Jandaíra corria em sua bicicleta pelas ruas vazias do Recife. No pequeno aparelho de MP3 tocava em looping a musiquinha do momento, com seu infatigável refrão: Tá todo mundo morto, tá todo mundo vivo. Ela só ria da canção. Você pode imaginar Jandaíra como uma adolescente, com sua bicicleta e sua juventude cristalina. Mas Jandaíra tinha 34 anos, e uma bicicleta que a carregava pra lá e pra cá, numa cidade silenciosa e perigosa. Mas ela não ligava. Jandaíra havia perdido tudo. Jandaíra não tinha ninguém. Seus pais, a maior parte absoluta das suas amizades, desafetos, professores, vizinhos e estranhos, havia desaparecido. Tá todo mundo morto. Mas Jandaíra trocava ideias com os mais chegados dessa turma com alguma frequência, porque tá todo mundo vivo; como dizia a canção.
O telefone de Jandaíra raramente tocava. Mas naquele fim de tarde, depois que ela largou a bicicleta no corredor do décimo andar do pequeno prédio, espremido entre dois hotéis, em que vivia, ela escutou o velho e familiar toque. Demorou a reagir com o que deveria ser o gesto automático de atender. Por fim, disse:
— Oi! Diga lá… (pausa) — Sim, sim… eu tô ligada. Tô sabendo! Quem não tá, né?! (pausa) — Sim, imaginei que você ia. Eu entendo. Aliás, nunca disse que você não devia… (pausa) — Pois é… dizer que eu apoio é excessivo, né. Mas é sua vida, né. Não vou te dizer o que fazer e, honestamente, espero o mesmo de você… (pausa) — Não, não tô chateada… desde que você não me chateie rsrsrs. Mas, cara, de boa, acabei de chegar em casa. (pausa) Sim, tava pedalando… enfim. preciso me arrumar aqui, tomar um banho. Essas coisas que gente faz. (pausa) — Não!!! Não tô ironizando, não. Só perturbando um pouco rsrsrs. — Ok… Ok… Mais tarde eu ligo. Prometo.
Naturalmente era a conversa. A conversa que tem perseguido os dias e noite de Jandaíra. “Foda-se! Não quero ter essa conversa!”, pensou Jandaíra deixando a roupa no chão e se isolando do mundo sob a ducha de água quente que o chuveiro despejava sobre seus cabelos cacheados e sua pele escura, como a de sua mãinha, de sua avó e de gerações dos seus, até ela. Até ali, aquele momento na história, depois de tantas tormentas e travessias, tantos porões fechados e céus abertos sobre suas cabeças. Anos, décadas, séculos sobrepostos e ainda tinha gente querendo dizer a ela o que fazer, o que era melhor pra ela e mesmo decidir por ela… e da pior maneira, como se estivessem explicando ela pra ela mesma. Como se ela não soubesse quem era. Ali, embaixo do chuveiro, Jandaíra prometeu a si mesma que não ligaria mais tarde. Falou pra si mesma que as pessoas que restavam já estavam mesmo desistindo dela, do seu caso perdido. Só lamentavam… Ela mesma só queria pedalar e se abastecer do que restara aos pouco que resolveram ficar.
— Foda-se! — Berrou Jandaíra de dentro de sim mesma, espalhando água com a força do ar que saía de sua boca. Ninguém ia ouvir mesmo.
Você que faz parte da conexão Kuruma’tá, precisa conhecer o trabalho do poeta, escritor e dramaturgo Daniel Rodas, que ainda é editor da bravíssima Revista Sucuru, que é parceira da Kuruma’tá na Rede AFETIVA de Culturas.
Daniel acabou de lançar, pela Editora Urutau, seu livro Umbuama (Que título lindo!),trabalho selecionado para publicação em chamada especial da editora para a região Nordeste, juntamente com outros títulos de autores nordestinos, no primeiro semestre de 2021. Umbuama é um neologisco, que nasce de “umbu” (que vem de “umbuzeiro”, árvore nativa do sertão nordestino) e da partícula “ma-“, que remete tanto ao verbo “amar”, quanto à palavra “mãe”. Resistência e ternura numa palavra só.
Os poemas de Umbuama assentam-se, portanto, na materialidade das coisas sobre a terra. Não para a simples contemplação da paisagem e de seus elementos materiais, mas como fagulha que impele o sujeito poético a perquirir sobre a geografia mais íntima do Ser e produzir imagens da beleza íntima da matéria que não teme a passagem do tempo, mas o acolhe em seu interior e se molda às suas investidas, como o velho umbuzeiro que consegue resistir às intempéries e fincar-se soberano sobre a terra.”
Prof. Dr. Marcelo Medeiros (trecho da orelha do livro)
O poeta brinda a Kuruma’tá e quem a lê com três poemas selecionados do seu livro, pra que a gente abra essa porta que existe no Umbuama, entre e não saia mais!
Lições do Umbuzeiro Arvorar as raízes Da vida
Fazer-se carne Mesmo que ao Vento
Buscar sustento Nas profundezas Da terra
Matar a morte Na teimosia do Instante
Estar aqui Agora e amanhã
Mas sem nunca Esquecer
As tardes do Ontem.
*
Andorinha Não escolho em quem faço Caca Só vejo a cabeça E a camisa alva
O resto é sociologia dos Fundos.
*
Na Floresta Dormiremos em paz esta noite Os bárbaros não virão Esqueceram as motosserras.
Trata-se de uma obra sobre o ser humano e o mundo que o cerca; de uma obra política, de contestação à crueldade e à arrogância; e de reafirmação da humanidade enquanto parte integrante da Vida.
Já contei essa história aqui, em outro texto, mas vale recordá-la. Eu era moleque, me encantando com os primeiros contatos com a ficção científica. Ainda sem entender muito bem, mas fascinado por aqueles mundos distantes da minha rua. Certa vez visitamos tia Nadir, minha tia avó, por parte de mãe. Lá na Vila Tamandaré. Enquanto os adultos conversavam, eu me entretinha com uma edição de bolso de 2001/ Odisséia espacial (Assim era o título, nessa edição!), de Arthur C. Clarck. Como eu já disse, não entendia muito bem, mas viajava naquilo! Em dado momento, tia Nadir passou por mim, reparou eu lendo e pegou o livro da minha mão. Observou, folheou rapidamente, olhou pra mim e disse: Eu também vivi uma odisseia. Depois dessa frase fantástica, ela me narrou sua viagem, de ônibus, a São Paulo (Ou Rio de Janeiro?!), lá em mil novecentos e bem pouco. Ouvi atento, e minha tia parecia-me mais uma astronauta das páginas de Arthur C. Clarck ou Asimov.
Em 1993, atravessei eu mesmo o Brasil, do Recife ao Rio de Janeiro, na mesma trilha de tia Nadir, num ônibus da Itapemirim. Uma longa viagem pela BR-101, pra descobrir, em Ipanema, que eu sou Nordestino. Pra descobrir que falo outro idioma. Que eu sou outro idioma. Porque somos linguagem. Ser reconhecido ou confundido com baiano pelo sotaque… na sequência, a explicação: Não, sou do Recife. Das quantas vezes que escutei as pessoas dizerem que amam as praias e o carnaval, e me perguntarem do frevo ou do maracatu, ou Olinda. Ou se eu conhecia Fulano. “Mas ele é de lá!”. Não, eu não conhecia fulano e ouvia rock progressivo num quarto na Imbiribeira, na rua Pampulha.
Mas era sempre como se eu precisasse corresponder à expectativa desse lugar imaginário, sem imaginação, porém. O lugar repetido de uma pessoa pra outra. Eu era de outro lugar.
Com 25 anos de Rio de Janeiro, feliz em Vila Isabel, boto pra tocar o Nordeste Ficção, primeiro trabalho solo de Juliana Linhares. Gente, como faz com esse disco?! É como um reencontro comigo mesmo e com os meus. Ainda aqui, sob o impacto da emoção poderosa que brota da audição do trabalho dessa potiguar.
Lá em 1979, Belchior anunciava: Nordeste é uma ficção / Nordeste nunca houve.
Movida pela encenação da peça A invenção do Nordeste, do Grupo Carmin de Teatro e pela leitura livro A invenção do Nordeste e outras artes, de Durval Muniz de Albuquerque Jr. (Comprei!), Juliana construiu no seu disco um painel iluminado, de alegria, dança, força, vida, música, coragem, amor, saudade, infância, crença… um mapa vertiginoso desse Nordeste, que não é uma delimitação geográfica, mas uma vitalidade, um embrenhamento de pessoas e trocas culturais e afetivas.
Quero dizer a Juliana que quando escutei Bombinha (composição de Carlos Posada, nem acreditei no recado certeiro: E não quero ir pra Marte / Quero ir pro Ceará! Num mundo torto de Jeffs e Elons enviando turistas pro espaço, quero pegar de volta a BR-101. É uma abertura de caminhos, de jornadas, por um continente interior, que é feito de gente. Gente espalhada pelo mundo, gente que canta e cuida dos seus. Bombinha é esse chamamento poderoso para o brincar. Força e lirismo. Um negócio de arrepiar. Um estandarte anunciando o que virá a seguir, na próxima música. E na seguinte e nas outras.
E o que vem na sequência é esse olhar terno para nós mesmos, um rendado delicado e comovido, uma conversa de portão, quando anoitece. O balanço do mundo, o balando da rede no terraço, do casal ao som do fole numa noite de junho. O disco de Juliana é um inventário de um Nordeste, não o inventado, mas o sonhado e vivido, como em sonho. Lá estão minha mãe, meu pai, meus avós na rua dos Pescadores, meu bisavô Miguel Canuto, em Natal, olhando do seu portão a Avenida Um. A valsa que ele fez pra minha bisavó, Dedê.
Juliana tem uma voz poderosa, nítida, cheia de lirismo, que tece memória e contemporaneidade com elegância e alegria. Como toda festa, Nordeste ficção é feito de muita gente. Tá lá o genial Chico César em duas parcerias com Juliana (Embrulho e a deliciosa e amorosa Lambada da lambida), tá o Zeca Baleiro no dueto e parceria de Meu amor afinal de contas, a presença de Petrúcio Amorim com sua Tareco e Mariola, o grande Jessier Quirino com a lindeza do seu Bolero de Isabel e um Tom Zé clássico e cirúrgico com a inédita Aburguesar, que conta ainda com um dueto com Letrux!
Nordeste ficção, completo
Perpassa a ideia de Nordeste a afetividade, a criatividade e também a política, e é com força política demolidora, mas também divertida, cheia de ironia, vibração e coragem que Juliana encerra o Nordeste ficção, com Frivião que não deixa, jamais, a gente se aquitar!
Vem me atacar Que quando eu canto milhões se juntam pra cantar Vem se assumir Que eu canto de peito aberto, que é certo, esse mal vai sumir
Vem me abraçar, vem se amar, sacudir, vem dançar Vem falar, se esfregar, se perder, libertar Em toda forma de amor há motivo pra gente lutar
O coração na canção grita que assim não dá não Tradição, mutação, vida e evolução O frivião que não deixa se aquietar
Nordeste ficção me chegou como uma descarga elétrica, arrepiando. Chegou com uma afirmação poética e libertária. Jogando pro alto o Nordeste fácil e abrindo a complexidade de falas, olhares, visões versos e vidas do lugar onde eu nasci. Conheço o meu lugar.
Fazia tempo que eu não chorava ouvindo um disco. Obrigado, Juliana.
PS. Que capa linda, rara!
Aproveito para compartilhar um texto que escrevi há tempos, movido por esse sentimento que a gente encontra em Nordeste ficção. Só que eu falava do Recife, do meu bairro a Imbiribeira. Um microcosmos que contrastava com os clichês acumulados, esses que roubam a narrativa do que é uma cidade e suas ruas.
Acabei escrevendo e publicando um livro, Imbiribeira, para revelar esse slide guardado na memória e surpreender as pessoas com o que eles não imaginam que seja o meu lugar, aquilo que sou.
O meu Recife é outro
do livro Imbiribeira de Toinho Castro
Quando chego num bar, numa reunião de amigos, basta eu começar a falar e logo alguém repara no meu sotaque, aos poucos perdido nas águas da fala carioca, e pergunta-me: Você é de onde? Mal afirmo ser do Recife e já começam, um e outro, a tecer loas sobre meu sotaque restante, e sobre a cidade de onde vim, há mais de vinte anos. Em geral, a gentileza das pessoas, sempre bem-vinda, evoca o Recife que lhes é acessível, de pontes e poesias, como as de um João Cabral de Melo Neto. Ou frevo, às vezes Capiba, inevitavelmente as praias… assim como ao falar do Rio de Janeiro, evocariam o Cristo Redentor, o samba ou a feijoada. Mas preciso dizer que, embora esse Recife faça parte do meu repertório, o meu Recife é outro. De outra ordem e natureza.
Meu Recife é muito diferente do Recife mítico do Capibaribe ou rua da Aurora, ou dos versos de Ariano Suassuna no seu poema Canto Armorial do Recife – Capital do Reino do Nordeste, a nos lembrar o lugar do Recife no mapa afetuoso de Pernambuco.
Meu Recife não é capital nem nada; é beira do tempo e do espaço. Meu Recife é o Recife da Imbiribeira e do Ipsep, do Ibura, com o mar logo ali adiante, bafejando maresia. Meu Recife é espalhado de galpões, oficinas e pequenas favelas escondidas; a Ilha de Deus e o Mata Sete, fermentando sob o ruído dos aviões decolando no Aeroporto dos Guararapes. Tenho essa recordação, de estar no alto do Montes Guararapes com meu pai, assistindo ao aeroporto acontecer logo ali abaixo. A pista extensa e a luz acinzentada de um fim de dia. Será verdade ou memória inventada de tanta vontade?
Meu Recife é de pouca luz e muitos terrenos baldios, de Ave Maria rondando as casas ao anoitecer e do caminho até o bairro de Afogados. Um Recife sem épicos, sem movimentos musicais ou brincantes. Uma ou duas bodegas, o canal, vestígio do mangue, cheio ainda de xiés, e as fogueiras cobrindo tudo de fumaça nas noites de São João. Entre tantas fogueiras acesas no passado, curiosamente, nunca esquecerei é a fracassada fogueira de paus verdes, que meu pai comprou e chiava, espumando ao calor, como os xiés no velho canal, mas não pegava fogo de jeito nenhum, em tentativas cada vez mais infrutíferas de acendê-la. Nem sai da lembrança a canjica com gosto de sabão, tão mal preparada pela vizinha, cujo nome não revelo. Ela já não está entre nós há alguns anos. Partiu, talvez, sem aprender a fazer uma boa canjica; o que não sabemos, no entanto, é também parte do que somos. Recordá-la pela sua canjica intragável não deixa de ser uma curiosa reverência. Em tempo: você precisa limpar todo o cabelo das espigas de milho, caso contrário, saberá a sabão. Permito-me também essa vaidade de guardar um pequeno segredo.
Esse Recife, não recordo de ter sido registrado em verso ou cinema ou fotografia, ou algo qualquer que a gente possa chamar de arte. Um Recife desaparecido, por definitivamente irrelevante, para além das pequenas vidas que ali se moviam e dali desapareceram. Meus amigos e eu nos reuníamos às vezes em volta de um bueiro na encruzilhada da rua Pampulha com a rua Itamaracá, para falar sobre coisas que jamais interessariam a mais ninguém; nossas vidas pequenas e sem esperança na escuridão reinante à nossa volta. Eram os marcos desse meu Recife a ponte na fronteira com a Vila do Ipsep, que eu atravessava de bicicleta pra vadiar; a linha de trem, cruzada cotidianamente para ir à casa de Roberval, e que nos separava também de Boa Viagem, da praia; havia ainda o aeroporto, fronteira com o mundo, e a ponte Motocolombó, nos limites com o bairro de Afogados.
Um Recife mínimo, sem charme, impermanente. Quando escuto barulho de avião ainda olho pro céu e tenho a lembrança de algo que pode não ter acontecido, eu e meu pai no alto da colina dos Guararapes.
ATUALIZAÇÃO
Showzaço de Juliana Linhares no Festival Levada
9 de dezembro de 2021 – Teatro Rivel Refit
Fotos lindas de @rogeriovonkruger, cedidas pelo Festival Levada ___ Nessa última quinta a Kuruma’tá botou o pé na rua pra ver o primeiro show desde que a pandemia começou. E somente o @festivallevada pra motivar esse feito. O Levada com sua alegria e curadoria de primeira linha. E o show escolhido dentre os quatro programados nessa primeira etapa no festival foi Juliana Linhares, com seu Nordeste Ficção!
A Juliana Linhares é uma fonte de energia e encantamento. Quando ela abre aquela voz límpida, potente, tudo se alumia! Desfiando o repertório do disco lindo que ela realizou nesse 2021 (Leia aqui sobre o Nordeste Ficção), Juliana nos pegou pela mão pra dançar e viajar por um Nordeste acima dos clichês.
Sua música é território. Sua presença de palco é onda que se espalha e preenche espaços e corações de quem a assiste. Aquece. O show Nordeste Ficção é pautado pelo encontro, com a música cumprindo seu belo papel de conectar as pessoas numa só, nessa imensidão nordestina de sertões, praias, terreiros e quintais. Nordeste da fala, da dança, da literatura imensa que mapeia modos de ser, de estar e imaginar. O amado Teatro Rival estava nordestinado.
Escutar Galope razante, de Zé Ramalho, e Capim do Vale, de Paulinho Tapajós e Sivuca e ancestralizada na voz de Elba Ramalho… Escutar essas música com Juliana, é de dar água nos olhos. Reencontro com uma música formadora, chão de terra. De repente todo mundo ali sabe de onde veio e o que nos liga. E chegando aos tempos novos, das novas vozes, tá Karina Bhur, representada com uma vibrante versão de Eu menti pra você. E a beleza da versão em libras de Embrulho, emocionante porque foi tão natural e tão necessária nesse país que urge por inclusão!
Saímos dali de alma lavada, lembrados de que se tem alma e leveza. O show foi um retorno ao mundo, ao Rival, aos encontros. Um retorno à casa, como se logo ali estivessem as águas mornas de Boa Viagem, do Cabo Branco, de Ponta Negra.
PS: Todo show devia ter violino!!!! PS2: Banda impecável
A Cálida noite de Eduardo Ezus
Revista Kuruma´tá recomenda! —
É de Natal, a Cidade do Sol, que vem a poesia de Eduardo Ezus, que está lançando, em novembro, seu segundo livro, Cálida Noite. A Kuruma’tá, que aposta na nova poesia, na descentralização criativa e na diversidade de vozes, fica feliz demais com essa publicação.
Lançado pela Margem Edições, de Belo Horizonte, o livro está em pré-venda até 16 de novembro, e se você acredita na poesia independe como a gente, chegue lá e reserve o seu.
Generosamente, Eduardo compartilha com a gente dois dos seus poemas:
* Ali haveremos de retomar o passeio sobre os instantes e descalços sobre espessa areia fina seremos como a noite é para a lua o manto À tábua rasa dos desejos finda a sombra arvoreira o mundo desabará como em úmidas camadas salgadas e entre as vagas será de vagar a nossa vida.
* De brumas a mover-se em fulgor disperso no ar é a matéria deste pensamento Seguindo o itinerário tonto em solo segue – tal qual o mar também o sertão esse lugar sem bússola extenso e estreito enquanto vaga o olhar como em onda fosse brilho e brio de existência líquida.
Da quarta capa de Cálida noite
É à noite – na desorganização das cidades – que se libera o calor residual do dia, retido nos telhados, nos prédios, no asfalto. É o retrato que se evola quando o sol se esconde deixando suas impressões, e só ao poeta cabem as chaves desse enigma, que nos revela, nos ilumina, através de seus versos. Tal qual o barqueiro, aqui é o jovem Eduardo Ezus quem conduz à jornada da madrugada interior, deslizando sobre o Aqueronte a tinta de seu barco ébrio em seu livro de estreia, Cálida Noite. É preciso coragem para a aventura, pois “Onde navego, o silêncio reina” nos diz. “Já não importa se as páginas / são escritas à beira do abismo”. Aviso aos navegantes.
– William Eloi, escritor.
Eduardo Ezus
Amândio Cardoso e seu Rio madaleno
— Poema de Amândio Cardoso O poema Rio Madaleno é mais uma colaboração do amigo, poeta e publicitário Amândio Cardoso, com seu olhar sensível sobre a cidade, que é também uma cidade interior.
O poema Rio madaleno é mais uma colaboração do amigo, poeta e publicitário Amândio Cardoso, com seu olhar sensível sobre a cidade, que é também uma cidade interior.
Rio madaleno
Esse pouco rio que tenho, é o pouco rio que tenho Para quê mais? Se esse é o rio que me cabe nos olhos O pouco rio imenso que ocupa minha varanda Verde e encurralado por prédios Resiste como capivara esse pouco rio que resta O rio, que na foto é um lago para quem vê da Argentina, é apenas uma ideia de longe Esse pouco rio que vejo de cima me basta como um céu Para que mais de um rio se neste olhar ele fica-me perfeito e eterno, como as lembranças da Mandela que ele carrega e cerca? Fique assim como um rio madaleno Leva me esse dia Leva me Graças Molha-me esta Páscoa
Abril de 2021
Ilustração de Amândio Cardoso
Ritos Encantatórios & Outras ladainhas, de Aline Cardoso
É através da palavra que existimos no mundo, decidimos iniciar ou fechar ciclos, é através do verbo que ritualizamos o cotidiano. — Aline Cardoso
A paraibana Aline Cardoso é uma realizadora. Escritora/poeta, professora, editora, ativista cultural com o Sarau Selváticas. Neste instante em que escrevo, ela deve estar aprontando algo, elaborando páginas e livros, planejando inserções poéticas no cotidiano da cidade, revirando o interior pra destilar literatura. Conhecer Aline foi conhecer uma energia vibrante, corajosa. Isso está no seu texto, na sua poesia (que reside para além do texto inscrito na página). Poesia é uma condição humana e Aline sabe disso!
Entre 2019 e 2021 publicou os livros de poesia A proporção Áurea do Caos e Harpia. Agora ela nos chega com seu primeiro livro de prosa ficcional, Ritos Encantatórios & Outras ladainhas, pela sua editora, a Triluna! Diz Aline que não havia projeto para esse terceiro livro. Escritas num transe de 12 horas, as páginas lhe caíram como um raio. E que raio auspicioso foi esse, que raio revelador. São 20 textos curtos, espertos, ou melhor, despertos. Que se desenrolam como quem conversa com o leitor. E esse leitor é dinâmico, não pode ser passivo. É um leitor chamado a pensar, se pensar, se posicionar narrativamente. Como ela diz, é um convite ao leitor, para que ele cante para as serpentes. Bonito isso, né?!
Aline Cardoso inicia “Ritos encantatórios e outras ladainhas” fincando, com força, os pés no chão da identidade: “Eu sou negra e potiguara”. A firmeza desse posicionamento orienta sua escrita. E esse “sua” inclui todo o passado, o presente e o futuro que a constituem: a bisavó arrastada, domada, marcada e estuprada pelo invasor; a vó parteira; a mãe; ela mesma, professora: “eu quero tá dentro da escola pública. Pobre bem informado é hidra”; e sua filha.
Do prefácio de Alexsandro Lino
Palavra da Aline
É através da palavra que existimos no mundo, decidimos iniciar ou fechar ciclos, é através do verbo que ritualizamos o cotidiano. A linguagem que dá corpo a Ritos é fluida e de fácil compreensão, optei por produzir ficções curtas em primeira pessoa sem a descrição de personagens, exceto no primeiro texto que abre o livro. Voltando a atenção e o foco narrativo para o enredo, experimentei conduzir o leitor por diálogos breves, fluxos de consciência e especulações típicas do dia a dia. A conversação típica está imantada de poesia, é da palavra que nasce nos coletivos que a literatura precisa se alimentar para manter-se viva, para adentrar nos mais variados contextos. Procurei escrever como quem conversa com um amigo, como quem conta pequenos segredos, explorando a curiosidade do leitor ao não lhe entregar todos os elementos fechados e encerrados na minha concepção de ser. Quando escrevo em primeira pessoa dou ao outro o lugar agente, coloco-o ativo dentro da narrativa, cedo às vestes de serpente para que encarnem o livro, inauguro um serpentário e convido o leitor a cantar para as serpentes. Escrever, para mim, é sempre o exercício de rebuscar o que há de pulsante na vida e em nossas ladainhas, a fim de manter fresco o mistério, sangue que alimenta o encantamento pela palavra.
Lavro e dou fé!
Acredito enormemente no trabalho da Aline, no alcance de sua poética, ainda que seja prosa! Mais que isso, no alcance e relevância de sua atitude poética. Publicando sua prosa, em Ritos Encantatórios & Outras ladainhas, Aline abre novos espaços afirmativos. Apura
A Editora Triluna é independente, como Aline. O processo de publicação se dá com o apoio dos leitores, confirmando que é o leitor que dá vida ao livro. Tiragens pequenas, sob demanda, que vão espalhando a literatura da Paraíba pelo mundo. Os livros da Triluna podem ser encontrados na Biblioteca Pública de Nova York e nas bibliotecas das universidades de Stanford, Columbia e Yale. Ritos encantatórios já segue esse caminho. Aline tem ciência do caminho do livro, desde a escritura, passando pela sua produção, incluindo o projeto gráfico, até a distribuição e divulgação. Linha direta com quem importa. Com quem lê
Anote: Entre na lista de pedidos para a próxima tiragem de Ritos Encantatórios & Outras Ladainhas, entrando em contato direto com a Editora. O livro custa R$ 37,00 com frete incluso:
ALINE CARDOSO é natural da Parahyba, Feminista, Artivista, Professora de Linguagem, Mestra em análise do discurso pela UFPB, Provocadora cultural do Sarau Selváticas, Cofundadora do Sagaz Zine, Fundadora da Editora Triluna, Doula, Bruxa e Mãe Solo. Publicou entre 2019 e 2021 os livros de poesia: A proporção Áurea do Caos, Harpia e o seu primeiro livro de ficção: Ritos Encantarórios & Outras Ladainhas.
É preciso ter curiosidade, é preciso querer mais e preencher lacunas. Nas livrarias, nos sebos, vá e procure por outros livros. Não por esse ou aquele outro do autor de sempre. A literatura é o reino das possibilidades. Por favor, leia abrindo portas, abrindo caminhos. Tenho nos últimos tempos me dedicado a isso, ao romper da rotina literária, do terreno familiar, para me embrenhar em matas de letras, riachos de palavras novas. Assim que dei com a literatura de Cristiane Sobral, que, vejam só, eu não conhecia. Uma autora com 11 livros publicados, num jogo de contos, poesia, teatro, ensaios. Uma mulher inquieta, pensante, com um texto desafiador. Uma mulher negra, que me aponta uma grandeza de tradições, ritos, narrativas e afetos, que eu preciso olhar. Preciso adentrar.
Aprender a ler outrem. Aprender é ler outrem.
Amar antes que amanheça (que título poderoso!) é o décimo primeiro livro de Cristiane Sobral. E aprender dela somente nesse livro, é uma denúncia da lacuna enorme que preciso preencher. Publicado pela bravíssima Editora Malê, o livro reúne 15 contos em que o amor é uma força motriz, e ao mesmo tempo uma leveza generosa. Um refúgio nesse mundo de tensões, atritos, violência. Amar antes que amanheça. Amar antes de tudo. Amar antes.
Destaque para a bela capa com arte de Josafá Neves
No conto que abre o livro (sem spoiler, por favor!), vamos sendo enredados numa história que se dá na rua, que vai desenhando um caminho e um desfecho, e que, de repente, se deslinda no real, num tapa de acorda! Quem és tu?! Demorei a entrar no segundo conto, porque aquele começo me chamava de volta. E voltei e li de novo, atento, sob uma perspectiva nova, didática, certeira. Que coisa bela ser tirado do lugar assim.
Aí sim fui para o segundo conto, e para o terceiro, numa jornada que não cessa e pede mais, mais dessa literatura que nos exige tirar o véu. O amor em toda parte para quem o procura e o inventa. São páginas de mitologias, história, geografias, revelações e, sobretudo, desse novelo/novela que é ser gente. A leitura de Amar antes que amanheça é tão fluida e natural, que quando você dá por si, o livro já tomou conta do seu imaginário, do seu pertencimento. Os povos negros que povoam suas páginas vem de tantas origens, tantos caminhos, para dar aqui, nesse labirinto de encontros e desencontros, a sua história. Leio para aprender. Leio para não esquecer.
Cristiane Sobral é uma contadora de histórias, e reúne ao seu redor as comunidades muitas, no tempo e no espaço, de que são feitas as vidas da gente. A história é essa pedra que cai na água e provoca essas ondas concêntricas, que vão se espalhando e impactando, transformando nossas vidas. É o papel de quem conta histórias. É sua força, iniciar esse ciclo de mãos dadas.
A literatura afro-brasileira é porta e janela abertas. E convite. Temos muito o que ler nessa senda. A obra de Cristiane Sobral tá me chamando, e a esse chamado eu atendo.
Em 2010, Cristiane Sobral publicou seu primeiro livro individual, Não vou mais lavar os pratos. Dele destaco o poema que dá nome ao livro, para compartilhar a energia poética de Cristiane e sua força afirmativa, de vida.
NÃO VOU MAIS LAVAR OS PRATOS
Não vou mais lavar os pratos Nem vou limpar a poeira dos móveis Sinto muito Comecei a ler Abri outro dia um livro e uma semana depois decidi Não levo mais o lixo para a lixeira Nem arrumo a bagunça das folhas que caem no quintal Sinto muito Depois de ler percebi a estética dos pratos a estética dos traços, a ética, a estática Olho minhas mãos quando mudam a página dos livros Mãos bem mais macias que antes Sinto que posso começar a ser a todo instante Sinto. Qualquer coisa Não vou mais lavar. Nem levar Seus tapetes para lavar a seco Tenho os olhos rasos d’água Sinto muito Agora que comecei a ler quero entender O porquê, por quê? E o porquê Existem coisas Eu li, e li, e li Eu até sorri E deixei o feijão queimar… Olha que o feijão sempre demora a ficar pronto Considere que os tempos agora são outros… Ah, esqueci de dizer Não vou mais Resolvi ficar um tempo comigo Resolvi ler sobre o que se passa conosco Você nem me espere Você nem me chame Não vou De tudo o que jamais li, de tudo o que jamais entendi Você foi o que passou Passou do limite, passou da medida, passou do alfabeto Desalfabetizou Não vou mais lavar as coisas e encobrir a verdadeira sujeira Nem limpar a poeira e espalhar o pó daqui para lá e de lá para cá Desinfetarei as minhas mãos e não tocarei suas partes móveis Não tocarei no álcool Depois de tantos anos alfabetizada Aprendi a ler Depois de tanto tempo juntos Aprendi a separar
Meu tênis do seu sapato Minha gaveta das suas gravatas Meu perfume do seu cheiro Minha tela da sua moldura Sendo assim, não lavo mais nada E olho a sujeira no fundo do copo
Sempre chega o momento De sacudir, de investir, de traduzir Não lavo mais pratos Li a assinatura da minha lei áurea escrita em negro maiúsculo Em letras tamanho 18, espaço duplo Aboli
Não lavo mais os pratos Quero travessas de prata Cozinhas de luxo E jóias de ouro Legítimas
A primeira vez que viajei de avião, eu era pequeno. Foi com meu pai. Subimos as escadas de um Boeing 727 no Recife, para um voo rumo a Natal, que provavelmente durou menos que 30 minutos e que me apareceu uma eternidade acima das nuvens. Era uma viagem que fazíamos frequentemente de ônibus, pela empresa Nápoles e que, na época, talvez durasse umas cinco horas. Não sei a razão dessa viagem de avião, eu e meu pai. Eu era pequeno. Talvez ele quisesse me proporcionar essa curta aventura. Enorme, porém.
Jamais esquecerei as linhas das estradas, como se eu estivesse olhando num mapa. Nem a múltipla tonalidade dos verdes das matas, e das cidades, maiores ou menores, se insurgindo da terra. Aglomerados de gentes, casas, postes, desejos, vidas inteiras vividas ali, naquele pequenos núcleos, que do alto me pareciam mais neurônios. Acho que, então, eu não sabia o que era um neurônio e essa imagem me vem agora, enquanto escrevo. Mas certamente as vi, as cidades, como afloramentos, olhos d’água brotando e se espalhando. Hoje comparamos a uma espécie de doença, se espalhando e consumindo a terra, moendo a terra para produzir lixo. Do alto assim, não se vê pessoas, mas o efeito delas no mundo. Mas isso é outro assunto.
Aqui, quero falar de voar, dessa visão dos cursos dos rios lá embaixo, serpenteando e reluzindo, espelhos do sol e da lua. De passar entre as nuvens, de ver suas copas flocadas, como de árvores. Eu sempre fui fascinado por nuvens. Seus nomes me fascinavam… Cumulus, Stratos, Cirrus! Vê-las da perspectiva do chão era já incrível e lá estava eu, voando entre elas, acima delas. E acima de mim, alguns quilômetros acima de mim, a gradação da atmosfera, desfazendo rumo ao espaço exterior. Naquela época, voar de avião era algo um tanto solene. Desde a emissão das passagem, belos carnês preenchidos com a letra caprichosa da moça do balcão do aeroporto, os procedimentos de segurança e o fato, triste, de que não podíamos abrir as janelas. Tudo isso somava-se em ondas de ansiedade que se acumulavam no coração, acelerado, enquanto o avião corria na pista até perder o contato das rodas com o chão. Ali, havia uma suspensão do mundo, e eu realizava um sonho do homem das cavernas. Pensei: Voar então é isso…
Não, não é isso.
Voar é com os pássaros. Aqui me aproprio do título dado no Brasil ao filme Brewster McCloud (1970), do diretor americano Robert Altman. Devo essa a Altman. Esse filme invadiu meu imaginário e era um dos meus títulos prediletos das noites e madrugadas na TV. Ativou sonhos, de voar e de fazer filmes. Voar é com os pássaros virou esse dito que define a situação em que a gente vive, de seres atados à terra. Não, não voamos. Viajar de avião, planar de asa delta e veículos afins, não é voar. Voar é com os pássaros. Mesmo as borboletas, parecem mais levadas pelo ar que qualquer coisa.
Ilustração de Michael Foreman, para Peter Pan.
Outro dia estava assistindo ao filme Em busca da Terra do Nunca (Finding Neverland, de 2004), que conta a história da amizade de J. M. Barrie com Sylvia Llewelyn Davies e seus filhos. Dessa amizade, da relação de afeto do escritor com as crianças, nasceu o clássico Peter Pan. Acompanhamos essa criação no filme, e numa das cenas, um ensaio para a estreia da peça (Sim, Peter Pan foi primeiro uma peça, e só depois foi convertido em livro), os filhos de Sylvia brincam no palco e experimentam ser erguidos pelas cordas que simulam o voo das personagens. Quando a peça é, enfim, exibida, essa, a cena do voo, é o encantamento. Lembro do mesmo encantamento ao ler o livro, Wendy e seus irmãos, e Peter, voando pela janela para a Terra do Nunca. A janela do meu quarto era basculante e eu jamais poderia alçar voo através dela. Rever esse filme e reler Peter Pan, me levaram a escrever esse texto E a vontade de voar, que às vezes dá!
Muitas são as fantasias do voo. Sonhar voando é a definição do ato de sonhar. Buscar o voo, vencer a gravidade, fazer aviõezinhos de papel e construir máquinas complexas, poderosas e caras, somente para se erguer acima das coisas… e ainda assim saber que não poderemos, jamais, bater os braços e sair cruzando os céus, com as pessoas lá embaixo, miúdas, formigas atarefadas, correndo pelas ruas, pelos campos, e apontando, maravilhadas, os dedos em nossas direção.
Voar é com os pássaros.
Quando me levou naquele 727, rumo a Natal, meu pai não fazia ideia do que estava me proporcionando. E acho que nunca disse isso a ele.
Com atraso e com carinho | Órbita, de Mariana Volker
É muito livro, muito disco, muito filme, muita gente, muita arte, muita cultura! Ainda bem, né?! Mas fica difícil dar conta de tudo. Tanta coisa que a gente acessa, aprecia, se espanta e quer comentar, espalhar pros quatro cantos, nos quatro ventos… mas nem sempre a gente consegue. Então alinho aqui uns comentários sobre um trabalho lindo, que me pegou pela alma.
Sim, já deveria ter escrito algo há muito tempo, mas eis-me aqui, agora, a me redimir. Com atraso e com carinho.
ÓRBITA, de Mariana Volker
Querida Mariana.
Eu já te acompanhava e ao teu talento. Por isso, Órbita, seu disco, não deveria ter me surpreendido. Mas que bom que me surpreendeu, que alegria. Isso demonstra o quanto você é capaz de transcender e crescer cada vez mais a cada nova proposição. Isso é lindo. órbita, é lindo. Precisava escrever isso há tempos, mas foi ficando pra depois e depois e demorou. E dois anos se passaram… Que loucura! Mas ao longo dessa demora, posso dizer que muito me demorei nas audições que fiz do seu disco. Muitas. Foi um disco que não saiu da vitrola… algumas canções em especial, mas não era raro deixá-lo acontecer do início ao fim. Uma das trilhas que me levitaram nessa pandemia sem fim (que há de logo acabar!).
Eu sou daqueles que gosta de ouvir uma música de novo e de novo. Adoro looping musicais. E algumas de suas canções me pegou pra valer. Não tiver puder em escutar + Amor, Cheia de curvas ou a própria Óbrita, repetidamente, feito criança que busca aprender algo. Me divirto com sua leveza, me empolgo com o sotaque tão pop e tão bom, e uma delicadeza pra falar de amor, pra falar de si com amor, pra falar comigo, com a gente, com essa clareza. Porque chegou a hora de falar.
Naquele filme A lula e a baleia, sobre o impacto da separação de um casal sobre os filhos, tem a história do filho mais velho, que vai participar de um festival no colégio, e a gente, ao longo do filme, vê ele ensaiando Hey you!, do Pink Floyd… e no dia da apresentação ele anuncia: vou cantar agora uma música que eu fiz. E se põe a tocar Hey you!. Quando, por fim, confrontado com o fato de que não tinha escrito aquela música, que era de uma banda famosa, ele retruca: mas eu poderia ter feito!
Toda essa historinha pra dizer que Órbita, a música, eu poderia ter feito, tal o nível de identificação! Quando escuto, sempre, fico comovido, com seu canto, sua voz linda, o arranjo. Aqueles versos tão bem alinhados e certeiros. Com a natureza óbvia de que essa música fala do que eu sinto, do que eu vivo: Você que acredita no amor / Você que acredita em disco voador… E Cheia de dobras! O que é essa música?! Amo como o piano está em toda parte, porque é seu instrumento, e ele vai se espalhando nas músicas como água, como água do mar, no seu fluxo e refluxo. No seu disco há gravidade, essa força que a gente não vê, e que está em tudo. O piano denuncia essa gravidade poderosa.
É um maravilhoso disco de amor, disco de vida, que escutei demais ao longo dessa pandemiaUma música atrás da outra com você afirmando e reafirmando a necessidade do amor, da diversidade, da alegria, da verdade e do enfrentamento interior. Que coisa linda. Um disco que dá vontade de conversar, de dançar, de ligar pra uma velha amizade e dizer: Preste atenção, meu bem… Agora mesmo tô aqui na noite de Vila Isabel, com seu disco lindo na vitrola, a vitrola virtual do streaming, sentindo essa intensidade de resposta ao tempo, ao seu tempo. Escuto e fico feliz. Pelo que nele há de simples, de denso e de difícil e desafiador. Vixe, que eu queria ele em vinil!
Essa cartinha, Mariana, é somente pra isso. Pra dizer que adoro Órbita, que tenho um grande respeito pelo seu trabalho e que acompanho, com meu telescópio, essa sua trajetória orbital, de perto. Nesse céu noturno e constelar em que sua música se move. E desde de Órbita você tem inventado, criado, construído parcerias, em meio a uma pandemia, e isso é incrível! Bom demais, Mariana!
“Será que a Teoria da evolução também se aplica ao restante do Universo? Será que os planetas que melhor se adaptaram ao ordenamento dos seus sóis são os que sobreviveram? Pode ser que sim. Isso me faz pensar que esta subserviência astrológica é justo o que permite a existência de um outro tipo de vida, outra energia, agora transgressora, que pulsa oculta, na antimatéria, no vazio do Cosmos e no branco de uma folha de papel, à sombra de letras sobrepostas. Se os átomos e moléculas que nos compõem, um dia foram poeira estelar, então também podemos pensar o contrário: um dia voltaremos a ser, quem sabe, uma pedra no solo de Marte ou algum dos anéis de Saturno. O desafio é esse. Descobrir que a nossa Shangrilá existe, e que nos será apresentada quando formos levados por entre entranhas desconhecidas de um buraco negro distante”.
Muito me impressiona – mas não surpreende – que culturas tão diversas e distintas quanto as da Civilização Chinesa e da Civilização Africana Iorubá tenham feito, milhares de anos antes de Cristo, uma leitura cosmogônica parecida e tenham transformado o produto dessas observações e análises em idéias aplicáveis ao cotidiano de suas sociedades. Em ambas está sempre presente a ideia de harmonia dinâmica e cíclica, que se equilibra através da espiral do tempo.
Antes da Era Colonial, os povos depois reunidos sob a denominação “iorubás” constituíam uma federação de cidades-estados tendo como centro IléIfé. O termo yorubá era usado apenas para denominar o povo de Oyó. A partir do século 19, missionários colonizadores passaram a incluir outros povos sob a mesma denominação: egbás, ijebus e ijexás, dentre outros (Nei Lopes. “Ifá Lucumí – o resgate da tradição”. Editora Pallas, 2019).
No culto às forças conhecidas como Orixás, o universo é vivenciado e compreendido como um processo dinâmico em que forças se atraem e se repelem, se equilibram e se desequilibram. Segundo essa cosmovisão, o equilíbrio não configura uma harmonia estática, mas uma situação de constante movimento – o que também ocorre, em dimensão sobrenatural, no universo das divindades (Nei Lopes. “Ifá Lucumí – o resgate da tradição”. Editora Pallas, 2019).
Xirê é uma palavra Yorubá que significa roda, ciranda ou dança para a evocação dos Orixás conforme cada nação. Como em tudo o mais no Candomblé, tem também os seus preceitos e existe não só uma ordem a se respeitar, como existem palavras e saudações específicas que devem ser ditas para que a convocação dos Orixás seja correta (Fernando Cardoso Rezende Alves. “Xirê: o ritual como performance entre a cultura e o corpo”. TCC (UFU), 2017).
A ordem de evocação das divindades me parece variar conforme varia a referência bibliográfica, o que talvez seja a expressão de possibilidades reais, conforme a Nação ou mesmo a Casa onde o ritual toma lugar. Não pertencendo a nenhuma religião de matriz africana e, dado o forte componente da tradição oral no meio e a justificada preocupação em não vulgarizar conhecimentos sagrados, peço desculpas antecipadas aos que detém de fato esse conhecimento, a quem manifesto o meu profundo respeito. Minha única intenção é conectar e transcender assuntos e áreas do conhecimento.
“…É importante ressaltar que ao longo do processo de sedimentaçãodas religiões africanas no Brasil, alguns coletivos se propuseram a recuperar os cultos de suas nações especificas, porém ainda marcados pela fusão de práticas e cultos propiciados pela diáspora. Pois bem: há variadas nações como Ketu, Angola,Omolokô, Efon e Jêje, todas da antiga região do Benin (Fernando Cardoso Rezende Alves. “Xirê: o ritual como performance entre a cultura e o corpo”. TCC (UFU), 2017).
Vejamos então:
No xirê (ciranda) dos Orixás estão presentes quatro elementos básicos e suas dezesseis qualidades. Fogo, Terra, Água e Ar contém quatro Orixás em permanente comunhão. Do elemento Fogo temos Elegbara, Ogum, Oxumaré e Xangô. Em Elegbara temos a representação do fogo do centro da Terra, o núcleo de ferro e níquel fundidos e incandescentes em seu ponto mais elevado de temperatura. Após receber o movimento de Ogum, a força do caminho, este conteúdo pode ser visto quando das erupções dos vulcões. E daí se organiza em rios de larva que escorrem pelos declives montanhosos como Oxumaré. Posteriormente chega à cristalização das pedras vulcânicas em Xangô. Podemos entender que em Elegbara encontramos o início criador de nossa inventividade, nossa libido, para o surgimento do novo que vai ganhar possibilidades criativas a partir da movimentação feita em Ogum, podendo ser devidamente classificado e organizado em Oxumaré. E receber a arte final em Xangô.
No elemento Terra os quatro elementais são Obaluaiê, Oxóssi, Ossaim e Obá. Aquela pedra vulcânica passa por uma natural transformação até virar um chão empedrado e duro, a terra mais seca existente, símbolo de realidade crua e nua. Ali reside os poderes transmutatórios de Obaluaiê. Ao primeiro contato com a água vai possibilitando a existência de vida animal e vegetal no reino de Oxóssi. Com novos elementos a ecologia ganha diversidade e complexidade. Na preciosidade de plantas, ervas e flores quem manda é Ossaim. Onde a terra é mais molhada se situa Obá. A dura realidade da terra seca deve ser ultrapassada utilizando-se a razão para construir cidades e conhecimentos.
Chegando ao elemento água nos vemos frente às nossas emoções. Nessa dimensão encontram-se Nanã, Oxum, Iemanjá e Ewá. Após a infiltração da água na terra e da realização da fertilidade no estado de lama ela brota pura e límpida. Nanã trabalha nessas fontes e nascentes. Na medida em que escorre, primeiro de maneira doce e suave e depois mais fortemente pelos rios chegamos no campo de trabalho coordenado por Oxum. Os rios caminham para o mar, com toda sua enorme diversidade de vida, nos domínios de Iemanjá. Ao evaporar a água passa do estado líquido para o gasoso sob a égide de Ewá. Nossas emoções são nossas águas: se apresentam puras e límpidas quando nascem e depois correm pelos campos propiciando o surgimento de cidades, fazendo a junção de nossas realidades buscadoras, colocando nossa razão emparelhada ao afeto e assim trazendo nossas paixões e nosso desejo de nos misturar, de criar famílias. Razão e emoção vão nos ajudar a transcender valores na medida em que partimos para novas dimensões.
O elemento “Ar” é quem rege o quarto estágio da dança. Ali estão presentes Iansã, Irôko (o tempo), Ifá e Oxalá. Na mudança para o estado gasoso a água se torna o ar. Que circula, às vezes de forma suave e às vezes com o vigor de grandes tempestades, com a marca registrada da liberdade pois segue em qualquer direção e contorna qualquer obstáculo. Aí trabalha Iansã. O mesmo vento que derruba árvores também espalha sementes e, com elas, o potencial de novas vidas. Em sua ação produzirá muitos segmentos, que somente serão percebidos mais futuramente. Entra aí em ação o Orixá Tempo. Responsável por insondáveis mistérios que podem resultar em grande sabedoria, acúmulo histórico de conhecimento que encontra sua aplicabilidade dando contorno vivencial ao que chamamos destino. Na dimensão dos destinos trabalha Ifá. Extremamente sutil é o resultado desse processo, quando se encerra no encontro com a dimensão maior do amor, e em sua expressão final como ternura, onde reina Oxalá.
Na “Religião Tradicional Africana” a comunicação dos Orixás e demais forças sobrenaturais com os humanos se dá por meio das “falas” dos odus (signos) no sistema divinatório Ifá. Ifá é também semelhante ao I Ching, método divinatório da cultura chinesa cujas figuras – os hexagramas – são formados por séries de linhas inteiras e partidas, semelhantes aos elementos que compõem as representações gráficas dos odus (Nei Lopes. “Ifá Lucumí – o resgate da tradição”. Editora Pallas, 2019). Para se ter idéia do porque é chamado de “sagrado”, tanto o Taoísmo quanto o Confucionismo deitam suas raízes sobre o I Ching (Richard Wilhelm, tradutor do livro para o inglês).
A observação do mundo em torno de si e em seu próprio interior levaram o homem chinês – assim como o africano – à percepção de um fluir contínuo do qual nada escapa. Tudo muda, toda ordem se desordena e se reordena ciclicamente. Opostos se alternam. Tudo muda, mas a mutação é imutável. Há que se compreender, então, os estágios da mutação.
No início, o Livro das Mutações era usado apenas como oráculo e consistia numa coleção de signos, onde o “sim” era representado por uma linha inteira (yang) e o “não” por uma linha partida (yin). Em um segundo tempo as linhas foram combinadas em pares, resultando em quatro possibilidades. A cada uma dessas combinações adicionou-se uma terceira linha, dando origem aos oito trigramas:
Cada trigrama foi associado a uma imagem: Céu, Terra, Trovão, Água, Montanha, Vento, Fogo e Lago, respectivamente. Mas as imagens representam não as coisas, em seu estado de ser, mas suas tendências de movimento. De modo a abranger uma multiplicidade de estágios nos ciclos de cada mutação as oito imagens foram combinadas umas com as outras, dando origem a 64 (sessenta e quatro) hexagramas, com linhas sobrepostas. mutações é o Tao, cujo postulado fundamental é expresso na mandala do Yin e do Yang.
A mesma idéia de ciclicidade é percebida nesses símbolos. Yin como energia mais densa, posta em movimento pela energia quente e etérea Yang. A figura onde duas gotas, uma branca e outra preta se enroscam, com um ponto de cor diferente na “cabeça” de cada gota não é uma imagem estática. É preciso ver movimento, vida nas polaridades complementares e interinfiltrantes.
O Yin se associa à noite e o Yang ao dia. Às seis da manhã e seis da tarde temos momentos de transição. Ao meio-dia e à meia-noite o máximo de intensidade de cada polo. Da mesma forma se dá, ao longo do ano, na sucessão de estações. Verão como Yang máximo, Inverno como Yin máximo e primavera e outono como estações de transição. E também ao longo da vida, na alternância entre infância (primavera), juventude (verão, yang máximo), vida adulta (transição, outono da vida) e velhice – o inverno existencial.
Em épocas e locais diferentes, duas das maiores e mais importantes civilizações da história da humanidade tiveram percepções semelhantes, que foram determinantes no desenvolvimento de sua agricultura, medicina, das regras de relações sociais e até na organização das burocracias de Estado. A expressão desses conhecimentos é simbólica. África e Ásia conversam. O texto é um convite para darmos ouvido à essa prosa, darmos significados aos símbolos, darmos a mão e entrarmos na ciranda. Vamos dançar?
Eduardo Macedo Amigo mineiro e grande entusiasta da Kuruma’tá. Médico clínico geral e acupunturista, mestre e doutor em epidemiologia. Mas também solidário, leitor afetivo de Jorge Amado e apaixonado pelos sertões.