Severino Honorato, o poeta na Natureza

Por Aderaldo Luciano


Quem sai de Campina Grande, a Rainha da Borborema, na Paraíba, com destino a João Pessoa, capital do estado, a meio caminho entre uma cidade e outra, encontrará uma localidade chamada Cajá. Ponto de parada para um café com a famosa tapioca do Irmão Firmino, é uma espécie de entroncamento rodoviário, pois quem entrar, um pouquinho antes, à direita, vai chegar em Itabaiana, terra de Sivuca, e, quem entrar à esquerda, chegará em Gurinhém e daí com mais uns poucos quilômetros estará em Mulungu. E é essa cidade, esse pequeno município, situado na região de Guarabira, que nos interessará.

Não se entedie, leitor, com essa pequena introdução geográfica, é apenas um pretexto para falar do poeta Severino Honorato, nascido naquela região, no Sítio Cipoal de Utinga, em fevereiro de 1963. Naquele tempo, o clima ameno, as chuvas perenes, ofereciam um certo caudal ao Rio Mamanguape, cujo leito passa mais adiante, na cidade de Alagoinha. Essas mesmas chuvas fortaleceram o verde, presente nas árvores, nos roçados, nas veredas e caminhos, nos capins e nas capoeiras. Consequentemente a fauna também se fazia ver e ouvir, os animais pequenos e os de criação.

O próprio nome da cidade é retirado da grande árvore conhecida como mulungu. O desenho dessa planta, que sobe aos céus e se espalha como ícone do afeto, povoa o horizonte e quem o vê de longe já sente o seu poder, medicinal que é. Severino Honorato nasceu aí nesse meio, vivendo as vertentes e as caminhagens, ouvindo os pássaros e se assustando com os trovões no tempo de inverno. Esse contato com a Natureza, sagrada para nossos ancestrais, ensinamento de pais e avós, fortaleceu e fez perdurar nele o cuidado, o carinho e o bom trato com o ambiente que habitava. Quando encontra a poesia em sua vida, imediatamente esse motivo lhe habita os versos:

Voltando um pouco no tempo
Num cenário sem magia
Em versos e estrofes faço
Pelo olhar da poesia
Confissões e desabafos
Sobre a nossa Ecologia.

É assim, com esse retorno à primeira infância, que ele inicia o folheto Salve a Natureza – Inclusive o Ser Humano. A magia de sua antiga vivência sofre um corte com a comparação com os dias atuais. E isso fere o poeta, no corpo e na alma. Oriundo do engajamento nas lutas sociais, Honorato, com o poder poético na voz e na letra, observa as contradições da Humanidade. Quando falamos do Rio Mamanguape, perto de sua cidade, rio perene naqueles tempos, nutrido pelas chuvas e pelas matas ciliares nas margens de seu leito, foi por percebermos nesse mesmo poema sua preocupação geral:

Não há mais rios perenes
Serpenteando as cidades
Aquíferos são atingidos
Por ações de insanidades
Mananciais de água doce
Sofrem ações de maldades.

Mais adiante, numa reflexão para si e para os leitores e ouvintes de seus versos, o poeta Honorato abre sua maleta de observações e conselhos para um mundo melhor:

Quem agride a Natureza
Seu conteúdo destrói
Por impulsos da riqueza
Sua fortuna constrói
Mas pagará alto preço
Vilão que se diz herói.

No segundo volume de Salve a Natureza – Inclusive o Ser Humano, a reflexão vai para além da denúncia sobre a agressão ao meio ambiente. Nesse volume, o poeta pensa na mão humana adulterando os genes naturais para a produção de grãos em longa escala. Os alimentos transgênicos tomaram conta do agronegócio, movido pelo capitalismo enlouquecido. Está já na abertura do seu poema:

Querem alterar a gene
das células da natureza
a Ciência está criando
Gene livre de impureza
mas esquecem os cientistas
que as melhores conquistas
são práticas da singeleza!

O conhecimento das regras do cordel, poesia nascida nos rincões nordestinos, oferta a Honorato certa facilidade para a transmissão de sua mensagem. O abraço que o cordel lhe deu é devolvido com maestria nos versos, na métrica e na rima. Ele sabe utilizar o poema para a reflexão, para criar o que nós, estudiosos e observadores dessa forma poética genuinamente brasileira, chamamos de cordel ensaístico. Porque o que Honorato escreve nesses dois volumes de Salve a Natureza – Inclusive o Ser Humano é um ensaio ecológico no qual pensa, reflete e promove o bem-estar social a partir do respeito e cuidado com a Natureza:

Tá na contramão da História
extração sem garantir
plena sustentabilidade
fazendo a vida imergir
nas profundezas da lama
na contaminada fama
que faz o justo sentir!

Os dois folhetos são de 2016, edições do próprio autor, distribuídas em feiras e escolas e eventos. Quando, em 2020, o poeta escreve Carta ao Planeta, a partir das constatações catastróficas sobre a vida na Terra, um pedido de perdão, em nome da Humanidade, é o seu tema principal. O poeta se sente cúmplice da tragédia ambiental planetária e brasileira. As sextilhas de seu cordel foram construídas sobre a dor, sobre o medo, sobre o horror. Mas não é apenas o pedido de perdão. É também a reflexão política mais imediata e certeira. O poeta não poupa os senhores da guerra:

Eu implantei ditaduras
Dizendo que era o bem
Inspirei a inquisição
A guerra insana também
Do luxo criei o lixo
Para pisar mais alguém.

Essa Carta ao Planeta é mais que uma carta, é mais que um pedido de perdão, é uma peça política, é a exposição das vísceras do sistema político e econômico mundial, sentado sobre o lucro a qualquer preço, sobre o desperdício alimentar em detrimento da fome, sobre as perseguições étnicas, sobre genocídios e o desespero dos mais pobres. Como disse, Honorato é um poeta pautado pela ação política, mas sem descuidar da poética:

Perdão por disseminar
Mentiras e falsidades
Eu descobri tudo o quanto
Gozando das liberdades
Mas encontrei no humano
Um pacote de maldades.

Uma das tradições do cordel brasileiro é ser testemunha da história. É uma prática que vem desde os pioneiros e o mais prolífico deles foi Leandro Gomes de Barros, conhecido como Pai do Cordel. Foi ele quem criou, além da forma poética, o sistema literário cordelístico. Tudo o que se pratica hoje nessa forma poética foi criado por ele, ampliado por ele e por ele pensado. Severino Honorato é um discípulo de Leandro. O próprio município onde nasceu deve ter visto o Pai do Cordel passando em direção a Guarabira para visitar seus parentes. O próprio Honorato encontrou, na feira da cidade, os folhetos de Leandro à venda na voz e na banca de algum folheteiro.

Falávamos da tradição de o poeta de cordel ser testemunha da história, narrar os fatos marcantes da sociedade, suas tragédias e comédias. Antes da Carta ao Planeta, Honorato escrevera Brumadinho: Descaso, Tragédia, Crimes. Como o título esclarece é uma obra de intensa reflexão sobre o fato acontecido em Minas Gerais, que chocou o país. A tragédia de Brumadinho é o mais terrível desastre ecológico brasileiro, com danos ambientais irreparáveis, perdas de vidas humanas e destruição da fauna, da flora e dos sistemas pluviais. Honorato consciente de seu papel de repórter e comentarista cordeliano nos inoculou de tensão:

Quem vai sentir minha dor?
Quem conserta meu penar?
Quem vai consolar meu choro
Com tal zelo até parar?
Quem transportará os mortos
Por entre caminhos tortos
Aos túmulos doutro lugar?

São questionamentos, na sextilha do cordel, cutucando firmes e certeiros, a consciência do mundo. Um poema tão forte, escrito para nos levantar do chão. Toda essa força contida no poema tem um histórico. A sensibilidade do poeta que sai de Mulungu, na Paraíba do Norte, e vem para o Rio de Janeiro construir sua dignidade, erguer seu marco de vida, maltratado no dia-a-dia da sobrevivência, recheado de saudade e, muitas vezes ou a maioria das vezes, de solidão. Marcado por essa trajetória, vivido e formado nas lutas sociais e nos atos de resistência, o poeta construiu sua ética e a encaminhou para a causa da preservação da Natureza, da Sustentabilidade, do Grito da Terra e dos Excluídos.

Talvez a última estrofe do poema sobre Brumadinho conclua um emblema para descrever o poeta em sua plenitude. Sua trajetória no universo cordelístico já está delineada e louvada e reconhecida. Sua contribuição para o sistema literário criado por Leandro Gomes de Barros é imensa. Vive em Honorato duas qualidades e virtudes: é humilde sem ser submisso, é excelência sem arrogância. O resumo está na estrofe final de Brumadinho: Descaso, Tragédia, Crimes, como sempre com sua assinatura que não vem em acróstico, mas estendida dentro do próprio texto, parte da própria estrofe, complemento da sextilha:

Este Honorato repele
Riqueza com ilusão
Promessa de vida justa
Sem devida comprovação
Sou contra o poder ingrato
Que assegura em seu ato
O ciclo da escravidão.

Quem vai de Campina Grande, a Vila Nova da Rainha, na Paraíba do Norte, para a capital João Pessoa, pela BR-230, a Transamazônica, passará pelo Cajá, um entreposto para descansar as pernas e comer a tapioca do Irmão Firmino. Um pouquinho antes verá uma placa que aponta para a direita: Itabaiana, Terra de Sivuca. Para a esquerda tem a placa que diz: Gurinhém. Gostaria muito de ver, a cada viagem que fizer, a placa que dirá, apontando para a esquerda: Mulungu, Terra de Severino Honorato.


Jorge du Peixe canta Luiz Gonzaga

Texto de Aderaldo Luciano —


O Nordeste continuaria existindo caso Luiz Gonzaga não tivesse aterrissado por lá há mais cem anos. Teria a mesma paisagem, os mesmos problemas. Seria o mesmo complexo de gentes e regiões. Comportaria os mesmos cenários de pedras e areias, plantas e rios, mares e florestas, caatingas e sertões. Mas faltaria muito para adornar-lhe a alma. Sem Gonzaga quase seríamos sonâmbulos. Ele, mais que ninguém, brindou-nos com uma moldura indelével, uma corrente sonora diferente, recheada de suspiros, ritmos coronários, estalidos metálicos. A isso resolveu chamar de BAIÃO.

Gonzaga plantou a sanfona entre nós, estampou a zabumba em nossos corpos, trancafiou-nos dentro de um triângulo e imortalizou-nos no registro de sua voz. Dentro do seu matulão convivemos, bichos e coisas, aves e paisagens. Pela manhã, do seu chapéu, saltaram galos anunciando o dia, sabiás acalentando as horas, acauãs premeditando as tristezas, assuns-pretos assobiando as dores, vens-vens prenunciando amores. O seu peito abrigava o canto dolente e retotono dos vaqueiros mortos e a pabulagem dos boiadeiros vivos. As ladainhas e os benditos aninhavam-se por ali, buscando eternidade. E um dia, em 2021, dele saltou-nos Jorge du Peixe.

Em releituras belas e disciplinadas, sem macular as melodias, sem invencionices modernosas, Baião Granfino, de Jorge du Peixe, prolonga a alma gonzagueana, avança sobre os nossos dias com seu timbre rouco, mas afinado, seu selo grave, em momento tão agudo de nossas crises existenciais. Jorge segura o baião como um filho frágil, acabado de vir ao mundo. E o baião o sustenta com sua vitalidade. Quanta beleza em suas veredas sonoras, quanta sutileza no seu cantar que, a alguns deve ter assustado, mas que a mim, apaixonou-me. Não feriu a majestade, vestiu-se e caminhou com ela. Trouxe o Assum Preto e sua sina complexa, difícil, dolente, talvez anunciando a sua mesma dor, abrindo um álbum cheio de lirismo e paz, dentro na luta.

A Sanfona Sentida nos fala tão delicada em nosso coração à mostra que nos faz chorar, pelo fôlego que nos falta enquanto sociedade vilipendiada por dias sem ar. O instrumental, corretíssimo, entre a sanfona chorona e chorosa, apaixonante, e um baixo em marcação profunda, capoeirística algumas vezes. Uma percussão adornada pela bateria disciplinada, ciente de suas entradas e saídas. Certezas me carregam de que Dominguinhos aprova, entre as nuvens doiradas. Não sei se Anastácia o ouviu, mas em ouvindo, não se furtará ao peito aberto e receptivo. É minha opinião.

A seleção de canções e sua disposição no álbum, iniciada com Assum Preto, como escrevi acima, essa seleção e essa disposição foram pensadas, anotadas, estudadas, cronometradas. Há um prólogo épico, uma invocação, seguida de uma proposição e um oferecimento. Segue-se uma contação de histórias de amor e alumbramento (Orélia), de despedida e sofrimento (Qui Nem Jiló), de dor na solidão (Sabiá), de redescoberta do amor e da existência (Acácia Amarela). Na sétima casa do álbum, esse número místico e completo, Jorge du Peixe entra com a louvação à ancestralidade (Rei Bantu). Depois dessa iluminação, a vestimenta do baião cumpre seu destino (Baião Granfino).

Cacimba Nova lança um olhar melancólico ao passado de fausto, mas Pagode Russo nos chama de volta à terra e nos grita e empurra para a celebração, pois estamos vivos e fazendo acontecer para a eternidade que virá. Quando o Fole Roncou, as almas recebem o ápice dessa celebração, com guitarras, pedais, eletricidade e a beleza absoluta de Cátia de França, encarnação do talento, do engenho e da arte. Belo álbum que em mim trouxe de volta a Ideia, a Letra, a Vida. Obrigado, Jorge du Peixe, sua voz arrancou-me a lágrima. E com ela, novamente, o Texto. Como diz Cátia, na última frase dos trabalhos: “Isso é eterno!”


Geno e seus pintos

Texto de Eduardo Maciel


Olá, kurumateires amades!

Vim contar uma história pra vocês…

Era uma vez um senhor de meia idade, de nome Geno Syda. Apesar de sua pouca inteligência e atitudes duvidosas, Geno era um homem patriota. Na cabeça dele ele era. Ele podia fazer tudo em dissonância, mas naqueles muitos momentos em que se detinha, mais demoradamente que o esperado, em frente ao espelho, ele poderia chorar jurando seu patriotismo.

De gado, ele entendia muito. Muito mesmo. Era inclusive chamado de Rei do Gado na época da novela, reparem que pândego!

Ai ai… Esse Sr. Geno… Secretamente nutria uma paixão ainda maior do que pelo gado e seu título de Rei: ele amava pintos!

Gente, por favor não me levem a mal! Quando falo pinto, não tem nada fálico aqui! Juro. Até porque se Geno vier aqui para ler esse texto e suspeitar que estou a duvidar de sua masculinidade bruta é capaz de eu levar um tiro de fuzil na cabeça.

Não contei ainda? Então. Geno é além de tudo um colecionador de armas pesadas, porque pra ele um povo armado nunca será escravizado. Enfim… Deixa eu voltar pro pinto…

Esse amor de Geno por pintos sempre foi algo secreto, como eu disse. Ele adorava a cor amarela dos pintos, aquele amarelo tipo o da camisa da seleção brasileira de futebol, sabe?

Mas o segredinho ruiu quando ele resolveu comprar uns pintos na feira livre, que acontecia periodicamente. Foi lá, comprou um montão de pintos e os numerou, chamando cada um pelo seu respectivo número. Que graça!

Ele todos os dias ia lá no cercadinho dos pintos, os alimentava, e chegava até a conversar com eles! Pitoresco.

É claro que, com tanto pinto, muitos se aventuravam a sair do cercadinho. Esses, pro Geno, eram pintos rebeldes: como ousariam contrariar seus mandamentos? Enfim. Por mais que ele tentasse, não conseguia controlar essa rebeldia toda.

Certa vez, amanheceu o dia da Independência do Brasil. Geno acordou animado, muito animado. Afinal ele se achava um patriota, vocês lembram?

Acordou, vestiu sua melhor roupa e foi passear em seu Volkswagen conversível, para ver a movimentação na rua. Seguiu logo pro local onde seus amigos se encontram, pra sentir maior pertencimento.

Depois do passeio, voltou pra casa e começou a beber pra comemorar. Bebeu e bebeu. Comemorou bastante! E, é claro, ficou embriagado, mais do que sempre tivera sido mesmo sóbrio.

Vários dos seus pintos rebeldes, que tinham deixado o cercadinho sem a autorização de Geno, estavam espalhados pela casa, a piar. Piando forte.

Alguns estavam em cima do sofá, no mesmo lugar em que se deixou deitar o corpo ébrio de Geno. Ele deitou sobre os pintos e imediatamente adormeceu.

Seus sonhos não eram sonhos quaisquer. Eram devaneios! E neles, Geno ouvia (dessa vez nem tão marcadamente) um piar ao fundo. Um piar cada vez mais sufocado, engasgado e soterrado. Geno se sentia feliz, por fazer calar (ao menos em seu assim chamado sonho) aqueles pintos rebeldes. Ah, que sonho! Puro sonho!

Ele acorda. Se levanta e, ressacado de tantos estímulos excessivos da véspera, olha para o sofá.

Imediatamente percebe os pintos mortos. Se espanta, pois no sonho ele achava que eram menos pintos no sofá. Que prejuízo, ele pensa. Mas logo destorce o pensamento, no afago interno trazido pela constatação de que ele precisaria alimentar menos pintos, e a economia nas finanças sempre seria mais importante do que o prejuízo com a morte de pintos. Principalmente os rebeldes.

Satisfeito, vai lá cumprir sua rotina, a de dar de comer aos pintos do cercado.

Mas eles não estavam mais lá.

Nenhum deles estava.

É que todos ouviram e viram bem claramente como o dono deles, Geno Syda, foi negligente e agressivo com os pintos rebeldes. E se rebelaram todos.

Quanto a Geno, sem ter mais nenhum pinto pra chamar de seu, restou aquela sensação de fracasso. Dela ele jamais se recuperou. O que já era de se esperar. Afinal, ele era mesmo irrecuperável!


Poemas de Farândola, por Maria Cristina Martins

Na dupla chave do familiar-não familiar, Farândola vai criando laços que se entrecruzam em uma dança centenária que conecta a história de uma mulher com “a dança dos maltrapilhos/ a fome e a sede dos saltimbancos/ de tomar as ruas e dançar”.

Poemas de Maria Cristina Martins


Trazemos hoje, mais uma vez, e mais uma vez com alegria, a poesia de Maria Cristina Martins, de seu novíssimo livro Farândola.


Organizando a teimosia não como se arruma o armário, mas como quem expõe a perturbação da ordem, o ruído, o avesso, o fora de lugar, a poeta vai talhando um caminho que vai da casa à rua, do privado ao público, do pessoal ao coletivo, do amor à política. Na dupla chave do familiar-não familiar, Farândola vai criando laços que se entrecruzam em uma dança centenária que conecta a história de uma mulher com “a dança dos maltrapilhos/ a fome e a sede dos saltimbancos/ de tomar as ruas e dançar”. Indo da casa, do familiar, do doméstico, e tomando as ruas, Farândola vai se tecendo como uma aliança, nesse movimento que se desdobra e vai encontrando seus pares, dando as mãos pelo que se reconhecem em suas estranhezas, porque é a condição de estar fora de lugar, fora da ordem, que os une. Ir de mãos dadas (Drummond é um interlocutor importante neste livro) com os que vivem em precarização, os banidos da lei, como os endividados, os camelôs, os mendigos, os sem-teto, estar entre eles, no meio deles, correndo com eles, como lemos em “Estranhos”, é fazer dessa estranheza uma ética e uma política, um modo de estar no mundo, um modo de (não) se sentir em casa.

— do prefácio de Danielle Magalhães

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A casa

as oito portas da casa estão trancadas
vou contar de novo
.
.
.
são seis
as seis portas da casa estão trancadas
tenho um plano de fuga
listas espalhadas pelos cantos
a indicar o lugar correto de cada objeto
cada objeto tem de estar
no lugar que lhe é de direito
decido dormir porque:
1. sair a essa hora pode ser perigoso
2. estou com preguiça
tenho um defeito de uso
aparentemente sem conserto
a casa continua igual, enorme
ou fui eu que não cresci?

A casa II

esta casa em que vivo é esquisita à beça
por isso gostei
fica no subsolo
a sala não tem janela
a área, grande, é exatamente do tamanho da parte de dentro
na parte de dentro tem
sala, cozinha, banheiro e dois quartos
a área e a parte de dentro são paralelas entre si
a cozinha é minúscula
a parte de que mais gosto é onde estou agora
onde pousei a escrivaninha amarela
vejo um matagal
onde passarinhos às vezes dão rasantes
o sol bate em cheio nas folhas
mas aqui dentro fica fresquinho
confusa não estou por nada

A casa III

ter uma casa
ter uma casa para voltar
ter uma casa para voltar e dormir
sossegada e displicente
temer apenas monstros
embaixo da cama
ter uma casa para sempre
ter onde guardar miudezas
inúteis e aconchegantes
para sempre
ter uma casa para ficar
exceto por um casaco esquecido


Vinícius

tábomtábomtábomtábom
disse teu coração
ao que o nosso respondeu
“peixinho, dá um chutinho
dá um beijinho
uma cambalhota”

os meninos descem a rua
atrás de bolas e fantasias
e você?
voará como nosso beija-flor?
visitará florestas encantadas?
lutará pelo fim dos próprios privilégios?
protestará pelos equívocos
da humanidade decadente?
nos perdoará por tudo?
por nada?
pedirá perdão?
será feliz?
terá os olhos doces do pai?
os dentes grandes da mãe?

quem é você, vinícius?
quem seremos nós
depois de você sair do aquário?
depois que não for mais peixinho
nem minhoca nem alien
depois de nos contestar
depois de nos amar
depois de nos odiar
e voltar a nos amar

só sabemos isto:
porque tua vinda será a mais terna
e inquietante aventura
é que agora pedimos
tempo infinito


Tinta a óleo sobre papel

meus meninos dormem
frito no óleo
da tinta e do hambúrguer
mal me recordo de quando fritava
por outros meios
piso devagar no quarto
o ventilador gira no meu coração
o amor total é um espanto

sei a origem do meu susto
por entre borboletas azuis
sapos, besouros verdes e um cachorro hippie
e um cachorro preso por amar demais
e gangues de pássaros, beija-flores
e talvez mosquitos da dengue

parir é abrir uma fenda no tempo
o bebê cresce e eu vou ficando
do tamanho da formiga
que ele vai perceber
assim que pudermos ir à pracinha
que pudermos deixá-lo
mexer na terra
e comer a terra
depois que meu filho nasceu
tudo o que escrevo é para ele
ou sobre ele
ou apesar dele


Início

teu encantamento tem cheiro de dama da noite
gostava que esse enlevo me arrancasse da terra
como quem tira a bola de ferro dos pés de um prisioneiro
gostava que teu cheiro me acompanhasse
mais certo do que anjo da guarda
porque em ti deposito naturalmente
essa fé inabalável dos que têm fome
– Tem mais fé aquele que não tem

tu és um texto sem pontuação
mas com acentos
(não gosto da moda
de internacionalizar nomes
tirando-lhes os acentos)
são como binóculos
melhor: aparelhos de raio x
adivinham o que penso
ao mesmo tempo em que debocham
dos burocratas e doutores
na reunião

és tão assustadora
não tipo a menina que vomita verde
tipo montanha-russa
de que a gente toda gosta de ter medo
menos tu
que preferes exorcismo

gosto de tanta coisa em ti
que nem sei por onde terminar

Meio

gostam quando se veem
depois de tantos dias impedidos pelo trabalho
gostam de tudo que têm feito
até do que não gostam
escrevem:
“minha pele pede a sua
e sua boca sobre ela
minha pele fala comigo
quando você não está
minha pele está ficando louca
marca atos contra sua ausência
faz greve de transpiração”
um poema às vezes é um retrato
uma lembrança às vezes é um gozo
mas nada
nada mesmo
se compara ao dia em que se conheceram
penso até que não deveriam seguir
o curso natural dos encontros
porque nenhum momento
será melhor do que o dia em que se conheceram

Fim

na sua versão de romeu e julieta
só a julieta morria
catei meus cacos e disse
comigo não, violão
aqui você não se cria


Farândola

Se não puder dançar, não é minha revolução
Emma Goldman

será difícil acompanhar
a dança dos maltrapilhos
a fome e a sede dos saltimbancos
de tomar as ruas e dançar

tentaremos nos juntar
na mais sincera intenção
mas pode ser que nos dispensem
(exceto quem esteve por perto
a ponto de ser reconhecido)
outra parte condenará
mesmo sendo a favor
observando que falta direção
a sua direção, claro

em algum momento todos pensam
que é possível fugir
até que batem à nossa porta
pensam que seguir as regras
nos mantém livres
nos mantém vivos
até que batem à nossa porta
de um jeito ou de outro
sempre batem à nossa porta

mas somente em alguns lugares
entram sem algemas
(quando aquele menino
reivindicou o uso de algemas
demorei a entender:
a polícia não precisa delas
quando entra para matar)
arrombaram sua porta
violaram sua casa
seu corpo
quem assistia também sangrou
todos sangram juntos
mas somente a alguns lugares
não se pode voltar depois

aquele menino pergunta:
o que você quer?
ser sempre o que apanha
o mártir, o suicida?
quero ser pedra
noite e poema
esgarçar a fenda da reparação
romper em flor
cobrir o asfalto com nossas flores
até que nossas flores
não sejam mais arrancadas

será difícil acompanhar
a dança dos maltrapilhos
saltimbancos
os invisíveis
os inaudíveis
a patuleia
a súcia
aqueles que têm fome e sede
de tomar as ruas e dançar
sua própria coreografia


A casa IV

procura-se um fiador
com nome limpo na praça
salário bom
comprovado
imóvel quitado
averbado
no mesmo município
de quem precisa de um teto
e não pode comprar

ou terá de raspar as economias
de anos de trabalho
e agradecer o privilégio
de ser um assalariado

o importante é proteger o proprietário
caso não arque com o combinado
e seja despejado

a propriedade é sagrada
e sempre haverá uma marquise

A casa V

o mendigo encontra a marquise
e faz dela uma casinha
tem um colchão
banquinho
cobertor para o cachorro
papelão que imita porta
um retrato
alguns livros

todo mundo precisa de um cantinho
de mimos e lembranças
é possível ver uma casinha
sob um teto de estrelas
em qualquer marquise ocupada


Foto de fim de tarde

perdi os pássaros em seu voo das cinco
e a cabeça branca da eleanor rigby
acompanhando a volta do trabalho
de quem não pode fazer home office
de quem não teme o vírus

só alcancei o que é mais estático
ou aparentemente lento:
as nuvens, o sol

os filtros escondem o que se adivinha
tudo o que me derruba é o que
me põe em pé novamente
a confiança é um ninho
desfeito, refeito
parei de contar quando o tempo
desafiou a paciência
afinada com a precisão de um amador


Inacessível

não escrevo
o que mais me corrói
o que mais me entorna
e me põe do avesso
isso não consigo
nem saber
só sei que
do fio invisível que carregamos
e nos liga a tudo o que é vivo
esse fio que pode ser alma
ou espírito ou coração e cérebro
e nos liga também ao que é morto
porque é pelos mortos que seguimos
sem saber
e por isso sem saber se é útil
desse fio invisível teço as palavras
para materializar
espalhar as palavras pela casa
não me basta sentir o peito
nem fazer sexo
nem comprar uma bolsa
nem dar um mergulho
nem rezar
nem dormir

Arte de Maria Cristina Martins

Leia também, de Maria Cristina Martins e Tássia Veríssimo, o livro Entre Máscaras!
Compre seu exemplar na Blooks Livraria

Que um livro assim surja no meio de uma pandemia, e por causa dela, é auspicioso, e nos traz a oportunidade, por meio dele, iluminar nosso cotidiano mergulhado numa quarentena que desabou sobre nós. — Toinho Castro

Financiamento coletivo: A fonte dos relâmpagos, de Braulio Tavares

Texto de Revista Kuruma’tá


E o financiamento coletivo é o caminho da gente pra por nas ruas, nas estantes, nas praças e vitrolas os projetos que a gente acredita! Cultura no Brasil, cada vez mais tem que sair do povo, da vontade e da iniciativa das pessoas que acreditam nela. Assim a gente vai publicando livro que as grandes editoras não publicam, discos que as grandes gravadoras não lançam, espetáculos e outras inciativas que o tal do mercado não tá disposto a apostar e pôr na rua!

E é na pisada valente do financiamento coletivo que o grande poeta, escritor, músico e outras coisa mais, Braulio Tavares, trabalha seu novíssimo lançamento, o livro A fonte dos relâmpagos, em edição da Editora Arribaçã, de Cajazeiras, na Paraíba (leia-se, Linaldo Guedes e Lenilson Oliveira)!

A fonte dos relâmpagos reúne mais de 40 artigos do Braulio, sobre cantoria de viola, literatura de cordel, poesia em geral, e outras crônicas sobre o que os cronistas tradicionais chamam de “aspectos pitorescos” do Nordeste e da Paraíba. Ou seja, uma riqueza que só mesmo a pena de Braulio Tavares pra trazer pra gente, numa fina escrita, esses retratos de toda uma rede cultural.

Esse texto de hoje na Kuruma’tá é um convite, para que você participe desse acontecimento, que a é a publicação de A fonte dos relâmpagos. Chegue lá no Catarse e colabore, para que a expressão cultura, mais legítima, do nosso povo, se cristalize nesse livro

COLABORE COM O FINANCIAMENTO COLETIVO DE A FONTE DOS RELÊMPAGOS


No livro A FONTE DOS RELÂMPAGOS, reuni 40 artigos que escrevi sobre poesia, música popular, literatura de cordel, cultura oral, como estas memórias do cantador João Furiba, conhecido como O Rei da Mentira, mas que dizia verdades inacreditáveis para quem não é daquelas bandas:

“Nasci no dia 4 de julho de 1931, no sítio Bomba d’Água, de Serra de Cachoeira, no município de Taquaritinga do Norte, no Agreste Pernambucano. Minha mãe lavava roupas à margem do rio quando, num repente, eu vim ao mundo. Muito nova e inexperiente minha mãe correu assustada para casa.- Mãe! – disse à minha avó.
— Acho que abortei na beira d’água!
Minha avó correu para ver e encontrou-me, do tamanho de um preá, ainda envolto na placenta. Pegando-me com cuidado, levou-me para casa julgando que eu estivesse morto.
Quando fiz alguns movimentos, procuraram agasalhar-me melhor. Encubadeira não havia. Com os restos de algodão da roça, embrulharam-me e colocaram-me numa caixa de sapatos”. 


Outra dimensão: O disco da minha amiga Marina Lutfi

Texto de Toinho Castro


Não vou escrever sobre esse disco, Outra dimensão, fazendo de conta de não conheço Marina. E a história peculiar desse encontro, desse conhecimento, é literalmente coisa de cinema. Em certo sentido, é também musical, porque se deu por conta de uma música, Bichos da noite, escrita pelo seu pai, Sérgio Ricardo, sobre poesia do pernambucano Joaquim Cardozo, no seu livro O Coronel de Macambira: bumba meu boi, em dois quadros, de 1963, e o filme Bacurau, de Kleber Mendonça Filho. Mas essa história, por demais contada, eu relembro de outra feita, pra não perder o rumo dessa prosa. Basta dizer que eu e Marina nos conhecemos por meio de um amigo em comum, o Christiano Calvet, que nos colocou em contato.

Estávamos eu e o Chris na Adega Pérola, celebrando nosso reencontro, depois de muito tempo, e comentamos a tal história que envolve Sérgio Ricardo, Bichos da noite e Bacurau. E ele emendou: Você precisa falar com Marina! Pegou o telefone e ligou pra ela, ali mesmo, na muvuca do bar, entre sardinhas e chopes. E tudo isso é pra dizer que a primeira presença de Marina na minha vida, foi a voz.

Eventualmente a gente se encontrou pessoalmente, trocamos ideias, papos, e consolidamos uma amizade maravilhosa. Nesse meio tempo veio a pandemia, eu lancei livro, seu Sergio, pai de Marina, nos deixou e deixou esse buraco na música brasileira. Marina botou pra frente e pra cima, com muita bravura, o projeto Sérgio Ricardo Memória Viva, dando norte e sentido à vasta obra do pai… e lançou um disco. Primeiro um single, Barravento, no aniversário de um ano da morte do pai. Auspicioso. Vibrei! Ela e o irmão, João (Gurgel) mandaram ver, com duas interpretações singulares de músicas de SR.

Mas não era só isso, não que fosse pouco, e agora Marina Lutfi solta seu discaço nas redes, pra todo mundo ouvir. Outra dimensão é um disco da felicidade. É o disco de um país que vai escapando pela tangente, da Covid, dos desmandos de um governo violento e autoritário. É um disco da beleza, do encantamento e do encontro. Com três músicas de Sérgio Ricardo, Barravento, Cacumbu e Esse mundo é meu, sendo essa terceira uma parceria com Ruy Guerra, o disco presta tributo a esses dois, em que se mistura cinema e música, na narrativa de um Brasil destemido. E ainda tem Julio Dain abrindo a audição com a música título e No meio da escuridão, Arnaldo Antunes e Perícles Cavalcanti com Quase tudo, Rodrigo Maranhão, com merecido Grammy Latino por Caminho das águas, em 2006, entra com sua Milonga, e essa dupla constelar, João Donato e Pàulo César Pinheiro, com Ahie, gravado por Donato no seu disco Quem é quem, de 1973.

Eu podia parar aqui, porque já deu a dimensão imensa, luminosa, de Outra dimensão. Mas tem um povo ali, num instrumental sinuoso, ousado, límpido e um monte de adjetivo que eu, enquanto escuto besta o disco, poderia enumerar. É gente que gosta de música, que gosta de enveredar pela música, feito floresta. Instrumentistas de primeira grandeza, e a gente pode sentir o quanto estão à vontade nos arranjos, o quanto tudo é uma construção muito rica, em que cada um bota o melhor de si na maior alegria. Daí o equilíbrio, de uma música que conduz à outra naturalmente, sem desvios ou desvãos, sem hesitações. Porque o disco conta essa história, uma história contra o desânimo, a descrença. Contra a maldade.

E ligando tudo isso, o tecido da voz bonita de Marina. A mesma voz que ouvi naquele telefonema em que nos conhecemos, lá em maio de 2019, quando ninguém imaginava o tanto que ainda ia acontecer no mundo. E desse tanto que aconteceu, deu-se Outra dimensão, um disco para um Brasil muito melhor!

Não é porque sou seu amigo não, Marina… mas que disco danado de bom!

ESCUTE NAS PLATAFORMAS!

Uma possível contracapa se o disco fosse o LP que a gente adoraria que fosse!

Direção e produção musical: Flávio Mendes
Produção executiva: Marina Lutfi
Assistente de produção: Paula Marques
 
Arranjos: Flávio Mendes e Henrique Band
Músicos: Flávio Mendes, João Gurgel, Henrique Band, Marcelo Caldi, Alexandre Caldi, Guto Wirtti, Carlos Cesar, Carlos Pontual, Lui Coimbra, Domenico Lancelotti, Marcos Suzano, Levi Chaves, Diogo Gomes e Everson Moraes.
Coro e palmas: Isabela Ciavatta, Rosa Ciavatta, Daniela Nunes e Lucas Ciavatta
Participação especial: Sérgio Ricardo
 
Gravação:
David Brinkworth no Studio Aurea, em julho de 2015 e no Sambatown Estúdio em agosto de 2015.
Rodrigo Ramalho no Plaza Hi-Fi Estúdio em janeiro de 2017.
Carlos Fuchs no estúdio Tenda da Raposa em agosto de 2017 e julho de 2018.
Todos no Rio de Janeiro.
Mixado e masterizado por Carlos Fuchs no estúdio Sá da Bandeira, em julho de 2021, no Porto, Portugal.
 
Capa:
Foto: Michel Schettert
Design: Marina Lutfi
Realização: Cacumbu
Distribuição: Nikita Music Digital
Assessoria de imprensa: Belmira Comunicação
 

Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa: A Múmia

Texto de Fábio Fernandes


Deitada em sua cama, a múmia observa. Apenas observa: há muito não faz outra coisa.

Seu único consolo é que ninguém sabe o que ela pensa. Às vezes nem ela própria. Basta-lhe ouvir as pessoas entrando e saindo do seu quarto, o chocalhar dos vidros de remédio e o pingar incessante do soro ao lado da cama. Às vezes a múmia pensa que pode ouvir as próprias rugas se formando na pele encarquilhada. Como anéis e marcas em troncos de árvores. A múmia acha que leu alguma coisa a respeito em algum lugar. Mas já faz muito tempo.

Ninguém sabe quantos anos a Múmia tem. Nem ela mesma.

Deitada em sua cama, como se embalsamada fosse, a múmia espera sua hora.


“O Brasil é uma assombração” — Clipe de Marília Parente

Marília Parente foi um grande alento de 2019, com seu primeiro e belo disco Meu Céu, Meu Ar, Meu Chão e seus Cacos de Vidro. Quando tomei conhecimento do disco e o escutei pela primeira vez, fiquei maluco com aquilo! Foi play atrás de play no Spotify, e não teve ninguém pra quem eu não enviasse o link da bolacha. — Texto de Toinho Castro

Texto de Toinho Castro


Estou Desocupado com Outras Coisas Desimportantes
diga a ela que não vou, não vou, não vou
Pois quero olhar os meus amigos,
como se não corresse perigo
e estar contente por estar ausente, por estar presente

Eu vou, eu vou
Quero faltar meu compromisso
diga a ela que eu vou, eu vou, eu vou
Pois quero olhar o seu sorriso,
como se não corresse perigo,
e ser displicente pois nada é urgente
eu quero estar perdido

É tanta coisa na cabeça da pessoa
Eu só quero ficar de boa

Hare om
tat sat
chit ananda

Marília Parente foi um grande alento de 2019, com seu primeiro e belo disco Meu Céu, Meu Ar, Meu Chão e seus Cacos de Vidro. Quando tomei conhecimento do disco e o escutei pela primeira vez, fiquei maluco com aquilo! Foi play atrás de play no Spotify, e não teve ninguém pra quem eu não enviasse o link da bolacha. Aderaldo Luciano, companheiro de aventuras na Kuruma’tá, escreveu um texto sensacional pra revista, e o parceiro Jorge Lz destacou o disco no seu programa Na ponta da agulha e fez um bate-papo sensacional com Marília!

Aí veio a pandemia. 

E nela ainda nos encontramos.

E a música de Marília Parente continua sendo uma poderosa e necessária vacina contra esse inferno em que estamos metidos. Sempre combativa, como artista e como jornalista, Marília não ficou parada entre 2020 e 2021, com projetos paralelos como o Avoada, a música Para la tierra volver, canção inédita sobre conta a história dos camponeses jurados de morte em conflito fundiário no Engenho Fervedouro, no município de Jaqueira, na Zona da Mata de Pernambuco (Aqui se encontram a jornalista e a artista de forma comovente).

Mas chega de história, porque o assunto aqui é o primeiro clipe de Marília!

Com o clipe novíssimo para a música Estou Desocupado com Outras Coisas Desimportantes, Marília se insere na tradição audiovisual pernambucana no melhor estilo faça você mesma! Câmera na mão e ideias espalhadas pela cidade, essa cidade assombratícia que é o Recife. E é com os auspícios assombrados da poesia de Augusto dos Anjos e sob a sombra do fazer cinematográfico de Zé do Caixão, que Marília cria uma narrativa de humor e terror maravilhosa.

Augusto dos Anjos – As cismas do destino

Com roteiro de Marília, imagens realizadas por ela e Juliana Verçoza e montagem de Jeã Santos, o trabalho é experimental, divertido, carregado de ironia e inventivo. Marília joga a caveira na rede, nas ruas e praças, no vagar dolente do Capibaribe, apontando os desmandos dessa vida doida e doída que se vive. Será toda a gente caveira, pra e pra cá nesse mundo, só dentes e ossos, sem saída?


O Brasil é uma assombração, mas, para sobreviver sem pirar, a gente precisa abraçar o caos e a morte. É verdade que queremos e vamos mudar as coisas, mas antes disso é preciso rir um pouco da gente mesmo. — Marília Parente


Estou Desocupado com Outras Coisas Desimportantes, que tá lá no disco que, se você não escutou, precisa escutar agora, é uma música deliciosa, num clima folk anos 60 e temperos indianos que só acentuam o contraste com o Recife da pracinha com escorregador de cimento, que a caveira-star do clipe usufrui enquanto as crianças brincam de bola, brincam de balanço. Porque isso é o Brasil. Quem se importa com a caveira? Na verdade, melhor companhia pra conhecer o Recife. O Recife onde Augusto dos Anjos, na ponte Buarque de Macedo, assombrou-se com a própria sombra. Sombra que deve ainda habitar a calçada da ponte, visível, talvez, na lua cheia.

No mais, Marília Parente é já essa grande artista sem medo de inventar, de meter as próprias mãos no fazer de sua arte, ainda isso signifique carregar uma caveira pela cidade.

É tanta coisa na cabeça da pessoa
Eu só quero ficar de boa


Escute Meu Céu, Meu Ar, Meu Chão & Seus Cacos de Vidro
(Álbum Completo) – 2019

Ficha técnica:

01. Meu Céu, Meu Ar, Meu Chão & Seus Cacos de Vidro (Marília Parente)
Voz: Marília Parente
Efeitos: Ugo Barra Limpa
Synths: D’Mingus

2. Dia de João (Marília Parente)
Voz e violão de aço: Marília Parente
Guitarras: Juvenil Silva e Regis Damasceno
Baixos: D’Mingus, Juvenil Silva e Regis Damasceno
Flautas transversas: D’Mingus
Zabumba, triângulo e efeitos: Alexandre Baros

3. Tristeza não Existe (Marília Parente)
Voz e violão de aço: Marília Parente
Guitarras: Juvenil Silva e Regis Damasceno
Baixo: Regis Damasceno
Flauta tranversa e Mellotron: D’Mingus
Bateria: Rafael Daltro

4. Vasudeva (Marília Parente/Marcelo Cavalcante)
Vozes: Marília Parente e Marcelo Cavalcante
Violão e guitarra: Marcelo Cavalcante
Baixo: Juvenil Silva
Bateria: Gil R
Flauta e teclado: D’Mingus
Voz: Marília Parente
Violão e Guitarra: Marcelo Cavalcante
Sanfona: Jonnez Bezerra

10:53 – 5. A Vida no Cariri Demora (Marília Parente)
Voz: Marília Parente
Violão e Guitarra: Marcelo Cavalcante
Sanfona: Jonnez Bezerra

6. Alvorada (Marília Parente)
Vozes: Marília Parente
Guitarras, baixo, violão, teclado: Rodrigo Padrão
Violas: Feiticeiro Julião
Bateria: Gil R
Percussões: Leo Vila Nova
Palmas: Juvenil Silva, D’Mingus e Marília Parente

7. Estou Desocupado Com Outras Coisas Desimportantes (Marília Parente)
Voz: Marília Parente
Coro mântrico: Marília Parente e Ugo Barra Limpa
violões de aço: Juvenil Silva
Viola e sitar: Feiticeiro Julião
Shruti: Ugo Barra Limpa
Baixo: Diego Gonzaga
Bumbo: Gil R
Sino: Ugo Barra Limpa

8. Viagenzinha de Verão (Marília Parente/ Juvenil Silva)
Vozes: Marília Parente e Juvenil Silva
Guitarras: Juvenil Silva
Baixo: Diego Gonzaga
Violão de aço: Juvenil Silva
Bateria: Gil R
Synth: D’Mingus

9. Eu Quero Ver o Cão Mas Não Quero Ver Você (Marília Parente)
Voz: Marília Parente
Violão de aço e órgão: Feiticeiro Julião
Guitarras: Juvenil Silva
Baixo: Diego Gonzaga
Pífano: D’Mingus
Bateria: Gil R

10. Amor, Disco Voador (Marília Parente)
Voz e violão de aço: Marília Parente
Shruti e violão de aço: Ugo Barra Limpa
Sitar e Viola: Feiticeiro Julião
Coro: Mayra Clara, Sofia Freire, Nivea Maria e Ugo Barra Limpa
Guitarras: Juvenil Silva e D’Mingus
Baixos: Juvenil Silva e Diego Gonzaga
Bateria: Gil R


Raiva

Texto de Toinho Castro


Agosto é o mês dos ventos, das chuvas no Recife. Quando pequeno eu ansiava por agosto. Sempre gostei de ventanias, de janelas e portas batendo, e daquela sensação de que a natureza se fez presente. Era um mês em que o mundo mudava e algo novo se incitava. Da minha janela, na rua Pampulha, eu via a chuva vindo, o vento no rosto, naquele navio que era o edifício Inês. Alceu Valença tem uma bela canção sobre agosto, chamada Lava mágoas.

Nessas tardes molhadas de agosto
Sinto a chuva lavando minha alma
Sinto o frio entrando pelos ossos
Como uma coisa um troço
Não sei explicar

Agosto também é mês de muita gente boa. Jorge Luis Borges, Leminski, Clara Nunes… todos nasceram em agosto. E Julio Cortázar, nascido em 26 de agosto de 1914, em Ixelles, uma comuna de Bruxelas, na Bélgica. Filho de pais argentinos, que regressaram à pátria quando ele tinha 3 anos, Cortázar se tornou uma dos grandes escritores da América Latina com reconhecimento mundial, que perdura até hoje. Recordo aqui Cortázar, não à toa. Ontem, a minha mãe, que vive em Natal, para onde voltou aos oitenta e poucos anos depois de viver 60 anos no Recife, duas cidades tão distantes de Ixelles, contou-me uma história que muito me lembrou um conto do Cortázar. Na pequena história, quase anedótica, há algo que me pareceu um deslocamento da realidade, desses que nos causa certo assombro íntimo, e demonstra que há no mundo mais camadas ocultas que expostas.

Aos 21 anos minha mãe casou e foi morar no Recife, com meu pai. Nem vou falar aqui da mudança enorme, para aqueles tempos, nos anos 50 do século passado. Nem vou falar do grande desmonte do seu imaginário, de menina crescendo nas dunas de Natal, jogada de repente diante do mundo caótico de uma cidade maior e de tudo que estava por vir, como uma nave penetrando a atmosfera, o escudo térmico esquentando, sem saber se conseguiria atingir o solo ilesa. Pois bem.

Contou-me minha mãe que certa tarde foi ao armazém, ou padaria. Ao chegar lá, informou ao homem do balcão que estava ali para comprar raiva. Sim, isso mesmo. Raiva. Espantado e sem saber exatamente o que responder, ele argumentou que lá não vendiam raiva. Que não gostavam de raiva e que não queriam saber de raiva. Minha mãe não entendeu, pois raiva era coisa comum em padarias, armazéns, bodegas de bairro. Pelo menos lá em Natal. Agoniado com a situação e sem saber mais o que fazer, o homem chamou pela esposa, que estava lá nos fundos, a quem foi explicado que minha mãe estava alai pra comprar raiva. Com mais uma pessoa sem saber por que diachos aquela mulher estava ali atrás de raiva, a situação tendia a ficar mais complicada, quando… quando minha mãe, ao olhar ao redor, por fim saltou uma exclamação:

— Olha ali a raiva!! Naquele pote! — E apontou para um pote de vidro numa das prateleiras.
— Minha senhora! Raiva?! Aquilo é bolinho de goma!

E foi então que a situação se esclareceu. Minha mãe explicou que em Natal, aquilo chamava-se raiva, e nunca imaginou que no Recife pudesse ter outro nome. Imagino que todos riram da confusão e dona Lenira voltou pra casa com seu pacote de raiva, ou bolinho de goma.

Passaram-se os anos. Décadas. O mundo revirou-se. Minha mãe viu e viveu coisas que não imaginou viver ou ver. Seus filhos cresceram, meu pai morreu. Por fim, após 60 anos do que, pra ela, constituiu um exílio, ela retornou a Natal, onde vive com meus irmãos. Então continuando a história, disse-me que em Natal, dia desses, foi a padaria. Chegando lá, pediu à moça do balcão por bolo de goma. A moça estranhou e disse-lhe que ali não vendia bolo de goma não; que ela nem sabia o que era. Minha teimou que bolo de goma tem em tudo que é lugar, que não em possível que não tivesse ali, numa padaria como aquela, que tem tudo! Com o circo do bolo de goma armado, minha mãe olhou no entorno e lá estava:

— Olha ali, menina, um pote de bolinho de goma!
— Ah, minha senhora! Mas o nome disso é raiva!


Ri muito dessa história quando desliguei o telefone. Estava diante de um clássico Lenira Castro. No livro Esculpir o Tempo, do cineasta Andrei Tarkóvski, uma espectadora ao escrever-lhe uma carta, comentando seu filme O espelho, diz: De fato não conhecemos o rosto das nossas mães”. Sempre penso nessa frase, sem saber muito bem o que ela quer dizer. A lembrança de O espelho, confesso, me é bastante confusa. É um filme que nunca mais assisti. Mas em momentos como esse, essa frase me vem forte à mente, porque, mais que um rosto, minha mãe é essa história. Mais que uma contadora de histórias, minha mãe são as histórias. É nelas que a reconheço mais intensamente. E é do que sinto mais falta, seu fabular.

Voltando a Cortázar, pensei que essa história da raiva versus bolinho de goma bem poderia habitar um dos seus livros, possivelmente Histórias de Cronópios e de Famas, talvez o primeiro livro dele que li. Me assustei com aquela literatura. Pensei: Então é possível escrever assim!? Sim! Cresci ouvindo histórias que caberiam nas páginas de Cortázar, sem saber que aquilo poderia ser literatura. Sem saber que havia Cortázar, revelando essas camadas do cotidiano e nos colocando em suspensão, assombrados. Cito Histórias de Cronópios e de Famas não só por ter sido o primeiro, mas também, e principalmente, por trazer essa outra história, essencialmente não muito diferente da que a minha mãe contou. De tantas que escutei dela ou do meu pai, ou dos meus tios. Histórias que encantavam a mim, meus irmãos e primos.

Quando eu junto na minha cabeça, Cortázar, minha mãe, Natal, a bodega perto da minha casa, meu pai e todas as histórias compartilhadas em família… tudo faz sentido pra mim. E não importa que não faça pra as outras pessoas.


Dois sons pra escutar agora!

Texto de Toinho Castro


Vírus, de Laura Finocchiaro

Às vezes o rock’n’roll fica muito quieto e comportado, e dá saudade das explosões raivosas, que só ele é capaz, contra o sistema das coisas, contra o que oprime, sufoca, encurrala. Rock de reação, de pé na porta, de “tô aqui!”, pra sacudir e, quem sabe, derrubar as estruturas. E eis que a  cantora, compositora, guitarrista, arte-educadora e produtora musical, Laura Finocchiaro, chega mandando ver com seu single Vírus, que traz letra afiada do jornalista João Luiz Vieira.

No comando da produção e de todos os instrumentos, com parceria luminosa do percussionista e baterista João Parahyba no groove, Laura se solta contra o Vírus que assola o país. Não só o corona, na sua vertiginosa ocupação das nossas vidas, mas os tantos vírus soltos por aí, reforçando a chocante mortandade. A corrupção, as fake news, o egoísmo do negacionismo, diante do óbvio e da morte de centenas de milhares de brasileiros. Uma canção contra o genocídio e o genocida.

Vírus é poderosa, é cortante, dilacerante e carregada da raiva justa, explosiva. Rock’n’roll sem medo dessa artista que, no ano que vem, completa 40 anos de carreira independente, atravessando o cenário da música brasileira, desde a estreia no Lira Paulistana, e ao longo de 11 discos lançados, com consistência, vigor e a sagacidade necessária pra dar saída e voz a esses sentimentos que a gente tá carregando desde que se instalou a pandemia!

Quero te mandar pra lá,,, Patife!
Quero que você se mova,,, Sem vergonha!
Quero te mandar calar… Vil!
Quero que você se exploda… Vírus do Brasil!

Escute Vírus nas plataformas de streaming!


Catiré (Na Bahia foi), de Litieh

E agora para algo completamente diferente. Diferente, mas que, de alguma forma, se soma a um trabalho como o da Laura Finocchiaro, pra falar com a gente nessa confusão em que estamos metidos. Litieh, que eu adoro de coração, traz pra gente essa versão de Catiré (Na Bahia foi). Música linda linda. Tá lá no álbum Catiré, que Litieh lançou em 2015. Tá lá com o tal swing delicioso que só Brasil tem. E é desse Brasil que dá saudade nesses dias duros que vivemos. Então ela, Litieh, vem e me regrava Catiré numa ternura, numa delicadeza comovente.

Dou play no streaming, e dou play de novo. Porque é música de ficar em looping, mantra que nos resgata no ser gente. Nos tira dessa falta de ar e de luz, que se impõe, e nos coloca na beira do mar, de pés firmes, encantados. Na Bahia, onde a gente se desmonta. O trabalho todo de Litieh é esse, carregado desse país revelado pelo afeto, pela conexão com as ancestralidades, pelos ritos e melodias. Tudo cultivado num instrumental finíssimo e costurado com essa voz boa de se ouvir, voz com jeito de reencontro que essa artista te.

Ouvir Catiré é retornar a um Brasil não devastado, para crer na possibilidade de reativar esses centros nervosos da coletividade, da dança pé-no-chão, do que ensina os orixás e nossas avós, Brasil da viola e da roda, de samba, de coco, de ciranda, de maracatu. Escutando essas filigranas de Carité, penso no que estamos destinados a ser, como num sonho, para além de toda violência e desmando a que assistimos. Penso nessa praia na Bahia, ou Pernambuco, ou beira de rio no Pará. É o que somos. Litieh não me deixa esquecer.

Eu sonhei
Ver esse dia chegar
E eu pude, então
Morar na beira do mar

Escute Catiré (Na Bahia foi) nas plataformas de streaming!