+ um poema de Milena Martins Moura

Tarde feliz no inbox da Kuruma’tá, com poema lindo de Milena Martins Moura chegando pra gente, que é o mesmo que chegar pra você que nos lê.

é um sol diferente
o de quase abril
é um sol que só existe em quase abril

um sol fraco e meio frio
que envelhece as coisas todas onde debruça

com ele corro aos cinco anos com medo do cão da vó
que só queria carinho
e ralo de novo o joelho e crio de novo ferida

com ele estou vestida para festas pobres de escola
com guaraná em copo plástico
e salgados frios
dançando quadrilha com outra menina
porque somos sobras

ele é frango assado com batata no domingo
e fofoca de tia

plantas mortas da tia morta na casa derrubada

é um sol antigo
com luz de passado
envelhecendo os olhos todos que o encontram dessabidos

como a luz de toda estrela
a desse sol também é morta

assim o cão e as plantas e as tias
e os doces de cosminho
e os raios de tijolo espantando as nuvens

mortos como sonhar com dente

ao sol aponto o dedo sem criar verrugas
que são nada além de foco morto

a esse sol
de quase abril
resto do que não é mais
cancro arcaico nas lembranças em que os mortos eram vivos


MILENA MARTINS MOURA é mestre em literatura brasileira e tradutora. É autora dos livros Promessa Vazia (2011), Os Oráculos dos meus Óculos (2014) e A Orquestra dos Inocentes Condenados (Primata, 2021, no prelo). Integra a equipe de poetas do portal Fazia Poesia. Publica suas produções em diversas esferas artísticas no Instagram @oraculos_dos_oculos.


Aquela coisas todas, livro lindo de Joyce Moreno

E desde então tenho admirado e me encantado com Joyce e seu trabalho. Desde então aprendi a dimensão enorme desse trabalho, que atravessa a música brasileira em muitas direções, encontros, parcerias e descobertas que ela nos oferta com maestria. E agora, depois de tantas músicas, tantos discos lindos, eis que chega às minhas mãos esse livro, Aquelas coisas todas (da querida Numa Editora), que nasceu como um remix do livrinho de memórias, como ela mesma chama, Fotografei você na minha Rolleyflex, lançado em 1997. Mas de tudo que aconteceu de 1997 pra cá, e com tantas histórias e memórias para contar, o projeto acabo ganhando uma segunda parte. E que bom que isso aconteceu!

Texto de Toinho Castro


Conheci Joyce Moreno em abril de 1980, e ela assinava somente Joyce, no festival de música MPB 80, da Rede Globo. Eu tinha 14 anos, gostava de rock e lá estava, diante de mim, nas imagens vacilantes da TV de então, Joyce cantando Clareana, um acalanto dedicado às filhas. Talvez aquilo tenha me remetido ao folk, às canções de Peter, Paul & Mary, ou mesmo Fairport Convention… não sei. Talvez eu tenha simplesmente gostado, sem conexões com o que eu já escutava. Fiquei encantado com aquilo, com aquela delicadeza. Com aquele amor que se desenhava numa canção tão singela, amor de mãe. O amor da minha mãe por nós era a janta servida, os cuidados da saúde, as preocupações com o que vestir, o que comer, as amizades. Aprendi ali que amor de mãe podia ser música.

Tempos depois dei com Joyce novamente, dessa vez num disco do Beto Guedes. Contos da luz vaga. Um disco de 1981 que sim a conhecer pra valer anos depois. A música Rio doce trazia um dueto de Beto com Joyce, Gente das mais preciosas fontes.

E desde então tenho admirado e me encantado com Joyce e seu trabalho. Desde então aprendi a dimensão enorme desse trabalho, que atravessa a música brasileira em muitas direções, encontros, parcerias e descobertas que ela nos oferta com maestria. E agora, depois de tantas músicas, tantos discos lindos, eis que chega às minhas mãos esse livro, Aquelas coisas todas (da querida Numa Editora), que nasceu como um remix do livrinho de memórias, como ela mesma chama, Fotografei você na minha Rolleyflex, lançado em 1997. Mas de tudo que aconteceu de 1997 pra cá, e com tantas histórias e memórias para contar, o projeto acabo ganhando uma segunda parte. E que bom que isso aconteceu!

Do jeito que eu falei parece e que recebi Aquelas coisas todas ontem, mas isso não é verdade…. o livro chegou há algum tempo e algum tempo se passou até que eu o abrisse. Eu vinha me sentindo muito em dívida com essa leitura. Não tenho a ligeireza dos Youtubers literários, que devoram, no melhor sentido, páginas e mais páginas e livros e autores para alimentar suas resenhas. Sou devagar, e um livro, até a leitura, tem um caminho misterioso a percorrer aqui em casa. Ontem, pelo acaso dos algoritmos, escutei umas canções da Joyce, do seu disco Passarinho urbano, gravado na Itália, em 1976, e lançado no Brasil em 1977. Que lindeza, né?! Um disco que precisa ser escutado nos lares brasileiros.

Aí lembrei do livro. Lembrei do livro e corri para lê-lo. Gente, e que livro, que não consegui para de ler, como não se consegue parar de ouvir um disco da Joyce depois que a gente o coloca na vitrola. Sua prosa é deliciosa. Parece que ela te surpreendeu numa mesa de bar e se pôs a falar, a contar histórias, a puxar um fato de dentro de outro. E que contadora de histórias que ela é, heim?! E assim vamos saindo de uma história pra outra, de uma reflexão pra outra; sobre a vida, a vida de artista, a arte, a música, a família… a lista de coisas, aquelas todas, que se passam diante de nós na virada das páginas, é longa, é como um caleidoscópio.

Joyce transitou pela cultura nacional, compartilhou o fazer artístico com grande nomes, como Vinícius, Tom Jobim, Nelson Ângelo, e fez de si, por meio de uma obra impecável, um grande nome. Um nome de mulher. A gente acompanha o desenrolar desses cenários, em capítulos curtos e certeiros, e o encadeamento da conversa não deixa a gente largaro livro. Que beleza de livro, tão bem-vindo num momento tão difícil para o nosso país e para a nossa cultura, para a qual ela colaborou tão enormemente.

“A minha música é neta do samba, mas não é bem samba.
É filha da bossa nova, mas não é bem bossa nova.
É prima do Tropicalismo e do Clube da Esquina, mas
não é nada disso.
É sobrinha distante da música do Nordeste, mas só às
vezes se lembra do parentesco.
É amiga do jazz, que a recebe sempre com festa. Mas
também não é bem isso.
Já esteve pop, mas nunca foi.
A minha música não tem estilo.
Ou, por isso mesmo, vai ver que tem.

A minha música é simples, mas pode ser meio esquisita. Nem sempre é confortável. Mas gosta de parecer fácil. A minha música também gosta de algum estranhamento – compassos quebrados, afinações malucas no violão.”

O que eu recomendo? Ler Todas aquelas coisas com uma playlist de Joyce Moreno nos alto-falantes… A gente vai avançando na leitura, ouvindo as músicas, aqui ou acolá distraindo das páginas pra prestar atenção num arranjo, numa harmonia, na voz dessa mulher que tem uma história rica, diversa, no corpo da MPB e que sabe contar essa história com um jeito acolhedor. Joyce é brasileira, coo eu, como você, como quem ama o Brasil.

Enquanto escrevo aqui eu vou lendo o livro e escutando seus discos, e escolhendo umas músicas para uma playlist que você vai encontrar logo após a última linha. Joyce Moreno, que grande artista brasileira. Que artista completa! Lei suas histórias.

PS. Na mesma época em que trabalhei na MultiRio, uma empresa de mídias vinculada à Secretaria de Educação do Rio de Janeiro, a Joyce produzia e apresentava por lá seu programa Cantos do Rio. às vezes eu a encontrava nos elevadores ou corredores, e trocávamos, como bons estranhos, cordiais cumprimentos. Só que eu é que era o estranho e ela era Joyce. E eu saía desses brevíssimos encontros com aquela sensação/emoção de “Nossa! é a Joyce!”.


MODUCA: Um olhar pelas janelas da Baixada

Num dia como o de hoje, enquanto tantos querem celebrar a morte, a gente celebra a vida e a poesia, na voz e na presença poderosa do poeta baixadense Moduan Matus, por meio desse trabalho lindo e necessário, que acaba de ser lançado pelos cineastas e produtores culturais Janaína Tavares e Gabriel Vale. MODUCA: Um olhar pelas janelas da Baixada, foi realizado com recursos da Lei Aldir Blanc e com muita garra e bravura. Você precisa assistir!

Num dia como o de hoje, enquanto tantos querem celebrar a morte, a gente celebra a vida e a poesia, na voz e na presença poderosa do poeta baixadense Moduan Matus, por meio desse trabalho lindo e necessário, que acaba de ser lançado pelos cineastas e produtores culturais Janaína Tavares e Gabriel Vale. MODUCA: Um olhar pelas janelas da Baixada, foi realizado com recursos da Lei Aldir Blanc e com muita garra e bravura. Você precisa assistir!

Filme pra ver que o valor poético e artístico da Nova Iguaçu e da Baixada Fluminense, pra gente sair dessa paranóia de eixo de produção cultural. A cultura não tem eixo, não tem centralidade., A cultura é diversa, múltipla, espalhada por aí e, ao mesmo tempo concentrada nessas vozes únicas, como a de Moduan. Por abordar a obra e a vida do poeta, esse documentário abre uma janela panorâmica para o ativismo poético, para uma produção literária corajosa e, sobretudo, para um poeta cheio de vida, de conexões, ideias e paixões! De Nova Iguaçu, da BAixada, para o mundo!

Fiquemos agora com o trabalo comovente de Janaína Tavares e Gabriel Vale:
MODUCA: Um olhar pelas janelas da Baixada


Um Olhar Pelas Janelas da Baixada é um documentário que propõe contar a história do poeta e escritor iguaçuano Moduan Matus, a partir de suas janelas poéticas sobre a cidade. O média-metragem leva o nome de um livro do autor, lançado em 2000, em que reúne crônicas sobre a Baixada Fluminense e personagens importantes da Cultura Local. A história política, cultural e social da Baixada se mistura com a vida e obra do Moduan Matus, e vice-versa, tornando o autor uma memória viva, indissociável do cotidiano iguaçuano.

Direção e Cinegrafia: Janaina Tavares
Som direto: Gabriel Vale
Roteiro e pesquisa: Janaina Tavares e Gabriel Vale
Produção: Janaina Tavares e Gabriel Vale
Edição: Pamela Ohnitram
Entrevistas: Moduan Matus, Sil Lis, Marília Matus, Lafayette Suzano

Agradecimento a Sil Matus (Lis) por ceder as imagens de acervo pessoal da família que compôs esse documentário!


Aproveite que está por aqui e veja também a entrevista que a a gente fez com a Janaína e o Gabriel, para falar dos desafios e vitórias dessa produção muito bem-vinda! O encontro foi realizado, virtualmente, no dia 24 de março de 2021 e o filme ainda não havia sido lançado!

Visite também o blog do Moduan Matus


O afeto adaptado

Texto de Eduardo Maciel


Olá querides kurumateires!
Nossa, já não estava aguentando de tenta saudade! Espero que estejam todes bem e com saúde. E fazendo isolamento. E usando máscaras e álcool em gel. Sim. Mas não vim falar disso não.
Estou eu aqui no sofá, olhando o canvas imenso que chegou e que ainda está na embalagem (ele só vai pra parede na terça, não cabe em nenhum armário porque mede 1m20 x 1m60, e pra completar tenho 4 gatos de garras afiadas).
Pois bem. Estou eu aqui sentado, com meu cigarro e meu gin-tônica, e, numa troca de mensagem por WhatsApp, percebi! Percebi e signifiquei tão forte que me deu muita vontade de compartilhar com vocês.
Eu percebi! Tipo: indubitável, sabe?
Vou contar, sem mais delongas… Sabe aquela imagem de tempos mais leves e antigos, quando aqueles que se amavam romanticamente talhavam em árvores, de forma graciosa, suas iniciais com um coração as abrigando, como forma de deixar claro para todos que por ali passassem o tamanho de seu amor?
Então, gente! Não tem nada a ver com o “novo normal”, não o do tempo pandêmico! Mas um já não tão novo normal: a comunicação via internet, nos mais variados aplicativos de mensageria em tempo real.
Ressignifiquei essa memória no exato momento em que percebi que eu elegi alguns emojis especificamente para usar com algumas determinadas pessoas que eu amo.
E na fagulha da percepção, acabei achando exemplos de uso exclusivo de combinações fixas de emojis, apenas com essas tais pessoas…
Achei isso tão lindo, tão significativo…
Nos adaptamos, mudamos de formato e plataforma, mas se somos capazes disso, e duvido que ninguém aí se identifique, é por que mantemos essa raiz tão poderosa que é fazermos coisas especiais e únicas peles que amamos.
E saber que isso acontece, mesmo aqui no cantinho do sofá, qualificou ainda mais os dois coraçõezinhos cor de rosa que enviei pra ela ainda há pouco.
A gente passa batido pela modernidade num eterno apertar de botões, sem prestar atenção aos botões que apertamos, e pra quem. E com isso, acho que estamos deixando de aproveitar ao menos a faísca de poesia que pode estar em alguns comportamentos virtuais escondida. Essa faísca que tem o poder de nos incendiar a alma, assim, de assalto e tão sorrateiramente.
Faísca de amor.
Vejo as faíscas da brasa na ponta do meu cigarro. Tirando a parte dele que o cinzeiro fumou pra mim por estar aqui com vocês.
Sinto aquela vontade de dar mais um gole no gin. Assim sendo vou me despedindo por hora, mas deixo essa sementinha: não é que a gente faz homenagens usando emojis?!
Ainda em choque. Ou alcoolizado. Sem problemas: daria no mesmo, no final. Inté!


Poemas de Franck Santos

A Revista Kuruma’tá é um porto onde chegam poemas. E hoje recebemos o poeta Franck Santos, um libriano com ascendente em peixes, 50 anos, ilhado em São Luís do Maranhão. Franck em 5 livros publicados. Breve, sairá pela Editora Primata o ‘Prefiro regar as plantas’, livro de poemas.

A Revista Kuruma’tá é um porto onde chegam poemas. E hoje recebemos o poeta Franck Santos, um libriano com ascendente em peixes, 50 anos, ilhado em São Luís do Maranhão. Franck em 5 livros publicados. Breve, sairá pela Editora Primata o ‘Prefiro regar as plantas’, livro de poemas.

Franck, seja muito bem-vindo à Kuruma’tá!
E nós, vamos ler esses poemas, iluminando esses dias de quarentena e luto que nosso Brasil atravessa.

Dica: Entrevista de Franck Santos para o site Como eu Escrevo, do caríssimo José Nunes!


Este tempo é de coisas que nos deformam
Como seres das espécies pelágicas
Vivemos acima dos sedimentos
Mas ainda há pele tua sobre os lençóis, nos discos acumulados, nas fotografias, nos meus dentes.
Seremos sempre deslocados na geografia
Como a cicatriz que deixaste, como uma tatuagem, uma explosão, uma catástrofe,
O lobo que fugiu da sua alcateia
E guardei no pulmão.
Das viagens guardo recordações que agora vão preenchendo as paredes
Quase como a massa de água dos oceanos
Mas ainda compro flores, ameixas, melancias, morangos e tangerinas,
Antes que a esperança não seja só o calendário
O verão vá embora e leve esse cheiro de chuva e maracujá dos nossos corpos.
Para não morrer tanto
Deixarei acesa a lâmpada do corredor
Doce de caju na geladeira
Tudo que é de algodão nos armários do quarto
Nossa serenidade sem paralelo.


Aos 14 anos ele disse que apagou seu rosto de todas as fotografias dos álbuns de casa.
[ Aos 25 anos, o que mudou nos seus traços:
O sorriso?
Algum sinal de nascença?
As marcas de expressão?
Alguma cicatriz?
Os óculos? ]
Seu rosto é o mesmo
ou de vez em quando pega em tesouras, lâminas, canivetes, estiletes, facas,
e ainda brinca de cirurgião?


prefiro regar as plantas:

Leio que Marte e Saturno estão se alinhando no céu
Que Júpiter está cada dia mais próximo.
Penso que enquanto os planetas se conectam
Nos hemisférios tudo é vermelho
Deito no chão da casa quase em desespero e sinto falta de um dia de janeiro
Quando fazíamos coisas mais divertidas.
Nestes dias de tédio e readaptar-se a casa
Trajetos curtos
Repetir assuntos por telefone
Olho a planta baixa da cidade
As rosas que desabrocham no jardim
E prefiro regar as plantas
Mesmo que a loja de discos feche
Porque do Sul um amigo canta Maria Bethânia pra mim
Recita um poema
Enquanto as vozes silenciam no rádio e na vizinhança
E nos permitimos pequenas fugas.


viagens por cidades distantes:

Aquelas noites
no calor da nossa intimidade
Brilhamos como um farol.
Ardemos como Alexandria.
Na parede do quarto
um Atlas nos contemplava.


Cotidiano 3:

Entre vodca e gin
Ele preferia cachaça
E longas tardes na praia, sem mim.


Daqueles dias em que a vida da gente muda

Texto de Toinho Castro


Tenho sonhado muito. Sempre fui de dormir e sonhar, e acordar no dia seguinte egresso de um mundo mirabolante. Nos meus sonhos encontro pessoas, visito mundos, escuto e conto histórias. Descubro passagens, vejo mares e realizo ou assisto prodígios se realizarem. Sempre fui assim e dormir sempre foi um prazer de visitar e ser visitado por coisas extraordinárias. Prezo muito meu sonhar.

No último ano, de rígida quarentena, creio que vagar dos sonhos tenha se intensificado. Quando deito para dormir já penso: E lá vamos nós! Diante do caos do mundo os sonhos são refúgio, uma literatura íntima e poderosa fonte de recuperação de forças, ainda que no recanto sossegado do meu lar reine essa tranquilidade, mesmo que paralela à angústia de ver o país se desmanchando em mortos e tantas outras perdas.

Ontem à noite sonhei, claro. E foi um sonho curioso e por isso resolvi relatá-lo, e com isso, contar uma outra história que há tempos quero contar aqui. Sonhei que estava com uma amiga, ao menos no meu sonho era uma amiga, e contava-lhe um episódio que teria acontecido conosco, com nós dois. E eu contava a história e ela estava sentada num sofá baixo, e ria muito. Eu estava de pé, empolgado com aquela lembrança e gesticulava, tentando recordar os detalhes da história que eu contava, aos risos também, dizendo: Eu tenho certeza que era você naquela loja. E ela sorria, sem jamais confirmar ou negar.

E a história que eu contava no sonho, pra essa garota, realmente aconteceu. E assim, mais ou menos, se deu. Certa vez, eu estava com um dinheirinho pra comprar um disco. Era fins dos anos 80. Acho que em 1989, por conta de pequenos fatos que me chegam à memória, agora, enquanto escrevo. Na missão de comprar o LP eu resolvi visitar uma certa loja da Aky Discos, lá no Shopping Center Recife, que ficava perto do edifício Inês, onde morávamos.

Nessa loja trabalhava a garota do sonho. Eu não era amigo dela, a quem conhecia de vista, de acenos passageiros na faculdade. Ou seria nos bares ou sessões de cinema de arte que eventualmente reuniam as mesmas pessoas da cidade, em torno de um Godard, Fassbinder ou Truffaut. Ela tinha cabelos curtos, pretos, e era meio dark, meio gótica, talvez, meio tatuada. Assim a recordo. Mas pode ser também que a tenha visto uma ou duas vezes de preto e criei essa lembrança, de uma garota dark no Recife, trabalhando na loja de discos. O nome disso é cinema.

Entrei na loja, cumprimentei-a e fui folhear os discos, nas seções de música pop ou rock. A loja, pequena, estava vazia naquele meio de tarde não menos vazio, que eu tentava preencher encontrando algo que pudesse acender uma lâmpada em mim.

Foi aí que dei com um disco do Pet Shop Boys. A capa branca, minimalista e ironicamente elegante de Actually, lançado em 1987, me cativou. Eu começara a conhecer o pop eletrônico da dupla inglesa e estava bem animado a levá-lo pra casa. Eu já havia escutado algumas músicas do LP, na casa de amigos. Na casa de Kleber, talvez. Acho que o disco não estava lacrado. Acho que tirei o vinil da capa e, depois, o encarte. Gostava de ver os detalhes, o selo do disco, a ficha técnica. Assim eu me sentia numa loja de antiguidades, analisando um antigo mapa perdido e reencontrado, uma joia rara.

Levei o disco até o balcão, para pagar e sair dali o mais rápido possível, para me trancar num quarto na rua Pampulha. Mas eis que… Veja bem, isso realmente aconteceu e eu sonhei contado essa história para a garota da loja, que não reencontrei, provavelmente, desde esse dia. Mas eis que ela pegou o disco do Pet Shop Boys nas mãos, me olhou muito séria e disse:

— Não leva isso não.

Foi até os discos, colocou de volta o Pet Shop Boys e voltou com um outro, do qual só vislumbrei, inicialmente, o preto da capa.

Leva esse aqui! — Sentenciou e me entregou o LP.

Era Tender Prey, de Nick Cave, lançado há pouco por um novo selo, o Stiletto, que estava lançando no Brasil coisas como Durutti Column, Joy Division, Cocteau Twins e o próprio Nick Cave. Eu tinha visto uma reportagem sobre Nick Cave dias antes e pouco conhecia seu trabalho. A capa me impressionou e em tudo parecia oposto ao Pet Shop Boys. Na contra capa uma dedicatória ao ator que interpretara Pixote, no filme de Babenco, o jovem Fernando Ramos, assassinado pela polícia de São Paulo.

Aceitei o desafio, achei auspicioso e naquela tarde levei Nick Cave & The Bad Seeds para casa. E isso mudou minha vida, daquelas mudanças que somente os discos são capazes de produzir. Ela sorriu e eu também sorri. Não sei se tornei a vê-la depois disso. Mas tenho essa dívida, com essa pessoa que trouxe Nick Cave para minha vida.

Quando assisti ao show de Nick Cave em São Paulo, em 2018, eu lembrei desse dia.

É curioso que a gente conte, na vida real, ou desperta, as histórias dos sonhos, e eu tenha, nesse sonho, contado uma história da vida real. Que belo jogo de narrativas, algo inesperado. E que história, não é mesmo?! Um disco chega e muda tanta coisa, bagunça as perspectivas e nos enche de uma alegria que até então não conhecíamos. O Shopping Center Recife ainda jaz, enorme, dormente, sobre um cemitério de manguezais. A pequena loja da Aky Discos não existe mais e nunca mais vi, a não ser nesse sonho, a garota dark. No entanto os ecos daquele dia ainda vibram, como uma explosão primordial. Ainda escuto Nick Cave como algo novo, que me surpreende e encanta.


A pedra e a janela, nova música do Avoada!

A pedra e a janela é o novo som do Avoada, coletivo formado no final de 2018 pelos compositores Juvenil Silva, Marília Parente, Feiticeiro Julião e Marcelo Cavalcante. Os quatro tocam seus projetos individuais, mas se uniram para criar canções sobre os tempos em que vivemos e para pegar a estrada com seus violões, buscando conhecer mais o interior do Nordeste e mergulhar na cultura do Brasil profundo. [Texto de Toinho CAstro]

Texto de Toinho Castro


A pedra e a janela é o novo som do Avoada, coletivo formado no final de 2018 pelos compositores Juvenil Silva, Marília Parente, Feiticeiro Julião e Marcelo Cavalcante. Os quatro tocam seus projetos individuais, mas se uniram para criar canções sobre os tempos em que vivemos e para pegar a estrada com seus violões, buscando conhecer mais o interior do Nordeste e mergulhar na cultura do Brasil profundo

E a novíssima A pedra e a janela, composição de Feiticeiro Julião, é a canção desse mergulho e desses tempos que vivemos, embora a palavra enfrentamos seja mais apropriada. É um enfrentamento, e o Avoada tá na linha de frente da resistência artística, dando a real (ainda se fala isso?!) a esse senhor, que posto no comando do país, pôs-se a reclamar de ser vidraça!

A música surgiu quando os escândalos da família do presidente começaram a surgir na imprensa. Ele, que no congresso era acostumado a esculhambar quem estava no poder, agora, depois de dois anos de mandato, afirma que sua vida virou um inferno, virou a vidraça. É o que nos diz Feiticeiro Julião, autor da música.

Ah, como era fácil ser pedra/ Ah, como é difícil ser janela

Mas, e isso é leitura minha, vejo também as pedras a voar contras as nossas janelas, justamente contra nossas janelas abertas, contra nossa amplitude de coração. Tanto que ali na música tem um verso:

Não, não pise no meu coração

Que num contraponto, na doçura rascante da voz de Marília, parece que fala do nosso próprio coração pisado, partido. Eita, que música boa é assim, com mil leituras, transversais, diagonais, paralelas e profundas. Botei pra tocar aqui A pedra e a janela, muitas vezes… deu vontade de cantar, de dançar, de correr e tacar pedra na vidraça suja desses que se apossaram do país. Mas não do nosso imaginário, não do vento que passa pelas nossas janelas abertas.

E essa música danada de boa vai vai fazer parte do EP do grupo, que está em gestação plena e sai ainda em 2021 (que esse ano precisa de coisas boas!).E resistimos com músicas assim, com gente assim fazendo música. Obrigado, Avoada!

Avoada, em foto de Juvenil Silva

Produzida pelo coletivo, a faixa foi gravada nas casas de Juvenil Silva e Marcelo Cavalcante, respeitando o distanciamento e as regras sanitárias desse momento de pandemia.

Recentemente, a Avoada tocou no Festival No Ar Coquetel Molotov 2021, após trabalhar intensamente o EP “Marília, Marcelo, Julião e Juvenil” (2019), com o qual circularam pelo interior e por capitais do Nordeste antes da pandemia. O EP contou com videoclipes das quatro músicas, filmados pela própria banda e que estão disponíveis no Youtube.

Viva!! Gostamos demais!

Capa de A pedra e a janela, com arte de Juvenil Silva

A poesia de Jéssica Iancoski

Mesmo em tempos duros, talvez até principalmente em tempos duros, a poesia dá um jeito de chegar à nossa porta, ou à nossa caixa de e-mails. Foi assim que nos chegou a poesia de Jéssica Iancoski. Depois de uma troca de mensagens e ideias que foram ficando pra depois, no vácuo estranho das coisas por fazer. Passado algum tempo, que sempre parece muito tempo nesses tempos duros, Jéssica nos endereçou poemas; a melhor maneira de retomar uma conversa.

Mesmo em tempos duros, talvez até principalmente em tempos duros, a poesia dá um jeito de chegar à nossa porta, ou à nossa caixa de e-mails. Foi assim que nos chegou a poesia de Jéssica Iancoski. Depois de uma troca de mensagens e ideias que foram ficando pra depois, no vácuo estranho das coisas por fazer. Passado algum tempo, que sempre parece muito tempo nesses tempos duros, Jéssica nos endereçou poemas; a melhor maneira de retomar uma conversa.

Deixemos, pois, para que não fique para depois, que a força da poesia de Jéssica Iancoski chegue até você, como veio a nós. inesperadamente.

ADVÉRBIO

a palavra é avermelhada
talvez carnívora e pouco reflorestada
vale mais extirpada
da terra do âmago
e do ventre esmirrado dos homens

a palavra é servida crua e explorada
ao pé de mesas de paubrasília
maracutaia estripada
estrupício estropiado

solimões, urucum,
cachaça de jambu
colorau guaraná
buriti pupunha
pirarucu tucunaré

a palavra é tinta genocida
e des-mancha facilmente o advérbio
pororocas levantando sangue de verbo
jorrando brasis sem modo,
com intensidade, lugar e tempo
e demasiada negação des-matada,
macunaíma desvairada.


ÚLTIMAS NOTÍCIAS DO BRASIL E DOS BRASIS

a terra vai se rebelar
as florestas precisam ficar em pé”
diz cacique Raoni

carnaval de pandemia
tem praias cheias,
vejam fotografias

: tambaba guarita tabatinga
imbé moreré tupé
curuípe xangri-lá camburí
maracajaú taipu embaú

a doença não existe
afirma turista no litoral sul

é só soja e boi soja e boi
é só soja e boi
funai é ruralista

Aruka, último do povo Juma
morre vítima da pandemia
em Xingu ação de imunização
na base Diauarum
campanha antivacina nas aldeias
preocupa liderança indígena

turismo cai
banhistas batem recorde
trocam blocos por praias lotadas
evitam máscaras e
não massacres

“quando a árvore fica em pé,
faz sombra e fica frio
faz sombra e fica frio”
fica frio.

nadar nadar nadar
e morrer na praia na praia
e nada e nada
aglomeração piara
futuro incerto paira sobre vidas
e idas à praia à praia
pegar jacaré genocídio
presidente de biquíni
topless
e morre o índio.


NÃO É UM CANTO, É UM LAMENTO

criam boi em terra indígena
plantam soja em área ilegal
desmatam até a última pena
tiram o couro do solo animal

é uma pena é uma pena
é uma pena, um vendaval,
um coro, um lamento de aves
no desmatamento tropical

Ararajuba Arara Arapará
Japim Japu Juriti-Pupu
Saurá Suiriri Surucuá
Udu Urubu Uirapuru

É só soja e boi soja e boi
É só soja e boi soja e boi

— garimpo ogro é o agro —
negócios.


IBIAPINA

No ibi há Macaba
Emburi Indaiá

Guirá que pia
Não é só sabiá

: tem Jacu Macuco
Maritaca Tangará

vida com mais potira
se não fosse Ibiapina

é uma pena é uma pena
a Ibiapina a Ibiapina
a Ibiapina


Jéssica Iancoski é escritora, poeta e artista plástica. Publicou em várias antologias e revistas, nacionais e internacionais. Teve o poema “Rotina Decadente” reconhecido pela Academia Paranaense de Letras, aos 16 anos de idade. É idealizadora do Toma Aí Um Poema – o maior podcast lusófono de declamação de poesias, segundo o Spotify – com mais de 40 mil ouvintes diferentes, ao longo do tempo. Nasceu em Curitiba em 10 de Fevereiro de 1996. É formada em Letras pela Universidade Federal do Paraná e em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná.


Lawrence Ferlinghetti: Vida sem fim

Texto de Toinho Castro


Dias atrás uma amiga, Bárbara Porto, postou no Instagram um stories com uma frase do poeta americano Lawrence Ferlinghetti. Aquilo comoveu-me um tanto, como sempre um tanto me comove falar do poeta. Ela acabara de conhecê-lo e conversamos sobre minha própria descoberta de Ferlinghetti, lá pelos anos 1980, por conta da editora Brasiliense e sua coleção Circo de Letras, que me apresentou sua obra no livro Vida sem fim, de 1984.

A coletânea apresenta poemas de nove livros, num panorama de sua obre de 1955 a 1980, traduzidos por Nelson Ascher, Paulo Leminki, Marcos A. P. Ribeiro e Paulo Henriques Britto. O livro é uma aula maravilhosa de tradução (a edição é bilíngue) e do fazer poético. Ler e escrever não são operações mecânica de arrumação de alfabetos e ideias. São operações do espírito, e seu aprendizado depende de muitos ensinamentos e professores. Ferlinghetti me foi um desses professores que passaram pela minha e me ensinaram a ler, a escrever.

Ontem a mesma amiga, Bárbara, me mandou uma mensagem. O poeta havia morrido, na segunda passada, aos 101 anos. Havíamos dias antes comentado justamente sua longevidade, e o fato que no mês que vem faria 102 anos. A notícia, mais uma vez, me comoveu, pois passei aquele dia com o livro, Vida sem fim, para lá e para cá, lendo trechos, me surpreendendo de novo com tantos versos e poemas. Pensei que o poeta havia me chamado pra junto dele, ele que esteve todos esses anos, desde que passei na Livro 7 e comprei meu exemplar, junto a mim, sem nunca me abandonar.

Lawrence Ferlinghetti marcou a poesia americana, revelou poetas como Allen Ginsberg e seu Uivo, criou uma livraria chamada City Lights, que nome lindo, né?! Iluminou também gerações de poetas tempo e mundo afora. No meu canto, lá no Recife, na Imbiribeira, eu pude ler Lawrence Ferlinghetti, lá pelos meus 18 anos. Que impacto, que revelação de tantas coisas. Poetas assim descortinam ainda mais poetas e livros. Por conta dele , cheguei a Ginsberg e Kerouac, Antonio Bivar, Claudio Willer, Pound (e aí ele se encontrava com os concretos Augusto e Haroldo de Campos).

Chegar como poeta à vida de um jovem de 18 anos é cair como um raio, romper um dique. Foi assim com Lawrence Ferilinghetti na minha vida e na vida dos meus amigos, que compartilhávamos o amor pela poesia e pela arte e pela revolução da literatura e dos corpos, dos corações e mentes.

Vida sem fim, ou Endeless life, é um poema de 1980, que Leminski traduziu como Vida infinda. Sempre achei curioso que Leminski tivesse optado por essa tradução, quando o próprio título do livro era Vida sem fim. Confesso que quando cheguei ao poema e li Vida infinda, algo em mim se decepcionou com o poeta curitibano. Achava aquela opção tão pouco sonora, tão pouco fluida. Ao mesmo tempo fazia sentido, que preservava aquela letra D de Endless, de alguma maneira possível. Até hoje, ao ler o poema, penso nisso., nessas escolhas difíceis.

Infinda a esplêndida vida do mundo
Infindos seus lindos seus vivos seus vívidos
seus lindos seres vivos
ouvindo e vendo pensando e sentindo
dançando e rindo soluçando e ganindo
por tardes infindas infindas noites
de amor e êxtase júbilo e agonia

A vida de Ferlinghetti, dos poetas, é sem fim. Ele segue vivo em sua poesia sem concessões, radical e destemida. Poesia que empolga… agora mesmo, enquanto penso nele e nos seus versos, algo vibra em mim e me inquieta. E me tira do lugar de sempre, para sempre. 

Obrigado, Bárbara, por trazer Ferlinghetti para ainda mais perto de mim nesses dias.

Ontem comprei num sebo (pela internet) um exemplar de Um parque de diversões na cabeça, editado pela L&PM, um livro que eu devia a mim mesmo há muitos anos. Na descrição o vendedor informava que antiga proprietária havia feito anotações do dia em que comprou o livro, na Bienal do livro de 1986, com os nomes de todas as pessoas que estavam com ela naquele dia.  Auspicioso.


Os poços mais profundos
— de Lawrence Ferlinghetti

Botei a máscara de mergulhar e afundei / Alguns metros sob a superfície uns peixinhos nadavam a meu redor / Um pouco mais ao fundo alguns peixes de uns oito centímetros no máximo / Eu boio imóvel logo abaixo da superfície olhando para o fundo do poço / Bem lá no fundo entre as pedras no mais fundo do fundo eu de repente vejo uma truta gorda grande e cinzenta / uns quatro quilos talvez / perfeitamente imóvel contra as pedras cinzentas / Ela seria invisível da superfície e invisível sem a máscara / Então de repente vejo outra truta gorda / pouco menor que a primeira / bem perto dela / quase que sua sombra / também perfeitamente imóvel como se nem respirasse/apesar do riacho rápido que deságua sobre ela / Verão da grande seca / esse é o único poço mais fundo que resta / o próprio riacho reduzido a sete metros de largura / O poço isolado por corredeiras dos dois lados / Antes da seca os dois peixes entraram nele / depois o rio estreitou mais ainda e eles ficaram presos nesse poço cada vez menor e ficam imóveis esperando/prisioneiros/seu mundo cada vez menor / E permanecem no fundo inteiramente imóveis apegando-se ao que têm / Os pescadores não usam máscara e nunca veem os dois peixes lá no fundo e mergulhamos de novo & de novo olhando os peixes em meditação / uma disciplina de iogue que há de continuar até o riacho ficar seco / Então quem sabe vamos ver os dois ainda em posição de nadar / nadadeiras estendidas / bocas semiabertas / olhos semicerrados / Ou então / muito depois / seus esqueletos ainda intactos na mesma posição / assados no sol inclemente / como monges budistas queimados na posição de lótus / Ou ainda muito muito depois em outra época / dois esqueletos fósseis descobertos / estranha coisa extinta chamada Vida / E se ficássemos aqui com eles esperando esperando / os do futuro / talvez não pudessem imaginar um garoto e seu pai pescando neste riacho / ainda que encontrassem nossos crânios redondos junto com os peixes / Porém agora vendo a beleza desses peixes lá no fundo / tão imóveis / tão lindos / imersos em seu sonho profundo / no último poço profundo / Paramos de pescar viramos e voltamos para os poços mais profundos de nossas próprias vidas.


Compre na Blooks Livraria o livro ‘Amor nos tempos de fúria’, de 1988, publicado no Brasil pela L&PM Editora

Paris, 1968. Os estudantes da Sorbonne tomam as ruas com protestos, discursos e pichações. A eles unem-se trabalhadores, artistas e músicos, iniciando uma das maiores greves gerais da história. O calor desta revolução serve de pano de fundo para o encontro entre Annie, uma pintora americana, passional e idealista, e Julien, um cético banqueiro português que afirma ser anarquista de coração, mas que vive confortavelmente segundo o espírito burguês.

O consagrado poeta beat Lawrence Ferlinghetti revela seu talento para a prosa ao narrar a complicada paixão entre Annie e Julien. Entrelaçando a história íntima de seus personagens com os conflitos sociais da época, o autor faz uma síntese das questões políticas, filosóficas e artísticas que marcaram uma geração.

3 poemas de Milena Martins Moura

MILENA MARTINS MOURA é mestre em literatura brasileira e tradutora. É autora dos livros Promessa Vazia (2011), Os Oráculos dos meus Óculos (2014) e A Orquestra dos Inocentes Condenados (Primata, 2021, no prelo). Integra a equipe de poetas do portal Fazia Poesia. Publica suas produções em diversas esferas artísticas no Instagram @oraculos_dos_oculos.

Das coisas boas que dependem da internet… abrir o e-mail, depois de dias sem olhá-lo, para descobrir que chegaram poemas de Milena Martins Moura. Fazer uma leitura de encantamento antes de publicá-los aqui. Compartilhar esses poemas com quem segue a Kuruma’tá, é uma alegria, nessa revista em que a poesia, a boa poesia, é sempre tão bem-vinda. Obrigado, Milena.


1.

tenho uma dobra vermelha na pele do rosto
como um corte

entranha

você viu

a marca vermelha da cama no meu corpo
branco
onde dói o sol

você viu
os meus sinais em coleção
imitando a pose ereta de órion

ombro em rigel pé em betelgeuse

as partes proibidas à mostra
faz calor
e eu tenho sede

todos os tabus desnudados
constelações

e eu ariadne corpo celeste
vindo jantar nos escombros

as pontas dos seus dedos mastigando os meus contornos

entranha

todos os lábios
mordendo
a fraqueza da carne

2.

comecei no mundo com um grito de dor
o primeiro ar

comburente universal
fogo no peito

a minha história
que nasceu do grito
sucessão de notas descolocadas
em sol maior

fogo grave
queimadura

a minha história
escrava no fogo da forja

molda o passo torto
com que tento dançar
na ponta
do lápis

nanquim luz e sombra
todos os fados padecendo ao sol

o meu deposto aos pés do fogo
gota de sal na pele nos pelos

cai o pano

eu seco os olhos com o desfecho inesperado

eu seco o corpo da impureza nos poros

existir queimar as solas na areia
o mar que era longe
continua longe

3.

quanto mais risco mais sombra

o espaço que ocupo
no topo das ordenadas
imaginado o salto

é por isso que nos chamam geração y?

uma multidão de promessas vazias
procurando o medo pela janela
segurando ana c nos braços para que não caia
em 1984
quando não éramos nascidos

é por que nascemos sem asas
que o mar é convite?

sombra é aquilo que não se vê
senão de cima
de onde a imagem toda
do famoso grande quadro
se significa

aldebaran seguindo as plêiades no touro alado
ariadne vindo jantar

uma multidão de pequenos acontecimentos aleatórios
erguendo prédios e fazendo guerras
à espera do último sopro

o risco entre os nossos pés
e o firmamento


MILENA MARTINS MOURA é mestre em literatura brasileira e tradutora. É autora dos livros Promessa Vazia (2011), Os Oráculos dos meus Óculos (2014) e A Orquestra dos Inocentes Condenados (Primata, 2021, no prelo). Integra a equipe de poetas do portal Fazia Poesia. Publica suas produções em diversas esferas artísticas no Instagram @oraculos_dos_oculos.