os olhos brilhando, que a infância acabou. “Quando essas partículas se põem em movimento no centro vertiginoso do Maracatron, nada garante que seu time vai ganhar”.

Bombardear núcleos de partículas inexistentes virou um esporte de sucesso por aqui, só comparável ao arremesso de dardos na tabela periódica. Quando estamos de bobeira, sem tarefas a cumprir, vamos até o centro de controle do acelerador e ficamos a disparar rajadas de energia a esmo, tentando acertar os núcleos. É um esporte que consome muita energia, do país, diga-se, e com resultados inesperados. Podemos bombardeá-los indefinidamente, por dias, sem que nada se altere em sua natureza. Inútil a tarefa de tentar transformá-las em partículas tradicionais, dessas que se encontram em cada esquina. Uma partícula inexistente é uma espécie de Clint Eastwood na física. Elas percorrem a circunferência do acelerador impávidas, nada pode detê-las…

E esporte ainda mais radical é discutir sobre elas com o Jadeir, sobretudo se você as compara à antimatéria. Ele interrompe a discussão e diz: sinto muito, mas tenho que voltar. E volta, sabe-se lá para onde! E realmente, isso fica no ar. De onde vem o Jadeir quando o encontramos por aí, no refeitório, na sala de reuniões… ele sempre parece que está vindo de algum lugar, se é que você me entende. Sei que sempre estamos em algum lugar antes de chegar a outro, mas em Jadeir isso é uma coisa muito clara, aguda. Chega a incomodar. De onde será que vem o Jadeir? Pra onde será que ele volta?

Hoje o Jadeir me convidou para bombardear núcleos. Ele tem uma teoria, sabe-se lá qual, e quer demonstrá-la. Já sei que quatro bairros vão ficar sem luz com essa brincadeira de desocupados gastando dinheiro público (se bem que a origem do dinheiro que sustenta o Maracatron é tão misteriosa quando o Jadeir). Provavelmente ele está sem ter o que fazer e quer se divertir e conversar um pouco. Se de repente um núcleo se parte ou se funde ao ser bombardeado, e uma anomalia qualquer é causada, atrapalhando o trânsito ou o telejornal… vai ser uma farra daquelas, com direito a cerveja secreta e gelada que a gente sempre arruma por aqui.

Mas talvez a gente fique apenas vendo uma partícula que não existe passeando pelo vazio total do acelerador, circulando no infinito que é a vida das coisas que não existem, enchendo a cabeça da gente de dúvidas à respeito da estrutura do mundo. Quer dizer, a minha cabeça oca, porque a do Jadeir, certamente está cheia de certezas. E, certamente, todas assustadoras.

Ilustração sobre foto de GeisaMaria, com vetor de Freepik


Fidalgo + 4 poemas de Jaciara Rosa

Na primeira publicação dessa semana, uma terça-feira em que a primavera ainda cheira a inverno, no levemente frio do Rio de Janeiro, a poesia de Jaciara Rosa, poeta e jornalista que já nos presenteou com seu texto Sobre pedras e rosas, e que muito ainda iluminará as páginas da Revista Kuruma’tá. [Poemas de Jaciara Rosa]

Na primeira publicação dessa semana, uma terça-feira em que a primavera ainda cheira a inverno, no levemente frio do Rio de Janeiro, a poesia de Jaciara Rosa, poeta e jornalista que já nos presenteou com seu texto Sobre pedras e rosas, e que muito ainda iluminará as páginas da Revista Kuruma’tá.

Poemas de Jaciara Rosa


Foto de Jaciara Rosa

Viagem que não se sabia nem breve, nem longa

Sejamos únicos, simplesmente nós
Pra fazer jus ao arranjo misterioso dos deuses que provocaram esse encontro.

Agradeçamos com nossas delicadezas e corpos, e velas, incensos, frutas, folhas e flores, oferendas de amores…

A viagem, palavra sua de encaixe perfeito,
que seja fora do tempo conhecido, das conveniências e padrões

Utopia? Que seja.
Ganhamos o presente da reinvenção, isso deve querer dizer algo…

E a mensagem mais preciosa, creio, 
está muito além de um gozo breve.


universo em desencanto

desapaixonei perdidamente
estou em estado de graça com esse feito
mão na luva dentro do meu peito

intensa, sorrio
rendo obrigados
ando flutuando
vi passarinho verde

desapaixonei perdidamente


pausa pro diário

Um dia de ansiedade máxima me renderam até agora:

cinco calcinhas e um biquini lavados
um cachorro imundo de chuva, limpo da lama
dois quadros de fotos pregados na parede, um deles já cheio delas
muitas lembranças, 
um chorinho de autopiedade

muita palpitação e, a ponto de infartar, duas releituras do livro de frases do Quintana
uma ligação pro homem que quero, 
risos nervosos e insegurança e medo
um poema enviado pra ele reconhecendo meu diletantismo nessa conquista

cinco ou mais audições do disco do boca livre de 1980
muitas mensagens escritas e áudios para o melhor amigo
conversas boas com a faxineira
uma coletânea da rita ribeiro enquanto escrevo mais esse texto
um nhoque sem graça
uma laranja cortada em quatro
e, até o meio da tarde, foi assim…

conclusão parcial dos fatos: nos feriados e apaixonada sou muito produtiva.


fidalgo

A ele meu agradecimento
para o todo desse homem saboroso e sutil
fidalgo,
alto,
do alto dos seus novos pelos na cara
solto
debaixo
da sua nova roupa de linho alva

A ele obrigada
pela noite, pelo dia
pelas noites e dias
e manhãs, tardes e madrugadas de toda palavra confessada, ouvida e falada cantada, assobiada
pelo silêncio que já conseguimos ter
pelas notas de sândalo na nuca dele, agradeço

pelas notas que ele toca
pelas notas que ele me toca
ajoelhada, obedeço


Desmedida-mente

o desejo não tinha dúvida
era só uma questão de decidir qual santa
clara?
teresa?

tenho nas coxas marcas leves de dedos que passaram por aqui com vontade
no lençol, o líquido das uvas
negro amor tocando sem parar dentro de mim
a vibração do tesão, da criação, do contato amoroso, da fome,
os toques, texturas, falas, gemidos,
a memória contamina os batimentos. 

ficou a partitura e o pedido preu tocar pra você
pra cantar pra você
achei lindo isso
você divide o palco e isso é raro

ficou o pedido pra te levar no casarão da meditação
ficou muita vontade de estar com você de novo,
de ter mais cuidado, mais silêncio, menos álcool talvez, rs…

me atrapalhei?
será o que ele está pensando?
será que tem vontade de me chamar pra sair logo?
será que vai fazer a sessão de análise primeiro e me convidar depois?
será que vai pirar de medo e sumir?
O que será que será?…

lembranças de muitas palavras, de sabedoria recém-adquirida, ainda tão novinha, frágil… histórias fortes compartilhadas em poucas horas,  álbum de fámilia, que doido, não consegui controlar, fui falando, seu interesse, sua escuta, ele nunca diria que estava chato.
agora sei, a medida é minha
será que dá pra encontrar de novo pra fazer de novo, mas de outro jeito? 

Quero você por ser você
Nome com pedaço de instrumento no meio
Suas cordas, minhas mãos, meus braços
Seus abraços

Foto de Marcelo Nóbrega

Baú do Braulio: Os Livros Proibidos

Ninguém lembra Cassandra Rios, que nunca foi grande escritora, mas foi perseguida durante décadas por seus romances eróticos: Tessa, a Gata, A Paranóica, Eudemônia, O Bruxo Espanhol… Li na adolescência (na casa de meus primos) A Lua Escondida, uma história de paixão lésbica; e anos depois li As Mulheres dos Cabelos de Metal, uma ficção científica erótica que passou despercebida até da censura. Quando as pessoas fazem campanha pela liberação da literatura erótica, geralmente estão pensando em Joyce ou Miller. Minha dúvida é: na hora do naufrágio, esses intelectuais teriam coragem de colocar Cassandra Rios no bote salva-vidas? [Textos de Braulio Tavares]

Estamos começando hoje na Revista Kuruma’tá uma nova seção, Baú do Braulio, com uma seleção, ou como se diz hoje, uma curadoria de artigos que o poeta Braulio Tavares vem publicando ao longo dos anos no seu blog Mundo Fantasmo. Naturalmente teremos ainda textos inéditos do bardo de Campina Grande aparecendo por aqui, mas desse baú fantástico que é o Mundo Fantasmo, vai sair muita coisa boa pra gente ler na Kuruma’tá!

E começamos a empreitada com quatro textos que Braulio publicou em 2011, pela “Banned Books Week”, ou Semana do Livros Banidos, ou censurados, que nesse estranho ano de 2019 começa na semana que vem (22 a 28 de setembro) e que acontece nos Estados Unidos. Trata-se de uma semana dedicada luta contra a censura na literatura. Um tema muito apropriado aos dias de hoje no Brasil.

Vamos lá, abrir o Baú do Braulio

Texto de Braulio Tavares


I

Está começando nos EUA a Semana dos Libros Proibidos (“Banned Books Week”), celebrada na última semana do mês de setembro. É uma iniciativa conjunta de associações representando editores, professores, livreiros, bibliotecas e entidades culturais que combatem a censura a obras literárias, desde a proibição pura e simples até a sua retirada de currículos e do acervo de bibliotecas. Eu nunca tive um livro proibido pela censura. Tive uma música (“Nordeste Independente”, composta com Ivanildo Vila Nova, gravada por Elba Ramalho) que teve sua execução pública proibida durante o último ano da ditadura militar. Mas é como leitor que durante os próximos dias comentarei algumas dessas obras que foram retiradas de circulação, e por que motivos isso aconteceu.

Os principais motivos para um livro ser proibido são: 1) conteúdo sexual; 2) cenas de violência ou sadismo; 3) linguagem chocante (não necessariamente palavrões de cunho sexual, mas linguagem considerada agressiva, vulgar, violenta, etc.); 4) cenas envolvendo drogas e parecendo endossar o seu uso; 5) conteúdo racista ou discriminatório contra maiorias; 6) idéias políticas contrárias ao regime vigente; 7) agressões, calúnias ou afirmações graves contra um indivíduo ou grupo. Há outros, com certeza; estou enumerando de memória. As razões mudam de lugar para lugar.

A liberdade de literatura é muito parecida com a liberdade de imprensa. Todo mundo é a favor até o instante em que se torna vítima dessa liberdade, até quando surge um livro dizendo algo que nos ofende, nos envergonha ou nos ameaça. Nesse instante, nosso discurso democrático vai dar uma volta no espaço sideral, e a vontade que a gente tem é mandar apreender aquele livro, queimá-lo em praça pública, e premiar o autor com uma surra de fio-desencapado e um banho de sal grosso.

Digo isto para lembrar que a luta pela liberdade de expressão não é uma luta do Bem contra o Mal, a luta dos Cem Por Cento Certos contra os Cem Por Cento Errados. É um dilema, uma encruzilhada entre duas opções, ambas envolvendo ganhos numa direção e perdas na outra. Somos contra a proibição de James Joyce ou de Rubem Fonseca, mas aposto que muitos de nós somos a favor da proibição dos livros de Hitler. Cada sociedade se define pelos seus critérios para proibir um livro e ameaçar seu autor, porque ao fazer isto ela atinge um limite de si própria, atinge aquela fronteira ética na qual em nome dos mais elevados valores se cometem os atos mais graves. Somos todos a favor da liberdade de expressão. Mas cada um de nós tem pelo menos um livro que proibiria com prazer e vingança. Bora, rapaz. Fala a verdade.

Publicado em Mundo Fantasmo em 24 de setembro de 2011


II

A Semana dos Livros Proibidos (última semana de setembro), chama a atenção para o que os organizadores, nos EUA, chamam de “Banned and Challenged Books”. “Banned” é o livro banido, proibido oficialmente por um governo, com todas as consequências (apreensão policial dos exemplares à venda, com prejuízo para o livreiro, etc.). Muitas vezes isto envolve a ameaça à liberdade ou à integridade física do autor ou do editor. “Challenged” significa que o livro é impugnado, questionado, denunciado por grupos ou entidades, sob a alegação de que infringe algum princípio. O número de livros denunciados, claro, é muito maior do que o de livros de fato proibidos, já que nem toda denúncia é aceita. Ainda assim, o estrago é grande, porque a denúncia produz efeitos locais, principalmente no que diz respeito à eliminação de livros das bibliotecas e do currículo escolar de colégios e universidades.

Capa de Harry Potter, recriada por M. S. Corley

Todo mundo entende que o Minha Luta (“Mein Kampf”) de Hitler seja proibido. O furibundo alemão é o saco-de-pancadas preferencial do Ocidente. A tal ponto, aliás, que por todo lado brotam jovens carrancudos, insatisfeitos, irritados com a hipocrisia da época, e começando a murmurar uns com os outros: “Por que será que proibiram o livro do cara? Vai ver que ele denunciava isso-tudo-que-está-aí… Era um idealista…”. E pronto, a proibição tem um resultado inverso: projeta uma aura de contestação e de martírio sobre a obra de um desorientado.

Já os livros de Harry Potter têm sido largamente denunciados nos EUA porque grupos evangélicos de variadas colorações os consideram uma apologia ao satanismo, à magia negra, etc. Se você acha isso absurdo, e que Harry Potter é inofensivo, o que dizer então da denúncia contra a série Capitão Cueca de Dav Pilkey? Sucesso aqui no Brasil, os livrinhos ficaram em sexto lugar na lista de obras mais denunciadas nos EUA em 2002, por “falta de sensibilidade”, por serem “inadequados à faixa etária” e por “encorajarem as crianças a desobedecer as autoridades”. Pois é. Começa com Capitão Cueca, daqui a pouco os meninos vão estar lendo Che Guevara.

A denúncia contra Harry Potter, é claro, é proporcional ao seu sucesso. Há incontáveis livros sobre meninos bruxos que entram e saem dos lares e das escolas sem que ninguém lhes dê importância ou os considere Os Evangelhos de Belfegor. Mas os professores não são bobos. Harry Potter foi um movimento social em torno de um livro, um movimento que arrebatou dezenas de milhões de garotos. Ninguém faz sucesso impunemente. Ninguém atinge milhões de pessoas sem que alguma autoridade se debruce sobre o caso, luneta em punho, para saber por quê.

Publicado em Mundo Fantasmo em 25 de setembro de 2011


III

A Semana dos Livros Proibidos (24-set a 1-out) pretende, entre outras coisas, defender a liberdade de expressão e de publicação de livros. Uma estatística curiosa no saite da American Library Association mostra que da lista dos “100 Romances mais Importantes do Século 20” escolhidos pelo Radcliffe Publishing Course, 46 foram em algum momento proibidos ou denunciados para proibição em algum país. Geralmente por questões morais, porque o livro contém cenas de sexo explícito; ou defende atos sexuais considerados ofensivos (homossexualismo, adultério, promiscuidade, prostituição, masturbação, etc); ou usa linguagem ofensiva, imoral (palavrões, etc.). Esses valores mudam de país para país. O que é pornográfico aqui não o é acolá, então não é de admirar que o Ulisses de Joyce, o Lolita de Nabokov, os Trópicos de Henry Miller e O Amante de Lady Chatterley de D. H. Lawrence tenham sido proibidos mundo afora, inclusive em seus países de origem.

Nenhum desses livros, que eu me lembre foi proibido no Brasil. Eram cercados de tabus e de críticas, mas eram publicados, sim, e ninguém foi preso por vendê-los “por baixo do pano”. Paulo Francis se referia a Lady Chatterley como “o livro que todo mundo leu segurando com uma mão só”. Talvez tenha sido assim para a geração dele; eu me lembro em 1967, no Estadual da Prata, o pessoal com ar conspiratório emprestando uns aos outros o Sexus de Henry Miller e indicando: “Capítulo 16…”. Era em plena ditadura, mas esses livros passavam. A Revolução Sexual estava embranquecendo os cabelos dos nossos pais, mas os pilares da Pátria permaneciam incólumes. A ditadura estava mais preocupada em proibir coisas mais específicas; talvez o Que Fazer? de Lênin ou o Torturas e Torturados de Márcio Moreira Alves.

Ninguém lembra Cassandra Rios, que nunca foi grande escritora, mas foi perseguida durante décadas por seus romances eróticos: Tessa, a GataA ParanóicaEudemôniaO Bruxo Espanhol… Li na adolescência (na casa de meus primos) A Lua Escondida, uma história de paixão lésbica; e anos depois li As Mulheres dos Cabelos de Metal, uma ficção científica erótica que passou despercebida até da censura. Quando as pessoas fazem campanha pela liberação da literatura erótica, geralmente estão pensando em Joyce ou Miller. Minha dúvida é: na hora do naufrágio, esses intelectuais teriam coragem de colocar Cassandra Rios no bote salva-vidas? Ou a salvação é apenas para os que são também intelectuais? A arte “redime” o erotismo? É preciso ser uma grande obra literária para que os intelectuais se mobilizem contra sua proibição?

Publicado em Mundo Fantasmo em 28 de setembro de 2011


IV

Checando as estatísticas de livros denunciados ou proibidos no período 1990-2010 nos Estados Unidos, temos números interessantes. Razão das denúncias: sexo explícito, 3.169; linguagem ofensiva, 2.658; violência, 2.289; livros inadequados para a faixa etária do grupo-alvo, 2.232. Drogas? Lá embaixo na lista, com 382. Política? Idem, com 319. Esses números claramente se referem ao universo escolar, infanto-juvenil, que é onde se exerce o peso da censura e do puritanismo nos EUA. Nesse mesmo período, os números dizem (por ordem decrescente) que a origem das denúncias veio das seguintes instituições: escola, 4.048; biblioteca escolar, 3.659; biblioteca pública, 2.679. Universidades aparecem com apenas 141 denúncias.

Nos EUA, existe liberdade para discutir idéias políticas, mas por outro lado o país é vítima de um puritanismo alucinado que cria as situações mais estapafúrdias. Tipo aquelas notícias em que um garoto de seis anos é acusado de assédio sexual porque beijou na escola uma coleguinha de cinco. Os EUA sempre me deram a impressão de um país onde é mais fácil publicar um livro propondo a derrubada do capitalismo do que um livro em que os personagens façam sexo oral.

No Brasil, já foram proibidos mais livros pelo seu conteúdo político do que por conteúdo sexual. Dizem que Feliz Ano Novo de Rubem Fonseca só foi proibido porque um figurão do governo militar se escandalizou com a linguagem e o tema do conto-título (marginais invadem uma festa de reveillon de ricaços, estupram e matam quem bem entendem) e não descansou enquanto o livro não foi proibido. Algo parecido ocorreu com Zero de Ignácio de Loyola Brandão. Não me lembro de livros infantis proibidos pela ditadura.

Aqui no Brasil está surgindo uma censura do politicamente correto em que indivíduos ou grupos se julgam insultados porque um personagem de um livro diz alguma ofensa contra eles, e pedem a proibição do livro. É a democratização da censura. Em breve chegaremos ao aperfeiçoamento final desse método, quando qualquer pessoa pode denunciar um livro e solicitar oficialmente sua proibição, alegando que foi prejudicado.

As filhas de Garrincha conseguiram proibir a biografia do jogador, escrita por Ruy Castro; Roberto Carlos conseguiu tirar das livrarias sua biografia escrita por Paulo César de Araújo. Ora, há uma porção de livros-de-fofocas e livros maledicentes por aí, sobre gente famosa. Como digo sempre, a liberdade de expressão significa, também, a liberdade de expressão para ao maledicentes – os quais, se for o caso, terão que pagar por isso de alguma forma. Nem toda censura é política, mas toda censura é censura.

Publicado em Mundo Fantasmo em 29 de setembro de 2011


É preciso morrer para viver

Na casa do meu irmão, improvisamos um cômodo perto da cozinha e lá ela sentou-se na cama e pediu para que matássemos um capão (um galo novo) e preparássemos um pirão com as vísceras, uma receita de família que ela guardava com muito carinho. Assim foi feito. Ela comeu com tanto prazer que fiquei comovido. Lambia os dedos numa atitude que me deixava sempre irritado, mas nesse dia eu sorria com aquela cena maravilhosa de minha mãe comendo e saboreando com todas as papilas e olhares o mesmo prato amigo de minha infância. [Texto de Aderaldo Luciano]

Texto de Aderaldo Luciano


É preciso morrer para viver. Na manhã do dia 5 de setembro de 1989, há 30 anos, minha sobrinha Netinha bateu em minha porta para me dizer que minha mãe acordara de um sono que durava já três dias. Era uma terça-feira e aquilo me soava como uma ressurreição. Ela havia voltado de um coma anterior de 20 dias para me dizer que estivera com seus pais em um plano paralelo ao nosso. E naquele dia mesmo me dissera a quantidade de pessoas que estava presente na enfermaria onde só estávamos eu e ela. O médico chamou-me e foi sucinto: “Pode levar sua mãe para casa e fazer-lhe todas as vontades. Nossos recursos acabaram.” Foi o que fiz.

Na casa do meu irmão, improvisamos um cômodo perto da cozinha e lá ela sentou-se na cama e pediu para que matássemos um capão (um galo novo) e preparássemos um pirão com as vísceras, uma receita de família que ela guardava com muito carinho. Assim foi feito. Ela comeu com tanto prazer que fiquei comovido. Lambia os dedos numa atitude que me deixava sempre irritado, mas nesse dia eu sorria com aquela cena maravilhosa de minha mãe comendo e saboreando com todas as papilas e olhares o mesmo prato amigo de minha infância. Depois lavamos suas mãos e sua boca, ela deitou-se, puxou o cobertor e dormiu por três dias.

Acordou para dizer que havia caminhado pelos velhos caminhos de criança. Tomara banho no Rio do Brás, atravessara o riacho de Pinturas, subira à chã de Independência, passara pelo engenho São Francisco, percorrera as veredas de Cantinhos e conversara animadamente com Tio Bastião. E, pela primeira vez em 25 anos, falara o nome de meu pai, que eu não conhecia nem nunca suspeitara que fosse o mesmo homem de quem todos tinham medo naquelas terras de meu Deus. Minha mãe morreu com muita doçura e fantasia aos 58 anos de idade, de acordo com o registro civil, mas eram 60, pelo batistério. No dia 17 de setembro, doze dias depois de seu sepultamento, sonhei com ela me balançando na rede. Acordei com a certeza de que a única pessoa que realmente me amou, acima de tudo e contra tudo, desaparecera para sempre. Desde então me sinto só e choro desgraçadamente

Foto de Rosa Luiza Barbosa Luciano