O título desse texto é um poema, um poema de um verso, da jovem Upile Chisala. Digo jovem porque ela tem pouco mais de vinte anos, e lembrei de mim mesmo, apesar de todas as distâncias entre nós, com essa idade, lá no Recife, escrevendo meus poemas. Como eu queria, naqueles dias, ter topado com um livro como o de Upile.
Eu destilo melanina e mel (Editora Leya, 2020) me chega tantos anos depois, mas não me chega atrasado. A força de livros assim é sempre entrar nas nossas vidas no momento preciso, na hora em que mais precisamos deles. É um livro que eu abro e me apresenta uma nova voz, uma vivência que me ensina. Sabe, em todo livro a gente precisa aprender a ler. Toda leitura precisa ser de aprendizado. Aprendizado do outro, de si mesmo. De lugares no mundo, geografias, tradições.
Li na orelha do livro (adoro!) que Upile é uma contadora de histórias. Então vejo cada um dos seus poemas como pequenos universos. Uma intensidade concisa. Não há títulos e como enxergar a fronteiras entre um poema e outro? Como não pensar que seja tudo, por outro lado, um grande poema, feito de fragmentos e observações do mundo, da vida de uma mulher negra, africana, forte. E essa mulher africana falando comigo, aqui no Rio de Janeiro, comigo que cresci lendo tantos homens. Por isso, hoje, falo em aprendizado da leitura o tempo todo.
Mulheres como Upile me recolocam no mundo e me sinto jovem como elas, com o frescor iluminado dessa poesia que atravessou oceanos.
Meus ossos atravessaram oceanos para encontrar você. Se eu pedisse, eles fariam tudo de novo.
Às vezes o livro é como um manual, apontamentos. Lembretes contra a tristeza do mundo. Mesmo quando os poemas são tristes eles se erguem contra a tristeza. Imagino Upile anotando esses versos em cadernos, post-its, na palma da mão como quem anota um telefone importante, de alguém que se quer muito rever. Imagino ela carregando esses poemas, antes que virassem livros. E minha vontade é de carregar esse livro por aí. Poemas para serem carregados com a gente, na hora da fuga, na hora do metrô lotado ou da praia vazia.
A voz da minha mãe é o meu lar. — Upile Chisala
Upile Chisala nasceu na República do Malawi, na África Oriental. Um país que tem como fronteiras Moçambique, Tanzânia e Zâmbia, e é banhando pelo Lago Malawi, um dos grandes lagos africanos. Malawi significa, na Língua Nianja (cinianja ou chewa), nascer do sol.
Leia um perfil, e entrevista (em inglês), com Upile Chisala no site OkayAfrica.
A gente, que gosta de livro, quando encontra alguém que também gosta de livro, se dana a falar sobre nossas preferências de autores, ou a obra que mais marcou ou sobre nossas listas de livros por ler o já lidos. São temas inevitáveis, que rendem muitas conversas e essa coisa deliciosa que é a descoberta das afinidades. A emoção sutil de encontrar alguém com quem compartilhar esse amor pela literatura, e poder sugerir um livro.
Mas, e as editoras? Vamos conversar sobre as editoras, que são essas casas que dão saída aos livros, que materializam num objeto singular o trabalho de autores, designers, tradutores, revisores, editores e tantos profissionais que se envolvem nesse sonho.
Pois, queria dizer que tem essa editora que eu amo.
Meus pais cuidaram que eu tivesse a educação adequada, e me educaram para que eu sempre procurasse por mais. E esse mais estava nas livrarias, nos sebos, nas mãos de amigos prestimosos, que me apresentaram a muita coisa que funcionou como uma escola paralela, enriquecendo meu cotidiano, trazendo sentido onde não havia e criando confusão quando necessário.
Quando comecei a me torna isso que posso chamar de leitor, eu lia sem noção da existência das editoras. Eu lia livros. Até que comecei a notar padrões, livros que quando reunidos tinham uma liga, uma mensagem, uma história. A história de quem os editou! Lá estava a editora, bem sob meu nariz… ou meus olhos. E de repente eu já não procurava por títulos ou autores somente. Procurava por editoras.
E foi aí que encontrei a L&PM. E gente, como eu amo a L&PM.
Dos esforços reunidos dos jovens Paulo de Almeida Lima e Ivan Pinheiro Machado, nasce a L&PM, em 1974, na cidade de Porto Alegre. Oito anos mais nova que eu, falta pouco para a editora completar 50 anos. São quase 50 anos direto na veia da leitorada brasileira, lançando livros com sagacidade e inteligência. Nossa, como li, e ainda leio, os livros da L&PM!
Bom larguei o jornalismo pra não ter que levantar dados ou biografias. Então vamos falar de amor… Devo a essa editora corajosa toda uma educação para a leitura, a literatura e a poesia. Foi em suas páginas que dei com o Uivo, de Allen Ginsberg, numa edição de 1984, com tradução de Claudio Willer. De Ginsberg para Lawrence Ferlinghetti e o mundo da poesia beatnik. Uivo foi uma espécie de portal mágico, e o mundo que então se abria era o da L&PM.
Li tantos autores, de perder a conta… Bukowski, Edgar Alan Poe, García Lorca, John Fante, Florbela Espanca. E li muito porque os livros era baratos… acho que a L&PM tem a maior coleção de livros de bolso do Brasil. Creio que sejam centenas de títulos. De acordo com o site da editora, são quase 1400 títulos, a preços bem camaradas. Todo livro tinha que ter uma versão de bolso!
A L&PM me veio assim tão forte à lembrança, porque comprei uma edição de Verdes vales do fim do mundo, biografia das andanças do Antônio Bivar pela Europa, nos anos 70. Meu exemplar comprado na Livro 7, no Recife, lá em 1985 ou 1986, sumiu com as mudanças, na mão de alguma amizade. Então vi ontem uma promoção na internet e não resisti. Amanhã terei novamente esse livro delicioso do Bivar nas minhas mãos e vai ser um reencontro e tanto. Daqui de onde escrevo esse texto, vejo na estante uns volumes pequenos da L&PM, aos quais sempre recorro. Já disse que amo a L&PM?!
Outro dia, conversando com o Aderaldo Luciano, falamos da L&PM, da importância dela pra gente, pra nossa formação como leitores e escritores. Como gente, né?! Falamos dos livros singulares, que reviraram nossos pensamentos e encheram as nossas cabeças de ideias. Ler aqueles livros dava vontade de escrever. Uma vontade que não passa.
Lembro de, já no Rio de Janeiro, sentar na areia do Leblon, num fim de tarde, e abrir aquela velha edição de Uivo, comprada também na Livro 7. A luz já ficando meio mortiça e eu insistindo em enxergar aqueles versos, enquanto acendia o Hotel Marina às minhas costas, e eu pensando, comovido, em como que alguém havia resolvido lançar, aqui no Brasil, aquele livro que havia mudado minha vida.
E não esquecer jamais que perdemos o Antônio Bivar para A Covid-19, em 5 de julho de 2020
A aldeia, a água serenada, as estrelas e o zum zum zum, com Déa Trancoso
Essa alma de Déa Trancoso é de sopro. A aragem de sua voz é o respiro. O tum tum tum do coração avança e retorna, ameaça e se acalma. Mundo difícil esse, mundo esquisito esse, mas o caminho desenhado por Déa não é cataclismático. Há um sistema filosófico iniciado no fundo do rio, subido à terra, penetrado à mata, diluído à alma. O encontro das menores partículas universais com o infinito misterioso e desconhecido. Linda luz como fogo ao vidro. A cobra coral de Seu Tupinambá.
**** Seu Tupinambá Quando vem na aldeia Ele traz na cinta Uma cobra coral Oi’é uma cobra coral.
****
2.
Fui nascido, criado e iniciado nas artes naturais, no olhar e na entrega à Natureza como fonte de cura e crescimento interior. Durante 21 dias, com intervalo de 3 dias entre cada 7 dias, minha mãe, dona Mocinha, atenta, me oferecia água serenada quando sentia sobre mim alguma energia reversa. Tenho ouvido Déa Trancoso como quem prepara esse ritual. Na canção-testemunho Água Serenada, do poderoso álbum Serendipity, mergulhei em minhas memórias. Talvez dona Mocinha estivesse me preparando para ouvir tão bela vereda músico-natural. Essa minina Déa nos oferece água serenada. Os elementais, com a Luz, entram em nosso templo e morada, corpo e caixa existencial, e nos embalam na rede fluida da Vida.
**** Eu não canto Do jeito que eu já cantei Bebi água serenada E até a voz eu mudei Eu mudei Até a voz eu mudei Bebi água serenada E o coração eu lavei Eu lavei O coração eu lavei Bebi água serenada Cantei em paz Serenei ****
3.
Nesses últimos meses, ouvindo Déa Trancoso, sua voz doce, sua canção pétala, sua seara pronta para a colheita, seus leirões bem adubados, entendo, por muito meditar, o quão é grandiosa a existência. Talvez eu fosse me matar um dia, mas ouvi Déa Trancoso. Talvez eu fosse ao pó uma noite, e irei, mas com o som do riacho, com o eco viajando pelas estrelas, pela canção que me atravessou. Aliás só restarão as estrelas. Quando chegar a tarde, o final da tarde, e o caminho estiver entre a penumbra e o breu, eu sei que só restarão as estrelas. Para elas seguirei. Num caminho de flores e pássaros. Como o bem-te-vi.
**** Dos desejos e dos beijos Das potências e das carências Só restarão as estrelas
Das agruras e das paúras Dos sabores e amargores
Só ficarão as estrelas Só as estrelas saberão o caminho Só as estrelas sobreviverão Só as estrelas escaparão de fininho Só as estrelas recomeçarão
Dos sofrimentos e dos alentos Dos mistérios e das perguntas Só restarão as estrelas
Das ciências e ignorâncias Das supercordas e das lembranças Só ficarão as estrelas
Só as estrelas saberão o caminho Só as estrelas sobreviverão Só as estrelas escaparão de fininho Só as estrelas recomeçarão Só as estrelas são as estrelas
São as estrelas diamantes no céu? São estrelas diamantes cravejados no céu?
****
4.
Corri atrás das águas e as águas me carregaram. Areia ficou para trás. Havia um poço no antigo Rio do Canto. O chamávamos Poço da Traíra. E para lá fomos no inverno, quando do rio cheio, quando das águas brabas, quando dos redemoinhos, quando dos desafios de meninos perdidos sob o céu. As águas me abraçaram. O chão de areia fugiu dos meus pés. Hoje, ouvindo o Zum Zum Zum, com Déa Trancoso e Paulo Bellinati, relembrei desse episódio delicado no Poço da Traíra. Água com Areia não se pode misturar, água vai simbora, Areia fica no lugar. O Rio me carregou pro mar e hoje é Odoyá! Ainda há pouco, a voz de Déa fez fluir toda a água que me trouxe. Sou metade água, metade Areia. No meio do mar.
**** Água com areia Não se pode misturar Água vai simbora Areia fica no lugar
Saravá, Rainha do Mar, Saravá!
Zum zum zum Lá no meio do mar
Odoyá! ****
A noite em que um disco voador quase destruiu Recife
Recife, 1975. Depois da grande enchente, veio a grande falta de luz. Ainda criança e brincando na rua, eu soube… um grande disco voador pairava, invisível, sobre a cidade, sugando nossos recursos energéticos, levando o Recife à escuridão. Não podíamos vê-lo porque ele ele era tecido de misteriosos materiais, ininteligíveis pra nós, e assim, invisíveis. Ainda assim nos afetava com seu poderoso magnetismo e suas antenas de plasma que estavam apontadas para nós, para as nossas casas e ruas.
As autoridades sabiam e estavam trancadas em suas salas, esperando, naturalmente, o pior. Faltava luz e brincávamos na rua, enquanto nossos pais estavam conversavam na calçada. Hoje penso que havia um zumbido muito leve, quase imperceptível, que a tudo permeava. Reverberava nas conversas, na bola que rolava de um pé para o outro, no carro da companhia de energia, zanzando, de uma esquina parra outra, em busca de um curto circuito qualquer num poste qualquer, sem sequer saber por onde começar.
Hoje ainda há um zumbido que a tudo permeia.
Disse a mim mesmo que não haveria amanhã, que o disco era grande demais e logo romperia a trama do tempo-espaço para destruir, com seus raios selenitas, seus raios marcianos, as nossas vidas pequenas, pacatas. A guerra nunca estivera tão próxima, nem mesmo quando a minha mãe era menina, em Natal, e os malditos nazistas estavam prestes a saltar sobre o Atlântico, para invadir e destruir Parnamirim.
A invasão nunca fora tão eminente e estávamos ali para testemunhá-la. Sentado na calçada eu sabia que erámos os mais importantes de todos os tempos, porque o que veríamos não haveria como contar a ninguém. Não teríamos palavras, nem tempo. E talvez ninguém depois de nós para saber, para lembrar em histórias e cantigas.
Quando adormeci ainda faltava luz. Acordei no dia seguinte e ao abrir a geladeira, percebi que seu interior estava gelado e iluminado pela pequena lâmpada que enfeitava suas profundezas remotas. Eu mesmo tornei-me remoto, longe de mim mesmo. Corri para a janela e um dia de sol me esperava lá fora. Senti que o disco havia ido embora, fato confirmado pelos olhares dos meus amigos da rua. Decepcionado, retomei meus dias de menino e cresci com o desejo de que uma grande mentira estivesse sendo contada.
A poesia de Anamélia Mello
Conheci Anamélia nos primeiros dias de Universidade, lá no Recife. Era 1987 e éramos da mesma turma de Comunicação, no Centro de Artes e Comunicação da UFPE. Lembro que certa tarde, quando cruzamos nossos caminhos no hall de entrada do CAC e vi que ela trazia na blusa um botton com um verso de Caetano Veloso: Que a acrítica não toque na poesia, daquela música sensacional e muito pouco comentada, Ele me deu um beijo na boca.
Esse verso nos aproximou. A poesia nos aproximou e compartilhamos aqueles dias de universidade, dias dourados, levados por um aguçado senso poético da vida.
Naqueles tempos já experimentávamos versos e rimas, e é uma alegria ver que Anamélia se consolidou como poeta, desenvolveu um trabalho que hoje compartilhamos com você que generosamente nos segue e nos lê.
Agora vamos a uma pequena amostra, cinco poemas, do talento de Anamélia Mello, que ainda traz a poesia na blusa, na pele, no coração. —Toinho Castro, editor da Kuruma’tá
Poesias de Anamélia Mello
O ARBÍTRIO DAS ÁGUAS
Acordo. A boca enorme da água aplaca tudo. Logo nada restará de nossos sonhos parcos. Lavados os carros o caos se agiganta. As pessoas recolhem tudo que podem mas não sabem o que fazer consigo mesmas.
Levanto. A morte jaz sobre as pedras das casas em frente ao lixo que bóia junto com os escombros de um dia passado em alerta máximo. Dor extrema que tudo leva em seu regaço: móvel, folha, criança e o descompasso do horizonte branco monocromático. Não há tempo fútil possível. Todos os assuntos são graves.
Acordo… levanto… Mas quisera jamais ter abandonado o estado de sonho…
CANSAÇO
Dia de trabalho árduo, muitos cálculos Sobre a divisão do tempo, a organização do horário O oposto dos anos sedentários Em que são longas as horas Dedicadas ao ócio ou jogadas fora
Dia de duros esforços, muito fôlego Para continuar de arrojo em arrojo Em que é impossível parar Inútil fugir da raia Em que o sensato é andar Pra frente e esquecer a mágoa
Dia de suor luzente na fronte E dor aguda nos músculos Dia de ruga na testa em busca de Deus O oposto do dia de festa O oposto do dia do adeus Há que se traçar metas, seguir cronograma Há que calçar os sapatos e esquecer a cama
Há que esquecer o prazer, o jogo e o flerte Urge checar o cheque e o balancete! Ousar cair na gandaia, entornar o copo? Não hoje, agora não dá, é inviável Favor esquecer o provável Faça-o inadiável!
Dia de árduo decoro, duros esquemas Sobretudo dia de bater as pernas Enfrentar o ônibus e as filas Apressar o passo rumo ao objetivo Calcular o lucro, descontar os ganhos Apertar o cinto, esquecer os sonhos…
DUO DE SOMBRAS
A claridade oprimia a alma com um riacho de gotas de suor a realidade era miragem, que o trôpego andar percorria nada respirava, mas a luta pelo ar era o sinal de que seria encontrado o ouro das manhãs e tardes
O abraço era sôfrego, seus raios apertavam a Terra tudo em brasa secava como se a morte fosse o clima seco o vento de abanos queimava a pele ouviam-se cantos de pássaros, mas os olhos mal enxergavam poderia ser qualquer coisa aquela imagem ilusória
O que é duro quebra, e o gelo não se derrete forma crostas e reluz mais que o mundo reflete tudo a neve, até o sol, reflete estrelas é ameaçada por nuvens, quem quer ser água vive vaza e congela por inteira sem dar trégua insensível brisa gélida
Água em neve fôfa toma a forma dos bancos, das escadas, das curvas dos carros pesa nos galhos o gelo, enfeita os rios amarela ao pôr-do-sol, escurece no ônix da noite faz brilhar toda superfície desperta nossa atenção, aguça, vivifica envolve, mas impele adiante em seu congelante desafio
E vida brota no inverno, no verão, dentro e fora de mim, na coleção infinita da eternidade…
SEM DÚVIDAS NEM CERTEZAS
Eu te vi luzir a chama em bares de esquinas afogando o sábado em espumas branco-nuvem e douradas. Eu te vi espargido na grama em frente ao edifício buscando estrelas na abóbada celeste.
Ouvi teu canto marinho e o som do teu violino incendiando horas gélidas na passagem do tempo. Senti o pulsar do músculo íngreme do teu peito que batizava as emoções em hierarquias.
De ti nunca previ um só movimento de vida, a vida que em ti inflava velas para a grande travessia em redemoinhos, pensamentos, sentimentos e crenças sempre questionadores e prontos para o aprendizado.
Quando eras tomado pela Musa, veio de amor que te pulsava dentro compunhas elegias as mais atrevidas e decantavas a sorte e o tormento Quando ias embora, a ponte se erguia para nadares outras correntezas e eu me descobria nem fora nem dentro, num agora sem tempo sem dúvidas e sem certezas.
É NOITE
É de noite que brilha a estação de nenúfares o gelo dos teus olhos a me ver passar o escuro de chumbo e de pólvora.
É de noite que colo meu olhar ao teu olhar e inauguro a mútua transparência de almas.
É de noite que venho cobrar a força das pelejas do dia a acidez do teu coração nossa rudeza característica.
É noite quando nossos corpos se enlaçam e bailamos em picos sagrados sem nada distinguir ao nosso redor.
É a estação das pedras cortantes o vício das madressilvas os campos bordados de luz mais branda que o tempo o gesto simbiótico a simbologia da cópula.
É noite quando me deito em cima de séculos sombrios apago a lamparina da razão e me entrego ao delírio.
São feixes de momentos aprazíveis em que me pego absorto no ritmo alucinado do teu gôzo no pouso firme que te doei.
É noite quando sigo fielmente meu destino escolhido deixando para trás, cativo meu músculo esquerdo abraçando teu espírito feito a luz de um espelho.
Anamélia Cabral de Vasconcellos de Azevedo Mello, psicóloga pós-graduada do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco desde 2014. Atende como psicóloga clínica, terapeuta ayurvédica e terapeuta floral em consultório próprio e na modalidade online. É membro da Academia de Artes, Ciências e Letras do Brasil e da União Brasileira de Escritores Seção Pernambuco. Membro do grupo Teia Literária há 7 anos, com quem co-participou de 4 livros de poesia e contos: “Coletânea Pegadas da Escrita”, “Mulheres feitas de tempo” e “Nós dos eus” e “Ecos da Resistência. Participou também da coletânea “Carrero com 70”, em homenagem a Raimundo Carrero. Escreveu um livro de poesia em português e outro em inglês, ainda não publicados. Vem recitando seus poemas em locais culturais em Londres, Recife e em lives no Youtube. Atualmente, está gestando um novo livro de poemas e um de contos. Instagram: @anameliamello.
Poemas do livro ‘Harpia’, por Aline Cardoso
A poeta paraibana Aline Cardoso, Mulher Negra, Feminista, Mãe, Doula, Professora, Escritora, Editora e Dona de casa – Bruxa em tempo integral, nos oferece a beleza de sua poesia, com uma seleção de cinco poemas do seu livro Harpia, publicado em 2020.
É com alegria que a gente publica esses poemas e recebe Aline nos caminhos da Kuruma’tá, essa revista que ama poesia, que compartilha poesia e poetas, que acredita demais na força da cultura.
Caí em águas negras Ontem à noite, Átrio aço maciço Penetrando o breu.
Bestas bioluminescentes Precipitavam-se ronceiras Farejando os nós Entre meus seios.
Miose, Petrifiquei papilas e ardis Avioletando a carne Densa de cada lábio.
Euríale, transmutei a morte Em meu chocalho dourado, Circunscrevi muitos nomes Em minhas escamas.
MOIRAS
As moiras vêm à noite, Montando frísios Carregam víboras, Anéis de prata, Um olho e três destinos. Coloquem as chaves Nas fechaduras.
FÊNIX
A urgência corrói Minhas asas, Pássaro em cinzas, Reviverei Em voo limpo
Peito de céu aberto, Tenho feridas Ressequidas Pela fúria com que Enfrento os dias
HERA
Vim de outras eras Erva-daninha-brava, Urtiga-vermelha, Saliva sumo de Comigo-ninguém-pode.
RÉQUIEM
Um corvo Cantará no dia do nosso Casamento Uniremos carne e vida Ao grito prometeico De quem diz estar Para sempre atado. Fígado exposto Feridas abertas Vertendo o rubro Amor de quem se dá Cru à presa.
VOZ
Telúrica-antropofágica Acherontia atropos Em voo psíquico-onírico Mariposa posta Em teus lábios.
Aline Cardoso: Mulher Negra, Feminista, Mãe, Doula, Professora, Escritora, Editora e Dona de casa – Bruxa em tempo integral. Aline nasceu em João Pessoa no dia 23 de Agosto de 1991. Estudou na rede pública de ensino de sua cidade durante a educação básica; Tornou-se mãe de Marina entre 2015 e 2016; Cursou especialização em Língua, Linguagem e Literatura entre 2016 e 2017; Tornou-se organizadora do Sarau Selváticas – de autoria feminina – em 2017; Graduou-se em Letras com habilitação em Língua Portuguesa pela Universidade Federal da Paraíba em 2018 e começou a integrar o Zine Coletivo Sagaz Zine, onde trabalha com poemas e artes visuais;; Fundou a Editora Triluna em 2019, visando a publicação de mulheres, principalmente mulheres negras; Em 2020, foi titulada Mestra em linguística na área de Análise do Discurso pelo Proling – UFPB. Escreve para organizar e emaranhar ideias. “A proporção áurea do caos”, seu primeiro livro, é fruto de quase cinco anos de escrita, timidez, introspecção, descobertas e amadurecimentos, além de, é claro, simbolizar o rompimento com o título de engavetadora de poemas. Momentos e fragmentos da memórias estão agora eternamente livres, das páginas desse livro para o âmago dos leitores. Em 2020 publicou Harpia, pela Editora Tribuna! Atualmente a poeta no seu terceiro livro: Garimpo de Silêncios.
Crimes Impossíveis | Nova aventura da Editora Bandeirola com Braulio Tavares
Depois do sucesso, previsível e muito justo, da campanha de financiamento coletivo para uma novíssima edição dos dois clássicos da ficção científica brasileira, A espinha dorsal da memória e Mundo Fantasmo, de Braulio Tavares, a editora Bandeirola, na pessoa linda de Sandra Abrano e sua equipe, inventa mais uma aventura!
Agora é o livro Crimes Impossíveis, com curadoria, apresentação e tradução de Braulio Tavares, direto de sua Biblioteca Pessoal. É mais um passo destemido dessa parceria que se formou entre autor e editora! Uma parceria, diga-se, que promete muitas surpresas para o futuro próximo! Aguardemos!
Para falar do livro e da campanha, conversamos numa live histórica, com o Braulio e a Sandra Abrano. Participam do papo nossos editores, Toinho Castro e Aderaldo Luciano! Confira abaixo o registro do encontro virtual, com 3 horas de duração! Prepare a pipoca!
Mais sobre o livro e sobre a campanha
CRIMES IMPOSSÍVEIS reúne contos da primeira fase da literatura detetivesca, desde os mestres isolados do século 19 até a década de 1930, considerada a Era de Ouro desse tipo de narrativa, nos explica Braulio Tavares no prefácio deste livro. Vemos o desenvolvimento de um dos conceitos mais curiosos do conto e do romance policial – o crime impossível ou de “quarto fechado”.
CRIMES IMPOSSÍVEIS é uma antologia com tema inédito no Brasil, com narrativas cuidadosamente selecionadas entre as pioneiras do tema conhecido como “o quebra-cabeças” da literatura policial.
Diante da devastação causada no país, em múltiplos níveis, pela gestão da crise da Covid-19, um grupo de livrarias do Rio de Janeiro criou a campanha Livrarias Cariocas, para se posicionar e atuar no sentido de garantir o espaço e existência das livrarias no mundo que começa a se desenhar para um futuro que está bem ali. Você consegue imaginar um mundo sem livrarias? Não, né?! Pois trata-se disso.
O triste demais é saber que o mundo sem livrarias já existe, em muitos bairros e cidades do Brasil, quase como se o natural fosse não existir livrarias. O sonho do Livrarias Cariocas é ser não só um gesto de autopreservação, mas um ponto de partida para uma discussão mais ampla do tema, de modo a alimentar uma corrente que possa reverter essa realidade estranha, um movimento que dê a dimensão da importância do papel da livraria nas comunidades. Muito mais que lojas, as livrarias tem se tornado, cada vez mais, pontos de cultura, vórtices para onde convergem debates, encontros, a diversidade das trocas culturais.
É preciso que você, gente boa que gosta de livros, leituras e culturas, se alinhe com esse movimento, com essa barreira de contenção contra tudo que ameaça as livrarias e os livros no Brasil. Livrarias Cariocas… parece muito localizado, né. Mas a gente precisa começar por algum lugar, e sair então agregando, somando e se multiplicando em iniciativas similares e antenadas com o mesmo propósito. Quem sabe a gente chega lá, quem sabe a gente acaba por criar um mundo novo, em quye não falte uma livraria a um cidade.
A gente sabe que a questão do livro é maior, é mais complexa, um país como o Brasil. Se as livrarias estão sob ameaça, imagine então as bibliotecas e o próprio livro em si. Então vamos nos apoiar e nos organizar. É mais que ser contra a Amazon. É ser a favor do livro e do acesso democrático à cultura; é ser a favor da diversidade desse ecossistema, que inclui de editoras à livreiros e livreiras e, sem dúvida, leitores.
A livraria e bibliotecas são os caminhos mais bonitos entre um livro e quem o lê.
Do livro Fearsome Creatures of the Lumberwoods: With a Few Desert and Mountain Beasts, de William T. Cox, editado em 1910 — Ilustração de Coert Du Bois.
O livro de William T. Cox, reúne lendas e relatos de estranhas feras que habitavam as regiões madeireiras do norte dos Estados Unidos e Canadá.
Sendo esta uma tradução livre, sugestões de ajustes e mesmo correções são bem-vindas. A ideia é traduzir todo o livro. Se for um trabalho coletivo, tanto melhor.
TRADUÇÃO LIVRE DE JULIANA MATOS
O habitat natural do squonk é muito limitado. Poucas pessoas fora da Pensilvânia já ouviram falar desse animal estranho, que é considerado bastante comum nas florestas de cicuta daquele estado. O squonk tem muito pouca disposição, geralmente passeando ao entardecer. Por causa de sua pele inadequada, coberta de verrugas e manchas, ele está sempre infeliz; na verdade, as pessoas que são mais capazes de julgar dizem que ele é o mais mórbido dos animais. Os caçadores que são bons em rastrear são capazes de seguir um squonk por sua trilha manchada de lágrimas, pois o animal chora constantemente. Quando encurralado e a fuga parece impossível, ou quando surpreso e assustado, pode até se dissolver em lágrimas. Os caçadores de Squonk têm mais sucesso em noites geladas de luar, quando as lágrimas são derramadas lentamente e o animal não gosta de se movimentar; pode-se então ouvir o choro sob os galhos das escuras árvores de cicuta. O Sr. J. P. Wentling, anteriormente da Pensilvânia, mas agora em St. Anthony Park, Minnesota, teve uma experiência decepcionante com um squonk perto de Mont Alto. Ele fez uma captura inteligente, imitando o squonk e induzindo-o a pular dentro de um saco, no qual ele o carregava para casa, quando de repente o fardo diminuiu e o choro cessou. Wentling desenrolou o saco e olhou para dentro. Não havia nada além de lágrimas e borbulhas.
Texto original
THE SQUONK (Lacrimacorpus dissolvens.)
The range of the squonk is very limited. Few people outside of Pennsylvania have ever heard of the quaint beast, which is said to be fairly common in the hemlock forests of that State. The squonk is of a very retiring disposition, generally traveling about at twilight and dusk. Because of its misfitting skin, which is covered with warts and moles, it is always unhappy ; in fact it is said, by people who are best able to judge, to be the most morbid of beast. Hunters who are good at tracking are able to follow a squonk by its tear-stained trail, for the animal weeps constantly. When cornered and escape seems impossible, or when surprised and frightened, it may even dissolve itself in tears. Squonk hunters are most successful on frosty moonlight nights, when tears are shed slowly and the animal dislikes moving about ; it may then be heard weeping under the boughs of dark hemlock trees. Mr. J. P. Wentling, formerly of Pennsylvania, but now at St. Anthony Park, Minnesota, had a disappointing experience with a squonk near Mont Alto. He made a clever capture by mimicking the squonk and inducing it to hop into a sack, in which he was carrying it home, when suddenly the burden lightened and the weeping ceased. Wentling unslung the sack and looked in. There was nothing but tears and bubbles.
A gente faz exame pra ver o que tem lá dentro. Pra ver o que a gente não consegue ver quando fica de frente pro espelho. O que não quer dizer que a gente não sinta. O negócio tá lá tão dentro, mas tão dentro, que há quase uma certeza absoluta de que provavelmente somente um exame pode dizer o que é.
Mas a gente tem que aprender a ler exame. Médico aprendeu a ler exame. A gente, não. A gente aprendeu a ler, mas nem todo mundo pratica a leitura. Porque pra certas leituras não basta identificar as letras. Acreditem: há quem não saiba ler poesia. Muitos por aí não sabem ler o outro também, seus semelhantes, que têm a mesma quantidade de olhos, pernas e braços. Quanto mais exame, quanto mais bula de remédio, quanto mais dicionário, quanto mais as entrelinhas, quanto mais sei lá o quê. Cada vez fica tudo mais difíci de ler.
Só que o incômodo existia. Não era questão de leitura, era latente lá dentro na altura do peito. Então eu fui ao médico e ele pediu pra fazer um exame, uma chapa, um raio-x, que era pra que ele pudesse ler o que havia em mim. Depois, podia receitar um remédio. Pra mais tarde ele repetir o exame e ver se aquilo que eu estava sentindo já havia ido embora.
— Há quanto tempo você sente isso? — Muito tempo. — Muito quanto? — Mais de ano, menos de mês. — Parece com o quê? — Não sei explicar. — Usa uma metáfora… — Tipo aquilo de poesia? — É. Tipo parecem borboletas no estômago. — Não, nem parece. É mais em cima. — Sim, mas tipo isso. Usa uma metáfora tipo isso. — Tá mais pra mariposa. — Onde? — No peito, né? — Mariposas no peito… — É que mariposa não voa leve. Voa pesado. — Bate nas coisas, né? — É, borboleta pousa. Pousa nas flores. — Mariposa se debate contra as paredes, né? — É, e ela não é colorida. É sempre da mesma cor. — Mas tem grande e pequena, né? — Tem, verdade. Mas borboleta não? — As borboletas no estômago costumam ser do mesmo tamanho. — Aí o remédio é sempre o mesmo, então… — Nem sempre, porque há quem goste delas. — No estômago? — Sim! Você ficaria surpreso. — Só se chamar um caçador de borboleta. — Hahahahahahahaha! — Hahahahahahahaha… — Vou botar isso na receita da próxima vez. — A sua letra parece um voo de borboleta, até. — Borboleta é bom, que é fácil de desenhar. — Mariposa é difícil. Acho que não consigo. — Tá ligado que borboleta em espanhol é mariposa? — Olha, não sabia! — ¡Una mariposa! — En mi peito… — Pecho. Peito em espanhol é pecho. — Ah, bacana! — Mas seu caso, ao que parece, é mariposa no peito mesmo. — Se for, tem cura? — Ah, sempre tem. Boas chances delas voarem embora. — Delas? — Quase sempre andam em bando. Tipo borboleta. — Inseto é foda, né? — Porra, nem me fala. Me amarro em inseto. — Eu também. — Bom, faz o exame e volta aqui pra gente ver o que é.
O exame deu uma mancha. Mas nem era no pulmão, não. Era bem no coração mesmo. Dava pra ver ele manchado mesmo sem saber ler exame. Voltei ao médico com a chapa debaixo do braço. Ele olhou, olhou mais um pouco e resolveu pedir uma segunda opinião de um colega que entendia desses negócios de metáfora. É que não era mariposa no peito. Pediu pra entrar no consultório um amigo que era poeta, que sabia ler essas coisas. O poeta, com um semblante tranquilo no rosto, chegou perto do exame. Franziu o cenho. Colocou os óculos pra perto e olhou, olhou mais um pouco. Colocou os óculos para longe e leu tudo de novo. Virou-se pra mim, mas não havia sorriso.
— Já vi isso antes. — É mariposa, né? — Nem é. Isso aí é saudade mesmo. — Saudade sai em exame desde quando? — É que tem que aprender a ler. — Mas e agora? — Toda vez que você fizer um exame, vai aparecer. — Não vai embora? — Não, nem é como borboleta no estômago. — Mariposa… — Nem como mariposa no peito. — E tem remédio. — Sinto muito, não tem. — Então o que eu faço? — Aprenda a ler. — Exame? — Não, poesia. — E vai adiantar. — Talvez. — Mas e se não adiantar? — Pelo menos você vai ter aprendido a ler poesia. — E a saudade vai embora? — Quando você aprender a ler, não vai querer que ela vá embora. — Mas não é bom… — Também não é ruim… — Mas eu queria um remédio. — Só que não tem receita pra isso.
Estava escrito no laudo que quem aprende a ler poesia consegue botar borboleta pra pousar no jardim. Ou botar mariposa pra se debater nas paredes.