Tuini: Disco lindo e clipe novo!

Texto de Toinho Castro


Tuini – Foto de Marília Cabral

Não tem muito tempo que minha amiga Mônica me passou a dica da Tuini e seu disco novo, Encanto. Uma pessoa lança um disco, ou um livro, filme, etc, em tempos como esses que vivemos, em que resistimos bravamente, eu quero logo prestar atenção, saber o que é, de onde vem, o que me traz. Com esse disco, de estreia, da Tuini, lançado em maio, não foi diferente. Imediatamente dei play na vitrola virtual do Spotify (Ah, quem dera esse disco em vinil…) e, nossa, que alegria.

É um disco que, desde a capa, transmite uma força, uma vibração autêntica. E vamos combinar que é preciso arte que gere alegria em tempos de pandemia, não é mesmo?!

Agora mesmo, enquanto escrevo, boto o disco pra tocar de novo e começa logo com um baião, Janela! Nesse junho, nesse friozinho carioca, a canção traz um cheiro junino, uma esperança de varanda, de quintal, de conversa na calçada. Vou escutando música a música desse disco cheio de gente, que canta, que chama um ao outro, gente que dança. Mesmo sentado aqui na cadeira, enquanto digito essas linhas, a alma balança, a alma dança.

Recordo que lá em casa, quando eu morava no Recife, tinha um jasmineiro bem na entrada, junto ao portão. Aí escuto Jasmineiro, me convocando a memória. Se há uma nostalgia no cancioneiro de Tuini, há um impulso adiante, impulso de vida. Ter futuro é ter memória. Numa conversa com o Brasil, ela vai levando seu disco. E o Brasil de Tuini é esse país que brota do chão. Brasil dos mistérios, Brasil sonhado.

Fica a dica, bote Encanto pra tocar! Chame seu par, seja quem for, pra dançar. Vá pra janela e cante alto. E não se engane com a doçura, a leveza, a ternura. Encanto é um disco de resistência. De um país que resiste no verso, na moda da viola, na flauta, na voz dessa mulher desfiando a beleza e o poder da nossa cultura. Se ligue, tem uma janela aberta no meio dessa pandemia! Foi Tuini quem abriu!


E Tuini nos reserva ainda encantos, surpresas. Ontem foi lançado o clipe da música Navegante, que encerra o álbum lindamente.

“É uma canção que trata de questões muito profundas. Fala do percurso da vida. Todos nós somos navegantes em busca de encontrar a nossa própria água e alçar os vôos que nos esperam nesse plano. E é muito significativo que o clipe dessa canção seja um making of, pois, para mim, a gravação desse disco é um dos maiores voos da minha existência”, diz Tuini sobre o trabalho, que você pode apreciar aqui!


Tuini tá bem acompanhada demais em Encanto. Confira a riqueza:
Diogo Sili (violão, produção e direção musical), Luís Barcelos (bandolim), Marcelo Cebukin (flautas), Ramon Múrcia (percussão) e o saudoso Chico Oliveira (baixo) fornecem a base. Kiko Horta (acordeon), Yuri Villar (sax soprano), Maria Clara Valle (violoncelo), Renata Neves (violino), Tina Solon (viola), Bruno Repsold (baixo acústico) e Rodrigo Abreu (quenas) trazem as suas contribuições. Os arranjos, em clima nordestino, são de Luiz Morais, que coassina a direção musical com Sili.


Com esta publicação a Revista Kuruma’tá chega a 400 artigos publicados online! Viva!

“Vovó falou que tenho sopro divino no peito” — A poesia de Iyadirê Zidanes

Recife e Olinda são cidades que existem num plano poético, cidades narradas. Existem porque são contadas. Então poetas, nelas, não falta. E ser poeta de lá é ser poeta de si e de além. Nesse contexto, nessa linha imaginária de poetas, se encaixa Iyadirê. Faz tempo que a conheci, de passagem pelo Rio de Janeiro, vívida, límpida, atenta, elétrica e suave.

Assim sua poesia , uma vez que a li, não me surpreendeu em sua lindeza, e me surpreendeu, naquele susto, súbito de ler algo que encanta.

Há tempos tô de olho nesses versos e hoje os publico na nossa Kuruma’tá. — Toinho Castro, editor da Kuruma’tá


Poesias de Iyadirê Zidanes


Mar majestade

Batesse como onda
Mar aberto, eu sei
São lindos seus recortes
És imensidão
Sou barco flutuante
E veja
O tempo é rei
Tu pleno movimento
Eu embarcação
Te quero
Perceba
Já disse
Não nego
Teus olhos marejam, me trazem pra perto
Mergulho intenso
Paralisa tempo
E converso com o rei pra ter tu mais perto
Não suma
Consome todo meu encanto
Flutua meu versos
Paralisa tempo
Batesse como onda
Mar aberto, eu sei
São lindos seus recortes
és imensidão
Teu colo maresia
Eu embarquei.

 


Sopro divino

Vovó falou que tenho sopro divino no peito,
Sopro divino no peito.
Dos tempos em que tinha menos concreto pra se olhar,
Menos concreto a se pisar.
Dos tempos que as pessoas olhavam para cima e tinha estrelas como nossos olhos
que brilham, jaboticaba.
Que o chão tinha terra
Vovó falou que tenho sopro divino no peito,
Sopro divino no peito.
Igual às árvores que balançam com a força da água que passa na beira do rio.
Vovó falou que tenho sopro divino no peito,
Sopro divino no peito.
Me contou que peito forte temos todos nós,
Nós! Que vivemos a ser desafiados…
Aquele que já nasce condenado…
Quem consegue sorrir mesmo suportando o peso do fardo.
O fardo?
Sim, de ter nascido com o sopro divino no peito.
E eu que tenho sopro divino no peito!
Igual riso de criança pedindo confeito
Tenho sopro divino no peito.
Sopro
divino
no peito!

 


Pelas tabelas

Ninguém sabe da missa um terço
E quem se atreve a ter razão?
Distancias dialogais
Mais que conforto, estratégia…
Tanto desencanto
Mas não vale dar a face pra vida bater
Mantenha seu elo
Que já basta no peito uma vontade bigorna
E um desejo martelo.
Limpe o pensamento, acho que o tremor e até a parte que sai de mim.
Vontade que escorre não para,
Esses desejos tudo pedra que não dá pra furar…
Mantenha seus elos
Que já basta esse desejo martelo
E essa vontade bigorna!

 


Permear

Dizem dos corpos que deixam outros corpos passarem através de seus poros,
permeáveis.
Antes de questionar se toquem!
Para questionar
ou para tirar a dúvida se
ao menos você transpassaria.
Talvez gostaríamos tanto de ser impermeáveis
IMpermeáveis
Mesmo permeando por todos/ por nós/ por esses/ aqueles/ os outros.
Precisamos mais moldar?
Assim como as gotículas atravessam nossa pele ou como o toque que de transpassar
arrepia!
Imagina se tu se apaixonasse?
Que tal se apaixonar por você ?
Por ela?
Poderias transpassar pra tu
O que tanto derrama.

 


Deleite

Deleta-me de tua mente
deleta-me de nossos planos
minha mente em panos quentes…
Deleto-a-ti.
Deixa queimar as pontas dos dedos
para me soltar sem pena depois de tragar-me ao fim.
Por fim, me amassa, recolhe as cinzas
e limpa teu cinzeiro
até que não haja uma fagulha de mim.


Diver(cidade)

Texto de Eduardo Maciel


Olá, querides kurumateires!

Eu não poderia deixar passar batido o mês do orgulho LGBTQAIP+ sem vir aqui derramar algumas palavras sobre o tema com vocês. Não mesmo.

Não me considero um militante da causa, porque em caso contrário deveria ter uma agenda pessoal de engajamento específico nesse tema. Mas com certeza, por estar representado na sopinha de letras, me sinto compelido a falar algumas coisas sobre esse assunto.

Poderia começar frisando aquele clichê mais do que necessário que atesta que “orientação sexual não é uma escolha, mas o preconceito é”. Excelente começo. E tudo o que vem a seguir aqui no meu texto parte desse princípio.

Sou branco e privilegiado por ter tido acesso a muitas coisas que deveriam na vida ser garantidas a todos os seres humanos, mas infelizmente não o são. Por esse motivo, passei um longo tempo da vida não me achando no direito de me apropriar da voz das minorias, da periferia latu sensu. Confesso que ainda sinto um certo desconforto, já que a realidade nua e crua certamente é bem mais penosa para um monte de gente que eu sequer conheço. Porém, a empatia me aproxima. E no fim das contas todo mundo merece ser ouvido (ou lido), independentemente de qualquer coisa. E é com aquele clichê e essa última afirmativa que gostaria de ter a atenção de vocês.

Querendo ou não, sou uma pessoa exposta. Mas cismo em achar que não me exponho muito quanto a questões pessoais. Vai entender…

O fato é que sou gay assumido, casado formalmente com um homem que, além de ser meu marido, ainda me brindou com a possibilidade de conviver e exercer influência sobre duas crianças, meus enteados. Uma faceta das tantas e tantas famílias modernas das quais ouvimos falar, sobejamente nos últimos tempos. Porque o tempo não para, nem as evoluções sociais.

No entanto, me parece que, se por um lado nos grandes centros urbanos brasileiros a questão do convívio harmônico entre pessoas diversas seja algo mais difundido, o contrário ocorre nos vastos rincões desse Brasil de meu Deus.

Temos sim notícia de muitas atrocidades contra o povo gay (generalizando aqui) praticadas no ambiente das cidades, e é com base nessas ocorrências e incidentes que são materializadas pesquisas e estatísticas de ataques homofóbicos, transfóbicos e similares. E em cada caso concreto existe sim um cerne de absurdo nesse tipo de violência, seja ela física ou psicológica. Temos que enfrentar o problema e sim, precisamos do engajamento de TODES, gays ou não, em defesa dos nossos direitos humanos e portanto fundamentais. Essa luta está apenas começando, e dela não hei de me esquivar. Ainda que isso me exponha.

Agora me digam: já pararam para imaginar a sombra que torna invisíveis essas atrocidades em locais mais ermos, distantes dos centros urbanos?

Gente, podem acreditar: nesses lugares, a situação é MUITO PIOR. Caps lock hiper necessário. Por um lado, porque as vítimas sequer sobrevivem para contar a história. Por outro, porque quem sobrevive acaba tentando curar suas cicatrizes em casa, na penumbra e não raro escondidos até mesmo de seus familiares, por medo desse tipo de exposição. E todos esses casos de perseguição acabam não vindo à tona, e portanto sequer são contabilizados. 

Sem o registro do problema, como então dar visibilidade à homofobia interiorana? Como trazer para o debate essas maldades praticadas diuturnamente no campo, no interior? Como fazer com que essas pessoas tenham acesso a ferramentas de proteção ou reparação, às quais todos têm direito?

Vocês podem pensar: ah, é pra isso que servem as ONGs e demais entidades protetivas. Certo? Em parte. 

Há muitas organizações que tentam penetrar os ambientes mais longevos para legitimar para esses grupos sociais uma saída, mas que ainda assim não cobrem a totalidade dos casos. Nem perto disso.

E comparando as cidades com essas áreas, vemos o problema expandido em progressão geométrica.

Isso me tira o sono muitas vezes, e acho que alguém deveria falar sobre essa discrepância. Que seja eu esse alguém. Porque tal reflexão é de extrema relevância e urgência.

Acho maravilhosas as paradas e eventos (nesses tempos pandêmicos virtuais) que chamam a atenção da sociedade para a luta LGBTQAIP+. No entanto, já perceberam que essas manifestações só existem nas capitais?

Não deveria ser assim. Diversidade é bom para todo mundo. Diversidade faz uma soma se transformar em multiplicação. Diversidade une, não separa. E somos diversos por natureza. É uma questão de aceitação e consciência. Uau, então deveria transcender as barreiras de tempo e espaço!

Mas, infelizmente, não é isso o que acontece.

Qual a solução? Eu mesmo me faço repetidamente essa pergunta. Sem achar uma só resposta que resolva o problema. Creio que as respostas são várias, na verdade.

Mas de uma coisa tenho absoluta convicção: tudo começa a partir do momento em que descortinamos o problema. Quando falamos sobre ele. Quando refletimos a respeito. 

Por isso resolvi compartilhar esse texto com vocês, na esperança de acender aquela faísca, sabem? A faísca que é a gênese da ação, da atitude.

Pensem em como cada um de nós, que vamos passar uns dias em casas de praia ou campo, podemos fazer a diferença nesses locais. 

Pensem em como podemos indagar com conhecidos e afins, que estão inseridos nas periferias, sobre essa questão. Como podemos descortinar para essas pessoas invisibilizadas ao menos uma opção que não seja a morte, a perseguição, a violência, o bullying e o descaso.

E, assim, ampliarmos as geografias onde o “orgulho gay” se materializa. 

Estão de acordo? Precisamos acordar, coletivamente. Porque enquanto isso não ocorre, muitos de nós dormem sem saber se verão a luz do dia seguinte. Literalmente.

Fiquem em paz, cuidem de si e dos demais, e (se der), comemorem o fato de que não temos todos os mesmos desejos. Pois é justamente isso que nos permite realizar individualmente os nossos próprios desejos! 

Happy Pride para todes! 🌈🌈


Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa: O Mistério do Quarto Fechado

Texto de Fábio Fernandes


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Foi especificado um tipo de mídia inválido. (Erro=8200)

Você lê atentamente a mensagem de erro no browser do seu computador.

Mas não faz a menor idéia do que significa isso.

Depois de dois dias com trabalho atrasado e tentando reconfigurar sua máquina, você desiste de querer ser melhor que a máquina e liga para um técnico. Que vai te cobrar os olhos da cara só para uma visita de avaliação.

Você olha para a tela do monitor como se ela fosse uma tábua cuneiforme. Por fora, bela viola, por dentro, pão bolorento. Você não entende absolutamente nada do que existe dentro dela. É um mistério.

É assim que elas dominam o mundo.


Os circos do meu tempo

Texto de Toinho Castro


No meu tempo os circos exibiam pedras trazidas de vários planetas em pequenas gaiolas, ao lado de fora da lona colorida, muitas vezes expostas ao sol. Havia pedras até mesmo de Júpiter, que é basicamente composto por gases. “Essas pedras flutuam, ou boiam, por assim dizer, nos gases jupiterianos, que são por demais densos”, explicava-me o homem do circo, aquele que tomava conta das pedras.

Especulava-se, entre a meninada, que esse vasto homem havia recolhido pessoalmente aquelas pedras nas suas viagens extraplanetárias. Falava-se que ele falava muitos idiomas, alguns extintos, e que receberia os marcianos, em nome dos governos da Terra, quando eles, por fim, aqui chegassem. Não faltava quem duvidasse da origem extraplanetárias das pedras, que viriam de outros planetas, mas do cinturão de asteroides que preenche o vazio entre Marte e Júpiter. Num desses asteroides, o maior deles, estaria a cidade natal do nosso homem do circo, onde o seu povo ainda o esperava.

Muitas vezes, antes do espetáculo começar, víamos palhaços, trapezistas e domadores de feras observando as pedras, silenciosos. Às vezes com lágrimas nos olhos. Alguns davam as mãos ou recostavam a cabeça no ombro de um companheiro de picadeiro. Em certos dias pares nos era permitido tocar nas pedras, e as tocávamos com as mãos trêmulas. Depois corríamos para o homem do realejo, para tirar a sorte e saber dos destinos que se abririam para nós… porque havíamos tocado as pedras.

Éramos jovens, efémeros, e aquelas pedras, eternas, ainda estariam encantando e confundindo outras crianças, dali a duzentos, trezentos séculos. Seu guardião, ele mesmo como uma velha rocha, a mirar a passagem dos dias e o trânsito sem fim de curiosos e ladrões. Lembramos sempre do nosso vizinho, Aqbar, que roubou uma das pedras de Netuno e nunca mais foi visto. Dizem que enriqueceu, dizem que os netunianos vieram buscá-lo e hoje ele vaga através da densa neblina azulada que assombra as poucas cidades do hemisfério sul do planeta, onde não entendem sua língua.

Hoje sei que há um mercado negro de pedras planetárias, sei que pessoas morrem ou desaparecem. Sei que, de alguma forma, sou diferente por tê-las tocado na minha infância. Hoje também sou um itinerante, um vagante… quando estou numa cidade e descubro que o circo chegou, arrumo minhas poucas coisas e parto. E trato de nunca mais ser visto ali outra vez.

Cedo ou tarde as cidades se esgotarão na minha fuga, e um dia, na última cidade, estarei diante das pedras, no último dos circos.


Dois anos dessa estranha melodia

Texto de Toinho Castro


Quando, em fins de 2019, o Spotify me enviou aquela geral com as músicas que mais escutei naquele ano, todas as músicas do disco Estranha melodia, da Livia Nery, estavam entre as primeiras da lista.

Em setembro eu tive a oportunidade de acompanhar de perto o querido Festival Levada, graças ao amigo e parceiríssimo Jorge Lz. Alguns shows, concorridos, aconteceram no LabSonica, do Oi Futuro. Um espaço especial, em que a apresentação acontecia dentro de um aquário, uma espécie de estúdio, com uma parede de vidro separando artista e a pequena plateia. Uma arrumação curiosa, que eu não sabia se daria certo. E deu.

Chegamos lá para ver a Livia Nery, artista de Salvador que estava ali justamente para lançar o Estranha Melodia. Eu não sabia nada sobre o trabalho dela e tudo que escutei ali, a energia que emanava de dentro daquele estúdio, me impactou imensamente. Livia redimensionou o espaço do Labsonica, com sua voz cristalina e a força e qualidade irrepreensível de sua música. O repertório era basicamente o disco. De uma lindeza, não vou dizer rara, afinal o Brasil é mesmos rico de talentos assim, mas peculiar, inesperada.

Saímos dali carregados na leveza daquele cancioneiro, que enveredava pelo Brasil profundo, sem se furtar ao moderno, ao eletrônico, não só como flerte, mas como costura do trabalho. Saímos dali impressionados e fomos, beber à potência dessa música. Estávamos eu, Raquel, minha companheira, Jorge e própria Livia e sua mãe, Zidi! Daí surgiram laços de amizade e um respeito enorme pelo trabalho da Livia. Que só cresce.

Éramos só alegria e não imaginávamos o que 2020 nos reservava.

Estranha Melodia tem sido um grande companheiro desde que o mundo desabou sobre nós. Um disco de audição recorrente. E hoje, 7 de junho, de 2021, essa joia completa dois anos. Completa dois anos com o país em quarentena, devastado e atravessando dias escuros. Estranha melodia fornece a luminosidade necessária pra gente enfrentar essa pauleira cotidiana. Acredito que é um disco que tem seu lugar reservado nessa história bonita da nossa música.

Nesse instante ele tá aqui no play, com seu lirismo, sua cadência, com seu Brasil acima e melhor que isso que tá aí. Tocando com sua empatia, a nos dizer “Aumente o som”.

Esse texto é uma pequena comemoração desse disco, porque gosto demais dele. Gosto da Livia, da Zidi, tão querida, do Jorge (e da Aline Falcão com seu talento aos teclados, que enriqueceu o Estranha melodia, e seu riso que não falha!). É uma comemoração pessoal, desses grandes encontros que a vida proporciona. Nessas horas dá saudade do mundo pré-pandemia, e nos vem, de algum modo, a certeza de que vamos recuperar o que nele havia de bom.

“Deixa o sal limpar, deixa o sal limpar”

Hoje Livia nos surpreende com a bela Superego, uma música inédita, que ficou de fora do álbum que agora é revelada. Que presente! Vamos escutar e compartilhar com as amizades.


PS. Nesse mesmo dia do show da Livia, conhecemos a talentosa e querida demais Caru! Outro grande encontro, de gente que vem pra ficar! Um dia e tanto!


“é preciso esperar um milagre / para se ter algum controle” — a poesia de Claudia Schroeder em As partes nuas

Texto de Toinho Castro


Que pode haver de maior ou menor que um toque?
Walt Whitman

Li numa entrevista da Claudia Schroeder que os poemas que compõem seu livro As partes nuas, lançado em maio passado, foram escritos nos últimos quatro anos, sem intenção prévia de formarem um livro. Isso muito me impressiona, dada a coerência e fluidez das páginas que ando lendo e relendo nesses dias.

As partes nuas é um livro muito bonito. É tentador associar a ele todas essas palavras que nos surgem no pensamento quando se trata de poesia… lirismo, ternura e afins. Quero evitá-las.

As páginas que Claudia Schroeder alinhou no seu livro são finamente costuradas. Tudo faz sentido e somos levados de poema a poema com naturalidade. É quase um romance em versos. Estamos acostumados à ideia do romance enquanto prosa, enquanto fatos encadeados. Mas esse pequeno livro, leio como a história de uma mulher. Não há linearidade porque todos os caminhos se cruzam. As percepções estão enlinhadas e o corpo, o corpo da poeta, e da poesia, não é sólido.

Essa relação ‘poesia / corpo’…. acabei por encontrá-la na primeira frase da apresentação do livro, escrita pelo poeta português, a quem muito admiro, José Luís Peixoto. “Os poemas são corpos”, diz ele. Costumo deixar as apresentações e prefácios para o final, e com esse livro não foi diferente. Encontrar essa frase reforçou meu sentimento do poder físico desse livro, que me acompanhou toda a leitura.

Sim, são poemas do corpo. Ou corporais, o que não exclui a alma. Corpo da mulher, da poeta, mas também do leitor, marcado pelas suas próprias experiências; pela própria sexualidade e memória. Memória do corpo.

Que esse livro, As parte nuas, tenha sido publicado agora, em meio à pandemia, à ruptura dos distanciamentos, das máscaras e da assepsia, é de enorme precisão. Uma leitura que cai certeira, a nos recuperar como gente. Dores, prazeres, amores, cheiros, a velhice, a pele, o sexo, as bocas, os medos. Lista infinda do que é uma criatura no mundo. Eu não conhecia o trabalho de Claudia. Alegro-me em conhecê-lo aqui e agora.

Escrevo e o livro está aqui ao meu lado. Lá no começo disse que As partes nuas, era um livro bonito. Isso vale também para o objeto físico. Uma bela edição da querida e histórica Francisco Alves. É uma arte gráfica que me surpreendeu. O formato, o projeto/diagramação, a arte de José Bechara tão bem trabalhada em todo o contexto de livro. A vontade física de tocá-lo, segurá-lo.

As partes nuas evoca nossa existência, tecida de encontros e toques, desfiada pelo corpo e pela alma, essa testemunha do corpo.


Notícia boa em tempos difíceis: Lançamento da revista cassandra

Hoje é um lindo dia! Entra no ar a revista cassandra, uma revista feita por mulheres. Esse morte é importante, necessário, e aqui na Kuruma’tá é uma felicidade compartilhar isso com nossa comunidade. Cassandra é, na verdade, mais que uma revista feita por mulheres. É uma revista feita de suas vozes e origens, suas artes e literaturas. Sua resistência. Sim, porque cassandra é, necessariamente, um espaço de resistência nesses dias que atravessamos.

Pra gente, aqui na Kuruma’tá, cassandraé uma companheira e apostamos nas muitas trocas que faremos, para fortalecer a rede de cultura que cresce a cada dia.

São doze mulheres na organização da revista: Milena Martins Moura (colaboradora da Kuruma’tá, com seus poemas), Cecília LoboPriscila BrancoGabriele Marques e Beatriz Rocha . Junto com elas, outras sete mulheres participam como colunistas Ana Yanca Andreza AndradeCamile VeigaChristy Najarro GuzmánGianna L. C. , Luzia Rohr e a editora da Revista DesvarioThainá Carvalho

Editoras e autoras da Cassandra

Assista ao vídeo de lançamento da cassandra no Instagram da Revista!

“Toda mulher é um grito.
cassandra é um grito.”


A colonização

Texto de Toinho Castro


I

Depois de meses de obras, não sem alguma polêmica, o Matadouro Público abandonado é agora, oficialmente, um centro cultural que transforma o nosso bairro num pólo gerador de arte, cultura e entretenimento para a cidade. O que ninguém sabe, exceto eu e um restrito grupo de amigos, é da verdadeira vontade por trás dessa singela inauguração com direito, diga-se, a autoridades e jornalistas.

Sabemos, há muito, que eles estão entre nós mas não fazíamos ideia das suas estratégias de colonização. Agora tudo está claro e a verdade é terrível. Estamos sendo colonizados por uma raça alienígena construtora de centros culturais.

O mecanismo e as consequências desse obscuro movimento são mistério. e nossos líderes políticos já são joguetes na mãos dos alienígenas de outro planeta, cedendo cada vez mais espaços públicos para seus propósitos de conquista. Secretamente avançam na hierarquia das instituições e têm acesso a números e dados que completam suas agudas e seculares observações do nosso planeta. Estão nas bibliotecas e escolas, muitos dirigem nossos ônibus e assim descobriram que a arte é o caminho mais rápido para nos conquistar. Vemos então as filas aos domingos para ver exposições de grandes pintores e as crianças inocentes participando das oficinas de argila e socialização.

Por trás de tudo estão os raios selenitas e marcianos. Pinturas e esculturas emitindo sinais vertiginosos para cada mente. Logo, a cada novo centro e a cada nova exposição, tudo estará controlado. Um mundo de apreciadores de arte e cultura, cultivado por seres estranhos. Um dia eles farão a colheita e todos os centros culturais entrarão em sintonia, monitorando vastas regiões do planeta. Seremos presas fáceis.

Estamos deixando o bairro ainda hoje, no meio da noite para não levantar suspeitas. O antigo Matadouro Público fica a duas quadras daqui. Não passar por ele significa dar uma grande volta e não cruzar a ponte, que abrevia os caminhos. Soube que ontem já ostentava grandes cartazes anunciando uma monumental exposição de Salvador Dali e a performance de um artista performático local. Vamos tomar o caminho mais longo e evitar que as crianças sejam monitoradas pelos raios selenitas, pelos raios marcianos. Artista performático local, era só o que faltava. Estão indo longe demais.

II

Acabei de voltar do parque e está cheio de esculturas. A imprensa está lá, como sempre, e há guardas para impedir que algum vândalo ou louco as danifique. Os loucos sabem tão bem quanto nós o que está se passando. Tentei estudar o posicionamento das peças para entender sua configuração e que tipo de raios estão emitindo, mas não quis me expor demais às radiações artísticas e voltei para a hospedaria. Havia comentários de que, ao cair da noite, haveria um concerto de música barroca, e pessoas embevecidas já circulavam por lá com cara de que gostavam de música barroca.

Vítimas, vítimas inocentes.

Acreditamos que eles têm pressa, que eles querem mais e não vão parar. Os centros culturais se multiplicam e quase já não há para onde fugir. E também não queremos deixar a cidade. Devemos ficar aqui e procurar meios para neutralizar os efeitos dos raios. Devemos interceptar amigos e conhecidos a caminho de uma mostra de filmes e desviá-lo para uma pescaria ou uma cerveja numa esquina qualquer. Vamos agindo assim, sabemos que cedo ou tarde, no fim de semana seguinte, talvez, ele vai acabar indo ver a tal mostra ou a exposição itinerante do Dalí. Porém, de alguma maneira, atrasamos o golpe final por mais uns dias, atrapalhamos o plano perfeito que eles elaboraram.

Nosso objetivo não é mais ganhar essa guerra perdida, mas morrer em plena luta. Ou morrer como agentes secretos, incógnitos e heroicos. E inúteis.

Impressionante a quantidade de coisas que já deixamos para trás, fugindo. Isso deve ter algum valor no combate, deve criar algum efeito nas máquinas que certamente funcionam nos porões de cada centro cultural que eles conseguem inaugurar. Algo naqueles chips alienígenas deve falhar porque insistimos, porque lutamos até o fim das nossas alternativas.

O parque agora é um local proibido. Não podemos mais cortar caminho por ele para ir ao supermercado e assim os nossos caminhos se tornam mais longos a cada dia. Logo estaremos ilhados. Comprei protetores auriculares para barrar as ondas magnéticas do concerto de música barroca. Amanhã, porém, não poderemos evitar os comentários da vizinhança, do quanto tudo foi belo e educativo e da importância da música barroca para as novas gerações.

Eles estão por perto, eu sei, anotando tudo. Nada escapa às suas observações. Isso os ajuda a programar os próximo eventos e a investir em certos artistas ou mesmo movimentos. Seguimos tentando atrapalhar, com opiniões dissonantes, contraditórias e arrumando discussões em mesa de bar por afirmar que lugar de música barroca é no século XVII. Acabamos criando desavenças com os vizinhos; e não frequentar centros culturais é péssimo para nossa imagem. Mas, como eu já disse, não estamos mais nem aí. Perdemos a guerra; estamos fugindo e deixando campos minados para trás.


Artistas morrendo. Mas e o emprego?

Texto de Eduardo Maciel


Olá, kurumateires amados!

Tenho falado muito nos últimos tempos sobre o tsunami devastador dessa mal gerida pandemia e da falência econômica brasileira sobre as artes e a cultura. Pobres artistas. A gente que lute.

Enquanto luto, tenho empatizado muito com o pessoal que está entrando no mercado formal de trabalho (fora das artes) e que hoje precisa lutar também. Principalmente para traçar planos, nesse momento sombrio e bizarro.

Brasil com taxas altíssimas de desemprego. Taxas ainda mais altas de desalentados (confesso que ainda não me habituei com esse conceito). Muita oferta, baixa procura. Adam Smith (que Deus o tenha em bom lugar) já nos dizia que isso quer dizer que o valor/hora/trabalhada tende a uma curva decrescente.

Daí alguém quebra o silêncio e grita:

MAS EU VOU ME FORMAR!!! E AGORAAAAA?

Antes de desanimar totalmente, tenha um plano. Vou resumir um plano que acho coerente. Temos 3 macro setores de mercado para atuar: 

A) INDUSTRIA

B) SERVIÇOS 

C) COMÉRCIO 

Momento de me jogarem pedras, por não ter mencionado as techs, unicórnios e similares. Aceito as pedras, mas foi proposital. Nem todo mundo consegue ter acesso a esses portais de dimensões mais modernas…

Fez sentido? Então vem! Por onde começar a buscar entre essas 3 opções? Partindo da premissa de que esraremos sempre buscando equilíbrio de vida, indico a seguinte ordem: B, A, C. Serviços, Indústria, Comércio. Busque oportunidades nessa ordem, se desejam experimentar um pouco de tudo, acumulando o máximo num tempo mínimo. 😃😃. Já me explico:

  • Se você se dedicar em uma consultoria sendo jovem, no início da trajetória, vai começar com pouco no bolso mas terá a segurança de um plano de carreira (me refiro às grandes consultorias). E vai se expor a diversos clientes, diversas realidades e oportunidades de aprender e ser valorizado por isso. Coisa de criar raiz mesmo.
  • Depois, acho bacana tentar exercitar o outro lado da moeda: estar numa grande indústria de base e começar a contratar consultorias para te dar aquele tipo de apoio que você costumava dar lá no início.
  • Aí é cair no comércio, preferencialmente num grande varejo, para que tudo acabe fazendo sentido: você precisa prestar o melhor serviço, e lidar com processos produtivos!

Eu sei. Mencionei o adjetivo GRANDE para me referir às empresas em cada etapa, na ordem que vejo ser vencedora.

Sei também que lá no início falei sobre as dificuldades de se inserir no mercado.

Como assim?

Antes de entregar a sua carreira, que você está começando agora, a um tiroteio de currículos rezando pra algum germinar, trace para si um caminho, um sonhar grande dentro de um grande possível, e se dedique.

Busque pessoas e peça ajuda (mostrando o seu potencial, claro), tenha coragem e ousadia, e persiga o seu objetivo, sem jamais se desviar do seu propósito nesse mundo. E se der medo em algum momento, me chama no privado. Ninguém larga a mão de ninguém!

Por favor compartilhe as dicas com todos os jovens cabisbaixos que estiverem ao seu alcance. 

Afinal: o que é o escuro senão o segundo que antecede a luz…

Até breve…