A cheia de 1975

O Capibaribe cortava moroso o Recife. Visto das pontes em sua lentidão, não se diria que ele seria capaz de tal destruição. Como um gênio preso numa garrafa, silencioso, irado, esperando a tampa ser aberta. Era como se morássemos perto de uma caverna em que dormisse um terrível dragão. Majestoso, porém. Eu amava o Capibaribe e morria de medo dele. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Em 1975 eu era menino, oito anos de idade. Foi o ano da grande enchente que inundou e assustou o Recife. A Cheia de 75. Na data de ontem, 17 de julho, esse evento cataclísmico faz aniversário de 44 anos. Recife sempre foi essa cidade amaldiçoada de águas, com suas palafitas, canais, o mar roendo seus ossos de cidade velha junto aos cais. Água salobra que brotava de qualquer buraco que se cavasse nas suas ruas sem calçamento, do mangue que jazia em toda parte. De dentro do próprio homem… como aprendi do Recife com João Cabral!

…(naquela água macia 
que amolece seus ossos 
como amoleceu as pedras). 
— João Cabral de Melo Neto, em O cão sem plumas.

A gente ouvia as notícias no rádio, sobretudo no rádio. Gente, era emocionante! Tinha uma frase que arrepiava os cabelos. Bastava escutar o locutor dizendo que já chovia muito na cabeceira do Capibaribe para se ficar tenso, observando a chuva cair lá fora e imaginando a cabeceira do rio inchando de chuva. Cabeceira para mim era da cama e a imagem da chuva caindo na cabeceira da minha cama é algo que ainda me é poético.

Naquele dia, há exatos 44 anos, o rio desistiu de suas margens e invadiu ruas, avenidas, casas e tudo mais que encontrava pelos caminhos. Consta que mais de dois terços da cidade sucumbiram à força da enchente. Muitos morreram e milhares ficaram desabrigados. O Recife ficou isolado e submerso. Na Imbiribeira, onde eu morava, apesar da chuva que insistia, o Capibaribe não chegou. Dizia-se que se a cheia chegasse na zona sul, é porque toda a cidade estaria acabada sob as águas. Ou melhor, sob a lama e os destroços, as carcaças de animais, móveis flutuantes, automóveis desprevenidos e sabe-se lá mais que mitologias.

O Capibaribe cortava moroso o Recife. Visto das pontes em sua lentidão, não se diria que ele seria capaz de tal destruição. Como um gênio preso numa garrafa, silencioso, irado, esperando a tampa ser aberta. Era como se morássemos perto de uma caverna em que dormisse um terrível dragão. Majestoso, porém. Eu amava o Capibaribe e morria de medo dele. E ele tinha esse compromisso de encontrar o mar que era irresistível e às vezes todas as águas o alimentavam na fome dessa direção. E o Recife ali no meio, atrapalhando, se espichando e se espalhando, como se não houvesse rio nem mar. Como se tudo ali fosse dele. E não era. Nem será.

Lembro desse dia de forma cristalina porque estávamos no cinema quando tudo começou. Mal se anunciou no rádio que a cidade se afogava, minha mãe ficou doida de preocupação. Eu, minha irmã e nossos primos havíamos ido ao centro, assistir no Cine Moderno uma sessão dupla de um filme de Mazzaropi e A noviça rebelde! Uma verdadeira aventura. E enquanto o milagre do cinema se dava na tela iluminada, entre risos e empolgação, o destino do Recife era selado. Ao fim da sessão saímos à rua despreocupados. Já era noite e diante de nós a praça Joaquim Nabuco iluminada e logo adiante o rio, cínico, como se nada estivesse acontecendo. O mesmo rio que ia devorando outros dois terços da cidade.

E pensar que, enquanto isso, gargalhávamos na sala escura do Moderno com Mazzaropi e viajávamos com Julie Andrews numa Áustria assombrada pelo nazismo em ascendência. Eu e meus primos, mais novos, não entendíamos ainda o significado daquilo e nos deleitávamos com os cenários e a música. O filme era de 1965 e tinha quase a minha idade, um ano mais velho. E creio que foi a única vez em que o assisti. Assisti-lo outra vez seria banalizar esse episódio, do filme que assisti no dia que estourou a cheia de 75. Já o filme de Mazzaropi, não recordo. Era um filme de Mazzaropi, isso bastava para nos divertir. Foi uma passeio incrível e havia no ar, para mim, uma criança, um sabor extra no ar. A tensão da enchente iminente, a volta para casa, de onde veríamos o recife desaparecer.

A gente cresce e compreende o quão triste são esses eventos, a dimensão das perdas, o luto. Mas naqueles dias eu vivi a euforia de algo enorme, maior que eu, que me atirava para longe do tédio da escola e de certa vida suburbana. Os helicópteros cruzando os céus, as notícias no rádio, a preocupação com meus outros tios e primos que moravam do outro lado da cidade, no lado invadido e saqueado pelo Capibaribe. E é curioso como coisas díspares podem se juntar numa encruzilhada da nossa história. A vida da família Von Trap enquanto a guerra arranha o horizonte e minha própria família contando as horas de uma enchente, num canto perdido da América do Sul. Eu, minha irmã e meus primos com os olhos brilhando porque havíamos visto dois filmes enquanto o meso rio que desfilava diante de nós em frente ao cinema destruía metodicamente a cidade. E Mazzaropi em meio a tudo isso.

Exatos 36 anos depois meu pai morreu. Um fio que se teceu entre um dia e outro sem que eu mesmo soubesse e percebesse. Somente hoje, nesses 44 anos anos, eu vislumbro essa simetria, uma equação entre filmes, a cidade, o rio e meu pai. Naquela noite chegamos em casa, tranquilizamos a todos, sem imaginar que anos depois, num mesmo 17 de julho, seria uma noite em que eu receberia numa rua do Recife a notícia breve da morte de seu Antonio. Ao contrário de uma enchente, era como uma vazante. Como se o rio Capibaribe recuasse do leito e eu pudesse caminhar por ele até aquela noite em que voltamos do cinema numa cidade por ele inundada. Aquela noite em que meus pais nos esperavam e ninguém da nossa casa, apesar da enchente que a tudo levava, ia morrer. Como os Von Trap, às margens da guerra, poderíamos cantar, se quiséssemos, tamanha era a nossa inocência.

Hoje, quando eventualmente passo pelo Capibaribe, olho bem nos olhos dele e penso: Eu sei do que você é capaz. E não me demoro sobre as pontes.

Será real essa história?

Aquele rio 
era como um cão sem plumas. 
Nada sabia da chuva azul, 
da fonte cor-de-rosa, 
da água do copo de água, 
da água de cântaro, 
dos peixes de água, 
da brisa na água.
— João Cabral de Melo Neto, em O cão sem plumas.


O dia qu’eu vi

Pedi a Numa Ciro mais um poema para a Kuruma’tá. Pedi porque acho que precisa ter mais poesia nessa revista, mais poesia em toda parte. Pedia a Numa porque ela é essencialmente uma poeta. Poeta, certamente, da loucura e de certo êxtase. Com Numa parece que o teatro grego é a feira, sentimos sabor da cantoria e as máscaras de repente nos assustam e encantam. Numa Ciro faz pontes o tempo inteiro, cosmopolita que é. A poesia reside em tudo que ela faz. [Poema de Numa Ciro]

Poema de Numa Ciro


Pedi a Numa Ciro mais um poema para a Kuruma’tá. Pedi porque acho que precisa ter mais poesia nessa revista, mais poesia em toda parte. Pedia a Numa porque ela é essencialmente uma poeta. Poeta, certamente, da loucura e de certo êxtase. Com Numa parece que o teatro grego é a feira, sentimos sabor da cantoria e as máscaras de repente nos assustam e encantam. Numa Ciro faz pontes o tempo inteiro, cosmopolita que é. A poesia reside em tudo que ela faz.

Ela me mandou um poema mas achou que era muito grande, muito comprido. Eu disse que era bobagem, pois a gente tem liberdade de publicar longos poemas, que tem uma gente que busca por longos poemas. E quando os encontra se deleita e nem acredita que ainda é possível.

Leio o poema que ela me mandou, comprido, e escuto já na sua voz. Cego Vivaldo e Lampião. Eu e você. Os vizinhos e as pessoas passando na rua. E numa ligando esses pontos com versos. O mundo é um teatro e um poema.

Foto de Toinho Castro, do espetáculo Cabaré Concreto

O DIA QU’ EU VI
QUANDO LAMPIÃO LEVOU O CEGO VIVALDO P’RA VER O MAR 
ou
EU NÃO VEJO MUITO BEM

Somente o cinema mudo sabe dizer o que é isso
Isso é coisa de Eros


Estação Primeira

à memória de la mémoire
Dizes mémori
Visite

Introdução ao dia

1.
Eu jamais esquecerei aquele dia ensolarado.
O verão fora do tempo, que ano desachuvado!
Corria o mês de São João, São Pedro trancafiado
Bebendo a água do céu e o chão na terra abrasado.

2.
Acordei naquele dia, ainda estava sonhando.
Levantei tangendo raven e o never me puxando.
Vesti a saia de pálpebras, os olhos abrindo e fechando.
Para onde irei nessa luta entre o logo e o não-sei-quando?

3.
Logo, o logos me expulsou para os lados da saída.
Sem destino, de memória, ouvindo a ópera Aída, 
Segui a passos velozes pisando a dúvida vencida.
Das asas do vento arador, caí nos braços da vida.

4.
Oito léguas mais tarde, uma voz me alcançou.
Uma voz inesperada. Ora, ninguém me avisou.
Tatuei meus pés na estrada. Ora vejam quem chegou!
Nenhum passo para frente, orar pra trás é que eu não vou.

5.
Em segundos minha sorte foi laçada pelas musas.
Ou eu canto o mote certo, ou me assombram as medusas.
Então chamo em meu socorro as fusas e as semifusas,
Metáforas e metonímias. De medo troquei dez blusas.

6.
Quem diria que eu teria aquela surpresa danada?
Do meio do mato escondido salta a surpresa na estrada.
Adivinhou quem pensou que eu quedei atordoada.
Imaginou mas errou quem pensou numa emboscada.

7.
Via tudo acontecendo na minha frente e atrás.
À minha volta rodavam cenas de nunca e jamais.
Vi gente que não me via no mesmo instante e, aliás,
Desentendi quem vivia, se era eu ou os demais.

8.
Escorreguei na surpresa e caí na sedução.
Me deitei nos trilhos do sonho e esperei a salvação:
O apito do destino ou um aviso da razão.
Quem vai me dizer agora? O que diz meu coração?

9.
Meu coração tem razão quando diz que desconhece
As razões do coração de quem depressa me esquece.
Eu esqueço num segundo o Bê, o Cê, e o Esse,
O A, o Zé, e o X do nome de quem não merece.

10.
Não merece o quê, my dear? Vou naquele requebrado
Voltar pra beira da estrada. Lá vou eu de pé trocado.
As musas me largam sozinha nas horas do descantado
E as medusas aparecem, não carecem de chamado.

11.
Como eu estava dizendo quando dei curva no tino,
No instante em que troquei dez vezes de figurino,
Seguirei a estrada afora de Chanel, se me defino.
Até parece esfreguei um lampião aladino.

12.
Eu disse o quê? Lampião? Bonita! vou me acender.
Esse nome alumiou as coisas que eu vou dizer.
Lampião foi a surpresa que saltou e me fez ver
Naquela estrada deserta a visão de quem não vê.

13.
A visão além do alcance somente ao cego há de vir.
A luz dos olhos acende o prazer de se iludir.
A mentira e a verdade se casaram pra fingir
E seus filhinhos herdaram as feições do confundir.  

14.
Foi justamente esse tema que afundou meus pés no chão:
Nem pra frente nem pra trás, batestaca o coração.
É de casa ou é de fora, essa estranha aparição?
Fecho os olhos e escuto mão amolando facão.

15.
Aperto os olhos mais fundo e levo as mãos ao pescoço.
– Vão sangrar minha esperança de ficar velha, seu moço?
– Se não era uma emboscada, fica fria, que alvoroço!
Era apenas a lambida do pensamento no osso. Ouço.

16.
Aos poucos fui desmanchando a pose aterrorizada.
Alternei os pés no chão e caí na gargalhada.
Os palhaços me cercaram e eu virei mulher barbada.
O mágico tirou a barba sem nenhuma navalhada.

17.
Quem disse que em tela dos outros não se mete la couleur?
O mágico, ateu do ditado, ante mim virou danceur.
Daí eu já era outra, um pouquinho mais meilleur.
A domadora das feras com chicote et sans rancoeur.

18.
A mascar chiclete bem alto, tirando a calcinha da bunda,
Fingindo ser dona das feras e do Olimpo oriunda…
… Cansei da jaula e montei na minha própria calunga
E num segundo pousei na superfície profunda.

19.
O picadeiro na Strada era caminho e lugar.
Andarilhos, residentes, gente e bicho a conversar.
Onça pintando perigos, gavião riscando o ar,
Preguiça engolindo saliva com preguiça de buscar.

20.
Era tanta coisa que eu via que nem dava pra saber
Se era real ou encantada a beleza do prazer.
Eu era tudo o que eu tinha e tinha tudo pra ser
O que o desejo quisesse que nem soubesse dizer.

21.
Subi de novo nas asas de um pensamento infiel.
De volta ao futuro dos vivos: um presente tão cruel.
Passei o passado a limpo, mas só matei cascavel.
Dei várias voltas ao mundo em cada lua de mel.

22.
Casei tantas vezes quanto as artistas de cinema.
Casavam e se arrependiam: cada galã!!! que dilema,
Escolher apenas um, jogando os outros no Senna,
ops na cena!
Quem iria recusar rimas raras num poema?   

23.
Não importava quem fosse o belo protagonista.
O mais famoso, o mais rico, o herói, o grande artista.
Sempre havia um mais tesudo, menos mudo, equilibrista.
Entre o homem e a mulher, uma criança se avista.

24.
Um anão apareceu trazendo Macunaíma;
Gigantes-pernas-de-pau andando pra baixo e pra cima.
A ninfa Eco gritava somente as letras da rima:
Das frases que não falava, escoava a sua estima.

25.
Nunca estive nesse conto… mas passava aqui todo dia.
Estranho a estranheza do espanto: é tristeza ou alegria?
Uma saudade aparece Nua! Tesuda! Vadia!
Saudade das que maltrata e mata nas covaRRRdia.

26.
Estou dormindo sonhando? Ou sonhando acordada?
Essa multidão de artistas fazendo palco de estrada…
Somente pra me alertar com essa pergunta malvada:
Por onde a arte caminha? É pela beiiiira do nada?

27.
Quem me olhasse não veria esse íntimo alvoroço,
Andando sem data certa, sem endereço no bolso.
Ai quem me dera papai pra me pendurar no pescoço.
Ai quem me dera mamãe me desse do peito o almoço.

28.
Estou sozinha de novo oh sol inclemente do céu.
Quero fazer malabares nesse tal de mundaréu.
E as surfistinhas da noite? a andar de déu em déu?
Cadê a doida? Quem dava pra louca?
E eu sempre rrrrr-eu!

29.
De repente eu escuto esse raríssimo diálogo:
– Boa tarde, Cego Vivaldo, és de fato meu análogo.
– Boa tarde Lampião, te procurei ali no catálogo.
Esse encontro já estava escrito lá no decálogo.

30.
Esquentei dos pés à cabeça e fiquei toda arrepiada.
Se foi delírio esse encontro yo lo transmito medicada.
Se foi real, cai no mesmo, a fantasia é sagrada.
Irei contar por aí, mesmo sem prova nem nada.

31.
Solo sé que me volvi em direção à conversa,
Para ver com os próprios olhos que novidade era essa.
Disse assim assim com meu rirri*: – olha pra isso sem pressa.
Desliza bem nos detalhes, o inusitado atravessa.

32.
O detalhe foi the best que podia acontecer.
Eu via os dois e eles dois não demonstravam me ver.
Assim eu fui testemunha do mais louco entardecer.
Debaixo de um pé de estrelas armei rede pá escrever.

33.
Não pense qu’stou tão cansada a ponto de me omitir.
Saí de casa tão cedo e como foi duro partir.
Mas quando disse: – Já vou! Vim logo p’ra não desistir.
Agora cheguei nesse ponto: vou me enredar e transmitir.

34.
Quero seguir em silêncio, passo a passo, essa história,
Para botar  sic  ao lado de cada interlocutória
E para isso é preciso que não me falhe a memória.
Se eu conseguir, eu prometo pagar promessa na Glória.

P.S.   OH! Glóóóóória$$$$$!


Secondestation

isso é

de segunda mão

quero dizer

Brechou

ou então…

… de olho na coisa fora do costume…

Metodologia da tarde

1.
Como seguir em silêncio, se a história é barulhenta?
Muito barulho por tanto vou contar até quarenta.
Não quero Babar ali, já me fartei de água benta.
Corri pra roubar o verso que alegra e amamenta.

2.
O desejo abre as asas aos anjos das internetes.
São asas velozes do tempo, avohai marionetes!
Quem corre mais do que eu, pilotando patinetes?
Um pé lá e outro cá, num pescar d’olhos esqueces.

3.
Esqueces que te beijei? Que eu conheço teus segredos?
Esqueço a panela no fogo imaginando folguedos.
Moi crê nos improvisos e sente tremores sem medos:
Criança se vê na vitrine do mais cobiçado brinquedo.

4.
Sigo e persigo os mistérios, porqu’ eu sei que nada tem
Nem aqui nem acolá, nem nos olhos de alguém.
O beijo inventou a boca e o cafuné, foi meu bem.
Eu me mato todo dia, mas não morro por ninguém.

5.
Eu sou cega de nascença sem ser cega de verdade.
Cê entendeu o que eu disse? Nunca nego minha idade.
Eu só minto pra mim mesma, ess’ é minha vaidade!
Orgulhosa que nem faço concessão à novidade.

6.
Nada de novo, anjo bom, foi assim, coisa e tal.
Tal como era uma vez, outra vez desigual.
Se o pecado existe, e a escolha, a preguiça é capital.
Lembro de tudo que eu quero, só esqueço o principal.

7.
De repente, sem querer, vi dois pares de alpercatas.
Parecidas, paradinhas, frente a frente colocadas.
Andei com a luz do cinema… do chão às nuvens aladas.
O corte no olho do sonho acordou as mascaradas.

P.S. Flechei o foco e parei no perfil dos camaradas.

8.
Pareciam dois bonecos de cera de pano ou de pau
Parados no meio da cena antes do ponto final.
A imagem congelada e lá  ao fundo o milharal
Agitado pelo vento survivant et virtual.

9.
Vou mexer neles, nos bonecos, e fazer a cena voltar
Ao tempo em que o mudo cinema falava que ia falar.
Falaram aos quatro ventos que o mundo iria acabar!
Acabou-se hen, Borito**? Era o medo de avançar.

10.
Avançamos tanto que a cena ficou incompreensível.
Mas voltarei ao instante em que tudo era possível:
Lampião a passear descontraído, intangível,
Sem rifle, sem lenço e chapéu, sem nada de compatível.

11.
Por isso desconfiei… se estava mesmo acertando
A identidade do cara, sem cara de banda e de bando.
Mas apostei no disfarce, continuo procurando.
Se acho a máscara não tiro o rosto, nem confessando.

12.
Mana, Hermano, podem crer: o erro é um modo de ver.
Estou plugada e escuto rádio, virei nativa, fui de TV.
Abro a porta, abro os braços: Est-ce-que és tu ou você?
Lisboa paraibana, fiminino arômado prazer…

13.
A noite que tudo esconde é propícia aos canibais.
Ao dormir, sonho com anjos, não me vejo entre os mortais.
Beijo com avidez os lábios da minha paz.
Quando acordo, eu não acordo, eu atiço os animais.

14.
Eu dou asa à cobra, não sou deus.
Porém jamais! usaria as de cetim.
Viveria das sobras do apogeu
De quando eu era anjo-da-guarda para mim.

15.
Les choses, das ding, cabra safado.
Olhos de gata, gatas no telhado.
Cachorro solto meu dono está do lado.
Baby pássara fugiu com seu veado.

16.
Pelos muros do silêncio, uma boca se esfregava.
Mas um deus intrometido, por descuido suspirava
E o perfume do seu hálito fez dormir quem se agitava
E o perfume do seu hálito fez falar quem se calava. 

17.
Daí… disse o que bem quis e os que jamais foram falados.
Jamais nunca se diz nunca e jamais separados. 
“Or now or never”, he say, “maintenant ou jamais”,
tá ligado?
Quem não tiver medo da morte se
                                                       atire
                                                              dos

                                                                       7
                                                                                                         P
                                                                       e
                                                                           c
                                                                               a
                                                                                   d
                                                                                       o
                                                                                           s

18
Assim, pois, falou o truta***, mano a mano, desarmado.
Direto Plateia Via personagem-ressuscitado.
No lusco-fusco da dúvida, depressa foi para o lado
Que dava pras vistas do lago, o daquele espelho falado.

P.S. Falaram que viram Narciso, Si olhando-se pelado.

19.
Esse mundo é nadador e essa vida nada assim.
Dizem mato com os olhos e as paredes ouvem sim.
Não pretendo confundir o começo com o fim.
O fim começa onde acaba e recomeça tudim.

20.
Eu não consigo domar nenhuma concentração.
Jurei escutar conversa dos vultos vulgos do sertão:
Um d’eles desviveu como? E o outro? Não digo não.
Mas agora estão aqui diante da minha ilusão.

21.
Eu m’iludo trezumana, de coração na malícia.
Dou sol à pele que atrai os escravos da carícia.
Ganhei meus dotes de bruxa nos caminhos da Galícia,
Y ahora ya no sé transformar fúrio em notícia.

22.
Já passa das dezenove, só vejo as galáxias do céu.
O sol nem disse até logo, saiu à francesa, nem Kréu.
Foi visitar o oriente, é dele esse t’all mundaréu.
Enquanto eu     pedia na terra      ele ganhou foi o céu.

23.
Lampião esclarecia o que vim fazer aqui.
Vivaldo percebia e, pelos olhos de Zumbi,
Eles eram poliglotas! Simultânea, traduzi
Grego, Araimaco, Latim, Tupi, Yourubá, Guarani.

P.S. Pra Purtuguês de Portugal e Brasilêro Nordesty.

24.
A conversa se arrastava e depois criava tensão.
Nenhum dos dois pretendia esconder a condição
Que fazia deles dois precisarem de oração.
Nas frases jogavam dois tudo pelo sim e pelo não.

25.
Depois de muuuiiiiiiiita conversa, colhi o fruto maduro.
A partir desse momento, nenhum galho é seguro.
Se da morte a vida escapa, ness’ idade eu me aventuro.
“Al di lá delle stelle…”, ouvi cantar o pré-futuro.

P.S. Vivaldo e Lampião brincavam com um anuro.

26.
Um convidava o outro, eles queriam partir
Desde então nem sei p’ra donde, não fui capaz de ouvir.
Vou segui-los passo a passo, só não posso aplaudir
Em cena aberta o perigo é o ator se distrair…

27
… E perder a inocência que permite ele brincar
de ser um e depois outro e quantos puder carregar
Pelas sombras de las noches!.. ou sob um sol de xaxar.
O desastre é confundir onde fica o tal lugar.

28.
Yo me voy sin saber? Para onde irei? hei! vocês dois!!!! Esperem por mim, por Tupã! alcançá-los… hei… depois
Daquela curva onde a estrada se contorceu, mas não foi,
Não foi de dor, foi de risada, ria a estrada, pois, pois…

P.S. Cada vez que acompanhava as brincadeiras do boi.

29.
Fazendo xixi acocorada, avistei o cruzeiro do sul.
Eles foram por ali > D’eles, nem vejo o azul.
Esperei tanto eles dois… vou rezar pra Capitu,
Que adulterou sem saber, se soubesse dava o cu.

30.
Dar qualquer coisa é difícil? Peça ao rico para dar.
Tem camelo e orifício, agulha deixa passar?
Pegue um punhado de pedras sem nem sair do lugar.
Nem que o tesouro for o teu, pirata vai te pegar.

31
Amarcord… pipoca ou cigarro? Eis a questão DaDa.
Quem tem bunda… se vire com a lua. – Vai pisá?
Perguntou São Jorge. – Ou vai montá?
Perguntou seu cavalo querendo cavalgá.

32.
Só tu vendo como eu ri dos escrachos d’ Irakitã!
Sério. Imaginava boleros dançados por um titã.
Quero ver é de perto um disco voador de manhã.
Na hora do sol poente prefiro a percussão de Lan Lanh.

33.
Sedento do dito tem rio que só dá pa precipício.
O passarinho passou levando a semente do indício.
A pregação é diferente do sermão e do comício.
Aos ouvidos tudo igual na largura e no suplício.

P.S.  Une fois qui est donnée «c’est si bon » ao vício…
Dividir o bagulho é tipo tudo-bem-pra-começo-de-ofício.

34.
Essssssscorreguei pur’alísss com lábios-de-entra-e-sai.
Ouvi batidas nas portas que abri pr’os carai****!
“Estrada não tem porta”, riscou com a adaga, um samurai.
Lampião! Cadê o cego? Vivaldo! Arrivolta!  CARAI!!!!!!


Terceira Estação

Sobe e desce e sobe e desce e sobe e desce e sobe e desce e sobe e desce e sob

porém…

Só mente

Eu

diz o não nome!

Isso é tudo

ou

tudo isso passa

Teoria da noite

1.
Era mesmo qu’estar a ver o cinema chapliniando,
Musicado por Capiba e o futebol argumentando.
A pintura surrealista acertava mesmo errando.
Djanira, star na vista! e as cores orientando.

2.
Sorrindo subi o morro a procurar puro sambista.
Chorando vi quando Nasce o samba do Morre na pista.
Na subida vend’os olhos e na descida pago a vista,
Só me interessa cantar com voz de timbre hedonista.

3.
Sei bordar, pregar botão e conversar mundo afora.
A pedidos eu abri as janelas para Aurora .
Senhora me dê seu macho, só quero por uma hora.
Devolvo homem e desarmado com as costelas de fora.

4.
Bora contar cada uma e mostrar quantas terão.
Na nossa conta não falta costela no tronco de Adão.
Se apanhei pra nunca mais! dizer qualquer palavrão,
Quando disse: Paralelepípedo, esperei um caminhão…

5.
… Em vez disso eu ganhei a fantasia e o destaque.
Brinquei na rua e cantei, toquei surdo e atabaque.
Pulei pro bloco seguinte, levando meu badulaque.
Beijei palhaço, colombina e tudo que fosse de araque.

6.
Misturei joia e miçanga e escorreguei na fusão.
Só não caí para trás porque já estava no chão.
Porque já estava no chão, rolei na relva e então
Rodava Eros comigo… a gargalhar meu coração.

7.
Lá do chão eu avistava belo-céu-azul-de-anil.
Fiquei assim o mês inteiro, desde o primeiro de abril.
Tive tanta paciência, que até Jó armou fuzil.
Perguntaru se eu era baiana. Respondi: mais de dez mil.

8.
Porém depois foi me dannndo… um troço de tédio
tão tão danado,
Que deu amargo na boca do ouvido sintonizado.
Disse assim, assim de mim tipo meu eu cansado:
– Não estás vendo esse anil? há muito já está desbotado.”

9.
Nem dez botas de mil gatos, nem 1000 pulos de delfins;
Nem correndo do tarado, nem procissão de Merlins;
Nem avião ou navio, nem asas de Querubins
Vão me fazer alcançar aqueles dois nos confins.

10.
Cada um risca o seu norte, teme o seu-fraco-seu-forte,
E come na mão do consorte quando tem fome de morte.
Bebo eu na minha cuia, tenho amor e tenho sorte.
Dinheiro aparece assim, oh, é só puxar pelo po(r)te.

11.
Se aqueles dois estiverem passeando por aír
Conversando distraídos como estou sonhando aquir
Logo logo eu pego os dois bebendo e fazendo el xixir
Posso até balançar a vista só pra ver pingo cair
r
r
r
r
r

12.
Aqueles erres finais nos versos lá de cima
São firulas da garganta limando a matéria prima.
Gargareje aqueles erres ao estilo pantomima
E piche o nu nas vidraças sprayando a cor da rima.

13.
Nem o sábio rima à toa com rimas que dizem não.
É preciso muita bossa pra rimar barquinho e chão.
Cada vez que acendo vela aparece Lampião.
Maria Bonita me disse: – Lampião tem coração. 

14.
Lampião acendeu praça pro cego Vivaldo ler mão.
O eco visível no cego espalha o dom da razão.
O cego Vivaldo conecta os sinais da vibração:
E fica logo sabendo se naquela mão tem cifrão.

15.
Nisso passou a vizinha num rebolado rodriguiano.
Seis vezes pagando na valsa o reveillon daquele ano.
Estava tão bonitinha… a ordinária em seu plano
Que esbarrou com os dois olhos nesse cego froidiano.

P.S. Só deu N’UMA, num d’Eu n’OUTRA!

16.
Foi nela mesma, em Dorotéia, que a nudez foi consagrada.
A vida como ela é só precisa ser bancada.
Amar e ser feliz, ao mesmo tempo? arre danada!
Princesa que já foi plebeia sabe de um tudo e do nada.

17.
Sabe tudo… esse Anjo Negro: um tanto assim de segredo.
Joga no só e dá brinquedo: sabe onde está o sossego.
Vive de sonho e aconchego. De tudo!!! cria um enredo.
Não sua, nem treme: de medo.

P.S. Caiu do céu muito cedo!

18.
Essa mulher sem pecados tem namorada e namorado.
Sua mãe é falecida, dela só guarda um retrato.
No seu álbum de família mamy sorri com recato:
A mão da mãe no decote de um pulsar inconformato.

19.
O pai da moça comprara um Vestido de Noiva pra’i ela.
A moça de véu e grinalda atravessou a passarela,
No Aterro do Flamengo, só para ver a primavera.
Mas, no meio do trajeto, espiou pela janela…

P.S. …E viu o beijo no asfalto: era mudança de era.

20.
Onde eu deixei o cego? Onde estás oh Lampião?
O mar é perto daqui? Ou mais longe que o Japão?
Deixei Vivaldo sumir pensando naquela paixão.
Perdi Virgulino de vista vendo as aves d’ arribação.

21.
Olha só! quem vejo ali: en-cos-ta-dos-na-pa-re-de???
Parece que são os dois tentando matar a sede.
Vou me hospedar nesse hotel e cair naquela reeeeeede:
Aquele terraço vê tudo, até onde um cara foi meide.

22.
Não posso me distrair mais uma vez, vejam só:
Se eu perco de vista eles dois, mais uma vez, tenham dó!
Dó ré mi  uni duni tê   Aposto que vão pro forró.
No pé da serra tem coquista, tem zabumba e tem xodó.

PS
E tem mais:

23.
Vivaldo cega mais nítido quando afina sua rabeca.
Um Lampião distraído deixou cair a boneca:
– O rabequeiro foi p’a escola? Vê que pergunta indiscreta. 
Deu calado como resposta. Tinha uma senha secreta:

P.S. O cego arregalou a pergunta pra rabeca.

24.
A rabeca respondeu com o toque do arco nas cordas.
O cego aceso de arte, subiu ao palco nas costas
Dos fãs e tietes aos gritos e pegou a dar mil voltas
Nas escalas musicais, com a voz e a rabeca loucas…

25
De tudo quanto era modo o cego falava de amor:
O amor do cego era cego como é cego todo amor;
Cada amor se reconhece e se admira no amor…
… Estar de amor é só deixar o tempo gostar do amor.

27.
O cego cantando dizia, o cego parece que via.
Quanto mais ele rimava mais plateia aparecia
De todo lado que tinha vinha gente e a gente ria.
O cego enxergava tudo o que a plateia carecia.

28.
Lampião, perfumado, não saía do seu lado,
Cochichava ao cantador o sentimento encantado
Que animava a multidão ao ouvir seu rabecado.
Vivaldo quis saber quantos eram no gramado.

29.
É muito difícil contar um a um na multidão.
Mas ideia é que não falta e pra mostrar tem Lampião.
Maria Bonita me disse: – Virgolino tem razão.
Pra quê vigiar número em desarmada multidão?

30.
Pensei, com as ideias da arte, em cair de mão em mão…
… Até caí na conversa da cobra que enganou Adão.
Eu disse a Maria Bonita: Borito foi Lampião.
Ele te deu espingarda no dia que te viu no portão.

31.
Quem vai acreditar agora se eu disser que Lampião
Foi o primeiro afeminado masculino do sertão?
Os lenços de seda… e os anéis de prata… espia o ouro do cordão!
O danado customizou o chapéu d’ Napoleão.

32.
Assim foi naquela noite. Era um novo desafio:
Um Lampião desarmado acendia seu pavio
Enquanto Vivaldo cantava sob o seu próprio assobio
E nas cordas da rabeca, olha o arco em rodopio.

33.
O solo do cego er’ um bordado. E ousaria:
Seu desafio enfrentava era a arte da cantoria.
O poeta era o crítico da sua própria autoria.
De repente…
… Por este canto solista: qualquer um se mataria.

P.S.
E eu, no meio da multidão, fazendo etnografia.


Epílogo

O jogo das luzes

ou

 a peleja das lâmpadas com as estrelas.

Aconteceu naquela noite

01.
De repente, fui convidada a subir no palco do cego.
Vivaldo, o cantador? Enxerga até formiga no prego.
Como então adivinhou minha presença? Eu não nego:
Aquela noite inesquecível foi demais para o meu ergo. 

02.
Um furi-furi na multidão… vou fugir par’uma ocara.
Vou pegar o trem das onze na estação Jabaquara.
Neste instante mim viu eu pintada que nem uma arara.
Entrei na cena e cantei: tenho seiva Nhambiquara.

03.
Comecei a dizer versos para me apresentar.
Cantando disse meu nome e o que gosto de cantar;
Quem sou, de onde vim e quem desejo encantar.
Agradeci o convite e botei o cego no altar.

04.
Assim, no primeiro pé de verso, já driblei competição,
Como são os desafios dos repentistas do sertão.
A nossa peleja era outra: n’era nós dois contra nós, não.
Para nós o desafio era fazer louvação.

P.S. Uma onda de sussurros crescia da multidão…

05.
Ora! ninguém acreditava que pudesse acontecer
Uma peleja engraçada sem as armas do poder.
Ora, ora, vamos ver a graça que isso vai ter:
Nenhum dos dois vai ganhar, nenhum dos dois vai perder.

P.S. Arte não é esporte. Tem outro jeito de ser.

06.
Semente de arte não vinga em solo competitivo.
Não dá folha, não dá fruto, nem sombra pra lenitivo.
Quem é da arte sente a dor do soco lá no umbigo
Quando o EGO se engrandece com a desgraça do “inimigo”.

P.S. Saber rimar não coincide ‘comigo versus contigo’.

07.
À multidão sugeri, com calma, sem alarido:
Levante a mão quem não quer ser no amor correspondido.
Todo mundo olhou pro céu e, pra si mesmo, escondido.
Depois, virou-se pro lado… e se entregou iludido.

P.S. A esperança nunca deixa seu seguidor sem sentido.

08.
Um mar de gente… e as ondas sussurrantes saíam do coração:
Da mina que chorava – perdida – entre o trem e a estação;
Do motoboy que brincava de capacete na mão;
Do soldado emocionado perdendo de vista o ladrão.

BO. Vi até desassassino desamolando facão.

09.
As ondas quebravam no palco e escorriam pelo cu:
Da viúva que vestia sus recuerdos do baú;
De feios carecas de chifres: Todos pós-Capitu;
Da prostituta elegante montada na Grife DASPU.

10.
A cantoria saudava a negra no ministério
Pra desvendar o racismo e acabar com esse mistério
De um país tão cordial só ter branco no ministério.
Somente o preto no branco para escrever BRASIL(s)ério!

PS. Zumbi Abdias Pixinguinha têm medida e têm critério.

BO. O rap mostra onde está quem é quem no cemitério.

10.
Já tem muita ideia contrária em desafio constante.
Não carece de disputa onde se lê Safo e Dante.
A teoria de Darwin não pega em bicho falante,
Nem mulher é retirante de uma custela homilhante.

11.
Vi Mandela com Gandi, bem ali! Oh! na Praça da Concórdia.
Vi Francisco com Jesus tramando misericórdia,
Vi Lennon benzendo hipongos com sete raminhos de córdia,
Vi Tereza de Calcutá ensinando evitar discórdia.

12.
O cego Vivaldo sorria e cutucava Lampião.
Lampião compreendia e falava: “É nós”. Então
Eu vi assim de bem pertinho Jovelina e Jamelão,
Duck, Sarah, Elza e Ella a fazer improvisação.

13.
Madona – mia!!! – uma gata… que geme feito ema:
No Juremá, na França de Flaubert ou debaixo da Jurema.
Lady Gaga, no barco de Leide Lara, nas águas de Saquarema,
Infernizou tanto os paparazzi que eles voltaram pra Ipanema.

14.
Era mais de meia-noite e ninguém arredava Dali.
Nem um casal com sete filhos oriundos do Piauí.
Uma velha enfeitada: brincos, anéis, colares de rubi;
Uma turma de ninfetas descendentes dos Guarani.

15.
Enfermeiros, arquitetos, médicas e dentistas;
Jogadores de futebol, psicanalistas e tenistas;
Cozinheiros e copeiras, feirantes e eletricistas;
Políticos e garis, advogadas e floristas.

16.
Quem seria aquele moço na cadeira de rodas cantando?
Tanta gente de muleta, de bengala e se alegrando.
Crianças correndo a brincar e adolescentes ficando.
Só não vi naquela noite um só vivente chorando.

17.
Impossível descrever os excêntricos ali:
Tinha alguém fantasiado de pirata Bacardi;
Um Homem Aranha subindo no tronco da Mucuri;
Chacrinha compareceu com apito e abacaxi.

18.
O evento parecia um baile de carnaval:
Papangus eletrizados, um rei momo glacial;
Harry Potter, Peter Pan e uma bruxa genial;
Lady Godiva no Pégaso e Frinéia no original.

19.
Os ambulantes venderam, tranquilos, sem gritarias,
todo o estoque que tinham de suas mercadorias:
Bebidas pra refrescar, ou provocar euforias;
Leite, chá, café ou mate pra acompanhar as iguarias.     

20.
– Pipoca, cachorro quente, rabanada e alfenim.
– Picolé, algodão doce, maçã do amor e quindim.
– Sorvete, ponche, refresco, suco de fruta, dindim.
Tinha uísque licor e fódica, tudo tim tim por tim tim.

21.
Foi esse o rolé que eu dei de olho no coração…
… E o coração na boca… só namorando canção.
Não escapamos do bis: a vida é repetição.
Mas… cada bizzzzz é diferente, repara na emoção!

22.
Os aplausos foram loucos, calorosos e até
Só não aplaudiram de pé, porque já estavam de pé.
Falei pé? Quedei numas meninas a brincar de Finca-pé,
Obstinadas num jogo de expressões com o nome ‘pé’.

23.
Ganhava o jogo quem saltasse com o pé direito na tábua
E, num pé só, chutasse o vento e emparelhasse com o pé d’ água.
Nenhuma maneca daquelas julgou que a tarefa era árdua,
Mesmo sabendo que ainda teriam de cantar sua mágua.

24.
Pois então, ainda não disse, a tarefa consistia
Em pescar, na pose do Saci, com presteza e valentia
Palavras e expressões que tinham ‘pé’ na grafia.  
Fiquei pasma admirando aquela estranha pescaria.

25.
A primeira jogou o anzol sem o sinal da largada.
Mas não houve anulação, este item não constava
Na regra do jogo inventado. Atenção na sua jogada:
“Se dá pé, ninguém se afoga”, pescou um dito, a danada.

26.
Quando vimos, a segunda já havia disparado:
– Pé de cabra, pé de vento, pé de mesa, pé de mato;
Pé na porta, pé na bunda, pé na tábua, pé de pato.
Me dá o pé meu louro que eu te dou o meu sapato.

27.
– Não vou perder o pé (Disse a baixinha).
A nerd tomou os pés pelas mãos e, tadinha,
Jurou de pés juntos que não tira o pé da linha.
A vaidosa confessou não ter olhos pra pés-de-galinha.

28.
Olhando de onde eu olhava meu ponto de vista era belo:
Um jardim de pés de moças com talos de pernas al cielo,
Ímpares, os membros sustentavam a ilusão de um castelo
De cartas, de areia, de vento, de sonhos, de luas de mielo.

29.
Pé-de-chinelo, pé de guerra,  pé quebrado.
Enfiar o pé na jaca, em pé de igualdade, pé trocado.
Botar o pé no mundo c’os pés nas costas, pés d’ pecado.
Tem pé quente? Fica no pé de quem por tuas mãos foi coroado.

30.
Pé ante pé, enfiei o pé, apertei o passo.
A multidão vai dispersa e eu seguirei seu compasso.
Sairei à francesa como manda o figuraço.
Para rimar eu fuço tudo quando o sinônimo é escasso.

31.
Nisso que eu ia passando, eu ouvi esse cochicho:
– Sofre que só pé de cego, quem acredita em fuxico.
– Ela já estava com os dois pés na cova por capricho!.
Conversa de duas beatas com os pés fincados no lixo.

32.
Uns cariocas passaram dizendo que tinham prova.
Por isso a boca no trombone quando souberam da nova:
Disseram que viram João Gilberto, dando na ópera uma sova,
Tocando e cantando sem fossa. Tão falando em bossa nova.

P.S. Línguas ferinas sopravam línguas de fogo e de cobra. 

34.
Cadê aqueles dois? Nem fui vê-los no camarim.
Era tanta gente vip de pulseirinha e trancelim.
Cansada, fui rangar no hangar do Zepelim
Voltarei voando pra casa cantando feito um vim-vim.

35.
Em vez disso fui m’imbora béradêra pela estrada.
Vou escrever tudo isso assim que chegar em casa.
Mas agora ainda tenho que andar mui disfarçada
Na minha própria esperança, através da madrugada.


Apílogo

Isso é

Lagos de mel

ou

mel nos lábios do fim

and

a coda não é o end

Ecos na madrugada

I
Irei contar o que eu vi vestida com a saia de pálpebras:
O mundo se abrindo e fechando, nem precisava de mágica;
O povo do mundo chegando, com coisas da terra e da fábrica.
Para tudo decifrar, foi preciso estudar álgebra.

II
Lampião levou o Cego Vivaldo p’ra ver o mar.
Eu não vejo muito bem, mas enxergo o que não há.
Eu vi com aqueles olhos que a terra nos dá de olhar.
Vi o que ninguém viu e nunca jamais advirá.

III
Eu vi os dois bem ali nas belas dunas de areias.
Lampião, para o cego rir, se montava nas baleias.
Vivaldo chamou Caymmi e tocaram às pareias.
Caymmi chamou Jussara e foi música nas veias.

P.S. Para combinar com a saia de pálpebras…
… vesti a blusa das sereias.

IV
Eu vi: Um mar de gente em silêncio…
E na rabeca, Vivaldo a navegar…
Eu vi: Lampião deu ao Cego a luz das velas do mar.
Eu vi: O Cego mostrar a paz que Lampião deu de sonhar.

V
O mar batia nas pedras e em mim batiam as horas.
Lampião fugiu pra casar e Vivaldo foi embora
P’ras bandas de só-sei-quando onde quem canta não chora.
Ora, ora, bora, bora. Olha a Hora!!!!

VI
Eu jamais esquecerei aquele dia ensolarado.
O verão queimando as horas: nem futuro nem passado.
O presente era o mar, onde o tempo mergulhado
Brincava de se mostrar, entre as ondas, disfarçado.

VII
Para quem quisesse olhar, o tempo lhe mostraria
O fim dos tempos e o começo, no presente que morria
A cada segundo que passa, da meia noite ao meio dia. 
Para quem ignorava, o tempo nem se mexia.

VIII
Posso não ver muito bem, mas enxergo o que eu quero:
Os sonhos do meu amor, a alma de um bolero,
A bossa na minha dor. Sem o rock desespero.
Só não vejo como alcançar o tempo que nunca espero.

Notas
* Borito: Bonito 
** Rirri: Fecho-éclair ou zíper
*** Truta: Gíria do rap
****Carai: Gíria do rap


As Árvores

As árvores sabem que estamos de passagem, que não viemos para ficar. Esperam e observam nosso movimento. Elas se movimentam com o vento, com o ruído dos animais, todos de passagem. Observam e presenciam a morte de suas irmãs, que são carregadas em caminhões para serem transformadas em revistas, em móveis, em casas. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Foto: Harmon Rapp

…que depois da morte cada árvore é um deus que ampara as
árvores.

Verso de “Um forasteiro”, poema de Jorge Luis Borges


As árvores sabem que estamos de passagem, que não viemos para ficar. Esperam e observam nosso movimento. Elas se movimentam com o vento, com o ruído dos animais, todos de passagem. Observam e presenciam a morte de suas irmãs, que são carregadas em caminhões para serem transformadas em revistas, em móveis, em casas. Quando uma árvore tomba ela deixa uma presença que ampara as outras árvores. Estão em toda parte, muitas delas latentes, aguardando para despertar num mundo novo, melhor, sem homens ou suas sombras. Estão em contato com outros mundos, outros planetas, outros povos. As árvores são a escrita de deus, sua caligrafia. Seus frutos são sagrados, objetos imantados. Cada um deles traz oito verdades e sete caminhos mas nós os devoramos aos milhares, sem pudor. Varremos com nossa voracidade milhões de frutos sagrados de árvores sagradas e nem mesmo o sabemos, ignorantes que somos. Mas estamos de passagem.

As árvores sabem que nossa literatura não perdurará. Suas raízes estão por todo o planeta, aprofundando-se rumo ao núcleo. Elas se alimentarão desse calor e migrarão no fim de tudo, através do vácuo. Vêm de longe, muito longe, descobriram a paz e acabaram a fome entre os seus antes de nós. Morrem e transmitem a mensagem e não perecerão. Foram os primeiros e serão os últimos a serem chamados, e atenderão. Muito antes nossa história terá sido apagada e nossas ruínas serão alimento de suas mitologias. São sonhadoras e ternas e não exercem poder. Lembram de nós nas suas longas preces porque sabem que estamos de passagem, porque se sentem responsáveis. Comemos os seus frutos e elas esperam que algo nos seja perdoado. Há de fato, uma grande dor no mundo pela nossa presença. Mas estamos de passagem. As árvores o sabem.


O lutador

Mesmo quando cala ou silencia, o homem não pode impedir que a linguagem faça dele um lutador para o qual o próprio acontecimento dos seres em geral se manifesta como um ringue. A linguagem abarca a totalidade da nossa experiência porque instaura a própria experiência da totalidade das coisas que são. O lutador já sempre se pronunciou sobre o mundo em sua totalidade. [Texto de Rodrigo Ribeiro]

Texto de Rodrigo Ribeiro


A Revista Kuruma’tá segura a cadência da poesia e traz uma colaboração preciosa do carioca Rodrigo Ribeiro, sobre o poema O lutador, do mineiro de Itabira Carlos Drummond de Andrade. Rodrigo Ribeiro também luta com palavras como professor e pesquisador do Departamento de Filosofia da UNIRIO e do Programa de Pós-graduação em Filosofia da UFRN. É autor de “Alienações do Mundo: uma interpretação da obra de Hannah Arendt” e outros trabalhos com ênfase em Filosofia Contemporânea.

Fonte: Arquivo Nacional / Wikipédia

Os versos do poema “O Lutador” de Carlos Drummond de Andrade nos falam sobre uma luta travada “com palavras”, ou seja, no seio da linguagem. Leiamos o poema:

Lutar com palavras 
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento 
num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça. 

Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.

Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado, 
sem roteiro de unha 
ou marca de dente
nessa pele clara. 
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.

Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo, 
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.

Iludo-me às vezes,
pressinto que a entrega
se consumará.
Já vejo palavras
em coro submisso,
esta me ofertando
seu velho calor,
aquela sua glória
feita de mistério,
outra seu desdém,
outra seu ciúme,
e um sapiente amor
me ensina a fruir
de cada palavra
a essência captada,
o sutil queixume.
Mas ai! é o instante
de entreabrir os olhos:
entre beijo e boca, 
tudo se evapora.

O ciclo do dia
ora se conclui
e o inútil duelo
jamais se resolve. 
O teu rosto belo,
ó palavra, esplende
na curva da noite
que toda me envolve. 
Tamanha paixão
e nenhum pecúlio.
Cerradas as portas,
a luta prossegue
nas ruas do sono.


O poema nos fala de uma luta “vã” porque “jamais se resolve”. Essa luta possui o caráter de uma irresolução que se inicia “mal rompe a manhã” e “prossegue nas ruas do sono”. Trata-se de um combate tão vão que não tem nem vencedor nem vencido. As palavras incitam ou provocam o combate. Mas quem é o lutador incitado? Quem já acorda tendo que aceitar a provocação desse combate e vai dormir ainda desafiado na urdidura dos sonhos? Quem é esse estranho lutador que, por mais que se arrisque, jamais será morto enquanto durar esse combate, visto que nele consiste toda a vitalidade de sua vida? O lutador somos nós. Nós quem? O que somos? Nada antes nem depois de lutarmos com as palavras. Até mesmo para sabermos quem ou o que somos já nos encontramos subitamente imersos e inseridos no combate com a linguagem. Como dizia o poeta Octávio Paz: “A palavra é o próprio homem. Somos feitos de palavras. Elas são nossa única realidade ou, pelo menos, o único testemunho de nossa realidade”. A luta para a qual somos continuamente desafiados é com as palavras e nunca contra elas, pois estaríamos lutando contra a nossa própria sombra. Mas que tipo de luta será essa? O que significará “lutar com palavras”? Será exclusividade do poeta? Será apenas o poeta o lutador? Estará na luta com as palavras apenas aquele que se dedica ao que Hölderlin chamou de “a mais inocente de todas as ocupações”? 

Sem dúvida, o poeta é um lutador exemplar, mas essa luta não está circunscrita apenas ao fazer poético, ou seja, um âmbito estritamente literário. Convido o leitor a enxergar nessa luta um sentido mais amplo, ou seja, o acontecimento da própria linguagem como aquilo sobre o qual se funda a presença dos homens no mundo, ou ainda, a luta poética que reside no seio do existir humano. Como diz Hölderlin, “poeticamente o homem habita esta terra”, a própria presença do homem no mundo está sempre em luta com as palavras e, assim, é poética, pois o existir humano acontece poeticamente, instaura-se a partir da luta com as palavras, ou seja, no seio da linguagem. “Mal rompe a manhã” e já estamos sempre inseridos em uma relação com nosso entorno através da linguagem.

A luta poética, portanto, ultrapassa o meramente literário e alcança a dimensão em que se funda a habitação humana no mundo, pois nessa luta se encontram unidas e tensionadas poesia e vida. A existência humana é poética porque mora na linguagem, porque a linguagem é a morada do mundo e porque o mundo é o ringue de uma ininterrupta luta com as palavras. A linguagem não é aqui apenas uma expressão oral ou escrita ou uma mera comunicação, mas a própria luta poética na e pela qual o mundo é conduzido à manifestação. Trazer e conduzir do encoberto para o desencobrimento é o que os gregos denominaram como poiesis, a produção, a criação (pro-ducere: levar, ducere, diante de, pro: conduzir ao ser o que ainda não era). É poético tudo que põe em obra ou opera o combate no qual acontece a luta pela abertura do mundo, uma interminável luta entre desencobrimento e encobrimento, uma luta para manter aberto e manifesto o mundo como morada dos homens. Trazer o mármore até a estátua, conduzir o som à glorificação musical, desencobrir a cor na pintura e conduzir a palavra ao poema são formas dessa luta poética posta em obra nas obras de arte. Mas em muitos outros campos da poiesis acontece essa luta por trazer (ducere) o aberto do mundo para diante (pro), sem, contudo, jamais obter uma abertura total e absoluta que eliminasse a própria luta e transformasse o mundo em mero palco rígido de coisas simplesmente dadas e disponíveis para a representação.    

O poema de Drummond nos fala da luta “com as palavras” e, assim, enfatiza a contenda com a linguagem. “Eis porque o mais perigoso dos bens, a linguagem, foi doado ao homem […]: para que testemunhe sobre aquilo que ele é”, diz Hölderlin. De início e na maioria das vezes, só lembramos expressamente da linguagem e das coisas que nos rodeiam como banalidades cotidianas que se compreendem por si mesmas. O acontecimento das coisas é demasiadamente trivial e familiar para ser imediatamente digno de nota. No mais das vezes, estamos satisfeitos em dizer muitas coisas sobre as coisas e em ter as coisas prontas para o uso diante de nós. Nem sempre satisfeitos com as coisas, mas sempre com tê-las “diante”. Tanto que a suposição de que as coisas possam não mais estar aí “diante de nós” provoca-nos a angústia diante da morte. Na imensa maioria das vezes, lutamos para saltarmos para fora dessa luta com as palavras. Mas sempre somos atingidos por sua força secreta, muitas vezes sem saber ao certo o que nos acontece. Dizer que “lutamos com palavras” e que somos “feitos de palavras” significa afirmar que a linguagem é nossa via de acesso ao mundo e ao pensamento. A linguagem (em sentido amplo, englobando língua, fala e palavra) é uma dimensão fundamental de nossa experiência que instaura e orienta os relacionamentos dos homens com eles próprios, com o mundo e com os outros. Lutamos com palavras para que o mundo configure sentido a ser apreendido e compartilhado pela linguagem. O lutador é um vivente que mantém e exerce sua vida numa luta com as palavras porque são elas que conferem unidade para a multiplicidade das coisas que nos rodeiam, demarcando valores e instaurando sentido, diferenciando e separando cada coisa em seu aspecto, em sua realidade, mostrando seu limite, determinação, nome. Lutamos com palavras porque somos rodeados por nomes que formam o limite e a realidade do que somos, do que nosso mundo é. É sempre a partir da luta com as palavras que se instaura um universo de sentido e compreensão no interior do qual as coisas vêm ao nosso encontro, propõem-se como isso e aquilo, manifestam-se em seus aspectos e determinações, valores e significações, identidade e diferença, etc. Ora, se a palavra é aquilo que deixa o mundo aparecer e se somos aquele que, para viver, precisam lutar com as palavras, então, isso significa dizer que o homem é o lutador, pois precisa estar encarnado em um mundo para viver. O mundo é sempre o ringue dessa luta diária por sentido e compreensão, orientação e valor no universo das realizações, no mundo dos usos e afazeres em que estamos sempre e a cada vez imersos e inseridos. Somente o lutador precisa estar presente no ringue do mundo para ser e se realizar, ou seja, somente o lutador, para vir a ser o que é, precisa dizer o ser das coisas e até mesmo o ser que ele próprio é. A pedra não precisa dizer para ser, os animais não precisam simbolizar a vida para viverem, a cadeira não precisa pensar na existência para existir, mas, para o lutador, viver é ter que dizer e elaborar a experiência com palavras na direção de significações jamais absolutas ou definitivas. Mas os demais seres, vivos e inanimados, não estão nessa luta? Eles não podem ser estranhos em suas próprias casas? Não estão todos os seres no ringue do mundo em sua totalidade ou a luta só ocorre naquele ser para o qual o próprio ser das coisas se abre na totalidade? A expressão “na totalidade” não significa apenas que, pela linguagem, o ringue no qual está inserida a luta com as palavras é quantitativamente maior e abrangente, mas, sobretudo, qualitativamente diferente do fenômeno vital. A origem e o sentido da abertura ao exterior que ocorre no animal, como simplesmente vivente, são inteiramente distintos da origem e do sentido da abertura para o mundo enquanto tal que se revela ou se desencobre ao homem. O animal se comporta em um ambiente, mas não em um mundo. Por exemplo, como ensina o famoso biólogo Jakob von Uexküll, quando alguém secciona o ventre de uma abelha e a coloca diante de uma porção de mel, seu instinto é o de sugar essa substância indefinidamente, pois não estando nunca cheia de mel, ela será cativa de seu instinto, das pulsões que a ligam ao seu ambiente de forma imediata. Outro exemplo: entre o mundo da aranha que tece sua teia de modo a torná-la invisível para pequenos insetos e a mosca que eventualmente cai presa dessa armadilha existem duas séries de acasos biológicos que se integram. A aranha nada sabe da mosca como tal; a mosca nada sabe da aranha como tal. Como diz Cassirer: “Entre o sistema receptor e o efetuador, que são encontrados em todas as espécies animais, observamos no homem um terceiro elo que podemos descrever como sistema simbólico. Essa nova aquisição transforma o conjunto da vida humana. Comparado aos outros animais, o homem não vive apenas em uma realidade mais ampla; vive, pode-se dizer, em uma nova dimensão de realidade”. Nessa nova dimensão simbólica, o mundo se manifesta como o ringue de uma luta com as palavras em nome de uma abertura de sentido e compreensão. Que a própria linguagem venha sendo determinada pela informação e operatividade técnica na comunicação já nos revela algo sobre nosso mundo atual. A mera troca de mensagens a serviço de tarefas predeterminadas torna indiscerníveis o homem, o animal, o organismo e a máquina, em nome da homogeneização, controle, funcionalização e operacionalização do real, reduzindo as relações entre homem e mundo às questões do trabalho, do consumo, das funções vegetativas, busca de certeza e segurança.

O homem é o lutador porque é “feito de palavras”, isto é, porque busca dizer o que as coisas são a fim de se pôr em acordo com elas, consigo mesmo e com os outros que também lutam com as palavras em nome de um mundo comum. Só a violência é muda e interrompe a luta com a palavra, pois o lutador se corresponde a um mundo compartilhável de coisas e significações no qual outros participam conosco. O mundo é o ringue dessa luta com as palavras porque os lutadores precisam de uma brecha para o aberto do mundo. A presença do homem no mundo se funda na palavra e pela palavra. “Nenhuma coisa existe onde a palavra falta”, diz um famoso verso de Stefan George. A linguagem faz imperar no homem um combativo pertencimento ao ser pela linguagem. Como ressalta Heidegger, “ainda que tivéssemos mil olhos e mil ouvidos, mil mãos e mil outros sentidos e órgãos, se, porém, a nossa essencialização não consistisse no poder da linguagem, permanecer-nos-ia fechado e vedado a realidade em seu todo: a realidade que nós mesmos somos, não menos do que a realidade que nós mesmos não somos”. As palavras não compõem um repertório de signos, regras gramaticais e sintaxe, mas sim algo que atravessa e domina o lutador em seu encontrar-se situado e lançado no ringue do mundo, aberto e exposto ao real como um todo. As palavras não podem ser encontradas dentro do mundo como coisas dentre outras, pois elas envolvem o lutador de tal modo que a luta se estabelece somente a partir de certa relação com a linguagem, organizando, orientando e definindo, de diferentes modos, a presença humana no mundo. É sempre no seio da linguagem ou a partir da luta com as palavras que o mundo e a presença do homem nele chegam a se manifestar, assumindo aspectos e determinações, identidades e diferenças, valores e significações, ordem e forma. Vê-se que o homem e as palavras estão tão um dentro do outro que perguntar pelo que é e para que serve a linguagem já sempre será perguntar sobre o que é e para que serve a própria existência humana e o que pode lhe conferir sentido, determinação e valor. Por isso dizia o poeta americano William Borroughs que a linguagem é um vírus, isto é, um vivente que vive quando se hospeda em outro (o homem). O homem existe como homem porque se hospeda na linguagem. Indagar o que são linguagem e realidade será sempre espantoso, visto que ao interrogá-las nos encontramos sempre já dentro delas e de tal modo constituído por elas que somos incluídos na própria interrogação. Esse movimento circular ocorre porque, investigando o que são linguagem e realidade, nunca nos sentimos seguros e apaziguados, visto que, ao contrário de todo aquietamento e asseguramento, esse questionamento será tanto mais significativo quanto mais não pudermos saber se somos os questionadores ou os questionados. Por isso dizia a poetiza Adélia Prado: “Quem entender a linguagem entende Deus/ cujo Filho é Verbo./ Morre quem entender./ A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,/ foi inventada para ser calada./ Em momentos de graça, infrequentíssimos,/ se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão./ Puro susto e terror”. 

Mesmo quando cala ou silencia, o homem não pode impedir que a linguagem faça dele um lutador para o qual o próprio acontecimento dos seres em geral se manifesta como um ringue. A linguagem abarca a totalidade da nossa experiência porque instaura a própria experiência da totalidade das coisas que são. O lutador já sempre se pronunciou sobre o mundo em sua totalidade. E isto não pelo fato dele falar expressamente sobre as coisas. Ser lutador já significa deixar as coisas em geral se manifestarem no seio da linguagem como isso e aquilo. Inserido na luta, ou seja, na abertura dessa correspondência ao mundo na e pela linguagem, o lutador não se acha no meio da natureza, ao lado das árvores, animais e coisas, pois ele não ocorre justaposto ao lado dos outros seres. A luta abre o acontecimento do próprio mundo como linguagem. Mas “totalidade” não quer dizer “totalização”, porque as palavras nunca excluem de si mesmas o inefável, o dito nunca exclui de si o não-dito e o indizível. Por isso as palavras “deslizam, perpassam levíssimas” e parecem “virar o rosto” para o poeta. Por isso a luta “parece sem fruto”, uma “caça ao vento” e as palavras parecem não ter “carne e sangue”, a cada dia “tudo se evapora” e a entrega nunca se consuma. Como diz Octavio Paz, “em um mundo regido pela lógica do mercado (…), pela lógica da eficácia, a poesia é uma atividade de rendimento nulo”. É que o poeta renuncia à posse absoluta da palavra. Essa renúncia decorre da condição de ser um lutador, isto é, sempre um estanho em sua própria casa. Como diz Octavio Paz: “o que caracteriza o poema é sua necessária dependência da palavra tanto como sua luta por transcendê-la”. O poema faz ver como a própria linguagem é uma luta ambígua. No uso corrente, as palavras são usadas e abusadas em suas funções comunicacionais. Mas, quando a linguagem aparece na poesia, as palavras deixam de ser ferramentas ao nosso dispor, prontas para o mero uso. Na luta poética, como diz Drummond, “as palavras serão servas de estranha majestade”. 

A luta é tanto mais poética ou criadora quanto mais nasce e se frutifica sempre a partir e em torno do inefável e do inesgotável. Todo palavrório transmissor não pode não dizer, pois pretende neutralizar a luta com as palavras. Mas a luta do poeta é sempre um dizer que nunca diz de uma vez por todas. O dizer que não pode não dizer é um dizer informativo em busca da objetividade do que nós mesmos não somos. Um dizer que não pode não dizer não consegue abandonar, ocultar, deixar e esquecer nada. É um dizer que anula a luta ao pretender intransitoriedade absoluta. É um dizer que não admite obscuridade, opacidade, contradição, ambivalência, o insondável, a experiência inexaurível, a incerteza, nenhuma contenda. Como diz Octavio Paz: “A palavra poética jamais é completamente deste mundo: sempre nos leva mais além, a outras terras, a outros céus, a outras verdades. A poesia parece escapar à lei de gravidade da história porque sua palavra nunca é inteiramente histórica. A imagem nunca quer dizer isto ou aquilo. Sucede justamente o contrário, como já se viu: a imagem diz isto e aquilo ao mesmo tempo. E mais ainda: isto é aquilo”. O “não” do “não dizer” poético não é, porém, algo negativo e faltoso, mas sim positivamente doador e inesgotável. É o “não” que jamais busca ser superado, resolvido, eliminado, mas, única e somente, preservado. Trata-se de um “não” vital, o “não” irreprimível da vida, esse que possibilita que a vida nunca deixe de seguir vivendo. Esse “não” é o sendo do ser, o que faz do ser um verbo e a infinição de um gerúndio: o andando do andar, o escrevendo do escrever, o aprendendo do aprender, o pensando do pensar, etc. A luta interminável com as palavras torna o poeta um estranho no lugar em que já sempre habita. Por isso, lutar com palavras é sempre um embate desconstrutivo com o já dito. Desconstruir não é destruir. É desfazer as construções, os hábitos de pensamento, sondando-lhes de onde eles puderam se constituir. Esse estranho trabalho de arquiteto, de desconstruir para habitar um aberto é o que caracteriza a tarefa filosófica tanto quanto a atividade poética. O filósofo e o poeta são lutadores exemplares porque são desabituados, comportam-se como estranhos no lugar em que habitam. Lutar com palavras é desconstruir o já dito e sabido e fazer aparecer o caráter sempre aberto e inexaurível da linguagem. A luta com as palavras apreende a vitalidade da vida em todas as suas formas, em todos os limites, em todas as configurações e modos. Lutar com palavras é se corresponder à vitalidade da vida.

Por mais estranha, marginal e curiosa que seja a sua circunstância, sua estadia e morada, o lutador não consegue se desconectar e se desprender da irrupção, da abertura ou da descoberta das coisas na linguagem. Como indaga Octavio Paz: “Se o homem é um ser que não é mas que está sendo, um ser que nunca acaba de ser, não é um ser de desejos tanto quanto um desejo de ser?” A linguagem atravessa, domina e reivindica de modo fundamental o lutador em seu combate com a totalidade, esta contenda que, continuamente e em qualquer situação, é necessariamente empreendida. “Luto todo o tempo”… Essa luta pelo pertencimento ao mundo por meio da linguagem faz com que o lutador nunca esteja no ringue como dentro de um universo meramente físico, pois o embate o coloca imerso e inserido em um universo simbólico. A luta com as palavras insere o lutador em uma ordem de existência que não é simplesmente natural (física e biológica), pois a linguagem converte o seu entorno de mero “meio biofísico” em mundo. Cassirer afirma que “a realidade física parece recuar em proporção ao avanço da atividade simbólica do homem. Em vez de lidar com as próprias coisas o homem está, de certo modo, conversando constantemente consigo mesmo. Envolveu-se de tal modo em formas linguísticas, imagens artísticas, símbolos míticos ou ritos religiosos que não consegue ver ou conhecer coisa alguma a não ser pela interposição desse meio artificial. (…) ‘O que perturba e assusta o homem’, disse Epíteto, “não são as coisas, mas suas opiniões e fantasias sobre as coisas”. A arte, a política e a filosofia são dimensões fundamentais dessa luta histórica com as palavras, essa constante contenda com a linguagem em nome da abertura do mundo. De tal modo que o poeta Hölderlin escreveu: “Muito experimentou o homem./Os celestiais muito nomeou,/Desde que somos uma conversa/E podemos ouvir uns aos outros”.     

Estar aberto ao mundo ou inserido nesse combate com as palavras exige do lutador ordenar o que lhe é dado no mundo, dirigir-se a algo de outro, estar sempre com um outro e ter que fazer com que esse outro se instale na palavra e se ofereça, assim, como símbolo de um mundo comum. É tão espantosa essa luta que nela se revela o quanto o lutador está nela porque quer, pois a necessidade da luta não lhe é imposta automaticamente, não lhe é imposta por constrangimentos naturais, como nos demais seres vivos. O suicídio é uma experiência possível somente para um vivente cuja vida é vivida na luta com as palavras. O lutador é tão impregnado pela linguagem que a luta ultrapassa a vida biológica e exige dele valores e significações que tornem a vida digna de ser vivida. Muito mais que exigências orgânicas e imperativos da espécie, o lutador precisa satisfazer exigências de linguagem para viver, exigências de pensamento, de orientação, de valorização e significação. Somente o lutador carece de viver a vida em conformidade com um mundo, ou seja, um universo de sentido e compreensão dentro do qual as coisas manifestem sua realidade e suas significações. Mais que ser-vivo, o homem precisa cuidar da vida na e pela linguagem. Cuidar diz cultivar e cultivo diz cultura (vinda do verbo latino colere, que significa cultivar, criar, tomar conta e cuidar). Uma cultura é um conjunto de práticas, comportamentos, ações e instituições pelas quais os homens se relacionam entre si e com a natureza em geral, agindo sobre ela ou através dela, modificando-a. Este conjunto funda a organização social, sua transformação e sua transmissão de geração a geração. Como diz os versos de Octávio Paz: “A palavra do homem/é filha da morte./Falamos porque somos/mortais: as palavras/não são signos, são anos./Ao dizer o que dizem/os nomes que dizemos/dizem tempo: nos dizem,/somos nomes do tempo./Conversar é humano”. A cultura que emerge da linguagem não é feita de signos, mas de anos porque não apenas nos entrega o que fomos e nos convida a ser o que somos, mas, sobretudo, responsabiliza-nos pelo que nos tornamos no tempo histórico das realizações. Nas artes, na política, na filosofia, na religião, nas ciências, pensamos e falamos em uma luta com as palavras instauradas ao longo de um processo de transformação histórica de mais de vinte e cinco séculos. É nessa luta que se demarca a força espiritual de uma cultura, a força que insufla ou sopra (spiritus) o sentido do real nas mais diversas realizações. Na luta com as palavras se cultiva valores, línguas, ritos, criam-se leis, instituições, demarcam-se aspectos e diferenças, unidades e relacionamentos. É tudo isso que constitui um mundo. A luta com as palavras deixa um mundo aparecer e tornar-se manifesto. Nessa luta emerge uma cultura ou uma experiência de pensamento no interior da qual instaura-se o ringue no aberto do mundo. 

Mas é preciso sempre ouvir a advertência intempestiva de Nietzsche aos “homens cultos” que se interessam pela cultura como “decoração ou adorno para a vida”: “O saber, consumido em excesso sem fome, sim, contra a necessidade, não atua mais como um agente transformador que impele para fora”. Portanto, o pensamento e a cultura são experiências fundamentais dessa luta com as palavras e, assim, não devem ser convertidos em meros objetos de estudo e consumo, isto é, como algo situado fora de nós, pois a cultura precisa ser o modo radical de ser e viver dos homens. Trata-se de uma luta porque a cultura não é algo pronto e acabado do qual podemos nos servir, e sim um estar exposto a um contínuo embate com o mundo, com os outros e consigo mesmo a partir de um universo de sentido, orientação e compreensão configurado historicamente no seio da linguagem. Nessa luta já estamos e nos movemos desde sempre. À intensidade com que somos atravessados e dominados por essa luta corresponde a raridade com que ela se nos apresenta enquanto tal. Só excepcionalmente nos voltamos propriamente para o mundo como lutadores, pois, no mais das vezes, só lembramos expressamente de nossa presença no ringue do mundo como algo que, para nós, compreende-se por si mesma. É por isso que o poeta é um lutador exemplar, ou seja, ele revela a luta enquanto luta. Como descreve J. Cocteau: “No instante de um relâmpago vemos um cachorro, uma carruagem, uma casa, pela primeira vez. Tudo o que oferecem de especial, de louco, de ridículo, de belo nos abate. Imediatamente após, o hábito apaga essa poderosa imagem com sua borracha. Fazemos festa ao cachorro, paramos a carruagem, habitamos a casa. Não os vemos mais. Eis o papel da poesia. Ela desvela, com toda a força do termo. Ela mostra nuas, sob uma luz que sacode o torpor, as coisas surpreendentes que nos circundam e que nossos sentidos registram mecanicamente”. De modo usual, a palavras são constantemente empregadas como moedas gastas que passam de mão em mão no nivelamento do uso corrente. Dizemos muitas coisas sobre todos os assuntos, muito por conta daquilo que se diz, como se passássemos cheques sem fundo de uma conta corrente cujo extrato nunca lemos. De início e na maioria das vezes, dispomos da linguagem como de um crédito concedido pela coletividade em que vivemos. De início e na maioria das vezes, vivemos como um autômato das palavras. Tudo aquilo que dizemos com uma palavra-moeda não é resultado de uma luta com as palavras, mas de um empenho de apaziguamento e de pacificação desse combate. Empenho nunca acabado, pois, paradoxalmente, não é exterior ao próprio combate e sim já é um modo de configuração da própria contenda com a linguagem. Lutamos com palavras também porque, de início e necessariamente, nós as herdamos como coisas dadas que se esforçam por colocar tudo e todos confortavelmente fora de combate. Mas não há nada para além ou para aquém dessa luta. Fugindo dessa luta originária resta a aglomeração entediante de coisas, onde já não se instaura nenhum mundo. De início e na maioria das vezes, o combate não se nos apresenta como combate, pois, como autômatos das palavras, vivemos na plena satisfação da existência dada. Só homens muito estranhos e combativos, tais como os poetas e os pensadores, de tempos em tempos, dão-se o trabalho de assumirem a luta com as palavras enquanto luta. Na luta com as palavras está posta em causa a coragem de pôr em questão a própria segurança e fiabilidade das “coisas”, pois todo peso parece desaparecer das coisas e se obscurece todo o sentido imediato. As coisas se transfiguram e parecem nos rodear pela vez primeira, como se antes nos fosse possível perceber-lhes mais a ausência do que a presença. Na luta poética do poeta, somos atingidos pela presença essencial das coisas. Por isso diz Heidegger: “o poeta fala sempre como se o ente se exprimisse e fosse interpelado pela vez primeira. No poetar do poeta, como no pensar do filósofo de tal sorte se instaura um mundo que qualquer coisa seja uma árvore, uma montanha, uma casa, o gorjear de um pássaro, perde toda monotonia e vulgaridade”. A poesia restitui ao mundo o seu peso ou a sua gravidade. O poeta mostra que “a linguagem é a casa do ser. Em seu abrigo habita o homem. Os pensadores e poetas são os guardiões desse abrigo”, como diz Heidegger. A luta com palavras mantém o mundo vivo. De tal modo que, para ser um autêntico lutador, não basta tomar conhecimento de algo, pois, como dizia um antigo professor-lutador, tomar conhecimento é uma capacidade que nos permite dispensarmo-nos de sermos o que conhecemos, arrancando do pensamento sua vitalidade. Em latim, arrancar se diz ab-strahere e arrancado ab-stractum. Para arrancar-se da alternativa de vida e morte, o conhecimento se torna abstrato. Abstrato quer dizer, em primeiro lugar e antes de tudo, fora da possibilidade de morrer e viver para poder estar todo dentro da segurança do poder. O ideal de todo “homem culto” é conhecer sem ser. Neste sentido, o conhecimento da cultura como fim em si mesmo visa a conhecer o amor sem amar, conhecer a vida sem viver, a morte sem morrer, conhecer a meditação sem meditar, conhecer o pensamento sem pensar, conhecer as palavras sem lutar com as palavras, conhecer a luta sem nela entrar, tomar conhecimento da luta sem ser um lutador.


Amoroso

Temos hoje o privilégio de publicar esse grande poeta que é o Nonato Gurgel. Ele nos enviou um poema que a gente pode até dizer que é inédito, pois teve uma versão publicada somente na sua página naquela rede social.
Um poema porque João morreu. Um poema que responde, provoca e atiça. [Poema de Nonato Gurgel]

Temos hoje o privilégio de publicar esse grande poeta que é o Nonato Gurgel. Ele nos enviou um poema que a gente pode até dizer que é inédito, pois teve uma versão publicada somente na sua página naquela rede social.

Um poema porque João morreu. Um poema que responde, provoca e atiça.

E antes do poema queremos aqui dizer que, além de poeta, Nonato é acadêmico, professor universitário, versado em letras e literaturas. Escreveu o trabalho Luvas na Marginália, sobre a poética de Ana Cristina Cesar. Isso pra deixar claro o papel e importância da Universidade Pública!

Poema de Nonato Gurgel


Para João Batista Morais e Ana Paula Cruz

I
Uma pessoa conhecida
não distingue entre cantar, encantar e inventar um jeito de cantar
Uma pessoa conhecida
não reconhece, na diferença, as linhagens anti musicais, desafinadas, oba-lá-lá
Uma pessoa conhecida
não tem ouvidos ‘privilegiados’, não depura o silêncio, o canto zen, undiú

II
Uma pessoa conhecida
não vê ‘coisas que só o coração’: menos pode ser mais amoroso em várias línguas
Uma pessoa conhecida
não ouve na base da ‘nota só, bim bom, precisa’, o samba ‘vexame’, mistura de etnias
Uma pessoa conhecida
não segue a trilha desse ‘pouquinho de Brasil’ moderno que dá cria a cada geração

III
Uma pessoa conhecida
não gosta de chuva, nem gosta de sol, ‘vou te contar’
Uma pessoa conhecida
não ecoa a batida que afina o ouvido surdo do mundo
Uma pessoa conhecida
renega a voz anasalada do nordestino cheio de bossa

IV
Uma pessoa conhecida desconhece
que ‘melhor do que o silêncio só João’


Nós não usamos blecaute

Se tentarmos entrar, a ladainha será a mesma. Tem que ter dinheiro para reservar uma mesa – diz o porteiro. Tem que se vestir direito – diz o gerente do puteiro. Nenhum a mais, nenhum a menos, o convescote está sempre regado. Apesar de esnobe e insultuoso, acredita manter-se petulantemente sigiloso. [Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota


Você gostaria de entrar, mas ninguém o convidou.

Ainda assim, notou que a festa lá dentro é um farto banquete. Ranja os dentes: você vai ficar aqui do lado de fora com a gente. Vamos aguçar as fossas nasais para sentir o cheiro das sobras nos pratos dos comensais. Vamos empurrar ouvido adentro a cera acumulada e escutar apenas os graves de conversas emuladas. Nenhuma novidade. Vamos imaginar as mulheres de vestido longo e os homens, de fraque. Logo, logo o sol sorri. Eles não vão resistir.

Cairão num sono profundo.

Se tentarmos entrar, a ladainha será a mesma. Tem que ter dinheiro para reservar uma mesa – diz o porteiro. Tem que se vestir direito – diz o gerente do puteiro. Nenhum a  mais, nenhum a menos, o convescote está sempre regado. Apesar de esnobe e insultuoso, acredita manter-se petulantemente sigiloso. Por isso há blecautes nas janelas. Assim, os que estão lá dentro podem se refestelar à vontade. Ficam com o filé, rechaçam a moela.

Mal sabem eles sobre a revolução que começa a correr.

Fluímos ainda feito uma nascente, brotando devagar da terra, conquistando corações e mentes. Mal percebem eles, enquanto saciam suas ânsias, seus excessos, seus desejos. A gente identifica aquele fiapo de nervo preso entre os dentes. Afinal, a carne é fraca.

Peito, coxa, asa. A carne é muito fraca.

Foto: Boris Thaser

Gal Costa (1969) | Uma-obra prima que completa 50 anos

Minha relação com os discos começou muito cedo… não saberia dizer qual foi o primeiro que botei para girar na rádio vitrola Telefunken, que tínhamos em casa, mas lembro de ver várias vezes meu pai chegando do trabalho com um envelope debaixo do braço, do qual brotavam alguns discos… [Texto de Jorge LZ / Programa na Ponta da Agulha]

Texto de Jorge LZ / Programa na Ponta da Agulha


O primeiro álbum de Gal Costa completa 50 anos. Ela já tinha lançado, em 1967, o disco Domingo, mas esse era um LP dividido com Caetano Veloso. O “disco das plumas”, como ficou conhecido, foi gravado em 1968, mas lançado em 1969 e foi um impacto na minha cabeça de criança.

Minha relação com os discos começou muito cedo… não saberia dizer qual foi o primeiro que botei para girar na rádio vitrola Telefunken, que tínhamos em casa, mas lembro de ver várias vezes meu pai chegando do trabalho com um envelope debaixo do braço, do qual brotavam alguns discos… desde os compactos coloridos, que traziam historinhas infantis, até os long plays com as músicas que ele gostava de ouvir… Elis Regina, Sinatra, Tom Jobim, Jorge Ben, Beatles, Chico Buarque, Glenn Miller, Roberto Carlos, Nat King Cole… e por aí vai… para ele não importava muito o estilo, o negócio era a música ser boa, como costumava dizer. Essa foi uma das maiores heranças que recebi do velho Jorge: a capacidade de ter os ouvidos abertos para o mundo da música e para a música do mundo.

Eu tinha entre quatro anos de idade, quando uma noite meu pai chegou em casa, no dia de seu aniversário, com um de seus envelopes de discos… como sempre, corri para ver o que tinha ali e, entre eles, estava um que trazia na capa uma mulher de perfil e com plumas em volta do pescoço. Pedi para ouvir e já nos primeiros sons fiquei curioso… não conseguia identificar o que era aquilo, mas me remetia ao espaço sideral, coisa muito em voga no final dos anos 1960 por conta da conquista do espaço e da iminente chegada do homem na Lua… a partir daí entrava um órgão que tocava bem uma introdução bem comum na Jovem Guarda até a chegada de uma voz maravilhosa, que entoava “eu vou fazer uma canção pra ela, uma canção singela, brasileira, para lançar depois do carnaval…”… isso embalado por uma arranjo de cordas do maestro Rogério Duprat… a música é um verdadeiro achado e traz elementos românticos e psicodélicos, como um encontro de Roberto Carlos com Os Mutantes.

Gal Costa (1969) é uma obra importantíssima na história do tropicalismo e também da música popular brasileira. O disco deveria ser lançado em 1968, mas com a prisão de Caetano Veloso e Gilberto, a gravadora optou por segurar o disco e lançá-lo em um momento mais oportuno. Quando lançado, o disco trouxe uma nova oxigenação para o movimento, mesmo com suas principais vozes caladas pela ditadura militar. Gal acabou sendo nesse momento difícil a voz do tropicalismo e o fez com maestria. Essa obra prima reúne músicas brilhantes de compositores ligados ou não à Tropicália, que viraram clássicos do cancioneiro popular. É o caso da já citada “Não identificado”, de Caetano Veloso, “Saudosismo” e “Baby”, ambas de Caetano Veloso, “Divino, maravilhoso”, parceria de Caetano e Gilberto Gil, e “Que pena (ele já não gosta mais de mim)”, de Jorge Ben (sem Jor). 

Passeando pelo repertório, depois da abertura, temos “Sebastiana”, de Rossil Cavalcanti, um forró divertidíssimo, que já havia sido gravado antes (com destaque para as versões de Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga), ganhou uma roupagem roqueira e psicodélica, com participação de Gilberto Gil na guitarra e no vocal; “Lost in paradise”, de Caetano Veloso, é uma música bastante sofisticada e uma das primeiras letras do Caetano em inglês; “Namorinho de portão”, quase uma Jovem Guarda, de Tom Zé, que mais tarde ganharia uma versão do grupo Penélope, que reunia Erika Martins e Luisão Pereira, novamente com Gil na guitarra e na voz; “Saudosismo”, de Caetano Veloso, bela homenagem à Bossa Nova… um reconhecimento à revolução musical proposta por João Gilberto; “Se você pensa”, de Roberto e Erasmo Carlos, em uma versão melhor e mais poderosa que a original, encharcada de Soul e R&B; “Vou recomeçar”, novamente de Roberto e Erasmo… essa faixa é uma Jovem Guarda embalada em psicodelia; “Divino, maravilhoso”, de Caetano e Gilberto Gil, uma canção de protesto nada óbvia, mas que vai direto ao ponto e faz um chamado para a resistência; “Que pena (ele já não gosta mais de mim)”, samba-rock de Jorge Ben, que conta com Caetano no vocal e um violão não creditado a Jorge Ben, mas que dificilmente não foi tocado por ele; “Baby”, de Caetano Veloso, única música que não foi gravada para o disco, já que essa gravação é a mesma que entrou no disco “Tropicália – Panis et Circensis”, lançado no ano anterior; “A coisa mais linda que existe”, de Gilberto Gil e Torquato Neto, uma balada alegre e romântica, que retrata a juventude da época, que se encontrava em “festa e comício”; e, finalizando o disco, “Deus é amor”, um quase gospel de Jorge Ben.

A direção de produção do disco é de Manuel Berenbein, Rogério Duprat foi o responsável pela direção musical e assinou arranjos com Gilberto Gil e Lanny Gordin.

Em seu primeiro álbum, Gal Costa conquistou um lugar de destaque na música popular brasileira em um momento delicado, do ponto de vista político, e especial, do ponto de vista musical. O disco segue até hoje bastante atual e, para muitos (inclusive eu), segue como o melhor disco de Gal Costa.



Na ponta da agulha é um site parceiro do Kuruma’tá! Jorge LZ produz e apresenta o programa na Ponta da Agulha, na Rádio Graviola. Confira: napontadaagulha.ml

50

Você está lendo nossa 50ª publicação nesses 5 meses de existência, um texto para reafirmar nossa insistência em levar essa revista adiante. Não é fácil mas é prazeroso. Nem é tão difícil quanto parecia quando publicamos o primeiro texto e pensamos: e agora?! E agora é que cá estamos, firmes, fortes e bem humorados. [Texto de Revista Kuruma’tá]

Texto de Revista Kuruma’tá


Há exatos 5 meses, em 4 e fevereiro de 2019, a Kuruma’tá publicava seu primeiro artigo, na verdade uma combinação de dois textos, de Aderaldo Luciano e Toinho Castro, sobre esse livro espantoso que é Zé Limeira, o poeta do absurdo, de Orlando Tejo. É um livro em que biografado e biógrafo se combinam num terceiro elemento, altamente poético, imaginativo, e que nos deixa sem chão, sem saber onde começa ou termina a lenda de Zé Limeira, esse cantador paraibano que desafiou os caminhos da cantoria, do tempo e do espaço.

Com esse único texto nossa revista botou o pé na estrada poeirenta da poesia, da música, da literatura, do cinema e outros tantos assuntos que a gente vai arrumando aqui e acolá. No caminho vamos arrumando companheiros, gente que compartilha da mesma ânsia criativa, em busca de espaço para publicar suas ideias, imaginações. E a Kuruma’tá vai aprendendo a ser esse espaço. Um lugar de fala, de troca, de encontro.

A palavra coletivo anda surrada. Então vamos escapar pela tangente e dizer que Kuruma’tá é um ajuntamento de pessoas com vontade de escrever, publicar e ver no que dá! E o que tá dando é uma conversa boa que só. É gente de muitos lugares que passa por aqui, conectando pontos de vista, cidades, sotaques e olhares. Não é pouco mas ainda falta muito.

Falta muito mas já dá pra comemorar. Você está lendo nossa 50ª publicação nesses 5 meses de existência, um texto para reafirmar nossa insistência em levar essa revista adiante. Não é fácil mas é prazeroso. Nem é tão difícil quanto parecia quando publicamos o primeiro texto e pensamos: e agora?! E agora é que cá estamos, firmes, fortes e bem humorados. A cada dia alguém nos encontra em meio ao mundaréu de coisas que é a internet. Todo dia tem uma surpresinha boa, alguém que acessou no Acre, em Salvador, alguém que compartilha algo que a gente publicou, ou que nos recomenda a outro alguém.

Ao terminar de ler esse texto, faça uma pequena viagem no tempo pelas 49 estações que vieram antes. Conheça a Revista Kuruma’tá. Você pode gostar de umas coisas e não de outras, mas vai achar bom que a gente esteja por aqui, que esse lugar de imaginação exista. Quem sabe um dia você se junta a nós nessa outra viagem no tempo que é o daqui pra frente. O próximo artigo e o outro e o seguinte e ainda mais. Estamos gestando outras ideias e a fé é que a Kuruma’tá resista e ainda um começo para outras proposições.

Por enquanto vamos dando conta desse broto que cresce como dá, do jeito que a terra permite e nossos esforços alcançam. No mais é fazer a própria história, não parar de falar de cultura e querer dias sempre melhores.


A Revista Kuruma’tá agradece aos seus colaboradores e a todo mundo que lê, apoia, compartilha, curte e resiste/insiste com a gente. Ao passado e ao futuro, um brinde da Kuruma’ta!


Lucía, com acento no i e sotaque de Barcelona

Lucía quase nunca parava e gostava de ver tudo se mexer. Árvores, carros, lesmas, até as pedras tinham movimento. Estava sempre entre um ponto e outro e nesse estado se mantinha até que parava e constatava que a viagem tinha finalmente acontecido. [Texto de Adriana Nolasco]

Texto de Adriana Nolasco


17 horas. 14 graus em Lisboa. 28 em Angra dos Reis. 16 em Sevilha. 9 em Agerola. 23 em Montevidéo. 14 em Veneza. 5 em Nova York. O que Lucía, com acento no i e sotaque de Barcelona, mais gostava de fazer era viajar. Qualquer modalidade de viagem. A pé, de ônibus, barco, avião, espiritual, de ácido, bicicleta, interestadual, extraterrestre, pra dentro, pra fora. Por isso também amava aeroportos. A ponto de ir trabalhar lá, num dos piores empregos que tivera na vida: vendedora de freeshop, nos dias em que não trabalhava como garçonete na tasca ou no bistrô. Adorava ver os rostos, um pra cada pessoa no mundo, “e são muitos bilhões delas!”, se assombrava. O aeroporto contribuía com esse sentimento e alimentava ainda mais outro: o deslumbre pelo movimento. Lucía quase nunca parava e gostava de ver tudo se mexer. Árvores, carros, lesmas, até as pedras tinham movimento. Estava sempre entre um ponto e outro e nesse estado se mantinha até que parava e constatava que a viagem tinha finalmente acontecido. De a para b e depois de b para a: era na volta, precisamente em a, que sentia a onda bater. Por causa disso e de muitas outras coisas, Lucía foi se tornando uma fanática por determinados aplicativos, principalmente os de localização, mapas, meteorologia e hospedagem. Assim como os de viagens de forma geral. Uma necessidade de posicionamento, de construir em 3D tudo aquilo que pensava desconhecer. Cruzava dados e distâncias como ninguém. Latitudes, ruas, estados de espírito, metros quadrados, sotaques, direções do vento, tudo servia ao seu propósito. Porque ir para ela era simplesmente estar lá. Suspensa até o limite, pendurada entre o Mediterrâneo, o metrô, Berlim, a tasca, o aeroporto, Positano, a bicicleta, Lisboa à noite. Em longos passeios a pé pela street. Aeroportos são lugares de passagem, deveria se lembrar. Torre de Babel. Sempre gostou das cidades que tem lâmpadas amarelas. Esse foi um dos critérios da escolha do seu pouso, a base a partir da qual tudo percorria. Lucía, com acento no i e sotaque de Barcelona, repetia sempre essa frase pra que nunca se esquecessem de pronunciar seu nome corretamente. Também não conseguia não reparar em como aeromoças e comissários tinham uma pele de papel, mas admirava sua qualidade de sorrir e puxar malas com rodinhas. Consultou o aplicativo de metereologia. Em Lisboa fazia agora 16 graus, entardecia. Naquele dia Lucía fotografou as próprias mãos porque ficou boa da alergia na pele do dedo mindinho da mão direita assim: sem saber de nada. Gostava de fotografar, quase tudo. E nunca mostrar pra ninguém. Era uma prova pra si mesma de que tinha vivido aquilo, de que esteve ali. Porque senão achava muitas vezes que estava louca. Mas só estava sozinha.

Fotos de Adriana Nolasco

“Não siga mansamente para essa noite em paz”

E eu pensava no que eu teria ido comprar ali, naquele supermercado. Lista de compras improvisada na cabeça por nunca fui bom em listas de compras. Vinho, comprar vinho para brindar a Lou e Andy e John. Eu lá no meu quarto, num ano distante, colocando New York, recém lançado, para tocar. A voz de Lou anunciando os anos 90… The past keeps knock
knock knocking on my door / And I don’t want to hear it anymore. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Pô, fui no supermercado, peguei um carrinho daqueles com a roda bamba e cumpri o ritual sagrado de comprar o lixo que me mata pouco a pouco a cada dia. Só a mim não. Nem se iluda, você tá morrendo disso também. E também de outras coisas que matam quem compactuou com as comidas super processadas, os automóveis e o combustível fóssil. Aí fui lá no supermercado enorme, com suas avenidas onde não existem leis de trânsito, todo mundo no exercício contínuo do cada um por si. Longas lâmpadas fluorescentes despejando sua luz branca imaculada nas formiguinhas zanzando de corredor em corredor, ansiando por promoções.

Que lugar horroroso. A sorte é que as corporações canalizaram música por streaming nos celulares e eu podia entrar naquele círculo do inferno ouvindo Lou Reed, Perfect day. Aí tô lá, ouvindo Lou Reed e fui atingido por esse raio: Lou Reed morreu! Não, não foi hoje nem ontem. Faz um tempo já, uns anos eu acho. Mas é sempre como se alguém acabasse e gritar Fuja para as montanhas! Porra, Lou era casado com Laurie Anderson. Mas Laurie não morreu. Eu achava os dois um casal improvável, mas quem sou eu para achar o que quer que seja sobre isso, não é mesmo? Andy Warhol também morreu, antes de Lou. Lou e John Cale fizeram um disco lindo para Andy. Chama-se Songs for Drella. Drella era um apelido de Andy.

John Cale tá vivo, cabeça branca. Ele tá lindo… Nasceu no País de Gales, no mesmo março de 1942 que o nova iorquino Lou, com uma semana e um oceano de distância entre os dois. Outro dia vi uma entrevista com ele, sem legenda, lutando para decifrar algum inglês por dentro daquele sotaque. Há muitos anos vi um documentário sobre ele. Chamava-se Words for the Dying e era sobre a gravação de The Falklands suite, em que ele musicou os poemas de seu conterrâneo Dylan Thomas. Vi numa sessão obscura no CCBB; uns 80 minutos com a gente acompanhandoa gravação daquele disco que viria a ser lindo… um estúdio em Moscou, Brian Eno capitaneando a produção. Depois Braian e John fariam ainda um disco juntos, Wrong way up, que eu comprei bem baratinho numa distribuidora de discos enorme, que ficava na rua Imperial, no Recife.

Depois disso o tempo passou e esse filme ficou na minha cabeça para sempre, como um fantasma. Eu não lembrava mais do nome, só recentemente lembrei que a internet poderia me ajudar nisso e o redescobri. Ainda assim os sinais dele na web são mínimos, o suficiente para eu saber que não foi um sonho. Ou que seja um sonho. E é como num outro sonho dentro do sonho que lembro que Braulio Tavares, o Trupizupe de Campina Grande, ousou sua própria tradução para Do not go gentle into that good night, que Dylan Thomas publicou em 1952, dez anos depois do nascimento de John Cale.

Não siga mansamente para essa noite em paz.
Os velhos deviam arder e festejar, no fim do seu tempo.
Esbraveje, esbraveje contra a luz que se vai.

Embora homens sábios descubram o bem que a treva traz,
suas palavras não raiaram relâmpago algum, e eles
não seguem mansamente para essa noite em paz.

Homens bons lamentam, nos seus impulsos finais,
que seus feitos não brilhem sobre as ondas verdes;
esbraveje, esbraveje contra a luz que se vai.

Homens rebeldes, que arrebataram o sol em cantos fatais
mas só viram depois o quanto o fizeram sofrer,
não seguem mansamente para essa noite em paz.

Homens graves, à morte, vendo as luzes finais,
com olhos cegos alegres pelos meteoros que arderam,
esbravejam, esbravejam contra a luz que se vai.

E você, meu pai, que já se eleva para os seus umbrais,
que suas lágrimas me sirvam como maldição e bênção.
Não siga mansamente para essa noite em paz.
Esbraveje, esbraveje contra a luz que se vai.

(Tradução de Braulio Tavares)

Songs for Drella é um disco triste, sobre uma perda irreparável. Homens que se perderam antes mesmo que um deles morresse. Os caminhos todos interrompidos. Ao longo da gravação e apresentação do disco Lou e John brigaram, não encontraram, e nem poderiam mais encontrar, um equilíbrio qualquer. Mas ainda assim nos assombra o violino de Cale sob a voz de Reed.

I really miss you, I really miss your mind
I haven’t heard ideas like that for such a long, long time
I loved to watch you draw and watch you paint
But when I saw you last, I turned away…
(Lou cantando para Andy em Songs for Drella)

E eu pensava no que eu teria ido comprar ali, naquele supermercado. Lista de compras improvisada na cabeça por nunca fui bom em listas de compras. Vinho, comprar vinho para brindar a Lou e Andy e John. Eu lá no meu quarto, num ano distante, colocando New York, recém lançado, para tocar. A voz de Lou anunciando os anos 90… The past keeps knock
knock knocking on my door / And I don’t want to hear it anymore
. E ao mesmo tempo eu ouvia Laurie Anderson no Home of the brave. Como eu amava Laurie Anderson, com toda sua modernidade, tantas referências; parecia que eu tinha que ler um monte de livros para receber e entender aquilo. Tão diferente de Lou que era tão visceral e marginal e perdido e todas essas coisas que a gente amava porque não convivia com ele. Gente, como os dois acabaram juntos, né?! Eu nunca imaginaria! Mas é isso, estavam ali o tempo todo na mesma letra da ordem alfabética dos meus discos. Ambos, cada um a sua maneira, colocando à prova o sonho triste americano.

Você tem que se ligar que tudo isso me vinha à mente enquanto eu circulava meio a esmo pelos corredores do supermercado. Você sabia que Jean-Michel Jarre, ele mesmo, dos sintetizadores, fez um disco chamado Musique pour Supermarché? Foi prensada apenas uma cópia em vinil e diz-se que as masters foram destruídas. Lembro de quando via aqueles filmes americanos e tinhas aqueles supermercados enormes, brancos de luz, que só vim ver pessoalmente anos depois. Templos de consumo, pra voc~e ver que tudo, tudo é religião. E religião impõe a garrafa de vinho mágico já a bordo do carrinho; talvez eu precisasse de algum queijo para o ritual de invocar os deuses que persigo. Enveredando pelas áreas refrigeradas, cheias de iogurtes, presuntos e outras coisas que estragam sem a ajuda das máquinas, acabei por esbarrar nas carnes… E lembrei de Walt Whitman. Mas o Whitman de Allen Ginsberg, talvez por que Lou e Allen se conectavam na minha cabeça de alguma maneira. Lembrei inevitavelmente dos versos de Um supermercado na Califórnia, publicado em 1956 no livro Uivo e outros poemas. Este era um dos outros poemas.

Um supermercado na Califórnia

Como estive pensando em você esta noite, Walt Whitman, enquanto caminhava pelas ruas sob as árvores, com dor de cabeça, autoconsciente, olhando a lua cheia.

No meu cansaço faminto, fazendo o Shopping das imagens, entrei no supermercado das frutas de néon sonhando com tuas enumerações!

Que pêssegos e que penumbras! Famílias inteiras fazendo suas compras a noite! Corredores cheios de maridos!

Esposas entre os abacates, bebês nos tomates! – e você, Garcia Lorca, o que fazia lá, no meio das melancias?

Eu o vi Walt Whitman, sem filhos, velho vagabundo solitário, remexendo nas carnes do refrigerador e lançando olhares para os garotos da mercearia.

Ouvi-o fazer perguntas a cada um deles; Quem matou as costeletas de porco? Qual o preço das bananas? Será você meu Anjo?

Caminhei entre as brilhantes pilhas de latarias, seguindo-o e sendo seguido na minha imaginação pelo detetive da loja.

Perambulamos juntos pelos amplos corredores com nosso passo solitário, provando alcachofras, pegando cada um dos petiscos gelados e nunca passando pelo caixa.

Aonde vamos, Walt Whitman? As portas fecharão em uma

hora. Para quais caminhos aponta tua barba esta noite? (Toco teu livro e sonho com nossa odisséia no supermercado e sinto-me absurdo)

Caminharemos a noite toda por solitárias ruas? As árvores somam sombras às sombras, luzes apagam-se nas casas, ficaremos ambos sós.

Vaguearemos sonhando com a América perdida do amor, passando pelos automóveis azuis nas vias expressas, voltando para nosso silencioso chalé?

Ah, pai querido, barba grisalha, velho e solitário professor de coragem, qual América era a sua quando Caronte parou de impelir sua balsa e Você na margem nevoenta, olhando a barca desaparecer nas negras águas do Letes?

https://www.youtube.com/watch?v=zcTI7em_w2E
Allen Ginsber lê Um supermercado na Califórnia, no Centro de Poesia da Universidade Estadual de São Francisco – 25 de outubro de 1956

As águas do Letes. Lembro exatamente de ler isso sentado na areia da praia de Ipanema, lembrando de um amigo que eu não via há muito tempo. Lembrei dele ali no supermercado, por causa de Whitman, que lemos tanto, por causa de Lou ou Allen. Escutamos juntos Strange Angels, de Laurie, quando foi lançado, no mesmo ano que New York. O encanto de uma pequena música, The dream before, que relia para nós o Anjo de Walter Benjamin que leu o anjo de Paul Klee, que fazíamos de conta compreender.

As águas do Letes, que Lou e Andy já haviam atravessado. O super movimentado Letes. Imagino um ocupado Caronte em viagens e mais viagens sobrepostas em camadas fora do tempo, para dar conta de toda essa gente, recebendo seus trocados como os caixas do supermercado onde eu vagava, como se tivesse roubado meu próprio barco para cruzar o Letes e tivesse me perdido, à deriva na correnteza. Em Farway, so close, de Win Wenders, Lou encontra o anjo Cassiel na pior e lhe dá algum dinheiro para se virar. Quantas vezes estamos por aí dando dinheiro a Caronte sem nem saber?

Angelus Novus, de Paul Klee (1920) – Atualmente faz parte da coleção do Museu de Israel, em Jerusalém.

Tudo no supermercado estava morto e embalado, tudo nos carrinhos empurrados por fantasmas. Só eu estava lúcido, talvez, salvo do transe pela música que fluía pelos fones de ouvido, salvo por um Whitman imaginário em busca de alimento para a alma vagante. Recentemente eu havia comprado a edição de leito de morte de seu Folhas de Relva e uma edição de bolso de Uivo e outros poemas. Lou morreu e Allen morreu e seu Uivo inteiro é uma litânia sobre a morte e contra a morte. John Cale está vivo em algum lugar, planejando um disco ou um show, sem pensar sobre Lou, me apego a isso, à vida que há no que John faz. Me apego a Laurie, Laurie Anderson, que mesmo quando fala da morte é somente por estar viva.

Abandonei ao relento das gôndolas as caixas, congelados, latas e sprays. Abandonei a morte no supermercado e caminhei à luz do dia procurando Walt Whitman sem encontrá-lo, carregando nas sacolas vinho e pão e queijo. No fone de ouvido, misturado ao ruído do ônibus que passava ao meu lado, tocava Style it takes, com John cantando…

Let’s do a movie here next week…

Fiquei com o frescor desse verso. Quando estávamos na universidade queríamos sempre fazer um filme na semana que vem e esse espírito livre vive em mim até hoje: Vamos fazer! Caminhando para longe do supermercado, cruzando ruas, ignorando semáforos e o movimentado tráfego do Letes ao meu redor.Uma ilha cercada de música, cercada de mortos que cantam aos mortos e vivos que cantam aos mortos e cantam porque… porque do contrário o supermercado vencerá. E isso não pode acontecer.