Para la tierra volver, de Marília Parente

Para la tierra volver tem alma e saber. Belo arranjo, acidentes bem controlados e dosados, melodia sem experimentos inúteis: é um poema em ascensão. Todo o conflito rural, as lutas pela posse da terra, sendo essa mesma terra a dona de tudo e de todos. [Texto de Aderaldo Luciano]

Por Aderaldo Luciano


No dia 16 de julho de 2020, o Engenho Fervedouro ouviu o estampido de sete tiros disparados contra o agricultor Edeilson Alexandre Fernandes da Silva. As sete balas alojaram-se no seu corpo e o eco dos tirombaços procuraram abrigo nos montes e vales, das matas e plantações do município de Jaqueira, em Pernambuco. Como na força de uma canção resistente, Edeilson não morreu, não partiu, não tombou para dentro da terra. Com os olhos turvos, com o sangue em fervo, com a hora próxima, seguiu sobre sua moto até ser vencido pela dor. O chão lambeu seu rosto, mas ele estava vivo.

A história dessa emboscada, os pormenores da luta, o diário do assentamento nas terras do Fervedouro, abriram o tempo fechado e salpicaram-se sobre a letra de um poema de Marília Parente, compositora, ativista e pilar de resistência pernambucana. À letra, aplicou-se um tecido de música; à música, um arranjo de canção; à canção, o convívio da voz. À essa luta-canção aplicou-se o título Para la tierra volver. O violão folk, de textura latina, a gaita rural, a guitarra roqueira, bateria comedida, contrabaixo pontuando, em conluio lúdico e orquestrado respiram um oxigênio vindo de um mundo de inspirações e esperanças.

Ninguém atravessará a história de Edeilson sem se perguntar sobre seu corpo fechado, sobre sua fome de viver, sobre seus olhos que insistiram em ver o verde e, em fé, ver o Fervedouro sair da utopia e entrar na canção real. Ninguém, nenhum ouvido, pisará nas plataformas digitais sentindo a canção na voz de Marília e vestirá a roupa da emboscada. A sua voz brinca fugindo das balas. O seu canto é o próprio olho aberto, o seu olho é a justa interpretação de sua alma. Uma canção de quase seis minutos, bem arranjada, cumprindo o seu propósito de adensar poesia à luta pelo chão.

Para la tierra volver tem alma e saber. Belo arranjo, acidentes bem controlados e dosados, melodia sem experimentos inúteis: é um poema em ascensão. Todo o conflito rural, as lutas pela posse da terra, sendo essa mesma terra a dona de tudo e de todos, o panorama das serras e a velha estação ferroviária da Great Western, com um trem que nunca mais chegará a Jaqueira, estão presentes na canção, são a canção, são seu som fundamental. A produção do single é de Marília Parente e Antonio Nolasco. “Não se pode conter a sina de um camponês, da terra ver tudo nascer y para la tierra volver”. Esta canção está marcada para viver.

Marília Parente – Foto de Claudia Parente

+ poesias de Milena Martins Moura

Milena Martins Moura é do Rio de Janeiro, RJ, é mestre em literatura brasileira pela Uerj e tradutora. Autora dos livros Promessa Vazia (2011) e Os Oráculos dos meus Óculos (2014). É também cantora e compositora, autora do EP Flamboyant.

1.

o vinho
sangue mítico
beberagem ancestral
um terço
uva
o resto
verdade
eu queria
queria
partilhar esse sangue
morder outro corpo
o meu dói de ontem
tronco
um terço
apoio
o resto
ânsia
corre em dança chula
se balança
dança
pULa
solidão em uva passa
arroz
farofa de banana
a música
i wanna know do you love me baby
e eu que tinha toque a compartir
abraço os pés
embriagada
tentativa e erro
hoje eu vou ser forte
um gole um sorriso
hoje eu vou ser forte
um carinho um carinho
hoje eu vou vencer o vinho
no vino
no veritas
sangue sangue
o cordeiro e os pecados
dividindo o pão

 

2.

o passo antigo
e esse caminho
antigo
pedra no cais paraty saudade
dar de comer aos pombos mortos na praça
ainda agora parou um gorjeio
ao meio
uma nota engolida em seco
os pássaros, que são livres, esqueceram as asas fechadas
estão saltando das sacadas
chovendo
verão
o janeiro está mais quente esse ano
é o acúmulo de finais sem sorriso
finados fora de hora
día de los muertos
um passo
à frente
promessa
a porta da cela entreaberta
sem guarda a vigiar
e eu ainda aqui
na quina fria
ruminando a ausência entre os dentes

 

3.

eu te agradeço
i really do
mas não preciso de outra voz que não a minha

o meu corpo
diverso
diverge
e esse fora do lugar é o que tenho pra hoje
pra sempre

estou ciente dos riscos e quero continuar

mãos dadas no passeio público com o espectro
um sorvete e um balão
três horas de monólogo sobre um assunto que só a mim não cansa

balança balança
bate bate palma
repete repete palavras gostosas na boca
cobalto cobalto sequoia sequoia

para o desgosto dos típicos

então eu te agradeço
i really do
mas eu não vou fazer o favor de olhar nos seus olhos
enquanto você estiver falando

anote aí no compêndio que essa é uma exigência deselegante

eu te agradeço
mas eu grito
de cima do mundo
a minha presença no mundo
e esse grito é o bastante
para virar os pescoços passantes
pode se calar

essa cara que não está na tevê
besta mitológica
elefante branco
é a única que eu tenho
para dar a tapa pelo papel principal

eu te agradeço
mas sabe
deixe comigo o fantasma que dele eu entendo

e faça a fineza de fechar esse compêndio
enquanto eu falo com você


Toinho Castro lança seu livro IMBIRIBEIRA

Nosso editor, Toinho Castro, acaba de colocar na praça seu livro Imbiribeira, uma narrativa em crônicas e poemas de um Recife muito particular, que tem no bairro da Imbiribeira seu epicentro afetivo.

Nosso editor, Toinho Castro, acaba de colocar na praça seu livro Imbiribeira, uma narrativa em crônicas e poemas de um Recife muito particular, que tem no bairro da Imbiribeira seu epicentro afetivo.

IMBIRIBEIRA está disponível na Blooks Livraria da Praia de Botafogo (Rio de Janeiro) e também no site da livraria!

Leia abaixo o prefácio do poeta Aderaldo Luciano para a obra:

Do Recife, da Imbiribeira

Houve um poeta apelidado Camões no séc. XVIII pernambucano, cambaleando as ruas do Recife e se enfurnando pelas ruas de Olinda. Ninguém de nossa geração declamará um verso seu, talvez nem o conheça pois os próprios contemporâneos dele nada sabiam, a não ser que se chamava Camões e bebia e vociferava versos e encômios. Ninguém soubera-lhe quando nascera, ninguém soube quando, nem como, morreu. Nasceu assombrado e morreu assombrando no velho Recife.

Houve um outro poeta, este, paraibano, arrastando seus pés, com velhas alpercatas, sertanejo assombrado, chegando no Recife no final do séc. XIX. Com mais sorte do que seu antigo colega de letras, escreveu seu nome a partir do sistema de impressão e disseminação poética criado por si: o cordel. Como os dois Camões, o primeiro, autor de Os Lusíadas e o segundo, anônimo recifense, com seus versos feitos na hora, Leandro Gomes de Barros palmilhou a capital, morando em Paulista na Rua do Motocolombó.

O Recife mágico e adornado de romantismo, terra do frevo e do maracatu, firmamento de Bandeiras e de Cabrais, não é o mesmo Recife dos poetas da rua, viventes das ruas, senhores da rua, saindo de Olinda ou Paulista, transeuntes da Ponte do Motocolombó se perdendo nos ares e brumas da Imbiribeira, cortando a cidade norte-sul. Toinho Castro nos oferece essa experiência. Poeta crescendo entre as fronteiras com o Pina, Ipsep, Jiquiá, Afogados e incursões pelo centro velho da cidade e outros territórios mais distantes, pode testemunhar um Recife real, das cheias, das padarias de bairro, das pontes assombradas, dos mistérios de outras canções.

Há muita leveza na alma de Toinho Castro. Ele traz a leveza no traço e na letra. Ele recheia a vida com essa mesma leveza, observando a todo momento, de olho aceso e lente viva, o passo lento e furtivo dos tempos. O Imbiribeira é a prova disso. O testemunho pessoal alcança o testemunho coletivo de um Recife paradoxal. Nascimento do Passo, o codificador dos passos do frevo, criador de sua coreografia, caminha lado a lado com Toinho. Abrindo ferrolhos, rangendo dobradiças, apertando parafusos, cortando a cidade a tesouras ou locomotivas. Imbiribeira é um frevo canção. Às vezes canta a solidão e dá um aperto no peito.


Aristocracia Carioca | Tia Doca da Portela

Rio de Janeiro dos anos 40 vivia a época de ouro das estrelas do cinema e do rádio. Deles saíam os ícones que recheavam revistas como “O Cruzeiro” e o imaginário dos rapazes e moças. Frank Sinatra era um desses astros. A conjunção de uma bela voz com o par de olhos azuis que flertava com as fãs virou um dos símbolos de uma era marcada pelos musicais. [Revista Zé Pereira]

Texto de Anna Azevedo e fotos Michael Ende

Texto publicado originalmente no número 1 da Revista Zé Pereira, na seção Aristocracia Carioca


“Não sabia que existia
americano preto”

Rio de Janeiro dos anos 40 vivia a época de ouro das estrelas do cinema e do rádio. Deles saíam os ícones que recheavam revistas como “O Cruzeiro” e o imaginário dos rapazes e moças. Frank Sinatra era um desses astros. A conjunção de uma bela voz com o par de olhos azuis que flertava com as fãs virou um dos símbolos de uma era marcada pelos musicais.

Para a menina Doca, que morava com a mãe e os cinco irmãos na Favela do Pau Fincado, atual rabicho do cais do porto, no Caju, Frank Sinatra — cujo retrato adornava o barraco da vizinha e a voz se espalhava a partir do rádio da casa ao lado — era a síntese do gringo: todos falavam o mesmo idioma “embolado” e eram americanos de olhos azuis. Já as mulheres seriam a imagem e semelhança das bonecas que Doca via nas vitrines das lojas e com as quais sonhava. Sobretudo naqueles dias de dezembro, mês de seu oitavo aniversário e de mais um Natal.

Apesar de pequena, Doca sabia que teria de dar muito duro se quisesse ter uma vida mais confortável que aquela, na favela. Miudinha, já ajudava a mãe, Albertina, a vender sopa de entulho para os estivadores do Porto, na troca do turno, de madrugada. Ao cais também voltava de dia. Era costume dos moradores do Pau Fincado aguardar o fim do horário do rancho à espera da sobra da comida dos navios, normalmente jogada ao mar.

Certa tarde daquele dezembro de 1940, Doca esperava os taifeiros quando um marinheiro alto e negro surge ao seu lado e inicia um papo em português desajeitado. A menina não entendeu nada daquela “língua enrolada”. Tampouco compreendeu como um negro igual a ela poderia falar o idioma do ídolo da vizinha, Frank Sinatra.

— Eu nem sabia que tinha americano preto — relembra, 67 anos depois.

Surpresa maior só quando o gringo se fez entender: havia uma boneca esperando por Doca, caso ela aceitasse subir com ele até o navio.

— Fiquei louca quando ouvi falar na boneca. Eu era muito bobinha, então subi com o homem até o camarote. E não é que tinha uma boneca lá? Linda, parecia um sonho. Só percebi que o navio havia partido quando ouvi o apito. O cais estava longe. O camarada tava me roubando.

Doca nasceu Jilçária Cruz Costa, mas a mãe, como fez com os demais filhos, tratou logo de lhe arrumar um apelido — artimanha para defender a prole de algum homônimo mal-intencionado. Cresceu e ficou conhecida como Tia Doca, pastora da Velha Guarda da Portela. A mulher cuja vida renderia um samba de enredo épico, daqueles de outrora. O primeiro verso poderia ser a frase que encerra cada uma das dezenas de histórias que Doca conta: “É, já passei por tudo nessa vida”. No refrão, o bordão que sintetiza o jeito de verdadeira dona de terreiro da tia: “Comigo, não, o que é que há?”.

Era no quintal de Tia Doca, em Oswaldo Cruz, que a fina flor do samba de Madureira esquentava os tamborins e viu brotar sucessores. Despejados do quintal de Dona Neném pela própria, após reclamar ao marido, o compositor Manacéia, que não agüentava mais cozinhar para tanta boca, toda semana, a Velha Guarda passou a se reunir no quintal de terra batida de Doca e do marido Altair. Durante cinco anos, até 1980, a turma da Velha Guarda ensaiou debaixo da mangueira do casal. Lá nasciam os mais belos sambas, versos temperados pelas iguarias que a dona da casa trazia fumegando do fogão à lenha.

Certa domingueira, porém, a Velha Guarda não apareceu. Nem Altair, que abandonara Doca com seis filhos. Os pensamentos da pastora se voltaram para o cais do porto, para as dificuldades que ela, os irmãos e a mãe passaram na vida:

— Ele me largou com as crianças, me deixou a pão e laranja, arranjou outra mulher, limpou o dinheiro do banco, que era pra pagar o aluguel, e foi embora. A mesma história da minha mãe. Estou há 30 anos separada, depois de 29 anos casada. Não sou desse tipo de mulher que se separa e fica bêbada, largada. Comigo, não, o que é que há? Meus filhos não iam passar o que eu passei na infância.

Sem Altair no comando da casa, a Velha Guarda enfiou a viola no saco e partiu para outro quintal. Nessa época, Doca já fazia parte do seleto grupo de guardiões das tradições musicais da Azul e Branco. A pastora ficou magoada, conta que se sentiu abandonada no momento em que mais precisava de companheiros. Mas, com a ajuda de um casal amigo, transformou o que era diversão em trabalho. Logo a notícia do pagode da Tia Doca se espalhou pelo subúrbio. A receita era infalível: uma árvore frondosa, chão de terra, cerveja gelada, comida boa e músicos idem. Beth Carvalho, Marquinhos de Oswaldo Cruz, Dudu Nobre, Arlindo Cruz e os músicos portelenses batiam ponto no terreirão. Tia Doca molhava o chão para não levantar poeira. E o coro comia, conta Zeca Pagodinho, uma das crias deste quintal.

— Ali o bicho pegava. A turma do juvenil esperava o intervalo da Velha Guarda para dar seu recado. Aprendi a compor nesses quintais. A gente se afastava da roda, ia pro cantinho, o samba saía. E a comida rolando… Tia Doca é esperta! — relembra o músico.

— O Zeca era um menininho de boné da Kibon quando apareceu aqui pela primeira vez. Perguntei: “Sua mãe sabe que você está aqui? Tem dinheiro da passagem pra voltar?”. Era arisco que só vendo, mas muito educado. Uma vez chamei o Milton Manhães para ver ele e o Deni versando, dois molequinhos, né?, jogando lera um pro outro. Pronto, estourou! A falecida Jovelina Pérola Negra também surgiu daqui. Era um terror isso aqui. Um terror!

Mulheres como Doca fazem parte de uma geração de “tias” conhecidas e respeitadas no mundo do samba pelo apego à tradição e o respeito que impõem aos mais novos; pelo dom de saber cozinhar em quantidade mantendo a qualidade e por comandar tradicionais rodas de fundo de quintal. Encontros que remontam ao século XIX, quando baianas da Praça Onze, como Tia Ciata, Tia Bebiana e Tia Perciliana — mãe de João da Baiana — abriam seus quintais para batucadas, umbigadas, capoeira e samba — ritmos que, tocados em via pública, rendiam uma prisão por vadiagem. “Pelo telefone”, aquele que é considerado o primeiro samba, foi composto por Donga no quintal de Ciata — ali, nos domínios dessa baiana arretada, freqüentado não só por músicos humildes, como também por políticos e pessoas de classe média, a polícia não se metia.

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O cangaceiro da moviola na terra de São Sebastião

Enquanto essas rodas revelam a nova geração de sambistas, não vislumbramos uma nova geração de tias. Os quintais são cada vez mais raros e as mulheres procuram seu lugar no mercado de trabalho. Tias como as portelenses Doca, Surica e Eunice são uma peça de resistência cultural. Para não deixar morrer os quintais e continuar tendo como comprar o feijão e os miúdos para as tradicionais farras gastronômicas desses encontros, o jeito foi fazer das rodas e da famosa voz de lavadeira um ganha-pão que paga as contas de casa e preserva a tradição.

Com o pagode e as participações especiais em discos, Doca criou a família. Foi o produtor Rildo Hora quem sugeriu a Beth Carvalho o nome da pastora para compor o coro de um novo disco. Depois os convites vieram de Clara Nunes, Paulinho da Viola, João Nogueira, Elza Soares, Luiz Ayrão e Grupo Fundo de Quintal.

— Ainda esperei por três meses para ver se o meu marido voltava com uma compra, se a consciência doía, mas nada. O pagode da Tia Doca foi uma forma de sobrevivência para mim. Eu só sabia cantar, sambar e cozinhar.

Em 2000, a Paradoxx Music lançou o CD “Pagode de Tia Doca”. A pastora, no entanto, pouco sabe sobre o que aconteceu com o disco. Ela mesma não tem mais nenhuma cópia em casa, tampouco contato com a gravadora. Com uma fraca distribuição, o CD é, hoje, artigo de colecionador, mas — para surpresa geral — ainda restam unidades no site Submarino, a R$ 17,90.

— Não ganhei dinheiro. Recebi uma graninha do produtor, paguei os músicos e sobraram R$ 20,00. Enfiei no bolso e fiquei feliz. O disco deve ter vendido bem, tanto que não se acha mais. Nós da Velha Guarda só conseguimos gravar depois de velhos. Lembra até aquela gente lá de Cuba (do Buena Vista Social Clube). Que gente bacana, né?

O Pagode de Tia Doca mudou de Oswaldo Cruz para um terreno maior, próximo à estação de trem de Madureira, e agora se chama Centro Cultural Tia Doca. Todo domingo, Doca acorda cedo para preparar o caldo de ervilha com azeite e bacon que é servido à noitinha, enquanto o samba, comandado pelo filho Nem, segue a regra das rodas de terreiro. Durante muito tempo, microfone não tinha. Mas o público aumentou e o grupo teve que ceder à novidade.

— Paulinho da Viola me aconselhou a nunca colocar microfone porque pagode assim não existe mais em lugar nenhum. Aqui era sempre na bo-ca! Mas agora fica muito cheio, não tem jeito. Mas é samba de raiz, mesmo!

Doca nasceu no Morro da Serrinha, em Madureira. A mãe foi a primeira porta-bandeira da Escola de Samba Prazer da Serrinha, gênese da Império Serrano, fundada em 1947. Passou os primeiros anos da vida ali, na quadra da escola. Tia Iaiá tomava conta da meninada da vizinhança enquanto os pais trabalhavam. E a ela cabia ensinar o bê-á-bá da batucada.

— A gente comia em cuia de lata de queijo do reino, sentadinhos na quadra. De tarde, tia Iaiá organizava um bloquinho. As latas de goiabada, cobertas com papelão de cimento, eram os pandeiros. Ficava um som bom. Ela ensinou a gente a sambar no pé. Hoje em dia tenho até medo de ir ao lugar onde nasci. Vou lá e vejo os meninos com revólver na cintura.

Com uma criação destas, não deu outra: aos 14 anos, Doca já era a porta-bandeira da Escola de Samba Unidos da Congonha, de Vaz Lobo.

— As porta-bandeiras de hoje em dia não tão com nada, não sabem o que é ser uma porta-bandeira. Ficam com aquela mania de mão, mão pra lá, pra cá. O negócio não é na mão. É no pé. Mas agora tudo é válido, o que se pode fazer?

Doca só foi apresentada à Portela em 1953, após o casamento com Altair, filho do compositor Alvarenga, irmão de Jair do Cavaco, da Velha Guarda, e afilhado de Paulo Benjamin de Oliveira, o Paulo da Portela. Para nunca mais sair. Mesmo após o incidente no Carnaval de 2005, quando a ala da Velha Guarda foi impedida de entrar na Sapucaí para não estourar o tempo limite do desfile. Uma das cenas mais lamentáveis da história do carnaval carioca.

— Foi horrível, muita gente passou mal. Eu fui parar no hospital, só voltei para a casa no dia seguinte. O meu coração não agüenta mais essas tristezas. Esse negócio de escola de samba acabou. Eu só desfilo porque somos um grupo e temos que manter a tradição, dar o exemplo.

Tradição: eis a cartilha pela qual reza essa pastora cheia de lemas e ensinamentos, alguns indecifráveis. Quando moça, adorava ir aos bailes. Mas mulher direita, previne, tem que deixar o salão depois da antepenúltima música. E, na hora de cozinhar, nada de bater com a colher de pau na borda da panela. Queima a comida!

No caso do jongo, é ainda mais radical e misteriosa. Ao ponto de brigar com o primo, Seu Darcy, mestre jongueiro falecido em 2001 e divulgador da dança além das fronteiras do Morro da Serrinha. Certa vez Doca expulsou Darcy do pagode após ele insistir em armar o jongo no terreiro da pastora.

— Jongo não é para se cantar e dançar à toa, não! Só no dia de Nossa Senhora de Santana, 26 de julho, e tem que saber como se abre e se fecha. Minha madrinha era jongueira e me ensinou tudo. Minha cunhada foi atrás do Darcy e se deu mal. Cantava jongo ao meio-dia na Praça da Portela. Morreu assim, da noite para o dia. Um sobrinho meu morreu, o outro sumiu e ninguém sabe onde está. Esse negócio de que jongo é cultura… Jongo é uma seita muito da perigosa! Eu não sou boba, comigo não, o que é que há?

Tia Doca é esperta, já disse Zeca Pagodinho. Ainda abaixo da idade legal para trabalhar em fábricas, insistiu com o dono de uma tecelagem para lhe dar um emprego. Passou dos 14 aos 16 anos tendo que, vez por outra, mergulhar debaixo de pilhas de pano para não ser descoberta pelos fiscais do Ministério do Trabalho. Com o salário, construiu as paredes de alvenaria do barraco onde morava com a mãe e os irmãos, até então protegido por pano e madeira. Hoje, um dos maiores orgulhos dessa pastora é ter sua casa própria, em Madureira, adquirida pela Caixa Econômica. Orgulho que só não é maior que o de pertencer à Velha Guarda da Portela.

Com o grupo, Tia Doca fez turnês pela França e Itália. Amou. Já o seu lado cozinheira desaprovou as proporções da nouvelle cuisine. Mas a massa italiana passou pelo julgamento da pastora que não se faz de rogada e diz que, depois de Tia Vicentina, a melhor feijoada de Madureira é a dela. Surica diz o mesmo em relação ao feijão que rola, de forma bissexta, em seu quintal. Seja lá como for, a especialidade dessas tias é, mesmo, a chamada comida de subúrbio. Ou, como define Zeca Pagodinho, comida de malandro. Lista Tia Doca: feijoada, tripa lombeira, rabada, sopa de ervilha, carne-seca, mocotó… E foi em busca de uma comida de subúrbio que certa vez uma moradora do Leblon contratou Tia Doca para cozinhar.

— A madame queria uma comida de subúrbio. Eu aceitei e fui fazer um angu à baiana, mas não quis dinheiro na mão para comprar os ingredientes, não, levei a madame comigo para o Mercadão de Madureira. Ela ficou louca com o Mercadão! No prédio, o cheiro da comida tava subindo e deixando os vizinhos com água na boca. Sabe o que a madame fez? Convidou o pessoal para comer, mas todo mundo teve que pagar na porta. Depois dizem que gente do Leblon é chique! Mas achei interessante aquele sistema. Ganhei muita gorjeta.

Aos 75 anos, a tia que traz as tradições do samba na voz, nos dotes culinários e na atitude, diz que está cansada. Uma artrite anda aos poucos afastando Doca da cozinha. Mas a sua presença no Pagode é sagrada, além de garantia de um ambiente onde imperam os bons costumes herdados da época do “Seu Paulo” (da Portela).

O médico proibiu a cervejinha, pecado dos pecados para a portelense! É que o músculo cardíaco cresceu. Resultado, segundo ela, de muito aborrecimento ao longo da vida. Doca tem cinco bisnetos e seis netos. Dos seis filhos, dois homens morreram, ambos assassinados por desconhecidos. Um deles, por um bate-bolas, num sábado de carnaval. No mesmo carnaval, faleceu o ex-marido, Altair.

— Minha fantasia já estava prontinha. Estragou o meu carnaval! Dor da mãe durona. Disfarçada em dor de pierrô que perde a sua colombina.

Dor imensa que inunda e afoga o coração, que, inchado, cansa a pastora. E que ela, como filha, sentiu o quão devastadora esta dor poderia ser quando Albertina era só desespero no cais, angustiada com a possibilidade de ter perdido a filha caçula para sempre, no navio que ia longe.

Ao escutar o apito do vapor, Doca gritou. Logo o comandante apareceu e quis saber o que aquela criança fazia a bordo. O marinheiro, na verdade um caboverdiano, explicou que queria levar a menina consigo, pois ela lembrava muito a filha que morrera. O navio retornou. Doca seguiu pra casa com a mãe e com a sua primeira boneca debaixo do braço.

Nunca mais voltou ao cais.


Receitas da Tia Doca

INGREDIENTES
5 kg de ervilha seca
1,5 kg de lombo salgado
1,5 de lingüiça calabresa
1,5 kg de costela de porco
1 cabeça e 1/2 de alho
Azeite extra virgem
Sal a gosto
REFOGADO
1 lata de azeite de oliva
1 cabeça de alho picado
sal a gosto.

MODO DE FAZER
Deixar a ervilha de molho, na água, durante 12 horas.
Cozinhar a ervilha num caldeirão até formar um mingau.
Ao formar espumas na fervura, retire-as. Não tampe a panela totalmente.
Mexa de vez em quando, sobretudo o fundo da panela.
Quando as ervilhas estiverem desmanchando, parta para o refogado.
Deixar dourar o alho.
Cortar as carnes em pequenos pedaços.
Passe-as por uma fervura para retirar o excesso de sal.
Juntar as carnes ao alho e azeite, nesta ordem: o lombo,
deixar cozinhar por cinco minutos. A lingüiça e a costela.
Lançar o refogado na sopa de ervilha e mexer bem.


Venha dilacerar os sonhos que me cortam ao meio

Você pode atirar todas essas lâminas em minha direção. Porém, se os seus olhos precisam estar vendados, por favor, deixe-me manter a boca bem aberta – ela pediu, a ajudante do atirador de facas.

Texto de Eduardo Frota


Você pode atirar todas essas lâminas em minha direção. Porém, se os seus olhos precisam estar vendados, por favor, deixe-me manter a boca bem aberta – ela pediu, a ajudante do atirador de facas.

Você pode atirar em mim, mas não vai perceber como a luz delimita as fronteiras do meu corpo, como as cores são distrações oportunistas nesse picadeiro, como a posição das nossas sombras engana nós mesmos e a plateia.

Você pode atirar todas essas verdades em mim. Ou você pode atirar todas essas mentiras em mim. Porém, se somente os meus olhos podem estar abertos, por favor, não me deixe em silêncio – ela pediu. 

Você pode atirar em mim com seus sentidos adormecidos. Mas se meu corpo precisa estar desperto, por favor, se eu gritar, esteja por perto – ela pediu, a ajudante do atirador de facas.

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Um cordel afetivo

É muita, nas muita felicidade para mim vir aqui hoje falar sobre cordel. Lembram que há tempos atrás publiquei uma entrevista com o grande cordelista Zé Salvador? [Texto de Eduardo Maciel]

Por Eduardo Maciel


Olá, meus queridos kurumateires!
É muita, nas muita felicidade para mim vir aqui hoje falar sobre cordel. Lembram que há tempos atrás publiquei uma entrevista com o grande cordelista Zé Salvador?
Então. Ele escreveu um cordel inteiro falando da minha vida, com xilografia e tudo, e esse trabalho foi laureado como quarto colocado no concurso de cordéis de Fortaleza no ano de 2020.
É puro afeto feito poesia, e por mais que seja bastante expositivo com relação a várias das minhas intimidades, me sinto em família por aqui, e vou compartilhar. Preparades?

“O INCENSO DA POESIA BORRIFADO
NA VIDA DE EDU MACIEL
 *
Deus no pretérito perfeito,
no eco, do indicativo
moldou de um barro sintético
em três D no aplicativo
do jeito que Ele bem quis
sem precisar de um motivo. 
 .
Foi no ateliê celeste
que Deus com cinzel de ouro,
esculpiu esse modelo
sem regateio de louro,
chamou um casal do bem
e lhe deu esse tesouro. 
 .
Translúcida inteligência,
– essa Inteligência Divina –
juntou sensibilidade,
com bastante adrenalina
com genes de boa estirpe,
devolveu “autamenina”              
 .
Pai, Luciano Videira,
se desmancha em alegria.
Mostrando veia poética
numa bela parceria,
com Sueli Maciel
tornou viva a poesia.
1
No dia cinco de outubro,
à fila dos nascimentos,
– Eduardo Maciel –
formava com mais “rebentos”,
das mãos do Supremo Artista
ganha um buquê de talentos.
 .
No ano setenta e oito, (1978)
na linda Rio de Janeiro,
– não nasce – estreia o menino,
do ventre duma Monteiro.
Sueli chora e sorrir
lhe dando o beijo primeiro.
 .
Para os “Maciel Monteiro”
foi alegria geral,
a festa estava estampada
desde a ida ao hospital.
O lar ficou mais bonito
com este ar maternal.
 .
Um cheiro bom de alfazema
daquele quarto exalava,
de forma que o incenso
pela casa se espalhava,
gostoso, um cheiro de paz,
banhando a quem visitava.
2
Porém, passou alguns anos,
e o menino já crescido,         
a normal necessidade,
houve, de ser inserido
nos estudos, e foi feito
do jeito mais merecido. 
 .
Estudou num bom colégio
aqui no Rio de Janeiro,
o tradicional São Bento,
dito, o melhor, brasileiro.
Nos estudos foi zeloso,  
estudava o tempo inteiro.
 .
Tão fissurado que era,
que os pais para puni-lo
por alguma traquinice,
adotaram como estilo
tirar-lhe das mãos os livros,
cobrando assim seu vacilo.
 .
Os livros que sempre foram       
seus companheiros diletos,
e disto ele se orgulhava,
não eram amigos secretos.
Os seus pais sabendo disso,
usavam poder de vetos.   
3
As pequenas traquinagens
não eram de grande usança.                                   
No rígido ângulo dos pais,
educação como herança,
puniam mandando ao “play”
pra ser um pouco, criança.      
 .
Para as artes já pendia
desde a sua tenra infância,
mostrando o amor aos estudos
e pela sua constância,
no agarramento aos livros,
pra eles dando importância.
 .
Foi no vasar da ampulheta
que o tempo se fez passar.
MACIEL bem nos estudos,
prestando o vestibular 
pra direito, se deu bem,
com o primeiro lugar.   
 .
Isto na UFRJ,
na colocação geral,
dando-lhe o poder de escolha.
Sendo mais perto o local
decidiu pela UERJ,
que pra si foi ideal.
4
A faculdade inicia,
agora em tempos agudos,
por conta de trabalhar
desacelera os estudos,
mas não abandona o curso,
os dois serão seus escudos.
 .
Sempre foi muito aplicado
em tudo que fez e gosta.
Foi destaque no colégio,
se na vida tem proposta 
desempenha, e com vontade
todas as fichas aposta.            
 .
Nas andanças por emprego
trabalhou na Air France,
depois em consultoria,
 – foi quase como um “freelance” –
também trabalhou na Vale,
teve após, crise em nuance.
 .
Esta crise se apresenta
entre quinze e dezessete,
e vem roubar-lhe o emprego
com um preparado escrete;
foi lhe consumindo os bens,
vestida como vedete.
5
Não satisfeita, esta crise,
o leva a consumação
e abuso de substâncias,
subjugado a tensão
começa um período brabo
de uma grande depressão.
 .
Esta luta não foi fácil,
brigou consigo e a razão,
ganhou o “ego sum qui sum” .
temperando a emoção,
fez o toldado assentar
com a fala de exaltação.
 .
Foi um anjo terapeuta,
que há tempos lhe acompanha,
que o fez partir pra a cura
através duma campanha,
com boa literatura:
“use sem fazer barganha”!  
 .
Com afinco estuda a lição
sem determinar um prazo,
procura lá nos primórdios
faz viagem ao parnaso;
dá conta, então, do recado,
não é coisa do acaso.
6
São muitas experiências
que essa vida nos derrama,
pois é feito nau errante
que viaja e não reclama,
ensimesmado, esse Aedo,
agora as artes proclama.
 .
Feito a nau que singra mares  
com borrascas e precipícios, 
queima os miolos de Deus
que sempre faz sacrifícios,
nas suas eternidades
e o prendou com benefícios.  
 .
Trazendo para esse barco
diversos bons utensílios,
Deus brinca de vez em quando
e muda esses domicílios,
mas a nau nunca abandona
e de desmancha em auxílios.
 .
No endereço do silêncio   
traz a palavra não dita,
neste lugar que é sagrado
a criatividade habita,
se concreta ou abstrata
não tem na arte a desdita.
7
E despeja as sete cores
pintando o vocabulário,
pois cada palavra usada
se faz termo necessário,
pega sons, cores palavras,
os torna um só, voluntário !
 .
Manufatura os verbetes,
faz rococó e alinhavos,
traz arco-íris nas cores
de longe não faz agravos;
cirze bem seus argumentos  
faz com as artes conchavos.
 .
Numa peneira ou funil
passa as onomatopeias,
vocábulos mistura ao sons
criando novas ideias
ideias novas criadas
conquistam novas plateias.
 .
Despejada em lisa fôrma
é som, imagem, é tela,
pelas mãos do artista é feita,
e no ato, Deus se revela
no pensamento ou no traço,
duma simples aquarela.
8
Seguindo a estrada dos sonhos
ou nas águas das lonjuras,
não traz traumas encrostados
criados em fundas luras,
enterra seus zumbis vivos,
vive as suas aventuras.
 .
Na vivenda do retumbo
Poe eco profundo e cavo,
reflexo do som grifado
do instrumento em conchavo,
que se atreve a rubricar
sem medo de ser agravo.
 .
Sem agravo esse argumento   
fala de novos projetos,
número sete, cabalístico,
com livros irrequietos, 
são sonetos inovados 
que não são nada discretos.
 .
Com amor ao diferente
se liga, assina contrato,
mistura o tradicional
como fez com “soneteto”
e com o “sonetimagem”,
este já serviu no prato.
9
Nos planos inda tem mais,
“sonetilustra”, o terceiro,
este fala com desenhos.
E o próximo companheiro,
é o “sonetom”, musicado,
vai virar som verdadeiro.
 .
O quinto é “soneterror”
que vem cheio de suspense,
o sexto é “sonetempero”,
este, ninguém o dispense,
pois traz um bom paladar
e nossa gula é quem vence.
 .
O sétimo é o “soneteatro”,
último dessa coleção,
que será feito em monólogos.
A sua composição  
é para ser encenado
com boa apresentação.
 .
Também na Kuruma’tá
faz suas publicações,
contos, matérias diversas,
e faz apresentações
com vídeos de entrevistas,
nalgumas televisões.
10
Com esboços navegantes
visita o campo das artes,
escreve com o mouse livre
fazendo parte das partes,
tem sua música inserida
e dela não faz descartes.
 .
Causando a perplexidade
com a visão de aventura,
é premiado em concursos,
em coletâneas, figura;
já ganhou títulos e prêmios,
com sua literatura.
 .
Eduardo Maciel,
um multimídia completo,
tem bastante seguidores
e este é um público seleto,
nas mídias que ele atua,
todos o seguem direto.
 .
A sua verve é versátil,
tem arte no coração:
Veste, dorme e come arte, 
arte é sua diversão;
prova disso é que ele a traz  
tatuada em sua mão.
11
E foi numa certa noite
de autógrafos, pra ser exato,
que conheci Maciel
poeta E(du) “sonetato”,
incrível criatividade,
neste ele inovou de fato.
 .
As artes que ele pratica
mostra o artista de fato,
é de fato um bom poeta
e sabe tirar retrato;
Faz um som com maestria,
bonito sendo inexato
 .                                                                   
Nada que faz é perfeito,
– daí, sua perfeição –
dá recados criativos
e traz na palma da mão,
do seu  genes mais antigo
a sua continuação.                  
 .
No côncavo deste som,
traz a feitura do amplexo,
com imagem que rabisca
para servir de convexo
depois dessa obra pronta
até Deus fica perplexo.”

Eu achei o resultado final tão lindo e impactante, e ao mesmo tempo tão aderente, que acabei escrevendo um soneto para agradecer, vejam só:

E para completar a alegria, o cordel vem com um prefácio escrito pelo grande cronista, escritor de mão cheia, que também já trouxe aqui para que o pudessem conhecer. Leiam por favor as palavras de Erick Bernardes:

Da série: coisas que nunca imaginei que aconteceriam comigo. Espero que tenham gostado!
Fiquem bem, fiquem com saúde!


Texto para 2021

Falam de novo tempo. E de recomeço, apesar dos perigos. O que foi mais desejado nesse ano que ficou para trás? Saúde? Amor? Abraços futuros? Eu digo que a gente buscou vida. Vida do jeito que deu pra ser. Vida na tela. Vida no zoom. Vida na festinha on-line. Life na live. [Texto de CARU]

Texto de CARU


A soma é 5. Cinco me parece ser o meio do caminho. Como se 10, fosse talvez o fim da linha. Ou o começo de uma nova.
Mas o que desejar agora? O continuar desse caminho? Ou o recomeço de um outro?

Falam de novo tempo. E de recomeço, apesar dos perigos. O que foi mais desejado nesse ano que ficou para trás? Saúde? Amor? Abraços futuros? Eu digo que a gente buscou vida. Vida do jeito que deu pra ser. Vida na tela. Vida no zoom. Vida na festinha on-line. Life na live. Para uns, necessitados de gente, uma sobrevida. Rezando para que o 20 dobrado se acabasse. Na esperança do número 1, acrescido do segundo 20, seja um novo começo.
Desejo pra você, vida. E mesmo que seja da forma que está sendo.

Agradecer pela vida que podemos ter. Quase perdi um familiar próximo. Muitos amigos contraíram o vírus. Não foi fácil. Mas sempre há o horizonte a se mirar.

Não será a cerveja de amanhã. E nem o vinho do final de semana que vem. Talvez não seja a fogueira do meio do ano. Nem milho assado. Nem forró. Talvez seja só na parte dois do capítulo 20.

E a vida que eu te desejei? Você vai usar de lamento? O caminho da aceitação. Na aceitação conseguimos viver. Na negação ou no futuro, não há presente, nem a vida que eu desejei.

Espera um pouco mais. Porque o abraço será mais demorado, quente, gostoso. Você sabia que abraços com duração de 20s são inesquecíveis? Vamos morar nesses 20 segundos em breve. Quero o seu. O seu. O seu também. Abraços para não serem mais esquecidos. E aí sim, vida.


A poesia de Milena Martins Moura

Sim, a poesia de Milena Martins está na Kuruma’tá, na última segunda-feira do ano. E é com a poesia de Milena Martins que encerramos 2020 e preparamos nossos corações e mentes para 2021! Uma poesia vigorosa e precisa, em que cada verso adensa o outro. Que coisa boa ter essa poesia aqui com a gente, no fim desse ano estranho.

Sim, a poesia de Milena Martins Moura está na Kuruma’tá, na última segunda-feira do ano. E é com a poesia de Milena que encerramos 2020 e preparamos nossos corações e mentes para 2021! Uma poesia vigorosa e precisa, em que cada verso adensa o outro. Que coisa boa ter essa poesia aqui com a gente, no fim desse ano estranho.

Sem mais, deixo vocês com o universo particular de Milena Martins Moura, enquanto escoam os dias e horas de 2020.

1.

É só um rosto com veias aparentes.
Com medos pulsando na testa.
Eu sou um rosto
E um corpo preso a ele,
Com músculos que tremem
E um cobertor de pele
E pelos.
Eu tenho roxos que não sei como.
E dores que não sei como.
Meus pés já acordam doídos de andar.
Eu sou um rosto.
Com dentes em demasia.
Eu sou também os dentes e o que mordem
Para manter meu status
De coisa viva.
Eu sou um rosto pálido
Manchado de verde escuro
Que hoje não quer sorrir.
 

2.

É dar corda
Pra me enforcar
Mas eu ainda me levanto
Com gritos no ouvido.
Você precisa costurar meus braços
Antes que me esqueça.
Eu ainda escovo os dentes
Com gritos no ouvido.
Você precisa me bordar os olhos
Antes que me esqueça.
Eu ainda como torradas
Com gritos no ouvido.
Você precisa rechear meu tronco e me fechar as costas
Antes que me esqueça.
Antes que esqueça a minha forma
E a história
Que eu assombrei na sua noite.
Me brote de azul nessa folha
Feita apenas para me servir de berço.
Faça-me viva
Assim, bem cedo,
Que é quando convém nascer.
Depois você pode esquecer a louça na pia
E o sentido de existir em sofrimento.
Mas primeiro eu quero sujar esse quarto
Com o sangue do meu nascimento.
É dar corda
Pra me enforcar
Mas eu ainda escrevo
Com gritos no ouvido.
 

3.

Alguém precisa dizer pra essa criança
Parar de cavar.
O Japão só está ao alcance das mãos
De quem tem grana
Pra comprar passagem.
Melhor avisar também,
Bem cedo,
De menino,
Que ser astronauta é difícil,
Principalmente quando se nasce no Brasil
De mãe pobre
Sem saber inglês.
Aliás, diga-se a verdade,
Bem pouca gente nesse mundo
Realiza sonho.
Deixe que ele saiba antes que cresça,
Pra doer menos.
Na adulteza, todos os dias
São bem parecidos,
Mesmo ônibus, mesma multidão,
Mesma pressa, mesmas tarefas.
No aniversário só tem bolo
Se comprar
E, se cai na semana,
Tem esporro de chefe
E almoço protocolar da firma.
Espera-se loucamente pelo sábado
E nele lava-se a roupa e limpa-se a casa.
E o fim de semana dura dois minutos
E um porre de vinho barato.
Pisca-se o olho e passam dez anos.
Ganha-se ruga, peito caído e doença.
E as lendas mudam de papai noel pra corrente alarmista.
Os filhos dão despesa e um pouco de desgosto
Como vingança por os termos tacado aqui
À revelia.
E em dois dias já estão fora de casa,
Passando a diante a maldição.
Basicamente, Carmen, pare essa criança agora.
Se continuar nessa cavação,
Capaz de descobrir que o Pitoco
Nunca foi morar em fazenda.
 

4.

A poesia
Abandonei atrás de um móvel pesado
Numa empresa pesada
Em um dia ruim.
Larguei de lado também
Sonhos, pessoas e quilos.
A qualidade de não tremer de medo
Por estar no mundo
E ao som do meu nome.
E, é claro,
Um corpo jovem e sem dores.
E a poesia ficou jogada no escuro
Sem quem a cuidasse.
Não foi sempre assim.
Houve dia de deixar
O poema
À luz solar direta
Em ambiente arejado.
A poesia a que me jogo agora
Não é aquela
De concreto velho
E livro de sebo
Riscado por outros
Que vieram antes de mim.
Aquela morreu sufocada
Pela necessidade evolutiva
Do alimento
Que obriga a vende a vida.
A poesia a que me entrego
Tem lembranças demais,
Como matriarca de família grande
À beira da morte.
Ela me trouxe hoje
O cheiro do concreto
Misturado a um perfume azul
Em dedos de gente querida.
Ela hoje me fez lamentar
Que tempo não se possa
Estocar para o inverno,
Como cereais num galpão.
Para comer
Quando o estômago
Roncar de velho.
 

5.

Eu escrevo poesia
Desde 1996.
Sim, eu era só uma criança.
Que fazia escolhas ruins.
Cortavam as minhas asas
Para servir no jantar.
Doía.
E, passiva, eu dava o meu futuro
Em sacrifício.
Éramos pobres.
Não se sonha com fome.
Um dia as asas não cresceram.
Ninguém estava esperando.
Eu havia desistido.
Só me sobraram a caneta e o papel
E, pra aplacar a fome,
Eu escrevi sobre roseiras
E muitas outras coisas que eu nunca tinha visto.
Foi preciso caçar outro alimento.
Pela palavra eu possuí a minha carne
E desde então ela é só minha
Pra morder.

Milena Martins Moura é mestre em literatura brasileira pela Uerj e tradutora. Autora dos livros Promessa Vazia (2011) e Os Oráculos dos meus Óculos (2014). É também cantora e compositora, autora do EP Flamboyant (2018), disponível para streaming. Publica poemas, fotografias e pinturas no perfil de Instagram @oraculos_dos_oculos.


Rumo ao Planeta Azulado

É uma longa jornada até o Planeta Amarelo. De lá até o Planeta Azulado é mais um bom tempo de viagem, só que sem qualquer mundo habitado no caminho. A nave é precária e eles não podem confiar completamente nos instrumentos que enfeitam os painéis. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


É uma longa jornada até o Planeta Amarelo. De lá até o Planeta Azulado é mais um bom tempo de viagem, só que sem qualquer mundo habitado no caminho. A nave é precária e eles não podem confiar completamente nos instrumentos que enfeitam os painéis. Roberval estudou profundamente os mapas daquele setor e brincam até que há uma espécie de ligação magnética entre ele e o Planeta Azulado. Os dois nunca poderiam se perder um do outro. Então, chegar ao objetivo último é uma questão de tempo.

Acreditamos nisso.

Até lá, os jogos dimensionais, os cálculos de trajetória e os sonhos criogênicos são a distração dos tripulantes. Sonhos criogênicos podem ser registrados e analisados por máquinas. No computador pode-se combinar sonhos e outras imagens, ou sons, e induzir novos sonhos, quase dirigidos, como se fossem filmes. Com dedicação e muitas horas de voos interestelares sem muita coisa pra fazer, a não ser sonhar, é possível controlar os próprios sonhos. É possível também criar sonhos coletivos, desde que haja alguém no controle manual do sistema de processamento de sonhos.

Essas experiências, além de divertidas, são úteis e contribuem para a vasta rede de estudos sobre o sono e, especificamente, os sonhos. A ciência dos sonhos só cresce, em pesquisa e desenvolvimento, a cada ano. A ideia central é, naturalmente, minimizar a fronteira entre as regiões oníricas e a realidade. Talvez logo não seja preciso fazer certas coisas, visitar lugares ou encontrar pessoas se você puder simplesmente sonhar com isso.

Quanto à nave, seus sinais chegam regularmente, mas logo teremos uma zona de sombra e o sinal só será recuperado já nas proximidades do Planeta Azulado. As notícias são que lá perdura uma próspera colônia, que ocupa uma pequena área montanhosa na margem de um mar interno ou lago. As informações não são muito precisas. O que se diz é que desenvolveram a pesca e não mantém contato com civilizações de outros planetas. Teriam esquecido o início de tudo e documentos importantes que registrariam sua história se perderam. Sondas investigativas informam que discutem a possibilidade de vida fora do planeta, mas como mitologias.

A nave entrará em órbita e um módulo levará a tripulação até a superfície, numa zona desabitada. Começa aí a longa tarefa de reestabelecer o contato com essa gente perdida, que cultua totens de deuses e dança na água para atrair os peixes e encher suas redes.

São parte da família e precisamos recuperá-los, explicar-lhes a origem. Fico pensando se seremos inconcebíveis, se estaremos em vão entre eles. Que diferenças se acentuaram nesse longo período de isolamento?

São pescadores e são pacíficos, pelos menos até onde sabemos. Nosso pessoal nunca mais voltará e sabe-se lá se sucumbirão ao esquecimento e à pescaria. Talvez acabem por ensinar os sonhos criogênicos e durmam e sonhem que estão na Terra, a antiga Terra. Talvez sonhem por fim que falam conosco e os ouviremos de alguma forma, talvez nos nossos próprios sonhos gelados.


Nadando com meu peixe predileto

Meu peixe predileto me leva bem perto do vulcão submarino, e bem perto do abismo do fundo mar e me fala baixinho, no ouvido: “Lá embaixo estão as fundações da terra”. E fugimos como quem foge do medo mais terrível, e nadamos sozinhos, rindo, perto daquela praia cheia de gente que não nos entende. E se eles soubessem que eu estou ali, nadando com o meu peixe predileto comentariam que “isso não é possível… e as leis?! E o congresso!?… [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Quando o sol brilha muito é bom nadar com nosso peixe predileto. Descer com ele até o fundo, onde dormem os restos do antigo galeão, afundado numa terrível tempestade de verão. E toda a sabedoria do mundo inteiro não é mais que a água do mar, não é mais que estar junto do nosso peixe predileto, conhecendo uma a uma as outras criaturas do mar e se assustando com algumas delas, de tão antigas e estranhas que nos parecem.

Meu peixe predileto me leva bem perto do vulcão submarino, e bem perto do abismo do fundo mar e me fala baixinho, no ouvido: “Lá embaixo estão as fundações da terra”. E fugimos como quem foge do medo mais terrível, e nadamos sozinhos, rindo, perto daquela praia cheia de gente que não nos entende. E se eles soubessem que eu estou ali, nadando com o meu peixe predileto comentariam que “isso não é possível… e as leis?! E o congresso!?…

Meu peixe predileto me mostrou que há correntes de água fria e correntes de água quente, e que o mar é um mundo maior que as ruas da minha infância. E eu lembro que na minha infância o mar era a eterna fotografia, preto e branco, enquanto eu andava em direção a minha mãe.

Obrigado, meu peixe predileto, por me mostrar o mar, por me revelar o mundo. Hoje eu durmo com sono e durmo tranquilo. E espero que todos tenham seu peixe predileto e que conheçam o fundo do mar tão bem quanto eu conheci. Então, quem sabe poderemos nos encontrar, todos nós, nas águas luminosas do oceano, dos rios, com suas criaturas e as nossas mães, numa foto preto e branco, de muito tempo atrás.