Independência Poética: Giulia Amendola

Nascida no Rio de Janeiro, Giulia Amendola é jornalista e trabalha como assessora de comunicação. Sempre soube que queria viver escrevendo. Aliás, faz isso desde que se entende por gente, primeiro através de diários, depois através de ficção pré-adolescente impublicável e, depois de adulta, através de poesias.

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Giulia Amendola

Nascida no Rio de Janeiro, Giulia Amendola é jornalista e trabalha como assessora de comunicação. Sempre soube que queria viver escrevendo. Aliás, faz isso desde que se entende por gente, primeiro através de diários, depois através de ficção pré-adolescente impublicável e, depois de adulta, através de poesias.

O que te inspirou a começar a escrever?

Primeiro, porque eu simplesmente precisava. Escrever se tornou uma ação fundamental para os meus dias, como se fosse uma válvula de escape, tanto para as coisas boas, quanto para as ruins. O pouco que eu lembro da minha vida sem escrever é quando eu ainda não sabia fazer isso de fato. [risos]

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Antes, eu me angustiava muito com isso. Hoje, entendo que é parte de um processo maior do que eu, muito ligado ao contexto do momento que estou vivendo. Meu bloqueio particularmente não tem a ver com falta de inspiração em si, mas sim com falta de tempo, o que me gera ansiedade. Daí a angústia e a falta de palavra na ponta da caneta. Pra mim, a escrita é um exercício diário, tanto quanto uma atividade física. Se tenho tempo, faço até quando não tenho vontade, pra não enferrujar. Este hábito foi primordial para que o carapuça nascesse.

Seu maior sonho como escritor(a)?

Eu acho que o meu maior sonho como escritora, até então, era lançar um livro físico. Agora que fiz isso, meu sonho é atingir leitores em diferentes cidades, pessoas fora do meu eixo comum.

Assunto preferido de escrever?

O cotidiano, as miudezas do dia a dia. A comida que a gente come, a poça que a gente pisa sem querer.

Um elogio para sua própria escrita?

Acho que a minha escrita é um respiro. E num mundo tão corrido, é importante lembrar de respirar (nem que esse lembrete sirva somente para mim).

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Sim, lancei o livro de poesias carapuça em janeiro de 2023. Está na segunda tiragem. Já foi enviado para mais de 15 cidades, mais de 4 países diferentes. É muito melhor do que eu jamais imaginei.

O carapuça reúne escritos dos últimos 10 anos, mas principalmente do que criei nos últimos três. São poemas que falam sobre amores, corações partidos e perdas, mas acho que, se desse para resumi-lo, acho que ele fala sobre esse processo louco que é se tornar adulto – e entender nosso lugar no mundo.

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

Qualquer coisa pode ser um “gatilho” para minha escrita. Algo que alguém me diz no trabalho, o latido diferente do meu cachorro, uma comida que comi, alguém que vi no ponto de ônibus, uma letra de uma música, uma história que alguém me contou. O ouvido fica atento a qualquer pequeno detalhe.

Qual dos seus poemas mais te define?

Sem dúvida alguma, “é de júpiter”, que escrevi em 2014 e está no meu livro.

“sábio foi alguém que uma vez disse
que a liberdade também aprisiona
porque o ser humano está preso em sua própria inércia
e por mais que se ache livre,
toda vez que estiver frente
a mais de uma opção
se corroerá na (in)decisão

posso enumerar
todas as coisas
que pensei que poderia ser:
achava, aos quatro,
que tocaria violão aos quinze.
com cinco, analfabeta
pensei que um dia leria
todos os livros da biblioteca da minha escola
e seis anos depois, achava que aos vinte,
que nem rimbaud,
já teria escrito duas das minhas obras primas.

é bem verdade
que nada me impediu
mas é que o século xxi me convenceu
que falta tempo.

eu queria é ser de júpiter
não conhecer as palavras, os discos
nem você.
queria ser de júpiter
aquele furacão famoso que dá para ver da superfície
a 10 mil anos-luz
queria ser de júpiter
ser tempestuoso e ainda assim atrair até luas;
queria ser de júpiter
ser conhecida
e não conhecer.

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

A parte mais fácil é buscar inspiração nos pequenos detalhes, nos retalhos da vida. Já a mais difícil é a exposição, o processo do julgamento. É daí que vem o nome do livro, inclusive. É claro que todo autor quer que os leitores se identifiquem de alguma forma com a sua obra, com os seus escritos. Mas eu morria de medo de que alguém tomasse as dores do que leu nas minhas palavras. Com o tempo, decidi que isso não podia mais me paralisar, muito pelo contrário: se a carapuça ia servir a alguém, que fosse.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Neste momento, só consigo pensar em “Corpo Desfeito” da Jarid Arraes e em “A pequena coreografia do adeus”, da Aline Bei.

 


Um livro de Giulia Amendola

Nome da obra?

carapuça.

Quando e em qual editora foi publicada?

Janeiro de 2023, de forma independente.

Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

É uma mistura do que a gente passa quando vai entrando na vida adulta… as angústias de reconhecer responsabilidades inadiáveis, de inícios e fins de relacionamento, o luto de perder entes queridos.

As poesias são divididas em fases nessa obra?

Não são…

O que te incentivou a escrever esse livro?

O que me incentivou a escrever carapuça, sem dúvida alguma, foi o fato de eu não conseguir mais adiar um sonho. Algo que parece que eu nasci para fazer. O incentivo foi aquela cosquinha dentro do peito.

É possível destacar uma poesia que mais se assemelha a seu cotidiano?

“acerta o sal”.

A sequência dos poemas conta alguma história?

Não. Eles não estão em ordem cronológica e se misturam em tema, essência e sentimento.

Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

Não. Apesar de acreditar que toda arte é política de alguma forma, seria extremamente prepotente da minha parte colocar o carapuça nessa seara. Acho que ainda é necessário um certo amadurecimento meu, enquanto artista, para me colocar nessa fundamental prateleira.

Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?

Não sei se essa pergunta se aplica.

Qual a poesia mais marcante desse livro?

Para mim, com certeza é a “é de júpiter”, citada na outra resposta.


Nossos robôs escritores

Por Diogo Mendes

Hoje, na Kuruma’tá, a gente recebe Diogo Mendes e sua crônica desses tempos contemporâneos, algorítmicos e robóticos. E o que será de nós? E o que será dos robôs?!

Diogo Mendes* é escritor e jornalista. Colabora para mídia brasileira e portuguesa. Tem lançado o livro de poemas, “emboloração”(2020) pela editora Chiado Books.


Fatalmente, somos uma espécie ultrapassada. Com o homem de Neandertal, aconteceu idêntico. Décadas ou séculos, tivermos sortes, tortuosos milênios, passando para as inteligências artificiais, abreviadas por IAs. Um conforto entre vizinhanças: o mesmo ocorrerá com elas, afinal toda Era tem seu começo, meio e fim. É difícil elaboração, que encabeçamos mais pro fim, menos pro começo, conquanto, como ninguém no meio, ignoramos todas as circunstâncias.

Já existem pela robótica e pelo algoritmo, equipamentos do dia a dia, âncoras de telejornais, animais de estimação, assistentes pessoais, atendentes operacionais, inclusive celebridade robótica que ameaça – em piada, mas ameaça – a humanidade. Estudos empenham para as navegações do espaço, seguranças das cidades e dos países, armas de guerras, outros estresses, protótipos para o mercado de sexo e por aí vai. Enquanto várias grandes máquinas inteligentes sabem, tudo que fazemos, até mesmo antes da escrita dessa urgente crônica.

A humanidade teve sua(s) chance(s). Fizemos coisas das mais sublimes e das mais horríveis. Erguemos muros e derrubamos ditadores. Concebemos conhecimentos transcendentais e religiões preconceituosas. Das artes, ampliamos nossa sensibilidade das mais diferentes maneiras. Das ciências, achamos maneiras de viver uma vida mais agradável, do prolongamento ao cotidiano. Das filosofias, aumentamos repertórios de dúvidas, como seres existenciais, não bloqueios, apenas citando algumas direções. Encontramos as mais diferentes substâncias extraídas da terra para nos ajudar na “civilização”. Afastamos do homem das cavernas, até os dias de hoje, embora algumas vezes, comportamos com a velha atrocidade.

Mesmo sem chacras, as inteligências artificiais, que tiverem autonomia, poderão ora farão seus poemas, romances, peças de teatro, porque não, crônicas?, etc. Próprios gêneros artísticos, como grandes medalhões. Tais figuras da escrita, a propósito rebelarão pelo status cool em cada período – muita coragem, muito interesse, coisas da antiga espécie – assim invenções de obras literárias. Mistura de esperanto com criptografia; tendo meio de mídia de alta produção que usa do textual, e que será unificado neste idioma, desses novos habitantes do planeta. Futuros sucedimentos, também nossos robôs escritores, tenham dores nas costas.

Foto: Visual Hunt

Irka Barrios

Hoje, na Kuruma’tá, a gente tem um trecho selecionado do conto O verão de 85, da premiada escritora gaúcha Irka Barrios, que prepara três novos livros e organiza nova coletânea; nas suas obras a autora evidencia as temáticas do corpo e da sexualidade das mulheres, enxergando a arte como expressão e luta, em sintonia com os horrores dos tempos atuais.

Hoje, na Kuruma’tá, a gente tem um trecho selecionado do conto O verão de 85, da premiada escritora gaúcha Irka Barrios, que prepara três novos livros e organiza nova coletânea; nas suas obras a autora evidencia as temáticas do corpo e da sexualidade das mulheres, enxergando a arte como expressão e luta, em sintonia com os horrores dos tempos atuais.

Irka Barrios [ Foto:  Oblíquo Imagens ]

“Como latinoamericanas, compartilhamos da dor e da violência, heranças da colonização (ou tomada) do continente.  São as mulheres que sofrem as violências mais covardes, sabemos. No Brasil não é diferente. Apesar de nosso país se manter um pouco afastado de nossos vizinhos (por motivos geográficos, culturais e por questões de língua), observamos expressões interessantes do horror produzido por mulheres como Verena Cavalcante, Paula Febbe, Larissa Prado, Juliana Cunha, Sinara Foss, Juliane Vicente, Andréa Berriell e tantas outras. São textos que se comunicam com os temas abordados pelas hermanas dos países vizinhos.”
Irka Barrios

O verão de 85 (trecho)

O caso era que havia, dentro do terreno de um próspero fazendeiro, um açude onde proliferaram peixes carnívoros. Ninguém sabia a origem e nenhum biólogo se interessou a estudar o fenômeno. Ou se interessou e não houve recurso da universidade. Naqueles anos não existiam muitas universidades, as informações eram precárias, os boatos corriam, assumindo um tom de verdade difícil de contestar. Uns diziam que eram criaturas escuras, de deslizantes corpos alongados e guelras pegajosas que se abriam ao largo, enormes, feito asas. Outros diziam que os peixes possuíam duas ou três camadas de dentes afiadíssimos e maxilares que se fechavam num encaixe perfeito, para nunca mais abrir. Alguns defendiam a teoria que os bichos nada mais eram que descendentes de um réptil pré-histórico que sobreviveu aos milênios evolutivos e encontrou as condições necessárias naquela água lodosa. E havia, ainda, os mais entusiastas, bairristas ao extremo, que insistiam que os bichos eram originários de uma cruza de peixe com cobra, uma espécie ainda não catalogada, exclusiva do açude do seu Darlan. Mas todos, absolutamente todos concordavam quando o assunto era o ataque das criaturas. Um desavisado que resolvesse pescar ou molhar os pés ali jamais sobrevivia. Os animais destroçavam o corpo em segundos. A coisa era tão feia que os parentes optavam por realizar os enterros com caixão lacrado.

Brincávamos naquelas terras, mas nunca nos aproximávamos do açude. Algumas vezes a curiosidade nos tomava de assalto e jogávamos pedras, a partir de uma distância bem calculada. Espiávamos de longe a movimentação da superfície, cada um com seu palpite sobre a forma e o tamanho das criaturas. Alimentavam-se do quê? Dos bois e cavalos que paravam para beber água? De pássaros, lagartos? Ou tinham reservas no corpo, como as cobras, que se alimentam e demoram meses digerindo a presa?

Era dezembro, início do verão de 85, quando nossa curiosidade tomou as proporções mais elevadas. Alguém contou para outro alguém que os peixes haviam destroçado uma nova vítima e que desta vez não havia restado um pedaço sequer. Devoraram tudo. Não poderíamos perder mais tempo, precisávamos ver, investigar, descobrir. Organizamos um grupo, juntamos pacotes de salgadinhos, duas garrafas térmicas com limonada, seis sanduíches de presunto e queijo, e montamos guarda nas proximidades do açude. Roubamos uma fita e medimos dez metros de distância a partir da margem. Sabe-se lá, talvez por conta de algum relato mais preciso, achávamos que os peixes conseguiam saltar essa distância durante o dia. Combinamos que a cada duas horas um novo olheiro deveria se apresentar no posto de observação. Mas o fascínio era tanto que ninguém queria arredar o pé da guarita improvisada. Só aceitávamos desmontar acampamento e ir para casa quando anoitecia. Vai que os monstros criassem patas e saíssem para se alimentar durante a noite?

Após quinze dias de observações frustradas, peles ardidas e rostos descascados pela onipresença do sol de dezembro, uma tempestade mudou o rumo de nossos trabalhos. Perdemos um dia inteiro de investigação e quando tentamos retornar ao local, o terreno todo havia se modificado. Um enorme pântano se formara, impedindo-nos de caminhar na direção do açude. Resignados, subíamos no portão da casa do seu Darlan e espiávamos a vasta extensão de terras alagadas.


A obra mais recente de Irka é “Júpiter, Marte, Saturno” (104 pág.), lançada em 2022 pela editora Uboro Lopes, que apresenta 14 narrativas que transitam no contexto “do fantástico, do invertido, do maravilhoso, do sobrenatural”, como define a escritora mineira Adriane Garcia, que assina a orelha.

“Foi a minha terceira escrita de romance, e a que resultou num livro com condições de ser publicado”, revela. “Já os contos são de diversas épocas, eu tentei unir os que melhor conversavam. O romance, em minha criação, veio primeiro, o conto depois. Mas o conto, a forma com que ele se manifesta, é mais natural em mim.” — Irka Barrios.


Irka Barrios (@irkabarrios) é Doutoranda em Escrita Criativa. Venceu os Prêmios Brasil em Prosa (Amazon/Jornal O Globo, 2015) e Odisseia da Literatura Fantástica (2022). Seu romance “Lauren” foi finalista do Prêmio Jabuti em 2020. Escreve para a Revista Ventanas, ministra Oficinas na GOG, atua no Coletivo Mulherio das Letras e é mediadora do Clube de Leitura Escuro Medo. Organizou as coletâneas “O Novo Horror”, “Vigílias”, “Tudo soma zero” e “In Corpa”.

Independência Poética: Samara Belchior

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Samara Belchior

Samara Belchior (1987) mora na Zona Leste de São Paulo, onde leciona na rede municipal de ensino. Foi aluna do CLIPE poesia (2021) e do Poesia Expandida (2022) na Casa das Rosas. Cursou licenciatura em história, licenciatura e bacharelado em filosofia. É autora de “bruxismo e outras automutilações” (Editora Urutau, 2022). Tem textos publicados em algumas revistas digitais e impressas. Se interessa por bruxaria, anatomia e coisas invisíveis. Tem dois gatos.

O que te inspirou a começar a escrever?

Não tenho um momento específico que marque o início da minha escrita. Desde que aprendi a escrever as primeiras palavras, fez muito sentido me relacionar com elas para expressar minha existência no mundo. Antes mesmo de aprender a escrever, as palavras faziam muito sentido sendo cantadas, a grafia das letras também.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Depende. Se estou envolvida com alguma pesquisa acadêmica, tento respeitar o movimento atual, do tipo de escrita atual com o qual estou lidando. É que percebo que às vezes não estou escrevendo poesia por estar entregue a outros tipos de processo de escrita. Para lidar com o bloqueio, em geral, ler poesia e prosa, ou seja, buscar inspiração, é uma saída. A troca com amigas escritoras próximas, o diálogo sobre o bloqueio é uma outra saída. Por fim, participar de oficinas, mini cursos ou recorrer a exercícios anteriores já utilizados, são possíveis outras saídas.

Seu maior sonho como escritor(a)?

Poder viver de arte.

Assunto preferido de escrever?

Há alguns temas comuns em minha escrita: corpo, processos fisiológicos e natureza. Não sei se tenho um assunto de preferência, de fato. Como minha formação percorreu história e filosofia, tenho a tendência de me deixar espantar pela vida, em geral.

Um elogio para sua própria escrita?

É estranha.

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Sim: “bruxismo e outras automutilações” pela Editora Urutau. Em breve vai rolar o lançamento de uma plaquete, pela Editora Primata, intitulada “ Para não ser de plástico quero ser bruxa”.

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

Processos fisiológicos corpóreos me impelem a escrever. Escrever é catártico para mim, me orienta na caótica existência no mundo, portanto meu corpo é o primeiro lugar em que a escrita aparece, antes de se transformar em palavra. Não é que seja só sobre a minha relação com meu corpo, mas com a forma como o entorno me chega, me afeta. Posso sentir um espasmo ao observar uma situação social na rua, uma fisgada na barriga numa conversa, um arrepio na nuca com uma música. O poema é um pré espaço vazio para elaborar o corpo e sua relação com o mundo. Escrevo a partir das angústias de ser um corpo no mundo.

Qual dos seus poemas mais te define?

Essa é uma pergunta muito complexa que não sei se vou responder corretamente mas, devo dizer, o poema que mais me define não é bem o que mais gosto e também: é circunstancial, talvez ele deixe de me definir.

autotrópode

as ecdises acontecem em silêncio
bicho com cobertura ao carboidrato não chora choro desidrata

(já se dizia, ser de açúcar faz precisar de capa)

de muda em muda se descobre conflito no próprio leito doendo no sono
esconde o que não sabe articular

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

A parte mais fácil é a catarse, especialmente quando chega um poema, um verso, uma palavra perseguidora e companheira, fica contornando os órgãos, borrifando sentido na vida. A parte mais difícil é deter-se racionalmente, com base em técnicas e recursos, na edição, na lapidação, mas essa parte também é boa, gera uma sensação de produção artesanal. A parte mais difícil ainda é entregar o escrito pro mundo. A parte mais difícil das partes mais difíceis é a ansiedade da recepção: como chegou no outro? E talvez não dê pra saber.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Não tem uma só e, surpreendente ou não, a prosa influencia bastante minha criação poética, assim como a filosofia e alguma literatura sobre história da medicina, biologia e morte. Na prosa Clarice Lispector me pega de jeito com “O livro dos prazeres”. Simone de Beauvoir me acompanha com sua filosofia existencialista de “O segundo sexo”. Adoro a produção de Caitlin Doughty sobre as práticas da indústria funerária. Na poesia é muito difícil estabelecer uma obra favorita, já que nos últimos dois anos me deparei muito de perto com autoras nacionais contemporâneas tão maravilhosas no CLIPE poesia da Casa das Rosas em São Paulo. Stella do Patrocínio e Alejandra Pizarnik são muito preciosas na poesia para mim.


Um livro de Samara Belchior

Nome da obra?

bruxismo e outras automutilações

Quando e em qual editora foi publicada?

2022. Editora Urutau.

Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

Corpo, processos fisiológicos, inconsciente.

As poesias são divididas em fases nessa obra? Se sim, o que te motivou a fazer isso?

São três sessões no livro: “matéria macia feita de pele deitada”, “ampliar os cortes para saber de que tecido é feito o eu” e “estruturas porosas”. Dividi nessas três sessões poemas que falam: primeiro sobre as angústias do corpo individual, segundo sobre esse corpo que dói em relação ao mundo e à vida em sociedade e terceiro aos respiros possíveis numa existência que carece de criação de sentido constantemente, apesar da consciência da finitude do corpo e do eu.

O que te incentivou a escrever esse livro?

Desde criança sonhei com um livro de poemas publicado. Ainda tenho comigo meu primeiro caderno de poemas, de antes dos dez anos de idade. Em 2021 e 2022 participei do CLIPE poesia. Trata-se do Curso Livre de Preparação de Escritores da Casa das Rosas, em SP. Ali pude dividir minha escrita com outras poetas e outros poetas contemporâneos e estar sob a supervisão de professoras e professores que me incentivaram a desenvolver o projeto com o qual ingressei no curso.

É possível destacar uma poesia que mais se assemelha a seu cotidiano?

Se a gente entender cotidiano como passagem do tempo, acho que há um poema sim, rs.

amonite

olhar os dentes
no espelho perceber as coisas envelhecendo dentro
são ossos comidos na maresia tempo e maresia comendo o corpo alimento às bolhas
então as rótulas desgastadas na idade das mulheres de balzac sentem ondas soprarem ossos ao encontro do areal
justa e precisa a maresia engole, lento e preciso o movimento ao termo.

A sequência dos poemas conta alguma história?

Não.

Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

Acredito que não ocorra de forma explícita, mas o posicionamento político é perceptível sim.

Qual a poesia mais marcante desse livro?

Não sei se posso responder isso, acho que depende muito mais da recepção do que da autora. Alguns se sentirão mais marcados por um ou outro poema, alguns não se sentirão marcados por nenhum. Depende da experiência das leitoras e leitores com os poemas.


Existirmos

Crônica de Toinho Castro


Para Caetano Veloso

De certa feita, estavam as amizades reunidas em um bar, à título de beber à vida e debater inutilidades. Passava das 10 da noite, a tal de 22h, quando alguém puxou o assunto ‘Deus”. E aí é lógico. Se Deus existe ou não existe. E isso é uma tremenda chateação em que as pessoas envolvidas, eventualmente, acabam se chateando. Porque tem sempre quem quer provar que Deus não existe e tem sempre alguém que acredita em Deus e compra o embate, parcelado. E argumentos banais voam de um lado para o outro da mesa, e nem sabemos se Deus tá assistindo de algum lugar. E isso é outra questão… se Deus existe, onde está Deus. Onde ele mora?! De onde ele dá os comandos e as linhas de código desse tumulto que é a existência humana?

Alguém mandou pra alguém em meio à balbúrdia regada a chopes que não paravam de chegar: Você já viu Deus?! Ao que o outro respondeu: Nunca vi! Mas você nunca viu a minha mãe e ela existe!

Normalmente qualquer argumento com mãe faz as pessoas mudarem de assunto. Menos se o assunto for Deus. O debate, se é que se pode dar a isso o nome de debate, prosseguia cada vez mais obscuro e emaranhado. Teve uma hora que não resisti: Minha gente… eu não sei nem se vocês existem. Ademais, pra discutir se Deus existe ou não, se faz necessária uma discussão prévia. Mas o que diabos é a existência?! Sem responder a essa demanda, não podemos discutir o que existe ou não existe.

Fez-se nervosismo na assembleia bêbada. De repente um louco pôs em cheque o direito de geral discutir se Deus existia ou não. Porque, afinal, ninguém sabia o que é a existência. Ou melhor, o que é existir. Era como ser de uma profissão que ninguém sabe onde se exerce, nem as habilidades requeridas ou mesmo o resultado do empenho. E eis que ali estávamos, sem saber sequer o que éramos, atrás de definir Deus. Perda de tempo que chama, né?! Talvez não.

Sou, pois, a favor dos altos debates. Sobretudo na mesa do bar. Mas também gosto de ser do contra. Gosto de discordar, como quem abana as brasas para avivar o fogo.

O que é existir, minha gente? — Perguntei. Eu existo? Uma vassoura existe? Deus existe como uma vassoura existe? Como uma lâmpada existe? Como uma cadeira num quarto fechado e sem testemunhas existe? Espere! Uma cadeira trancada num quarto vazio, onde ninguém pode vê-la, existe?! Quando eu era criança tive um amigo invisível. Que fique claro… invisível para os outros. Eu o via muito bem. Quando minha mãe perguntava onde ele estava eu dizia: Entrou no espelho.

Nada é garantia de que algo exista enquanto não sabemos responder a essa pergunta básica: Existirmos, a que será que se destina? ((Verso que abre a canção Cajuína, de Caetano Veloso, no álbum Cinema transcendental, de 1979))

De repente eram tantas dúvidas, tanta inconsistência, tanto devaneio, que a mesa aquietou-se. Então, um dos que estavam mais inflamados, deu um gole cinematográfico no chope, desceu a tulipa ruidosamente sobre a mesa e proclamou: Bem, pelo menos uma coisa é certa. Todo mundo um dia morre.

— Bem, eu não tenho tanta certeza disso… — Fala que provocou uma irritação geral.

Mas que diabos é “todo mundo”? Que entidade mágica é essa? Como é que a gente sabe que TODO MUNDO morre?! Eu sei, eu sei… tem aí um tempo médio de vida para o ser humano. Mas esse tempo varia, de acordo com as condições, com o país, com o grau de miséria e injustiça a que uma pessoa pode ser submetida. Depende do acaso, dos deslizamentos nos morros cariocas, do tifo, das sequelas da escravidão e também do ouro acumulado. Do sódio acumulado no organismo, dos embutidos. Mas e se no meio dessa confusão de gentes e estatísticas, alguém simplesmente não morreu?

Acho, inclusive, que li em Jorge Luis Borges que a morte é uma realidade estatística. Basta uma pessoa, em toda história humana, não ter morrido pra que a gente não possa mais dizer que todo mundo morre. Mas ninguém viu nem soube desse imortal, dirão os céticos à mesa. Pois bem, se fosse eu esse imortal, bem que ficaria caladinho, na encolha. Tal qual um Highlander, com um esquema muito bom pra enganar as pessoas e a receita federal. Tem aquele outro filme, O homem da terra, em que um professor revela às suas amizades, perplexas, que estava vivo há cerca de 14 mil anos. O filme é uma discussão sobre essa possibilidade. Sim, uma possibilidade. Dentre tantas.

Com a morte cessa a existência, dizem. Ou passa-se a existir numa outra condição. Talvez existir seja, proclamei à mesa exausta, a única condição.

Brindamos à existência. Brindamos a Deus, afinal. Ou adeus, como poetizou Miró. Não o pintor catalão, mas o pernambucano da Muribeca. Existindo ou não, seja lá o que for a existência, o Deus bíblico ou íntimo, feroz ou terno, homem de barbas brancas ou mulher radiosa, nos proporcionou uma conversa acalorada que avançou pela madrugada. Não fosse no Lamas, estaríamos já pelas ruas, inquirindo as árvores sobre a existência divina, ou mesmo a nossa. Sequer sabemos se as árvores sabem que existimos.

Mas a hora de cerrar as portas uma hora chega, mesmo pro Lamas. E o debate que se seguiu, ainda mais acalorado, foi sobre a divisão da conta. Valha-me Deus! Já do lado de fora, às despedidas, vimos as portas do Lamas descerem até o chão, e nos perguntamos se tudo o que estava ali dentro, que até uns minutos atrás compartilhávamos, ainda existia. Malditos bêbados. Já pra casa!

Enquanto nos afastávamos, cada um na direção do seu destino, como se algo tivesse rompido bruscamente a força gravitacional que nos matinha unidos, um de nós gritou, como quem quer ter a última palavra: Ninguém nunca viu um átomo!

A declaração foi recebida com uma sonora vaia e de alguma janela alguém fechou a noite com chave de ouro: Cala a boca, palhaço!

Quem quer que fosse, certamente existia. E deixou isso muito claro.

Caetano Veloso, 1972 – Imagem do Fundo Correio da Manhã (Arquivo Nacional)

Por onde anda a cena poética contemporânea de Alagoinhas?

Texto de LUCAS CARNEIRO — No curso dos últimos anos, algumas reflexões permearam com total intensidade pelo meu subconsciente, em especial aquelas que giravam em torno da cena poética do município onde resido desde a infância. Assim, levando em consideração o papel fundamental que a literatura desempenha em nossas vidas, ampliando o senso crítico, a sensibilidade e a humanização, indago: Por onde anda a cena poética contemporânea de Alagoinhas? Qual o panorama atual da poesia alagoinhense?

Texto de Lucas Carneiro

Nascido em Salvador – BA, possui 21 anos e atualmente reside na cidade de Alagoinhas – BA. É graduando do curso de Letras, Língua Inglesa e Literatura pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Desenvolve pesquisas sobre poesia moderna em expressão anglófona, com foco no processo de antropomorfização através da força da palavra poética.


I

No curso dos últimos anos, algumas reflexões permearam com total intensidade pelo meu subconsciente, em especial aquelas que giravam em torno da cena poética do município onde resido desde a infância. Assim, levando em consideração o papel fundamental que a literatura desempenha em nossas vidas, ampliando o senso crítico, a sensibilidade e a humanização, indago: Por onde anda a cena poética contemporânea de Alagoinhas? Qual o panorama atual da poesia alagoinhense?

Em meio a sociedade contemporânea gerida pela força da globalização e suas nuances objetivistas, é perceptível a presença de um completo distanciamento entre a atividade poética e a sociedade, ocupando, por assim dizer, um espaço marginalizado. Daí, como bem afiança Bosi: “vêm as saídas difíceis: o símbolo fechado, o canto oposto à língua da tribo, antes brado ou sussurro que discurso pleno, a palavra-esgar, a autodesarticulação, o silêncio” (BOSI, 1977, 143)1; situações duramente enfrentadas pelo poético como tentativa de se inscrever ante ao mundo moderno obnubilado pelo fluxo da reificação.

Esse topos do divórcio, como bem acentua Siscar (2010, p. 41) em seu ensaio sobre o discurso da crise na poesia moderna1, foi observado por Camões na estrofe 145 da sua magnus opus Os Lusíadas (1572), ao afirmar, em tom cético e descontente, que a lira se encontra completamente descompassada; e o poeta, por sua vez, exaurido, com a voz afônica de cantar a gente surda e endurecida. Nessa mesma perspectiva, o sujeito lírico do poema O poeta pras cadeiras (1970) de Zuca Sardan2 afiança que o bardo cumprimenta o seu público, entretanto, as cadeiras não podem sequer oferecer-lhe uma salva de palmas, pois estas se encontram completamente desocupadas e, mesmo possuindo braços e pernas, não há mãos a medir.

Tais situações constatadas por ambos os poetas se inscrevem com total força na contemporaneidade. Uma época desoladora marcada pela crisis, pela perda de prestígio e desvalorização dos discursos artísticos e ficcionais, cuja poesia, como uma maneira de cravar sua resistência frente ao presente cada vez mais indisponível, necessita se desdobrar a cada instante. Assim, de modo a superar alguns dos impasses gerados pela modernidade no que concerne o fazer poético, apontamos para uma necessidade de promover uma maior difusão, na esfera social, da cena poética contemporânea – visando não só expandir como também reconhecer alguns nomes dessa nova geração de bardos que através da potencialidade advinda das suas obras movimentam e contribuem para um maior enriquecimento do cenário literário/ cultural local.

Uma atividade que infelizmente ainda se apresenta timidamente no território municipal de Alagoinhas, pois a maior parte das atividades e projetos referentes à mobilização e divulgação da cena literária local tem sido realizada por parte de uma única instituição. Trata-se da Casa do Poeta de Alagoinhas (CASPAL)3, que com o apoio advindo dos seus membros e de alguns representantes do poder legislativo vem fomentando o lançamento de antologias, a idealização de concursos literários, e promoção de encontros e palestras visando uma maior difusão dessa nova legião de escritores do município baiano.

II

No dia 11 de agosto de 2022, a Casa do Poeta de Alagoinhas lançou a sua mais nova antologia intitulada Jovens Florescendo na Literatura (2022); livro que reúne cerca de 30 poemas e contos produzidos por jovens entre 10 e 18 anos. A idealização da obra surgiu após o I Concurso Literário Infanto-Juvenil promovido pela mesma instituição entre os meses de março e junho, que contou com o incentivo das redes públicas e particulares de ensino de Alagoinhas e região, e apoio de alguns escritores como por exemplo o satirense Luiz Eudes.

Neste sentido, em meio ao presente, onde as discussões referentes ao estado da literatura e dos discursos artísticos se apresentam cada vez mais frequentes, a propagação de tais eventos no meio social surge como uma maneira não só de estimular a produção literária e a prática assídua da escrita, mas também demostrar que a poesia, ou melhor, o discurso artístico em geral resiste; e sua resistência possibilita com que a cena literária contemporânea se apresente cada vez mais viva e diversificada. Diversidade esta que se torna perceptível quando levamos em consideração o poema intitulado Palavras não ditas (2022), escrito por Jorge Vieira de Carvalho, estudante de 17 anos da rede pública de ensino.

Palavras não ditas:

O silêncio às vezes fala mais alto que qualquer palavra
Presa dentro de mim e perdida aos olhos do erro
Entre dias vazios que me fazem refletir
Aquilo que um dia sonhei para mim.

Sou aquele que pensa e repensa.
Deixado ao vento e enganado pelos desejos da vida
Entre labirintos escuros sendo aquilo que um dia pensei que fosse
Entre palavras não ditas!
Sou aquele que renasce das cinzas.4

A obra que integra a coleção Jovens Florescendo na Literatura (2022), está estruturada em duas estrofes. A primeira caracterizada pela presença de quatro versos, e, a segunda, por cinco versos. Notemos que sua forma de composição é bastante simples, com esquema métrico organizado majoritariamente em versos brancos. Entretanto, é perceptível a presença de algumas rimas nos versos finais da segunda estrofe – entre as palavras ditas e cinzas – que concedem um ritmo e sonoridade ao poema.

Para tanto, adquirindo um tom confessional, a persona poética introduz a sua tessitura realizando algumas reflexões frente ao silêncio. Assim, descreve a sensação de quietude como um sentimento forte e um tanto quanto perturbador. A potencialidade dessa vivência íntima se torna percebível através da extrema capacidade do silêncio proferir, em tons altos, palavras que soam mais agudas que qualquer outra presa no seu interior, perdida aos olhos do erro.

Posteriormente, notemos que o eu lírico descreve os dias de monotonia como aqueles pelo qual as ponderações acerca dos seus anseios internos se intensificam. Sob esta perspectiva, é notório que há, ao longo dos versos da primeira estrofe, a presença de uma certa sensação de angústia intercalada a um contínuo estado de ansiedade; dois aspectos que saltam a vista e se concretizam mediante aos intensos pensamentos que permeiam incansavelmente pelo subconsciente da voz poética frente ao porvir.

Durante a segunda estrofe, o eu lírico afirma ser um sujeito coerente, que mantém sempre uma postura reflexiva a respeito de si e das coisas que estão ao seu redor. Deste modo, afirma que em meio a todas as inquietações íntimas, aos acontecimentos tormentosos, as situações pelo qual foi deixado de lado, aos enganos frente aos desejos da vida; entre os labirintos escuros e palavras (antes) não ditas, o mesmo, tal como a fênix que carrega em seu seio mitológico o arquétipo da imortalidade, ressurge das cinzas – expressão que surge como maneira de traduzir todo caos interior vivenciado pela persona.

Assim, tal como o renascimento do sujeito lírico de Palavras não ditas (2022), por via do tormento e da aflição, a poesia contemporânea, também incorporando o lado místico da fênix, ressurge com total ímpeto e vigor por intermédio das suas cinzas, ou, mais especificamente, do seu estado atual de crisis. Um aspecto que aponta para força da expressão lírica de Jorge Vieira, como também reforça a potencialidade da cena poética atual alagoinhense.

III

Para além do lançamento da obra Jovens Florescendo na Literatura (2022), é importante destacar o papel fundamental desempenhado pela CASPAL e seus membros no lançamento da antologia poética Bardos Baianos: Litoral Norte e Agreste Baiano (2022).

Em uma época desoladora marcada pelo fascismo e autoritarismo, onde a poesia moderna foi “compelida à estranheza e ao silêncio. Pior, foi condenada a tirar só de si a substância vital” (BOSI, 1997, p. 143), a obra reflete um trabalho magistral, desempenhado com extrema qualidade e dedicação. Trata-se de uma das maiores antologias poéticas realizadas em solos baianos nos últimos anos, tendo como principal objetivo fomentar o fazer poético na região – perpassando por diferentes cidades de modo a valorizar cada vez mais essa nova geração de bardos, além de ampliar os diálogos entre os demais escritores que, através da qualidade advinda das suas obras, contribuem para um ainda maior engrandecimento da literatura baiana.

O projeto idealizado por Ivan de Almeida, coordenado e articulado no território do litoral norte e agreste baiano por Luana Cardoso e Vanessa Paz, contou com a participação de 50 poetas, sendo 38 naturais da cidade de Alagoinhas. Um número que aponta para a extrema vitalidade da atividade poética no município1, com pessoas empenhadas na produção de poemas que transitam entre os mais diversos estilos; ecoando suas vozes através das múltiplas temáticas contemporâneas que possibilitam o sujeito a refletir cada vez mais sobre si, o mundo e as coisas que se encontram ao seu redor – como é o caso do poema Habitar (2022) de Madrilena Berger:

Habitar

Habitar
O mar, sol, areia, sereia.
Cavalo alado marinho cor do ninho.
Baleia maior mama sem dor.
respirar por espiráculo.
Constante choque no tocar,
Peixe elétrico neutralizar no fundo do mar.
Asa aberta metro tentáculos.
Água viva cnidoblastos,
Lança vítima alimentar.
Busca constante sobreviver,
Não encontra ar puro,
Procura água límpida, encontra lodosa, fétida.
Economia faz destruição do próprio ninho,
Chamada terra, seres em extinção, ó homem cão! [^5}

Notemos que a poeta situa sua tessitura numa questão bastante atual, cujas discussões ao longo dos anos têm sido fortemente intensificadas frente ao contínuo processo de degradação ambiental. Realizando uma espécie de eco crítica – aspecto que marca presença também na lírica de outras poetas como Adélia Prado – a voz poética, ao longo da sua obra, aponta para os reflexos da ganância exacerbada do sujeito humano e suas trágicas consequências a mãe natureza. Com relação a sua forma de composição, é perceptível que o poema está organizado em uma única estrofe que se caracteriza pela presença de quinze versos. O esquema métrico está estruturado majoritariamente em versos brancos; entretanto, se faz visível, ao longo do corpo textual poético, a presença de algumas rimas internas que concedem uma sonoridade ao poema.

Deste modo, o eu lírico introduz o seu poema com a presença de um verbo que segue o mesmo título do poema: habitar. Habitar surge como um desejo profundo da persona em residir nas belezas que compõe a mãe natureza: o sol, o mar, a areia. Notemos, ainda levando em consideração o seu querer, que a voz lírica evoca alguns seres mitológicos, como por exemplo a sereia e o cavalo arado marinho – o último, visto como uma espécie de fusão entre Pegasus e Hippocampus.

Adiante, oferece algumas imagens de animais marinhos, como por exemplo a Baleia maior, vista nesse contexto como uma referência direta a baleia azul – mamífero marinho que se encontra ameaçado de extinção devido as caças comerciais. O peixe elétrico que produz descargas elétricas como uma maneira de neutralizar seus predadores e, acima de tudo, escapar de qualquer tipo de ameaça. Como também a água viva, que com seus cnidoblastos (pequenas células que se encontram presentes nos tentáculos como uma forma de autodefesa) lança vítima alimentar.

Nos versos seguintes, os reflexos do comportamento humano frente a mãe natureza se intensificam. Em vista de tais tensões, a voz lírica afirma que os animais que compõe o nosso vasto ecossistema lutam constantemente para sobreviver. E, frente ao contínuo desmatamento, exploração e poluição, aspectos responsáveis pelos impactos destrutivos ao meio ambiente, os seres vivos não encontram ar puro para manter sua vitalidade. Assim, os animais marinhos buscam constantemente águas límpidas para sobrevivência, diversidade e reprodução, entretanto, devido a cruel força das ações humanas sob o meio a natureza, encontram apenas lodosas e fétidas.

Por fim, a persona poética finaliza sua tessitura afirmando que a economia faz destruição do próprio ninho chamado terra. Nesses versos, se faz visível a presença de uma crítica direta ao capitalismo e suas nuances objetivistas, responsáveis por acelerar cada vez mais o processo de reificação – fazendo com que o ser humano desenvolva comportamentos opostos à sua condição humana, adotando uma postura objetivista e empedernida com si e as coisas que estão ao seu redor. Para tanto, o poema Habitar de Madrilena Berger, intervindo de modo direto na realidade social no qual estamos inseridos, se dispõe a nos alertar, por via da força catalisadora dos seus versos, a respeito do comportamento cruel e desumano que desempenhamos constantemente para com a mãe natureza, que oferece elementos essenciais para sobrevivência humana.

IV

Em tons de considerações parciais, este ensaio orbitou em discutir a respeito da cena poética contemporânea alagoinhense, tendo como objeto de análise dois poemas que integram duas antologias lançadas recentemente em solo baiano. Deste modo, se torna perceptível a presença de uma certa vitalidade e diversidade da atividade poética produzida no território. Entretanto, constata-se também uma dificuldade por parte das autoridades6 em proporcionar uma maior divulgação da cena poética/literária local, bem como oferecer um apoio aos autores que movimentam o panorama cultural do município através das suas produções.

Isto posto, num país nebuloso rasgado pela opressão, desigualdade e autoritarismo, a poesia se faz extremamente necessária para resistirmos ante aos tormentos da realidade e suas amarras dispostas no cotidiano. Ao considerar tais fatores, entendemos, tal como acentua o poeta e ensaísta Antônio Brasileiro (2012, p. 145)7, que não é dever da poesia promover a salvação: “A poesia, é claro, não salva coisa alguma. Nem está aí para isto.” Mas sim conceder, por intermédio da força catalisadora da palavra poética e sua capacidade reveladora, um sentido direto à vida ao possibilitar intensas aproximações humanizantes – intervindo de modo crítico na realidade e práticas sociais cotidianas.

 


1. BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Editora Cultrix, 1997

2. SARDAN, Zuca; DE HOLLANDA, Heloísa Buarque. O poeta pras cadeiras. In: 26 poetas hoje. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 2021.))

3. A Casa do Poeta de Alagoinhas (CASPAL)

4. CARVALHO, Jorge Fernando Vieira. Palavras não ditas. In: Jovens Florescendo na Literatura: I Concurso Literário Infanto Juvenil. Alagoinhas: CASPAL, 2022.

5. BERGER, Madrilena. Habitar. In: Bardos Baianos: Litoral Norte e Agreste Baiano. Salvador: Editora Cogito, 2022.

6. No ano de 2022, a câmara municipal de Alagoinhas através das vereadoras Jaldice Nunes e Juci Cardoso, concederam aos escritores locais a medalha Maria Feijó em reconhecimento as grandes contribuições advindas das suas obras para um maior enriquecimento do cenário cultural e literário local.

7. BORGES, Antônio Brasileiro. Da Inutilidade da Poesia. Salvador: Editora EDUFBA, 2012.


Independência Poética: Thainá Carvalho

Independência Poética é uma série de entrevistas realizadas por LORENA LACERDA

Poeta de hoje: Thainá Carvalho

Thainá Carvalho é escritora e colagista sergipana. É criadora da Revista Desvario, uma publicação digital sem fins lucrativos voltada à difusão da literatura contemporânea criada por mulheres. Lançou, pela Editora Penalux, os livros de poesias As coisas andam meio desalmadas (2020) e O Amor em breve anatomia das horas (2021). Organizou, com Amanda Reis, a antologia de poetas sergipanas Passos da pedra ao mar. Já publicou em revistas e portais como toró editorial, Jornal Rascunho, Portal Não Me Kahlo, Ruído Manifesto e A estranhamente.

O que te inspirou a começar a escrever?

Escrevo desde adolescente. A escrita pra mim sempre foi um encontro comigo mesmo e com o que sou capaz de fazer, especialmente em um momento completo como esse de transição para a vida adulta. Durante algum tempo, entre meus 18 e 24 anos parei de escrever por completo pois achava que jamais seria tão genial como escritores renomados e, naquela época, enxergava a escrita como essa espécie de dom que você tem ou não tem. Retornei a esse processo de escrita ali pelos 25 anos, inspirada por mulheres escritoras contemporâneas. Acompanhar o trabalho dessas mulheres me fez enxergar a escrita como algo possível e real, acessível a todas as pessoas enquanto fruto de estudo e prática.

O que você faz quando percebe que está com bloqueio para novas poesias?

Insisto na escrita pois acredito que qualquer resultado vem por meio da prática. Embora diversos fatores possam contribuir para um “bloqueio”, como cansaço, preocupação, insegurança etc., acredito que se permitir escrever apenas quando “bate a inspiração” limita o próprio processo criativo a um fator externo que estaria fora do nosso controle. Temos que dominar nossa escrita, entendê-la, estar com ela quanto estamos bem ou não. A palavra pode ser nossa melhor companhia.

Seu maior sonho como escritor(a)?

Conexão. Acredito que já realizei esse sonho por meio dos meus leitores. A cada retorno que recebo de alguém que se identificou com minhas palavras, sinto que minha escrita cumpriu sua função de ser abrigo para alguém.

Assunto preferido de escrever?

Confesso que não tenho um assunto preferido. Gosto de variar temas e, com isso, diversificar métodos da escrita poética.

Um elogio para sua própria escrita?

Mergulho

Já publicou algum livro? Quais? Caso não, tem planos?

Meu primeiro livro de prosa poética, Síndromes, foi publicado de forma independente e digital e pode ser obtido gratuitamente aqui. Posteriormente, publiquei dois livros físicos de poesia pela Editora Penalux: As coisas andam meio desalmadas (2020) e O Amor em breve anatomia das horas (2021). Publiquei também uma zine digital gratuita, Na tua boca estrangeira, que pode ser baixada aqui. E organizei, em 2021, a antologia de poetas sergipanas contemporâneas Passos da pedra ao mar.

Quais inspirações do cotidiano despertam sua escrita?

De tudo um pouco. Gosto muito de observar os pequenos momentos, tanto meus quanto de outras pessoas, pois acho que cabe muito sentimento naquilo que é simples.

Qual dos seus poemas mais te define?

Acho que cada poema me define um pouco. Fui muito impactada por uma fala de Audre Lorde, que está no livro Irmã Outsider, onde ela explica a poesia como uma forma de dar nome àquilo que nem sequer sabíamos que tínhamos dentro de nós. Esse processo acontece muito comigo, de me reconhecer no resultado de um poema.

Qual a parte mais fácil e mais difícil da escrita para você?

Para mim, essas partes são complementares. A parte mais difícil é a reescrita dos poemas. Revisitar e refazer versos para escrever um poema melhor. A parte mais fácil é o início de tudo, sentir a primeira palavra, a primeira forma, a primeira escrita do poema.

Qual sua obra favorita de outro autor(a)?

Não consigo definir uma obra específica, mas os livros da escritora mineira Mell Renault sempre me encantam.


Um livro de Thainá Carvalho

Nome da obra?

O Amor em breve anatomia das horas

Quando e em qual editora foi publicada?

Publicado em 2021, pela Editora Penalux

Existe um tema central nos seus poemas/poesias? Qual?

A obra conta a história de amor de uma vida em um período de um dia. Nesse contexto, os poemas falam sobre o amor no cotidiano de um casal, ao longo de sua vida.

As poesias são divididas em fases nessa obra? Se sim, o que te motivou a fazer isso?

O Amor em breve anatomia das horas se divide em cinco partes: noite, madrugada, manhã, meio-dia e fim de tarde. São cinquenta poesias que se espalham ao longo dos períodos de um dia para contar essa história de amor de uma vida inteira. Essa divisão foi pensada para mostrar como o amor relativiza o tempo. Quando amamos, o tempo parece passar rápido demais ou cada momento pequeno se demora com a gente para sempre. Quis usar a poesia e forma de organização dos poemas para dissecar esses sentimentos, essas sensações paradoxais que se complementam.

O que te incentivou a escrever esse livro?

Ainda não tinha me dedicado de forma mais intensa à escrita de poemas de amor, de forma que quis mergulhar nessa temática e achei que a melhor forma de fazer isso seria me dedicar a um projeto de livro.

É possível destacar uma poesia que mais se assemelha a seu cotidiano?

O poema História de uma casa, pois acabo me mudando com certa frequência. Transcrevo abaixo:

História de uma casa

É preciso abrir as janelas
molhar de luz
as pálpebras 
e as esperas.

É preciso abrir os espaços
esvaziar os quartos
e as cantigas das estantes
– vida que flui
rio enchente vazante.

É preciso abrir céu nas paredes
e toque nos corpos d’água
para alimentar um interior de concreto
– a arquitetura empoeirada do ser.

É preciso abrir as tempestades 
nas gavetas e nos armários
deixar que chova
inundação de si
em todas as quinas
cheiro de si
em todos os canos

deixar um sentir qualquer na casa dos outros.

A sequência dos poemas conta alguma história?

Sim. Como expliquei anteriormente, acerca das divisões do livro, elas trabalham o tempo de um relacionamento amoroso do início ao fim da vida do casal.

Existe algum posicionamento político ou cultural na obra?

Temas políticos específicos não foram abordados, mas penso na história do livro como uma demonstração de resistência no amor. Resistir no amor é uma escolha política.

Qual a relevância dos personagens implícitos/explícitos da obra?

São duas personagens de fácil identificação para quem já se viu em uma situação de paixão e amor. Acredito que elas permitem uma conexão intensa com o leitor.

Qual a poesia mais marcante desse livro?

Acredito que seja a poesia que dá nome ao livro, que transcrevo abaixo:

Distância

Tenho que lhe contar
dos minutos lagarteando ao sol,
eram pequenos e breves
e verdes
brilho mágico de amansar incertezas
na calma do ficar
só ficar
e perceber a expansão do mundo
no abraço de dois seres
no sorriso fruto escorrendo pela boca
para se plantar no chão, nas pedras
onde quedam os segundos
tomando luz.
Tenho que lhe contar
do que vejo, sendo tudo seus olhos
pois longe é muito longe sem você
e arremedo seu pensar e seu dizer:
– esse tempo se iluminando assim
é coisa da sua cabeça
que adoro.
E você ri daí mesmo, eu sei
preenchendo a superfície que se estende entre nós,
seu colo quente tocando miudezas no meu cabelo
enquanto observamos o dia e o amor
em passagem anatômica das horas.


UMA CARTA ABERTA

de Kleber Mendonça Filho —


Para a Sra. Governadora Raquel Lyra
Sra. Renata Duarte Borba, Presidenta da Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco – Fundarpe.
Sr. Silvério Pessoa, Secretário de Cultura.
Amigas, amigos e colegas do audiovisual,
Conselhos do Audiovisual e de Cultura
Vereadores, Deputados que lutam pela Cultura. Bom poder compartilhar isso com todas vocês.


Uso esse espaço para externar algumas preocupações com o Cinema São Luiz. A nossa grande sala na Rua da Aurora fechou para uma reforma em julho do ano passado, ainda no governo do Sr. Paulo Câmara, e já estamos chegando em abril na vossa administração sem que existam informações concretas sobre a reabertura do São Luiz.

Quando o São Luiz reabre?

Nos últimos dias, circula a informação confirmada de que uma parte importante da valiosa equipe que cuida do Cinema São Luiz foi demitida. Essa equipe é composta por João Bosco, Miguel Tavares, Arthur Abdon, Arthur Frederick (Tuca), Gustavo Coimbra, Eliane Muniz, Bruno Alves, Joyce Suelen, Wilma Carvalho, Maria das Graças, Ione Jesuina, Inaldo Inácio, Alexandre Amorim, Luiz Gustavo Fernandes, Adriano Mota e Edmilson Severino de Barros.

Foram quatro demitidos da equipe principal. Três colaboradores dos serviços gerais foram supostamente transferidos para a Casa da Cultura, e há ainda a possibilidade de um corte de 50% nos vigilantes.

Em janeiro, já nesta gestão, o programador Luiz Joaquim, profissional de competência reconhecida nacionalmente, foi exonerado.

Luiz Joaquim substituiu Geraldo Pinho, que fez um trabalho histórico no São Luiz ao longo da última década. Geraldo esteve à frente dessa equipe que está agora sendo desmontada.

Geraldo Pinho faleceu em dezembro de 2021, uma perda trágica para o audiovisual pernambucano. Era um formador de público, assim como Luiz Joaquim, também um formador de público. Formar, seja numa escola, numa orquestra ou num cinema, passa por generosidade e senso de cidadania.

O aparente desmonte dessa grande equipe do São Luiz é perturbador. Quando em 2006 o SL deixou de ser uma sala comercial do Grupo Severiano Ribeiro – que inaugurou o cinema em 1952 – e foi adquirido pelo Governo Eduardo Campos no final da década de 2000, os desafios eram grandes. Como manter uma sala de mil lugares no centro do Recife, na era do shopping center e do multiplex?

A resposta foi construída aos poucos, e sem jamais seguir uma lógica de mercado, pois não seria nunca o caso. O São Luiz é um outro tipo de espaço, é um investimento do estado num nascedouro de idéias, um espaço de convívio que inspira o respeito à história da cidade e do Cinema. É um prédio histórico.

Esse cinema virou palco e tela para o cenário audiovisual pernambucano e a sala sozinha vendeu perto de 100 mil ingressos em dez anos somente para filmes produzidos em Pernambuco, filmes em lançamentos comerciais. Até antes da pandemia, o São Luiz era um caso já sendo estudado e observado, um micro clima isolado com uma programação aberta para o mundo, para a Cultura do Brasil e para o Cinema feito em Pernambuco.

Importante destacar que os equipamentos de projeção e som do São Luiz, com projeção 4K anos antes de o termo virar padrão técnico reconhecido, é melhor do que a maior parte das salas comerciais que cobram ingressos quatro ou cinco vezes mais caros nos shoppings.

Nos segundos semestres dos últimos 12 anos, uma sequência de festivais e mostras de audiovisual, realizados por produtoras e produtores pernambucanos, em grande parte incentivados pelo Funcultura, trazem grandes públicos para ver centenas de filmes. Com diversidade e um olhar democrático para a sociedade.

Cada festival tem a sua própria rede de trabalhadoras e trabalhadores da cultura, cada um tem seu público, e há um público que parece frequentar todos os eventos, interagindo com cineastas de todo o Brasil e do exterior que vêm ao Recife para estar no São Luiz.

Quais os ganhos de sociabilidade e cidadania para uma cidade como o Recife ao vermos mil pessoas saírem do São Luiz para a Rua da Aurora numa das suas sessões, com outros mil espectadores esperando a próxima sessão? E no centro da cidade, uma área que ainda aguarda o respeito que merece para além das estruturas temporárias do carnaval.

Observo ainda que, num carnaval tão maciçamente filmado e fotografado, a fachada do edifício Duarte Coelho acima do São Luiz – totalmente degradada – expõe o nível de abandono que não mostra preocupação nem com a cosmética de um centro de cidade que recebe visitas do país inteiro.

Essa equipe que está sendo desmontada é milagrosa porque desde que o São Luiz passou a ser uma sala pública via Governo de Pernambuco, falta um pensamento consistente de sustentação desse cinema como projeto de Cultura e espaço de investimento, algo que precisa ser resolvido o quanto antes. Isso significa que as deficiências e obstáculos do dia a dia do cinema caem nos ombros dessa equipe que ama o São Luiz e que, de fato, opera milagres.

Às vezes eu acho que o São Luiz, e o trabalho ali feito, impressionam tanto que muitos parecem achar que esse cinema é mágico, que vive de oxigênio e anda sozinho. O São Luiz é como uma pessoa idosa, que exige cuidados especiais, que precisa de dinheiro para sobreviver, que precisa de respeito e de amor. A equipe é toda formada por excelentes cuidadores que amam aquele lugar. Demitir a equipe é como uma punição para uma boa ação.

O que significam as demissões desta semana? Arthur Frederick (Tuca, trabalhador da bilheteria) gravou mensagem de video sobre o seu trabalho no São Luiz durante 12 anos, postado no YouTube. Suas palavras traduzem sentimentos complexos.

Como cidadão, eu imagino os desafios que existem num novo governo. E sei que há um pensamento corrente de que a Cultura fica em segundo plano quando comparada à Economia, à Saúde, à Segurança e à Educação. Isso me parece uma compreensão equivocada. Em Pernambuco, a Cultura é um tesouro de valor inestimável para o estado. A Cultura molda a imagem desse estado e manifesta-se em todas essas áreas ditas prioritárias. A Cultura é Economia, Saúde, Segurança e Educação.

A escrita desta carta tem o objetivo de lhes perguntar o que exatamente está acontecendo com o Cinema São Luiz?

Quais os planos?
Qual a data de reabertura?
Quais a ideias para a Cultura em Pernambuco nessa nova gestão?

Como se dará um diálogo com os que fazem o audiovisual em Pernambuco, reconhecido dentro do próprio São Luiz, no Brasil e internacionalmente? No último mês de setembro, o São Luiz completou 70 anos, e de portas fechadas.

Agradeço a atenção e lhes escrevo como Cidadão e Artista pernambucano, Roteirista, Cineasta e Formador de Público programando filmes.

Kleber Mendonça Filho

Cinema São Luiz, Psicose de Hitchcock. Foto Tiago Calazans.
Cinema São Luiz, Psicose de Hitchcock. Foto Tiago Calazans.

A Dança do Amor 

Texto de Ana Egito —

Foto de Ana Egito

O quarto esconde muitas histórias desses corpos que não se desgrudam mais, e na ausência deles, denuncia o cheiro que exala entre cada canto que desenha contornos e nuances que se movem na sintonia do vento adentrando a janela, as portas, os espaços onde cabe tudo que inspira e não sai. 

Fosse a morte visitante inesperada, não se atreveria a resgatar corpos inseparáveis, seria ela abatida pelo prazer de se sentir leve e solta demais, a liberdade é transparência de todas as cores que reluzentes, encantam até os olhares mais frios, inveja de quem vê e não tem, inebria o bem de amar, castiga o fogo de acender e não se apagar, fonte de prazer, cobre-me por todos os desejos do bem de se dar e receber o gozo do prazer.  

Pra sempre é tempo longe, demais se desfaz por ser advérbio de intensidade, agora, advérbio de forma recente, convém com todas as formas, tempo, mágica surpresa, escalada crescente que engana o presente e se impõe, vitória, conquista, realização, é quando a alma se desprendendo do corpo enquanto a carne amolece, desenha a felicidade eternizada nos momentos mais impuros, egoístas e sábios, é assim que entendemos o antagonismo dessa tal sociedade privada de ser… 


Haicais de Diego Petrarca

Haicais são sempre bem-vindos aqui na Kuruma’tá. A concisa forma poética japonesa, que teve como mestre Matsuó Bashô, tem encantado e desafiado poetas e amantes da poesia ao longo dos séculos. Diego Petrarca aceitou o desafio, para a nossa sorte, e adicionou sua palavra a esse legado.

Seja bem-vindo, Diego!!


Foto de Kate Graur

Janela aberta
fio de vento
arrepio de lábio


Folhas na calçada
a tarde acaba
atrás das casas


Noite choverando
asfalto molhado
a rã salta alto


Rosto no espelho
espelha o mesmo rosto
no lago sereno


Folhas agitadas
begônias surpresas
no fim de tarde


Diego Petrarca nasceu em Porto Alegre em 20 de março de 1980. Mestre em Teoria Literária – Escrita Criativa. Publicou, entre outros, os
livros Tudo Figura, (2014), – selecionado pelo Plano de Edições do Instituto Estadual do Livro (indicado ao prêmio AGES poesia 2015) e
Carnaval Subjetivo (Bestiário – 2018), Melhor é ser um peixe (Plaquete – Bestiário). Tem poemas publicados em mallarmargens, Literatura & Fechadura, Acrobata e Redesina.