A desencavada Ermida do Ó e outras histórias de um Rio de Janeiro primevo

Então, como num pesadelo, na igreja que eles construíram para se livrar da turma episcopal, logo estava morando a turma episcopal – e torrando a paciência deles novamente. O pessoal da Sé vivia dizendo que ia logo construir um templo, mas foram ficando por quase 80 anos. Mesmo tendo sido designado local pra construção – que passou a se chamar “Largo da Sé Nova” e hoje atende por Largo de São Francisco, eles continuaram aboletados junto aos homens pretos. O que só iria mudar com a chegada da Família Real, também. [Texto de Luiz Henrique Neto]

Há quem diga que conhece o Rio de Janeiro. Eu não ouso tal afirmação. Rio de Janeiro é uma cidade que está sempre pronta a nos surpreender a cada virada de esquina. Sempre algo por ser descoberto, percebido, interpretado. Andar pelo Rio é um exercício de poesia, história e mesmo filosofia. Cidade de muitas camadas, sobreposições. Hoje o caríssimo jornalista Luiz Henrique Neto inaugura sua presença na Revista Kuruma’tá remexendo nessas camadas, levantando um dos tantos véus.

Texto de Luiz Henriques Neto


Esta semana fiquei sabendo que, durante a restauração da antiga Catedral, ali na Primeiro de Março, tinham desencavado a antiga Ermida do Ó. Assim, munido da minha câmera e minha nova lente, que eu estava doido pra usar, fui visitar o local. Tem um Museu e Sítio Arqueológico, minúsculos, na velha Sé, mas vale a visita. Vai me dizer que nunca viajou e foi visitar uma igreja que mais tarde descobriu ser do século XX e a maior armadilha de turista, sem nada de interessante dentro?

A Ermida do Ó era uma capelinha tosca e simples, como muitas do primevo Rio de Janeiro. As suas ruínas são essas da primeira e da segunda fotos. Ao seu lado foi construído um Hospício e não, não era para alojar os meus amigos de faculdade, mas o nome que se dava na época à Casa dos Romeiros. Quem exatamente fazia romaria ou peregrinação ao Rio de Janeiro do século XVI ninguém nunca explicou, mas pelo menos casa pra recebê-los tinha. Talvez justamente pela parcimônia desses fiéis é que quando chegaram na década de 80 uns padres pra fundar a Ordem de São Bento, alojaram eles lá. Logo depois, Manuel de Brito, capitão português que veio pra cá com Estácio de Sá e assim se tornou dono de umas terras, doou-lhes um morro e os beneditinos estão lá até hoje. Aliás, por causa desse Manuel de Brito é que a praia que tinha ali onde hoje é a Praça XV se chamava Praia de D. Manuel e até hoje a rua do Fórum se chama rua D. Manuel.

Realojados os padres, o Hospício logo em seguida recebeu outros. Eram carmelitas, com o mesmo intento de estabelecer sua ordem por aqui. Ofereceram-lhes a princípio um morro, mas eles o acharam ermo e distante. Era o Morro hoje de Santo Antônio (ou o que restou dele). Lembrem-se que naquela época a área da Lapa – Passeio, Carioca e redondezas – era um pantanal, e daqueles malcheirosos. Tanto que abriram uma vala pra drenar aquelas águas e renová-las. Hoje é a rua Uruguaiana e por isso ela é uma das poucas retas daquele tempo.

Os carmelitas gostaram da área onde estavam e conseguiram permissão para construir seu convento ali mesmo, em 1611, começando a construção em 1619, quando receberam permissão da Câmara pra usar as pedras da hoje Ilha das Enxadas, onde fica a Escola Naval, mas que na época não tinha nome e passou a se chamar Ilha de Ruy Vaz Brito porque este foi o governador que concedeu a licença de exploração.

A concessão de terreno mencionava a construção do convento e sua “cerca”. Talvez fosse a paliçada, que está na terceira foto. Na base de pedra, podem se ver os buracos onde ficariam os troncos. Curiosamente, é parecida com aquela de “O Novo Mundo”, do Terence Malick, com as toras espaçadas (se bem que no filme estavam mais pra gravetos do que pra toras). A nossa ideia é que qualquer paliçada seja maciça, como um forte, mas provavelmente eles não estavam esperando ataques de artilharia dos índios (contra quem ela foi provavelmente erigida) e queriam poder ver o que estava acontecendo do outro lado – como, curiosamente, os agentes de imigração disseram que queriam o “muro” pro Trump.

Na época, o mar batia até ali. Frei Vicente de Salvador (1) conta que uma baleia certa feita encalhou em frente ao Convento. Por algum motivo de aquecimento global ou fosse lá o que fosse, ainda no século XVI o mar já estava começando a recuar. E, como era um costume tolerado pelos governantes na época, a área que se formou ali passou a ser extensão daquela dos Carmelitas, que dela se apossaram. Até que em 1683 a Câmara botou o olho naqueles terrenos valorizados e resolveu reparti-los e aforá-los. Os padrecos ficaram furiosos, disseram que iam perder a vista, o ar fresco, que teriam o claustro devassado, enfim, botaram a boca no trombone. E não era de bom tom mexer com os caras – podiam ser monges, mas não do tipo que pensamos. Bagunceiros, irredutíveis, insurretos, tinham por algum motivo uma rivalidade com a Ordem da Misericórdia, que já naquela época possuía o monopólio dos funerais. Quando passava um féretro em frente ao Convento do Carmo, eles desciam de porrete na mão pra tocar o terror, hábito esse que mereceu uma ordem real vinda de Portugal pra acabar. Pra dar mais jeito de Ordem religiosa a eles, mais tarde foi nomeado um interventor, que ficou famoso por sua rigidez, Joaquim José Justiniano. O que foi uma pena, porque provavelmente a Igreja Católica não estaria perdendo tantos fiéis hoje em dia se tivesse guardado esses rituais.

Mas a queixa dos padres desordeiros deu resultado. Conta Vieira Fazenda que lhes foi cedido o direito àquela várzea em frente pelo rei, que para tanto argumentou: “os Jesuítas, Beneditinos e Franciscanos ocupam montes e têm fresco em primeira mão; os Carmelitas ficaram na planície e precisam de ar e luz; logo, há toda a razão, e como eles são viventes como os mais, têm direito ao que pedem.”

E tão enfezados eram os capuchinhos daquela época que, quando viram uma pedra fundamental erigida naquele terreno foram lá e arrancaram. As autoridades foram reclamar com eles, que era uma afronta, afinal era um marco real – e um marco real concedendo aquela área aos carmelitas. Os padres disseram que não estavam acima de reconhecer um erro e que a poriam de volta no lugar, o que fizeram.

O atual convento já foi alvo de muitas reformas, o que lhe descaracterizou a fachada. O mais próximo do aspecto original, segundo Vivaldo Coaracy, é a face que dá pra Sete de Setembro, que está na quarta foto. Os carmelitas ficaram instalados no Convento até a chegada da Família Real. Sendo o Paço muito pequeno pro tamanho e pros gostos dos portugueses, eles se adonaram também do edifício ali próximo e foi assim que eles foram sendo empurrados até a Tijuca, na igreja dos Capuchinhos.

Mas antes disso, no século XVIII, eles construíram a atual igreja de Nossa Senhora de Monte do Carmo, a antiga catedral. E como ela se tornou a antiga catedral, com tantas igrejas mais luxuosas, como a Candelária, dando mole? A primeira Sé do Rio, quando ele se tornou uma diocese, foi uma igreja no Morro do Castelo, no século XVII, que, com a mudança da cidade pra várzea e crescimento, foi se tornando cada vez menos frequentada, ainda mais com o templo dos Jesuítas, mais opulento e atraente, ali perto. Quando foi instituída na cidade a Ordem de São Benedito, dos “homens pretos”, foi-lhes concedido alojamento junto à Sé.

Os negros, obviamente, não recebiam um bom tratamento das autoridades eclesiásticas, que muitas vezes os tratavam como provavelmente os viam – seus escravos. Após alguns anos, eles se cansaram, e obtiveram permissão para construir sua própria igreja. Após obtê-la, conseguiram surpreendentemente levantar uma grande quantidade de fundos e construíram a atual Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, aquela branca do lado do camelódromo – a da quinta foto. Mais próxima do Centro da cidade da época, e relativamente monumental, a turma do Bispo logo achou que ali seria um ótimo local para a nova Sé. Principalmente porque as outras irmandades não estavam a fim de receber ordens de estranhos dentro de sua própria casa, e ali era a casa dos negros mesmo.

Então, como num pesadelo, na igreja que eles construíram para se livrar da turma episcopal, logo estava morando a turma episcopal – e torrando a paciência deles novamente. O pessoal da Sé vivia dizendo que ia logo construir um templo, mas foram ficando por quase 80 anos. Mesmo tendo sido designado local pra construção – que passou a se chamar “Largo da Sé Nova” e hoje atende por Largo de São Francisco, eles continuaram aboletados junto aos homens pretos. O que só iria mudar com a chegada da Família Real, também.

A Família Real chegou e ia assistir à primeira missa no Brasil. Deles, não do Brasil. Obviamente seria uma ocasião de gala, cheia de festança e jaez. O povo da Sé mandou avisar aos homens pretos que era pra eles se esconderem, para que os Bragança não se ofendessem com a presença de negros. O que, obviamente, levou-os a se enfileirarem de cada lado da rua do Rosário carregando palmas para saudar o rei. O espetáculo enfureceu tanto o bispado que a Matriz se mudou para a igreja dos carmelitas, que tinha a conveniência pros regentes que era ali do lado mesmo.

A Igreja sofreu várias reformas, e uma recente restauração. A torre direita é do começo do século XX e aquele Cristo (ou santo) realista lá em cima não tem nada a ver com o resto. Pelo menos ainda conserva o frontão que é considerado o mais bonito do Rio. A recente restauração foi a que desencavou a Ermida do Ó. Ela – e a catedral, é claro – estão abertas para visitas, aos sábados, de 9h30m a 12h30m. Seja um bom carioca e vá visitar. Não temos muito monumentos antigos e com história pra apreciar nesta cidade.

As fotos são imagens variadas da igreja, incluindo os restos mortais de Pedro Álvares Cabral, na cripta desde 1903. Esperamos que tenham se divertido e curtido o tour.

Todas as fotos de Luiz Henrique Neto



(1) Escreveu uma história do Brasil, acho que em 1723, e, pela primeira vez, alguém escreve que o problema do Brasil é a mentalidade extrativista – os colonos vinham aqui somente pra extrair o que pudessem, lucrar o que pudessem, e voltar pra casa, sem intenção de construir uma nação ou permanecer. Certos conceitos da nossa terra são mais antigos do que pensamos.


Luiz Henriques Neto é jornalista, tendo trabalhado no Jornal dos Sports, Sport Press, e colaborado para O Globo e Manchete. É tão velho que escreveu novelas de rádio para a Rádio MEC AM e peças de teatro que ganharam concursos da Funarte, FUNARJ e SENAC e foram montadas por Domingos de Oliveira, Rosane Goffman, Luiz Carlos Maciel e Tina Ferreira. Como roteirista, trabalhou para a Conspiração, nos filmes da Xuxa e na primeira temporada de Vai que Cola, e também para Lucélia Santos e a TV chinesa. É o sócio capitalista da escola de Música EAPE – Espaço de Artes Patrícia Evans.


A poesia de outono azul a sul

O que a gente quer, sem dúvida, é que a Revista Kuruma’tá seja cada vez mais uma casa de poesia, que acolhe e espalha versos e poetas. E é assim, com essa afirmação necessária, que dou boas vindas a poeta Calí Boreaz, com sua poesia atravessada de moderno lirismo… Vou e volto e vou de novo à sua poética, ponte sobre atlânticos, entre pátrias, mátrias, luminosidades. [Poemas de Calí Boreaz]

Poemas de Calí Boreaz


O que a gente quer, sem dúvida, é que a Revista Kuruma’tá seja cada vez mais uma casa de poesia, que acolhe e espalha versos e poetas. E é assim, com essa afirmação necessária, que dou boas vindas a poeta Calí Boreaz, com sua poesia atravessada de moderno lirismo…

escrevo como quem se abrevia
às coisas:
vou ali e já volto
só uma saidinha
pra arejar, ar

Vou e volto e vou de novo à sua poética, ponte sobre atlânticos, entre pátrias, mátrias, luminosidades. E aqui compartilhamos com você, desses poemas, cinco desses mundos, que evocam muitos olhares e muitas vozes. seja bem-vinda, Calí Boreaz, ao fundo de rio da Kuruma’tá…


Compre o livro na Blooks Livraria

dedicatória

vai ficando tarde
tardo. estou abotoando
minha coragem
mudei de casa, de estação
mas de saudade não, não mudei
bem tentei, nos classificados nos bondes
mas teu olho esquerdo é tão
diferente do teu olho direito
ninguém mais desobediente
do que o confuso de peito
está ficando tarde. ok.
tenta apreciar o manuseio de horizontes
o plantio de um novo planeta
ainda intermitente
antes, te dedico a leve chuva
que rodeia os templos


toda varanda quer ser um navio

escrevo como quem se abrevia
às coisas:
vou ali e já volto
só uma saidinha
pra arejar, ar

no dia em que sumi no mundo
(nasci de parto mortal e mais
ninguém me viu)
ali comecei discreta a construir uma varanda
no planeta

abenluada
solidão

repente
a varanda do planeta
ficou escuramente maior

maior que o próprio planeta
não cabe na solidão
nem mesmo nestas
palavras verticais com que vou
vasculhando
oxigênio enquanto
empurro com todas
as fraquezas o portão
de parto que ainda me aparta
dos olhos que me escrevendo
me expandiram

abensomada
ausência

dia destes ainda sou capaz de zarpar, ar

com eles
numa distração do silêncio
na varanda desarvorada
enfim feita navio


o passeio

passeio:
passou enquanto eu passava.
tudo passa, mesmo que não dê um passo
                                                  fica pacificado

é isto: ex-isto.


#dia24 | feliz aniversário

esta noite a Terra
demorará um segundo a mais
a dar a volta sobre si mesma
o pulmão da Terra
entregará um grama mais
de ar aos terráqueos
a água da Terra
adentrará em um milímetro
a incandescência
as falhas geológicas todas
causarão tremores
imperceptíveis
os genomas humanos
nascerão noutra ordem
durante toda a madrugada
e muito mais gente do que o normal
estará escutando Beethoven
ou Caetano
com aroma de café
ou chá de laranjeira
com os pés virados para as estrelas
em redes floridas
e eu só botei esse batom vermelho
pra marcar de beijo a lua
pra você ver
onde quer que você esteja


Mergulhe mais no universo de Calí Boreaz nos links:

casa virtual http://www.caliboreaz.com
instagram @caliboreaz
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Calí Boreaz nasceu em Portugal, onde estudou Direito, em Lisboa, em meio às noites de fado e flamenco. Viveu em Bucareste, na Romênia, onde estudou língua e literatura romena e tradução literária. No virar de 2009 para 2010, atravessa o Atlântico rumo ao sul para viver no Rio de Janeiro, onde se entrega ao estudo e ao ofício do teatro. Na literatura, traduziu do romeno os romances O regresso do hooligan [ed. ASA, Portugal], de Norman Manea, e Lisboa para sempre [ed. Thesaurus, Brasil], de Mihai Zamfir. Seu livro de estreia, outono azul a sul [ed. Urutau, Portugal & Brasil], é um relato poético do exílio e da clandestinidade, e tem posfácio de João Almino e desenhos de Edgar Duvivier e António Martins-Ferreira. Integra também a coleção Identidade vol. II da Amazon Kindle com o conto islandeses. Seus textos têm aparecido também em várias revistas literárias brasileiras, portuguesas e galegas, e em exposições como a Bienal Internacional de Arte de Gaia 2019, em Portugal, e o Hyderabad Literary Festival 2019, na Índia.



Um livro com 50 poemas de Drummond e o futuro

O livro chama-se 50 poemas escolhidos, tem 62 anos de idade e passou por pessoas, lugares, dias, e chegou a mim. Rilda Coelho dos Santos o comprou numa tarde ou manhã de um perdido 9 de agosto de 1957. Suas páginas estão cheias de anotações, numa letra que não parece ser a de Rilda, comparando com sua assinatura na folha de rosto. É a letra, precisa e regular, de alguém a quem esse livro pertenceu depois de Rilda, alguém que aparentemente precisou dele para algum trabalho do colégio ou faculdade… [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


A gente não compra um livro digital, um e-book, como se diz, a gente compra o direito de acessá-lo enquanto ele estiver disponível. O mesmo vale para o streaming de música ou vídeo. Faço essa reflexão porque ontem fui escutar um disco que gosto muito numa plataforma de streaming que eu assino e não pude encontrá-lo. Não está mais disponível. Possivelmente questões de direitos do artista, da gravadora, da editora das músicas…. vai saber. Bem sei que o sagrado cinema sempre foi assim, a gente assistia ao filme enquanto estava sendo exibido no circuito de salas de exibição. Mas os VHS, os DVDs, e outros formatos de distribuição física de conteúdos, foram nos ensinando que poderíamos guardar os filmes como guardávamos os livros.
Somos uns mal-acostumados.

Com comércio de e-book esse cenário está em transformação e nossa relação com o livro em cheque. Para ilustrar, recentemente a Microsoft encerrou as atividades de sua loja de e-books e todos os livros “comprados” foram excluídos. Os leitores desavisados ganharam vale-compras para serem trocados por outros produtos. De repente aquele livro que você comprou, e nem chegou a terminar a leitura, pode se transformar num mouse.

Escrevo isso enquanto, encerrado em certa nostalgia, olho para um livro que comprei ontem na Banca do Olivar, uma seleção de poemas de Carlos Drummond de Andrade, escolhidos pelo próprio poeta para uma coleção chamada Cadernos de Cultura. O livro chama-se 50 poemas escolhidos pelo autor, tem 62 anos de idade e passou por pessoas, lugares, dias, e chegou a mim. Rilda Coelho dos Santos o comprou numa tarde ou manhã de um perdido 9 de agosto de 1957. Suas páginas estão cheias de anotações, numa letra que não parece ser a de Rilda, comparando com sua assinatura na folha de rosto. É a letra, precisa e regular, de alguém a quem esse livro pertenceu depois de Rilda, alguém que aparentemente precisou dele para algum trabalho do colégio ou faculdade, alguém que leu os poemas com um olhar criterioso, diferente de quem lê como quem passeia, como quem encontra alguém. Quem quer que tenha feito essas anotações se debruçou sobre esse livro como hoje me debruço. O que me leva a perguntar quantos somos os que carregaram esse livro. Quem somos e por onde andamos?

Nesses 62 anos que se passaram, Rilda bem pode estar viva ainda. Assim como quem escreveu todas essas notas miúdas, interpretando Drummond, sua escrita, seus versos. Drummond que se foi, que morreu em 17 de agosto de 1987, trinta anos quase precisos depois que esse livro foi comprado por Rilda. Drummond que não imaginou seu livro, com mais de 60 anos, aguardando, como um imortal, um novo leitor passar desprevenido pela banca do Olivar e descobri-lo e carregá-lo numa nova e inesperada jornada de leitura. No Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco, li sobre esse ponto fixo, em torno do qual tudo gira. Imaginei esse livro do Drummond como esse ponto, entorno do qual giramos Rilda, eu e tantos que o seguraram nas mãos, fizeram anotações e enveredaram pela noite escura percorrendo suas páginas.

Eu sabia que a Terra estava rodando, e eu com ela, e Saint-Martindes-Champs e Paris inteira comigo, e juntos rodávamos sob o Pêndulo que na realidade não mudava jamais a direção do próprio plano, porque lá em cima, de onde pendia, e ao longo do infinito prolongamento ideal do fio, para o alto em direção às mais remotas galáxias estava, imóvel por toda a eternidade, o Ponto Fixo.

A Terra girava, mas o lugar onde o fio estava ancorado era o único ponto fixo do universo.

O Pêndulo de Foucault, de Umberto Eco



Carrego por aí meu Kindle, sabendo que preciso mantê-lo carregado ou não terei livros. torcendo para a Amazon não mudar de ideia e fazer como a Microsoft. Talvez em 60 anos meu Kindle esteja largado numa feira de troca-toca, sem função, como curiosidade de uma certa época, de uma certa indústria, que prosperou e sucumbiu, como quase tudo na vida. É bem possível que algum curioso que o pega nas mãos não consiga relacioná-lo à ideia de livros ou leitura. Talvez na mesma feira, na banca de um futuro Olivar, possa ser encontrado meu livro com 50 poemas de Drummond, carregando o nome de Rilda, a data de 9 de agosto de 1957, as anotações do desconhecido ou desconhecida que vasculhou os poemas, talvez com uma pequena anotação minha para o futuro… quem sabe alguém nesse mundo incerto e adivinhado, possa folhear as suas páginas frágeis e amarelas e nele decifre uma vontade de sobreviver a tudo e a todos nós.


Maracatron

Enquanto isso, a cidade procura continuar a vida, com velas acesas, geradores a diesel ronronando em porões e galpões, casais furtivos aproveitando a súbita escuridão. Já os jornalistas se atormentam noite a dentro em busca de especialistas e autoridades que tenham uma resposta ou uma daquelas perguntas que parecem resposta. Mas as autoridades não sabem nada. Nosso trabalho está muito além das autoridades. [Texto de Toinho Castro]

Hoje começamos a publicar aqui na Revista Kuruma’tá a série Maracatron, escrita por Toinho Castro e publicada pela primeira vez na querida Revista Zé Pereira, em 2001. A versão aqui disponibilizada é revista e levemente ampliada e você pode ler a versão original aqui.

Vamos ver até onde vai essa estranha aventura que mistura energias fora de controle, mundos paralelos e personagens sem rumo. Em breve novos episódios! Fique de olho!

Texto de Toinho Castro


Sabe a falta de energia elétrica que acomete a cidade nesse fim de noite? Bem, vamos abrir o jogo aqui, cá entre nós, leitor que não sei onde está e nem quem é, leitor randômico a quem essa mensagem deve ter chegado como um trote, uma surpresa estranha, talvez em meio a uma agradável conversa com um amigo no zap. A verdade sobre o que está acontecendo é… é que a cidade foi engolida por uma gigantesca bolha de plasma gerada acidentalmente durante uma experiência rotineira e, repare, fracassada. A lorota sobre a torre de distribuição que caiu é e somente isso, uma lorota. A torre foi meticulosamente derrubada, após a queda da energia, para servir de explicação ao que não pode nem deve ser explicado. Tem uma equipe secreta de plantão, criada especialmente para simular coisas que precisam ser simuladas a fim de que outras pareçam ser o que não são. Pouco sabemos sobre essa misteriosa equipe mas de alguma forma, que também desconhecemos, eles foram acionados e cumpriram a missão. Missão cumprida. Para todos os efeitos práticos e jornalísticos, a culpa é da torre que caiu por causa de um raio que caiu na torre que não caiu.

Uma de nossas câmeras escondidas registra a evolução do fenômeno

Essa tal bolha, naturalmente, não deveria existir; pelo menos não nessas proporções. Trata-se de um daqueles casos em que um vacilo se transforma num desastre porque um distraído se apoiou na alavanca na qual ninguém deveria se apoiar. O curioso é que outras coisas deveriam ter sido afetadas pelo fenômeno mas, incrivelmente, apenas o fornecimento de eletricidade foi interrompido. As teorias dizem que eventos dessa natureza parariam marca-passos, automóveis e dispositivos eletrônicos em geral. Nada disso aconteceu e a nossa equipe está aproveitando a situação para observar e analisar os fatos. Enquanto isso, a cidade procura continuar a vida, com velas acesas, geradores a diesel ronronando em porões e galpões, casais furtivos aproveitando a súbita escuridão. Já os jornalistas se atormentam noite a dentro em busca de especialistas e autoridades que tenham uma resposta ou uma daquelas perguntas que parecem resposta. Mas as autoridades não sabem nada. Nosso trabalho está muito além das autoridades.

Estamos aqui no laboratório, muito atentos a cada detalhe de tudo que se passa. A bolha, contrariando os otimistas também de plantão, não para de crescer. Esse é o tipo de notícia que eu não gostaria de dar numa entrevista coletiva. Após uma rápida e monumental expansão inicial, que engoliu praticamente toda a cidade, a bolha continua a se expandir, muito lentamente, a partir do seu centro geométrico: o Maracanã.

É isso aí. O Maracanã é o centro irradiador dessa coisa devoradora de mundos, que avança rua a rua, quadra a quadra, consumindo invisivelmente o Rio de Janeiro. E o que eu vou revelar agora nessas linhas é algo que ninguém sabe. Você não sabe e ninguém que você conhece sabe. Ninguém acima de você no seu trabalho, ou acima de quem quer que seja, em qualquer trabalho que você tenha ouvido falar, sabe. Mas eu sei. Eu e um grupo muito restrito de pessoas. Penso, às veze, se é mesmo possível denominar alguém conhecedor de algo assim como uma pessoa. O que é uma pessoa? Alguém que come um hambúrguer numa birosca da esquina, alguém que chega atrasado na repartição… Ao escrever para você, um estranho que viu pular a notificação dessa mensagem no celular, eu mesmo me pergunto se é verdade. Pergunto-me o que é a verdade e como me meti nessa fábula estranha.

Você vai achar que é mentira, porque tem tudo para ser mentira. E, afinal, talvez seja. Talvez seja mentira somente uma outra forma da realidade. Algo que se insurge quando lidamos com o que lidamos aqui, esse lugar obscuro de onde escrevo para dizer que os subterrâneos do monumental estádio Mario Filho abrigam a mais louca experiência científica brasileira. A derrota de 50, os minutos de silêncio sob o manto das vaias, gols anulados e a memória de jogos inesquecíveis que não assisti repousam sobre um acelerador de partículas pan-dimensional, o Maracatron. O monstrengo, como você pode imaginar, opera secretamente e eu não tenho a menor ideia de quem paga nossos salários. Se o governo sabe? Mais ou menos como somente o Papa sabia do Terceiro Segredo de Fátima, se é que você entende o que quero dizer. De fato temos diariamente discussões sobre o que é ter conhecimento de algo. Não tenho também qualquer noção da dimensão do que está acontecendo; sei apenas que esse aparelho é parte de um projeto maior, o desenvolvimento de, claro, uma máquina do tempo. A melhor frase que eu conheço sobre máquinas do tempo é do Jadeir, nosso Engenheiro Adjunto para Raios Catódicos:

— Depois que você vê funcionando nem é tão interessante assim!

Mas bem poderia ser um gigantesco veículo de transporte intergalático ou ainda uma Terra artificial numa dimensão paralela ou transversal. Quem sabe… Há coisas que nem eu mesmo, envolvido até quase o pescoço como estou, sei. O que sabemos é que com certeza afetamos, durante os bombardeios quânticos, as decisões dos juízes, a trajetória da bola nos cruzamentos e cobranças de escanteio. Lances inexplicáveis, amigos do esporte, têm sua explicação na malha de fibras óticas e circuitos que percorre toda a circunferência do estádio. A linha de impedimento se desloca muitas vezes de acordo com cálculos complexos que nossos computadores elaboram para descrever partículas que nem existem. Mas o que importa mesmo, para além desse palavreado todo, é que agora essa bolha plasmática, à falta de um nome melhor, prossegue avançando sobre estradas, casas e supermercados, sobre as pessoas! Não sabemos das conseqüências e estamos curiosos para saber, para anotar, analisar e confrontar com outros dados que temos armazenados e outros que virão. Mas virão mesmo? Haverá depois?

Agora mesmo há uma vibração e um zunido que não havia antes e não sei bem qual a razão disso. Pode ser até o cansaço, mas tenho a impressão de que alguns objetos parecem desfocados. Outro dia li um livro sobre desastres quânticos e criação artificial de buracos negros. Vá apressando a leitura dessa missiva, porque esse tal livro já falava dos zunidos e vibrações que precedem o colapso da trama do espaço-tempo. E que a coisa está evoluindo, parece que nós aqui não teremos que dar explicações a sociedade.


Paisagens do interior + 2 poemas

Uma das coisas que sempre encantou em Numa Ciro é seu profundo potencial poético. Para-me ela, sempre, um poema a beira de explodir, emergir, se infiltrar na realidade, acabando por rompê-la. Numa tem humor, é esperta e cheia de ritmo. Impossível ler um poema seu, quem a conhece, sem imaginá-la cantando, soprando sua voz entre roda de amigos e incautos. [Poemas de Numa Ciro]

Uma das coisas que sempre encantou em Numa Ciro é seu profundo potencial poético. Para-me ela, sempre, um poema a beira de explodir, emergir, se infiltrar na realidade, acabando por rompê-la. Numa tem humor, é esperta e cheia de ritmo. Impossível ler um poema seu, quem a conhece, sem imaginá-la cantando, soprando sua voz entre roda de amigos e incautos. Viva Numa Ciro!

Toinho Castro

Poemas de Numa Ciro


Teatro Cândido Mendes / Ipanema — Outubro/ Novembro/ Dezembro de 2013
Foto de Claudia Ferreira

Paisagens do interior

1.
Moça rindo na janela pastorando seu amor
Um grupo de analfabetos votando no seu doutor
Papagaios indiscretos imitando gravador

cruz na beira da estrada
sala-de-estar na calçada
faca-peixeira afiada
e santa em cima do andor

Isso tudo ainda se vê em paisagens do interior

2.
Tem folheto cordelista vendido em banca de feira
Matuto em lombo de burro com relógio na algibeira
Guinés cantando “Tô fraco” e gado comendo em cocheira

surdo chamado de mouco
as santinhas do pau-ôco
conchas de quenga de côco
e quengas que vendem amor

Isso tudo ainda se vê em paisagens do interior

3.
Uma cabra displicente atravessando a rodovia
um pavão misterioso namorando a cotovia
onça pintada das brabas bafejando a cantoria

pra qualquer dor, um cachete
pra viajar, marinete
pro escuro, frachilete
Lampião tem seguidor

Isso tudo ainda se vê em paisagens do interior

4.
O sol caindo na serra e a lua subindo pra ver
por um momento se olham: morrer parece nascer
quem viu os dois nesse instante, jamais consegue esquecer
E pra cantar o elogio
desse encontro de amor
criou-se o tal desafio:
contador-e-cantador

Isso tudo ainda se vê em paisagens do interior

5.
Mas existe a tal mudança que mexe em tudo e jamais
engana o tempo que passa e passa o tempo na paz
Pois não é que a tal mudança mexeu na moça! e o rapaz?

Agora andam de moto
não querem vender seu voto
da internete, devoto
o povo sabe o valor

Isso agora já se vê em paisagens do interior.


Os sete pecados em cantoria

A Gemedeira dos sete pecados na capital dos pecadores sem pecado

I
A preguiça

Eu gemia de preguiça
dia e noite, noite e dia.
Gemo ainda, em todo canto,
no quarto, na livraria.
Gemerei por toda vida,
ai ai ui ui,
a preguiça é minha guia.

O gemido é mais gostoso
se eu mastigar devagar.
Com preguiça bebo água,
me arrastando, tento andar.
Gemerei a terra inteira,
Ai ai ui ui,
a preguiça é o meu lugar

Gemo alto de preguiça,
gemendo me sobressalto.
Gemo baixo quando canso.
Diz mexer, escuto assalto!
Gemo de tudo e de nada,
ai ai, ui ui,
a preguiça é meu asfalto.

Só adormeço gemendo,
acordar é pesadelo.
Fazer sexo é cansativo.
Sonhar, nem de brinquedo!
Gemo sem fim, sem parar,
ai ai ui ui,
a preguiça é meu levedo.

Estou com fome, mamãe…
chamo gemendo mãinha.
Responde a mãe, carinhosa:
“Traga seu prato, filhinha!”
Não quero mais, já passou,
Ai ai ui ui,
me cansa ir até a cozinha.

II
A Gula

Eu mastigo sem parar.
Como sempre o tempo todo.
Meu apetite é voraz:
ganho do padre e do lobo.
Eu só penso em guloseima,
Ai ai ui ui,
a gula é meu farto consolo.

Já nasci chupando os dedos.
Mamei em mamãe e na ama;
nas visitas à vizinha
de resguardo em sua cama.
Mamei até nas cabrinhas!
ai ai, ui ui,
gulodice me deu fama.

Criança sedenta e faminta,
só brincava de casinha.
Era sempre a cozinheira
e até a boneca, tadinha!
vivia com sede e com fome,
Ai ai, ui ui ui,
me chamavam gulozinha.

Só compro em lojas que têm
utensílios de cozinha:
Copo, prato, guardanapo,
comida pronta, quentinha,
bebida de todo tipo,
Ai, ai, ui, ui,
não quero outra vidinha.

Quando vou ao shopping center,
não vejo roupa nem joia;
não compro nada pro quarto;
oh! doce de paranoia.
Eu salto sem pára-quedas,
Ai, ai ui, ui,
mas num nado sem a boia.

III
A Ira

Vivo da ira que eu tenho
de tudo que há nesse mundo.
Odeio mamãe e papai.
Dos Irmãos, ódio profundo.
A ira pulsa em cada nervo
ai ai ui ui,
do meu coração vagabundo .

Irado meu choro ao nascer.
Não conheço compaixão.
A flor do ódio cultivo,
levo um cacho em cada mão.
De raiva pretendo morrer,
Ai ai ui ui,
Flores do mal no caixão.

O ódio danado qu’eu tenho,
cresceu com as ervas daninhas,
nascidas no abandono;
de amores perdidos, filhinhas.
Os frutos maduros colhidos,
ai ai ui ui,
divido com as minhas vizinhas.

As sementes dessa ira
fecundo em latinhas de ódio.
Nas estufas do silêncio
cultivo-as como-se-fossem-d’ópio.
Odeio a bondade e a fé
ai ai ui ui,
eu fumo a ira no pódio.

Apago as estrelas da noite!
Quebro a varinha de condão.
A fada madrinha eu enforco,
Papai Noel pro lixão!
com saco e tudo que há dentro
Ai ai, ui ui,
só guardo a raiva do cão.

IV
A Inveja

Eu me mato de inveja,
de quem vive sem sofrer
e tem tudo e mais um pouco,
ganhando a vida ao nascer.
Herdei a inveja de tudo
Ai ai, ui ui,
que está fora do meu ter.

Invejo as pernas da misse,
e a cintura de pilão.
Quero os peitos de Tieta,
ser a musa da canção
e ouvir, por onde passar,
ai ai, ui ui,
“Eu derrubo esse avião”.

A inveja me consome,
quando não tenho o que eu quero.
Minha inveja tem os nomes
das coisas que mais venero.
Cobiço as mulheres alheias
ai ai, ui ui,
Inveja é meu par no bolero.

Quando entrei naquele quarto
eu vi com a inveja dos mortos
mamãe mimando outro filho
no meu cantinho em seu colo
papai olhando os seus braços
ai ai, ui ui,
furei meu pai bem nos olhos.

Saí de casa bem cedo,
pra ter inveja bem longe,
inveja das que cobiça
tudo e todos quando e onde
aparece o que desejo
Ai ai, ui ui,
Pela inveja eu virei monge.

V
A luxúria

Eu acordo e me apaixono
e passo o dia com vontade.
à tarde me pego querendo,
a noite inteira, é verdade!
Eu vivo nadando em prazer
ai ai, ui ui,
em luxuri-oh-cidade…

Em tudo que há nesse mundo,
que qualquer um diz: bom, bons,
existe um mal que eu não troco
nem vendo a imagem dos sons
o bem e o mal no meu bloco
ai ai ui ui,
gozam dos dons e nos tons.

Só de pensar me dá luxúria
nas pernas, no olhar e nas ideias
e o corpo brinca com a alma
de vadiar nas boleia
dos caminhão nas estrada
ai ai, ui ui,
pra ter gozo de plebeia.

E como gozarão as santas?
E a onça em pleno cio?
Psiu, não geme tão alto,
te vira na lata, amor mio!
cachorra que gosta de funk
ai ai, ui ui,
pega o trem no assobio.

Caço a noite atrás do dia,
o rabo é quente, é um açoite.
Quem trepa na cama dos outros
não teme lâmina, nem coice.
O cu dos outros não é o nosso,
Ai ai, ui ui,
luxúria nossa de cada noite…

VI
A Avareza

Eu quero tudo pra mim.
Não abro a mão para dar.
Só bebo a seiva da vida,
nem a morte vai tomar.
Eu tranco a vida no cofre
Ai ai ui ui
Avareza vai guardar.

Nem Moliére dormindo
no seu avaro colchão
sonharia com um personagem
sovina que nem meu vilão
que tem medo de perder
Ai ai ui ui
até a poeira do chão.

O meu nado sincronizado
no lago de ouro derretido
cunhou a moeda talismã
de tio Patinhas, no vestido.
Para fantasia avara
Ai ai ui ui
A riqueza é o tecido.

Mesquinho, mão-fechada,
mão-de-vaca, pão-duro e avarento,
são nomes para quem pega
carona nas costas do vento
Ai ai ui ui
E não dá nem um por cento

Uma avara como eu,
que tem vergonha de ser,
é uma vara envergada
nas avarenças do ter
ela só sente a avareza
ai ai ui ui
quando ela teima em são ser.

VII
A Soberba

Eu tenho orgulho de mim
e de tudo o que é meu.
Eu tenho mais é que ter
tudo que querem meus eus:
eles só pedem ao mundo
ai ai ui ui
o mundo todo e até Deus.

Ninguém merece o prazer
que a vida a mim me oferece.
A minha vida se farta
na delícia que se esquece
de tudo e de todos, nem desce!
ai ai ui ui
a vaidade me aquece

O orgulho e a presunção
são balinhas de festim,
se os comparo à arrogância,
projétil largado de mim.
A tirania é meu forte
ai ai ui ui
Eu prendo e mato tudim .

Eu sou melhor que você.
Ninguém consegue alcançar
o lugar onde eu cheguei,
de onde eu posso mandar.
Mando no reino e no rei
ai ai ui ui
Mando o bicho te pegar.

A soberba é minha força
A vaidade me anima
No orgulho eu me sustento
A prepotência me estima
da tirania eu extraio
Ai ai ui ui
As truculências da rima


Romeu e Julieta: como escaparam da tragédia

Um romance paraibano
(Este Romance faz parte do espetáculo A Peleja da voz com a Língua – O Amor)

Romeu

Julieta! Julieta! Pareces morta!!!
Não posso acreditar.
Jurei contigo morrer,
mas começo a duvidar…

… se vale a pena partir
sem a certeza de achar
do outro lado da vida
o que mais quero encontrar.

Morreste de amor por mim.
Algo me diz que não devo arriscar.
Sai pra lá punhal safado.
Cadê o frade pra nos salvar?

A madrugada já vem.
Ouço ao longe a cotovia.
Se eu morri, ressuscitei.
Quero ver a luz do dia.

Julieta

Não é a cotovia, é o rouxinol:
Canta para quem anoitece.
Na versão do bardo inglês,
anoitece mas não amanhece.

Romeu

Julieta, será que ouço a tua voz?
Estarei louco? sonhando, talvez!
Eu tento escapar da morte
e tu me salvas da viuvez!

Julieta

Romeu, Romeu, tu não morreste!
Não preciso, portanto, me matar.
Que alívio, fujamos do autor:
Ele planeja nos suicidar.

Romeu

Julieta! Como escapuliste?
Meu docinho de goiaba!
Pela nossa vida amorosa,
Shakespeare é quem se atrasa.

Julieta

Romeu meu queijinho meu!
Há mais perigo em teus olhos
que já viram os olhos meus.
Ai meus olhos! ainda não viram tanto.
Vai cegar-me a luz dos teus.

Romeu

Tu vês perigo em meus olhos?
Queres cegá-los? São teus.
Se o amor é cego, Julieta,
um cego sábio e feliz serei eu.

Julieta

Apressemos o passo:
Isso vai dar em tragédia.
Não quero morrer tão nova,
prefiro viver na comédia.

Romeu

O autor, com o atraso do frade,
quis imitar as desgraças mais cruéis,
tal a de Píramo e Tisbe.
Prefiro viver nos bordéis.

Julieta

Lets go to América!
Aquela! debaixo da linha do Equador,
onde não existe pecado
e tem gente de toda cor.

Romeu

Pampas, praias, caatingas e cascatas,
sambas, maracatus, bossa nova e emboladas;
as mais lindas matas virgens,
e lindas virgens… desmatadas!

Julieta

Vamos logo pro Brasil,
onde a mulher tem razão.
Dona Flor tem dois maridos
e Maria Bonita: as armas e Lampião.

Romeu

Mas primeiro vamos passar
pelo reino de Portugal:
Conhecer o Tejo em Lisboa
e a sua Indústria Naval.

Julieta

Caravelas, Romeuzinho!
Quero visitar em Alcobaça
os túmulos de Pedro e d’ Inez:
Não puderam escapar da desgraça.

Romeu

Pois…
Infelizes os dois sucumbiram
às leis da casa real.
Nossas casas que se danem,
nosso amor é que é real.

Julieta

Mais rápido, Romeu!
não quero meu nome naquela expressão:
“Agora é tarde, Inez é morta”.
Nem morta! quero tal coroação.

Romeu

Brasil, lá vamos nós!
Pra Roliude do nordeste.
Quem era besta de morrer?
Quem quiser que faça o teste.

Julieta

Saímos daquela cova,
nem Shakespeare nos viu.
Enganamos todo mundo.
Atrás de nós?! Nem psiu.


As quimeras são coloridas feito aquarelas

Eduardo Frota nos chega com mais uma colaboração de sua prosa poética para a nossa Revista Kuruma’tá. Colaboração sempre muito bem-vinda, tanto por nós quanto pelos frequentadores da revista! Isso porque seus textos são veículos, ou passagens. Estamos aqui e, de repente, já não estamos, já não somos. “Um passo à frente / E você não está mais no mesmo lugar”, cantou Chico Science. Mas às vezes esse passo é dentro da gente. Assim Eduardo escreve, de dentro para dentro, em passos firmes. [Texto de Eduardo Frota]

Eduardo Frota nos chega com mais uma colaboração de sua prosa poética para a nossa Revista Kuruma’tá. Colaboração sempre muito bem-vinda, tanto por nós quanto pelos frequentadores da revista! Isso porque seus textos são veículos, ou passagens. Estamos aqui e, de repente, já não estamos, já não somos. “Um passo à frente / E você não está mais no mesmo lugar”, cantou Chico Science. Mas às vezes esse passo é dentro da gente. Assim Eduardo escreve, de dentro para dentro, em passos firmes.

Toinho Castro

Texto de Eduardo Frota


Lá vai a menina, colorida. Lá vai a menina, convencida. De que a aquarela da vida é mais bonita quando se confunde realidade com quimera.

Ela tem os sapatos vermelhos, feito os da garotinha que andava pela estrada de tijolos amarelos. Pelo caminho, ela desenha com giz árvores frondosas e verdes, carregadas com suculentos pomelos. Ela preferia estar descalça, mas corre ainda que de chinelos.

Assobia uma canção de Noel, Rosa.
Na cabeça, um laço de fita cor-de-rosa.
Não mão, um buquê de lindas e cheirosas, rosas.

Lá vai a menina, toda prosa. Lá vai a menina; nossa! Que linda, de bochechas rosadas. A saia azulada, de bordas rendadas.

Que menina colorida. Que menina prendada!

Foto de Johnny Joo / Reprodução

Para o Amapá com amor

E nessas observações, em que é possível delimitar os períodos de análise descobri que, desde 4 de fevereiro de 2019, quando publicamos, eu e Aderaldo Luciano, o primeiro texto na Kuruma’tá, sobre Orlando Tejo e Zé Limeira, tivemos pelo menos um acesso em todos os estados brasileiro, com exceção do Amapá. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Fortaleza de São José do Macapá – Foto de Lorenzoclick

Eu ia começar esse texto dizendo que o Brasil é um longo fio de de histórias, de norte a sul, lesta a oeste. Mas o Brasil é mesmo um trançado de muitos fios, de muitas cores, texturas e destinos. Não é fácil, não é simples dar conta do Brasil em sua vastidão e diversidade de olhares, vozes e desejos.

Daqui do meu vértice, no Rio de Janeiro, para onde trouxe Pernambuco e Rio Grande do Norte comigo, e um pouco da vizinha Paraíba e um tantinho de uma Fortaleza que vivi na infância, daqui olho ao redor e tento vislumbrar essa palavra, a palavra Brasil. Palavra dita pela boca de tanta gente que anda nas ruas, debruça-se nos balcões de bares e padarias. Gente de toda parte, que vem pra ficar, que daqui parte pra outras paisagens e aragens. Como eu mesmo já saltei daqui a outras terras, como o Acre, o Pará, Rondônia, Minas gerais, Brasília… Saltos de ida e volta, que volto carregado dos sotaques e vertigens, de visões de gente em outros balcões, de outros bares e padarias.

Um jogo que gosto de jogar é acompanhar os dados geográficos da Kuruma’tá no Google Analytics. Saber onde estão ocorrendo os cliques, de onde essa gente anda visitando o que inventamos aqui. Tem esse poema do Mário de Andadre, chamado Descobrimento, que sempre me vem à lembrança quando investigo esses sortilégios algorítmicos:

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.

Brasileiro que nem eu, gente que nem eu. Mouse na mão ou riscando a luminosidade da tela de um celular, lá no Norte ou no Centro-Oeste, se enxerindo nos labirintos ternos da nossa revista. E nessas observações, em que é possível delimitar os períodos de análise descobri que, desde 4 de fevereiro de 2019, quando publicamos, eu e Aderaldo Luciano, o primeiro texto na Kuruma’tá, sobre Orlando Tejo e Zé Limeira, tivemos pelo menos um acesso em todos os estados brasileiro, com exceção do Amapá. Ninguém no Amapá deu um clique sequer na Kuruma’tá ou andou curiando nossas publicações.

Mas, naturalmente, mágoas não tenho. Eu tenho é fé e sigo aguardando o clique mítico que virá, eventualmente, do Amapá. Há de vir. Por outro lado sou obrigado a me confrontar com minhas, ou nossas, enquanto revista, limitações. Que voz aqui demos ao Amapá? Quando foi que, num dos 70 textos aqui publicados, vislumbramos os contornos do Amapá? Pois é, em nenhum. Tudo bem que coisa alguma escrevemos sobre Roraima, que nos visitou algumas vezes, mas ainda assim… Nada posso cobrar do Amapá. Como eu disse antes, não é fácil mesmo abarcar o Brasil. Mas com um pouco de vontade e pesquisa no mesmo Google que diz que o Amapá me ignora, eu apendo que o Amapá lá está, com sua cultura, seus rios, mitos e lendas, povos e florestas, desafios, conflitos, buscas e vidas.

Aprendi minimamente, por exemplo, sobre a tradição do Marabaixo, manifestação cultural do povo do Amapá que foi, em 2018, reconhecida como patrimônio cultural imaterial do Brasil. Com sua origem no distante Marrocos, um Marrocos distante no espaço e também no tempo, chegou ao Brasil no século XVIII, com a transferência da colônia portuguesa de Mazagan (atual El Jadida), para o Amapá, fundando a comunidade Nova Mazagão. No Marabaixo se encontram ritmo musical e dança, movida a tambores feitos com essa intenção, as caixas de marabaixo, o sabor da gengibirra, as mulheres com suas saias rodadas a rodopiar e a mútua troca de versos entoados na festa, os Ladrões de Marabaixo.


O Marabaixo é uma dança
De tradição centenária 
Trazida lá da mãe África
Por negros daquela área
E que nos conta uma história
Real e imaginária

(Versos do cordel Marabaixo – A cultura de um povo, de Joseli Dias)


Vou assim aprendendo e me encantando desse lugar que não visitei, mas do qual começo a sentir-me íntimo, talvez porque o cruze, na altura de Macapá, a capital, a linha imaginária do Equador. Talvez porque vislumbre, ao escutar a Canoa voadeira na voz de Patrícia Bastos, num olhar por sobre o Atlântico, prenhe do rio Amazonas, a epopeia de um povo a cruzá-lo, arrastando consigo seus cantos e danças, sua fé e memória dos que partiram mar-a-baixo… O fato é que basta olhar, escutar, compartilhar com o outro para que este lhe energize as antenas, vibre na sua sintonia e abra espaço para uma boa conversa. O fato é que o Amapá vai muito além do maravilhoso Marabaixo, passando pela culinária, literatura e oralidade e tantos outros matizes que nascem das pessoas e comunidades. Ah, vasto Amapá, assim dou eu meu clique em você, te chamo pra junto e escuto o troar das caixas de marabaixo, escuto tua gente, brasileira, que nem eu.







A foto da Fortaleza de São José do Macapá que ilustra esse texto não foi produzida com esse fim. Encontra-se sob licença Creative Commons Attribution-NonCommercial 2.0 Generic (CC BY-NC 2.0).
A Revista Kuruma’tá agradece a generosidade do fotógrafo por disponibilizar seu trabalho como Creative Commons.

Meu Seridó

Conheço os espaços solitários e silenciosos dos sertões potiguares, manjo a riqueza da sua oralidade. Num tempo trepidante como o nosso, nada melhor do que abrir um espetáculo olhando no olho, por segundos, a plateia atenta, nenhum ruído. Só o silêncio diz na introdução da peça, um drama repleto de narrativas memorialísticas e pegadas históricas recheadas de música, ironia e humor. [Texto de Nonato Gurgel]

Impactado pela peça Meu Seridó, em cartaz em palcos do Rio de Janeiro nesse fim de semana, restou ao poeta Nonato Gurgel escrever, para falar do maravilhamento da peça e do seu próprio Seridó. Confira ao final do texto datas, locais e horários das apresentações na cidade.

Texto de Nonato Gurgel


Para João Marcelino e Múcia Teixeira

Durante 7 anos, vivi nos Sertões do Seridó do Rio Grande do Norte. Lá, estudei Letras, trabalhei como técnico em agropecuária, em alguns municípios, e vivifiquei uma convivência afetiva com pessoas, bichos, rios e plantas que marcaram definitivamente o meu jeito de ler e ouvir o mundo. Banhado pelas águas dos rios Piranhas e Espinharas fui, com esse memorial hídrico de quem viveu o universo cultural seridoense, assistir à peça Meu Seridó.

Dramaturgia de Filipe Miguez e direção do César Ferrario, o drama abre com um silêncio que, de cara, ganhou os meus ouvidos e olhos. O silêncio do Sertão. Conheço os espaços solitários e silenciosos dos sertões potiguares, manjo a riqueza da sua oralidade. Num tempo trepidante como o nosso, nada melhor do que abrir um espetáculo olhando no olho, por segundos, a plateia atenta, nenhum ruído. Só o silêncio diz na introdução da peça, um drama repleto de narrativas memorialísticas e pegadas históricas recheadas de música, ironia e humor.

O espectador que conhece o Seridó se identifica, nas primeiras cenas, com a linguagem e os motivos usados pelo ótimo elenco, encabeçado pela atriz seridoense Titina Medeiros (mais de duas décadas de teatro e novelas como Cheias de Charme, tv Globo). O texto do Filipe é repleto de palavras certeiras como arenga, acauã, caatinga, chocalhos, juremas, ribeiras e curimatã, o peixe, além de rememorar as experiências da seca e do inverno, a rádio de Caicó, os bordados, e apresentar eventos típicos da região que ficou conhecida no mundo inteiro por causa do algodão Seridó.

Não lembro de ter escutado referências ao famoso algodão. Seria a planta um signo saturado? Seus valores simbólicos relidos em demasia pelas artes e culturas? Não sei. Referência universal, o algodão Seridó foi estetizado no belíssimo poema Não sei dançar, de Manuel Bandeira. Saí do teatro com a sensação de que o drama seria potencializado com o trecho final do poema, assim como poderia potencializar ainda mais a peça, a voz do Oswaldo Lamartine – o menino caçador que nasceu no Seridó, autor de Ferro de Ribeiras e A caça nos sertões do Seridó, dentre outros livros fundamentais para a cultura seridoense. Oswaldo fareja, feito bicho, feito homem, os rastros, as pegadas, os cheiros dos sertões do Seridó. Cheiros do mel, alfenins, queijos, cheiros da terra queimada, da pele queimada, cheiro do couro de vivente chamuscado. Os cheiros, a memória.

Os posseiros, as mulheres

É primorosa a direção de arte do premiado diretor e figurinista João Marcelino (Chuva de Bala, Viagem aos Campos de Alfenim, Hamlet), assim como o design de luz do Ronaldo Costa. Ele transforma o palco num Seridó irrigado de luz como é, ao vivo, a luminosidade no sertão seridoense. Não sou nenhum especialista em teatro, mas diria que a luz é quase um personagem de Meu Seridó, assim como são quase personagens as molduras que formatam o cenário. Molduras luzidias. Longe de limitar ou restringir, elas, as molduras, estáticas ou em movimento, acolhem os atores, sugerem as mutações do tempo, as transformações dos seres, dos mares, possibilitando uma pluralidade de formas.

E o que dizer dos figurinos coloridos e adaptados a diferentes contextos? Pautados no uso da saia, para todo elenco, os figurinos enchem os olhos. Emprestam certa graça e leveza, favorecem o deslocamento dos atores, acentuando as questões de gêneros que atravessam as narrativas contemporâneas. Com exceção do vaqueiro, nas demais personagens a vestimenta funciona. Ou seria esse vaqueiro de saia colorida, uma desconstrução da figura mítica, aquele vaqueiro rígido e marrom que habita o nosso imaginário romântico, desde José de Alencar e Martins Pena?

Seguindo a tendência do teatro contemporâneo, que dialoga com a música e outras artes, Meu Seridó apresenta exímia direção musical do Caio Padilha. Ele nos brinda com variados ritmos sertanejos, o baião, o xote, a ciranda e até um fado luso com alguma dicção seridoense. A sanfona é um espetáculo à parte, assim como a audição – breve, súbita – de um bem vindo ‘ele não’ e o seu potente efeito surpresa. Sintonizada, a plateia aplaude. Creio que mais um ‘ele não’, noutro momento, não faria mal nenhum, como diria a querida Ana Paula Oliveira, sempre linkada no momento pátrio que nos consome e atordoa.

O Seridó foi povoado no século XVII. Formado hoje por 24 cidades do RN e 6 cidades da PB, as identidades seridoenses habitam o nosso imaginário, seja através do canto folclórico do carioca Villa-Lobos (oh mana deixe eu ir / pro sertão de Caicó), ou através do canto pop do paraibano Chico César (ah, Caicó arcaico). Assim como esse cancioneiro que dá ritmo ao imaginário nacional, Meu Seridó cria tons e formas. Traduz um pouco desse Brasil que começa a narrar sua história, na voz dos que estavam mudos até o final do século XX, principalmente os posseiros de pouca ou nenhuma terra e as mulheres. Parodiando Ana C, eu diria que os sem terra e as mulheres são os primeiros que desistem de destruir a terra.


Diversões eletrônicas — Viva Arrigo Barnabé!

Eu já estava há tempos ligado em poesia e Maiakóvski e tudo que vinha filtrado pelos irmãos Campos. Bota aí Mallarmé, os provençais, Ezra Pound, essas coisas, já me achando meio chique; então quando vi o livro, parei ali mesmo, curioso quanto ao personagem que se escondia por trás dele. Parece que aquele livro me reservava mais uma grata surpresa. Meu gosto por literatura estava mais afiado que meu gosto musical, que capengava em certo rock’n’roll que perdia espaço com a nova década. [Texto de Toinho castro]

Texto de Toinho Castro


Era o Ano da Graça de 1983 e eu folheava uma revista chamada Pipoca Moderna. Era uma espécie de pré revista Bizz, reunindo música, cultura pop e assuntos afins. Era um jeito de me manter minimamente atualizado lá no Recife, onde revistas importadas mal chegavam e o rock ainda não era um assunto de destaque como nos dias de hoje. E lá estou eu, perscrutando as páginas da Pipoca Moderna quando me deparo com essa foto, um sujeito com o rosto meio escondido por um livro aberto, Poemas, do poeta Vladimir Maiakóvski. Era tipo uma edição obrigatória, com uma seleção de poemas traduzidos pelos irmãos concretistas Haroldo e Augusto de Campos, e por Boris Schnaidermann, ensaísta e tradutor nascido na Ucrânia e radicado no Brasil. Publicado corajosamente, pela primeira vez, em 1967, plena ditadura no Brasil, esse livro vinha atravessando gerações. Recentemente comprei a edição comemorativa de 50 anos, capa dura, revista e ampliada.

Eu já estava há tempos ligado em poesia e Maiakóvski e tudo que vinha filtrado pelos irmãos Campos. Bota aí Mallarmé, os provençais, Ezra Pound, essas coisas, já me achando meio chique; então quando vi o livro, parei ali mesmo, curioso quanto ao personagem que se escondia por trás dele. Parece que aquele livro me reservava mais uma grata surpresa. Meu gosto por literatura estava mais afiado que meu gosto musical, que capengava em certo rock’n’roll que perdia espaço com a nova década. E eu ainda tinha aquela postura juvenil de só escutar rock; música brasileira era era coisa dos pais e dos tios.

Mas somente até aquela tarde em que Arrigo Barnabé me encarou por trás do livro do bardo russo.

Sim, era Arrigo Barnabé atrás do livro. Fui ler a matéria, de Pepe Escobar, e me deparei com o universo pop/erudito de Barnabé e sua Banda Sabor de Veneno, que cruzavam dodecafonismo e histórias em quadrinhos, tudo maturando numa longa tradição do cancioneiro popular e marginal brasileiro. Não lembro bem do que estava escrito ali, mas me despertou para o que aquele sujeito andava fazendo. Clara Crocodilo, primeiro disco de Arrigo, pareceu-me um farol no meio de uma escuridão que desabou sobre mim. Lendo aquelas páginas pensei: Porra, tô escutando a música errada! Assim, nem estava; não era assim também, mas era o que eu me vi sentindo e foi o que me impulsionou a buscar o disco pelas lojas do Recife.

Lembrando: Não havia internet e eu não tinha pistas desse LP no Recife. Era eu e o centro da cidade, numa busca quixotesca pela luminosidade do meu novo anti herói musical e seu disco-bomba: Clara Crocodilo! O detalhe é que eu não fazia ideia do que havia naquele disco, não havia YouTube para conferir antes se era legal; aquilo nem tocava em rádio ou programas de TV (pelo menos os que eu conhecesse…) Se eu quisesse descobrir, teria que encontrá-lo. O negócio era bater perna na cidade, vasculhar lojas e sebos. E foi o que eu fiz, assim que tive dinheiro para poder comprá-lo.

Lançado em 1980, de forma independente, Clara Crocodilo chegou por fim às minhas mãos numa provável 2ª edição da Barclay, que se não me engano era um selo da Ariola (pesquisem!). Não faço ideia de como esse disco foi parar sob esse selo. Enfim, pude escutar a saga de Clara Crocodilo, o office-boy mutante, vítima dos laboratórios inescrupulosos e da vida tediosa e massacrante da grande metrópole. Vaguei com ele pelos bares, pelos postos avançados das diversões eletrônicas, luzes piscantes e completa falta de sentido na vida, qualquer vida.

Era um balcão de fórmica vermelha

Música brasileira e boteco sempre andaram de mãos dadas, mesmo quando a música era atonal, de vanguarda, despudoradamente contra a canção bonitinha pra tocar no rádio. Clara Crocodilo era pra tocar terror no rádio! Aquilo mudou tudo, trocou tudo de lugar. E no veio que corria o trabalho de Arrigo, eu percebi a música brasileira, sua tradição explodindo mas ali, como um copo de cachaça no balcão, de fórmica vermelha, do bar. Arrigo, curiosamente, com seu manifesto, me apontou na direção da tradição, num movimento inexorável. Minha mãe escutava aquilo e não entendia nada, enquanto aquilo me aproximava dela, do cancioneiro que ela trazia consigo, de família, e que havia se perdido em rótulos industriais da MPB.

Aliás, durante um tempo minha mãe achou mesmo que Arrigo Barnabé fossem duas pessoas, Arrigo e Barnabé. E talvez fosse mesmo, numa espécie de Jekyll e Hyde, desconstruindo a música brasileira e ao mesmo tempo a conduzindo pela mão. Clara Crocodilo, em sua intensidade agressiva, no seu ritmo de HQ mergulhada em ficção científica, na tensão que derramava pelos becos da cidade grande, era uma espécie de relicário. No mesmo bar  frequentado por Durango, o office-boy, eu podia imaginar os acordes de Abismo de Rosas, de Dilermando Reis, ou um Orlando Silva. Porque tudo está malditamente conectado.

E dali, da seara de Arrigo, saiu o canto de Tetê Espíndola e de Vânia Bastos, num sonoridade brasileiríssima, que ecoa nos paredões de concreto da Paulista e na Chapadas Brasil adentro. Arrigo estava ainda ligado à dita vanguarda paulista, com o canto falado do Grupo Rumo, que não à toa gravou Rumo aos antigos,  reunindo canções de gente como Noel Rosa e Lamartine Babo, Sinhô… e também, claro Itamar Assumpção. Mas isso é outro assunto muito longo! Mas essa gente estava revirando o fundo da lagoa enquanto inventava o novo.

Que discaço é o Clara Crocodilo! Que paulada no fim das contas! Escrevendo assim me dá até uma saudade dele, porque não o tenho mais. Está bem guardado com um bom amigo! Mas a música ali contida espanta nostalgias e abre portas, abre mentes e não deixa pedra sobre pedra. Ali, naquele momento de vida, era o que eu precisava, romper com aquele que eu achava que era. E naquele tempo só um disco poderia fazer isso comigo. E esse disco foi Clara Crocodilo.

À propósito, não abandonei o bom e velho rock’n’roll meio datado que eu aprendi a amar. Tinha espaço pra tudo, agora tinha espaço e esse foi o aprendizado. Mas a saga do office-boy Durango estava ali como um marco, acusando que LP da minha vida tinha virado para o lado B.

PS. Não muito depois, lendo Feliz ano velho, de Marcelo Rubens PAiva, encontro uma deliciosa descrição do seu encontro com Arrigo Barnabé num festival de música universitário. Queria ter estado ali!


Os sons da feira central de Campina Grande

Dias depois Braulio, de novo ele, postou na sua rede social essa incrível gravação. Cerca de 6 minutos de áudio gravado na feira de Campina Grande, sua cidade, na Paraíba.. A gravação é um trabalho maravilhoso de Orlando Freitas, que nos mergulha no burburinho das falas populares, dos pregões, dos passos e ruídos e músicas esparsas. Sons que emergem e submergem em meio a outros sons. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Feira central de Campina Grande. Foto de Kyller Costa Gorgônio

O poeta Braulio Tavares contou-me essa história, que ele já ouviu de alguém. A música tocando em casa, na sala, aí o filho pequeno olha pro pai e pergunta onde tá a música. O pai responde que a música tá ali na sala, tocando. Sem entender o menino insiste: Mas pra onde eu olho? Pra lugar nenhum, responde o pai. Não tem pra onde olhar; a música é pra ouvir.

A versão contada na mesa do bar pelo poeta, com seu gestual, as pausas e intensidades, era mais interessante, mas creio que pude transmitir a ideia central, de uma geração que parece crescer com a ideia de a música está sempre associada às imagens. Podemos pensar facilmente que tudo isso começa com o videoclip, com a MTV, mas nos anos setenta e imagem já acompanhava poderosamente a música pop. Os concertos, por exemplo, ficavam esteticamente cada vez mais elaborados, na medida em que as tecnologias cenográficas avançavam e os orçamentos das grandes bandas alcançavam patamares nunca vistos. Como pensar o Pink Floyd sem a exuberância visual dos seus shows, ou mesmo das capas dos seus discos? Ou a imagem em branco & preto de Elvis na TV, maior talvez que sua música.

Música e imagem. Parece que foram feitos um para o outro. Parece que foram se buscando enquanto se desenvolviam e se espalhavam pelo mundo. Nós mesmos buscamos essa associação o tempo inteiro. Colocar o fone de ouvido ligado no Spotify e caminhar pela rua, quase como se tivéssemos uma trilha sonora para a nossa passagem pelo mundo. E com isso anular os sons do mundo. Mesmo quando não há telas, seja de cinemas ou de celulares, ainda procuramos formar imagens na mente enquanto escutamos uma canção. Será que foi o mercado que fez isso com a gente? Será que é porque assim se ganha mais dinheiro?

Como escutar sem ver? Como dissociar sons e imagens? O sons são entidades autossuficientes que podem dispensar representações gráficas. Naturalmente, por obra de artistas, podem servir a um filme, uma peça de teatro, etc. Mas no fim das contas, todo som é autônomo. Poderoso em si, em seu próprio discurso.

Dias depois Braulio, de novo ele, postou na sua rede social essa incrível gravação. Cerca de 6 minutos de áudio gravado na feira central de Campina Grande, sua cidade, na Paraíba. A gravação é um trabalho maravilhoso de Orlando Freitas, que nos mergulha no burburinho das falas populares, dos pregões, dos passos e ruídos e músicas esparsas. Sons que emergem e submergem em meio a outros sons. Há uma cadência, um jogo de volumes e tons… E lá está a feira. Sentimos o poder imenso dos sons, sua capacidade de revelar-nos o mundo. Música para os ouvidos, diriam uns. Outros, que isso não é música.

Impossível não recordar de um vídeo que vi., com o músico e escritor americano John Cage. Sempre que penso sobre música ou sons, John Cage me vem à cabeça. Certamente pelo seu intenso trabalho em discutir o mundo dos sons e propor caminhos, por meio de suas composições musicais ou escritos. Mal ouvi esse áudio da feira de Campina e lembrei desse vídeo. Nele Cage fala sobre música e ruído e silêncio. E eu fico imaginando John Cage na feira de Capina Grande, ou de Caruaru, de olhos fechados, escutando o discurso livre dos sons, sem preocupar-se com idioma sou significados. Apreciando somente esse indizível fluxo sonoro que não traz outra mensagem senão a si mesmo.

Quando eu ouço o que chamamos de música, parece-me que alguém está falando e falando sobre seus sentimentos, ou sobre suas idéias de relacionamentos. Mas quando eu ouço o tráfego, o som do tráfego, aqui na 6th Avenue, por exemplo, eu não tenho a sensação de que alguém está falando. Eu tenho a sensação de que o som está agindo, e eu amo a atividade do som. O que ele faz, é mais volumoso e mais silencioso, e fica mais alto e mais baixo, e fica mais longo e mais curto. E faz tudo isso, o que me deixa completamente satisfeito, não preciso de som que fale comigo.

Nós não vemos muita diferença entre tempo e espaço. Não sabemos onde um começa e o outro termina. De maneira que a maioria das artes nós pensamos como sendo no tempo, e a maioria das artes que pensamos como sendo no espaço. Marcel Duchamp, por exemplo, começou a pensar no tempo, quero dizer pensar na música, como sendo não uma arte do tempo, mas uma arte do espaço. E ele fez uma peça chamada Sculpture Musicale, que significa sons diferentes vindos de lugares diferentes e duradouros, produzindo uma escultura que é sonora e que permanece.

As pessoas esperam que ouvir seja mais do que ouvir, e às vezes elas falam de “escuta interior” ou “o significado do som”. Quando falo sobre música, finalmente vem à mente das pessoas que estou falando de som que não significa nada, que não é “interior”, mas é apenas “exterior”. E eles dizem, essas pessoas que entendem, finalmente, dizem: “Você quer dizer que são apenas sons?”, Pensando que algo ser apenas um som é ser inútil. Acontece que eu amo sons, assim como eles são, e eu não preciso que eles sejam algo mais do que são. Eu não quero que eles sejam psicológicos, eu não quero que um som finja que é um balde, ou que é presidente, ou que está apaixonado por outro som [risos], eu só quero que seja um som. E eu também não sou tão estúpida. Havia um filósofo alemão, que é muito conhecido, Immanuel Kant, e ele disse que há duas coisas que não têm que significar nada. Uma é música e a outra é risada. [Risos] Não tem que significar nada, isto é, para nos dar um prazer muito profundo. Você sabe disso, não sabe? [fala com o gato no colo].

A experiência sonora, que prefiro a todas os outros, é a experiência do silêncio. E o silêncio, quase em todo o mundo agora, é o trânsito.

Se você ouvir Beethoven ou Mozart, verá que eles são sempre os mesmos, mas se você ouvir o tráfego, verá que é sempre diferente.

John Cage

(Tradução livre, feita a partir do Google translate)

Em muitas culturas, o som, ou a música, está associada à alguma religiosidade. Repetir o mantra e esvaziar-se de sentido. E no vazio encontrar não significados ou explicações. Encontrar-se. Sem nome, sem origem ou destino. Ser um som. Um som que se basta. Que tem um tom, um timbre, uma duração… e acaba.


A foto que ilustra este texto, de Kyller Costa Gorgônio, foi publicada na página do seu autor no Flickr e está sob licença Creative Commons, Attribution-NonCommercial-ShareAlike 2.0 Generic (CC BY-NC-SA 2.0), e não foi produzida para a Revista Kuruma’tá.