Por Toinho Castro

Gente, acordei com um disco novo da Julia Vargas. Não um single (Nada contra!), mas um disco inteiro. E um disco lindo. Absolutamente lindo. Sou fã da Julia desde quando ouvi na sua voz Canoa, canoa, do mestre Milton Nascimento. E ela pegou aquela música e fez dela o que eu não esperava. Porque a gente sempre pensa que o que Milton fez, ninguém fará. E ela não fez, porque ela fez outra coisa! Outra lindeza, com uma voz e uma profundeza de rio que maravilharam. Canoa, canoa, com Julia Vargas, é uma música que eu revisito mais que a original.
D’água, esse LP que já merece o vinil, girando nos lares brasileiros, traz essa Julia intérprete foda, mas traz também a Julia compositora, assinando três canções. Duas (Vem e Atrás da cortina da pantera, só dela. A terceira, Pavio, como a também maravilhosa Duda Brack). Mas é a intérprete que abre o disco com uma versão inacreditável de Comportamento Geral (1972), de Gonzaguinha, que segue atualíssima e necessária. Com seu baixo de filme de suspense, a musica evolui num clima denso, . Ironia fina e poesia, a serviço da condição humana; a serviço da leitura da vida dura de nós todos, nesse moedor de carne neoliberal. Você merece! viva Gonzaguinha!
Não sou crítico e nem quero me meter a isso. Quero mais é espalhar a palavra. D’água é um desses discos que cala a boca dos que não largam o discurso Porque a música brasileira não é mais o que era e afins. Em tempo, a música brasileira não é mais mesmo o que era; é outra. Não é melhor ou pior. É nova, vibrante, inteligente, desafiadora. Escuto o disco da Julia com alegria, música após música. Meio blues, meio rock, algo de xote; tem Luhli & Lucina (Flor Lilás) tem Zélia Duncan (Maluca) e Roberta Sá (Em Sinceramente… uma piscadela nordestina e cadente), grandes mulheres alinhadas sob as águas, ternas, tumultuosas, reviradas e derramadas do álbum.
D’água é disco de beleza sonora e poética; recomendo não pular faixas e apreciar cada canção com a devida atenção. Não vai ser difícil, porque, de tão bem encadeados, cada tema vai ocupando espaço na sua curiosidade, na sua afetividade e no seu corpo. D’água mexe com o corpo e com o juízo, numa dança que te envolve e carrega.
Destaques para as parcerias, para a banda impecável [Gabriel Barbosa na bateria, Gui Marques nos sintetizadores e coprodução musical, João Bittencourt, teclados e acordeom e Marcos Luz no baixo], que dá a liga perfeita para a voz de Julia. Destaque para a capa luminosa e para o repertório sagaz, preciso, afiado. Tudo é destaque, Toinho?! Sim, destaque pra tudo. Que sensação boa deve ser gravar tudo isso e, depois, sentar pra escutar, sabendo que fez um bom trabalho, que mandou bem e alinhou uma seleção musical de dar gosto e que vai marcar a alma da gente espalhada por aí.
Parabéns, Julia. Sigo seu fã!
