Arte e Território: Moradores da Comunidade do Vintém recebem residência artística

Projeto Práticas Desviantes, em parceria com o Museu Murillo La Greca, oferece imersão cultural gratuita para moradores da Comunidade do Vintém no Recife

Como forma de criar e valorizar diálogos sobre a memória e a preservação da história sociocultural da comunidade do Vintém, situada no bairro do Parnamirim – Zona Norte do Recife, a quarta edição da residência artística Práticas Desviantes, financiada pelo Fundo de Incentivo à Cultura (Funcultura PE), irá promover durante os meses de março e abril oficinas, ateliês abertos e diversas outras atividades. O projeto, que conta com a coordenação e a curadoria da artista visual pernambucana Ariana Nuala, foi criado em março de 2018 com o propósito de entender a paisagem e o território a partir da relação entre o Museu Murillo La Greca e a comunidade do Vintém, articulando discussões e propostas visuais relacionadas ao espaço urbano.

Ariana Nuala – Foto de Rebeca Carapiá

Dois artistas foram selecionados para compor a residência artística: Lia Letícia, artista visual que investiga o urbano nas linguagens do vídeo, do corpo e da instalação, produzindo videoarte e filmes experimentais, e Rafael FX, profissional da dança que pesquisa sobre os corpos/corpas submetidos/submetidas ao fenômeno da violência no contexto das cidades e metrópoles. Os artistas serão orientados por Iagor Peres, artista que busca desenvolver práticas híbridas para compor seus processos, criando esculturas, telas, videoinstalações, performances e textos.

A residência Práticas Desviantes, intitulada nesta terceira edição como “Alavanca”, propõe desenvolver mais profundamente essas relações entre artistas, museu, moradores do Vintém e público interessado. A escolha dos artistas para ativarem esse espaço de troca e construção com a comunidade foi baseada na própria poética desenvolvida por Lia Letícia e Rafael FX, que constroem, a partir do território e do corpo, métodos, formas e medidas que dialogam diretamente com um projeto decolonial de arte-educação. A Vila do Vintém é um território de cultura ribeirinha que resiste em meio à especulação imobiliária que cresce e contorna a cidade do Recife. A comunidade resistiu territorialmente ao lado do Museu Murillo La Greca, e mantém relações de pertencimento acerca do equipamento cultural público e das propostas artísticas nele existente.

“Com o projeto Práticas Desviantes, os artistas e a comunidade do Vintém terão a oportunidade de repensar o espaço urbano e suas relações afetivas-sócio-econômicas, ajudando a desconstruir a ideia de que apenas classes sociais mais favorecidas economicamente podem consumir o que os espaços culturais oferecem”, destaca Ariana Nuala, curadora do projeto.

Os ateliês abertos da residência irão intensificar a aproximação do Museu Murillo La Greca (MMLG) com o Vintém, em sua potência artístico educativa como equipamento cultural público voltado para as artes visuais. De 10 a 24 de março o artista Rafael FX montará seu ateliê aberto na comunidade, com foco no grafite e nas danças urbanas, visando desenvolver provocações históricas e conhecimento corpóreo de motricidade e ação no espaço. Entre 15 e 30 de março, Lia Letícia ocupará também o espaço com o projeto de residência “Doce”, que trata de relações pessoais nascidas a partir da necessidade ancestral de união/partilha/comunhão em comunidades, conhecendo quem são as doceiras e confeiteiras da comunidade, suas estórias e seus processos.

A iniciativa contará também com oficinas que serão desenvolvidas pelos artistas residentes para a comunidade. Durante os dias 11 e 12 de março, Rafael FX irá oferecer duas oficinas sobre vivências em Grafite e vivências em Danças Urbanas, com foco na história e no corpo. E nos dias 18 e 19 de fevereiro, Lia Letícia irá desenvolver um processo de produção de doces e bolos com pessoas da comunidade.
As ações de compartilhamento e imersão serão realizadas dentro do Museu Murillo La Greca e na quadra esportiva da comunidade, estendendo as noções sobre espaço cultural e levando a discussão sobre arte contemporânea e o fazer artístico para além do espaço físicos institucionais. O objetivo é promover a troca de experiências e a construção de novos saberes, levando para dentro do museu as criações feitas a partir dos encontros com a comunidade.

O resultado da residência artística possibilitará trabalhar as dimensões do que seria um território interno/externo para produções visuais, que servem como dispositivos efetivos para comunicar problemas complexos e potencializar modos de investigar a realidade. A culminância do projeto será apresentada publicamente no dia 13 de abril na comunidade do Vintém, cujo os detalhes serão divulgados em breve no perfil oficial do projeto no Instagram @praticasdesviantes.


Serviço:

O que: Residência Artística Práticas Desviantes
Onde: Comunidade do Vintém – Parnamirim – Zona Norte do Recife Quando: De 10 a 30 de março
Quanto: gratuito
Mais informações: No Instagram @praticasdesviantes


A poesia Liana Timm

E o inbox da Kuruma’tá não para de surpreender. A cada dia chegam mais mensagens com poemas, crônicas, fotografias, artes plásticas, músicas… E hoje, aqui na Kuruma’tá, é dia de Liana Timm, artista multimídia, arquiteta, poeta e designer. Vive em Porto Alegre, num atelier em permanente ebulição. Liana compartilhou com a gente uma série de poemas e trabalhos plásticos, misturando pintura e técnicas digitais, da série EXTRAVAGANTE!

Que beleza recebê-la em nossas páginas, Liana. Seja muito bem-vinda!


SEGUNDA-FEIRA

Não escrevo diários nem tenho coleções
e as agendas me servem
como um exercício de geografia

Minha vontade é forte
animada e permanente
como a imaginação
Não promete nada,
nem na segunda nem em dia algum

Aliás os dias da semana não importam
Terça pode ser domingo e domingo…
um nome de planta
ou animal de estimação

Não planejo o tempo
e ser bem-comportada fere minha natureza Pisar em falso
uma descoberta que me dá um medo bom

Se lá adiante
percebo o equivoco de uma escolha
entendo isso como…

provação?

 


A VIDA NO ENTRE

A angústia nos acompanha
desde o paraíso
aqui fora colecionamos perigos

as limitações resumem as crises
arriscando garantir cobertas por seguros
o caos da ansiedade que costura
loucura e labuta

a vida é trabalho constante
o vento o contador do tempo

em sussurro permanente
espanta da água parada
redemoinhos

insetos que mordiscam
suor e esforços
mostram eufóricos os dedos
de quem deixa no ar
um jeito entrelaçado
de sombras e descaminhos

 


PASSADIÇO

falar de contrajeito o que precisa?
escrevo
para alguém e nunca para nada

para quem desconhecido
me acompanha
no barulho de vários erres
nos abafados emes
nos estalos de muitos pes

isolada e flutuante
labuto no que se guarda
depois de pronto

depois de revisado e revirado
e bem marcado

as lentes fracas
de perto congelam a alegria
revivem da infância vários infernos
de antemão

na abstração cega do tempo
aquele acabrunhamento
joga de repente
a gente no chão

 


QUARTA-FEIRA

tão peculiar essa cidade de arranha-céus
povoada de porcelanas taças de cristal
cinquenta setenta anos
de um colecionismo solitário

a diarista hoje se esqueceu
e não trouxe o que despista
o fracasso da infelicidade
e esta mágica saudade
dá a ilusão de quem pede
estar contigo
para toda eternidade

sob um céu
que amarela à tardinha
respiro das paredes
a permissão de mais um dia te querendo
como a mim desejando água de fonte
clara transparente
reflexo do milagre da sede
e horizontes

amanhã mais atenta
contarei nos dedos
as horas da tua espera.

 


SÁBADO

o infinito não é uma ideia
é silêncio sem passarinhos
murmúrio de águas
sombras luzes

é vulcão de fugaz erupção
são veias e nós de desejo

enquanto me visto
penso o poema e vou à feira
verduras frescas compro
de tempos em tempos
e no meio do verso mordo a língua
e paro com o canto da boca
na fruta mais doce
no buquê de roseiras
que de fresco
aponta o jardim de primaveras

mas é inverno!

decidida apanho a braçada de flores
e volto ao finito da minha vida


série EXTRAVAGANTE
Dilemas e escolhas
autor: LIANA TIMM
pintura e técnicas digitais
80x112cm
2022
série EXTRAVAGANTE
O alvo principal
autor: LIANA TIMM
pintura e técnicas digitais
80x112cm
2022
série EXTRAVAGANTE
Tudo vem do coração I
autor: LIANA TIMM
pintura e técnicas digitais
80x112cm
2022
série EXTRAVAGANTE
Entre as épocas
autor: LIANA TIMM
pintura e técnicas digitais
80x112cm
2021
série EXTRAVAGANTE
Para além do olhar
autor: LIANA TIMM
pintura e técnicas digitais
80x112cm
2022

LIANA TIMM | Artista multimídia, arquiteta, poeta e designer. Vive em Porto Alegre/RS com atelier em permanente ebulição. Sua produção mescla manualidade e tecnologia, conceito e materialidade, história e contemporaneidade. Transita pelas artes visuais, pela literatura, pelas artes cênicas e pela música. Professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1976/96). Especialista em Arquitetura habitacional e Mestre em Educação pela UFRGS. Realizou 76 exposições individuais, sendo as mais importantes: Pinacoteca do Estado de São Paulo/SP/Brasil, Memorial da América Latina /SP/SP/Brasil, Centro Cultural Correios e Telégrafos/Rio de Janeiro/RJ/ Brasil, Museu Brasileiro da Escultura/São Paulo/SP/Brasil, Fundação Cultural do Distrito Federal/Brasília/DF, Museu da Gravura cidade de Curitiba/PR/Brasil, Museu de Arte do Rio Grande do Sul/Porto Alegre/RS/Brasil. 35 shows musicais na cidade de Porto Alegre e interior do Rio Grande do Sul/Brasil, em Montevideo/Uruguai, em Miami/EUA e em Toulx Sainte Croix/França. Publicou 67 livros, destes 18 são individuais de poesia, sendo que o último reúne sua produção poética de 35 anos. Recebeu 17 prêmios nas diversas áreas de atuação. Desenvolve suas produções culturais e projetos editoriais através da TERRITÓRIO DAS ARTES.

Há mais coisas entre o cangaço e a mulher do que possa imaginar um vão brincante de carnaval

Texto de Aurora Miranda Leão


A Marquês de Sapucaí, palco do principal desfile de carnaval do país – Foto de GRES Acadêmicos de Santa Cruz

Soa como pancada no estômago constatar, ainda nos dias de hoje, um silêncio negligente e até certa louvação à cultura do estupro. Isso me vem a propósito da concomitância entre minhas leituras atuais e o desfile de carnaval do grupo especial na Marquês de Sapucaí. Assim, em que pesem todas as qualidades estéticas e musicais do desfile da Imperatriz Leopoldinense, não é possível compactuar com o mote do enredo sem colocar algumas questões para reflexão.

As ações humanas não podem ser vistas ou entendidas apartadas de seus contextos, desmembradas de suas implicações políticas, desatreladas de suas ligações com o passado e o futuro. Também eles nos constituem: o presente não existe sem um e outro. Logo, causa calafrios ver, ler ou ouvir alguém defender Lampião e seu bando porque imediatamente transporto-me aos dolorosos anos de sofrimento e angústia, dor e pânico vividos por tantas centenas de sertanejos enquanto durou o cangaço. O martírio foi imenso, sobretudo para as mulheres.

Diversos jornais da época, até mesmo o New York Times, registram a euforia gerada quando o bando foi extinto, em 1938. Evidentemente, não concordamos com a forma virulenta como os cangaceiros foram mortos. A violência é por si só uma coisa deletéria, sob qualquer aspecto. Violência não se acaba com mais violência, ódio não se combate provocando mais ódio, não há vingança que compense a dor da perda de alguém querido, mas daí a jogar confetes para o Rei do Cangaço e elogiar seu legado, vai uma distância colossal, para a qual não tenho fôlego, aptidão nem caráter.

É certo que a cultura sertaneja – através do cordel, das músicas, das xilogravuras e de tantas outras visualidades -, deu ao cangaço uma versão esteticamente rica e poderosa – sou das que amam Xilo e Literatura de Cordel -, mas entre o cangaço apropriado pela manifestação artística e o que de fato aconteceu nos sertões do Nordeste sob o jugo de Lampião, há distinções notórias.

Em tempos de revisitar o passado, em salutar e oportuna laboração sobre construções narrativas que contam o pretérito mas mitificam a essência do mal, é mister rever o que a imprensa e a história registram sobre esse período tão tenebroso da vida brasileira. Passa da hora, inclusive, de recontar a fantasiosa versão que transforma assassino em mito e violência em masculinidade. Sendo o carnaval “Uma ferramenta muito poderosa para trazer consciência, e não alienação”, como afirma Rogério Oliveira1, que comanda a produtora Pipoca, promotora de alguns dos principais blocos de São Paulo, Rio, Olinda e Belo Horizonte, teria sido muito impactante ver uma escola homenagear o Nordeste evidenciando a violência de gênero2, ainda tão forte na maior região do país.

Chegamos em 2018 a bordo de ideias nefastas, conflagradas pela ignorância de muitos e perpetradas com o objetivo de confundir fatos históricos e tumultuar o entendimento de noções como direitos humanos, respeito à coletividade e às instituições democráticas. Não foi sem muito assombro que vimos pessoas, das mais variadas idades e classes sociais, negando a ditadura, subestimando o holocausto, chamando truculência de mi-mi-mi, negando a ferocidade, contemporizando ataques sórdidos à imprensa e tantas outras categorias profissionais, abastecendo de forma ignóbil uma imensa teia de fabricantes do autoritarismo e paladinos de formas nefastas de injustiças e iniquidades.

Atravessamos quatro tormentosos anos assim – tendo que conviver com aberrações que julgávamos não ter mais campo para florescer -, nos quais tiveram espaço e apoio uma série de violências cotidianas, seja contra cientistas, educadores, profissionais da saúde, médicos, jornalistas, mulheres, negros, indígenas, parlamentares, artistas, e nem mesmo ministros da Corte Suprema foram poupados. O retrocesso político ganhou corpo como nunca antes visto na história do país desde a redemocratização e o temor de dias piores pautou nossa agenda diária. A Democracia vivenciou dias de ataques torpes às instituições que a alicerçam. Felizmente, sobreviveu e mostrou força.

Por essas e outras, presente e passado vivem entrelaçados. Há capítulos deploráveis somando períodos de massacre (como o narrado por Euclides da Cunha em “Os sertões”, sua obra-prima, de 1902); morticínios; violências (como no cangaço), esmagamento e opressão às mulheres, crianças, indígenas, velhos, pobres, quilombolas e comunidade LGBTQIAPN+, logo, o pretérito não está guardado em depósito a sete chaves: convive conosco todo dia, mobiliza, interfere, acende luzes, aponta caminhos e se intromete diariamente na vida de todos nós.

Até quando esses vestígios perniciosos continuarão sendo negligenciados? Até quando há de persistir a inconcebível glorificação dos violadores da lei, e criminosos seguirão sendo alvo de homenagem, como se não houvesse um histórico tenebroso até hoje influindo no contexto social? Essa é a pergunta que se destaca em meio a manifestações que consentem e humanizam o inaceitável, como se deu com o desfile carnavalesco vitorioso na Sapucaí neste 2023.

O que fere a dignidade humana, o que consagra ao opressor aura de rei ou salvador, será sempre prejudicial ao coletivo, em qualquer tempo, em todo lugar. E não há contemporizar com isso.
As cangaceiras viviam como prisioneiras de seus algozes, os próprios maridos, a quem eram entregues ainda garotas, a brincar com suas bonecas de pano, como Durvinha, Nenê e Dadá, estuprada aos 12 anos, cuja pavorosa história é contada em detalhes pela jornalista e pesquisadora Adriana Negreiros em seu livro Maria Bonita – sexo, violência e mulheres no cangaço (Editora Objetiva, 2018). Todas só podiam fazer o que “seus donos” permitiam, e havia ainda as nefastas “geras” (estupros coletivos).

Maria Gomes de Oliveira ou Maria de Déa, a sertaneja mais famosa do cangaço, encabeça uma enorme lista de mulheres do sertão, oprimidas, silenciadas, desrespeitadas, humilhadas, maltratadas, subjugadas, traídas. Vivendo um casamento infeliz, a jovem apaixonou-se por Lampião desde que começou a ouvir falar de suas façanhas como homem destemido. Acabou largando o marido e foi viver com ele no meio do cangaço, passando então a ser chamada de Maria do Capitão. Só depois de morta, ficou conhecida e ganhou a fama como Maria Bonita. Não há registros de que tenha sido estuprada, mas ela deve ser a única exceção: todas as demais integrantes do bando lampiônico, viviam oprimidas, maltratadas, subjugadas e eram estupradas constantemente: “Todas as cangaceiras eram obrigadas a entregar seus bebês ainda recém-nascidos. Geralmente, eles eram dados a fazendeiros, juízes ou padres”. Nem dessa vilania, Maria de Déa escapou, conforme conta Adriana Negreiros em seu livro já citado: também ela teve de entregar a única filha a um casal desconhecido.

Tudo isso me acorre a propósito do enredo da escola de samba Imperatriz Leopoldinense, a campeã do desfile das escolas do grupo especial do Rio de Janeiro neste 2023. Com o tema “”O aperreio do cabra que o Excomungado tratou com má-querença e o Santíssimo não deu guarida”, a escola de Ramos bebeu na fonte de dois famosos cordéis: “A chegada de Lampião no inferno” e “O grande debate que teve Lampião com São Pedro”, ambos de José Pacheco. Sim, para o cinema, a teledramaturgia, a pintura e o cordel, o cangaço rende boas produções, quem há de negar? O trem descarrilha é quando a visão alcança o que está por trás dessa discursividade.

Porque quanto mais se enaltece Lampião, sua trajetória e o famigerado cangaço, mais se conta a história por um viés deturpado, mais se abafam as vozes dissonantes, mais se perpetua o silêncio “concedido” às mulheres, as maiores vítimas das barbaridades (embora não as únicas) consumadas pelo movimento que causou pânico e espalhou atrocidades no interior nordestino, baseado na cólera contra os adversários, na matança aos opositores e no estupro como prática corriqueira. Ademais, a propalada e distorcida versão que consagra a Lampião a alcunha de herói, fornece alimento para a perversa cultura do estupro, cujas estatísticas registram números cada vez mais amiúde.

Referendar Lampião como figura aguerrida, valente, benfeitor, defensor dos mais carentes e paladino do povo sertanejo, é desqualificar toda a luta do movimento feminista, ainda mais na atualidade em que as mulheres conquistam topos relevantes -, com muito suor, luta e batalhas diárias -, e seguem atinadas, aptas a prosseguir somando conquistas e abrindo sendas para atuarem onde e como quiserem. Portanto, a defesa consistente, persistente e empoderadora desse discurso de reverência a um homem cujo heroísmo significa opressão contra as mulheres e vilania de toda sorte contra os que dele discordassem, é fortíssimo incentivo para o sustentáculo da nefasta cultura do estupro, com a qual não podemos ser coniventes.

Com que sentido se reproduz, numa festa popular de alcance mundial como o carnaval carioca – no qual a alegria, a liberdade, a criatividade artística, a musicalidade, a artesania, a potência criativa do artista brasileiro e a transgressão são princípios básicos –, justamente o discurso de defesa de um movimento que mascara a violência de gênero e ratifica o desrespeito aos direitos humanos mais elementares?

Muito bem fez a comissão julgadora do Troféu Estandarte de Ouro do jornal O Globo ao premiar como melhor escola a Beija-Flor, que desfilou contando outras histórias da Independência do Brasil, felizmente já bastante divulgada como um movimento de múltiplos protagonismos.

A quem interessa reproduzir esse manancial de estupidez e mantê-lo ativo no imaginário popular, ou a que interesses atende uma concepção cultural que sublinha, glorifica e enaltece a figura de um sanguinário contumaz, nutrindo uma espécie de saudosismo de uma época na qual as mulheres viviam confinadas ao espaço doméstico?
Ainda não tenha sido essa a intenção dos criadores do enredo – por sinal, belíssimo e musicalmente inovador ao misturar xote e xaxado com o samba, mostrando o quanto é plural e rica a cultura nordestina -, cabe a nós, pesquisadoras feministas, alcançar além do brilho das fantasias e da beleza do desfile, para tentar desvelar a intenção submersa na mensagem do samba-enredo.

O carnaval é sim um dos momentos mais propícios para ratificar construções ultrapassadas, desconstruir padrões, questionar valores, provocar debates, estimular revisões da história e interpelar disposições políticas que favorecem o imenso arcabouço patriarcal e colonialista pouco caso faz da violência de gênero, mácula na composição da vida nacional. Faz-se necessário aclarar o legado torpe de truculência deixado pelo cangaço e contar, com as tintas necessárias e os devidos pingos nos is, a verdadeira história de Maria de Déa, Nenê, Idalina, Dadá e tantas outras vítimas do cangaço.

Como bem diz Caetano, “É preciso estar atento e forte”: não podemos nem temos direito de propugnar concordância com a cultura do estupro, e isso terá repercussão sempre que não silenciarmos ante vilanias e atrocidades machistas e racistas, de onde quer que venham. Daí porque esperamos este texto funcione como alerta na ponderação historiográfica, pois há desconexões lesivas com a verdade documentada. Pensar em como desfazer concepções arraigadas que tanto mal produziram e contribuir para a construção de conhecimento que traduza humanidade e respeito à coletividade. Repensar, recontar, repassar e legar discernimento à posteridade.


1. Ver matéria “Seu Carnaval é político?”. Disponível em https://gamarevista.uol.com.br/semana/qual-e-a-sua-fantasia/carnaval-e-politica/. Acesso em 27 fev 2023.

2. Ver matéria “No Brasil, 699 mulheres foram vítimas de feminicídio no 1º semestre do ano”. Disponível em
https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2022/12/feminicidio-fez-699-vitimas-no-brasil-no-primeiro-semestre-deste-ano.ghtml. Acesso em 27 fev 2023.

Aurora Miranda Leão é Jornalista, atriz e documentarista, é mestra em Comunicação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), onde faz doutorado pesquisando teledramaturgia, sertão e identidades de gênero. Bolsista CAPES, edita o #blogauroradecinema e é autora dos e-books Telenovela: a ficção popular do Brasi;, O cinema que mora na minha saudade; Na Televisão Na Palavra No Átimo No Chão; e Teledramaturgia: Meu pedacinho de chão e uma metodologia de análise.


Independência Poética: Juliana Maciel

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Juliana Maciel

Juliana Maciel é professora, poeta, cordelista, contista e aboiadora repentista. Nascida no dia 24 de julho de 1977 em Ouriçangas-Ba, e vive em Irará-Ba. Filha de Andrelina Rozenda e José Alves Maciel (Zezinho Vaqueiro). Mãe de Bianca Pereira e Brenda Pereira. Sempre esteve ligada à cultura popular e à poesia, tendo seus primeiros escritos aos 13 anos. Graduada em Letras e pós Graduada em Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa e Literatura, atua na rede Pública de Ensino de Coração de Maria. Ministra oficinas de poesia e de cordel na rede pública e particular. Está presente no Dicionário Biobibliográfico dos Cordelistas Contemporâneos /2020 e na Nova Antologia de Cordelistas Baianos/2021 pela Nordestina Editora. Faz parte da coletânea Brasil; Entre Cordéis e Lendas/2021, Cartas de amor em versos de cordel/2021 e na Coletânea de cordéis infantis, Ciranda de Versos/2021 pela Central do Cordel, participa do livro: Alespe, Sertão e Poesia/2021 e 2023 pela Academia de Letras do Sertão Pernambucano e publicou no ano de 2021 a obra Meus Amores Minhas Dores, com o apoio da Lei Aldir Blanc. Em 2022 foi selecionada no Festival de Literatura de Cordel de Ibotirama.

O que te inspirou a começar a escrever?

Cresci ouvindo meu pai recitar partes de cordéis que ele havia ouvido na infância, isso foi definitivo para que eu começasse a me encantar com a leitura. Na escola sempre fui incentivada em relação aos meus escritos, então a união desse dois espaços fez nascer a leitora e a escritora.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Tenho uma escrita livre até o momento. Não me obrigo a escrever, dessa forma não há bloqueio. A poesia sim, muitas vezes me força a escrever. Surge pronta dentro de mim e com vida própria, então enquanto não a coloco no seu modo concreto, ela não se acalma, não me dá sossego. Rsrsrs.

Seu maior sonho como escritor(a)?

Publicar o meu livro de contos. É uma obra que vem surgindo também de forma livre, porém consistente.

Assunto preferido de escrever?

Como escrevo poesia, cordel e conto, tenho ai um leque amplo de assuntos. Na poesia falo muito sobre amor e dor, vida e morte, sonho e desilusão e crítica política e social.
Já na escrita do cordel vou mais para o lado biográfico, cordel didático, histórias com um certo humor, crítica política e social e estou ingressando na escrita infantil com dois cordéis, A pequenina Malu, e o mais recente, A menina gigante que queria ser pequena, esse traz uma temática de respeito às diferenças.
No conto, o imaginário tem me atraído bastante.

Um elogio para sua própria escrita?

Dinâmica, diversa e viva!

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Sim! O livro de poesia, Meus amores, minhas dores e 14 folhetos de cordel. Com alguns deles participei de uma antologia e várias coletâneas pela Editora Nordestina, Central do Cordel e ALESPE (Academia de Letras do Sertão Pernambucano).

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

Na poesia, situações extremas. Alegria, dor, multidão, silencio, êxtase.
No cordel, situações do dia a dia, homenagens, fatos engraçados, conteúdos necessários.
No conto, sonhos e flash.

Qual dos seus poemas mais te define?

Não chore. Um dos poemas que nasceu pronto e carrega em si a minha essência.

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

O fato de ter a liberdade de escrever no meu tempo me deixa tranquila. A necessidade de às vezes ter que obedecer a voz da poesia em alguns momentos, dá um pouco de trabalho. Tipo, acordar no meio da noite com uma poesia gritando para ser escrita e ter que obedecer, para só assim conseguir voltar a dormir.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Eu leio de tudo, é até complicado escolher uma única obra, mas o livro O mundo de Sorfia, do norueguês Jostein Gaarder, foi um livro que mexeu muito com as minhas ideias e permanece me fazendo refletir.


Um livro de Juliana Maciel

Nome da obra?

Meus amores, minhas dores.

Quando e em qual editora foi publicada?

Em 2021, pela editora Pinaúna com o apoio da Lei Aldir Blanc.

Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

Não. Eles vagueia entre amor e dor, vida e morte, sonho e desilusão e crítica política e social.

As poesias são divididas em fases nessa obra? Se sim, o que te motivou a fazer isso?

Não há essa divisão.

O que te incentivou a escrever esse livro?

Esse livro começou a ser escrito quando eu tinha 13 anos. Comecei a escrever poemas e não parei mais. E alimentava o sonho de um dia publicá-lo. Ele conta com poemas feito em diferentes etapas da minha vida. Acredito que os amores, as dores, a minha vivência em relação a tudo isso e a própria vida foram minhas inspirações.

É possível destacar uma poesia que mais se assemelha a seu cotidiano?

Estranha. É uma poesia que fala dessa coisa de ter a poesia viva dentro de mim, dando comandos.

A sequência dos poemas conta alguma história?

Não.

Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

Sim. O poema, Doses de ilusão traz de forma bem clara a minha insatisfação diante da situação política e social interferindo na cultural.

Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?

São personagens implícitos que sofrem e que gritam pelo direito de viver e de amar da maneira que quiserem, que se sentirem bem. Logo, sou eu, é você, somos nós. Além de relevância são de suma importância.

Qual a poesia mais marcante desse livro?

Doses de ilusão, por trazer à tona um dilema que vai desde o amor até o preconceito, racismo, a dor das minorias e o olhar velado da sociedade em relação aos menos favorecidos.


Rede Transvê Poesias lança Edital junto com sua 1ª. Antologia Poética

O edital “Mande Poemas” espera receber poemas de todo o Brasil

No último dia 2 de março, nosso editor, Toinho Castro, conversou no AoVivo Kuruma’tá, com Anderson Valfré, coordenador da Rede Transvê, sobre o edital Mande Poemas e ao lançamento da antologia As veias populares da poesia brasileira.

Assista à gravação do bate-papo e fique por dentro das ideias da Transvê e dos detalhes do edital e da antologia! Faça parte dessas iniciativas!


SAIBA MAIS…

A 1ª Antologia Poética da Transvê surge com o objetivo de expressar a particularidade de cada um dos 423 poetas espalhados por todo o Brasil que participaram da II Intervenção Poética Nacional em 2022 e, enaltecê-los com essa obra coletiva.

“As veias populares da poesia brasileira” é resultado da reunião dos escritos de poetas e poetisas brasileiras, que na instiga de ter seus poemas espalhados pelo país, compartilharam suas inspirações.

Esta obra busca valorizar a diversidade de escritos que compõem a literatura brasileira, enxergando a identidade poética para além do que se conhece através dos grandes e consagrados poetas do Brasil. O objetivo é expor o que há de mais novo, genial e desconhecido na expressão popular das diversas regiões dessa imensa nação, em sua diversidade de povos e culturas.

“Buscamos aqui o que há de diferente e inespecífico na diversidade de expressões, ritos, ditos e palavras que nascem da variedade de vivências e realidades espalhadas pelo solo brasileiro”, explica o idealizador do projeto, Anderson Valfré.

Sobre o Edital

Transvê Poesias ao longo dos 8 anos conectou mais de 500 pessoas por todo o país, chegando em 25 estados e partilhando mais de 14 mil garrafas poéticas gratuitamente. Com o foco na realização da 3ª.  Intervenção Poética Nacional, o evento que irá comemorar os 9 anos da rede, traz o tema: A ESPERANÇA NOS VERSOS DE UM BRASIL AMADOR, em homenagem ao bicentenário do nascimento do escritor Gonçalves Dias.

O evento promoverá encontros de pessoas, grupos, instituições e organizações em torno da poesia. O foco é sensibilizar o cotidiano brasileiro através de versos que irão poetizar as ruas, como também alimentar a esperança nos olhos e corações. Para isso, a Transvê lança o Edital – Mande Poemas no intuito de receber poemas de autores (as) diversos e

Regulamento – Representantes Locais, com o propósito de receber o cadastro de pessoas que queiram realizar a ação em sua cidade.

A participação é sem custo e os poemas são com temática livre, basta seguir as normas estabelecidas. Podem participar poetas e poetisas, de qualquer idade, habitantes de qualquer região do Brasil ou de outros países, desde que seus textos estejam em português brasileiro ou traduzidos para este idioma.

Os poemas selecionados serão colocados nas garrafas que irão compor as intervenções urbanas durante o evento que acontecerá de 13 a 30 de abril deste ano.

“Os parceiros que irão se cadastrar são de extrema importância, pois eles serão os Representantes Locais que conduzirão a realização da intervenção poética em suas cidades, juntamente com sua equipe, contando com a orientação da coordenação nacional da Transvê Poesias. Lembrando que pode se cadastrar pessoas acima de 16 anos, grupos, instituições, ONGS”, reforça Valfré

Ele lembra, ainda, que para participar do edital não é necessário ser um representante, bem como para ser representante não é preciso enviar poemas, porém, ambos são permitidos e fortalece a dinâmica coletiva do evento. É diante dessa rede, que a Transvê Poesias realiza mais este projeto com o objetivo de levar e ampliar o acesso à leitura, à escrita e à conscientização ambiental.

Todas as garrafas poéticas são sempre distribuídas gratuitamente ao público.

Inscrições e cadastros: 27/01 a 12/03/2023

Edital e Regulamento disponível no link: https://www.transvepoesias.com/editais2023

Coletivo Transvê Poesias
Venda Livro Impresso: https://loja.uiclap.com/titulo/ua27688/ 
Venda Livro Digital: https://sun.eduzz.com/1773178?cupom=leitorestransve

Contatos:
E-mail: [email protected]
Redes diversas: https://linktr.ee/transvepoesias

Nélida Piñon é a homenageada do Clube de Leitura do CCBB do Rio de Janeiro!

ALERTA CULTURAL KURUMA’TÁ!
Gente, no dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o Clube de Leitura do CCBB retoma as atividades com homenagem à gigantesca Nélida Piñon!

Foto de Simone Marinho

Repare nos detalhes!

Homenagem à Nélida Piñon inicia a temporada do Clube de Leitura CCBB 2023, cujo primeiro encontro acontece no Dia Internacional da Mulher. Antônio Torres, Lilian Fontes e, em participação virtual, Ana Maria Machado se unem para ler e lembrar Nélida, primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras. O livro da escritora, que morreu no final de 2022, a ser comentado no Clube será escolhido pelo próprio público, no Twitter do CCBB RJ (ccbb_rj), em enquete aberta entre os dias 16 e 17 de fevereiro. Estarão no páreo Sala de Armas; O calor das Coisas; e Um dia chegarei a Sagres. O projeto é patrocinado pelo Banco do Brasil. 

A plateia terá a oportunidade de ouvir um grande leitor e escritor, Antônio Torres, conversar sobre vida e obra de uma grande autora. Além de colegas na Academia Brasileira de Letras, Torres tinha por Nélida uma grande admiração e escreveu algumas vezes sobre sua obra. “Nestes ensaios, Torres diz que ela é um dos maiores nomes da literatura em língua portuguesa, em estilo e participação da memória histórica da América Latina”, reforça a curadora do Clube de Leitura CCBB 2023, Suzana Vargas. O Clube de Leitura contará também com a participação especial da escritora e professora Lilian Fontes, estudiosa da obra de Nélida, de quem Lilian era também amiga.

Mensalmente, o Clube de Leitura CCBB 2023 terá um convidado virtual. Nesta edição inaugural, quem marca presença é a acadêmica, romancista e jornalista Ana Maria Machado, colega de Nélida Piñon e Antônio Torres na Academia Brasileira de Letras, e que fará perguntas do telão aos convidados.

Nélida Piñon é um dos nomes mais importantes da ficção brasileira surgido nas décadas de 70/80 cuja obra, traduzida em mais de 30 países, continuou repercutindo neste século. Contista, romancista, cronista, conquistou vários prêmios nacionais, como o Jabuti e o APCA, e internacionais, entre eles o Prêmio Juan Rulfo (México), o Príncipe de Astúrias (Espanha) e o Prêmio Vergílio Ferreira, em Portugal.

Os encontros serão 100% presenciais e acontecem no Salão de Leitura da Biblioteca Banco do Brasil, localizada no quinto andar do CCBB Rio, de março a dezembro, sempre na segunda quarta-feira de cada mês, com entrada gratuita, mediante retirada dos ingressos na bilheteria do CCBB RJ ou pelo site bb.com.br/cultura.

“Nessa edição, o Clube de Leitura CCBB 2023 mantém seu papel de oferecer visibilidade a esse local e incentivar a leitura, mas também se propõe a estimular e promover a literatura em língua portuguesa de modo mais abrangente, com a inclusão de autores lusófonos de outras nacionalidades na programação”, conta Sueli Voltarelli, gerente geral do CCBB Rio. E complementa: “se em 2022 conseguimos reunir presencialmente mais de 500 pessoas e tivemos quase 35 mil acessos aos vídeos no canal do BB no YouTube, esperamos que em 2023 possamos expandir esse alcance, principalmente com a participação de mais escritores contemporâneos falando diretamente ao público sobre seu processo criativo, mas sem abrir mão daqueles clássicos que ativam as memórias afetivas e conectam as pessoas”. Em 2023, a programação do Clube volta-se também para as literaturas angolana, moçambicana e portuguesa, levando para o CCBB RJ autores mundialmente premiados, como Mia Couto e José Eduardo Agualusa.
“O objetivo é colocar nossos leitores em contato direto com a cultura lusófona, que está intrinsecamente ligada à nossa história enquanto nação. Os países escolhidos têm no português sua forma de expressão”, explica Suzana Vargas.

Já a produção literária das diversas regiões do Brasil será marcada, entre outros, pelas participações de Eliakim Rufino, Cida Pedrosa, Conceição Evaristo e Gregório Duvivier. Segundo a curadora do projeto, Suzana Vargas, um dos objetivos da programação é dar visibilidade e permitir que a plateia conheça ou reconheça a riqueza da produção literária brasileira.

A mediação é da curadora Suzana Vargas e o microfone será aberto para a plateia nos 30 minutos finais dos encontros. A gravação integral será disponibilizada no canal do Banco do Brasil no YouTube, na semana seguinte ao evento.


Antônio Torres, antes de chegar à literatura, passou pelo jornalismo, primeiro na Bahia, estado em que nasceu (Sátiro Dias, 1940), depois em São Paulo, onde migrou para a publicidade. Viveu três anos em Portugal e, por décadas, no Rio de Janeiro. Hoje, mora em Itaipava, na região serrana fluminense. Sua estreia literária se deu em 1972, com o romance Um cão uivando para a Lua, que causou um grande impacto, na crítica e no público. De lá para cá, publicou 19 livros, entre os quais se destacam a Trilogia Brasil (Essa Terra, O cachorro e o lobo, Pelo fundo da agulha), Querida Cidade, seu 12º romance, de 2021, e o livro de contos Meninos, eu conto. Sua premiada obra, que passeia por cenários urbanos, rurais e históricos, tem várias edições no Brasil e traduções em muitos países, da Argentina ao Vietnã. Torres é membro da Academia Brasileira de Letras – onde foi recebido por Nélida Piñon – e sócio correspondente da Academia de Ciências de Lisboa. 

Lilian Fontes. Escritora, com pós-doutorado em Comunicação e Cultura pela UFRJ, publicou mais de vinte livros no gênero contos, romances e biografias. Dentre eles, Santo Dia, Editora Record, 2002, que esteve entre os finalistas ao Prêmio Passo Fundo Zaffari & Bourbon de Literatura e do Prêmio Portugal Telecom; De olhos bem abertos, Editora Record, 2011, ficou entre os finalistas do Prêmio Casa de las Américas. Autora também de ensaios, perfis biográficos como o de Paulo Niemeyer Filho, do professor Ivo Pitanguy, da escritora Rachel de Queiroz, entre outros. Participação em sete coletâneas de contos; artigos em revistas acadêmicas, nacionais e internacionais; e em roteiros. Professora,vem ministrando cursos na área de literatura e audiovisual. Em 2000, na passagem por Miami (EUA), colaborou no Center of Latin-American Studies, da Universidade de Miami, dirigido pelo professor Robert Levine, como coordenadora do grupo sobre Cultura Brasileira; e atuou como vice-presidente do Centro Cultural Brasil-Flórida associado ao Consulado Brasileiro, como diretora da Biblioteca Nélida Piñon. Em 2020, participou do Festival Literário de Miami, na mesa sobre o romance Um dia chegarei a Sagres, de Nélida Piñon. Desde 2018, vem publicando poesias em coletâneas da editora In-Finita, de Portugal.

Suzana Vargas é poeta, ensaísta, escritora e professora e mestre em Teoria Literária pela UFRJ. Publicou 16 livros, entre os quais Caderno de Outono, finalista do prêmio Jabuti. Tem poemas traduzidos em países como Itália, Estados Unidos, Espanha, Alemanha e França. Fez a curadoria de importantes projetos literários para feiras e eventos nacionais e internacionais como as Bienais do Livro do Amazonas, do Rio de Janeiro e de São Paulo, a Primavera dos Livros, a campanha Paixão de Ler e os Encontros com a Literatura Latino-Americana do Centro Cultural do Banco do Brasil. Assina a coluna mensal “Escrever para Lembrar” no portal Publishnews – 2021. Há 27 anos criou e coordena o espaço de oficinas de criação literária Estação das Letras, único no país.

SOBRE O CCBB RJ – O Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro funciona de segunda a domingo, das 9h às 21h, no domingo, das 9h às 20h, e fecha às terças-feiras. Inaugurado em 12 de outubro de 1989, o CCBB está instalado em um edifício histórico, projetado pelo arquiteto do Império, Francisco Joaquim Bethencourt da Silva. Marco da revitalização do centro histórico do Rio de Janeiro, o Centro Cultural mantém uma programação plural, regular e acessível, nas áreas de artes visuais, cinema, teatro, dança, música e pensamento. O prédio dispõe de 3 teatros, 2 salas de cinema, cerca de 2 mil metros quadrados de espaços expositivos, auditórios, salas multiuso e biblioteca com mais de 200 mil exemplares. Os visitantes contam ainda com restaurantes e cafeterias e loja, e serviços com descontos exclusivos para clientes BB.

SERVIÇO:
Clube de Leitura CCBB 2023
8 de março de 2023
Às 17h30

Evento Gratuito
Classificação indicativa: Livre

Ingressos disponíveis na bilheteria do CCBB ou pelo site bb.com.br/cultura a partir das 9h do dia do encontro.

 

Areia Literária

Nossa amiga e parceira Tays Melo trazendo pra gente os talentos de Sonia Souza e Bianca Cruz. São vozes femininas de Areia, cidade do brejo paraibano.

Deixo agora a palavra com Tays, que nos apresenta essas duas talentosas areienses!


Cidade de Areia – PB | Foto de Tays Melo

Areia é uma pequena cidade do brejo paraibano onde mistérios percorrem como água da chuva, as fendas de seu calçamento torto, erodido e alisado pelo tempo.  A superfície de cada paralelepípedo brilha com os raios do sol logo no começo do dia. Não importa o quanto se emende as frestas das portas dos casarões antigos, tentando empatar os mistérios areienses de escaparem à luz do sol. Eles orientam fuga e nas fugas ouvimos sussurros, vozes altas ou até mesmo gritos de mulher. Debaixo das  árvores  nas estradas dos engenhos  ou nas ruelas estreitas da urbes as silhuetas entregam as insurgentes.

Sonia Souza é mulher negra, mãe solo, nascida no campo, na luta, independente, e mostra em seu texto apenas um grão de sua essência ao lembrar sua construção sensível em episódios de sua infância e adolescência.

Bianca Cruz é estudante, uma das melhores alunas de sua turma. Ela ama ler, já pensou em fugir, em escapar de mundos que a sufocam por ambicionar amor. Escrever e cruzar planetas, atravessar outras vidas, através de sua poesia que amor, medo e rebeldia que se derramam e inundam onde quer que ela vá.

Estas mulheres areienses experimentaram os doces, os caldos, a rapadura e o fel, que somente Areia pode oferecer à letra de dos poetas. 

Tays Melo

Poeta e escritora

Sonia Souza
Bianca Cruz

Sítio Velho

Por Sonia Souza

Sobre o lugar onde nasci e me criei ou fui criada, as primeiras lembranças são do barro e da lama. O capim molhado e a casa da minha avó que sempre tinha fumaça saindo pela chaminé, e um cheiro gostoso de café. Corríamos pelos terreiros, pois brincadeira não faltava, e vez enquanto uma busca nas jaqueiras, cajueiros, laranjeiras, mangueiras e tantas outras árvores frutíferas. Meia dúzia de cachorros magros nos seguia.

O tempo foi passando rápido e a chaminé da minha avó já não fumaçava. Éramos adolescentes em busca de novas aventuras e entretenimentos, como dançar sobre as folhas de eucaliptos nas latadas improvisadas, logo depois dos ritos religiosos como as entregas do cruzeiro de São João, da Queimação de Flores no mês maio, em homenagem a nossa Senhora.
Passei anos longe, mas voltei. Agora, tem muito mais casas. Já não são as mesmas. Alguns partiram para sempre. A alegria agora é mais contida.

Das melhores farras, lembro das farinhadas madrugadas a dentro, muita fofoca, risadas. Café e milho assado pra o lanche, beiju feito debaixo da farinha.

As manhãs de sábado eram movimentadas nessas estradas, o colorido de pessoas que iam rumo à feira na cidade, a pé ou nos burros que levavam o fruto do trabalho nos roçados. Eram tempos difíceis, mas ninguém desanimava. Eram longas as caminhadas a pé e o intervalo entre uma refeição e outra.

Pela vizinhança havia majestosos engenhos, onde era certo ganhar umas rapaduras e caldo de cana. De tudo isso, hoje só restam as boas lembranças e algumas taperas. Os burrinhos foram substituídos por carros e motos, e quanto aos roçados e farinhadas, foram igualmente esquecidos. Assim também aconteceu com os forrós em latada, cheirando a eucalipto. Estas coisas todas parecem não ter mais graça. Depois da tecnologia chegar por aqui, um celular com internet parece ter superado todo e qualquer outro tipo de interação social. Os costumes são outros. Apenas o barro e a lama são os mesmos.


Poesia

Por Bianca Cruz

Mais uma vez quero arrancar meu coração
Com minhas mãos
Quebrar meu externo
Com meus dedos
Expurgar de minhas artérias este órgão imprestável
Para quê serve o coração, afinal,
Senão para errar em decisão?
E se quebrar em centenas de pedaços
Que terei de recolher contra minha vontade.
Remontá-lo do início ao fim
Só para que erre de novo.
Levando a este ciclo sem fim.
Meu coração não tem pena de mim.
Por que então deveria ter pena dele?
Vou destruí-lo sem dó nem piedade.
Só espero não entrar no meu caminho
Durante o extermínio
Talvez seja ele que esteja tentando exterminar a mim
Manipulando-me em afins
de se redimir por seus erros
que não passam de meus erros.


Independência Poética: Gustavo Anjos

Gustavo Anjos é poeta, contista, autor do livro: “ Mergulhando nos poemas” . Baiano de Ibitira, atualmente reside em Caetité – Ba, graduando em Letras Língua Portuguesa e Literatura (UNEB), e é idealizador de algumas antologias. “ Sou feito de marcas, cicatrizes, desejos e pecados. Escrevo porque vivo, e a poesia vive em mim”.

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Gustavo Anjos

Gustavo Anjos é poeta, contista, autor do livro: “ Mergulhando nos poemas” . Baiano de Ibitira-Ba, atualmente reside em Caetité-Ba, graduando em Letras Língua Portuguesa e Literatura (UNEB), e é idealizador de algumas antologias. “ Sou feito de marcas, cicatrizes, desejos e pecados. Escrevo porque vivo, e a poesia vive em mim”.

O que te inspirou a começar a escrever?

Costumo dizer que a vida tem me espancando incansavelmente, e quem apanha sente dor, porém, nem todos querem nos ouvir, apenas julgar. Com este pensamento resolvi no entanto desabafar em folhas de papel. Como eu cito em um dos meus poemas: “uma folha de papel sempre será uma amiga fiel. Acho que a vida é isso, ela nos dão as pedras , e fica ao nosso critério se vamos ficar nos lamentando por encontra-las nosso caminho ou se vamos pega-las para construir algo produtivo. Confesso-lhes que estou cansado de ser espancado pela vida, mas mesmo assim sigo com uma vontade imensa de viver cada dia, cada momento nesta terra, e cumprindo minha missão que é escrever e tocar corações. Sinto-me agraciado em tocar almas através da literatura.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Penso que a poesia é como uma chuva, sem previsão. Ela surge do nada ou até mesmo naqueles momentos de dores. Algumas vezes as palavras tentam fugir, apenas tentam, porque quando vejo que elas estão tentando fugir pego livros de autores que me inspiram , como: Luana Andrade, Clarice Lispector, Pablo Neruda, Machado de Assis , entre tantos outros. Também gosto de ver a natureza quando as palavras me fogem a mente, pois a natureza é pura poesia , e se, apreciada com um olhar de delicadeza verás que os versos mais bonitos estão nelas.

Seu maior sonho como escritor(a)?

Meu maior sonho é que a poesia um dia seja mais valorizada, que todos os poetas sejam mais reconhecidos. Na sociedade moderna percebe-se que as pessoas não procuram escritores locais, mas sim famosos. Outro sonho que carrego comigo é de trabalhar em uma editora, e também espalhar meus escritos e dos escritores locais. Continuo sonhando…também pretendo abrir um blog onde visa valorizar a escrita LGBTQIAP+.

Assunto preferido de escrever?

Sou apaixonado por escrever sobre sentimentos, dor, amor, morte, ansiedade, depressão, racismo, homofobia, machismo, etc. Quando estou muito triste pego uma folha de papel e começo a escrever. Tem uma frase de minha autoria que sou encantado: “ quando a vida parece não ser bela visto-me de poesia.

Um elogio para sua própria escrita?

Vejo minha escrita como uma forma de inspiração , já que sou o segundo escritor Ibitirense a publicar um livro. E após lançarem meus escritos algumas pessoas passaram a me ver como uma forma de incentivo para continuar trilhando o caminho da arte. Acho que minhas poesias me revela por inteiro, revela quem de fato é GUSTAVO ANJOS. Mas afinal, quem é GUSTAVO ANJOS? Sou marcas, dores, resistência, sou desejo, sou pecado, sou anjo e também posso ser diabo. Sou tudo que existe neste universo imenso, não me classifique em nada, apenas sou.

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Sim! Publiquei meu livro: “ MERGULHANDO NOS POEMAS” , em( 2021). Tenho o desejo de participar de mais coletâneas e ocupar o meu devido espaço no mundo literário. Quero que um dia todos saibam quem é GUSTAVO ANJOS.

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

Tudo que há no mundo me inspira. O amanhecer, o entardecer. Essa confusão mental que carrego comigo me faz ser e virar poesia. Sou extremamente apaixonado pelo universo, apesar dos dias nublados eu amo a vida, eu viver, ver.

Qual dos seus poemas mais te define?

SE TU QUERES

Se tu queres fogo
Eu sou incêndio
Se estais com fome
Eu sou a comida
Se estais com sede
Eu sou a água
Se tu queres salvação
Prazer, sou o pecado.

— Gustavo Anjos

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

Creio que a parte mais difícil e enfrentar o mercado, pois as pessoas dizem que apoiam, aplaudem, mas quando lançamos um livro muitos arrumam desculpas para não comprar os exemplares de autores iniciantes. A parte mais fácil é mandar a tristeza ir embora quando escrevo.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

1+1: a matemática do amor. Um livro que me fez transbordar de emoção. E POESIA QUE TRANFORMA – Bráulio Bessa.

 


Um livro de Gustavo Anjos

Nome da obra?

Mergulhando nos poemas

Quando e em qual editora foi publicada?

“ MERGULHANDO NOS POEMAS “ foi publicado de forma independente pela gráfica Print livros, em Agosto de 2021.

Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

“ MERGULHANDO NOS POEMAS” reuni vários temas. Entre eles estão: gordofobia,machismo, racismo, drogas, dor, amor , violência sexual. Partindo da vontade de me libertar resolvi abordar os traumas que passei na minha infância e na adolescência.

As poesias são divididas em fases nessa obra? Se sim, o que te motivou a fazer isso?

Não.

O que te incentivou a escrever esse livro?

A pandemia foi um dos motivos que me fez adentrar neste universo imaginário , levando-me a gritar minha dor pro mundo. Um grande desejo de me libertar e inspirar pessoas.

É possível destacar uma poesia que mais se assemelha a seu cotidiano?

Sim, essa descreve tudo que vivi e vivo.

E se um dia a violência acabar…

E se um dia eu for espancado por ter expressado minha forma de amar
E se um dia eu for assassinado
Por ter um jeitinho afeminado
E se um dia a violência acabar
E se um dia a paz vim a reinar
Tenho fé que um dia iremos beijar
Sem o medo de alguém nos matar
Eu só quero libertar minha dor
E poder demonstrar meu amor

Todo o meu amor,
Todo o meu amor…

Eu só quero libertar minha dor
E poder demonstrar meu amor

Todo o meu amor.
Todo o meu amor…

Texto do livro: MERGULHANDO NOS POEMAS/ GUSTAVO ANJOS

A sequência dos poemas conta alguma história?

Cada verso, cada folha traz em si uma mensagem, um pedido de socorro, um sentimento. Usei essa ordem para que cada leitor sentisse a emoção que ele realmente passa.

Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

No meu poema: “O TERROR “ trago o descaso e a revolta pelos trágicos que foi proporcionado pelo governo anterior.

Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?

Eu escrevo sobre tudo que me toca. Os meus personagens são os meus vários EUS, pessoas como eu, minha família, meus amigos.

Qual a poesia mais marcante desse livro?

Um dos poemas que mais me marcou foi “ ANSIEDADE” que aborda o período conturbado que vivi.

ANSIEDADE

A ansiedade tenta me sufocar,
Uma dor no peito começa a apertar,
Ás vezes penso que vou morrer,
Mas é só ela tentando me atacar,
E a minha língua começa a enrolar,
As minhas pernas começam a travar,
O meu coração a disparar,
Um misto de sentimentos começa a surgir em meus pensamentos.
Ás vezes paro e fico a pensar,
Até quando essa dor vai durar.
Será que um dia vou me libertar?
Ou será que ela vai continuar a me maltratar?
Quem sabe, talvez um dia deixarei de sentir essa agonia.

Texto do livro: MERGULHANDO NOS POEMAS / GUSTAVO ANJOS

Poema de Felipe Tamuxi

Acabou nosso carnaval e estamos de volta com mais poesia. Hoje é a vez de Felipe Tamuxi, indígena da etnia Krenyê Timbira, paraense de Conceição do Araguaia/PA.


Foto de lubasi [ Sob licença Creative Commons ]

Jacumã

Todo dia
sobe o rio
ao amanhecer.
Na neblina
vai sua canoa,
lampião
aceso na proa.

Traz o peixe
do rio.
Traz o buriti.
Tem farinha
na cumbuca
e o açaí
sem açúcar.

Pescador
no remanso,
mestre
na aldeia.
Na canoa
é jacumã,
mas a vida
é de caceia.

Em cada ilha,
solidão.
Em cada brisa,
a saudade.
Na fogueira,
memória.
E no banzeiro
a verdade.

Em seu rosto,
o passado.
No falar,
o seu jeito.
Hoje é só,
já foi amado.
Só, leva a dor
no seu peito.


Felipe Tamuxi é indígena da etnia Krenyê Timbira, paraense de Conceição do Araguaia/PA, trabalha como professor de biologia em Mato Grosso, atuando em defesa da Educação Escolar Indígena e da Educação do Campo, da divulgação científica e da valorização cultural. Nos momentos de inspiração escreve poesias e contos retratando e valorizando a diversidade de culturas, de vivências e de lutas dos povos amazônidas e indígenas, mas o que exerce com maior devoção é ser pai; sempre dedicando tempo para contar e criar histórias para os filhos Wyana Manitsi e Théo Têky, sempre junto com a adorada companheira de vida, a esposa Ana Manitsi.

Andar com Gil, disco de Delia Fischer e Ricardo Bacelar

Texto de Toinho Castro

Hoje pela manhã, na nossa casinha em Vila Isabel, botei pra tocar a Delia Fischer, artista que admiro e acompanho o trabalho. Aí pus-me a pensar na riqueza do piano brasileiro, né?! São tantos nomes. Guimar Novaes, Luiz Eça, Arthur Moreira Lima, Nelson Freire, Chiquinha Gonzaga, Egberto Gismonti… e nessa longa e múltipla linhagem da beleza, está a Delia e seu piano. Que coisa boa.

E o disco em questão nessa manhã, aqui na vitrola digital, em Vila Isabel, chama-se Andar com Gil, álbum dedicado ao caminho espiritual na obra de Gilberto Gil, criado em parceria afinadíssima com Ricardo Bacelar. Ouvir o piano e voz de Delia e Bacelar, discorrendo sobre a leveza que Gil nos oferece, é adentrar um cenário de reflexão, de paz, de caminho aberto pra andar com fé. Sensação amplificada em contraste estimulante frente aos tempos conflituosos que temos vivido. É um disco esperançoso, que nos acorda para o fato de que o mundo não é “só isso que está aí”. Gil aponta para além nesse grupo iluminado de canções. Se oriente, rapaz!

Com vozes e piano gravados ao vivo, em estúdio, a harmonia de Delia e Bacelar é o fio condutor do disco. É o encontro de uma amizade, dois viajantes musicais, carregados de delicadeza e olhar minucioso sobre esse território comum a todos nós que é a obra de Gilberto Gil. Todo trabalho dessa natureza é, necessariamente, uma leitura crítica. No caso de Andar com Gil, é uma afirmação da contemporaneidade absoluta de Gil e sua espiritualidade., de como o seu espectro musical é abrangente, mesmo quando trata de um mesmo tema.

O disco é um presente da Delia e do Ricardo. Um presente generoso, de dois artistas completos, com trabalhos sólidos. Que tenham selecionado essas canções, se debruçado sobre cada uma delas com tanto gosto, com tamanho respeito e de maneira tão orgânica, é motivo de sobra pra que a gente dê play em looping em Andar com Gil. Cada audição revelará algo novo, de Gil, de Delia ou Ricardo, e de nós mesmos. Essa é a força desse trabalho, esse convergir para os aprendizados da alma.

A participação de Gil em prece, com o cello desse gigante que é o Jaques Morelenbaum, é simplesmente comovente. É como um farol que guia, que ilumina e que também se deixa estar à beira mar, sereno, terno e necessário. Lembrando a gente que o melhor lugar do mundo é aqui e agora.

Andar com Gil está disponível nas plataformas de streaming

1 – Oriente (Gilberto Gil)
2 – Se eu quiser falar com Deus (Gilberto Gil)
3 – Andar com fé (Gilberto Gil)
4 – Cada tempo em seu lugar (Gilberto Gil)
5 – São João Xangô Menino (Gilberto Gil/Caetano Veloso)
6 – Prece (Gilberto Gil)
com participações especiais de Gilberto Gil e Jaques Morelenbaum
7 – Palco (Gilberto Gil)
8 – Aqui e agora (Gilberto Gil)
9 – A Paz (João Donato e Gilberto Gil)