“Tenho reparado nos ipês pela cidade” — Poemas de Micaela Tavares

Poemas de Micaela Tavares

Ah, nos cativou de pronto a poesia de Micaela Tavares, que nos chegou de surpresa, na nossa caixa mágica de correio eletrônico, com seus ipês, com seus olhares de amor, com sua poesia inscrita nas paredes do ap, na pele, na camiseta, no riso sob o sol, nas ruas da cidade.

Seja bem-vinda à Kuruma’tá, Micaela!


Romance Sapatão

Quando me apaixono
busco por apartamentos em locação
decorados de varandas
plantas que sobreviveriam no inverno
ou no verão
uma vida juntas, um espaço nosso
quem sabe um toca-discos
gato, cachorro, espada de São Jorge
ou a samambaia
pendurada na beira da escada
do lado de fora
recaindo sobre a varanda
do ap
que visitei no Instagram
Quando me apaixono
penso na vida a duas
que poderíamos ter
faria batata com curry
suquinho de caju pra você
quem sabe rir um pouco mais da tv
antes de escolher
o filme da noite – série não porque podemos dormir e perder
a parte boa
Quando me apaixono
traço os planos de hoje & de amanhã
busco a música que te ouvi cantarolar
na noite passada
e me apeteço na lembrança
dos teus lábios dançando
antes de urgir o grito de boa noite
Quando me apaixono
lembro da hora e afogo o tempo
dito que as regras do que passa
nada se vai
me vejo de mãos dadas
quase caladas por tanta coisa a dizer
Quando me apaixono
fecho os olhos para lembrar
esqueço de esquecer
Vai que dessa vez eu me apaixono
e concretizo esse querer
comprando aquele ap
montando a varanda
trazendo o gato, cachorro, a samambaia
te chamando para morar comigo
esse embolado todo
eu&você.

Talvez ela tenha me fisgado

ontem
eu falava bem mais das meninas
as quais não hei de negar
que adoro
quando tão desengonçadas
armam planos
criam fábulas
para me ver
hoje
eu falo bem mais da menina
a qual não hei de negar
que adoro
quando tão arrepiada
sussurra baixo um segredo
que me faz gaguejar
e me render
qual era o assunto?


Alguém me ensina a amar só quem me ama, por favor

eu finjo não ver
mas estou quase sempre vendo

a rua lá embaixo
a samambaia crescendo
teus olhos – um tiro

estou quase sempre vendo
e quando tu não vens
não tem graça
fico tonta
perco a piada
enquanto tu não vens
mas quando te vejo entrar
te vejo chegar
eu finjo não ver
mas estou quase sempre vendo

I’m bad for you but

I’m bad
tentei te escrever canções
perdi o trecho que dizia
que me acompanharia no
teu ukulele azul
eu pensava em notícias para dar:
o cinema em que íamos fechou
e te vejo tímida ao beijar-me
sob a areia
talvez eles vejam
e não me importo
que vejam
porém, darling, tu te importas
mas tudo bem!
às vezes jogo pedras
na água e faço-as quicar
consegue ver? Talvez não viste pois atendia o celular
darling, I’m bad for you but
estou disposta a esperar
as cinco horas de trânsito sem sinal
me fazem enlouquecer sem você
por isso
escrevo poemas

Tenho reparado nos ipês pela cidade

o meu corpo
restringe
que tua alma
me queira

pouco me importa
o corpo dos
outros pouco me
interessam fico
de ver se vens
quando vens
vou
abaixo a cabeça
enrubesço
mas volto o olhar
ao teu – de vez em sempre

procuro pelo melô
que dançamos na
mesma intensidade
em que reparo os
ipês floridos
pela cidade: como se
fosse a última coisa a se
fazer antes de
morrer.

Me incomoda

me incomoda que
aos meus pais
não incomode
o racismo
o patriarcado
a voz do presidente
o cerco no planalto
as laranjas no mercado
a cor da nova era
a política severa
o rompimento do silêncio
a minha luta
aos meus pais
interessa
onde vou que horas volto
não lute contra forças maiores
estude mas não se revolte
cresça mas não apareça
olhe mas não use a voz

logo eles que
em 1964 viram
o Brasil ruir em sangue
logo eles que
são da era do fascismo registrado
logo eles que
não avisavam a hora de voltar pra casa

Não é o amor que falta

Afinal o que importa não é a literatura
ou o riso da menina quase bonita que ao teu lado
sobressalta cinco rimas sem coração
alguns dias de angústia
seis bocas para consolar

É preciso o amor de repente fazer graça
ver aeroplanos na linha de pouso
as luzes de uma cidade que não conhece
desculpe sou jovem não tenho tantos planos

Hoje é o dia de todos os demônios
quase esqueço minha dor
foco na dor dos outros

No poema da Wislawa foi muito bem-dito:
Ninguém na família jamais morreu de amor.


Micaela Tavares (21 anos): aquariana com ascendente em peixes – por isso escrevo poemas. estudante de Direito na UEMA nas horas restantes. leitora apaixonada dos poetas marginais e contemporâneos. Possui poemas publicados nas revistas Variações e Quatetê. Em breve autora publicada do 1º livro cujo nome será Tenho reparado nos ipês pela cidade pela Editora Folheando. 


Todo suicídio é um homicídio – Livro de Lupeu Lacerda

Texto de Toinho Castro


O livro Todo suicídio é um homicídio, do poeta Lupeu Lacerda, é uma festa literária. É isso que tenho a dizer desse volume que enfileira uma série de histórias, cenas, vivências, com algo de prosa e algo de poema, como se entre os dois não houvesse distinção, pois não há mesmo. Não nas páginas de Lupeu.

Lupeu tá lá em Juazeiro, Juazeiro da Bahia, e desse centro magnético, dessas ruas alinhadas de povoado que virou cidade grande, mas que ainda reserva o encantamento do pequeno, do provinciano, enquanto projeta-se em linhas de ônibus, edifícios, bairros que se espalham a perder de vista.

O poeta é testemunha da mudança, mas também da permanência. O poeta observa os acontecimentos que se dão, como num truque de física quântica, porque ele está ali a observá-los. Cada poema, ou história do livro, é feita de camadas, reflexos e interjeições. Mais que para a frente, para a próxima sentença, a escrita de Lupeu aponta para dentro, para o enlinhado de pessoas, diálogos, sustos, paixões, para dentro daquilo que a gente é e nem sabe.

Esse enlinhado em que a gente resiste ao peso da realidade, ou do que chamam realidade, e que talvez seja o discurso do poder a nos suicidar, dia a dia. Escapar desse ditame é o que Lupeu faz ao traçar em letras o cotidiano multifacetado de uma Juazeiro que é o mundo, que comporta e abarca os tempos tantos.

Gosto demais de ler Lupeu, gente! Como disse a ele, na conversa que tivemos, juntamente com Aderaldo Luciano, numa sessão do AoVivo Kuruma’tá (vídeo disponível aqui no fim do texto), ler esse livro é como viajar numa máquina de teletransporte quebrada, que te joga de um mundo para outro, de uma realidade a outra, que estica e encolhe seus átomos a cada virada de página.

Recomendo demais a leitura atenta desse livro, que tem essa capa linda do ilustrador Reginaldo Farias. É tudo um impacto só, uma porrada só. Todo suicídio é um homicídio, mais que uma afirmação, é uma provocação, um chamado ao pensamento crítico e às trincheiras dessa guerra contra à mesmice e o conformismo.

Abraço, Lupeu!

O homem velho androide solitário olha o olho da ave e espera a morte, a nave, a sorte. A canção do androide se desfaz na desfaçatez da tez do oitavo andar. O homem velho androide liga o liquidificador da dor multicultural e fica triste pela carona perdida e pelo roteiro não escrito de um filme com final absolutamente infeliz. Nada a dizer do quase tudo escutado. Nada a dizer da joia falsa no dedo. Nada a dizer da vertigem da viagem primeira. Nada a dizer do mais ou menos dito antes do primeiro café da manhã. O homem velho androide sonha um verso não escrito por Maiacovski. O astronauta blade runner não gosta de poesia. Senta olhando a chuva e espera a morte do homem velho androide. Da ave. A queda da nave. O astronauta sabe: a sorte é um planeta desconhecido.

Compre seu exemplar de Todo suicídio é um homicídio direto no Instagram de Lupeu Lacerda!

O livro

Texto de Toinho Castro


Nossa tendência é achar que um livro é um objeto. É tátil, tem peso, volume… podemos carregá-lo, emprestá-lo, perdê-lo. Ah, a triste sensação de perder um livro, de vasculhar a estante e não encontrá-lo. Mesmo esse “procurar por algo”, alimenta essa ideia de que o livro é um objeto.

Mas pensar o livro como objeto é pensá-lo de um jeito pouco. É pegar o livro e diminuí-lo a condição de… um objeto. O livro é mais que isso, mais amplo, mais profundo, mais vasto.

No seu conto O livro de areia, o escritor argentino Jorge Luis Borges, um amante dos livros, imaginou um livro infinito, com um número infinito de páginas entre a capa e a contracapa. Ao tê-lo nas mãos, o julgaríamos, erroneamente, como um objeto.

Todo livro é esse infinito, porque ele não se encerra na escrita e nem mesmo numa leitura. O que se dá entre a capa e a contra capa é um contínuo processo vivo, dinâmico, de transformação. Diz Heráclito que nunca podemos colocar os pés no mesmo rio. Porque muda o rio sempre. E mudamos nós. A parábola de Heráclito vale para os livros.

Dito isto… não, o livro não é um objeto. É um processo, uma vivência. Mais que um produto, é uma realização, das grandes, das boas… talvez uma das maiores da humanidade, junto com a roda e o domínio do fogo. E o mais importante: O livro é uma realização coletiva. Isso é que é bonito.

O livro é um emocionante encontro, que reúne em torno de si, gente que escreve, que lê, gente que edita, que imprime… Gente que te recebe numa livraria, logo ali na esquina, e de uma conversa tira da cartola um livro que você vai amar e recomendar. Autores, editoras, livrarias, livreiros e livreiras, numa cadeia de eventos para que nós, qualquer um de nós, leitores, sejamos tocados pelo Livro de Areia de Borges.

A despeito de ter volume, peso e ocupar uma determinada área no espaço, o livro não cabe em caixas. Não cabe sequer numa pessoa… quando a gente lê um livro, queremos logo compartilhar, indicar a alguém, emprestar, dar de presente. A gente quer sentar para um café e contar: Olha, tô lendo esse livro incrível! E cativar a outra pessoa para lê-lo também. Porque, digam o que disserem, o livro quer se espalhar entre as pessoas. Isso é o seu existir.

Por isso eu defendo o livro. Por isso, quando qualquer um levanta uma letra contra o livro, eu o defendo. Quando dizem que o livro vai morrer, vai acabar, eu caio na risada, porque todo mundo que profetizou esse apocalipse, ou morreu ou vai morrer antes do livro. Porque o livro resiste bravamente em nós. Acredito que todo mundo tende a ler um livro. Você vai dizer que isso é bobagem, que muita gente não quer ler, não acha que precisar ler.

Essas pessoas, na verdade, estão sendo impedidas de ler. Só não sabem disso. Seja pelas circunstâncias da vida, por estar nublado pelo canto de sereia, já desafinado, da produtividade e do mercado, ou mesmo pela miséria a que tantos são submetidos cotidianamente. A leitura é um querer intrínseco ao ser humano. É um direito do qual precisamos tomar consciência.

O livro, essa potência, precisa estar ao alcance de qualquer um. Precisamos de livros, livrarias, bibliotecas e de uma educação libertadora, que abra o caminho para os livros na vida de qualquer pessoa.

O livro é um dos principais elos dessa rede a que chamamos civilização, e a compreensão disso salva o livro e o mundo como a gente compreende.

Um mundo sem livro seria um mundo pior. Um mundo aberto aos devoradores de mundo. Qualquer um que queira o fim dos livros, que planeje dificultar o acesso aos livros ou até proibi-los, como muitos tentaram, quer um mundo de ruínas, de pessoas em ruína. Então a luta pelos livros, por mais livros que iluminem o espírito, é permanente. Porque essa gente sem alma não descansa. Então não podemos descansar também, e devemos andar pelo mundo carregando livros.

Somos nós, abrindo livros no metrô, no ônibus, no parque. Somos nós recomendando livros para as amizades, para gente estranha nas ruas, com trocamos algumas palavras circunstâncias. Quero que olhem a terra do espaço e vejam livros, pessoas com seus livros no colo, pessoas lendo em suas casas, lendo para seus filhos e arrumando seus livros numa estante.

O livro… esse vórtice, esse redemoinho, para onde convergem as histórias e as pessoas.

Quando a gente ainda revelava fotos (e ouvia discos…), a #CâmaraEco de Júnior Cordeiro

Texto de Pedro Siqueira


Apesar de não carregar o misticismo dos outros discos, #CâmaraEco não deixa de ser meu vaticínio maior. É, à minha maneira, apocalíptico e áspero.
E nem falando de temas mais hodiernos e cotidianos eu consigo deixar de ver o mundo dotado de encantamentos, ou pelo menos de tentar querer encantá-lo vestido com minhas roupas de sonho.
— Júnior Cordeiro

Júnior Cordeiro

Qual foi a última vez que você ouviu um disco no escuro? Mas, assim… no escuro MESMO? Nesse tempo, em que com tanta facilidade acaba-se descobrindo o que quer (e até o que não quer) sobre praticamente tudo, nas águas mornas dos algoritmos de Spotify e de “Veja a playlist que preparamos a partir do seu gosto!”, é fácil cair na armadilha de se manter na tão falada “bolha”.

Imagine minha grata surpresa, então, ao deparar com esse disco de capa misteriosa, como quem não quer nada, depois de chegar para um amigo perguntando indicações sobre algum disco bom de 2021. Amigo este, é bom lembrar, que seria capaz de me indicar tanto um disco de Nick Cave como uma coletânea de cirandas antigas com a mesma paixão, sempre disposto a provocar, no melhor sentido do termo. Foi então que surgiu-me o nome de Júnior Cordeiro e sua Câmara Eco. Ou melhor, #CâmaraEco.

Procurando o disco nas plataformas de streaming, seria fácil ir até o Google e pesquisar sobre o tal sujeito, correndo o risco de já criar aquelas expectativas que às vezes vêm sem a gente nem querer. Permiti-me, então, o desafio de encarar o álbum completamente alheio ao que eu deveria (ou não deveria) esperar. Como diz Gilberto Gil: “O povo sabe o que quer, mas também quer o que não sabe”.

Ao se dar o play, a tal da Câmara Eco nos recebe logo com uma explosão de sintetizadores e guitarras wah-wah. Mas espera aí, isso é rock and roll! E do bom! Bateria marcante, efeitos “espaciais” que permeiam a canção, entendi, então, é um discaço de rock… Mas, calma lá, o que é isso?! Quando você pensa que decifrou o som… Júnior puxa o tapete e te sacode, estourando em uma peleja de violas, percussão e sopros, como se os virtuosismos do Rush abrissem caminho para o Trem de Catende imortalizado por Alceu Valença em 1975.

Júnior Cordeiro, descobri depois, é paraibano do Cariri. Tem sete discos espalhados por uma carreira de quase duas décadas. A maioria desse material, digo com certo embaraço, pelo menos até então desconhecida por este que vos escreve (já estou correndo atrás do prejuízo, Júnior…). Analisando friamente, é possível perceber em seu trabalho a linha evolutiva que vem desde os trabalhos de gente como Quinteto Violado, ou os pioneiros que ousaram misturar rock com música de raiz do sertão, como Ave Sangria.

A simbiose entre passado e futuro é justamente o que deixa o disco tão envolvente. Sob timbres psicodélicos, arranjos de cordas sintetizadas e os sempre presentes violões, a relação armorial entre um álbum com título em hashtag e discorrer sobre “Quando a Gente Ainda Revelava Fotos”.

Correndo o risco de ser simplista, é possível repetir que #câmaraeco, em sua base, é um disco de rock ‘n’ roll. Mas do BOM rock ‘n’ roll, aquele capaz de se lamuriar, sem vergonha nenhuma, sobre as dores do amor rasgadas pelo saxofone de “Conexão Amor” seguido, em outras canções, por solos de guitarras pesadas e viajantes.

Talvez seja isso mesmo que responda a todos esses questionamentos, a liberdade, a falta de compromisso com o que se deve ou não ser, o “não fazer sentido”… revelar fotos, gravar discos… ouví-los e, claro, senti-los.


Saiba mais sobre o trabalho de Junior Cordeiro assistindo ao AOVIVOKURUMA’TÁ, realizado com o artista em 14 de abril, numa conversa muito boa sobre o #CâmaraEco. Participaram também da conversa Hugo Rosas, da banda Working Men, e Toinho Castro e Aderaldo Luciano, editores da Kuruma’tá! Confira!


A arte de governar a si mesmo

Texto de Daniella D´Andrea

Atriz e contadora de histórias


Num tempo que não era tempo, reis, rainhas, príncipes e princesas eram educados por contadores e contadoras de histórias.

Uma das coletâneas de histórias mais antigas que existe, o “Kalila e Dimna”, de origem indiana (aproximadamente século III a. C) fala sobre isso. Essa coletânea reúne histórias que o narrador Bidpai – nome que em sânscrito reúne as palavras “médico” e “filósofo” – teria contado ao Rei Dabschelim para trazer consciência a uma mente aparentemente limitada e a um coração que parecia feito de gelo. Na antiguidade partia-se do princípio que, na arte de governar, um líder deveria antes de tudo aprender a governar a si mesmo para que seu reino e sua linhagem não caíssem em desastre. Muito atual.

Mas certamente o termo “governo de si” pode ter muitas compreensões (e usos).

Gosto de imaginar que, no fundo, todos os contos de ensinamento – termo utilizado pelo pesquisador e escritor Idries Shah para designar uma categoria específica de histórias da tradição oral utilizada para transmissão de conhecimento – falam sobre um “governo de si”. O roteirista de cinema, pesquisador e escritor, recentemente falecido, Jean Claude Carrière chama esses mesmos contos de “contos filosóficos”. Talvez para “escapar” do significado condicionado e moralizante que o mundo ocidental colonizador dá a palavra “ensinamento”. Ou então para acentuar o fato de que essas histórias permitem vários níveis de compreensão que funcionam sincronicamente.

Num dos distintos entendimentos sobre o que é um conto filosófico existe a percepção de que seus personagens, elementos e lugares são diferentes aspectos de faculdades interiores de uma pessoa. Formas distintas de uma realidade interna que é plástica, moldável e em constante movimento como afirma a filósofa Bia Machado. A conquista de um reino ou o casamento entre um príncipe e uma princesa são maneiras de simbolizar um percurso para uma integração de si no caminho, por vezes imponderável, de uma existência que busca o equilíbrio sutil entre dor e prazer.

Essas analogias são atemporais. Foram criadas mesmo com o intuito de acessar vozes ancestrais que nos convocam no correr das gerações. O tal do tempo que não é tempo.

Pensando no trilhar de uma existência na contemporaneidade: o que nos (des)equilibra? O que nos mantém de pé? É o governo de si uma atitude de responsabilidade perante a própria vida? De que maneira ela influencia aqueles que estão ao nosso redor? O governo de si pode ser uma atitude política justamente por paradoxalmente levar o ser humano para além de si?

Criamos – eu e o também narrador Warley Goulart – o espetáculo “A Arte de Governar a Si Mesmo” pensando nessas perguntas. E pensando também no fato de que se vivemos um momento em que o mundo – e mais acentuadamente o Brasil – parece estar vivendo algum desgoverno, o que essas histórias poderiam nos recordar sobre processos relacionados a palavra “governo”?

A partir de uma história moldura (“O príncipe, o mestre e a águia”, conto da tradição oral árabe), a dramaturgia desse trabalho segue o tradicional desenho das clássicas coletâneas onde uma história é permeada por outras. Assim, uma contadora de histórias vai acordando outras narrativas, como “A cidade melão” (tradição oral do Afeganistão) e “O cego Abdallah” (tradição oral da Arábia), além de trechos da obra “O jardim amuralhado da verdade” de Hakim Sanai de Ghazna, poeta persa do século XII. No eixo de toda essa trama falamos de um príncipe temperamental e desinteressado pela vida de seu reino, criado com excesso de cuidados por uma rainha e colocado sob a observação de um mestre ancião.

Poderíamos fazer um, dois, três espetáculos e não responderíamos completamente nenhuma das perguntas que fizemos na gestação desse trabalho. Pois o caminho se faz caminhando, e as perguntas não necessariamente implicam em encontrar respostas. Governar a si mesmo, buscar uma conduta consciente, é um aprendizado de uma vida inteira. Implica inclusive em abarcar também os momentos de “não governar”, reconhecendo que não temos o controle de tudo porque simplesmente não sabemos o que é o “tudo”.

Gostaríamos então que esse espetáculo funcionasse como um espelho que conversasse com aquele que em nós olha para dentro. E busca a velha ideia da arte de bem viver num mundo ao mesmo tempo bonito e estranho. Estando também serenamente atento à possibilidade de “não bestar” em relação ao nosso passado/presente/futuro.


*******


O projeto de artes integradas “A Arte de Governar a Si Mesmo – Caravana pelo Interior” segue até o dia 21/04, com a seguinte programação:

Dias 16 e 17/04, às 20h
Conversa com artista convidado + espetáculo no YouTube Daniella D´Andrea

16.04 –
 Juliana Manhães, artista brincante e professora universitária – Guapimirim (RJ)

17.04 – Lazir Sinval, coordenadora do Jongo da Serrinha – Rio de Janeiro (RJ)

A ARTE DE GOVERNAR A SI MESMO – CARAVANA PELO INTERIOR
Solo narrativo com a contadora de histórias e atriz Daniella D`Andrea.
Direção: Warley Goulart, coordenador do grupo “Os Tapetes Contadores de Histórias
Direção do filme: Ricardo Mansur
Cenário: Leo Thurler e Warley Goulart
Consultoria narrativa: Juliana Franklin

Dia 18/04, às 18h
LIVE Roda de Contadores de Histórias “O que te mantém no caminho: roda de histórias para olhar através”

No YouTube Daniella D´Andrea
> Regina Machado, criadora e curadora do Encontro Internacional de Contadores de Histórias Boca do Céu – São Paulo (SP)
> Rosana Reategui, do grupo Tapetes Contadores de História – Rio de Janeiro (RJ)
> Julia Grillo, da Oficina Escola de Arte Granada – Nova Friburgo (RJ)

Dia 21/04, às 20h
LIVE Roda de Contadores de Histórias “O que te mantém no caminho: roda de histórias para olhar além”

No YouTube Daniella D´Andrea
> Nícia Grillo, fundadora da Oficina Escola de Arte Granada e formadora de narradores – Nova Friburgo (RJ)
> Warley Goulart, do grupo Tapetes Contadores de História – Rio de Janeiro (RJ)
> Juliana Franklin, da Arte de Reparar Histórias – Rio de Janeiro (RJ)
> Gislayne Mattos, mestra em Educação, escritora, contadora e formadora de novos contadores

Toda a programação tem tradução em LIBRAS
Classificação etária: 12 anos

Instagram e Facebook: @aartedegovernarasimesmo

*******

“Pra que a gente possa de novo beijar” — Marina Lima de disco novo!

Texto de Toinho Castro


Capa de Motim

Marina Lima lançou disco novo, um EP com quatro faixas. Chama-se Motim, nome apropriado aos nossos dias. Tem também um songbook, Marina lima – Música e Letra, reunindo cifras e letras de todos os álbuns lançados desde o primeiro, Simples como fogo, de 1979, e que está disponível para download gratuito no site da artista! Essa é a notícia boa, num país carente de boas notícias. Bem, isso faz alguns dias, então, sei lá, talvez já seja notícia velha, nesse corre-corre que a gente vive. Curiosamente um corre-corre algo paralisado, porque a pandemia é como uma gravidade de Júpiter sobre a gente.

E essas quatro músicas da Marina, são um alento nas cápsulas em que estamos enfiados, ou confinados, orbitando um mundo que não é mais o mesmo. São quatro canções precisas, certeiras, que mostram, de um jeito simples e claro, o quanto Marina é necessária e atual, e o quanto ela carrega, com fluidez e leveza, o legado desses 21 discos que ela fez acontecer no Brasil. Sob esse aspecto, é emocionante escutar Motim, sobretudo quando a voz dela emerge em Pelos apogeus, que abre o lançamento. Uma declaração de amor, declaração de vida vivida. Vívida e apaixonada, pelas amizades, pelos amores amados, pela cidade.

No começo era a praia
O mar com suas ondas e cor

Meus amados
Obrigada
Pelos Apogeus

Que disco lindo, gente, percorrido por um arrepio em cada canção. Fico querendo ele em vinil, pra ver ele rodando na vitrola enquanto toca Motim, essa música de amor, que dá título ao disco, que declara essa insistência no amor, esse quase me abri com você. Quanta delicadeza nesse vacilo de coração, num quis beijar, num quis fluir. Eu falei arrepio? Sentiu? Isso é Marina presente. Marina cantando. A música linda é parceria com Alvim L e com Giovanni Bizzotto.

Kilimajaro, parceria também com Alvim L (participação especialíssima) e Alex Fonseca, que produz o disco com Marina, é quase uma intensidade de Motim.

Correr o risco a 100 por hora
Pra escapar desse eterno agora

Um Kilimajaro no olhar, a que se ascender, escalar, na coragem íntima, a presença do outro. Tem algo de expectativa na música. Escuto enquanto a noite cai no Rio de Janeiro… tem algo aqui de cair da noite. Descanse em caos. As batidas, o eletrônico que Marina nos ensinou a amar, totalmente dela, inconfundível. Como alguém tem uma perenidade na transformação. O novo que ecoa o familiar.

O disco, insisto em chamar de disco, termina com Nóis. Música desse país pandêmico, com participação do mestre Mano Brown. Soturna, mas sem perder o pé do chão. Essa pandemia do vírus, mas também do ódio e do medo.

A onda de horror chegou por aqui
De todos os lados e sem prevenir

É prece, é desabafo (prece boa é desabafo!), e fé no que ainda somos ou nos resta, como potência, querendo acertar, resistir, passar por isso tudo. Música poderosa, como barreira contra a violência que se quer impor.

Rezar, pedir, torcer pra tudo passar
Pra que a gente possa tão logo beijar
E abraçar
O povo mais sonhador que há

Que disco de amor… Quatro músicas. Você acha pouco? Não, não é pouco! É muito, é demais! É Marina Lima completa, inteira, consistente, ciente e sábia de sim. A noite já caiu na Guanabara… A noite caiu com Motim no streaming. Ao fim, pulou para outra música de um outro, antigo, disco da Marina… e foi tão natural, como se a mesma água do mar, do Leblon, talvez, me banhasse. Solidão com vista pro mar. Motim é um encontro com essa artista imensa, que gravou e lançou 21 discos! Uma obra e tanto, de uma mulher e tanto.

Motim está disponível nas plataformas de streaming!

.

Tem esse acontecimento quase anedótico, que aconteceu comigo, muitos anos atrás, lá nos anos 1980. Eu morava no Recife e era aquele sujeito que gostava de rock estrangeiro e não escutava música brasileira. Entrei numa loja de discos que tinha no centro da cidade, e perguntei por um disco chamado Fugazi, de uma banda cafoninha de rock progressivo, chamada Marillion. O balconista que me atendeu disse que sim, foi ali numa prateleira e voltou com outro disco… Fullgás, de Marina.

Achei graça naquilo e nem quis desmanchar o mal entendido. Perguntei o preço, agradeci e fui embora. Perdi ali a oportunidade de conhecer Marina, e amar.

Foto de Toinho Castro

Uma vez vi esse filme, Grand Canyon – A ansiedade de uma geração (péssimo subtítulo em português!). Nele, o personagem de Kevin Kline está prestes a atravessar uma rua em Los Angeles, e ser atropelado, quando uma mão, vinda do nada, o segura pelo ombro e impede que a tragédia aconteça. Atordoado, ele se recompõe e vê uma mulher se afastando dele, e ele percebe que foi ela que o salvou. Agradece sem graça e ela sorri pra ele, sumindo na multidão. Isso o abala e ele enxerga aquela mulher, que usava um boné do seu time, como uma espécie de anjo, que entrou ali, para mudar sua história.

Penso naquele balconista e penso nele como esse anjo, que ia me tirar daquela vida besta de rapaz-roqueiro-radical, e me introduzir a uma vida nova, mais aberta e brilhante e divertida, e bem mais perto do que eu era… só que eu ainda não era. Eu ainda faltava e levou tempo.

Em 1993 visitei o Rio de Janeiro pela primeira vez. Eu já conhecia Marina, claro, de ouvir no rádio, na TV, sei lá… Estava ali na praia, bem na altura do Jardim de Alah, olhando as águas do mar avançando pelo canal. A tarde ia virando noite e de repente olhei pra minha direita e vi, testemunhei, o letreiro do Hotel Marina acendendo. Devia ser outono, tinha aquela bruma vinda do mar, as luzes dos postes acendendo também, o barulho das ondas e dos carros. Nossa, eu entendi. Juro que lembrei do balconista da loja de discos e do Fullgás que eu devia ter levado ali mesmo para casa.

O Rio de Janeiro era onde eu mais queria estar e estava naquele fim de tarde integralmente. Era uma epifania. Era tudo novo, eu era novo. Era o sol se pondo num lugar que eu nem entedia, uma malandragem geográfica. Marina, pra mim, era como uma Rita Lee pro Caetano. Era a mais completa tradução daquele Rio de Janeiro em que eu chagava pela primeira vez; uma cidade que prometia numa mais deixar, coisa que só aconteceria num certo fevereiro de 1997, quando vim pra ficar.

Comprei meu primeiro disco da Marina, e não, não foi Fullgás. Foi O chamado, um disco lindo, emocionante. Pode ter sido naquele 1993 mesmo ou no ano seguinte. Ouvir Marina era estar no Rio de Janeiro, era contar as horas, os dias, meses para retornar e ver o Marina acender, e o farol da ilha. E tantas coisas que o Rio estava por me revelar, sobre ele e sobre mim mesmo. Um belo registro da maturidade de uma artista. Tocou-me particularmente, e ainda hoje mexe comigo, a música Eu vi o rei, que me lembra tanto, tanto meu pai. É como se eu tivesse feito essa música pra ele.

Naquele dia, em que vi o Hotel Marina acender seu letreiro pela primeira vez, peguei a câmera e fiz a foto que acompanha esse texto. É raro, ainda mais para aqueles tempos, a gente ter um registro de um momento tão preciso de transformação, de iluminação, quando a gente se vê como alguém novo, que está chegando em si.

Hoje passei o dia ouvindo Marina. O disco novo, outros discos… o Fullgás, O chamado, Registros a meia-voz (que tem uma versão alucinante de Para um amor no Recife, e essa joia chamada O solo da paixão), aquele de 1991, que tem Grávida… Passei o dia ouvindo cada disco de Marina, e que dia bom. Que dia rico! Nem parece que o mundo lá fora… Nem parece que o Brasil… Escutar Marina é um ato de resistência.

O Hotel Marina quando acende… — Foto de Toinho Castro, naquele dia revelador…

ARRISCAR E AMAR ATÉ O FIM


Os teus espelhos rodopiam em meus pulmões: 4 poemas automáticos de Anna Apolinário

Quem está de volta à Kuruma’tá é a poeta paraibana, de João Pessoa, Anna Apolinário. Sua poesia é muito bem-vinda à nossa revista. Aqui ela nos oferta esses 4 poema automáticos, que integram Beijos de Abracadabra, uma série de 25 textos automáticos escritos no tempo limite de 5 minutos, durante 5 noites. A série de poemas constitui o capítulo de abertura do poemário bilíngue Furor de Máscaras ( Cintra/ARC Edições, 2021).

Quem está de volta à Kuruma’tá é a poeta paraibana, de João Pessoa, Anna Apolinário. Sua poesia é muito bem-vinda à nossa revista. Estes poemas integram Beijos de Abracadabra, uma série de 25 textos automáticos escritos no tempo limite de 5 minutos, durante 5 noites. A série de poemas constitui o capítulo de abertura do poemário bilíngue Furor de Máscaras ( Cintra/ARC Edições, 2021) escrito em parceria com o poeta Floriano Martins, o livro está disponível em Ebook Kindle na Amazon.

Poemas de Anna Apolinário


O CÉU DINAMITA O DESVARIO EM MEU PEITO

Sete vezes a noite desaba no arvoredo
O negrume salta ao redor do umbigo da terra
Raízes reviradas deslizam
Líquidas, em noites de absinto
Tua voz enlaça a cintura dos sóis
Minha cabeleira cintila delírios em Aldebarã

SANTUÁRIO DE ANGÚSTIAS

A luz em teu olhar desperta os enigmáticos chacras da existência
A sutileza de tuas confissões desperta incêndios em meus cílios
Rabiscas minha garganta com as sílabas da Sibila
Mamilos adormecem naufragados em tua boca
Os teus espelhos rodopiam em meus pulmões
Como estancar a sangria de tua sombra a meus pés?
O furor de Cronos furtou nossos destinos
Como ser o abrigo para a loucura de teus crimes?
O perfume entre meus seios abre fissuras na face de Deus

OS MUSEUS ESTÃO LAMBUZADOS PELA MINHA NUDEZ

As cascas da fome repassam seus vícios confessionais
Sobras de lábios vomitam véus indevassáveis
Minha pele, lâmpada maculando o cristalino écran
O castiçal da loucura faz cócegas nos hieróglifos
Aroma de alcaçuz, pomar opulento
A magia de teu sêmen engole os camafeus

A PUPILA DO LEOPARDO PULVERIZA ESPELHOS

Tua nudez pousada no sofá aguça os sentidos da noite
Tela transbordando uma abrupta ferida
As omoplatas magnetizam o magma dos continentes
Os volts violáceos de tua volúpia torturam minhas convicções
Adaga versátil vasculhando vigílias
Hemácias cósmicas assustam todos os segredos
Nossos olhos estão coagulados sob os estilhaços


Estes poemas integram Beijos de Abracadabra, uma série de 25 textos automáticos escritos no tempo limite de 5 minutos, durante 5 noites. A série de poemas constitui o capítulo de abertura do poemário bilíngue Furor de Máscaras ( Cintra/ARC Edições, 2021).

Anna Apolinário (João Pessoa, 1986). Licenciada em Pedagogia pela Universidade Federal da Paraíba, especialista em Língua, Linguagem e Literatura. Poeta, produtora cultural independente, organizadora do Sarau Selváticas, co-fundadora da Cia Quimera – Teatro & Poesia, colaboradora da Revista Acrobata – Literatura e Artes Visuais. Autora dos livros Solfejo de Eros (CBJE, 2010), Mistrais (Prêmio Literário Augusto dos Anjos – Funesc, 2014), Zarabatana (Patuá, 2016), Magmáticas Medusas (Cintra/Arc Edições, 2018), Las Máscaras del Aire (Cintra/Arc Edições, 2020), A Chave Selvagem do Sonho ( Triluna, 2020), Furor de Máscaras (Cintra/Arc Edições, 2021).


6222: livro novo de Terêncio Porto chegando! Confira capítulo em primeira mão!

Depois de encarar, com bravura e louvor, uma campanha de financiamento, diga-se, de sucesso, nosso amigo, parceiro e colaborador Terêncio Porto já pode falar que seu novíssimo livro 6222 está pra sair. Eu mesmo, este que vos escreve, diante de um computador em Vila Isabel, na encantada e maltratada cidade do Rio de Janeiro, colaborei na campanha e aguardo ansioso a chegada do meu exemplar, belamente editado pela Editora Urutau.

Conheço bem a escrita de Terêncio e a perspectiva de lê-lo em páginas inéditas é deveras animadora! E enquanto o livro não chega… eis a surpresa! Terêncio nos oferece, via Revista Kuruma’tá, um capítulo da obra em primeiríssima mão!

Leia agora!


Marjorie leva Vicenzo pro labirinto do parquinho. Muito autoconsciente, olhou o horário antes de saírem da área do parque aquático. Sabe que resta pouco tempo pra brincar. Mesmo assim, decidiu ir. E levar o amigo junto, que em absoluto esquece desses detalhes mundanos como que horas são, a que horas deve partir.

Os pais, por sua vez, a essa altura não recordam muito nitidamente terem filhos. Uma janela pra desligar o exaustivo vínculo permanente com suas crias apresenta-se, um tapete vermelho pra descontração, estendido em convite, chancelado pela armadura protetora daquele eldorado. São capazes de lembrar instantaneamente dos rebentos, ao menor alerta, claro, como algo incrustado em si, geneticamente atado por extenso, queimado em baixo relevo no âmago deles, mas são também capazes de se permitir um fugaz esquecimento embalados pelo deleite do momento, fim da tarde de sábado sendo geralmente o espaço ideal pro florescimento da oportunidade anunciada, com a abençoada tranquilidade da tutela vigente, a paz da estabilidade absoluta, o controle a prova de vazamentos, a contida e conquistada felicidade. O domingo, indexador geral do começo de semana, traz a reboque uma névoa baixo-astralizante pra maioria, apavorante pralguns, gosto acentuadamente azedo de fim do ciclo de descompressão e fuga – o último naco dum suntuoso hambúrguer quando você já está com a barriga inchada e o prazer nem se compara ao do começo. Aliás, o prazer nem é mais tão prazer assim se você for realmente sincero e parar pra pensar e puder admitir. Cacete, você deveria simplesmente abrir mão daquela merda. De fato, sua barriga dói. Já deu, vai, mas aquilo é parte de um todo que era tão gostoso…, dá pena jogar fora, então você acaba mandando pra dentro com relativo desgosto no impulso de aproveitar as coisas porque, um dia, elas acabarão. O dia anterior, o glorioso sabadão, está taticamente posicionado longe o suficiente dessa bad.

O clube como entidade de salvaguarda dos escolhidos, coração de ouro no conceito do condomínio fechado – os seguros limites de suas dependências de lazer alojadas dentro dum já hiper seguro complexo –, proporciona graciosamente o tipo de bem estar almejado pra ocasião, o sentimento de completude e entrega total à inevitável efemeridade duma terra supostamente prometida. O cenário certo prum sábado, fim de tarde. Combo dos mais possantes, casamento pleno de oferta e demanda, lugar e tempo escolhidos a dedo, sem dúvida, um lance assim especial, privilegiado. Saciar os desejos, obter satisfação com atestada segurança, de outra forma não seria viável, não seria satisfação. Tudo encaixado no lugar exato, todos uterinamente livres no cercado, acesso previsto às mais diversas fruições. Pra qualquer faixa etária os mais variados desfrutes, ofertas aparentemente intermináveis todo dia, mas com óbvias predileções pelo sétimo da semana como o mais adequado pra se gozar a boa vida – o usufruto ipsis litteris – por razões para além da comparação sábado vs. domingo.

Continue reading “6222: livro novo de Terêncio Porto chegando! Confira capítulo em primeira mão!”

Como num passe de mágica eu posso partir

Há quem diga que foi um truque malogrado. Outros, que foi tudo, do gesto inicial ao resultado, premeditado. Quem vai poder contar o que realmente se passava pela cabeça do mágico? Recusou fazer o número principal, aquele que arrancava um suspiro exasperado do respeitável público que se amontoava na praça: o desaparecimento a olhos nus. Havia o artista da ilusão perdido a graça? [Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota


Há quem diga que foi um truque malogrado. Outros, que foi tudo, do gesto inicial ao resultado, premeditado. Quem vai poder contar o que realmente se passava pela cabeça do mágico? Recusou fazer o número principal, aquele que arrancava um suspiro exasperado do respeitável público que se amontoava na praça: o desaparecimento a olhos nus. Havia o artista da ilusão perdido a graça?

Pediu a sua bela ajudante que trocasse de lugar com ele. Entraria na pequena câmara que, posteriormente, seria fatiada em dois pedaços bem ali na linha da cintura. A moça retrucou, gritou: loucura, isso é loucura! Mas nada do que ela falasse demovia a ideia de que o número de encerramento seria assim, daquele jeito. E assim foi feito.

Sob olhares atônitos, o mágico retirou da cabeça a cartola, arrumou o paletó num gesto meio angustiante, apontou o serrote prateado para a ajudante e deitou-se na posição que era esperada. Mais tarde naquela noite, depois do ocorrido, a bela moça confessou que viu uma lágrima escorrer feito a jusante de um rio – daqueles inomináveis.

Há quem diga que ele não suportava mais segurar a vontade de usar as pernas para percorrer um caminho.

Há quem diga que, na verdade, fez da arte a vida porque se sentia assim mesmo, dividido.

Saiu de cena de duas formas que não esperava. A saber, aplaudido. A valer, aturdido.

Foto: Getty Images – Brian Johnston broadcasts on the BBC’s Home Service in 1949 while sawing

O Gumberú (Megalogaster repercussus.)

Do livro Fearsome Creatures of the Lumberwoods: With a Few Desert and Mountain Beasts, de William T. Cox, editado em 1910 — Ilustração de Coert Du Bois. Tradução livre de Toinho Castro. O livro de William T. Cox, reúne lendas e relatos de estranhas feras que habitavam as regiões madeireiras do norte dos Estados Unidos e Canadá


Do livro Fearsome Creatures of the Lumberwoods: With a Few Desert and Mountain Beasts, de William T. Cox, editado em 1910 — Ilustração de Coert Du Bois.

O livro de William T. Cox, reúne lendas e relatos de estranhas feras que habitavam as regiões madeireiras do norte dos Estados Unidos e Canadá.

Sendo esta uma tradução livre, sugestões de ajustes e mesmo correções são bem-vindas. A ideia é traduzir todo o livro. Se for um trabalho coletivo, tanto melhor.

TRADUÇÃO LIVRE DE TOINHO CASTRO


Na neblinosa região ao longo da costa do Pacífico, de Grays Harbour a Humboldt Bay, existe um tipo de criatura que tem causado muito aborrecimento nas madeiras. Este é o Gumberú, o qual, felizmente, é de tal raridade que só muito de quando em quando é visto. Acredita-se que permaneça, o Gumberú, escondido, a maior parte do tempo, na base de enormes cedros queimados, de onde ocasionalmente sai em assustadoras expedições de saque. Durante esses períodos de atividade, a fera está sempre faminta, a devorar qualquer coisa que encontre e pareça comida. Um cavalo inteiro pode ser comido de uma vez, distendendo o Gumberú suas proporções, mas falhando em aquietar sua fome ou mesmo a causar-lhe o mínimo desconforto.

Os espécimes avistados eram tidos negros como carvão, mas há que se atribuir a terem sido manchados pela madeira carbonizada dos cedros. Em tamanho, corresponde a fera, quase, a um urso preto, pelo que pode ser confundida, não fosse o fato de que o Gumberú é quase sem pêlos. Certamente que possui sobrancelhas proeminentes e alguns pelos longos e eriçados no queixo, mas o corpo é liso, resistente e brilhante, sem apresentar uma ruga sequer. O animal é um infatigável viajante na busca por comida. Não é veloz, no entanto, nos movimentos, e nem um pouco se incomoda com a presença de inimigos. Esta última característica explica-se facilmente pelo fato de que nenhum outro animal, dentro de seu alcance, jamais encontrou um método bem-sucedido de atacar um Gumberú ou algum ponto vulnerável de sua anatomia. O que quer que acerte a fera, resvala com a mesma força. Sua pele elástica arremessa de volta, com igual facilidade, o alce e a irada vespa. Uma pedra ou gancho lançados na criatura salta de volta em quem os jogou, e uma bala disparada contra sua pele, certamente acertará o caçador entre os olhos.

É crença que a escassez dos Gumberús deva-se à sua natureza combustível e à predominância dos incêndios florestais. O animal queima como celulóide, com força explosiva. Com frequência, durante e depois de um incêndio florestal nos pesados cedros, perto de Coos Bay, os lenhadores insistiam ter escutado relatos de ruídos, muito diferentes do som de árvores caindo, e detectaram o cheiro de borracha queimada no ar.


Texto original

THE GUMBEROO (Megalogaster repercussus.)

In the foggy region along the Pacific Coast from Grays Harbor to Humboldt Bay there ranges a kind of creature that has caused much annoyance in the lumber woods. This is the gumberoo, which, luckily, is so rare that only once in a great while is one seen. It is believed to remain in hiding most of the time in the base of enormous, burned-out cedar trees, from where it sallies forth occasionally on frightful marauding expeditions. During these periods of activity the beast is always hungry and devours anything it can find that looks like food. A whole horse may be eaten at one sitting, distending the gumberoo out of all proportions, but failing to appease its hunger or cause it the slightest discomfort.

The specimens seen are reported to have been coal black, but that may have been due to their being smirched with the charred wood. In size the beast corresponds closely to a black bear, for which it might be mistaken only for the fact that the gumberoo is almost hairless. To be sure, it has prominent eyebrows and some long, bristly hairs on its chin, but the body is smooth, tough, and shiny and bears not even a wrinkle. The animal is a tireless traveler when looking for food, but is not swift in its movements or annoyed in the slightest degree by the presence of enemies. The latter characteristic is easily accounted for by the fact that no other animal within its range has ever found a successful method of attacking a gumberoo or a vulnerable spot in one’s anatomy. Whatever strikes the beast bounds off with the same force. Its elastic hide hurls back with equal ease the charging elk and the wrathy hornet. A rock or peavey thrown at the creature bounds back at whoever threw it, and a bullet shot against its hide is sure to strike the hunter between the eyes.

It is believed that the scarcity of gumberoos is due to their combustible character and the prevalence of forest fires. The animal burns like celluloid, with explosive force. Frequently during and after a forest fire in the heavy cedar near Coos Bay woodmen have insisted that they heard loud reports quite unlike the sound of falling trees, and detected the smell of burning rubber in the air.