O balanço do carro. Foi minha primeira droga. Dei sorte da cidade ser feita de paralelepípedo. Os solavancos eram um colo de mãe pra mim. Ela não era mesmo de dar carinho. Não recebeu e não conseguiu aprender por conta própria. Taí uma coisa que eles tinham em comum. [Texto de Jaciara Rosa]
Hoje tem gente nova inaugurando seu espaço na Kuruma’tá! Trata-se de Jaciara Rosa, mineira que gosta de mansidão, música e palavras. Vive de escrever com os pés fincados no chão e deseja flutuar um pouco, todo dia.
Jornalista pela UFJF, criou e coordena a Dedicata Cultura desde 2006, assessoria e produtora de conteúdo para redes sociais. Também estuda medicina tradicional chinesa e, vagarosamente, vai se construindo terapeuta.
A vontade era de ficar pendurada na janela e sentir a trégua que a brisa dava, à noite, naquele lugarejo sempre quente. Queria ver como era a cidade quando tudo ficava mais quieto. Imagina, com meus cinco anos, o que já não me causava um misterioso céu azul marinho com estrelas… Mas era importante demais manter as pálpebras cerradas.
No banco da frente, o silêncio e a solidão que a minha inocência já percebia e uma tensão no ar por causa do encontro forçado. Eu não queria nem saber. Começava meu ritual de birra lá pelas nove da noite e, eles, seus resmungos habituais. “Que bobeira isso, essa menina tá cheia de mimo. Depois quero ver…”. “Homem chato, eu hein! A gente nunca sai de casa, não custa nada dar uma voltinha, o balanço do carro faz ela dormir logo”.
Eu, com meus cabelos lisos e pretos de curumim e as bochechas cheias de saúde, tinha certeza que o pai ia ceder. Todo dia era isso. Pessoa orientada só pro dever, ele não aceitava a ideia de gastar tempo e gasolina dando voltas pela cidade pra filha única pegar no sono. A mãe, se pudesse, nem no carro nem na casa estaria. Aliás, fazia tempo que só seu corpo morava ali.
O balanço do carro. Foi minha primeira droga. Dei sorte da cidade ser feita de paralelepípedo. Os solavancos eram um colo de mãe pra mim. Ela não era mesmo de dar carinho. Não recebeu e não conseguiu aprender por conta própria. Taí uma coisa que eles tinham em comum. Não, também eram pessoas de bom caráter. Duas coisas e só.
Esticada no banco de trás, sem um pingo de vontade de dormir, continuava apertando os olhos até meu pai cansar da brincadeira inútil e estacionar o corcel verde musgo na frente da casa antiga, a porta na beira da rua e duas janelas altíssimas de madeira. “Pega ela”. “Ela não tá dormindo nada”. “Tá sim, pega ela”. “Uma marmanja dessa no colo…” E lá ia eu, caprichando no peso pra parecer mole, adorando ser carregada pelo corredor de tábuas corridas até minha cama.
Sabia que não convencia ninguém. Mas, para além das pedras que me embalavam e do colo do pai no final, algo mais dentro do meu peito de criança me fazia encenar aquela peça toda noite. O que eu queria, e hoje eu sei, era ver do meu rabo de olho fingido a mão dele pousando na dela, tímidos, ainda desconhecidos. Eu queria ver como era o amor.
13 de março de 2018
De Macabéa às minas do slam ou No princípio era a voz
Este estudo tenciona tornar audível a voz que, em mim, ecoa das leituras e releituras que faço há muitos anos, tentando acertar o meu tempo com a Hora da Estrela. Frente ao romance e, em seguida, ao filme, volto a ser criança, a que pede para que lhe conte aquela história infinitas vezes. Interrogo os mistérios inesgotáveis que habitam a poesia e a música, matérias primas desta obra. [Texto de Numa Ciro]
Este estudo tenciona tornar audível a voz que, em mim, ecoa das leituras e releituras que faço há muitos anos, tentando acertar o meu tempo com a Hora da Estrela. Frente ao romance e, em seguida, ao filme, volto a ser criança, a que pede para que lhe conte aquela história infinitas vezes. Interrogo os mistérios inesgotáveis que habitam a poesia e a música, matérias primas desta obra.
2017. Faz 40 anos que o romance poético A Hora da Estrela foi escrito por Clarice Lispector, exatamente no ano da sua morte. “Não fui ver a baleia que estava a bem dizer à porta da minha casa a morrer. Morte, eu te odeio”2. Vida e Morte: Esse par de significantes, sempre ativo, deu contorno temático ao conjunto da sua obra; à inquietação que a despertava para escrever: “Quando não escrevo estou morta”3; e a curiosidade sobre o inconsciente como saber, esse saber que não se sabe: Quem vive sabe, mesmo sem saber que sabe4. Neste sentido, o texto de Clarice nos põe a nu. Somos pegos de surpresa como uma criança perdida com o endereço no bolso.
1985. Suzana Amaral5 leva às telas de cinema esta obra literária e realiza o desejo de Rodrigo, o narrador: Esta história acontece em estado de emergência e de calamidade pública. Trata-se de livro inacabado porque lhe falta resposta. Resposta esta que alguém no mundo ma dê. Vós? É uma história em tecnicolor para ter algum luxo, por Deus, que eu também preciso. A Hora da Estrela, o filme, é uma das mais belas obras do cinema brasileiro. Para fazer essa passagem impecável da arte literária à arte cinematográfica, a diretora contou com a perfeição do trabalho da atriz Marcélia Cartaxo6 e pode nos apresentar não o retrato de Macabéa, apagando a imagem que criamos dela em nossa leitura solitária. O que há de genial neste filme é que os mistérios de Clarice intocados não permitiram que compreendêssemos tudo: “Sou tão misteriosa que não me entendo”7.
2017. Escrevo este ensaio na tentativa de tornar audível a voz que em mim ecoa das leituras e releituras que faço há muitos anos tentando acertar o meu tempo com a Hora da Estrela. Frente ao romance e, em seguida, ao filme, volto a ser criança, a que pede para que lhe conte aquela história infinitas vezes. Interrogo os mistérios inesgotáveis que habitam a poesia e a música, matérias primas desta obra. O fato é que tenho nas minhas mãos um destino e no entanto não me sinto com o poder de livremente inventar: sigo uma linha oculta fatal. Sou obrigado a procurar uma verdade que me ultrapassa.
A HORA DA ESTRELA
Há uma certeza em mim, uma indecência: Que toda fêmea é bela Toda mulher tem sua hora Tem sua hora da estrela Sua hora da estrela de cinema
O que Macabéa queria mesmo era ser artista de cinema. Mas… Quanto à moça, ela vive num limbo impessoal, sem alcançar o pior nem melhor. Ela somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando. Na verdade – para que mais que isso? Onde essa menina nordestina encontraria as vias para se articular às redes sociais e dominar a matéria dos signos que a levariam, como atriz, ao set de filmagem?
Clarice toca de forma musical a dor que massacra os corpos despencados no abismo cavado pela divisão social em nosso país, considerado um dos mais desiguais do mundo em distribuição de riquezas: Quem organizou a terra dos homens? Há 40 anos, não passava pela cabeça de ninguém a mais leve desconfiança de que uma moça como Macabéa tivesse alguma chance de se transformar em estrela de cinema. “Já tentei reformar o mundo. Mas quem sou eu, meu Deus, para mudar as coisas?”9. Nos versos de Caetano, “toda mulher tem sua hora de estrela/ estrela de cinema”. Mas Macabéa, que tinha olhar de quem tem uma asa ferida, carecia até do reconhecimento de ser uma mulher: (…) o fato de vir a ser uma mulher não parecia pertencer à sua vocação. (…) mal tem corpo para vender, ninguém a quer“.
Qual seria a hora da estrela? Se, por um lado, os astros nos asseguram uma estabilidade pela constância com que se nos mostram, ao mesmo tempo dizemos que até mesmo as estrelas nascem e morrem. O desfazimento do sujeito “sem chance” de vingar no mundo dos desejos, fazendo vinco em todo e qualquer acontecimento. E assim o tempo dura ou se desfaz a cada frase do romance, e nos suspende como marionetes ao brincar com nossas certezas sobre o nome, o lugar, as pessoas – o homem, a mulher – as coisas, tudo: A Hora da Estrela é a hora da desinvenção do mundo. Lembrando Drummond: “Dessa hora eu tenho medo”10.
ELA QUE SE ARRANJE
Lispector é um nome estrangeiro, de outra distância, mas também provocante de estranhezas, como o nome Macabéa: “É um nome que quando escrevi meu primeiro livro, Sérgio Milliet (eu era completamente desconhecida, é claro) disse assim: “Essa escritora de nome desagradável, certamente um pseudônimo…”. Não era, era meu nome mesmo”. “Eu perguntei a meu pai desde quando havia Lispector na Ucrânia. Ele disse que há gerações e gerações anteriores. Eu suponho que o nome foi rolando, rolando, rolando, perdendo algumas sílabas e foi formando outra coisa que parece “Lis” e “peito”, em latim.11
Escutemos a palavra ‘Macabéa’. Do lado da autora, Clarice era judia, alguns leitores da obra associaram aos Macabeus, antigos rebeldes judeus. É assim que somos fisgados pelos significados. Do lado da personagem, nos mordem os significantes. Esta palavra foi elevada à condição de nome próprio pela escolha da sua mãe: Um nome inventado e dado um ano depois do nascimento da criança. Ao nomeá-la, a mãe de Macabéa escolheu uma palavra que não era considerada, na sua cultura, apropriada para se transformar em nome de gente. Esta escolha demarca para a personagem aquele lugar de onde ela será sempre interpelada para explicar como aquela palavra vingou como seu nome: “Não sei o que está dentro do meu nome”. O que há de seguro dentro dos nomes? O que há de inusitado, no nome Macabéa, recebe o carimbo da fatalidade ligada ao seu nascimento: a recém-nascida era cobiçada pela morte iminente, a qual não deixaria a criança vingar, assim como quando se falam das plantas. A mãe fez uma promessa à Nossa Senhora da Boa Morte que lhe daria esse nome caso a Virgem a livrasse… da morte. Macabéa então é um nome/passaporte que possibilita à virgem nordestina transitar entre a vida e a morte na cidade grande. A Boa Morte sustentou sua vida. E não é por acaso que Macabéa o tempo todo se finge de morta. Não por uma simples adequação descolada do sintagma “Boa Morte”: Mas apenas para o leitor sofrer em seu lugar. Ele que se arranje com isso.
O DIREITO AO GRITO
Durante estas quatro décadas passadas, as mulheres moradoras de favelas e bairros nas periferias dos grandes centros urbanos – em sua maioria negras e nordestinas – deram início a um processo de mudanças, social e cultural, sem precedentes na nossa história: As Macabéas do Brasil periférico se tornaram irreconhecíveis. Não fosse A Hora da Estrela, jamais teríamos este encontro tão íntimo com a alma de moças como Macabéa, que talvez nem existam mais. Ou… não mais aquele olhar, o de Clarice, essa vidente literária do inconsciente: “É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina”.
A sensibilidade da autora, aliada à sua destreza em trabalhar com a matéria viva das palavras, nos revela uma verdade captada no que há de mais íntimo e singular na transeunte, o avesso do avesso do flâneur de Baudelaire, e constrói essa personagem fascinante que nos olha de um ponto de onde não podemos escapar. Assim, provoca em nosso corpo uma emoção inquietante, tanto por recebermos a visita das velhas lembranças, quanto pelo despertar de sentimentos ainda desconhecidos. Arrisco dizer que ninguém fica indiferente a Macabéa, oriunda do Sertão do Nordeste do Brasil, nem mesmo aqueles que supostamente estariam fora daquele contexto cultural e/ou social, como diz Rodrigo, o narrador: “Como é que sei tudo o que vai se seguir e que ainda o desconheço, já que nunca o vivi? Ou confessa: Sei de muita coisa que não vi”.
Quando o repórter Júlio Lerner12 perguntou a Clarice onde ela foi buscar, dentro si, a personagem nordestina, ela respondeu que morou no Nordeste, e nos dá a impressão que ela sabe de alguma coisa disso que é preciso saber para ser dito na forma literária: Ela fala de um lugar que nos faz apostar na legitimidade de sua empreitada: ela carrega consigo o Sertão da sua infância em Pernambuco. Haveria esta isca interna que a fez fisgar aquele ar meio perdido do nordestino no Rio de Janeiro, quando foi passear na Feira de São Cristóvão? O que eu vou escrever já deve estar na certa de algum modo escrito em mim.
REGISTRO DOS FATOS ANTECEDENTES
É desse ponto que se posicionam os poetas do Rap, no universo simbólico do Hip Hop. Do ponto de vista de um lugar, apenas desse lugar, se poderá ter a visibilidade de uma determinada situação humana, a partir da qual se confere a legitimidade dos discursos inseridos em neste âmbito onde estão em jogo as relações de poder. “O investimento de uma voz pode constituir o traço que permite a um grupo se reconhecer” 13. Este “lugar de fala”14 é uma novidade que se constituiu como expressão de uma verdade sobre o mal-estar em nossa cultura nos dias atuais, através das vozes15 dos poetas e artistas até então habitantes de um gigantesco túmulo de silêncio: Os cidadãos trabalhadores atrelados à cadeia produtiva das riquezas, mas fora da cadeia de distribuição. Não me escapou neste ponto a lembrança das leituras que Lacan empreendeu sobre a mais-valia para precisar o verdadeiro sentido de alienação.
Este saber sobre o outro não se revela, através da escrita de Clarice, por uma identificação especular com a personagem em si mesma. É como se fragmentos de uma verdade exposta vindos desse lugar puxassem as cordas dos nossos nervos e fizessem vibrar em cada um de nós a voz do que supúnhamos ser a voz da nossa própria natureza. A inquietação maior é motivada pela dúvida sobre esta natureza, pela clarividência com que essa voz interior nos orienta no sentido de seguirmos o trânsito entre o fora e o dentro, o estranho e o familiar, o eu e o não-eu, o eu e os outros: “Se tivesse a tolice de perguntar “quem sou eu?” cairia estatelada e em cheio no chão”. “Quem pergunta é incompleto”.
O que nós analistas dizemos do nosso jeito: quem pergunta é o sujeito, tendo que se virar com essa incompletude pela falta que o constitui, bancar o seu desejo oriundo do oco de seu ser e, mais ainda, não recuar frente a angústia de saber sobre o impossível. Essa voz, que faz ecoar um saberzinho que seja sobre a verdade de nosso impossível ser, ecoa através das ondas sonora imagéticas da escrita ficcional: A moça é uma verdade da qual eu não queria saber. Trata-se da mesma voz que sopra os fragmentos desta verdade aos analisantes, através da associação livre. De repente, estejamos no divã ou na poltrona, viramos a formiguinha passeando na banda de Moebius. Todos somos leitores: o analista, o analisante, até mesmo os leitores.
QUANTO AO FUTURO
Defendia-se da morte por intermédio de um viver de menos, gastando pouco de sua vida para esta não acabar.
No dia 13 de outubro de 193516, Freud recebeu a visita do escritor americano Thornton Wilder17. Conversa vai, conversa vem, Freud confessou o desejo de que a psicanálise fosse assimilada de tal forma que aparecesse na ficção como “romance puro”. Lamentava que este processo talvez durasse séculos, pois alguns escritores utilizavam a psicanálise na ficção de formaesquemática,ressaltando sua natureza clínica. Wilder respondeu que este autor que Freud procurava já existia, era James Joyce e que a sua obra Ulisses faz emergir a psicanálise como “romance puro”.
Não me consta que Lacan tenha se referido em algum lugar a esta visita. Mas calhou de ele ter se ocupado com a obra de James Joyce durante as apresentações do seu Seminário 23 – O Sinthoma18. Lacan disse: “Joyce é o signo do meu embaraço…” e provoca uma mudança sobre como interrogar uma obra de arte, não mais procurando-a entre as formações do inconsciente. A nossa atenção agora deve focar o saber fazer com o sinthoma. O estudo de Joseph Attié19 sobre a obra de Stéphane Mallarmé nos oferece uma rigorosa pesquisa sobre esta virada na obra de Lacan, motivada pela sua leitura das obras de Arte, precisamente a obra joyceana.
Freud sofria com o avanço da idade concomitante ao agravamento da sua doença, o que também fazia aumentar as suas preocupações sobre o futuro da psicanálise. Ele temia que a sua descoberta pudesse se transformar em mais uma ilusão que embalasse o futuro sombrio da civilização que ele sentia como se estivesse a desmoronar. Mal tinham sido recolhidos os escombros da Primeira Guerra e, de novo, já pesava no ar o prenúncio de uma catástrofe iminente, embora apenas um número muito pequeno de pessoas tenha conseguido decifrar com antecedência os sinais dessa catástrofe: a Segunda Guerra, que eclodiu no final de 1939. Freud foi um daqueles que não se deram conta de que o regime nazista estava se fortalecendo no próprio exercício da crueldade com a qual praticou o Holocausto, o genocídio contra o povo judeu, da forma como tardiamente conhecemos.
Durante a Guerra Civil Russa, a família de Clarice Lispector perdeu suas rendas em decorrência da perseguição aos judeus e dos extermínios de muitos deles e se viu obrigada a imigrar de lá, chegando ao nordeste do Brasil em 1922. Clarice tinha 2 anos de idade.
É oportuno nos lembrarmos agora do episódio da queima de livros em toda a Alemanha, no dia 10 de maio de 1933. Este episódio foi justificado pelo escritor nazista, Hanns Johst, como a “necessidade de purificação radical da literatura alemã, de elementos estranhos que possam alienar a cultura alemã”. Freud concluiu que tínhamos progredido: em outros tempos determinados poderes constituídos queimavam os autores e naquela ocasião queimaram apenas os seus livros. No entanto, o grande poeta Heinrich Heine – que Freud admirava e de cuja obra fez comentários e citações em muitos pontos da sua obra – profetizou: “Onde se queimam livros, acabam-se queimando pessoas”. Quanto ao fato do poeta se antecipar ao psicanalista, é bastante conhecido o dizer de Freud, e depois a confirmação de Lacan, sobre o fato de que o poeta, o artista, o escritor criativo descobre antes de todos o que só depois os cientistas haverão de teorizar. Espero que nós analistas possamos ainda retirar lições inesperadas das obras dos autores e artistas contemporâneos.
ELA NÃO SABE GRITAR
Vai ser difícil escrever esta história. Apesar de eu não ter nada a ver com a moça, terei que me escrever todo através dela por entre espantos meus. Os fatos são sonoros mas entre os fatos há um sussurro. É o sussurro que me impressiona.
A ironia do destino escancara os dentes, quando o namorado de Macabéa, que também responde por um nome inventado, Olímpico, joga o peso do nome que carrega na cara de Macabéa, mangando do nome dela. O constrangimento abate o ânimo do leitor. Macabéa, por sua vez, conta o que sabe sobre a escolha de seu nome inventado pela sua mãe, dadas as circunstâncias perigosas. A Boa Morte a salva das convenções do mal-estar onde chafurdam os vivos, nesse mundo organizado pelas convenções sociais criadas para demarcar lugares de poder entre as pessoas: (…) ela era incompetente. Incompetente para a vida. Faltava-lhe o jeito de se ajeitar. Só vagamente tomava conhecimento da espécie que tinha de si em si mesma. Se fosse criatura que se exprimisse diria: o mundo é fora de mim, eu sou fora de mim. Macabéa parece indiferente ao tom irônico de Olímpico e recolhe, em seus (des)encontros, apenas as palavras toscas dele, sem valorizar a artimanha chistosa e violenta com a qual o rapaz a destitui do lugar de desejo. Por que ela não reage? Cadê um pouco de fibra? A nordestina sente ou não sente? Mostra ou esconde aquela dor que todos deveriam sentir?
HISTÓRIA LACRIMOGÊNICA DE CORDEL
A presença fascinante de Macabéa nos atrai pelo apagamento, por uma luz que surge do inesperado, da própria opacidade. Lá, onde nada devia existir, ela vinga. Sua teimosia em viver é um grito que se ouve no silenciar do próprio grito. Ela não fala porque não sabe o que dizer, mas porque não há quem a escute. Há um incômodo que parece vir do sentirmo-nos cúmplices sobre aquela certeza enclausurada no preconceito. A questão é muito sutil e carece de tempo para que essas próprias pessoas conquistem sua voz e o direito de falar. A nordestina é tida por ignorante, menos gente, advinda daquele lugar social de “inocência pisada”20,onde não se é gente de verdade. Mas na verdade, Macabéa dissimula o que sabe, recusa entrar no jogo onde ela já entraria como perdedora. É então que trago para este momento, a voz das Minas do Slam que são na minha leitura as Macabéas falantes. Assim se passaram 40 anos… Agora há quem escute o seu grito. Ingrid Martins, poeta das periferias grita os seus versos de vida e morte em praça pública: “Sendo culpados ou não/ somos julgados sem poder dizer o que somos/ Não temos direito a advogado/ pois somos julgados e condenados nas ruas escuras nos becos apertados/ Onde o nosso maior direito é o de ficar calado/ Todo-santo-dia somos silenciados/ E temos que ser fortes/ porque ainda há quem diga que no Brasil não existe pena de morte”.
LAMENTO DE UM BLUE
Slam é uma competição onde os poetas recitam ou leem seus poemas que devem ter exatamente 3 minutos, cujas performances são julgadas por um júri formado no início das apresentações. Eles devem levar em consideração a forma como o poema é dito para angariar a atenção do público e sustentar a curiosidade sobre o texto. Assim como os saraus que se espalharam pelas periferias de São Paulo e agora em todo o país, o Slam foi tomado pelos negros, pelas mulheres, pelos gays e transexuais, por toda gente que vive de um jeito que não era para vingar como sujeitos. Em sua maioria, são moradores de favelas e periferias das grandes cidades. Dizem que encontraram no Slam um “lugar de fala, lugar de ressignificação”21.
Há o Slam das Minas, constituído apenas por mulheres, como diz a poeta Jade, “como se fosse um outro mundo, um mundo à parte. Há o mundo onde as mulheres não falam e o mundo onde as mulheres falam. O Slam das Minas é o mundo onde as mulheres falam” 22. E falam do que estava calado em Macabéa que tinha o que se chama de vida interior e não sabia que tinha. Vivia de si mesma como se comesse as próprias entranhas.
ASSOVIO AO VENTO ESCURO
Roberta Estrela D’Dalva23, filha de pai nordestino com mãe paulista, é uma das precursoras deste modo de saber fazer com o sinthoma tomando a arte como arma de luta contra a condição de desvantagem das mulheres em relação aos homens com os quais compartilham o mesmo processo de divisão social no nosso país. As poetas do Slam são as estrelas das palavras que fizeram a sua Hora. Agora elas elevaram suas vozes, tomaram a palavra no grito e conquistaram o poder de serem escutadas e mais que isso: donas da voz do seu tempo. “Pois durante anos fomos silenciadas, amarradas/ Abusaram das nossas, as convenceram de que não eram nada/ Só que minha geração não fica mais calada, / Hoje minha boca é meu escudo e minha espada”24.
EU NÃO POSSO FAZER NADA
Podemos fazer uma aproximação entre os momentos iniciais do processo psicanalítico25, quando observamos os primeiros efeitos dessa leitura do inconsciente através de mudanças da posição subjetiva. Com as poetisas do Slam, que já publicam seus livros, reconhecemos este efeito simbólico quando ergueram as suas vozes de um silêncio secular, tomaram a palavra e sentaram-se à mesa das negociações simbólicas na cultura contemporânea brasileira. Assim como observamos no processo psicanalítico essa passagem do destino para a história, é saber notório que os artistas do movimento hip hop deram início a todo este processo. Hoje, as Minas do Slam também apanharam esse primeiro grito e se fizeram sujeitos de sua história pela mediação da arte, a exemplo da poesia de João Cabral: Tecendo a manhã26.
SAÍDA DISCRETA PELA PORTA DOS FUNDOS
O narrador: Macabéa me matou. Ela estava enfim livre de si e de nós. Não vos assusteis, morrer é um instante, passa logo, eu sei porque acabo de morrer com a moça. Desculpai-me esta morte.
Clarice disse27: “Antes dos 7 anos eu fabulava. Eu ensinei a uma amiga um modo de contar histórias. Eu contava uma história e, quando ficava impossível de continuar, ela começava. Ela então continuava e, quando chegava em um ponto impossível, por exemplo, todos os personagens mortos, eu pegava. E dizia: ‘Não estavam bem mortos’. E continuava. Com 7 anos eu aprendi a ler”.
Então… tentando desculpar o narrador, fui buscar na infância de Clarice um lugar para a minha criança, que não cansa de ouvir esta história, e assim tratar minha impotência frente ao destino inexorável de Macabéa, na tentativa de salvar o que de mim morreria com a sua morte.
Clarice28: “(…) quando via um menino ou menina passar na porta de casa perguntava: ‘Você quer brincar comigo?’ Os não eram muitos, os sim poucos”.
Peço a Clarice para entrar na brincadeira e dizer: ‘Macabéa não está bem morta não’. E assim, me acalentei imaginando um encontro entre Macabéa, heroína e mártir do romance, com as Minas do Slam, que tem um dos lemas ligados nos parangolés simbólicos de Hélio Oiticica, com os quais se pode vestir o pensamento para ir à luta: SEJA HEROÍNA SEJA MARGINAL29. Eu li, eu vi: Macabéa saiu da cartomante grávida de futuro.
Vinte e dois anos depois da publicação do romance, Marcélia Cartaxo, a nordestina do Sertão da Paraíba, oferece a Macabéa o prêmio de melhor atriz: um dos mais prestigiados prêmios do mundo. Marcélia ouviu, quase no final, quando Macabéa disse uma frase que nenhum dos transeuntes entendeu. Disse bem pronunciado e claro: — Quanto ao futuro.
O Futuro serve para a gente inventar.
1 Poema de João Cabral de Melo Neto. Livro AGRESTES (1981-1985), in Obra Completa – volume único – página 560. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1994. Obra Completa – volume único – página 560. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1994.
2 Morte de uma Baleia, in A Descoberta do Mundo, Clarice Lispector, pág. 127.
3 Última entrevista de Clarice em 1977, ao repórter Júlio Lerner. Ela pediu para que esta entrevista só fosse ao ar depois da sua morte.
4 Todas as citações em itálico são retiradas do Romance A Hora da Estrela.
5Em 2015 o filme entrou na lista feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema como um dos cem melhores filmes brasileiros de todos os tempos.
6 Como atriz, Marcélia Cartaxo, oriunda do Sertão da Paraíba, ganhou, por este papel, o Urso de Prata no Festival de Berlim.
7 “O MEU PRÓPRIO MISTÉRIO, in A Descoberta do Mundo, Clarice Lispector, pág.116. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
84Versosda canção, “A Hora da Estrela de Cinema” de Caetano Velloso, composta para o espetáculo de Maria Bethânia A Hora da Estrela, 1984.
9 CLARICE POR ELA MESMA, in Cadernos de Literatura Brasileira, pág. 67, 2004.
10 Verso do poema Anoitecer, in A rosa do Povo de Carlos Drummond de Andrade (1943 – 1945), musicado por José Miguel Wisnik. Faz parte dos CDs Pérolas aos poucos, 3003 e Indivízivel, 2011.
13 Tradução livre de minha autoria. Vives, Jean-Michel. La Voix sur le divan – Musique sacrée, opéra, pág. 22, techno. Flammarion, département Aubier, 2002.
14 Sobre isto ler O QUE É LUGAR DE FALA? De Djamila Ribeiro. Belo Horizonte: Letramento, 2017.
15 Ver o artigo que escrevi sobre este tema na revista Z Cultural do PACC- UFRJ: http://revistazcultural.pacc.ufrj.br/vozes-da-periferia-de-numa-ciro-2/
16 Diário de Sigmund Freud – crônicas breves, Artmed Editora, Porto Alegre, 2000. Segundo Michael Molnar, organizador destas crônicas breves, “A visita do escritor americano está documentada tanto nas cartas de Freud quanto nos diários de Wilder. Este encontro serviu de ocasião para uma fascinante discussão sobre literatura e psicanálise, de Franz Welfel a James Joyce”.
17 Embora Freud tivesse elogiado seu livro The Bridge of San Luis Rey, numa carta a Arnold Zweig, como “maravilhoso” e recomendado a seu filho como “extraordinariamente belo”, disse ao próprio autor que jogara fora Heaven’s My Destination e lhe perguntou porque escreveu sobre um tema que não daria para ser tratado poeticamente.
18 O Seminário, Livro 23: o sinthoma, 1975-1976/Jacques Lacan; texto estabelecido por Jacques Alain-Miller; [tradução Sergio Laia; revisão André Telles]. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2007.
24 Mel Duarte, in Negra Nua e Crua. São Paulo: editora Ijuma, 2016.
25 Saber fazer com o real: diálogos entre Psicanálise e Arte / organização Marcia Mello de Lima e Marco Antônio Coutinho Jorge, Editor José Nazar. – Rio de Janeiro: Cia. de Freud: PGPSA/IP/UERJ, 2009.
26 Tecendo a Manhã, do livro A Educação pela Pedra (1962-1965), in
27 CLARICE POR ELA MESMA, in Cadernos de Literatura Brasileira, pág. 59, 2004.
28 Itinerários – Da Rússia ao Recife, in CLARICE – Uma vida que se repete de Nádia Battella Gotlib, pág. 74, São Paulo: Editora Ática.
Direitos autorais 2018 DLCV – Língua, Linguística & Literatura
A cena do filme A hora da estrela, de Suzana Amaral, que ilustra este texto, não faz parte da publicação original na revista DLCV – Língua, Linguística & Literatura.
Festival Levada 2019
O Levada chega ao seu 8º ano e pelos seus palcos já passaram 104 artistas. Gente nova, muitos lançando o primeiro disco, despontado no horizonte. Imagine que Letrux, BaianaSystem, Metá Metá e Carne Doce, entre tantos outros, marcaram presença com seus primeiríssimos lançamentos no Levada. [Texto de Revista Kuruma’tá]
Texto de Revista Kuruma’tá
Gente, é simples… a notícia é boa! Tá tendo Festival Levada na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, com uma programação de arrepiar os muitos e variados sentidos de uma pessoa. Fato!
O Levada chega ao seu 8º ano e pelos seus palcos já passaram 104 artistas. Gente nova, muitos lançando o primeiro disco, despontado no horizonte. Imagine que Letrux, BaianaSystem, Metá Metá e Carne Doce, entre tantos outros, marcaram presença com seus primeiríssimos lançamentos no Levada.
Na quinta passada, 2 de agosto, ninguém menos que a paraense Aíla abriu os serviços, com uma banda afiadíssima na eletrônica! Kuruma’tá se sentiu no futuro! Agora pense, a Aíla foi quem fez o primeiro show da primeira edição do Levada! Que ciclo incrível, pois a moça chegou lançando single novo, o Trema terra!
Aíla no Levada 2019 – Foto Revista Kuruma’tá
E a festa que começou na quinta, apenas começou. A programação traz muita coisa boa demais! Os shows acontecem no Teatro Firjan SESI, no Centro da Música Carioca e no Lab Oi Futuro! Olha aí a lista
O Festival Levada é uma realização da Zucca Produções, com patrocínio e apoio de várias instituições, públicas e privadas, que estão devidamente mencionadas no site do festival pra você conferir. A curadoria… Bem, a curadoria do Levada é do queridíssimo Jorge LZ, produtor e apresentador do Programa na ponta da agulha e colaborador da Revista Kuruma’tá! Só orgulho, né?!
Na página do festival você encontra horários e todos os detalhes que você precisa saber para curtir o Levada. Vá, chame as amizades, convide amores e parentes! Tá valendo! Apoiar o Levada é apoiar gente nova, artistas cheios de energia, e também a manutenção dos espaços cariocas para arte e cultura!
Esse Levada tem o “Selo Bom Demais” da Kuruma’tá!
Bora conferir a turma linda que vai passar pelo Levada 2019?!
Comentário sobre o show da Aíla: Uma parede sonora eletrônica, dançante, moderna, com uma banda impecável, movida pela graça e talento dessa moça que já foi promessa e hoje é missão cumprida! Mas a missão de Ailá se renova o tempo todo e seu novo single, Treme terra, já abala as estruturas. Viva o Pará! Viva Aíla!
Elton e Diadora
Elton levou exatamente 5 anos e 10 dias para aprender a amarrar seus sapatos e sabe cantar, no momento, precisamente 27 canções. Também faz as melhores chaves e percebe principalmente as pequenas coisas. Quanto menores, melhor. Naquele dia foi chamado de emergência no plantão. Teve que subir as escadas porque faltava luz no prédio velho, azul e encantador. [Texto de Adriana Nolasco]
Elton é chaveiro. Se interessa principalmente pelos tipos de chaves que abrem coisas que não existem mais. Trabalha na mesma esquina desde os cinco anos de idade quando começou a acompanhar o pai, que acompanhou seu próprio pai, que por sua vez acompanhou o pai que também acompanhou aquele que, se dizia, era seu pai. O que fazia daquela esquina um pedaço da sua carne.
Elton
John, ariano e vegetariano, assim se chamava porque sua mãe foi a um
show na Praça de Espanha, fazia muito tempo, e se apaixonou.
Não pelo Elton (John), mas pelos óculos que usava, pelas roupas brilhantes que vestia e pela mulher que transbordava daquela pele de homem, assim como das suas calças apertadas e do suor que borrava parte de sua maquiagem. Elsa se encantou. Por causa desse tesão repentino, que lhe consumiu as poucas calorias que restavam, a mãe de Elton baixou a própria pressão e se fixou noutros óculos (como uma tábua de salvação). Antes de desmaiar lhe sussurrou um poema sujo e lhe agarrou as bolas, coisa que nunca tinha feito antes. Nove meses e cinco dias depois nascia Elton John de Oliveira.
Seu pai, Fernando, o Oliveira, ainda usa os mesmos óculos, agora com lentes um pouco mais grossas porque está velho e também porque sempre teve dificuldade de ver certas coisas que Elton, por sua vez, sempre viu, com precisão.
Vê, por exemplo, que o pai que usa óculos cada vez mais grossos e conserta chaves cada vez mais complexas começou a esquecer onde deixa as de casa. Esquece também outras coisas tais quais as razões de sua própria vida. Elton também vê que um dia vai acabar substituindo o pai naquela esquina, porém procura não pensar muito nisso, ao contrário. Na maior parte das vezes evita mesmo pensar, o que em geral o leva a pensar ainda mais, casos em que, quando pode, se refugia no banheiro e toma longos banhos. O ideal é quando consegue sair com os dedos dos pés e das mãos enrugados como um pergaminho. E se não tiver um menino que o acompanhe naquela esquina, a esquina irá acabar?
Elton levou exatamente 5 anos e 10 dias para aprender a amarrar seus sapatos e sabe cantar, no momento, precisamente 27 canções. Também faz as melhores chaves e percebe principalmente as pequenas coisas. Quanto menores, melhor. Naquele dia foi chamado de emergência no plantão. Teve que subir as escadas porque faltava luz no prédio velho, azul e encantador. O porteiro que dormia nos intervalos de cada quarto de hora lhe avisou: quarto andar. Diadora. Quarto de dormir. Andar à toa. Dia de sol. Amadora. Achou que era uma brincadeira, mas subiu assim mesmo, lembrando dos jogos de criança, quando amava a escuridão, o que lhe dava grande vantagem.
***
A sorte pode ter formas estranhas, pensou Diadora, é preciso ter olhos bem abertos pra perceber, mesmo que tenha telefonado e chamado por ela. Diadora tinha medo. Da chuva, da tempestade, de portas fechadas, da desesperança. Elton (John) não, tanto que subiu as escadas do prédio azul, velho, encantador e sem luz, quase feliz. Ao chegar, guiado pelo branco daqueles olhos, repetiu: chaveiro, quarto andar. Diadora. Quarto de dormir. Andar à toa. Dia de sol. Amadora. Diadora achou graça naquilo e perdeu seu medo em algum canto do corredor, mas não se importou. Não teria mesmo como recuperá-lo naquele momento, havia outras prioridades. Se cumprimentaram ao som de um trovão. Diadora tremeu por outro motivo. Já Elton elogiou sua roupa, que combinava mesmo com a escuridão, e pediu que se aproximasse da fechadura para que os faróis de seu rosto a iluminassem. Nunca levava uma lanterna consigo, tal qual as pessoas que amam a chuva sempre perdem seus guarda-chuvas, suas canetas bic e seus isqueiros. Era considerado estranho por isso, porém não se importava. Elton também tinha sorte. Alguma. De rosto colado ao de Diadora, além de sentir a frescura e maciez de sua pele, pode ver o que precisava resolver. E levou exatos cinco minutos, tempo que em geral aprendia uma música inteira, pra consertar a fechadura que, no entanto, não estava quebrada. Elton explicou para Diadora que nesse caso, e na maioria deles, o problema era a chave que abre as coisas. Elton consertou a chave, abriu a porta e teve a impressão de ter aberto outras coisas também, mas não soube precisar. O que conseguiu fazer foi dizer que amava a chegada das tempestades, quando o céu gritava e o vento cuspia folhas como confetes. A luz voltou como uma raio. Elton se assustou com tanta clareza e após entregar um folheto de propaganda para Diadora, se despediu e esqueceu de cobrar pelo serviço. Já Diadora se esqueceu de quem era. E simplesmente entrou. As portas estavam abertas. A sorte sempre chega em horas inesperadas. A luz também. Era nove e meia da noite. A chuva tinha finalmente parado.
Querido Manuel
Coisa boa de editar a Kuruma’tá é estar no centro do Rio, bebendo um chope com o Braulio Tavares e receber uma mensagem do Nonato Gurgel, do querido Nonato Gurgel, com um poema para a revista. A sensação é das melhores, ali num tradicional bar no centro do Rio, lendo no celular um poema de Nonato, que diz ele não ser a versão final… mas que já é lindo. [Poema de Nonato Gurgel]
Coisa boa de editar a Kuruma’tá é estar no centro do Rio, bebendo um chope com o Braulio Tavares e receber uma mensagem do Nonato Gurgel, do querido Nonato Gurgel, com um poema para a revista. A sensação é das melhores, ali num tradicional bar no centro do Rio, lendo no celular um poema de Nonato, que diz ele não ser a versão final… mas que já é lindo.
Hoje chega-me a a tal versão final. Escolho a foto, de Janeide Cruz, amiga do poeta, para ilustrar o poema. O horizonte do mar de Macaé e o céu azul, os navios, uma evocação a Manuel Bandeira, esse querido.
Obrigado, Poeta!
Querido Manuel
Todas as noites os navios acesos dão lições de partir rumo ao Sertão Estação Baixada Pasárgada próxima parada
Neste quarto de hotel sei muito bem o que fazer com a maçã mordo como retorno à pátria mística e o seio da sereia sibila
Há dias sangramos assim ela ele e eu derramados todos a teus pés irmanados no desabrigo da margem que derrama gole pro santo na ‘dor daquilo que não se pode’
A vida é feita de não ditos eu sei mas todos dizem que o cuscuz do Seridó é o melhor do mundo e isso importa eu já plantei hortas hoje planto alegrias
Bandeira, meu amor prometo rio e correnteza de volta sertãozinho do Tinguá forever sol de Paraty na cara outro amanhecer só encontra quem perdeu
Macaé-RJ, Agosto, 2019
Rua da Matriz, 97
Eu pegava o ônibus, Jordão Alto ou Jordão Baixo, na Imbiribeira e seguia rumo ao centro da cidade. Atravessava o bairro de Afogados e seguia pela avenida Sul, um caminho desolado, margeado de um lado pelo muro que a separava dos trilhos da Rede Ferroviária Federal e do outro por uma sequência de ruínas e galpões semi-abandonados. O fim da jornada era na avenida Dantas Barreto, uma abominação que foi cortada em meio a um bairro fervilhante, derrubando cerca de 400 casarões, eliminando 11 ruas e uma igreja tombada pelo patrimônio histórico. Ali, nesse cenário de terror urbano, ficava o terminal do meu ônibus. [Texto de Toinho Castro]
Há mais ou menos um ano, em maio de 2018, li rapidamente, em meio ao caos dos posts do Facebook, que um ou dois velhos casarões haviam desabado, tristemente ferindo moradores, no centro do Recife, a cidade onde cresci e vivi parte da minha vida adulta. Isso me teria passado como mais um episódio da novela de uma cidade abandonada, com seus históricos sobrados caindo aos pedaços sobre seus habitantes desprotegidos de tudo, não fosse pelo alerta de um jovem amigo, o Pedro Siqueira.
Disse-me Pedro que o sobrado que desabou por cima de outro sobrado era o nº 97 da rua da Matriz.
Eu pegava o ônibus, Jordão Alto ou Jordão Baixo, na Imbiribeira e seguia rumo ao centro da cidade. Atravessava o bairro de Afogados e seguia pela avenida Sul, um caminho desolado, margeado de um lado pelo muro que a separava dos trilhos da Rede Ferroviária Federal e do outro por uma sequência de ruínas e galpões semi-abandonados. O fim da jornada era na avenida Dantas Barreto, uma abominação que foi cortada em meio a um bairro fervilhante, derrubando cerca de 400 casarões, eliminando 11 ruas e uma igreja tombada pelo patrimônio histórico. Ali, nesse cenário de terror urbano, ficava o terminal do meu ônibus.
Dali eu cruzava a pé o que restava do bairro de Santo Antônio, passava pela rua Nova, cruzava em seguida a ponte Duarte Coelho, com seus ferros trançados, para adentrar a rua da Imperatriz e percorrê-la até o seu final, na igreja Matriz da Boa Vista, que fica na esquina com a rua da Matriz, onde eu, finalmente, chegava ao nº 97.
Narrei assim esse percurso, que eu o perseguia em certos sábados auspiciosos, em tom de peregrinação, porque era mais ou menos disso que se tratava. O fim dessa peregrinação era a casa de Humberto.
Humberto era uma espécie de criatura mitológica, uma esfinge rock’n’roll, deslocada no tempo e no espaço. Assim me parecia, naqueles anos, e assim ainda me parece, na memória. No sobrado nº 97, que desabou, lá nos fundos, se abria uma espécie de quintal onde habitava uma microcomunidade, meio hippie, meio estranha. E o que havia lá, afinal, que nos atraía? A resposta é simples, o maná da juventude: discos.
Humberto vendia discos usados (e iogurte natural, feito lá mesmo), e com isso alimentou toda uma geração de jovens recifenses que ali, no nº 97, aprendeu a amar o rock’n’roll em todas os seus matizes. Filhos do Metal, do Progressivo, das estranhezas inclassificáveis, passaram pelos portais da casa de Humberto. Era ponto de encontro, rota de fuga, cruzamento de linhas e bate-papos com raridades nas mãos. Ali a gente podia conversar, comprar e trocar, além de receber a sabedoria de Humberto. Quem passou por lá sabe. Quem passou por lá não esquece.
Aquele sobrado velho é tombado para nós que ali crescemos como ouvintes e companheiros dos misteriosos caminhos da música, é um patrimônio histórico-cultural, centro de um sistema nervoso que até hoje espalha e cultua o rock’n’roll pela cidade. Humberto, um cara que influenciou a formação musical e pessoal de gente que tá aí hoje, fazendo música, movimentando os toca-discos, botando gente pra dançar uma noite inteira. Salve, Humberto, que já se foi, alguns anos atrás, antes do seu sobrado, sem ser notado pela pobre mídia.
O nº 97 da rua da Matriz é um marco obscuro. As autoridades, o governo, a Unesco, não sabem da sua existência ou do seu valor. Não receberá honrarias ou certificados, nem haverá uma placa de bronze com a inscrição: Aqui viveu Humberto.
Humberto Brito – Foto do acervo de Levi Cerqueira
Esse texto foi escrito no dia seguinte à queda dos sobrados e agora o recupero porque às vezes uma lembrança leva a outra, como lâmpadas que vão acendendo sucessivamente, uma a uma, numa rua escura. Na porta de entrada de um sobrado dessa rua está Humberto, que morreu em 2015. Lá de dentro vem um som que eu gosto, uma zoada boa. Gente jovem entra e sai carregando discos.
Manhã de sol. Estou no Recife, de frente para os sobrados derruídos da rua da Matriz. Tiro uma foto. Nos fones de ouvido, no Spotify, um disco do Tangerine Dream, que comprei ali com Humberto, anula os sons da rua, dos carros, das pessoas passando. A casa de Humberto é um lugar em que fui feliz.
E sim, a rua da Matriz, 97, é o nossa rua Nascimento Silva, 107. Só que muito melhor!
PS. Leia o livro Pesado, de Wilfred Gadelha, e mergulhe no entendimento desse universo que formou a cultura musical do rock no Recife.
Juazeiro na Califórnia – Oito poemas de Márcio Fabiano
Há tempos venho pedindo a Márcio, poeta temporão e safadinho, como ele mesmo diz, uma colaboração (ou muitas!) para a Revista Kuruma’tá. E eis que ele me envia esses poemas de sua lavra, escritos, olhe só, na Califórnia. [Poemas de Márcio Fabiano]
Dizer que o baiano de Juazeiro, Márcio Fabiano, é publicitário é dizer muito pouco. Mas é um bom começo. Amigos de muitos anos, mas não o suficiente que nos torne velhos. Ou melhor, que sejamos velhos, na melhor acepção da palavra! E com isso velhos amigos nos define bem. Há tempos venho pedindo a Márcio, poeta temporão e safadinho, como ele mesmo diz, uma colaboração (ou muitas!) para a Revista Kuruma’tá. E eis que ele me envia esses poemas de sua lavra, escritos, olhe só, na Califórnia.
Comecei a escrever antes de ir ver o mundo. Na Califórnia, solitário, iniciei minha obsessão por saudades. As paixões renderam rimas e imagens. Mas não são cupidos eficientes. Continuo solteiro.
A Kuruma’tá é um espaço de amizades e afetos, sempre, e receber Márcio Fabiano e sua poesia é privilégio e alegria. Que seja esta a primeira de muitas presença do poeta na nossa revista. Seja bem-vindo à Kuruma’tá, Márcio!
Toinho Castro [Editor]
Fotos de Lara Bonfim Braga
O GERENTE COM A GRAVATA DO GARFIELD
Eu nunca vou parir os filhos do gerente com a gravata do Garfield Nunca vou pôr a mesa para ele jantar nem visitar sua mãe no domingo à noite. Eu nunca vou convidá-lo para ver um filme com final feliz e nem vou rever o que poderia ser nosso álbum de casamento e ouví-lo repetir que eu estava linda. Nem vou levar a cerveja para ele beber enquanto assiste o jogo na TV E nunca vou estar ao seu lado no carro, janelas abertas e o vento como testemunha dos meus dedos em sua nuca. A nuca do gerente com a gravata do Garfield Eu nunca
Não vou voltar de uma festa, longo preto e saltos e, no quarto, despir-me enquanto ele observa. Ele, a fera. Eu, a presa mais feliz do mundo. Não vou sentir o sexo do gerente com a gravata do Garfield, não vou provar seu hálito, nem negar os seus pedidos e vê-lo aumentar sua fúria. Não vou acordar feliz ao seu lado. Nunca Nesse sonho eunuco, pela manhã, outras acordarão.
POR AÍ
Para onde vou nessa agonia? Se abro a porta, sangria Quando a fecho, fobia Para onde vou nessa noite esguia? Vejo a pedra, tropeço Espero a sombra e ela me ultrapassa Não conto medidas Não curo feridas Não busco saídas Para onde vou? Não tenho resposta e soluço Para onde vou? Apenas a sombra aponta o caminho.
SILÊNCIO
Eu sonhei que você vinha e não falava nada Pegava na minha mão, apontava o caminho e eu seguia, silencioso Eu sonhei que você vinha e não falava o que queria Pedia com os olhos. Silencioso, eu atendia cedia com mais força eu gemia Após o fastio, você dormia E, sem palavras, eu te guardava: – Dorme, amor, dorme! E, quando acordar, silencia. Eu estou sonhando.
ANIVERSÁRIO
Bebi, bebi, bebi, bebi. feito uma cachorra. Uma louca. Bebi feito uma vagabunda, abrindo os dentes, salivando sua carne. Gastei meu riso. Joguei fora toda minha reputação, riscando as sílabas do início ao fim para mostrar o que realmente sou: — Feliz aniversário, puta! Sem arrependimentos. Eu tenho aspirinas.
Nunca entendi você Quando estou, ausência Quando saio, ardência Quando volto, demência É difícil amar assim
SOSLAIO
Ele vem, passa e soslaia Eu sigo Ele volta e soslaia Eu finjo Ele pára e mira Eu olho para trás Ele passa na minha frente e senta Eu soslaio e sigo.
RG
Eu nasci sem pulso Filho do faceiro, neto do gigante, cresci delicado Meu pai se enroscou nas teias da rede que ele ofereceu à minha mãe Ela tentou ser agulha e pôr a teia em ordem A agulha cegou, o novelo caiu e o fio se perdeu Eu nasci sem pulso. Perdido, o fio sou eu.
OS OLHOS DELE
Os olhos dele são compasso. Negros e redondos marcam meu passo Nos olhos dele, Íris, eu sou espaço
CONTABILIDADE
Eu não tenho idade Eu tenho a metade do que vivi Com o resto, faço planos para os dias que virão Sem saber que nessa contabilidade cronológica, minhas contas não tem fim nem lógica Sob essa ótica, sou um calendário apagado que, ao marcar os dias, não vê que o tempo já passou
Cultura Independente de Qualquer Coisa – Conheça a FIQC
A gente ama feira… é como um chamamento, no meio do urbano absoluto, das vidas do interior, da noção de comunidade que ainda persiste a despeito dos automóveis. Enveredamos então a investigar as barracas e não tardamos a perceber que aquilo ali era diferente. Tinha um ar, um jeito diferente do que normalmente vemos por aí. [Texto de Toinho Castro]
Era o ano de 2016 no Rio de janeiro e eu e Raquel, companheira de vida e sonhos, vadeávamos pela Tijuca numa tarde de domingo. Nosso para lá e para cá acabou por nos levar à Praça Saenz Peña, um dos corações do bairro, posto que a Tijuca tem muito corações batendo forte. E não é que estando ali demos com uma feira livre, iluminando ainda mais o domingo de sol.
A gente ama feira… é como um chamamento, no meio do urbano absoluto, das vidas do interior, da noção de comunidade que ainda persiste a despeito dos automóveis. Enveredamos então a investigar as barracas e não tardamos a perceber que aquilo ali era diferente. Tinha um ar, um jeito diferente do que normalmente vemos por aí. Numa das barracas estava uma amiga, a Flávia, que contou um pouco da feira, explicou que sim, era diferente, voltada para a produção independente, fora do circuito do comércio e do império cego do mercado. Havia roupa, arte, comida, encontros, conversa, bebidas e sorrisos espalhados em toda parte. Um encanto.
Minha primeira reação foi querer estar ali. Acho que naquela tarde mesmo a Flávia nos apresentou a mente generosa, ou pelo menos um delas, por trás daquela ideia. Assim se deu o conhecimento com Rodrigo Chignall, que nos cativou de simpatia e explicou os comos, os quandos e as razões da FIQC. Atualmente quem está no leme dessa festa é Rodrigo Chignall, a Maiara (Mica) Nascimento e Leonardo Lucas (Léo). Como a feira é uma grande família, eles não esquecem do parceiro Naamã Lima, designer que começou tudo com eles.
Olhe, os dias que se sucederam foram de inventar algo para participar daquela feira. Isso mesmo, virar feirante. Dados às artes como somos, não foi difícil criar uma marca, realizar algumas ideias e armar nossa barraca. Mas como não é dessa experiência que quero falar, vou pular a história de Toinho e Raquel vendendo arte na FIQC para contar o mais importante, que é a feira propriamente dita!
Estamos em 2019 e a FIQC resiste bravamente às intempéries municipais e segue encantando a Saenz Peña!
Cada edição da FIQC, que acontece uma vez por mês, é formada exclusivamente por pequenos produtores. O mote é compre de quem produz, seja uma roupa, uma fotografia ou um hambúrguer. Outra faceta marcante da feira é o espaço dedicado às manifestações artísticas, posto que inicialmente a ideia da FIQC surgiu como criação de um evento de arte e cultura ocupando o espaço público, levando gente para a rua, ou para praça! E a gente sabe que, em geral, quando se fala de arte e cultura, a gente pensa em exposições, em museus, feiras literárias. Mas esses conceitos abrangem muito mais; nisso tudo estão as relações de troca social também, de compartilhar espaço, linguagem, gestual. Ouvir o outro, ver o que o outro produz e vivenciar experiências que transcendam a solidão cultural que, muitas vezes, as cidades nos impõem.
Por isso, Independente de Qualquer Coisa, é preciso encontrar, ocupar a rua e mostrar aquilo que somos capazes de fazer melhor.
As edições da FIQC são temáticas e passeiam pela cultura carioca mas também brasileira. A edição de carnaval, em fevereiro, reverenciou o frevo e a tradição pernambucana da festa de Momo. Coisa linda de se ver. E se você ficou curioso, prepare-se, que no dia 18 de agosto teremos na praça Saenz Peña mais uma edição dessa feira linda. O tema é nada mais nada menos que o Folclore, pois o dia do Folclore é 22 de agosto! Uma aposta linda na nossas tradições orais, nas histórias que povoam o imaginário brasileiro, desse Brasil de verdade que não cabe em definições superficiais. Um Brasil profundo, generoso e diverso, de muitas falas e olhares.
A FIQC busca, a cada edição, representar e espalhar essa cultura.
E agora fica esse convite pra você ir pra praça e compartilhar da diversidade que está aí, produzindo, criando, inventado! Como a turma da FIQC mesmo diz: Desejamos mostrar a todos que a cultura é um direito de cada um e que ela pode ser feita de forma coletiva e horizontal.
A Feira Independente de Qualquer Coisa mostra que a rua e sua dinâmica é cultura, que as trocas podem e devem se dar entre pessoas e que a economia pode ser criativa e cidadã.
Era uma criança incomum. Seus ossos eram moles, retráteis. Um a um, dobravam-se feito os de um contorcionista. Os pais, estavam certos disso, aquilo era uma enfermidade, doença. Faltava cálcio. No entanto, a verdade é que o dom do menino estava ligado à crença, dele mesmo, de que seu corpo era pura água. [Texto de Eduardo Frota]
Era uma criança incomum. Seus ossos eram moles, retráteis. Um a um, dobravam-se feito os de um contorcionista. Os pais, estavam certos disso, aquilo era uma enfermidade, doença. Faltava cálcio. No entanto, a verdade é que o dom do menino estava ligado à crença, dele mesmo, de que seu corpo era pura água.
Desse jeito era mais fácil.
Chorava – e assim pensava que perdia líquido e se tornava um pouco mais duro, retesado. E corria para ler histórias engraçadas. E pedia aos pais que contassem piadas.
Suava – e assim pensava que a sede nada mais era do que o corpo avisando que seu lado de dentro secava. E corria para o banho deixando a água penetrar os poros.
Urinava – e assim lembrava que quando o líquido era amarelo, melhor mesmo era livrar-se dele na mesma hora. E corria ao banheiro para ver a descarga levar tudo aquilo embora.
Um dia
esgueirou-se com habilidade notável por cada canto do quarto, por cada flanco da casa, por cada esquina da vida, inclusive das que cruzavam com quem ele nem conhecia.
E neste dia
percebeu o amor – e deixou uma lágrima descer os olhos.
correu para contar aos pais – a camisa ficou encharcada.
fez xixi – antes de dormir, para recomeçar no dia seguinte.
Fluía a vida, fluía a água. E o menino, sorria.
Latvian circus contortionist performer – circa 1930
A chegada do homem na Lua
À noite, estávamos tocando numa boate de Boa Viagem, se não me falha a memória chamava-se “Gatoca”, e tínhamos sido convidados para dividir o palco com uma banda recifense de quem ficamos amigos, Os Moderatos. Lembro que a certa altura alguém subiu no palco e bradou que um homem tinha acabado de pisar no chão da Lua, e como não sabíamos tocar “Lunik 9” atacamos imediatamente de “Ob-La-Di, Ob-La-Da” – como diria um jornalista, “levando o público ao delírio”. [Texto de Braulio Tavares]
Nosso amigo e parceiro de invenções e versos, o escritor, poeta e homem de muitas artes Braulio Tavares, chega na Revista Kuruma’tá 50 anos depois que o homem pisou na lua, e esse é o tema de sua bela crônica!
Seja bem-vindo, Braulio! Que esse seja o primeiro de muitos outros textos!
Há
cerca de cinquenta anos os astronautas do projeto Apollo 11
desembarcaram na Lua.
Naquele
tempo eu lia muito mais ficção científica do que hoje,
proporcionalmente. Não no volume total de páginas, mas porque eu
lia qualquer coisa de FC que me aparecesse pela frente (era pouco, o
que aparecia). Hoje eu me dou ao luxo de ler somente o que parece
prestar. (Fora as leituras profissionais, obrigatórias.)
A
imprensa cobria o Projeto Apollo diariamente. Eu ainda não tinha o
hábito (que só veio bem depois) de ler os jornais do Rio e São
Paulo. Mas lia as revistas, principalmente revistas recentes como
Veja e Realidade, que meu pai sempre comprava.
Foi
numa delas que recebi minha primeira grande decepção: um perfil de
Neil Armstrong, o chefe da missão lunar, escrito pela jornalista
Oriana Fallaci.
Ora,
eu via com olhos deslumbrados a condição de ser O Primeiro Ser
Humano A Pisar Noutro Planeta. Para mim (eu tinha 19 anos
incompletos) isso era uma glória maior do que ser Sócrates,
Leonardo da Vinci, Napoleão, o Papa e Bob Dylan, tudo junto.
Contaminado
pela FC poética de Ray Bradbury (que na época era meu autor
preferido), eu ficava imaginando os sonhos e as visões que estariam
passando pela mente daquele astronauta destinado a ser O Sujeito Mais
Importante Do Mundo.
O
texto de Oriana Fallaci foi aquilo que os jornalistas chamam de “uma
ducha fria no meu entusiasmo”. Armstrong era um técnico, um mero
piloto. Um sujeito de absoluta e burocrática eficiência, sem um
pingo de poesia, um pingo de imaginação. Parecia esses jogadores de
futebol de hoje, que dizem: “Estou bem preparado, me dedicando aos
treinamentos com afinco, e estou pronto para dar o meu melhor a fim
de conquistar o nosso objetivo”.
Um
sujeito assim vai pisar na Lua!! Cadê a poesia?
Não me saía da cabeça (como não sai até hoje) a canção “Lunik 9” (1967) de Gilberto Gil, para mim o hino da conquista da Lua:
Poetas, seresteiros, namorados, correi! É chegada a hora de escrever e cantar talvez as derradeiras noites de luar.
Momento histórico, simples resultado do desenvolvimento da ciência viva… Afirmação do homem, normal, gradativa, sobre o universo natural, sei lá que mais!
Ah, sim… Os místicos também profetizando em tudo o fim do mundo e em tudo o início dos tempos do além… Em cada consciência, em todos os confins, da nova guerra ouvem-se os clarins…
Guerra diferente das tradicionais guerra de astronautas nos espaços siderais! E tudo isso em meio às discussões, muitos palpites, mil opiniões…
Um fato só já existe, que ninguém pode negar: 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1, já! Lá se foi o homem conquistar os mundos, lá se foi! Lá se foi buscando a esperança que aqui já se foi… Nos jornais, manchetes, sensação, reportagens, fotos, conclusão: a Lua foi alcançada afinal… Muito bem! Confesso que estou contente também.
A mim me resta disso tudo uma tristeza só: talvez não tenha mais luar pra clarear minha canção… O que será do verso, sem luar? O que será do mar, da flor, do violão? Tenho pensado tanto… mas nem sei…
Poetas, seresteiros, namorados, correi! É chegada a hora de escrever e cantar talvez as derradeiras noites de luar…
Gil
por um lado, Oriana Fallaci pelo outro, e a influência bradburyana
foi se atenuando. A chegada do homem à Lua não era uma viagem
psicodélica. Era uma façanha tecnológica, e dificilmente seria
colocada a cargo de um poeta. Pilotar a Apollo não era tarefa para
um lírico-pop-surrealista como Bob Dylan, e sim para (guardadas as
proporções) um sujeito concentrado e meio sensaborão tipo Michael
Schumacher.
O
mais interessante de tudo é que acabei não vendo a descida do
módulo lunar. A façanha aconteceu num domingo, 20 de julho de 1969,
e justamente nesse dia a banda em que eu tocava, Os Sebomatos, estava
se apresentando no Recife. Quando a nave pousou, estávamos no lugar
menos indicado para assistir TV: no palco de uma estação de TV,
tocando no programa “Dimensão Jovem” do Canal 6 do Recife.
À
noite, estávamos tocando numa boate de Boa Viagem, se não me falha
a memória chamava-se “Gatoca”, e tínhamos sido convidados para
dividir o palco com uma banda recifense de quem ficamos amigos, Os
Moderatos. Lembro que a certa altura alguém subiu no palco e bradou
que um homem tinha acabado de pisar no chão da Lua, e como não
sabíamos tocar “Lunik 9” atacamos imediatamente de “Ob-La-Di,
Ob-La-Da” – como diria um jornalista, “levando o público ao
delírio”.
Era
1969, era o Brasil da ditadura, o Brasil do AI-5, o Brasil do general
Costa e Silva e da Junta Militar EMA (Exército, Marinha e
Aeronáutica) que logo ocuparia a presidência da República.
Todas
as vezes que íamos de ônibus para o Recife tínhamos que parar no
posto da Polícia Rodoviária, descer, mostrar documentos, explicar
quem éramos e para onde íamos, e ver um policial checando uma lista
de nomes datilografados para ver se figurávamos ali. Claro que não
– mas eu olhava a folha e mesmo de-cabeça-para-baixo dava para ver
os nomes de líderes estudantis que todos nós conhecíamos.
A Lua? Continuou brilhando como sempre, para os poetas, seresteiros e namorados.