Na semana passada fez um ano que perdemos essa força humana, cultural, chamada Sérgio Ricardo. Cantor, compositor, escritor, cineasta, poeta, artista plástico, contador de histórias, testemunha atenta e afiada da vida brasileira ao longo de décadas em que não parou de produzir e desafiar o senso comum, com uma arte multifacetada, complexa e bela.
Já contei aqui na Kuruma’tá algumas histórias da presença de SR na minha vida, como menino brasileiro, morando numa casa em que a música brasileira tocava todos os dias e nos alegrava e nos levava a pensar, na vida, nos rumos do país, a pensar em quem éramos no meio de tudo que vivíamos. SR estava lá com a gente, nesse redemoinho de dias e noites, na vitrola, no rádio, na voz de algum anônimo, violão em punho, num bar de Olinda.
Na semana passada, deu-se um ano de sua morte. Eu quis escrever algo e nada me veio, mas escutei seus discos e tratei de ler seu livro O Elefante Adormecido, recebido há pouco pelo Correio.
Mas algo muito bom se tramava no mundo, e nesse dia, 23 de julho, seus filhos, Marina Lutfi e João Gurgel, lançaram, respectivamente, suas versões de duas grandes obras do pai e mestre. Marina com Barravento e João com Conversação de paz.
Marina, João e Sérgio Ricardo
Com sua voz que me encanta, Marina desfia Barravento com a um rosário, rezado na beira do mar. A canção, que saiu no disco Um Sr. Talento, de 1963, vai chegando aos seus quase 60 anos com arranjos e interpretação que dá vontade de dançar, mas no seu centro Marina imprime ainda o chamamento ritualístico que a composição carrega. E tem ainda a voz de SR, num contracanto que emociona.
João nos surpreende com Conversação de paz, originalmente lançada no disco Arrebentação, de 1971, numa escolha de fina ironia, música oportuna como poucas pra esse Brasil que não conversa mais. Moderníssima, bem humorada e contagiante. Um verdadeiro espaço de invenção, em que João se solta com leveza! O clipe, dirigido por ele, chama a atenção para o quanto a obra de SR é carregada de ferça imagética.
Não sou, de longe, crítico musical. Sou mesmo um bom ouvinte, desses que se delicia com coisas assim. É uma maravilha botar essas duas faixas pra tocar, assim, um depois da outra. Inverter depois a ordem e ouvir de novo e sentir como, as duas, sintetizam tanto da vasta obra de Sérgio Ricardo. O lançamento de ambas no dia de aniversário da morte do pai, é uma homenagem e tanto. Mas, mais que homenagem, vejo a afirmação de dois artistas, da coragem de suas escolhas para suas carreiras, sem medo algum do legado enorme de SR.
Marina e João, irmãos, são memória viva, continuidade e expansão desse legado, mas também originalidade, artistas contando sua própria história. No segundo semestre ambos lançam seus discos… tô aqui ansioso por caminhar nessas duas trilhas que já se abrem belamente. Há algo de promissor demais no ar.
Mais um livro de poemas de Carlos Cardoso me chega Às mãos. Sol descalço (Editora Record), lançado nesse ano de 2021, é mais um sopro, mais um alento, em meio à confusão, ansiedade e tristeza que se vive num Brasil devastado pelas perdas contínuas da pandemia. O livro é um breve volume, com 71 páginas, de uma poesia que aprendi a apreciar desde seu primeiro livro que li, Melancolia, de 2019, premiado como melhor livro de poesia de 2019 da APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte.
Mas não olho pra prêmios… eu olho para a poesia. Para o poeta.
Leio na primeira linha da apresentação de Italo Moriconi, que este é um livro que chega em boa hora. Não poderia concordar mais. Sou avesso a ler prefácios e afins, mas diante do nome de Italo Moriconi, cedi. O que mais eu poderia dizer sobre esse livro, que fosse além da delicadeza e precisão das palavras do Italo?! Muito bem recomendado, é um livro que chega ainda com uma orelha escrita por Marco Lucchesi.
Cabe a mim então, modesto leitor num apartamento em Vila Isabel, dizer que reencontrar ao trabalho do Carlos Cardoso nesse livro, é um prazer literário, raro. Navego de poema a poema, página a página, com naturalidade, pois essa poesia, não porque seja fácil, mas justamente pelo desafio de um trabalho elaborado, que cria uma tessitura de palavras, que vão se sucedendo, puxando o fio de significados inesperados ao longo dos poemas.
Vou lendo e me surpreendendo. Vou lendo e despertando para as imagens que são como construções surrealistas, pela associação do inesperado a cada verso. Muito gratificante a leitura de Sol descalço, para quem quer que ame a poesia e busque pela linguagem madura, depurada, trabalhada com delicadeza e ao mesmo tempo ousadia.
E o que eu gosto é que há uma musicalidade nesse livro, que abre com um chamado altivo… “Que caia o amanhecer”, para depois trazer uma canção. Brincando alinha os versos
Talvez as palavras me fujam e eu me disfarce de poeta, o silencio é minha casa e a construo em linha reta.
Talvez as palavras me fujam e eu me disfarce, cortejante, o silêncio é uma pedra e a chamo diamante.
Talvez as palavras me fujam e eu me disfarce de criança, o silêncio é meu pecado, e meu verso, a esperança.
Talvez as palavras me fujam e eu me disfarce, assim, amando, o silêncio é minha arte e o criei assim, brincando.
uma beleza que vai se confirmando a cada poema. Li também na apresentação que alguns poemas seriam da primeira lavra do poeta, dos temos de sua adolescência mesmo, o que torna o livro ainda mais precioso e instigante, nos permitindo traçar o percurso do poeta, que talvez seja, ele mesmo, um sol descalço em sua trajetória ou liturgia.
Felicidade grande esse livro nas mãos. Prezo demais a força poética de Cardoso. Muitas vezes não entendo o que estou lendo mas sou carregado, não pelo significado possível, mas pelas cadências, pela suspeita permanente do algo mais, do algo além, pela certeza de sua ligação íntima com o mais humano em nós.
“O poema começa” – Luna Vitrolira em livro, disco e filme
Há tempos que tô pra falar desse disco. Quando um disco assim é lançado a gente fica doido pra comentar algo imediatamente, mas tá difícil dar conta das vontades com os nós cegos que a falta de tempo anda dando na gente, né?! É o corre-corre das mensagens no zap, das redes, das demandas do trabalho, das urgências sabe-se lá de quê! Correr pra onde? Correr de quem?! Na falta de uma resposta decente…, corra pro disco da Luna Vitrolira.
Tô atrasado nesse conselho e talvez você já esteja lá, grudado nas faixas de Aquenda – O amor às vezes é isso. E aí você já sabe do que tô falando, da coisa poderosa que é esse disco, e da experiência humana que é escutá-lo. Sendo humanos, nosotros, que outra experiência poderia ser?! Pois falo da experiência humaníssima de escutar a outra voz, que não a sua própria voz, ou dos seus. E o que carrega essa voz.
Conheci Luna tempos atrás, no Recife, por conta de um trabalho em comum. Nos encontramos no numa cafeteria no Recife, no Cais do Imperador. Veja só, século 21 e a gente se encontrando, em pleno Brasil república, no Cais do Imperador. Ter um cais no Recife assim batizado, diz tanto da importância de se debruçar sobre o trabalho de Luna, tanto poético, quanto musical, ainda que a separação entre essas duas coisas seja ilusória, dentre tantas coisas ilusórias que aceitamos confortavelmente. E daí o sangue que esse país ver escorrer diariamente.
Levantar adjetivos sobre o trabalho de Luna é falar bobagens, é outra saída fácil. A poesia de Luna é um chamado, não só pela sua escuta, mas também para que você, ou eu, ou quem quer que seja, não mais se cale diante de tudo que a gente cala. Trem carregado de coisas coisas amargas, mas com um amor subjacente que alinhava a luta. Lutar contra o ódio, o machismo inerente à história mundial, contra o racismo, a violência que arrasta mulheres, e tantas outras pessoas fora do esquemão homem-branco-hétero, à morte, ao medo. Lutar contra tudo isso é ato de amor. Amor, às vezes, é isso.
Há algo forte de esperança na poesia de Luna e sua música. Algo que é a própria existência dessa poesia e dessa poeta, dessa coisa caudalosa, da qual não se pode ficar à margem, admirando… que ninguém precisa disso. Você, hoje, poder abrir um livro publicado por Luna, ou ouvir seu disco nas tais plataformas, é uma afirmação de esperança em ventos outros. De tempos outros, que virão. Tempos que esse trem, do qual falei antes, também vem carregado.
Musicalmente o disco arrasa. É coisa nova, fresca, vibra na frequência precisa. Eletrônica ancestral de múltiplas influências e fluências. Não enquadre! Não parece com esse ou aquele. Na base está o ritmo de Luna, métrica livre que dita o rumo dos sons. Imagino essa cena, Luna caminhando, avançando no seu gesticular, e à sua volta esse redemoinho sonoro, a erguê-la, artista, negra, mulher, senhora da palavra. É disco de poeta? De novo, defina não! É pra escutar. É pra dançar, é pra ser uma coisa boa. Ajoelha e reza, amizade!
Eu queria muito um LP bonitão desse disco, porque nele tudo é muito físico. É o corpo no comando, com sua vivência, de sofrimento, gozo, memória física da história do Brasil, das travessias, desembarques, grilhões, trens lotados, fábricas extenuantes. Corpo que apanha, que dói, que foge e mas que se acolhe em si mesmo, se resgata na dança, no rito. Lembro de ter visto uma apresentação poética da Luna, lá no Teatro Hermílio Borba Filho, no Recife. E de como ela ocupa o espaço com tamanha beleza e verdade. A poeta.
Mas ela não é a poeta que fez um disco. É a artista, que navega do livro pro disco, pro filme Sim! tem o filme Aquenda!); da fala recitativa pro canto, que é fala também; do canto pra coreografia do corpo que tem que se virar no labirinto do país racista, machista e violento. Diferente do livro, o disco é produto de muitas sensibilidades. Sim, o livro também pode ser, a seu modo, mas o disco tem essa natureza mais diversa de contribuições e o disco de Luna é rico nesse sentido, com grandes contribuições, como a produção e arranjos e piano do gigante Amaro Freitas, e gente linda do quilate de Pupillo, Lirinha, Lucas dos Prazeres, Hugo Medeiros, Junior Cabral, Xênia França e as poetas Roberta Estrela D’Alva, Mel Duarte, Cristal, Tatiana Nascimento, Bell Puã e Bione. Constelações nessa noite que paira sobre o país. Guias.
Luna Vitrolira, com seu trabalho potente, abre passagem e deixa rastro. Não fiquemos alheios ao talento e à dignidade dessa poeta.
PS. Batizo agora o Cais onde a conheci, o Cais do Imperador, como Cais de Luna! Chega de imperadores.
Sim, tem mais! É o filme Aquenda – O amor às vezes é isso, que completa essa odisseia incrível dessa artista corajosa. Eu disse completa?! Acho que é mais expande, transcende. Mais que um trabalho completo, encerrado, a poesia de Luna é porta aberta e convite. Leia o livro (Atenção! Ela também participa da antologia 29 poetas hoje, organizada pela Heloisa Buarque de Hollanda!), escute o disco e veja o filme!
O curta-metragem “Aquenda – o amor às vezes é isso”, cuja trilha sonora são 7 faixas do disco e 1 faixa inédita (águas espessas), integra literatura, música, performance e cinema. O filme dirigido por Gi Vatroi e Aida Polimeni aborda o trajeto de cura, libertação e retorno de Luna Vitrolira para o encontro com sua ancestralidade, através de rituais de cura, da ressignificação da ideia romântica de amor e da cosmificação do espírito. A narrativa se passa em um engenho situado numa região canavieira em Pernambuco, para onde a personagem volta em busca do entendimento de suas origens, identidade e memória, conduzida pelo desejo de reconstruir a sua própria história.
“A idealização do filme surgiu a partir do desejo de um conteúdo de impacto visual que representasse a potência do disco, trazendo junto a narrativa do trabalho, com o objetivo de convidar o público a acompanhar a personagem em seu trajeto de busca por sua memória ancestral, a partir do amor enquanto mote para dizer sobre a nossa liberdade. Nesse contexto, o engenho representa um território de poder, domínio, submissão e apagamento, aspectos que caracterizam o projeto político colonial do ocidente e repercutem, há séculos, em diversas camadas da estrutura de nossa sociedade, inclusive em formas disfuncionais e violentas de cativar, estabelecer vínculos e compreender afetos, o que acontece, geralmente, a partir da reprodução da ideia de posse e opressão, quando o tema é “amor”.
— Texto original da postagem do filme no YouTube.
#NowPlaying Niu Uêive
Texto de Fernando Vasconcelos
#NowPlaying Tava aqui fazendo a timeline da Niu Uêive brasileira, esse fenômeno fonográfico da juventude bem nascida branca do sul que passava férias nos EUA naquele tempo que não existia internet e dominou o nosso pop anos 80 e, ainda antes do grande Júlio Barroso 1953-1984 causar com a banda Gang 90 e As Absurdettes meio B-52s (mas Júlio dizia que a inspiração era mais pra Kid Creole and The Coconuts e Gang ele tirou do Gang of Four) no MPB Shell Globo 1981 com Perdidos na Selva, quando voltou de NYC, onde chegou a ser DJ do C.B.G.B. e de onde trouxe as garotas Alice Pink Pank e Mae East, ufa pausa…
…em meio ao mar de cantoras brasileiras fazendo a linha cantora chique de barzinho ou musa emepebê, gravadora WEA lançou apenas como Marina a gatinha carioca Marina Lima em 1979 com um visual sexy hetera roqueira remetendo mais à Joan Jett, Debbie Harry, contemporâneas da new wave lançada na segunda metade dos anos 70 nos EUA. Marina, que passou a juventude na Califórnia, voltou para se lançar no mercado musical, talentosa compositora junto com o irmão Antônio Cícero. O disco nada roqueiro emplacou médio, abria com versão para Solidão de Dolores Duran e acho que Transas de Amor fez sucesso nas rádios talvez trilha de novela.
A nova gravadora Ariola bancou o segundo disco com o single Nosso Estranho Amor feat Caetano Veloso que fez um sucesso fenomenal, abrindo espaço pra Marina gravar o terceiro e mais autoral Certos Acordes, que acho uma pequena joia e tenho até hoje o vinil. De Charme do Mundo a Avenida Brasil, a perfeição pop com arranjos foda. Parei de acompanhar por aí mas estava apenas começando o sucesso de Marina Lima.
Voltando à Niu Uêive brasileira, a Blitz (nosso B-52s tropical) estourou primeiro em 1982 e a Gang 90 gravou em 1983 o fundamental álbum homônimo, o único com Júlio na formação, entrando em abertura de novela global, com a ajuda amiga de Cazuza, filho do dono da Som Livre, com a ótima Nosso Louco Amor. Telefone foi outro grande hit do álbum que tinha até uma versão de I Know But I Dont Know do Blondie. No estúdio de gravação, a banda contou com o baterista Gigante Brasil e o baixista Otávio Fialho, que tocavam com Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção, da brilhante vanguarda pop paulistana de 1980. Júlio Barroso, conhecido como o “marginal conservador” pelas roupas à David Byrne que usava, morreu em 1984 aos 30 anos, caindo da janela do apê onde morava em SP, quando enfim a Gang 90 via sucesso e dinheiro e várias bandas de pop rock estreavam no Brasil.
https://www.youtube.com/watch?v=knay1whxxHs
https://www.youtube.com/watch?v=snbLVpcw-kU
p.s. depois solto um post das várias bandas do rock brasileiro mainstream que pipocaram a partir de 1984 na rabeta da New Wave gringa que já era meio passado.
Golpe de vista – Filme ensaio de Michel Schettert
Dica de Toinho Castro
Golpe de vista é um belo trabalho do cineasta Michel Schettert que precisa ser vista por quem ama o cinema, porque quem tem o cuidado de acompanhar a história do cinema brasileiro, sobretudo quando envolve o Cinema Novo e figuras como as de Glauber Rocha e Anselmo Duarte. É sobre essas duas grandiosidade da nossa sétima arte que Michel se debruça, tendo como vórtex, a realização do primeiro, e único, até agora, filme brasileiro ganhador da prestigiosa Palma de Ouro, no Festival de Cannes: O Pagador de Promessas (1962).
Se, enquanto ensaio, Golpe de vista analisa o entrechoque Glauder/Duarte e sua reverberação no cinema brasileiro, enquanto filme produz uma narrativa por demais poética, numa acertadíssima edição sobre imagens de arquivo. E há, ainda, numa espécie de pontuação a centralidade da câmera. De Dib Lutfi.
Anselmo Duarte permanece como um grande realizador e olhar para seu cinema, revisitá-lo, é necessário pra fazer, não só cinema, mas qualquer arte no Brasil. Golpe de vista é uma oportunidade cristalina desse olhar. Um filme curto, com muitas camadas e vieses, que merece ser visto mais de uma vez.
E você pode assisti-lo agora e tirar suas próprias conclusões e abrir seus próprios caminhos, no CINELIMETE:
A convite do Cinelimite realizei este filme ensaio para a retrospectiva sobre Anselmo Duarte, primeiro cineasta brasileiro a ganhar a Palma de Ouro em Cannes. Pesquisei muito sobre a carreira dele, lendo sua biografia (coleção Aplauso), escutando sua entrevista (Museu da Imagem e do Som) e analisando acervos de imprensa. No recorte que fiz, achei que a encrenca com Glauber Rocha não poderia passar batido e o desencontro com Dib Lutfi também não. Mas para além disso, devo dizer que Anselmo Duarte foi um apaixonado pelo cinema e resistiu à entrada da televisão nos anos 1960. Ele investiu tudo o que tinha para continuar fazendo filmes, mesmo sendo diminuído pela turma do Cinema Novo. Vereda da Salvação (1965, mesmo ano de O Desafio, de Paulo César Saraceni) é o símbolo de sua transformação estética, na qual a câmera assume uma mobilidade jamais esperada para a época. Este filme infelizmente foi censuradíssimo, tanto pelo governo quanto pelos colegas de profissão, mas que valeria a pena ser restaurado só pelo fato de apresentar questões sobre a fé.
Viva Anselmo Duarte, Glauber Rocha e Dib Lutfi! Este ensaio fílmico é para vocês.
Uma carta para Manoel de Barros
Sempre, na Kuruma’tá, essa alegria de receber colaborações espontâneas de gente de todo o Brasil. Hoje abrimos nosso espaço para o escritor, professor universitário e jornalista Alessandro José Padin Ferreira, que nos traz uma bela crônica dedicada ao poeta Manoel de Barros. Bem-vindo à Kuruma’tá, Alessandro!
Crônica de Alessandro José Padin Ferreira
Não reli nenhum dos seus poemas ontem, quando fui dormir pensando em você. Só lembro, nesta minha memória falha que erra até o Hino Nacional, que você entende o canto dos passarinhos, o dançar da terra sob os pés e a beleza de folha balançando em frente à janela, mesmo que não haja flores.
Os passarinhos daqui foram embora lá pra floresta. Aquele vermelhinho, então, nunca mais vi. A terra, coberta pelo concreto, e as flores são, como sempre, resistência. O dia não começa com o som da brisa que vem do mar, tentando acalmar as urgências da rotina. É com o som tonitruante das estacas que lembro onde estou e que tudo pode ser mais duro.
Quando escrevo, mais um caminhão dá uma freada violenta e o rugir do motor reforça minha impotência. Devo ir embora? Não sei. Estou tão cansado e andar por aí pode ser perigoso. Até o sorriso gratuito, que gosto de dar para desconhecidos embrutecidos, é censurado pela máscara que raspa minha barba e me faz sentir pequeno diante de tudo.
Deu uma vontade danada de ler um poema seu agora, para lembrar da minha humanidade e de que nem tudo são ambição e cifras. Deu uma vontade danada de dançar sob a terra, imitar os passarinhos, distribuir flores para os funcionários da obra levarem, com um pouco de ternura, para as suas amadas nos barracos da vida.
Deu uma vontade imensa de ser ridículo aos olhos de quem se acha normal, pois, nesta etapa da vida, concluo que são os ridículos que fazem tudo valer a pena. Aqueles que riem de si mesmos, que não usam guarda-chuva, que tomam café sem açúcar e que param na esquina para ver a goiabeira da infância.
Manoel, hoje é quinta-feira, dia dos Caboclos. É dia de tomar banho de ervas. Alecrim, Aniz Estrelado e outras que preciso ver lá na lista, pois sou esquecido. Acho que vou fazer isso no jardim, para não sujar muito o banheiro.
Fica bem, amigo. Prometo que hoje vou dormir lendo algum poema seu.
Um beijo.
Alessandro José Padin Ferreira é escritor, professor universitário e jornalista. Graduado em Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo, pela Universidade Católica de Santos, é mestre em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Após anos dedicados à atividade jornalística e acadêmica, retomou os estudos em linguagens poéticas, vem participando de antologias e prepara o seu primeiro livro com poemas.
Que coisa maravilhosa uma grande artista, ao piano, navegando pelas músicas que ela ama, que são de sua formação, do seu coração. É isso o disco novíssimo da Delia Fischer, intitulado, oportunamente, Hoje. Enfiados, que estamos, no meio dessa pandemia, muitos olham para o passado, que não é mais, e outros para o futuro, na expectativa de um retorno ao que havia, ou de algo que seja novo. Então ser chamado assim, com um disco desse, para o HOJE, é um recado precioso. E que o hoje seja feito de ontens, mais ainda!!
Pois é assim esse trabalho lindo da Delia, um caminhar por um cenário afetivo, de grandes canções da música brasileira, grandes compositores que teceram a trilha sonora do Brasil.
Abrindo com Milton Nascimento, e sua Tempo de amar, o álbum segue emocionante até seu encerramento, com a única inédita, num belíssimo dueto com Ney Matogrosso. Na passagem entre uma e outra… Taiguara, que com sua Hoje, dá título ao trabalho, mais Beto Guedes, Ivan Lins, Beatles, Björk, , Flávio Venturini (NASCENTE!!) e o grande Guilherme Arantes. E a gente vai escutando essa seleção que foi sendo tecida ao longo de muitas livesda artista nessa pandemia que não acaba (mas que vai acabar!). São canções que foram refinadas no talento de Delia, ao limite do cristalino. A gente escuta sem acreditar que essas músicas ainda possuem tantas dimensões a serem exploradas e reveladas. É uma riqueza enorme que Delia nos propõe com seu disco. E encantados atendemos seu chamado e nos deixamos levar na leveza redime na confusão desses dias.
Momento afeto pessoal… essa é uma das minhas músicas mais preferidas e vê-la surgir assim, aqui, nessa interpretação comovente, é uma grande alegria.
Fica aqui então, pra vocês, a dica desse trabalho incrível. E não poderia ser diferente com uma artista de tantas camadas e sensibilidades. Hoje está disponível nos plataformas de streaming, e você precisa dar play agora mesmo:
E mais! É hoje, gente, 2 de julho, que a compositora e pianista Delia Fischer abre as portas mágicas do nosso querido, amado, Teatro Rival Refit, com 40% da capacidade máxima da casa. Ela apresenta o show “Hoje” para promover o álbum homônimo que chegou às plataformas de streaming dia 21 de maio.
Delia Fischer se apresenta cantando e tocando piano, com a colaboração do cantor e contrabaixista Matias Correa. No repertório, sucessos de Ivan Lins, Guilherme Arantes, Taiguara, Beto Guedes, Beatles, Björk e muito mais.
Ficha Técnica Delia Fischer: voz e piano Matias Correa: contrabaixo e voz Direção musical de Delia Fischer e Matias Correa Captação de imagens e mídias sociais: Moira Osorio Fotos de divulgação: Nando Chagas. Produção do show André Oliveira
O Teatro Rival Refit vai abrir para lotação reduzida, 40% de sua capacidade total, a fim de que seja obedecido o distanciamento mínimo obrigatório.
A casa começa a receber o público às 18h30, com som ambiente, ar condicionado e serviço de bar, seguindo, claro, todos os protocolos sanitários para proteger público, artistas e funcionários.
Vale lembrar que, antes de cada show, a casa passa por processos de higienização e sanitização, feitos por empresa especializada. E nossa equipe está treinada para seguir todos os protocolos de segurança indicados pelas autoridades competentes.
Na entrada, todos terão temperatura aferida, e haverá dispensers de álcool 70° em gel distribuídos pelas dependências do teatro.
O uso de máscara é obrigatório para entrar e circular pela casa. Clientes só podem retirar a máscara para o consumo de bebida e comida, sentados em seus devidos lugares.
Cuidar da própria saúde e da saúde dos outros é também uma forma de resistência.
Contamos com a compreensão e a colaboração de todos. Desde já, agradecemos de coração.
Seja bem-vindo! Equipe Teatro Rival Refit.
Delia Fischer – Foto: Nando Chagas
Daniel — Um poema de Milena Martins Moura
Daniel
como herança recebi olhos com defeito de um verde-escuro encardido amarelado no meio
recebi também um álbum de fotografias com rostos de mulheres sem nome que reconheço ao espelho
cada qual com sua nódoa de mofo a lamber
herdei dentes grandes e um candelabro de louça e um jogo de prantos que foi da minha avó
o menino jesus de praga ficou com minha mãe
e a madama de porcelana passeando o cachorro de porcelana na vitrola em 89 foi dada a uma madama não dada a passeios nem cães
herdei pintas marrons e predisposição a câncer de pele bulhas cardíacas desiguais e baixa estatura
e aquela pasta de couro que tinha cheiro de gaveta fechada onde ficavam os poemas dele que eram só meus
herdei também uma orelha mais alta que a outra pelo que meus óculos andam sempre tortos
e a vontade de escrever isso em versos
o azul perdido dos olhos do morto domina soberano as quinas dos móveis e os soslaios de desprezo dos parentes com dinheiro
está nos tios que exibem orgulhosos as conquistas aumentadas dos filhos que criaram
o rosto do morto está no relógio de ouro dado ao meu pai que entrou na família por casamento
e nos cantos caídos dos lábios da minha mãe que entrou na família porque nascer é sempre à força
no meu nariz as sardas do morto se camuflam como palavra esquecida pouco antes de lembrada daquelas que é preciso estar buscando
e sua voz que julguei imperecível veio sumindo como se chorasse
o morto tinha nome de anjo sussurrado em prece aflita e ignorada
o silêncio onipresente dos deuses por quem ninguém mais quer morrer
“Para quem insiste em sonhar” — A poesia de Maria Clara Parente
Duas palavras que eu gosto na língua portuguesa, essa nossa língua. Um delas é réstea. A outra é fresta. São palavras que estão ligadas… normalmente, é através de uma fresta que vaza a luz numa réstea, numa réstea de sol. A fresta, então, é uma passagem. Mas há algo que, nela, no seu entre, resta. Algo que não chegou a este lado e não está mais do lado de lá . Algo obscuro, apenas percebido.. Algo de nós, ou de além.
Recebi, da poeta Maria Clara Parente, o seu livro nas frestas das fendas. Na dedicatória ela me escreveu: esse livro é uma forma que encontrei de olhar nas frestas (7Letras, 2020). Perdão, Maria Clara, pela indiscrição, ao revelar aqui parte de uma dedicatória. Mas quando a li, a dedicatória, eu a recebi como um convite a perceber as frestas, essas fissuras que estão, afinal, em toda parte, do mundo e de nós. E achei fantástico esse convite, não para atravessá-las, como a luz, o sopro, não para espiar o outro lado, mas para olhar bem pra elas, reparar no que ali se acumula, no que ali germina.
Viro a página da dedicatória e adentro esse território que Maria Clara nos oferece com sua poesia. As pessoas costumam muito relacionar o romance literário, o conto, a prosa em geral, à ideia de criação de mundos. Talvez o fato de ter cenários, narrativas, personagens… talvez isso estimule esse pensamento. Mas a poesia é criadora de mundos também.
E é um mundo inteiro que encontramos nesse tecido de palavras, de tudo que se agarrou na passagem das fendas, das fissuras. A poeta anda pelo mundo, passa por Altamira, Berlin, Cartagena; placas tectônicas, cartografias ilusórias, sonhos… mas o tempo inteiro (O que é mesmo o tempo?) a poeta se move dentro de si. Toda poesia é essa viagem pra dentro, desses encontros dispersos, das luminosidades que escapam. O íntimo, não revelado, mas percebido. Leio cada poema sem definir a leitura, apenas me surpreendendo e encantado com a precisão dos versos, às vezes contra a imprecisão da vida, às vezes de mãos dadas com ela.
o ser humano é a fresta, por onde tudo passa. E é em nós que fica um pouco de quase tudo. O poema é o espaço dessa transição entre mundos, filtrando, interpretando e propondo o que talvez seja um modo de transcender essa existência nas fendas das frestas.
A você que me lê, sugiro com alegria a leitura desse livro de Maria Clara Parente. Não poderia estrear nas estantes com mais pertinência, essa poeta. A experiência poética é sempre rica, pois nos desloca do óbvio, desse mundo que se impõe como narrativa única, onipresente, e nos deriva por ventos e correntes inesperadas. A poesia desse livro, essa poesia sensível ao mais humanos em nós, ao humano do amor, da dúvida, da busca permanente e do olhar que não evita esse outro, agarrado às frestas da nossa condição.
Estranhos anjos: Recordando Eugenio, um amigo que morreu
Eu era criança e minha irmã devia ter seus 16 pra 17 anos. Era ali os fins dos anos 70 e ela tinha uma turma ótima, muito animada. Todos jovens e alegres, pelos menos pra mim, que observava tudo de dentro da minha infância. Como em toda turma, havia suas tensões, seus amores, correspondidos ou não, histórias mirabolantes, como se todos ali se conhecessem desde sempre e compartilhariam a vida até o fim. E o fim era algo tão distante, tão longe no horizonte, para aqueles jovens destemidos, imortais, inspirados e volúveis. O fim era distante demais. Perto mesmo era a praia, era Itamaracá, os bares do Recife, as noites de violões e canções madrugada adentro, na casa de um, de outro, de qualquer um que a eles se juntasse.
Era comum irem lá pra casa. Meus pais sempre foram hospitaleiros, sempre gostaram da casa cheia, sempre gostaram e receberam muito bem nossas amizades. Essa turma da minha irmã, dos meus irmãos, gostava muito de ir lá pra casa. Sentiam-se à vontade no nosso apartamento no edifício Inês, na Pampulha. Espalhavam-se pelo sofá, no chão da sala, com aquele piso que já não existe mais, que ninguém mais quer em casa. Iam e vinha da cozinha, abriam a geladeira sem cerimônia, porque nosso apartamento era uma extensão de suas casa. Sentiam-se seguros e alegres lá.
Tonhão, alto e bonitão, exímio violonista já naquela idade, puxava as canções que se cantavam naqueles tempos, com sua voz grave e bonita. E geral acompanhava, entre risos e cerveja e petiscos. Chico Buarque, MPB4, Milton Nascimento, Elis Regina, Clara Nunes… era os anos 70, o país sob a ditadura militar e nossa casa era um flanco dessa resistência simples, miúda, talvez, mas cheia de esperança que aquilo tudo ia acabar cantando aquelas músicas. Bem… um dia acabou.
Numa dessas farras, que avançava pelas altas horas, o sono pegou o menino que eu era então. Lá do quarto, sonolento, eu escutava a festa, resistindo a adormecer para não perder nada. Coisa de criança em casa animada, né?!
No apartamento da gente tinha uma espécie de entroncamento, quando você saía da sala, que dava para todos os cômodos. Dali você podia ir para a cozinha, o banheiros, os quartos… Passando por ali, talvez para pegar uma bebida na geladeira, ou ir no banheiro, Eugenio me viu no quarto e veio me dar atenção. Coisa que nem todos faziam com uma criança naquela época.
Eugenio era um dos grandes amigos da minha irmão. Frequentador querido demais da nossa casa. Meus pais adoravam ele. Eu adorava Eugenio. Ele era leve, simpático, alto, gentil, caloroso e engraçado. Era somente um rapaz, mas já era tudo isso. Ele entrou no quarto, sentou-se ao lado da minha cama e pôs-se a conversar comigo. Naquela idade eu estava aprendendo a gostar de rock e acho que havia acabado de descobrir o Supertramp. Eugenio pegou minha cópia do Crime of the century, um disco que a banda havia lançado em 1974 e que eu adorava. Nem lembro como tinha esse disco lá em casa… se meus pais compraram, se meus irmãos, se apareceu lá por mágica. Mas era um dos primeiros discos do viria a ser minha coleção de rock, que me acompanhou e me protegeu de tudo, até que deixei o Recife para morar no Rio, sem trazê-la comigo.
Talvez Eugenio tenha conversado comigo sobre o Supertramp e sobre os discos e bandas que ele gostava por alguns minutos. A mim, pareceram longas horas de uma delicada atenção. Ter tido o cuidado, e vontade, de sentar ali comigo e me dar atenção genuína e ouvir minhas ingênuas opiniões de jovem aprendiz do rock’n’roll, é algo que hoje me comove.
Em algum momento a festa o convocou de volta. E acabei por adormecer, com o Crime of the century junto a mim e os sons alegres daquele encontro de jovens amigos, embalando essa adorável transição entre a vigília e o sono.
Como em toda turma, os caminhos cruzados eventualmente se desmancham, vidas segue traçados inesperados e as pessoas se separam. Minha irmã foi pra Brasília ao fim da faculdade, Eugenio casou e cada foi levando a vida que se apresentava, conquistada ou não. Perdi, por consequência, o contato com todos. Afinal, eram amigos da minha irmã.
O tempo passou e, como diz minha mãe, levou tudo. Mas nos últimos anos, por conta da internet das redes sociais, minha irmã refez alguns desses encontros, recuperando diálogos, lembranças e construindo algo novo, certamente. Um desses reencontros foi Eugênio…. nem acreditei e o adicionei também no Instagram. Entre lies e alguma mensagem, pouco trocamos, mas pude acompanhar sua vida em frames, em flashes. E mesmo com a distância dos espaços e dos tempos, mesmo tendo sido somente uma criança, que acompanhava com os olhos brilhando os amigos dos irmãos. Bem, Eugenio era, mesmo que nem soubesse, meu amigo.
Nesse fim de semana soube que Eugenio morreu, subitamente. Inesperadamente.
Que golpe na minha irmã. Dia desses falou com ele. Dia desses marcaram de se rever quando tudo isso, a pandemia e essa ascensão da maldade, acabasse (porque vai acabar!). Mas não deu tempo. Eu tinha essa esperança também de revê-lo e dizer: Lembra aquela noite em que você me deu atenção e conversou comigo sobre rock?! Às vezes você compartilha somente uma coisa com uma pessoa, mas isso é suficiente pra te ensinar coisas que você não vai esquecer, e que vão constituir algo que faz de você o que você é.
Sempre lembro dessa turma, e de Eugenio, quando escuto uma canção da Laurie Anderson, chamada Strange Angels.
Well it was one of those days larger than life When your friends came to dinner And they stayed the night And then they cleaned out the refrigerator They ate everything in sight And then they stayed up in the living room And they cried all night Strange angels – singing just for me Old stories – they’re haunting me This is nothing like I thought it would be.