Bethânia e o espelho do que fui

Texto de Tiago Gonçalves

Sábado, Maria Bethânia. O tempo parece ter parado, ou talvez tenha se dobrado sobre si mesmo, porque ainda sinto os instantes reverberando dentro em mim, silenciosos e insistentes. Algumas experiências são grandes demais para os ontens. Certos momentos continuam acontecendo muito depois de terem acabado. Eu estava ali, sentado, e não era espectador. Não podia ser.

Tudo nela me dizia respeito. Tudo na voz, no corpo inteiro, nos olhos que se perdiam em transe na canção, e voltavam satisfeitos; tudo nos pequenos gestos que, delicados, carregavam o mundo. Tudo me atravessava, e eu nem respirar conseguia direito. Sentia cada pausa como se fosse minha própria falta. Cada nota parecia falar dos caminhos que escolhi, daqueles que não pude trilhar, da música que deixei de tocar, do verso que deixei de escrever, da voz que guardei na gaveta. E tudo ao mesmo tempo me lembrava que o sonho não se apaga – e não envelhece. Ele apenas se transforma, ressignificando-se. Havia em mim um trovador calado, que não sobe ao palco, mas que ainda existe em alguma taberna escura. Que ainda sente. Que ainda se deixa atravessar.

Durante anos sonhei ser artista. Não qualquer um, e sim alguém capaz de tocar o invisível, de transformar o pressentido em movimento, em canto, em palavra que fosse música, poema ou luz. Talvez por isso eu a imitasse tanto. Talvez por isso cada movimento dela me devolvesse um espelho em que me via, pequeno, desejando compreender a calma que incendiava sem alarde.

Enquanto ela cantava, enquanto o samba tímido ria nos seus pés descalços, enquanto os ombros se moviam, enquanto os dedos ajeitavam os cabelos já brancos, enquanto a mão tremia no esforço de sustentar o microfone, enquanto a respiração se fazia entre cada verso, eu absorvia tudo, como quem tenta guardar o orvalho antes que o sol o leve de volta para si. Não era só Bethânia no palco. Era tudo o que eu fui, que eu poderia ter sido, que ainda posso ser, se houver coragem de sentir de novo.

Cada silêncio, cada intenção, cada nota suspensa era um lembrete de que o desejo não se perde. Ele se transfigura. E que arte não é só criar, ou escrever, ou cantar. É sentir a vida inteira, mesmo quando se escolhe outro caminho; mesmo peregrinando trilhas mais concretas, mais ordenadas, mais burocráticas e acadêmicas, a vida está, urgente. Mesmo sem os holofotes e os aplausos, ainda assim o coração se lembra. A memória. O corpo. A música. Tudo agarrado em algo que não cabe.

Saí da sala sem sair do instante. Ele me acompanhava e atravessava. Fiquei parado, em silêncio, como quem voltou de um rito ancestral e não quer quebrar o encanto. Percebi que ainda sou artista. Não porque subo ao palco, mas porque continuo tentando traduzir o indizível. Porque continuo permitindo que a vida me perfure, transpasse, rasgue e transverta.

Há pessoas que não apenas visitam este mundo. Vivem. E encantam a vida. Que tocam sem que se saiba como. Que entram em nós e deixam a bússola desregulada. Quem as

vê, quem as escuta, quem se deixa tocar, numa mais será o mesmo dos ontens. Nunca mais será o mesmo de antes do instante em que se entregou inteiro, sem defesas, sem distâncias. Talvez seja exatamente isso que chamamos arte: a vida virando outra dentro de nós, dentro dela, dentro do silêncio que continua ressoando muito depois do último acorde.

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