Cada livro tem 50 sonetos, sendo que no novíssimo SonetIMAGEM cada soneto é acompanhado de uma imagem, trabalhando o potencial imagético da poesia, a força visual dos versos. É um dança de significados, em que os pares, poesia e imagem, estão de mãos dadas, entrelaçando seus passos. Coisa linda, além de poeta ser fotógrafo e saber juntar as duas coisas assim, com essa consistência. [Texto de Toinho Castro]
A melhor coisa é quando os livros caem nas nossas mãos, vindos do inesperado. Livros de poesia então, nem se fala. Aí me chega, via um papo no Messenger, do Facebook a dica de dois livros de poesia, assim, do nada, numa certa manhã… dois livros de poesia. Ou melhor, dois livros de sonetos.
Sonetos, vocês deveriam saber, é aquela forma clássica de poesia, de quatro estrofes, que surgiu na Itália mas que muita gente boa mundo afora fez uso brilhante. Leia-se, Shakespeare, Vinícius, Neruda, Florbela… Mas me veio o soneto mesmo por outra via, menos conhecida, por conta dos laços e histórias da minha família do Rio Grande do Norte. Auta de Souza foi uma poeta potiguar, nascida na cidade de Macaíba, em 12 de setembro de 1876. Publicou um único livro, Horto, que foi onde encontrei os primeiros sonetos que li, que amei. Fascinava-me a forma, a cadência e a previsibilidade das rimas. Meu coração meio que ansiava aquele jogo de encontros fonéticos e ritmos a cada verso.
Hoje, tantos anos depois, encontro-me lendo os livros SonetATO e SonetIMAGEM (Ambos pela Editora Autografia), de Eduardo Maciel, poeta que resolveu colocar, numa série de 7 livros, o soneto no microscópio, bailar com ele, invocar suas mais diversas encarnações, suas metamorfoses.
Cada livro tem 50 sonetos, sendo que no novíssimo SonetIMAGEM cada soneto é acompanhado de uma imagem, trabalhando o potencial imagético da poesia, a força visual dos versos. É um dança de significados, em que os pares, poesia e imagem, estão de mãos dadas, entrelaçando seus passos. Coisa linda, além de poeta ser fotógrafo e saber juntar as duas coisas assim, com essa consistência. A cada poema, a cada imagem, o autor vai nos dando uma aula sobre essa coisa linda, que por vezes parece esquecida, que é o soneto. Aprendemos suas formas múltiplas que surgiram com o tempo, as variações de sua estrutura e de como essas possibilidades são ricas e cativantes. Aprendemos que, para além do soneto clássico italiano (Com as rimas organizadas assim: ABAB / ABAB / CDC / DCD), existem o soneto mononostrófico, o sonetilho em redondilha maior, o soneto polar…. e assim por diante. Cada um com a descrição de sua estrutura e jogo de rimas. Assim enveredamos por esse universo riquíssimo que o poeta quer resgatar, trazer à tona. É uma abertura de portas.
A poesia de verso livre, moderna, contemporânea, muito nos ensinou, mas Eduardo Maciel, com talento de poeta, mostra que o rigor de uma forma como o soneto, ainda tem muito a nos entregar e, sobretudo, ainda tem muita surpresa e jogo de cintura.
Eduardo é um poeta de mão cheia, que não se contenta em ser didático. Ele quer que a gente conheça o soneto mas quer também que a gente sonhe, que a gente viaje e reflita. Sua poesia versátil é carregada de lirismo, humor, política e carinho, tudo rimado, metrificado. E o que te pode parecer um estrutura fechada acaba por mostrar-se uma liberdade.
Pensando nesses sonetos me ponho a pensar na arquitetura, esse misto de arte e técnica, em que sobre cálculos, precisões (métricas?!), engenharias, assenta-se a poesia. Uma dependendo da outra, uma sendo porque a outra é. Os livros de Eduardo Maciel, fotógrafo, poeta, definem-se nesse desafio, que ele lança a si mesmo e a nós, seus leitores. O desafio de alinhar forma e conteúdo como irmãs, companheiras de longa jornada. Desafio aceito, no aguardo dos próximos livros da série. Deu vontade de reler muitos sonetos que já li, a começar por Auta de Souza, os 20 sonetos de amor de Pablo Neruda, Flobela Espanca (O mundo, o que é o mundo, ó meu amor?!)… e deu mesmo vontade de escrever sonetos, encaixar sentimentos, visões e sonhos nessa forma tão antiga (Século XIII!!), precisa e bela.
Parabéns, Eduardo. Cativaste!
E a você, leitor do Rio de Janeiro que também foi cativado pelo projeto do poeta, fica o convite! Amanhã, 14 de setembro, tem Vernissage do poeta, apresentando SonetIMAGE, na Avenida Treze de maio, 47 – sala 2103 (Edifício Itú), centro, do Rio de Janeiro, das 14h às 17h!
Os seus sonhos ainda vão despertar contigo
Inês sonhou que vivia numa antiga cidadela do império chinês. Vestia um roupão pesado e fazia chá a homens de negócio inescrupulosos e amargos. Doíam-lhe os ombros, a coluna, os joelhos – todos os ossos. Deixou cair a xícara no tatame, olhou para o inverno que se desenhava lá fora e pensou por um instante. O que era intenção, virou ação. Saiu apenas de roupa de baixo para nunca mais preparar nenhuma infusão. [Texto de Eduardo Frota]
Dia de sol no Rio de Janeiro, andando por aí acabei encontrando com o amigo e colaborador fiel da Kuruma’tá, Eduardo Frota. Sentamos num bar para papear rapidamente e ele me deu aquela boa notícia que eu amo escutar: Tem texto novo lá no Drive. Outra coisa boa que ele me falou é que andava sonhando muito. E os sonhos, como todo mundo sabe, tendem a se misturar com a realidade. Encontrei mesmo com ele ou terei sonhado? Não sei, mas o texto estava no Drive. E agora está aqui para você, na Revista Kuruma’tá.
Olavo sonhou que era um escravo. Trabalhava em uma plantação de milho no sul dos Estados Unidos. Observou um trem distante apitar e começou a correr, aos gritos. Convocou os colegas. A liberdade se abria a léguas daquele lugar. Ainda munido de um punhado de espigas, conseguiu alcançar a última composição. Para trás ficava o senhorio e o chão.
(acordou e foi fazer pipoca)
II
Inês sonhou que vivia numa antiga cidadela do império chinês. Vestia um roupão pesado e fazia chá a homens de negócio inescrupulosos e amargos. Doíam-lhe os ombros, a coluna, os joelhos – todos os ossos. Deixou cair a xícara no tatame, olhou para o inverno que se desenhava lá fora e pensou por um instante. O que era intenção, virou ação. Saiu apenas de roupa de baixo para nunca mais preparar nenhuma infusão.
(acordou e foi preparar café)
III
Janaina sonhou que era uma bailarina. Dançava uma música da qual não gostava, mas assim fazia porque era obrigada. Bailava com um par que não era do seu gosto. Foi então que pisou no pé do moço. Espantado, ele pediu para parar a dança. Ela, feito criança, deixou com que os pés lhe guiassem por outro ritmo. Agora, expressava-se de acordo com o que lhe era mais íntimo. Com o tempo, acabou achando um par ideal, com quem dançou uma salsa. Pois bem: valsa, nunca mais.
(acordou ao som de um rock)
IV
Jorge sonhou que era um lorde. Desses, ingleses. Compromissos, reuniões. Sentia que tudo isso não passava de jogo de interesse. Estava cansado, aflito, farto. Resolveu, então, sair do castelo e andar feito indigente. Conheceu, nos braços de uma plebeia, o amor de verdade, diligente. Se desfez do fraque, da gravata e do capote. Descobriu que era isso o que sempre quis. Era agora um homem de sorte.
(acordou e foi jogar na loteria)
Cinco poemas das ‘Liras Perdidas’ de Sousândrade
Fui apresentado à poesia de Sousândrade foram os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, no livro Re visão de Sousândrade, há muitos anos. Recentemente, passeando pelo centro do Rio, encontrei na Banca do Olivar, ali na Carioca, um livro que estampava na capa: Sousândrade – Inéditos. Dada a raridade da ocorrência do poeta, saquei os dois reais que Francisco Olivar cobra por qualquer livro exposto na sua banca e sentei numa mesa do galeto ali do lado para apreciá-lo. E que beleza! [Texto e seleção de Toinho Castro]
Fui apresentado à poesia de Sousândrade pelos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, no livro Re visão de Sousândrade, há muitos anos. Recentemente, passeando pelo centro do Rio, encontrei na Banca do Olivar, ali na Carioca, um livro que estampava na capa: Sousândrade – Inéditos. Dada a raridade da ocorrência do poeta, saquei os dois reais que Francisco Olivar cobra por qualquer livro exposto na sua banca e sentei numa mesa do galeto ali do lado para apreciá-lo. E que beleza!
Trata-se de uma edição crítica, com introdução e notas de Frederick G. Williams e Jomar Moraes, publicada em São Luiz do Maranhão em 1970, trazendo à luz os poemas de Harpa de Ouro e Liras Perdidas, manuscritos que se julgavam perdidos para sempre e que acabaram descobertos por Frederick, na Biblioteca Pública do Maranhão. O pesquisador norte-americano estava no Brasil para elaboração de sua tese de doutorado em Literatura Brasileira, tendo a vida e obra de Sousândrade como tema.
Hoje, relendo o livro, resolvi selecionar e compartilhar alguns de seus poemas e dar visibilidade nesse mar de coisas da internet, aos versos do poeta maranhense que o Brasil insiste em esquecer.
No mais, recomendo buscar pelo poeta nos sebos do país e falar sobre isso no seu blog, no Facebook, Instagram, o que seja. Um poeta da importância de Sousândrade precisa ser lido e relido e discutido e trabalhado, nas conversas, nas salas de aula, nos grupos do zap.
Borboleta e Raio do Sol (Paris, 1855)
Da selva frondosa Na sombra acordou Gentil pousalousa Centelha, voou.
E as aves trinaram E a brisa correu E as ondas rolaram De azul como céu:
Que doce harmonia! Que amena soidão Raiando do dia A luz! E a visão
Do sol, que aparece Dentre oiro e rubi, Dos montes, e desce Dos vales. Eu vi
Gentil pousalousa Qual olhos de amor, Turbada – encantada No prado e na flor.
E os raios em molhos sol s’ergue aos céus, E a louca é qual olhos Aos vãos escarcéus:
Nos bosques, agora, Na várzea de luz, No lago de aurora Que a chama e seduz,
Dos bosques, perdida No aroma, no amor, Aos raios erguida Balança-se a flor…
O aéreo amaranto Quem viu? – Se perdeu. Dizei dela o encanto: Amou e… morreu.
Que sorte minguada! Que triste existir Da vida irradiada De glória e de rir!
Mas – que nos importa Ser onda ou ser Théos, Se o mar não aporta Pra fora dos céus?
Sopa, assado e sobremesa
Sopa, uma gota d’orvalho sobre uma folha de acácia; assado, uma asa de borboleta doirada pelo raio do sol; sobremesa, uma pétala de rosa meio-roída por uma abelha.
Catulle Mendès (Banquete das fadas)
Bebo, bebo a sopa-orvalhos Em prato de açucenal; Colheradas beijos-hinos! Hinos! hinos! – Comi mal-assada, em sal,
Asa bela ao sol doirada, – E o doce virgíneo mel Sobremesa-paraíso Riso! riso! No dedo lhe pondo o anel.
Ai o prado d’alva acácia! Brando – sonoro Bemol! – Ai grelha a chiar do assado Tão doirado! – Ai sobremesa do sol!
– Sala de jantar, natura, Roseirais; relvas, abril, Cantos, encantos, paraíso, Riso, riso, Onda pura e céus de anil.
– Que as fadas dançando adiantes Com vestes de oiro e de tul: Em punho as taças-diamantes Levantem, brindes, ovantes (Dou o champanha) a Catulle.
Green-Star (New York)
– Como os céus formosos brilham! venha ver a Ursa maior! a Ursa menor – “Vinte trilham Ursas nos céus! que terror! Sei de um urso”… – Que inimigo!… Mamã! mamã, quantas Ursas há nos céus? – Duas. “Vos digo, menina, três.” – Oh Senhor! “Tá! tá! tá!…” – Allright, e calo. mas, aquela estrela é verde – “Verde? girl?! eu, rose-opalo vejo-lhe o lume tremer.” – Já começa… é verde! é verde! – “É amarela, mulher! verde há uma…” – Há vinte! há trinta! toda a terra a enverdecer! – “Que a vencedora não minta! verde esp’rança! oh meu tesoiro destes amplos firmamentos Cheios qual dos pensamentos desta bela terra em flor! Quando frouxas meadas de oiro se desatam, luminosos teus cabelos gloriosos são qual do astro o resplendor! Na tua voz há luz, centelhas destas rosas do Sarão: verde estrela! verde estrela tu, que me roubas a calma, que nos olhos tens tua alma, há, entre os céus e o horizonte amor… tens amor?” – I dont’t! –
Flirtations (Manhattanville)
Ninguém ande à encruzilhada Por noites de São João – Vejam a mal-assombrada, Meninas! “Oh, a visão!…”
– Cora, qual é tua sorte? “Na Quinta Avenida, à corte, Casarei.” – Sempre never cada Fanny? “Morrerei.” – E tu, Augusta, rubores? Vão ver, que sorte de amores… “Eu sonhei.”
Pior do que encruzilhadas De visões; portas e escadas Destes céus de Manhattán Com que aí stão-se aninhando Alvoradas? matinando Toda a noite até manhã? “Fogo! fogo! é rato! é gato!” – Matinada de Babel! Meninas, mudem de quarto, Há mais quem durma no hotel!
São as três; doirada tarde, Vêm da escola e em risos ledos, O olhar longínquo de que arde, Atiram beijos co’os dedos.
Ora, estudando as lições: “Diga, diga, as professoras Deram tese – Os dois vulcões Maiores – Belas senhoras, Há crescenças… sobre os Andes Que são da terra as mais grandes… Rindo Fanny, Cora alada E ar Augusta de graduada – “Andes são serras: vulcões, Sir! os maiores do mundo!?” – Oh! que estão no céu profundo Chamas lançando em festões? “Yes! Yes!” – Que rugem? `strugem Com lavas bravas?! “Yes! Yes!” – São, my girl, dois corações… “Oh! oh! oh!”
“Vamos chamar o vento, camarada!”
A Kuruma’tá nem ia publicar nada nesse sábado em que reaparece o sol no Rio de Janeiro. Mas ontem foi o show de Jards Macalé, no Festival Levada, aqui no Teatro Seisi-Firjan, ali na Graça Aranha, no centro da cidade. A Kuruma’tá compareceu e quem pode ficar calado depois de um show de Macalé?! [Texto de Toinho Castro]
A Kuruma’tá nem ia publicar nada nesse sábado em que reaparece o sol no Rio de Janeiro. Mas ontem foi o show de Jards Macalé, no Festival Levada, aqui no Teatro Seisi-Firjan, ali na Graça Aranha, no centro da cidade. A Kuruma’tá compareceu e quem pode ficar calado depois de um show de Macalé?!
Era o lançamento do discaço Besta Fera, que compôs o coração de um show preciso, pesado, corajoso. Quanto rock’n’roll na alma desse cidadão brasileiro de 76 anos, que botou pra arrasar com um banda super enxuta… Guilherme Held na guitarra, Pedro Dantas no baixo e Thiago Silva, rebento do grande percussionista Robertinho Silva, na bateria. Não precisa mais que isso,. Pode até ter, mas não precisa. Esses três +Macalé, esse quatro cavaleiros da música contemporânea brasileira, anunciaram que a boa arte das canções resiste bravamente!
Vocês tem noção do que é ter, vivo, ativo e ao vivo, gravando um disco antológico, um artista da dimensão de Jards Macalé? Um disco em que cada música é uma porrada pra gente despertar, mesmo a mais delicada.
Mais que uma crítica desse show incrível, arrasador, isso aqui é um chamamento pra gente escutar esse sujeito intensamente jovem, capaz de nos surpreender e de ser uma voz contra a mesmice, o marasmo, contra o coração estanque, contra a ruína organizada do poder estabelecido. Macalé, com sua banda, no palco, é lição de vida e de arte. Porque ali as duas são a mesma coisa. Tô aqui agora, no dia seguinte, ouvindo Macalé no Spotify, revendo cada disco, cada inserção desse gênio na realidade brasileira. Realidade brutal, dura, tresloucada, que tem em Macalé um cronista monumental.
No mais, uma salva de muitas palmas para o Festival Levada, que botou Besta Ferra no palco, ao vivo! Foi o último show dessa primeira fase do festival, que trouxe artistas incríveis para o Rio de Janeiro. Com foco em gente que tá começando a carreira, lançando os primeiros discos, o Levada tem na sua segunda fase uma programação de quatro shows de artistas diferentes, que acontecerão no espaço Lab Oi Futuro. Confira:
O Levada se mostra em sua 8ª edição um festival essencial no Rio de Janeiro, com uma programação cheia de vitalidade, escolhida com sensibilidade e afeto pelo curador Jorge LZ. Até ontem botou no palco oito shows, mostrando seu poder de fazer diferente num momento duro para a cultura local e nacional, um momento que exige jogo de cintura, perseverança e muita garra. E o Levada tem tudo isso!
Então anote na agenda os próximos shows do festival e fique ligados nas redes, porque os shows são gratuitos e a inscrição é online! Você não vai querer perder.
Maracatron | Parte 2
Andando por aí com uma cara de quem sabe mais do que deveria e a enigmática frase Quando foi a última vez? estampada na camiseta surrada, Jadeir defende que o Maracatron sempre existiu. Quando cruzamos nossos caminhos nos corredores estreitos do complexo ele ri para mim e diz que sou seu cúmplice, epíteto que rejeito. Percebo que ele tem acesso a áreas restritas a muitos de nós e não raro o vejo trocando palavras com essa gente fechada, calada, das salas inacessíveis, gente que parece ter nas mãos mais coisas do que seria prudente entregar-lhes. [Texto de Toinho Castro]
Há muitas teorias sobre a origem do Maracatron circulando pelos corredores do complexo. O tema é meio que um tabu. Desconfia-se até que seja mesmo proibido… Mas nada aqui é claro, tudo é meio nebuloso e não sabemos exatamente o que é permitido ou proibido, ou quem proíbe ou permite o que quer que seja. Por via das dúvidas, abordamos o assunto pelos cantos, pelas beiradas, em conversas de pé de ouvido. Sempre sussurrando e esperando que gente estranha, coisa que tem muito por aqui, não escute. Uma dessas teorias reza que teria sido construído durante os governos militares. Considerando que isso não poderia ter sido feito nos anos finais do regime ou nos seus primeiros momentos, ficamos com uma janela de cerca de uma década para se conceber e construir tal complexa estrutura. É pouco tempo para colocar em pleno funcionamento um projeto desse porte. Isso nos leva a segunda parte da teoria, que inclui os americanos na história e explica que o Maracatron chegou ao Brasil de navio, vindo dos Estados Unidos, desmontado e encaixotado. Há quem acredite que a verdadeira natureza da Operação Brother Sam seria, no fim das contas, fazer chegar ao país essa carga. Uma monumental e imperceptível operação de transporte e montagem teria sido orquestrada pelos dois governos envolvidos. Naturalmente surge logo a ideia de que os militares tomaram o controle justamente para construir o Maracatron! Vai saber…!
O terreno do Maracanã seria um local propício, cruzamento de invisíveis linhas energéticas longe do qual não se poderia conduzir as experiências planejadas. Dizem que o estádio Mário Filho foi construído justamente para servir à futura instalação do acelerador como uma espécie de antena. Numa determinada época do ano, ou a cada dez anos, dependendo da versão autorizada, ele estaria alinhado com certa constelação, enviando e recebendo sinais, mensagens cifradas e xadrezísticas que alimentariam os bancos de memória do Maracatron. Mas isso, certamente, é puro delírio.
A teoria mais aceita é a teoria do Jadeir, que ele faz questão de defender quando bebe nas nossas noitadas, e o Jadeir não bebe pouco. Sua teoria diz que o Maracatron foi descoberto nas escavações que precederam a construção do estádio. Várias pessoas na hierarquia da construção civil presenciaram sua fiação e carapaças metálicas vindo à tona. O Jadeir conta que nunca mais se soube deles depois disso. E aí entra em campo, mais uma vez, o governo americano, que substituiu, um a um, todos os trabalhadores envolvidos nas fundações do Maracanã por pessoas que ele, o Jadeir, não tem coragem de afirmar exatamente quem, ou o que, seriam.
Um clássico dessas noites é história do pedreiro que trabalhou nos primórdios da obra e que foi encontrado vagando pelas ruas, alucinado, balbuciando sobre as poderosas energias liberadas sob o Maracanã. logo imaginamos o Maracatron rugindo sob o concreto, sob o gramado… Mas há sempre quem passe pano e alegue que ele, na verdade, queria dizer “sobre o Maracanã”, referindo-se a alegria das torcidas. Enfim… o fato é que não sabemos, apenas arriscamos, ousamos perguntar aqui e ali. As histórias são muitas, entrecortadas, interrompidas e é difícil dizer onde reside a verdade, onde começa a mentira. Arquivos são apagados, pessoas que falam demais somem. Reaparecem tempos depois, em outras cidades, outros países, com nomes falsos. Semana passada mesmo sumiu um que andava falando mais que o necessário, segundo as regras da conspiração que parece pairar sobre nós. Reapareceu dias depois, outro nome, outras memórias, outra função. A maioria das pessoas que já o conhecia não vai encontrá-lo porque ele está em outra seção, outro nível. Mas eu o vi. Falou casualmente comigo como se não imaginasse quem eu era. E algo me dizia que ele estava sendo sincero. Parece confuso? Sim, parece. Mas para o Jadeir tudo parece muito claro.
Como sempre a CIA está no centro desses comentários obscuros que trocamos nas vagas horas vagas. Durantes anos seus cientistas teriam queimado num tipo de engenharia reversa qualquer, tentando determinar a origem do Maracatron e compreender seu funcionamento. Tecnologia alienígena, aborígene ou de um povo antigo e sábio que habitou essas paragens antes da deriva continental. Segundo Jadeir os índios já faziam referências ao Maracatron nos seus desenhos ritualísticos (Oi!?) e que há relatos, sempre os relatos, de antigos viajantes que afirmam ter visto “gente estranha, com roupas estranhas, apressadas, por aquelas bandas”. Por um segundo, na bruma do álcool, quase acreditamos e o Jadeir parece então um maldito xamã invocando sabe-se lá que hiper-realidades… mas o transe só dura um segundo e logo somos outra vez os idiotas que não fazem ideia do dia em que o Maracatron foi inaugurado. Que isso fique claro.
Andando por aí com uma cara de quem sabe mais do que deveria e a enigmática frase Quando foi a última vez? estampada na camiseta surrada, Jadeir defende que o Maracatron sempre existiu. Quando cruzamos nossos caminhos nos corredores estreitos do complexo ele ri para mim e diz que sou seu cúmplice, epíteto que rejeito. Percebo que ele tem acesso a áreas restritas a muitos de nós e não raro o vejo trocando palavras com essa gente fechada, calada, das salas inacessíveis, gente que parece ter nas mãos mais coisas do que seria prudente entregar-lhes. Tudo, quando se trata do Jadeir, parece, sempre, camaradagem. É como se ele fosse aquele detento que conhece os guardas, tem encontros secretos com o diretor do presídio e controla o mercado negro de cigarros.
Hoje gritou de longe para mim que amanhã é dia de final e o estádio vai tremer. Entrou depois com ferramentas e sua inseparável lanterna num dos muitos tubos metálicos que nos cercam, um desses tubos do qual, segundo ele, só se sai do outro lado. Seja lá o que isso signifique.
Kuruma’tá em transe: entrevista com Edney Silvestre
A Revista Kuruma’tá estreia hoje uma nova seção, a Kuruma’tá em transe, capitaneada Aderaldo Luciano e que traz entrevistas que o poeta vai garimpando nas suas andanças. A entrevista que abre a Kuruma’tá em Transe é com o caríssimo escritor e jornalista Edney Silvestre, que fala sobre seu trabalho, inspirações e os rumos que a literatura vai tomando nos novos tempos. Seu último livro chama-se O último dia da inocência e surge depois de nove anos de pesquisa, com uma história envolvente que se passa inteiramente no dia 13 de março de 1964. Com vocês, Edney Silvestre e sua literatura!
Num ano que não me lembro mais, década de 80, nas imediações do Sambódromo, no Rio de Janeiro, durante um carnaval, sentei para comer qualquer coisa em um trailer, barraca, boteco, não interessa muito, e travei conversa, pouca, mas boa, com uma pessoa. Eu estava ancorando na cidade, conhecendo a sintaxe carioca, pernoitando nos recantos da Mem de Sá, vivendo suas boates e trabalhando numa companhia teatral instalada temporariamente no Teatro Nelson Rodrigues, na Avenida Chile.
Terminada a conversa, a pessoa saiu para lá e eu saí para cá. Depois me toquei que era um repórter da Globo: Edney Silvestre. Mais de 35 anos depois, sem mencionar o fato, solicitei sua amizade no Facebook e passei, de vez em quando, a trocar umas poucas palavras com ele, como naquele dia no carnaval. Quando da adaptação do seu livro Se eu fechar os olhosagora para minissérie, na própria Globo, pensei em propor uma breve entrevista para a Kuruma’tá. Não foi por causa do lançamento de seu novo livro, mas esse fato é importante agora, pois seu novo livro nos instiga.
Agradecemos a gentileza e generosidade de Edney por tão solícita recepção a minha proposta. Com ele inauguramos, aqui na revista, um espaço para essas performances, entrevistas. Pensei em chamar o espaço de Kuruma’tá em Transe. Não sou um especialista em entrevistar gente e gente importante. Gosto de conversar, tentei ser informal, mas também pesquisei alguma orientação para isso. Vale lembrar que O último dia da inocência, seu novo livro, pela Record, traça o caminho do êxito. Obrigado, Edney!
Aderaldo Luciano
Arquivo pessoal de Edney Silvestre
Os leitores mais sensíveis e curiosos gostam de saber um pouco da vida do autor que estão lendo e com eles desenvolvem certos laços afetivos. Você pode nos falar sobre afetividade, dentro de sua família, depois nas relações sociais e de trabalho e como essa construção afetiva (presença e ausência) desenhou-se em alguns de seus personagens?
O jovem repórter narrador de “O último dia da inocência” foi privado de vida afetiva e amparo, quando sua família foi assassinada num complô que remete à ditadura Vargas. Eu, ao contrário, tive amparo e incentivo sempre. Não sei de onde vêm os personagens, como surgem, como continuam, como se encerram. Não os comando. Acredito que isso aconteça com muitos escritores, me lembro de uma entrevista em que Fernando Sabino falava de sua curiosidade ao escrever, aguardando como os personagens agiriam, a cada capítulo. Lembra do Zuckerman de Philip Roth? Nem sei mais quantos romances do escritor americano ele protagoniza. O que percebo, particularmente naqueles e naquelas que continuam vindo de um romance para o próximo (Silvio, que havia morrido em “A felicidade é fácil”, ressurgindo jovem e saudável em “Welcome to Copacabana”; Paulo, de “Se eu fechar os olhos agora”, continuando sua saga como expatriado em “Vidas provisórias”) , é que têm um sentido ético, uma retidão de caráter e busca de humanidade como lembro serem as de meus pais. Ela foi tecelã numa fábrica de tecidos em Valença, onde começou a trabalhar ainda menor de idade. Ele, dono de armazém, reconstruiu a vida com o apoio dela, quando sua “venda” pegou fogo e ficaram sem um tostão, já tendo dois filhos e com um terceiro a caminho. Sou um dos seis frutos dos bravos, incansáveis, Joaquim e Lourdes. Me inspiro na resiliência deles, quando as circunstâncias parecem mais sombrias.
Há um trabalho seu pouco conhecido talvez, e certa vez perguntei informalmente isso a você, que é a tradução. Que trabalho é esse? O que é traduzir? E mais: o que é traduzir textos técnicos e teóricos (você traduziu Existencialismo e alienação na literatura norte-americana, de Filkenstein, e Fundamentos de Filosofia, de Afanasiev)? Em que essas tarefas importaram no seu trabalho (seja como repórter, escritor e leitor)?
Traduzir, descobri com o tempo, me abriu portas de outras culturas, da vida íntima de personagens na América do Norte, França, Espanha, Rússia, entre outros. Tal como havia acontecido quando li, ainda adolescente, na biblioteca pública de Valença, os livros de Jack London, Charles Dickens, Thomas Mann, André Gide, Victor Hugo, Eça de Queiroz, Camus. Algumas das traduções técnicas que fiz – e você foi lá longe, lembrando de “Fundamentos de filosofia”- igualmente me ajudaram muito a percorrer aspectos de cultura que ajudaram na minha formação. Foram, um tanto, como os cursos superiores e as pós-graduações que não tive oportunidade de fazer. Gosto de traduzir e o faço, às vezes, por exercício de escrita, uma vez que é preciso recriar em português, em nosso ritmo e respiração das frases, as frase e respirações de língua estrangeira. Recentemente traduzi do inglês uma peça contundente do David Hare sobre os últimos dias de Oscar Wilde, intitulada “O beijo de Judas”.
Há toda uma geração, a geração a que pertenço, que acostumou-se a ver seu rosto na televisão, entrevistando personalidades, em coberturas de conflitos decisivos para o séc. XX, fazendo reportagens para o Globo Repórter e outros. Recentemente, ao invés de ver seu rosto, vimos sua obra “Se eu fechar os olhos agora”. Como a abertura desse caminho, a pavimentação da estrada, entre o repórter e o autor adaptado se deu? Você buscou? Você sonhou? Aconteceu? Isso é bom para o mercado do livro?
Acredito que se um escritor brasileiro é abraçado por leitores brasileiros, via televisão ou seja como for, apesar da avalanche publicitária e financeira que favorece os best-sellers estrangeiros, isso poderá ser bom para todos os autores, de todas as gerações. Houve uma época, não tão distante, em que a lista dos mais-vendidos era povoada por nomes nacionais como Jorge Amado, Graciliano Ramos, Lya Luft, José Mauro de Vasconcelos, Érico Veríssimo, Luís Fernando Veríssimo, Nelson Rodrigues e outros tantos. Eram refinados e populares, ao mesmo tempo. Há dez anos um romance brasileiro vem, discretamente, batalhando e vencendo os mamutes internacionais: o delicado “Arroz de Palma”, de Francisco Azevedo. Fiquei muito contente com a adaptação que Ricardo Linhares fez de “Se eu fechar os olhos agora” (lembrando que ele já havia adaptado outros autores brasileiros, como Jorge Amado, na novela “Tieta”). O que eu havia proposto ao Ricardo era um seriado baseado em 12 contos diferente, mas ele era apaixonado por “Se eu fechar os olhos” e eu alegremente topei.
Certa vez eu estava no lançamento de um livro de um amigo, autor estreante, quando você chegou, adquiriu o livro, conversou brevemente com ele, parabenizando-o. Como é seu relacionamento com os autores novos? Há alguma procura por parte deles? Você tem um perfil aberto e acessível nas redes sociais, como funciona isso? É agradável, incomoda ou é apenas um prolongamento da vida real?
De certa forma, eu também sou “um autor novo”: meu primeiro romance, “Se eu fechar os olhos agora”, saiu há apenas 10 anos. Enfrentei o descrédito de parte da crítica, como acontece com tantos de nós. O fato de ser visto como “um global”, sem identidade própria, começou a ser vencido com uma crítica altamente elogiosa na Folha de São Paulo, assinada pelo respeitadíssimo Manoel da Costa Pinto, depois com o Premio São Paulo de Literatura, em seguida com o Jabuti de Melhor Romance, e mais as edições internacionais na Inglaterra, França, Alemanha, Sérvia, Portugal, Holanda, Itália. Meus perfis em redes sociais são abertos. Ouço e leio opiniões muitas vezes opostas às minhas. Acredito que se possa aprender ouvindo e discutindo. Só bloqueio ou elimino quando os comentários são ofensivos. Na época em que eu comandava o programa Globonews Literatura, eu sempre equilibrava a apresentação de consagrados, como Milton Hatoum, Adélia Prado, Luiz Ruffato, Saramago, Ohran Pamuk, com autores em início de carreira. Há bom escritores iniciantes em várias partes do Brasil. Alguns são excepcionais. Quais, o tempo e suas obras provarão.
A todo momento se fala em crises setoriais no Brasil. E mais ainda na crise do mercado editorial, o fim do livro impresso, editoras fechando, livrarias idem. Pelos interiores do Brasil profundo, contradizendo isso, acontecem cada vez mais feiras e festas literárias, nos quais os autores locais se confraternizam e promovem suas obras. Há alguma contradição entre o discurso do mercado e a prática literária? O livro digital e a autopublicação aparecem como saída para muitos autores. Você tem algum pensamento formado sobre isso?
Há pouco publiquei um conto, “A festa de Vargas”, em livro digital, numa coletânea de autores brasileiros que saiu pela Amazon. Três peças teatrais minhas (“Casa comigo”, “O brilho por trás das nuvens” e “Sarah em São Paulo”), vão sair breve em audiolivro pela Storytel. Há muitos caminhos, hoje, para o autor que quer partilhar suas criações. As feiras literárias, surgidas na esteira do sucesso estrondoso da Flip, estão aí mostrando que não há mais um único centro de difusão cultural, há muitos, por toda parte do Brasil. Pesquisas recentíssimas mostraram um movimento de recuperação do mercado de livros (saiu matéria na Publishnews). O modelo das megastores, misturando venda de livros com CDs e eletrônicos, é que talvez tenha naufragado. Mas gente do mercado fala, insistentemente, em má gestão dessas redes. Na Avenida Paulista, uma livraria dedicada exclusivamente a livros, a Martins Fontes, vive com seus três andares lotados – assim como seu auditório, onde diariamente há eventos culturais. Vi isso com meus próprios olhos, nos dias em que trabalhei ali para o lançamento de “O último dia da inocência”. Há esperança.
A Kuruma’tá agradece sua gentileza em nos falar.
Agradeço eu.
A ventania na janela são flores pra ela
Gente, mais um texto lindo do Eduardo Frota chegando na Kuruma’tá. Repare só esse começo: Era madrugada quando o vento, inquieto e insistente, deu início ao seu intento. Os sopros tentavam balançar as bordas das cortinas para descortinar o amor, a entrega, a conjunção carnal – o mundo inteiro que cabia naquela microesfera que era o quarto do casal.
Era madrugada quando o vento, inquieto e insistente, deu início ao seu intento. Os sopros tentavam balançar as bordas das cortinas para descortinar o amor, a entrega, a conjunção carnal – o mundo inteiro que cabia naquela microesfera que era o quarto do casal.
Ele queria entrar.
Forçava os vidros da janela sem perceber que ela estava completamente fechada. Ao malogro, subiu corrediço pela fachada e procurou por uma fresta na porta. As pancadas se tornaram incessantes, barulhentas, desafiando o silêncio das horas.
Lá dentro, o casal aos sussurros.
Lá fora, o vento aos murros.
Em sublime união, os amantes permaneciam despercebidos. Havia, entretanto, um buraco na fechadura. E para tanto, o vento logo se tornou uma fugidia linha, intermitente e aguda, regendo uma espécie de sinfonia quase muda. Quase… Acalmado, já dentro do quarto, rodopiou pelo ar e envolveu o casal à beira do êxtase.
Arrepios.
Dois longos suspiros.
O vento avoado achando que foi ele quando, na verdade, havia sido o destino.
O drama sertanejo de Bacurau
Armas, drones, armas, mapas, armas, motos, armas, telas, armas, corpos que caem. O que diz esse excesso de corpos armados e de corpos derrubados? Neste faroeste de takes à lá Sergio Leone e Glauber Rocha, todos podem perder ou cair. Podem também desaparecer, aprender a ficar invisível, mas vence a porção-Tarantino dos dois diretores. [Texto de Nonato Gurgel]
O caríssimo, precioso mesmo, colaborador da Revista Kuruma’tá, o poeta potiguar Nonato Gurgel, escreveu belamente sobre o filme Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles. O texto foi publicado originalmente da página do poeta, mas a Kuruma’tá faz questão de também publicar um conteúdo que só ilumina suas páginas. Vale demais a leitura.
O premiado filme do Kleber Mendonça (Aquarius) e Juliano Dornelles começa leve, pegada rural, movimentos suaves de pontinhos brancos, na tela escura, que lembram as estrelas de Star Wars. Na abertura, Gal Costa canta ‘Objeto não identificado’, enquanto voamos de olho nos céus iluminados de uma cidadezinha do interior de Pernambuco.
Sertões potiguares e paraibanos servem de cenários para este western nordestino. Onde rola sangue e a vida parece por um triz, Sonia Braga aparece pelo avesso, subverte expectativas, assim como a narrativa, cujos fios demoram na tessitura ou, às vezes, parecem dizer outra coisa, restando ao senhor espectador refazer suas escolhas. Ao contrário do que anuncia a mídia, não acho um filme fácil.
II – Nova Canudos?
A médica Domingas, vivida por Sonia, em nada lembra a doce Clara de Aquarius, mas parece ser solidária, como são solidários os demais habitantes de Bacurau – uma mini cidade com nome de pássaro, ‘uma nova Canudos ou uma Canudos genérica, pronta para explodir’. Bacurau é um lugar que chega até a desaparecer do mapa, mas que sobrevive à margem dos poderes.
Quem demora a desaparecer, na mente do espectador, são os corpos desse drama sertanejo repleto de signos urbanos e referências culturais, como o cangaço e os beatos. Os rostos da pernambucana Lia de Itamaracá e do vilão vivido pelo alemão Udo Kier (Melancolia), dentre outros, formatam a diversidade étnica e identitária dessa margem, cuja trilha sonora parece incluir até o barulho das armas. Margem que subverte, parodia o Brasil do desmonte, nossas violências sociais e subjetivas hoje.
III – Você quer viver ou morrer?
Armas, drones, armas, mapas, armas, motos, armas, telas, armas, corpos que caem. O que diz esse excesso de corpos armados e de corpos derrubados? Neste faroeste de takes à lá Sergio Leone e Glauber Rocha, todos podem perder ou cair. Podem também desaparecer, aprender a ficar invisível, mas vence a porção-Tarantino dos dois diretores. Eles disputaram com Almodóvar (Dor e Glória), dentre outros cineastas, e venceram o Prêmio do Júri em Cannes (antes deles, somente o Anselmo Duarte ganhou, em 1962, com o filme O pagador de promessas).
Neste drama que atualiza o imaginário rural e mistura terror, guerra e ficção científica, é mister ser múltiplo, ambíguo, viver a profusão, o claro-escuro. Na treva, rege o grotesco. O grotesco que é, em Bacurau, o corpo em movimento. Corpo que ataca, atira ou serve de alvo, sem contemplação. O grotesco nas manchas do sangue nas roupas ao vento. No varal, no corpo, na terra, o sangue faz-se presente em tudo, e parece fazer a mesma pergunta o tempo inteiro, independente de gênero ou idade: você quer viver ou morrer?
Ópera de retalhos sobre a verve jacksoniana (100 anos de Jackson do Pandeiro)
Nesse 31 de agosto de 2019 celebramos o centenário de Jackson do Pandeiro, o grande Jackson do Pandeiro, nascido em Alagoa Grande, na região do Brejo da Paraíba. De lá partiu pra embolar o Brasil e transformar nosso jeito de dançar, de tocar, de ouvir e de cantar. O poeta Aderaldo Luciano, que andava sumido da Kuruma’tá, retorna pra falar de Jackson, pra falar com Jackson, no ritmo do gênio e dos caminhos que ligam a Paraíba ao Brasil. [Ópera de Aderaldo Luciano]
Nesse 31 de agosto de 2019 celebramos o centenário de Jackson do Pandeiro, o grande Jackson do Pandeiro, nascido em Alagoa Grande, na região do Brejo da Paraíba. De lá partiu pra embolar o Brasil e transformar nosso jeito de dançar, de tocar, de ouvir e de cantar.
O poeta Aderaldo Luciano, que andava sumido da Kuruma’tá, retorna pra falar de Jackson, pra falar com Jackson, no ritmo do gênio e dos caminhos que ligam a Paraíba ao Brasil.
— Lembro da primeira vez Que ouvi Jackson do Pandeiro. Foi de manhã bem cedinho Na rádio de Juazeiro O locutor disse assim: “Já está perto do fim De nossa trilha de ouro. Escutem com atenção Mais um clássico do sertão!” Tocou: Casaca de Couro.
Foz em off
— Dois momentos na vida musical de Jackson aparentemente se contradizem, mas não funciona assim a escalada de um artista forte e radical como o paraibano. Todos conhecem o êxito de Chiclete Com Banana no qual o cantor assume sua radicalidade negando-se a aceitar o alastramento da música americana entre nós. O Tio Sam não respeitava o tamborim, confundindo samba com rumba, esquecendo-se das originalidades do pandeiro e da zabumba. Mas o tempo e o conhecimento foram abrindo aos poucos os ouvidos e as possibilidades jacksonianas. Ora, a influência do cinema americano substanciava-se no próprio nome, primeiro Jack, depois Jackson. Até que no disco Um Nordestino Alegre entra em cena o samba nordestino Amigo do Norte contando a história da amizade entre esses dois elementos. Todo o arranjo é plantado no diálogo entre a sanfona e o clarinete e um breve bate-papo no qual um americano de sotaque paraibano chama o Jackson de Zacks. É sensacional quando Jackson diz: “Como é, esse minino, gostasse?”
Em 1981, antes de entrar no palco para mais um show em São Paulo, o Rei do Ritmo afirma estrategicamente: “Cheguei a conclusão de que tudo é coco!”. Uma afirmação condizente com toda uma trajetória que teria como balanço primeiro e fundador o coco. A obra de Jackson se confunde com dois ritmos: o mesmo coco e o samba urbano carioca sincrético com o ritmo antecessor. Dentro da panela de pressão jacksoniana ferviam os dois ritmos, um entrando dentro do outro, num matrimônio cujas premissas estavam escritas no fundo da terra.
— Durante o mês de janeiro de 2016 iniciei a série de alusões a Jackson do Pandeiro, o paraibano de Alagoa Grande, autarquia da música brasileira. Certo dia desse mesmo janeiro, Lau Siqueira, então secretário de cultura da Paraíba do Norte, publicou a foto na qual aparece a estátua do Rei do Ritmo vandalizada em plena capital, João Pessoa. É uma prática, infelizmente, comum. A agressão à cidadania se dá de várias formas, inclusive atacando sua memória cultural, daquela maneira. A fotografia, pela assinatura, é de nosso amigo Aurílio Santos. Canta o segundo Cantador:
— Meus olhos pingaram ácido, Depois de arregalados Ao ver a estátua de Jackson Com olhos violentados. Alguém na febre dos cães, Não respeitando as manhãs Dos que zelam a tradição Jogou tinta em vã labuta Porque não tinha cicuta Pra dar ao Rei do Rojão.
Na rota dos infiéis. O sol teve olhos vazados O dia perdeu seus pés. Ritos inegociáveis Nesses dias tormentáveis Ferem homens coerentes. Mas há vontades secretas Nas mãos de falsos poetas Com suas pautas doentes.
O certo virou o errado, O cão mia e o gato late, A lama é a tinta que está Na caixa do engraxate. Quem vandalizou a imagem? Quem manchou a homenagem Feita a Jackson, o imortal? Talvez que nunca apareça Até que a gente se esqueça E ache tudo normal.
Cantador:
— Se eu tivesse, de Jackson, Um pouco do seu carisma, Migalhas de sua ginga, O alcance de um seu melisma, Seria só um babau Que todo dia se abisma.
O pandeiro de Jackson foi açoite Pois seus dedos pulsavam de energia. Todo o Sol se calava, sendo dia; Transformava-se em Lua, sendo noite. Para que o incauto não se afoite, Pegue a música Chiclete Com Banana. Escute-a por toda essa semana Reparando no solo do pandeiro. É açoite, sol, lua e candeeiro. É a iluminação, pari-nirvana.
Do lado da rua, do concreto, do asfalto, dos cabarés e arranca-rabos, reinou o Rei do Ritmo. Pois é: Zé Gomes Filho, o Jackson do Pandeiro. Do couro e dos guizos do seu instrumento vimos a professorinha Dona Filomena soletrando o Bê-a-bá, valentões acabadores de forrós amolando suas facas, gafieiras intermináveis pelos subúrbios do Rio de Janeiro, mulheres que trocaram de sexo numa viagem feita a Hollywood. O coração de Jackson pulsava saltitante e inebriava nossos tornozelos. O zabumbeiro desprevenido atravessava o rojão se não entendesse sua sincopagem. Dizia que todos os ritmos provinham do coco, inclusive o rock’n’roll. Jackson desafiou Tio Sam, traduziu o linguajar da saparia na Lagoa do Paó (às margens de onde nasceu), ofereceu tutano e xarope de amendoim pra quem andava caindo do banco. Teve até coragem de peitar Gonzagão, dizendo que seu baião, na verdade, era coco. Foi-se embora, encantado e jovem. Parece que ouço sua pergunta mais que atual: — Que briga é aquela que tem acolá?…
Cantador:
— Jackson do Pandeiro e Almira, Na esquina do destino, Encontraram-se feito um doce Que cai na mão de um menino. Um de cá, outro de lá, Como o terço bizantino.
Imaginemos agora Esse Jackson soberano Rei do Ritmo, Rei da Síncopa, Rei do Forró Suburbano, Rei do Coco, Rei da Ginga, O Páss’ro Paraibano.
Esse Jackson do Pandeiro Foi primeiro e maioral Rumou de Alagoa Grande A sua terra natal Veio ao Rio de Janeiro Revelar seu cabedal.
Viva Jackson, inda minino, Olhar cheio de ternura Alma repleta de climas E cantos da saracura Pelos engenhos do brejo Doce que nem rapadura.
Viva Jackson do Pandeiro Filho de Flora Mourão Pai da quebra do compasso Sincopando no pião Subindo e descendo o coco Desafiando o rojão.
“Buraco velho tem cobra dentro”
Começo mesmo é falando da maravilha que é ser espectador desse filme, despido da cinefilia, e da maravilha que é esses dois cineastas terem mergulhado no Sertão do Seridó, para dar ouvido a essa voz do dentro do Brasil. E com maestria ter relacionado isso ao mundo, processando as tais influências, que prefiro chamar de presenças. [Texto de Toinho castro]
Peço licença para falar sobre Bacurau, o premiado filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles que estreia hoje em circuito nacional de cinema. Peço licença porque não sou crítico de cinema e já conferi que muita gente boa e mais preparada desfiou muito rosário sobre significados, metáforas, influências.
Então começo mesmo é falando da maravilha que é ser espectador desse filme, despido da cinefilia, e da maravilha que é esses dois cineastas terem mergulhado no Sertão do Seridó, para dar ouvido a essa voz do dentro do Brasil. E com maestria ter relacionado isso ao mundo, processando as tais influências, que prefiro chamar de presenças. Posso imaginar um John Carpenter translúcido, ectoplasmático, rondando pelo set de Bacurau, menos dando pitacos e mais observando com certo orgulho aquelas duas crias, Juliano e Kleber, fazendo não como ele fez, mas porque ele fez e faz. O que move um John Carpenter, uma Agnes Varda (homenageada do Festival de Cannes que agraciou Bacurau com o Prêmio do juri), um Glauber Rocha, é o que move Juliano e Kleber; um amor de ter visto tantos filmes e se jogar a fazê-los.
Duas coisas que tem se falado de Bacurau é a questão dos filmes de gênero e desse momento que vive o país (o mundo…) em que Bacurau se crava como uma estaca no peito de um vampiro. Pois… O filme brinca com a necessidade de ser enquadrado num modelo, numa prateleira da locadora (Deus! Isso nem existe mais!). Antes de classificá-lo nesse ou naquele gênero (Ficção científica distópica? Terror? Filme de bang-bang?), é preciso ler Bacurau como um filme brasileiro. Brasileiríssimo e daí antropofágico. De novo recorro à imaginação e projeto os Andrades, Joaquim Pedro, Oswald e Mário (que andou pelos sertões) sentados nessa anacronia deliciosa que é a cadeira do cinema, de olhos bem abertos e vibrando a cada cena em que a história de um vilarejo sertanejo se insurge contra caçadores de gente americanos se desenrola, uma encruzilhada em que se cruzam passados e futuros possíveis.
Essa encruzilhada se chama tempo presente, e é aí que Bacurau rodopia no centro do momento político vivido pelo Brasil. A inevitável leitura do filme como parábola do desvario em que o país se arrasta, rumo a que ainda não se sabe. Talvez essa leitura seja mesmo real, correta e, sobretudo, importante. É um filme com senso de espetáculo, que envolve a plateia e ao mesmo tempo a denuncia na função de plateia. Enquanto estamos sentados, torcendo, aplaudindo a tenacidade sertaneja, somos quem assiste. A ação ocorre na tela, e há quem imagine o deslocamento da ação para a realidade, que nos enclausura no que somos.
Mas gosto mesmo é de deslocar o filme desse furacão circunstancial, para exercê-lo como cinema com vida própria. Encantou-me no filme momentos em que a história parece se evaporar num fotograma para dar lugar ao cinema, essa entidade autônoma que se impõe sobre o desejo de se estabelecer narrativas. Mas sem dúvida é um filme de história, de contar história, e essa história implacável pode ser contada em qualquer época. Não está circunscrita ao que vivemos nesse agora que parece não ter fim, pois ela mexe com coisas imersas na alma, com conflitos e atitudes que são de cada um de nós. Olhe bem pra cada atriz, cada ator se desdobrando naquela tela iluminada e se veja neles, entre eles. Nisso reside a dimensão cinematográfica de Bacurau e de seus realizadores.
E aí vem o que quero muito falar. Quando digo realizadores, no plural, enfatizo justamente essa pluralidade do cinema e desse filme. Muito ouvimos falar de filme de autor. Bacurau se livra disso para ser um filme de autores. Quando a dupla de cineastas, atores e equipe, com a produção valente e precisa de Emilie Lesclaux pra segurar a fera que é fazer um filme desses, entra numa comunidade do sertão do Rio Grande do Norte, envolve a população, chama todo mundo pra junto, pra dentro… o que se entrega no final é um trabalho em que pulsa a coletividade. O som ao redor parece ser um trabalho tão autocentrado, em que Kleber Mendonça revisa um tanto de sua vivência no subúrbio recifense (Juliano é responsável pela direção de arte do filme), extrapolando as tensões de classe e a história autoritária do engenho na zona da mata de Pernambuco, enquanto vemos em Bacurau a partilha de visões e a costura de muitas mãos num tecido precioso. O cinema quase sempre é uma arte de muita gente, mas em produções como Bacurau isso ganha uma nova ênfase. De novo o momento político se impõe e nos obriga a lembrar que o filme gerou centenas de empregos diretos e indiretos, numa comunidade que não imaginaria, possivelmente, tirar sustento, inspiração de vida e aprendizado rico de uma realização cinematográfica desse porte.
Recuso-me a ser cinéfilo em certos momentos, sacando de dados, referências e discursos armados para definir e enquadrar o que quer que seja. Talvez me falte mesmo é capacidade para isso. Vai saber… Lembro de certa vez em que assisti, numa Sessão Coruja da vida, pela primeira vez, Do mundo nada se leva, de Frank Capra. Um filme também de resistência, de insistência, de certo poder escondido numa simplicidade muito mal lida por quem se impõe contra ela. Lembro que na manhã seguinte eu caminhava pelo passeio central da avenida Conde da Boa vista, no Recife, quando encontrei meu amigo Roberval. Ele mal me viu e foi dizendo: Viu aquele filme ontem?! Respondi que sim, que sim… Que filme foda, concluímos. E foi aquilo. Uma troca de olhares, um reconhecimento mútuo, uma espécie de identidade comum, que nos unia num lapso de mundo enquanto o tráfego da Conde da Boa Vista rosnava à nossa volta. Ao sair de Bacurau tudo que eu queria era encontrar Roberval, olhar nos olhos dele e dizer: Tu viu? Que filme foda!
Pós-escrito Um breve comentário sobre as música no filme. A trilha sonora sempre foi algo a que Kleber deu muito carinho nos seus filmes anteriores. Acredito que Juliano compartilhe desse mesmo credo. Da importância da música, mesmo do som, quando falamos de cinema. O filme abre lindamente com Gal em Não Identificado, talvez já te avisando a não colocar o filme numa caixa e fazendo troça da ideia de ficção científica. O uso de Réquiem para Matraga, de Geraldo Vandré, pode parecer uma homenagem ao cinema, mas é muito mais uma afirmação do poder dessa canção, do seu poder narrativo, que em pouco versos praticamente resume o filme. Diálogo entre tempos, entre artistas. De arrepiar. Nos surpreende ainda o maestro Nelson Ferreira, com seu recife intrínseco se esgueirando na paisagem do Seridó. Falando em se esgueirar, como não pensar na música sintetizada, Night, de John Carpenter adentrando em cena numa demonstração dos muitos cruzamentos que esse mundo tem, mostrando que há elos poderosos entre coisas que parecem muito diferentes (falo assim cifradamente para não dar spoiler de uma cena que vejo como crucial). Por fim… Bichos da Noite, de Sergio Ricardo, sobre poema do pernambucano Joaquim Cardoso (do bumba meu boi O Coronel de Macambira), nos carrega noutra cena de imenso poder, beirando o sobrenatural, e resgata essa sonoridade que só pode surgir num país como este em que vivemos, lutamos e nos esprememos para passar por portas estreitas.
Pós escrito 2 Esse filme ser lançado no mesmo mês, quase no mesmo dia, do centenário de nascimento de Jackson do Pandeiro é simplesmente auspicioso. Durante o filme inteiro eu só lembrava de Capoeira mata um…
Valha-me Deus, Senhor São Bento Buraco velho tem cobra dentro
Um conselho pra quem não for a Bacurau na paz.
Juliano Dornelles, Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux – Foto de Victor Jucá