Eu não posso deixar de me esquecer de mim

Lembro quando para cada dia havia uma sinfonia – você lembra também, bailarina? Para cada sonho, um solfejo. Barulhentos eram os pesadelos quando a música ficava longe, guardada como lembrança debaixo do travesseiro.[Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota


Lembro quando a vida tinha trilha sonora – ele pensou, o trompetista do circo, querendo esquecer o que tocava, o que dizia. Cada nota, cada sopro, tudo em seu devido lugar. O som, o seu som. Todos os sons que cabiam no mundo. Até o som que o sol fazia quando batia no seu rosto e que me deixava mudo.

Lembro quando para cada dia havia uma sinfonia – você lembra também, bailarina? Para cada sonho, um solfejo. Barulhentos eram os pesadelos quando a música ficava longe, guardada como lembrança debaixo do travesseiro.

Lembro quando as colcheias e as palavras começaram a parecer fora de compasso – quem nunca… Nem poesia, nem afago, nem abraço. Nenhuma letra, nenhuma rima, nada dando conta de explicar ou abarcar o espetáculo da trilha da vida.

Eu tocaria só pra ver você dançar uma marchinha.

Esquece.

Onde está minha surdina?

LEIA outros contos de Eduardo Frota


O peso do pássaro morto, de Aline Bei

Talvez seja esse um comentário tardio sobre o livro O peso do pássaro morto (Lançado em 2017 pela brava Editora Nós, da Simone Paulino), de Aline Bei. Mas acontece que demorei a chegar até ele. Sou daqueles leitores que compra um livro e não o lê imediatamente. Deixo ele lá na estante, ou na Nuvem, no caso de um e-book. Muito se falou das qualidades desse primeiro romance da Aline. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Talvez seja esse um comentário tardio sobre o livro O peso do pássaro morto (Lançado em 2017 pela brava Editora Nós, da Simone Paulino), de Aline Bei. Mas acontece que demorei a chegar até ele. Sou daqueles leitores que compra um livro e não o lê imediatamente. Deixo ele lá na estante, ou na Nuvem, no caso de um e-book. Muito se falou das qualidades desse primeiro romance da Aline. Falou-se muito bem do livro, e fiquei com um olho nele, dormindo ali no meu Kindle; potencial, algorítmico. Mas o livro dormia um sono agitado, porque estava a me chamar. Até que vi a história da lista de livros que foi censurada e lá estava O peso do pássaro morto. “Chegou a hora de ler essas páginas”, pensei. Se o governo censurou, vamos ler!

O livro é uma vida. Uma vida narrada em primeira pessoa, dos 8 aos 52 anos. Quem lê é quem vive essa passagem de tempo, esse sucessivo encolher e expandir-se. É a vida de uma mulher. Bem poderia ser na primeira pessoa do plural, porque encontrei tantas mulheres nesse livro, tantos enfrentamentos que reconheço na vida das mulheres que conheço. Ao mesmo tempo a dor compartilhada, humana, que transcende gêneros, fronteiras, paredes.

Lá no começo eu falei em primeiro romance. É o que todos dizem, no release, nos ótimos artigos e críticas sobre o livro. Para mim é um longo poema. Um longo poema sobre a dor, sobre a morte, verdades incômodas e incontornáveis. E quanta propriedade nessa narrativa, quanto pertencimento… o que produz uma leitura em que dói e alivia. E dói de novo e nos deixa em suspensão… Com um Não é possível! preso na garganta.

O livro de Aline nos desafia a cada palavra. O livro de uma vida. Mas o que é a vida? Um tapa na cara? A maternidade? O distanciamento? O emprego ou o sonho? Ou a morte? A vida é a sucessão, ilusória, talvez, dos fatos que ocorrem a alguém? Ou o labirinto interior, onde esses mesmos fatos se embaralham, se sobrepõem e se conectam a outros, profundos, que muitas vezes escapam à vista? É nisso tudo que pensei enquanto percorri as páginas, a vida, os dias, de uma mulher sem nome, de mãos dadas com ela. Por vezes sentindo suas unhas se cravarem na palma da minha mão. O que isso significa? Aprendi nessas páginas de Aline Bei que sei pouco.

Essa mulher que vi crescer sob as nuvens, sob as circunstâncias de uma vida sem perspectiva, sob a presença da morte e da vida (O que é a vida?) se insinuando em coisas muito pequenas. Essa mulher me ensina a perguntar quem somos, diante disso tudo que vivemos.

Não quero dar spoiler, nem analisar ou me alongar uma crítica. Sou um leitor diante do livro, da beleza de um livro, ainda buscando uma voz para falar dele. Terminei um livro sobre um vida e fiquei pensando na morte. Uma de suas passagens me lembrou de um trecho do poema do Allen Ginsberg, chamado Relato de um sonho: Junho, 1955, do livro Sanduíches de realidade, que consta da edição Uivo e outros poemas, da LP&M. Ele escreveu o poema depois de sonhar com Joan Burroughs, que havia morrido tragicamente, em 1950:

Então soube que
ela era um sonho: e perguntei-lhe
— Joan, que espécie de sabedoria
têm os mortos? você ainda pode amar
suas amizades mortais?
O que você lembra de nós?

Deixo vocês aqui com essa mesma interrogação. Deixo vocês com o livro de Aline Bei. O peso do pássaro morto é desses livro para ler e reler, para atravessar com prazer e assombro. Que literatura boa a dela, que deixa a gente com tanto pensamentos na cabeça, com tantas questões e anseios. Um livro que te diz: Estamos vivos! E o que é a vida?


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Circuito de lives Musicandarte!

E agora a boa notíca! O Musicandarte conseguiu patrocínio da Lei Aldir Blanc para realizar um circuito de lives, com Concerto/Aulas sobre MPB, que acontecerão em 7 semanas seguidas, de 13 de fevereiro à 27 de março, sempre aos sábados, as 16h, transmitidas simultaneamente pelo Instagram
@musicandarteoficial e Facebook.


Gente, vocês certamente devem lembrar do livro As viagens de Zequinha  no terreno dos Chorões, escrito por Marcia Feitosa e ilustrado por Lhaiza Morena. Comentamos sobre ele aqui na Kuruma’tá, nesse texto! O livro é parte de um projeto muito maior e muito bonito, que a Marcia vem realizando há 17 anos, com muita fé na cultura e na música brasileira. É o Musicandarte, projeto que pesquisa e resgata mais de 150 anos de história da MPB, suas origem, seus ícones e canções emblemáticas. Um rico panorama cultural para as gerações mais novas

E agora a boa notícia! O Musicandarte conseguiu patrocínio da Lei Aldir Blanc para realizar um circuito de lives, com Concerto/Aulas sobre MPB, que acontecerão em 7 semanas seguidas, de 13 de fevereiro à 27 de março, sempre aos sábados, as 16h, transmitidas simultaneamente pelo Instagram
@musicandarteoficial e Facebook.

A cada live um gênero musical representativo da MPB será abordado tanto de forma musical quanto didática. O Musicandarte falará sobre os pontos mais importantes daquele gênero e de seus compositores, permeando com canções que marcaram a época.
Ao final, haverá um momento de interação maior com o público, para debate, discussão e perguntas sobre o tema.

A primeira live será “Origens do Choro”, seguida por “Raízes do Samba”, “Era do Rádio “, “Bossa Nova “, “Festivais da Canção”, “Jovem Guarda” e ” Som do Nordeste”.

A Revista Kuruma’tá mais que apoia a iniciativa do Musicandarte e vai acompanhar de perto essas lives! Venha junto com a gente e vamos aprender mais sobre a música brasileira e ajudar a preservar esse legado imenso. E parabéns ao Musicandarte pela conquista vibrante, num período tão difícil para a arte e cultura! Estamos juntos!

Leite Moça

Quando a tia saía, ele entrava. Tinha a cópia da chave e dizia que vinha assistir outro programa na TV, já que as irmãs estavam coladas na novela. Despedia-se da tia, esperava o carro dela dobrar a esquina e corria para o armazém. Comprava a latinha. Ai, a latinha. Perfeita, redondinha, com o rótulo bonito mostrando a mocinha fresca, virginal, leitosa, segurando a cestinha. [Texto de Márcio Fabiano]

Texto de Márcio Fabiano


Quando a tia saía, ele entrava. Tinha a cópia da chave e dizia que vinha assistir outro programa na TV, já que as irmãs estavam coladas na novela. Despedia-se da tia, esperava o carro dela dobrar a esquina e corria para o armazém. Comprava a latinha. Ai, a latinha. Perfeita, redondinha, com o rótulo bonito mostrando a mocinha fresca, virginal, leitosa, segurando a cestinha. E tinha os passarinhos no ninho. Abria a latinha como quem desvirgina uma moça. Com cuidado e muito, muito tesão. E escondido, pois assim o prazer dobra. A latinha valia como uma trepada. Rápida, gulosa, forte, ofegante. O diacho é que sexo não dá caganeira, mas gulodice sim.

Às vezes usava variantes na performance. Côco ralado, queijo, pão de ontem, bolacha cream cracker. Era bom de lata. Sabia variar. Pelo menos, a mocinha nunca reclamou. Pelo contrário, vivia feliz sorridente. Quando a colher vinha e penetrava na latinha, engolindo tudo, ela gozava horrores. Até os passarinhos piavam mais alto com as colheradas.

Mas, sempre tem o depois. Enquanto após o sexo, uns dormem, outros fumam, com a latinha era mais complicado. Comeu, jogou fora. A lógica machista era necessária senão a tia descobriria tudo. Mas não podia jogar a latinha no lixo, que era demais. O jeito foi jogar no telhado. Depois do ato consumado, ia no quintal e jogava a ex-donzela em cima da casa. Ela reclamava. Dizia que tinha fobia de altura, que os gatos vinham lamber os restos que ele deixou, que enferrujaria com o relento. Acostumou-se. O destino não é doce. E assim foram muitas noites com várias latinhas de mocinhas sorridentes com as colheradas pujantes. Até que um dia veio o Plano Cruzado e as latas sumiram. Em seu lugar, uns tubos de alumínio com o leite condensado. Um horror. Tubo não dá tesão. Parou de comer.

Esqueceu as latas, ao mesmo tempo em que a tia iniciou uma reforma na casa, começando pelo telhado. O pedreiro subiu e descobriu um harém. Latinhas e mais latinhas enferrujadas, com receitas vencidas e rótulos rasgados. Estavam todas lambidas, usadas. O pedreiro, sem um pingo de lirismo e sensualidade, jogou todas ao chão.

Quando retornou, a tia não entendeu nada. Chamou o sobrinho e fez o interrogatório. Primeiro, ele negou descaradamente. Depois, acuado diante de tantas vítimas, assumiu a tara. Como penitência, teve que varrer o pátio, colocar as latinhas num saco de lixo e livrar-se daquela indecência. Sentiu remorso pelas mocinhas, mas cumpriu a pena. A vida não é doce.


É tempo de Levada!

Gente linda que segue a Kurumat’tá… ano passado foi o não foi. Esse ano também não tá bonito. Mas pra espantar as vertigens e desmando, nada como a boa música que nos alenta nessa confusão! Então é com alegria que a gente anuncia a 9º edição do Festival Levada, que acontece online, a partir do próximo dia 2 de fevereiro!

Gente linda que segue a Kurumat’tá… ano passado foi o que não foi. Esse ano também não tá bonito. Mas pra espantar as vertigens e desmandos, nada como a boa música que nos alenta nessa confusão! Então é com alegria que a gente anuncia a 9º edição do Festival Levada, que acontece online, a partir do próximo dia 2 de fevereiro!

A Kuruma’tá é fã do Levada! Em 2019,a 8ª edição, acompanhamos de perto a lindeza do festival e saímos comovidos! Venha se comover também!


Serão 4 apresentações transmitidas AO VIVO diretamente do estúdio Labsonica do Oi Futuro para vocês, que poderão assistir no canal do Levada no Youtube [ www.youtube.com/LEVADAFESTIVAL ] e ainda acompanhar a cobertura do Festival aqui no Instagram. 👀

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Poemas de Niterói, de Marcos Jorge Nasser

Naturalmente esse texto não é uma crítica do livro, ou análise que seja. Não me atrevo… é mais um chamamento, como o próprio livro é. Um despertar pra esse trabalho tão significativo. A gente precisa mesmo procurar pela poesia, sair da zona de conforto das leituras de sempre. A poesia tá por aí, em Niterói, nas páginas de Marcos Jorge Nasser, no seu belo livro… [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Gente, a Kuruma’tá é uma casa de poesia. Acho que a poesia tá na raiz profunda dessa empreitada na qual nos aventuramos. Então nunca negamos oportunidades de poesia, de fazer ou ler poesia. Isso acaba por alimentar um ciclo permanente de poemas indo e vindo mundo afora e adentro, passando pelo portal da Kuruma’tá. Pois que nessa dança poética nos chegou um livro que agora, lido, me é muito caro: Poemas de Niterói – 2º volume (Autografia, 2020), de Marcos Jorge Nasser.

No corre dos afazeres que a vida demanda, o livro entrou num modo de espera, que foi rompido pela urgência que a gente tem que se impor, quando se trata de abrir um livro de poemas.

Mas li sem pressa… Hoje em dia vejo uma coisa muito agoniada de ler os livros rapidamente e em sequência, e pessoas que leram vinte livros no mês. Gente, eu não consigo. Ler, pra mim, é uma viagem de trem. Tem que ter um deixar-se, tem que ter paisagem e tempo generoso. E a poesia desse livro pede isso. Muitas vezes reli um mesmo poema, afim de apreendê-lo, afim de saber dele. É um livro, então, de idas e vindas, no melhor dos sentidos, para se demorar mesmo. Não venha no afã de atropelar a poesia porque ela dita seu tempo, se decorrer.

A cada poema, que li de forma randômica, sem seguir a ordem das páginas que, afinal, é uma ordem ilusória, fui sendo cativado pela originalidade do poeta. Quando leio, nunca busco semelhanças, escolas, tendências. Busco poetas e poesias, e é bom quando a gente encontra. Marcos Jorge Nasser é poeta, e isso se delineia nitidamente no seu trabalho tão bem construído. Tem uma ourivesaria ali, sabe… um dedicar-se ao verso, um pesar a palavra em sua leveza e intensidade. Poesia para que se olhe o mundo.

Naturalmente esse texto não é uma crítica do livro, ou análise que seja. Não me atrevo… é mais um chamamento, como o próprio livro é. Um despertar pra esse trabalho tão significativo. A gente precisa mesmo procurar pela poesia, sair da zona de conforto das leituras de sempre. A poesia tá por aí, em Niterói, nas páginas de Marcos Jorge Nasser, no seu belo livro… belo mesmo! Uma edição caprichada, elegante, adornada com pinturas do próprio Nasser, num diálogo preciso com os versos. Uma riqueza, viu?!

Deixo vocês aqui, com o primeiro poema que li do livro, página aberta na sorte (e que sorte!). E sim, ainda estou a ler o livro, e o lerei por muitos anos! É desses livros ao qual a gente sempre recorre.

Um post-scriptum importante: Lançar um livro de poesia em plena pandemia, num ano que nos tirou tanto, é muita generosidade.


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Sim! Tem um 1º volume, que merece demais sua leitura. Na verdade um merecimento mútuo, não é mesmo?!


O que é uma livraria?

Ali pelos anos 80 do século passado a editora Brasiliense era a queridinha de todo jovem que gostava de ler. Com suas coleções Primeiros passos, Círculo de Letras e Cantadas literárias, a Brasiliense cobria um largo espectro de criatividade e curiosidade, com títulos de autores como William Burroughs, Caio Fernando Abreu, Walt Whitman e outros tantos que instigavam nossas mentes aceleradas pela juventude, pelos encontros e desencontros das ruas do Recife. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro

Para Tarcísio Pereira e sua Livro 7

Ali pelos anos 80 do século passado a editora Brasiliense era a queridinha de todo jovem que gostava de ler. Com suas coleções Primeiros passos, Círculo de Letras e Cantadas literárias, a Brasiliense cobria um largo espectro de criatividade e curiosidade, com títulos de autores como William Burroughs, Caio Fernando Abreu, Walt Whitman e outros tantos que instigavam nossas mentes aceleradas pela juventude, pelos encontros e desencontros das ruas do Recife.

A coleção Primeiros Passos era o seguinte… um livrinho, pequeno mesmo. Cabia na palma da mão. O título principiava sempre com um O que é. O que é isso ou aquilo. Lembro bem do volume O que é ficção científica, escrito por Braulio Tavares, e de outro, O que é neologismo, escrito pela minha professora de Português na universidade, Nelly de Carvalho. Maior orgulho disso até hoje. Pois pego esse mote do O que é para dizer, com uma historinha, o que é uma livraria.

Em 1987, como tantas vezes, ao longo de tantos anos e histórias, eu entrei na Livro 7, uma super livraria que existia no Recife, fundada pelo mestre Tarcísio Pereira, em 1970, e que até fechar suas portas, em 2000, e que chegou a ostentar o título de maior livraria do Brasil. A Livro 7 evoca Borges e sua ideia de que o Paraíso seria uma biblioteca. A Livro 7 era, pois, o paraíso de nós, leitores, naquela Recife que carecia de mais livrarias e outras opções culturais. Era um centro, um vórtice que atraía toda gente ávida por cultura. E certamente era um imã para mim e meus amigos, ansiosos por ler o mundo naqueles livros, espalhados em tantas estantes.

E continuando a história, eis que entro na Livro 7 e lá está um recém lançado, cintilante, exemplar de On the road – Pé na estrada, de Jack Kerouac, editado na coleção Círculo de Letras, da Brasiliense, e traduzido por Eduardo Bueno e Antonio Bivar (Verdes vales do fim do mundo, outra leitura obrigatória). E eu, que já carregava Uivo, de Ginsberg, pra lá e pra cá, e não tirava os olhos do Folhas de folhas de relva, de Whitman (Também Brasiliense, na coleção Cantadas Literárias), não via a hora de adentrar às jornadas de Sal Paradise e Dean Moriarty pela América. Como nunca tinha a grana na hora de comprar um livro, tive que voltar algumas vezes à livraria até levá-lo pra casa. Sempre passava por lá pra conferir se o livro ainda me aguardava.

On the road entrou na minha vida pela Livro 7, e dela nunca mais saiu. A Livro 7 também nunca saiu da minha vida, como uma tatuagem espiritual ou intelectual, vai saber… Nem mesmo quando encerrou suas atividades, quando eu já morava no Rio de Janeiro.

Como sempre, nessas histórias, o tempo passa, carrega coisas e pessoas pra cima e pra baixo, apaga algumas memórias e torna outras agudas. Em 2007, retornando ao Recife, numa viagem de trabalho, levei o On the road debaixo do braço, pra ler no avião e nas noites de hotel. E nessa mesma viagem aconteceu o inesperado de conhecer Raquel, minha companheira, parceira de vida até hoje. Conheci Raquel e travamos afinidades, passeamos pela noite de Olinda, com nossos amigos Roberval e Zé José.

Na noite da minha volta ao Rio, ela e Roberval foram ao aeroporto comigo, curtir aquelas últimas horas juntos no Recife. Chegamos cedo e ficamos a conversar… ali mesmo, nas mesinhas do aeroporto, peguei meu exemplar de On the road, escrevi uma dedicatória, e entreguei a Raquel. Acho que foi um gesto de ficar com ela, de estar com ela de alguma maneira. Não sabíamos, ali, se voltaríamos a nos encontrar. Entreguei-lhe um livro que comprei na Livro 7, no exato ano em que ela nasceu Veja só! Um livro que foi lido e relido, viajou pra tantos lugares e estava surrado de tantas páginas viradas e sonhadas. Um livro que perambulou de 1987 até 2007, para chegar às mãos da mulher que me proporcionou uma vida nova, que se renova todas os dias ao lado dela.

Então, isso é o que é uma livraria. Não é uma loja, um comércio. É uma cadeia de acontecimentos, uma espiral de eventos e encontros, sempre ascendente e inesperada, que culmina em felicidades. Acabou que Raquel veio morar comigo no Rio e trouxe o livro pra junto de mim outra vez. Hoje estamos os três, mais os gatos e os outros tantos livros, alguns herdados da Livro 7, todos juntos no nosso lar em Vila Isabel. E On the road está aqui, aberto ao meu lado, com sua dedicatória de 2007 e uma história que nos leva pela história do Recife e de uma livraria que foi pioneira em tantas coisas, capitaneada por um homem de coração e horizontes abertos.


Tarcísio nos deixou ontem à noite, vitimado pelo Covid, e por esse abandono que as almas sensíveis, como ele, passam nesse país de desmandos, cada vez mais arruinado. Mas hoje não quero ver Tarcísio como vítima, e sim como protagonista de uma aventura generosa e fértil, que alumia o coração vibrante de quem passou pela calçada da Livro 7, não resistiu e entrou… e nunca mais saiu.


Aristocracia Carioca | “Excluída é a Zona Sul”

Marcos Guimarães, o Marco Palito, ou simplesmente Marcão, pode ser ainda um ilustre desconhecido na Zona Sul, mas no subúrbio é o rei do humor. Seus leais súditos estão nas lonas culturais da prefeitura, em especial na Hermeto Pascoal (em Bangu), na Gilberto Gil (na Capelinha) e na Carlos Zéfiro (em Anchieta); no Ponto Cine, em Guadalupe; e no Shopping Madureira [Revista Zé Pereira]

Texto e fotos de Eduardo Souza Lima

Texto publicado originalmente no número 2, de setembro de 2007, da Revista Zé Pereira, na seção Aristocracia Carioca


Marcos Guimarães, o Marco Palito, ou simplesmente Marcão, pode ser ainda um ilustre desconhecido na Zona Sul, mas no subúrbio é o rei do humor. Seus leais súditos estão nas lonas culturais da prefeitura, em especial na Hermeto Pascoal (em Bangu), na Gilberto Gil (na Capelinha) e na Carlos Zéfiro (em Anchieta); no Ponto Cine, em Guadalupe; e no Shopping Madureira, onde atua como uma espécie de consultor artístico e se apresenta há dois anos no talk-show ao vivo “TV no Bar”, no restaurante Blumenau Grill. O Bonequinho Vil, sua mais famosa criação, e o “Conversa Fiada”, seu programa de auditório, têm sete comunidades no Orkut. Cada lona tem 350 lugares, mas em suas apresentações é comum ver até 800 pessoas se espremendo nas arquibancadas e sentadas no chão. Fora as duas mil que ficam do lado de fora tentando entrar.

“Tenho influência de tudo,
mas o bar é minha
universidade”

— Tem um amigo meu, o Adil, que costuma dizer: “Não dá nem pra entrar lá fora” — brinca o humorista.

Certa vez, Marcão e sua trupe foram se apresentar na Praia de Copacabana, num evento patrocinado por uma fábrica de biscoitos. E ele aproveitou para dar o seu recado:
— Cheguei pra rapaziada e disse: “Excluída é a Zona Sul. Nós já somos 4,5 milhões, vocês, só 1,5 milhão. Vocês nem tem trem! Isso é um absurdo! E nem ônibus direto para Madureira! A cidade precisa se integrar e nós vamos ajudar vocês.” O Hans Donner viu e se amarrou. Disse que a gente conseguiu inverter a mão.

Nascido e criado em Pilares, há 41 anos, Marcão preferiu que esta entrevista fosse feita em Madureira e não em seu bairro natal: “É que lá é a capital do subúrbio”, argumentou. Quem é da região, bem o sabe. Mas este não foi o único motivo. Madureira também é o seu quartel-general e a sua musa maior. O humor de Marcão é genuinamente suburbano, e não apenas na certidão de nascimento. Ele anda para lá e para cá nas movimentadas ruas do bairro, conversando com todo mundo, buscando inspiração para novos tipos e esquetes.

— Quando você é do subúrbio, quer olhar para a Zona Sul. Quando olhei pro subúrbio, vi a bananada, o kichute, o sacolé de manga. Comecei a sortear bananada no “Conversa Fiada” e foi o maior sucesso. As pessoas gostam de se sentir retratadas, de ouvir quem fala a língua delas.
No Shopping Madureira, por exemplo, convenceu os donos de grifes locais a trocarem o cenário dos desfiles de moda que promovem no local: saiu a praia com palmeiras, típica da Zona Sul, e entrou um trem sobre trilhos, bem suburbano. As modelos do bairro ficaram orgulhosas com a nova passarela.

“Hoje, eu sobrevivo de minha arte.
Espero um dia poder
viver dela”

Adaílton Medeiros, criador do Ponto Cine, conheceu Marcão quando era diretor da Lona Cultural Carlos Zéfiro e foi um dos primeiros a apostar em seu talento e na originalidade de seu trabalho. Hoje, o comediante se apresenta nas manhãs de sábado no cinema de Guadalupe, antes da sessão “Diálogos com o cinema”, que exibe filmes brasileiros seguidos de debates com seus realizadores.

— O Marcão é o que há de mais novo no mercado do humor, tanto no Rio quanto no Brasil — diz Adaílton. — O seu humor é muito rico e é o da crônica diária. As pessoas se enxergam nos personagens do Marcão porque eles falam em uma linguagem simples e acessível. Esses personagens apresentam as características próprias da cultura do subúrbio, mas vão, além disso. É um humor que se torna universal justamente porque é local.
A carreira de humorista começou há 20 anos, com o “Respondeu Bebeu”, uma gincana de conhecimentos gerais que apresentava em bares das zonas Oeste e Norte. O “Conversa Fiada” foi criado em 1996 e até hoje é um sucesso absoluto no circuito das lonas culturais. Foi em um de seus quadros, “Diário de um magro”

— no qual satirizava a obra do escritor Paulo Coelho com trocadilhos do gênero “Nas margens do Rio Piegas eu sentei e gostei” — nasceu o Bonequinho Vil. O boquirroto personagem, visualmente inspirado no Bonequinho das críticas de cinema do jornal “O Globo”, comenta, de modo singular, as principais notícias da semana. Curiosamente, Marcão é coadjuvante no quadro: como o personagem fala de forma incompreensível, ele interpreta o seu tradutor. Quem dá vida ao Bonequinho é Marcus Vinícius de Oliveira, o Marcus Saúva.

— O Saúva era percussionista de uma banda chamada Didi Subiu no Cristo — conta Marcão. — Mas eu rolava de rir vendo o cara tocar. Ele estranhou um pouco quando o convidei para fazer o personagem, mas já estamos juntos há 11 anos.

— Achei estranho até porque nunca havia feito teatro na vida, mas embarquei, e descobri que o Marco tem um olho bom para descobrir novos talentos — diz Saúva. — E descobri que havia encontrado uma razão na vida, adoro fazer as pessoas rirem.

O sucesso do Bonequinho Vil não é brinquedo não: seu esquete acabou virando a última atração do “Conversa Fiada”, porque muita gente ia embora depois que a dupla deixava o palco. Mas criar tipos é a especialidade de Marcão. Tem, por exemplo, a americana Ema Grace, líder da seita do Santo Diet — um chá alucinógeno que faz a pessoa acreditar que emagreceu — e Dali de Salvador, pintor surrealista baiano que tem entre suas obras o quadro “Clodovil no harém”.

Marcão é o caçula de cinco irmãos, filho de um representante de vendas com uma dona de casa. É o único com pendor artístico na família. Mas foi em casa que começou a ter interesse por arte.

— Meu primeiro encontro com a arte foi uma pintura numa telha que minha irmã fez — conta. — Não sei por que aquilo me impressionou. Acho que por ver que era possível fazer.

Depois vieram o tio piadista — toda família do subúrbio tem pelo menos um — e os discos de humor do Agildo Ribeiro e do Costinha, cujas anedotas o menino decorava para deleite de uns e horror de outros. Quando estava na sétima série da Escola Municipal Souza da Silveira, em Piedade, participou da montagem da peça “Deus lhe pague”, de Joracy Camargo, feita por sua professora Regina Célia. E a partir daí não parou mais: cursou CAL, Martins Pena, fez oficina de palhaçaria com Marcio Libar.

“Eu me considerava
um desnutrido cultural”

— O universo do palhaço foi a minha última descoberta. Com ele, eu aprendi a perder. Tenho influência de tudo, mas o bar é minha universidade — diz Marcão.
O humorista também tentou cursar Jornalismo, mas teve que abandonar a faculdade ainda no primeiro período, por falta de dinheiro. Ainda assim, deu um jeito de entrar para o meio jornalístico: atualmente ele participa das transmissões de futebol da Rádio Transamérica FM (101,3 MHz) com o personagem Armando Furtado, ex-juiz ladrão e comentarista de arbitragem, além de apresentar a “Agenda do Marco Palito”, resenha esportiva na qual dá os resultados de partidas de esportes populares como sueca, queimado e porrinha. A família nunca entendeu direito esse negócio de viver de inventar histórias, mas sempre o apoiou.
Quando você passa da metade do caminho, não tem mais volta. Hoje, eu sobrevivo de minha arte. Espero um dia poder viver dela.

Não deu no “RJTV”, mas em 2003 Marcão ganhou o Prêmio Governo do Estado, como empreendedor de cultura popular. Além do seu trabalho como humorista, ele coordena projetos sociais, à frente da ONG Alimento Cultural.

— Eu me considerava um desnutrido cultural. A primeira vez que fui ao cinema foi para ver um filme de Tarzan em sessão dupla com “A vida de Cristo”. No subúrbio você não tem muitas opções. A Barra tem 90 mil habitantes e só num shopping tem 18 cinemas. Bangu tem 500 mil e só uma sala.

Em seus talk-shows e gincanas de humor, Marcão sempre faz questão de falar de cultura e de política — “porque o povo não pode esquecer do Juiz Nicolalau e dos Anõezinhos do Orçamento”, diz. Ultimamente, tem pensando numa nova forma de cobrança de entrada para seus espetáculos.
O ingresso seria uma frase. Mas não qualquer frase, tem que ser uma frase boa. Sei que isso geraria discussão e acabaria levando as pessoas aos livros. Mas criaríamos também um banco de frases para não deixar ninguém constrangido. Aí é só o cara pegar uma emprestada.
Por meio de projetos como o Cesta Básica Cultural (no site www.marcopalito.com. br tem todos), ele distribui livros para pessoas carentes.

Estamos criando um conselho de nutrição, formado por professores, jornalistas, sociólogos e artistas, para fazer o cardápio. Não dá para dar um Guimarães Rosa logo de cara. Tem que acostumar o estômago aos poucos. Às vezes você dá uma feijoada para um cara que está cheio de fome e ele morre de indigestão. O sujeito nunca foi ao teatro e pode nunca mais ir dependendo do que ele for ver.

Marcão tem três filhas, Thainá, de 19 anos, Thuanni, de 18, e Anna Luiza, de 11, e duas ex-mulheres — “eu sempre fui bem casado, elas, não”, brinca. E hoje, diz com orgulho que sua carteira de trabalho só tem duas assinaturas:
A minha e a do funcionário do Ministério que a emitiu.

Ponto de vista

Para eles essa tal de quarentena está sendo difícil. Choros, ansiedades, preocupações com o futuro, com o dinheiro, com o tudo e com o nada. Humanos são estranhos. Vivem no passado ou no futuro, dificilmente no presente. Nós, cachorros, preferimos levar um dia por vez. Comida, água e boas doses de soneca e brincadeiras. [Texto de Tássiua Veríssimo]

Poemas de Tássia Veríssimo


Não sendo humana essa questão do vírus não chega a ser algo que me tire o sono, devo admitir. Claro que me preocupo com os meus humanos, mas eles estão se cuidando e acredito que ficarão bem. Isolamento social, pelo que entendi, é o nome que vocês estão dando para algo que sempre fez parte da minha rotina de cachorra de apartamento.

É claro que eu sinto falta de passear – apesar que sempre saí muito menos do que gostaria – e de conviver com outras pessoas e cachorros. Gosto até de gatos, porém não tenho muito talento com eles. Mas, não está sendo ruim ter os meus humanos em casa o dia todo. Estou mais gordinha por conta da quantidade extra de petiscos, recebo altas doses de carinho na barriga – meu ponto fraco – e tenho desfrutado de privilégios como dormir na cama dos humanos que estão carentes e permissivos.

Para eles essa tal de quarentena está sendo difícil. Choros, ansiedades, preocupações com o futuro, com o dinheiro, com o tudo e com o nada. Humanos são estranhos. Vivem no passado ou no futuro, dificilmente no presente. Nós, cachorros, preferimos levar um dia por vez. Comida, água e boas doses de soneca e brincadeiras.

Desejo que tudo isso passe logo para eles ficarem felizes, apesar de me preocupar com a minha própria solidão quando as coisas voltarem ao normal. Eu não gostava de ficar horas e horas sozinha enquanto meus humanos faziam coisas que não queriam em troca de pedaços de papel. Eu sei que esses papéis compram minha ração e a deles, mas parece tão desgastante o processo.

Quando penso em como será o novo mundo me pego desejando que os humanos, de maneira geral, consigam aplicar em suas rotinas esse tanto de yoga e meditação que andam fazendo on-line para ficarem menos estressados. Seria interessante também que valorizassem mais os talentos que têm, como artesanato, culinária, jardinagem ou mesmo fazer dobraduras em formato de avião e barco no papel. Qualquer coisa que lhes dê prazer e os lembre que todo mundo nasce para ser feliz e não para bater cartão.

Fico triste quando paro para analisar o tanto de tempo que os humanos gastam tentando acumular coisas que não precisam. Na correria de suas rotinas não param para olhar o céu azul do outono ou se permitir passar uma tarde inteira apenas contemplando o nada, existindo no aqui e agora. Minha humana – que pensa que é minha mãe e insiste em me tratar como um bebê apesar dos meus quase três anos de idade – diz que a culpa é do tal capitalismo. Vive em sonhos de revolução, fala sobre um mundo de equidade.

Talvez se ela conseguisse entender meu idioma ficasse orgulhosa em ver que também penso assim É bem verdade que não tenho teorias ou conceitos e não possuo diploma de coisa alguma. Mas, como animal que se sabe bicho, entendo que não faz sentido algum se matar por dinheiro sendo que o mundo nos dá tudo de graça.


Apaga-se o farol da Gávea

Naquela horinha de almoço, a gente saiu do trabalho rumo ao Shopping da Gávea, que não me era muito familiar. Depois de comer alguma coisa em algum lugar ali, separei-me do pessoal e fui dar uma olhada nas lojas e vitrines, sem muito interesse em coisa alguma daquela paisagem monótona de shopping center, até que, no segundo andar, dei com esse cantinho. Era a Timbre; [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Nunca lembro se foi 2000 ou 2001… mas foi quando trabalhei ali na Gávea. Foi quando também pude conhecer aquele bairro da Zona Sul, onde havia me aventurado na primeira primeira visita ao Rio, em 1993, para testemunhar m lançamento de um livro de Haroldo de Campos, na livraria Marcabru, que existia no Gávea Trade Center. Fui até lá sem conhecer coisa alguma da cidade, de ônibus, perguntando pelas esquinas. Da Gávea, naquela noite, restou uma névoa, circundando a presença iluminada de Haroldo de Campos recitando seus versos vertidos do Livro de Jó, e umas fatias de pizza numa Mister Pizza, que ficava na esquina de uma rua com alguma outra rua.

De outra feita, já mais familiarizado com o bairro, já morador do Rio, talvez, jantei pela primeira vez num restaurante japonês na cidade maravilhosa, o Sushimar, que resiste bravamente ainda hoje. Na época era pequenininho. Era a noite na Gávea… essas pequenas, delicadas, aventuras. Mínimas.

Trabalhei ali na área por um ano, mais ou menos. A Gávea de dia, o movimento das ruas, ônibus, sair para almoçar nos pequenos restaurantes das redondezas, descobrindo recantos, ruas inesperadas e ventanias cariocas. Sempre atento para não me acostumar e andar de cabeça baixa. Sempre pronto a me surpreender. Foi assim que descobri a Livraria Timbre. Surpreendido.

Naquela horinha de almoço, a gente saiu do trabalho rumo ao Shopping da Gávea, que não me era muito familiar. Depois de comer alguma coisa em algum lugar ali, separei-me do pessoal e fui dar uma olhada nas lojas e vitrines, sem muito interesse em coisa alguma daquela paisagem monótona de shopping center, até que, no segundo andar, dei com esse cantinho. Era a Timbre; pequena, aconchegante, cheia de livros bons, e escondida inesperadamente naquela sequência infinita de grifes. vitrines clínicas, manequins enfadados e escadas rolantes. Era uma livraria. E eu a descobri.

Isso mesmo. Ninguém me falou dela. Não li sobre ela em jornais, nem recebi panfletos na rua anunciando sua existência. Foi uma descoberta, como se eu fosse o primeiro a entrar ali. Senti-me conhecedor de um segredo… Bom, não tardei a aprender que geral conhecia a Timbre, menos eu. Mas ali, na hora em adentrei seu pequeno e muito bem arrumado espaço, pensei imediatamente que precisava contar aquilo pra alguém. E essa é uma sensação muito boa. E foi assim que a Timbre se tornou um keyframe na minha vida, um pequeno farol espetado num shopping, num segundo piso, flutuando acima de tudo. Um lugar de recorrência e sossego. Nem comprei muitos livros, pois vivia com pouca grana. Mas passava por lá sempre que podia, nem que fosse para flertar com os livros na vitrine.

O tempo passou. Mudei de emprego e de cenários. Mudei de quase tudo e nunca mais voltei à Timbre. Minto… em certa tarde de 2019 fui à Gávea e resolvi comer um pastel no Shopping, velhos hábitos. Comi o pastel que já não era o mesmo e subi para ver a Timbre, para confirmar que ainda estava lá meu Aleph de anos atrás. Mais uma vez dei por mim a namorar sua vitrine, sua presença altiva dentre todas aquelas vitrines.

E eis que no fim desse janeiro assombrado de 2021, a Timbre fechará suas portas. Apaga-se o farol da Gávea e esse é o motivo desse texto. Uma livraria encerrar suas atividades dá uma tristeza enorme, tanto mais por saber que ela não conseguiu dar conta da contemporaneidade acelerada, do consumo impessoal, em que pessoas não sabem o que compram e nem de quem compram, ou como um livro chega às suas casas. Comprar na Timbre, na Daziabao, na Marcabru, era conversa de portão em fim de tarde. Reconhecimento mútuo.

O mundo mudou, tudo mudou. Nós mudamos. No dia 31 a Timbre fecha as portas com missão cumprida e um legado de 41 anos formando leitores, iluminando pensamentos, provocando conversas e ideias. Não é pouco, mas o mundo pede ainda mais disso tudo; o que faz com que essa seja uma ausência muito sentida.

Que agonia… a gente vai ficando velho e perdendo livrarias!

Mas descobrir novas livrarias ainda é uma missão. Ser surpreendido por uma vitrine com livros ainda é uma possibilidade nesse mundo vasto, cheio de gente com ideias doidas. Lembro de uma vez em que fui ao cinema Artplex, em Botafogo, e descobri que lá dentro tinha uma livraria chamada Blooks… mas isso é uma outra história na minha história com as livrarias.