Viva! Chegou o Festival Levada, celebrando 10 anos!

O Levada completa uma década e se mantém fiel à sua ideia inicial de mostrar o quanto a música brasileira continua pujante e diversa.
— Jorge LZ, curador do Levada!

Gente, é sabido que a Kuruma’tá é fã do Festival Levada, que chega HOJE ao Teatro Rival Refit, celebrando dez anos, com uma história de contribuição poderosa à música independente brasileira. Levada é diversidade, é som bom, encruzilhada de tendências e renovação!

E é por ser fã de carteirinha que a Kuruma’tá convida geral pra prestigiar esse encontro luminoso, que lavar a alma da gente!

Depois de dois anos inacreditáveis que a gente vem vivendo, o Levada oferece shows presenciais nesse clássico que a gente ama, que é o Teatro Rival. Nessa primeira fase, são quatro apresentações, que começa hoje, com o retorno do Carne Doce, que apresentou-se no festival oito anos atrás. Foi, então, o primeiríssimo show da banda, confirmando a alma aberta do Levada, pioneiro na divulgação da música que a gente escuta hoje cheios de amor! Na sequência chega a Juliana Linhares, com seu incrível Nordeste Ficção (Confira o texto sobre o disco aqui na Kuruma’tá!), depois vem a maravilha da Foli Griô Orquestra e o encerramento com o rock alternativo do Maglore!

Viva o Levada e parabéns por 10 anos de INCRÍVEIS E INESQUECÍVEIS serviços prestados à cultura nacional!

Confira os artistas da primeira fase do Levada!

Teatro Rival Refit
– Rua Álvaro Alvim, 33 – Cinelândia – 21-2249-4469

Abertura da casa às 19h30

Vendas pelo SYMPLA e na bilheteria

Horário de funcionamento da bilheteria: de quarta a sexta, das 15h às 20h; aos sábados e feriados, das 16h às 20h30 (somente em dias de show)

Ingressos: R$ 20 (inteira) / R$ 10 (meia-entrada)


ABERTURA SERÁ COM CARNE DOCE, ATRAÇÃO DE 8 ANOS ATRÁS

FOLI GRIÔ ORQUESTRA VIRÁ COM RITMOS ANCESTRAIS

A 10ª Edição do Festival Levada continua a partir de 25 de janeiro de 2022, com mais oito atrações (a serem confirmadas) para se apresentarem no Estúdio Labsonica e uma exposição sobre os dez anos do Festival no Centro Cultural do Oi Futuro, no Flamengo, a partir de 02 de fevereiro.


“O Levada completa uma década e se mantém fiel à sua ideia inicial de mostrar o quanto a música brasileira continua pujante e diversa. Mesmo com as dificuldades impostas pela pandemia, a classe artística teve uma produção rica e, de certa forma, foi responsável por amenizar o sofrimento da sociedade, que se viu obrigada a enfrentar o isolamento social. Para a primeira etapa dessa edição comemorativa, no Rival, teremos quatro apresentações que comprovam o que eu estou dizendo”, explica o curador Jorge Lz.

Julio Zucca, sócio da Zucca Produções, é o responsável pela realização  do projeto, que se tornou um dos mais importante festival de música do país, por trazer aos palcos cariocas talentos do Brasil inteiro, antes deles aparecerem de forma mais constante em outros festivais e para a mídia. “Esse, aliás, é um dos pilares do Levada – que desde 2018, se antecipou ao mundo, ao transmitir ao vivo na Internet as suas apresentações. Em 2021, com todos já acostumados às lives que aliviaram o isolamento no auge da pandemia, os dez anos do Levada serão comemorados com doze shows presenciais e uma exposição, tudo com transmissão digital pelo canal do festival no YouTube, começando pelos quatro artistas já divulgados para o palco do Teatro Rival Refit”, reforça Julio Zucca.


Direto de São Luís do Maranhão, a poesia de Vinícius Veloso

Mais uma vez, nossa amiga e poeta Micaela Tavares dá a dica da boa poesia maranhense para as páginas da Revista Kuruma’tá! E assim compartilhamos com você o trabalho bonito de Vinícius Veloso!

Você conhece poetas, escritos, artistas? Pois se sim, a gente tá aceitando dicas de todo o Brasil!

Mais uma vez, nossa amiga e poeta Micaela Tavares dá a dica da boa poesia maranhense para as páginas da Revista Kuruma’tá! E assim compartilhamos com você o trabalho bonito de Vinícius Veloso!

O poeta segundo ele mesmo:

Meu nome é Vinícius Veloso, tenho 32 anos, sou de São Luís – MA. Minha relação com a poesia tem por volta de 10 anos, o que coincide com a criação e a manutenção do meu blog de poesia (Papo do Poeta), que é um espaço em que eu considero seguro e onde eu posso ser livre para falar de todos os sentimentos que a vida me desperta. Gosto de falar principalmente de amor e de saudade, mas também da minha cidade, das pessoas que observo, de refletir sobre a vida…

A poesia é ampla e ilimitada, e a palavra delata qual a obsessão do poeta.

E agora sua poesia:


Andar no Centro é um exercício de descobrimento

Andar pelo Centro é diariamente
um exercício de ternura gosto de observar
os detalhes:
desde a escadaria recém pintada
até o sol que de tão presente chega a invadir a rua,
e de repente
aquele dia despretensioso começa a me chamar atenção então
vejo o taxista ocioso
vejo a vendedora de coco e velhinhos na praça
discutindo os rumos da nação.
Vejo os boêmios no mercado e o sorveteiro que assovia
e canta boi,
vejo os casais se amando
as bandeiras ao vento cantarejando e lembro de junho que já se foi.
Andar no Centro é diariamente um encantar-se e espantar-se
com o que ronda a nossa vista, vejo uma vez mais o sol
que ocupa e encobre a pista observo ao longe
o desembarcar
e o caminhar dos turistas, mas de perto a realidade grita
observo pessoas passando fome e vários dizeres e protestos
na parede que abriga poetas e artistas.
Andar no Centro é diariamente
um exercício de nostalgia,
vejo crianças correndo pelas ruelas
e empinando pipa
vejo carne seca na janela
e lembro de como a minha avó fazia, vejo os lavadores de carro escutando reggae
(que ecoa longe e toca bonito),
vejo a velhinha que caminha com dificuldade e em sua cabeça, uma tábua de pirulito.
Andar no Centro é diariamente
um exercício de pertencimento pois não importa para onde eu veja ou aonde quer que eu vá
eu sei que aqui é o meu lugar!

04.07.2019


A flor do abraço

A flor do abraço heliotrópica
busca à luz do sentimento a perfeita localização
um lugar onde não esteja a sós como as sépalas, cálices e pétalas que só funcionam juntas
na inflorescência dos girassóis.

A flor do abraço enlaçadora
como se braços fossem sempre abertos
e de prontidão estende suas folhas para que natural seja abraçar outra alma com o seu coração…

Instante esse em que o tempo para Zera! E quando recomeça
A flor do abraço já virou canção.

A flor do abraço
é a beleza do girassol
é o “carrossel das abelhas” como diz o poeta
em metáfora é a flor do sol que eu desejo sem aspas…

06.09.2018


Poema sobre o nada ou Tinha um prédio no meio do caminho

O prédio atrapalha a minha visão
a vontade de querer enxergar o mundo de azul de assistir às cinco e quarenta e cinco da manhã o pôr-do-sol ao contrário
cinza alaranjado rosa amarelo em contraste à feia arquitetura que transforma pedra sem vida
em colunas cimentadas que atrapalham a minha vista.

Eu quero enxergar bisbilhotar debaixo das pedras que não têm,
mas que abrigam:
vida.

Eu quero espionar
o verde musgo das briófitas
o desabrochar das borboletas
o cochichar dos bem-te-vis
a palavra voando fora da asa
o milagrar de flores

Eu quero atirar pedras no céu
e acertar algum homem de pecado que dizem ser santo

mas há um prédio no meio do caminho
arranhando o céu sem carinho
como um amontoado de pedras desperdiçadas que sequer abrigam musgo

no meio do caminho há um prédio que atrapalha minha visão
que tem nome de cidade europeia ou de um homem branco qualquer que minhas retinas fatigadas
traduzem livremente:

Ed. Dr. Zé Ninguém
Nunca esquecerei desse acontecimento…

Manoel de Barros me entenderia
Carlos Drummond de Andrade também.

25.08.2021


Zênite solar

Teu corpo
é floresta tropical quente
úmido esplendoroso dos pés ao topo é beleza viva jacarandá
que faz sombra em meu corpo.

Por ele passeio cuidadoso
e admirador
cubro-o de carinhos e beijos
até chegar ao teu umbigo
– que é a linha do Equador,
centro imaginário do (meu) mundo que o divide em dois:
um antes de ti, tempo passado e outro muito melhor, depois.

Em minhas mãos tu escorres
como seiva
a precipitar-te de prazer
molhando meus dedos como um céu emocionado quando começa a chover.

Sigo percorrendo o teu corpo até o limite do solstício
onde a vida tem fim e começo
mas eu estou só no início,

E o que eu tenho é amor para te dar
teu corpo no meu corpo encaixados perfeitamente é meio dia
é o zênite solar.

09.06.2020


O último suspiro

Quando eu for embora deste plano não desejo lágrima nem despedida por todo o amor e poesia que respiro uma coisa só espero da vida:
que seja um verso o meu último suspiro.

29.05.2016


Bora cantar?! — Viradão de fim de ano Toda Voz Importa!

Coletivo Toda Voz Importa: Alice Sales, Roberta Jardim, Luiza Borges e Tássio Ramos

Quem canta seus males espanta, e não falta males para espantar nesse Brasil pandêmico, de muitos genocídios cotidianos e mazelas, sequelas e querelas.
Bora cantar?!

Então, assim sendo, bora se salvar gente, abrindo a voz e o canto! Cantar para se libertar, cantar pra ser gente e pássaro. O canto dá asas! E eu, você, aquela e aquele acolá, todos podem cantar. Cantar não é exatamente um dom, é também um potencial humano. Algo de que nós somos capazes. Cantar, a gente pode!

Então, pertinente o convite do coletivo Toda Voz Importa, para agora, no começo de Dezembro, você participar do Viradão de fim de ano Toda Voz Importa!

Confira:

Toda Voz Importa é um coletivo, formado por profissionais da educação musical, vocal e da musicoterapia. Fazem parte do Toda Voz Importa Luiza Borges e Roberta Jardim, cantoras e professoras de canto, Tássio Ramos, músico, produtor musical, educador musical e Alice Sales, cantora e musicoterapeuta. O grupo oferece vivências com práticas coletivas em que todos podem cantar, explorando suas possibilidades.
Nas suas dinâmicas o foco é nas interações entre indivíduo e grupo, voz e escuta, acolhimento e expressão, informaçãoe prática.
No Viradão Toda Voz Importa, são 6 encontros diferentes, sem pré requisitos!
Todos podem cantar!

INSCREVA-SE NO VIRADÃO TODA VOZ IMPORTA!

PROGRAMAÇÃO COMPLETA

02 / 12 – Quinta – 20h [ ABERTURA ]
Respirar e Cantar
Prática com Luiza Borges
Duração: 1 hora
Aberto à todos os inscritos no Viradão.

03 / 12 – Sexta – 20h
Toda Dedicatória Importa – Encontro musicoterapêutico
Com Alice Sales
Duração: 2 horas

04.12 – Sábado 9h
A Voz Materna Importa
Encontro com Roberta Jardim
Duração: 2 horas

04 / 12 – Sábado- 13h
Práticas de auto cuidado – Fluxos da Voz e do Corpo
Tema: Atm e Voz
Oficina com Aline Bernardi e LuizaBorges
Duração: 2 horas

05 / 12 – Domingo- 10h [ EXPRESSA! ]
Dinâmica com o TODA VOZ IMPORTA
duração: 2 horas e 30 min

05 / 12 – Domingo – 16 h
Sarau Aberto no @todavozimporta
— Aberto à todos os inscritos no Viradão —
Duração: 2 horas

Quem faz o Toda Voz Importa

LUIZA BORGES Cantora, professora de canto, compositora. Com dois álbuns solos lançados, “Romanceiro” e “Certezas Inacreditáveis”, voltados para a MPB contemporânea, e participação em diversos álbuns e projetos da cena musical independe carioca, apresentou-se em importantes casas de show e espaços midiáticos pelo Brasil. Trabalhou no teatro como cantora solista na peça “Com Amor, Vinícius” e com Pedro Cardoso na peça “Os Ignorantes”. É formada em Licenciatura em Música pela UNIRIO e no Método Herz para canto popular, criado pela professora Angela Herz. Orienta profissionais da voz e amadores em busca de autoconhecimento vocal e musical, em abordagens individuais ou em grupo. É uma das fundadoras e é coordenadora pedagógica do coletivo Toda Voz Importa; desenvolve os trabalhos “Laboratório Corpo Voz”, com a professora de AntiGinástica Andréa Cardoso, em SP e “Práticas de auto cuidado – fluxos da voz e do corpo”, com a bailarina e professora de dança Aline Bernardi. Trabalhou como preparadora vocal nos corais de empresas: Projac, Inmetro, Neoenergia, Vale e Firjan, Fiocruz e Finep, com os maestros Edu Morelembaum e Paulo Pauleira Malagutti.

ROBERTA JARDIM Graduada em Licenciatura em Música pela UniRio, Roberta especializou-se em canto pelo Método Herz de canto popular. Atua como educadora musical no município do Rio de Janeiro desde 2011 e como professora de canto. Foi professora da disciplina “Técnica Vocal” na Faculdade IBEC. Orientou diversos cantores e grupos vocais da cena musical carioca, como os elencos da Cia. Embando e as peças “Champagne & Confusão” e “Quero ser Ziraldo”, ambas sob direção de Fernando Philbert. Como cantora, realizou os projetos “Maternando no Jardim”, “Descoberta” e “Cores Alegres e Vivas”. Foi coralista no Coro de Câmara da Pró Arte sob regência do maestro Carlos Alberto Figueiredo. É certificada como educadora parental e especialista emocional pela Escola da Parentalidade e Educação Positiva em Portugal e pela Sociedade Brasileira de Inteligência Emocional (SBIE). Uma das fundadoras e diretora pedagógica do coletivo Toda Voz Importa, criadora dos projetos Ponte de Encontro, com a educadora parental Alice Scudeller, Podcast Questões Nossas, com a psicóloga Tâmara Damaceno e do perfil de instagram Maternando no Jardim (@roberta_jardim).

ALICE SALES Musicoterapeuta clínica, pós-graduada pelo Conservatório Brasileiro de Música. Atua em instituições e atendimentos particulares. É musicoterapeuta voluntária na Maternidade Escola da UFRJ e lá também integra o coletivo de musicoterapeuta MT-DTG. Como cantora, iniciou sua trajetória em corais e grupos vocais, tendo participado do grupo São Vicente a Cappella, com o qual venceu o concurso Nacional Funarte de Corais, participou de festivais internacionais e da gravação de DVD do grupo, na Sala Cecília Meireles.
Foi integrante da formação original do grupo vocal Ordinarius, lançando o CD “Rio de Choro” em diversos palcos do Brasil. Em janeiro de 2017 foi escolhida, por júri técnico, 2ª melhor intérprete no 1º Festival de Música do Teatro Municipal Ziembinski. Em 2017 estreou o Show ” A Estrela Dalva”, em homenagem ao centenário de Dalva de Oliveira. É integrante do grupo vocal Equale, com o qual em 2018 ganhou o 29° Prêmio da Música Brasileira, na categoria “melhor grupo de MPB”. É, também, advogada graduada pela UFRJ e pós- graduada pela UERJ. Possui Capacitação internacional em aconselhamento no luto pela Fundação Elisabeth Kübler-Ross Brasil (2021). Cantora, musicoterapeuta e uma das fundadoras do coletivo Toda Voz Importa.


TÁSSIO RAMOS Músico, produtor musical, arranjador e professor independente de música. Começou sua carreira no Rio Grande do Sul acompanhando grupos e artistas da região sul do Brasil e Uruguai. Desde 2006 no Rio de Janeiro, tocou e gravou com diversos artistas e projetos de música, tendo feito a direção musical de alguns destes trabalhos, produziu discos, atuou como músico e/ou diretor musical em dezenas de espetáculos de teatro e teatro musical, produziu discos de artistas e trilhas para shows e espetáculos de dança. Como professor independente, dá aulas de contrabaixo, violão e percepção musical. Diretor e produtor musical e um dos fundadores do coletivo Toda Voz Importa.


A cantada carioca de Claudia Castelo Branco

Texto de Toinho Castro


Passando distraído pelas ruas agitadas e algorítmicas da internet, fui surpreendido por uma cantada!

Disco não é novidade para a pianista Claudia Castelo Branco. Cinco desses registros ela já gravou, com a também pianista Bianca Gismonti, como Duo Gisbranco, e um utro com o guitarrista e compositor Marcos Campello. Mas o recém lançado Cantada Carioca (Já disponível no Spotify) é sua primeira aventura solo. A palavra aventura implica em movimento, agitação, sustos, surpresas, mas o disco de Claudia é uma aventura íntima, pra dentro, enredada na alma e transcrita com delicadeza, leveza e fina inspiração, em onze canções, pra que a gente possa aventurar-se com ela; como ouvintes, a bem da verdade. E que coisa boa escutar esse disco, que coisa boa uma cantada assim, carioca, ao som piano e do talento dessas mulheres, cujas canções que Claudia reuniu tão sob esse recorte, da mulher carioca, seja porque aqui nasceu, ou porque fez do Rio sua morada, seu coração.

Concebido e gravado, em casa, durante o período de isolamento da pandemia (que não, ainda não acabou!), Cantada carioca se debruça sobre uma produção não só feminina, mas também independente. Essa é uma das grandes forças do disco, seu encantamento, revelador que é do tanto que se faz de música boa fora do dito maistream. Outro dia a Kuruma’tá postou, no Instagram, o seguinte recado: A melhor música brasileira hoje é produzida por mulheres. Esse é mais um disco que atesta isso de maneira precisa. Tanto pelas músicas escolhidas, quanto pela própria Claudia e seu piano.

Aí tem a outra força do disco. Nele, voz e piano se bastam de tal maneira, que bem podemos ouvir como duas vozes, que se entrelaçam indistintamente, numa dança, numa conversa caprichada e caprichosa. Deliciosa. A voz e o piano como estrutura mínima, cristalina, a sustentar a riqueza que vai nascendo de cada canção. Que coisa boa, gente. É daqueles trabalhos que você coloca a primeira faixa pra ver qual é, e não consegue mais parar, não consegue escapar da espiral que vai te erguendo, te animando (de anima, alma!) e descortinando um cenário incrível que vem remodelando a música brasileira.

Claudia Castelo Branco tá de muito parabéns com esse trabalho. Cantada carioca é disco pra tocar em casa, como foi feito, naqueles dias de sossego ou pra sossegar; pra tocar no fone de ouvido no sacolejo do ônibus, do trem rumo ao subúrbio, ou com a gente que a gente ama. É uma belíssima resposta, no meio dessa pandemia, à escuridão que insiste. Uma luminosidade para esses dias difíceis, e para os bons dias que virão e que até lá, vão se enxerindo em meio ao caos, pegando carona nas artes, nos afetos, nos encontros.


MÚSICAS E MULHERES NA CANTADA CARIOCA DE CLAUDIA CASTELO BRANCO

1_ Céu de gêmeos (Belliza Luar)
2_ Brejeira flor (Ilessi e Simone Guimarães)
3_ Ledo engano (Elisa Fernandes)
4_ Miragem de Inaê (Anna Paes e Iara Ferreira)
5_ O adeus (Marcela Velon e Aluízio Elias)
6_ Tem dor (Bianca Gismonti e Claudia Castelo Branco)
7_ Concha (Gabi Buarque e Angelica Duarte)
8_ Eta (Maíra Freitas e Edu Krieger)
9_ Breve (Aline Gonçalves e Vovô Bebê)
10_ Nau dos meninos (Carla Capalbo e Tuca Zamagna)
11_ Pra acordar (Paulo Monarco e Suely Mesquita)


A orquestra dos inocentes condenados | Livro de Milena Martins Moura

Resenha de Toinho Castro, citando poemas lindos do livro da Milena
— Totalmente escrito e publicado em meio à devastidão que espalhou pelo mundo, pelo Brasil, A orquestra do inocentes condenados é um livro de ordem íntima, que você lê e sente ele vindo de dentro. De dentro da poeta, e de dentro da gente. Memórias e miudezas aparentes.

Resenha de Toinho Castro, citando poemas lindos do livro da Milena


caros amigos
venho informar
que hoje apareceram
júpiter e saturno
próximos no céu.


As mais de 600 mil morte, só no Brasil, até onde se sabe e até agora, são uma mancha de violência tão enorme na nossa história, que é difícil falar das coisas boas que, de um jeito ou de outro, vieram a nós durante essa pandemia. Mas é preciso que se fale delas também, não para justificar esse desastre como um espaço de aprendizado, até porque, o que se aprendeu a gente já deveria saber há muito tempo. Mas sem dúvida há coisas que nos ajudam a manter a cabeça fora d’água. Essa água tumultuosa, invasiva, reativa e escura. No meio disso, há pontos luminosos, e cada um de nós poderá citar seus pequenos faróis na guia para atravessar esses tempos.

Um desses faróis, sem dúvida, é a poesia. E muita poesia se fez nesses dias duros.

venha rápido pois tenho pressa
tenho uma pedra
então entenda
o mergulho nessa água escura
é um risco
que eu só vou aprender a viver
depois do salto
um risco é o que se corre
e eu tenho pressa
meus braços são tão fracos
e eu tenho pressa
mesu olohs tmê falhaod
e eu tenho me evitado
no reflexo do poço
eu tenho pressa
da palavra pesando meu corpo
de levantar os olhos e ver
e ver
cada silêncio é uma imagem a menos
então venha rápido
antes da próxima maré
que nessas águas repousa a coisa morta
que se perdeu de mim durante a última música

A Kuruma’tá, como uma casa de poesia, fica atenta a isso e acompanha essa claridade súbita que se faz quando a gente menos espera. E com isso que a gente se alegra, com esses livros corajosos que se insurgem contra a morte e contra a perda da sensibilidade. A orquestra dos inocentes condenados (Editora Primata, 2021), de Milena Martins Moura, é um desses lampejos.

Escrever como maneira de manter-se sã durante tempos atípicos e assustadores.

Totalmente escrito e publicado em meio à devastidão que espalhou pelo mundo, pelo Brasil, A orquestra do inocentes condenados é um livro de ordem íntima, que você lê e sente ele vindo de dentro. De dentro da poeta, e de dentro da gente. Memórias e aparentes miudezas. Coisas que, na verdade, crescem gigantes na alma. Universos suburbanos que parecem mínimos, mas são mínimos como um aleph, que a tudo comporta.

Ler o livro é descobrir-se e enfrentar-se, na tentativa, tantas vezes vã, de alcançar sentidos, razões, caminhos para essa coisa chamada vida. Ao mesmo tempo, suas páginas são traspassadas pela morte, pela brevidade de tantas coisas, de tanta gente, que de uma hora pra outra se torna inalcançável, ausente. O passado se torna inalcançável e só podemos revirá-lo com a poesia. Essa lente, às vezes meio difusa, que investiga essas frestas que se abrem e que vão sendo preenchidas pela latência do possível.

Ali está Milena, nas suas próprias páginas e palavras. poderia ser eu com essa dor e esse olhar. Poderia ser você com essa hipermetropia, esses cadarços por atar. A poeta é líquido revelador derramando sobre o papel fotográfico… e o que vemos na foto que surge é a sucessão das coisas perdidas, algumas reencontradas, tão deslocadas que parecem outras. E a cada luz e sombra, a cada nuance que vai se revelando, esperamos ver o que ainda não há. O futuro improvável, ilegível. Ler Milena é ver essas fotografias se revelando a cada virada de página do álbum. É escutar sua música insinuada a cada verso, cadente. Leia. Cante…

perdoe se me repito
mas acho importante reiterar
que o sol é só mais uma estrela
sobre a qual, esclareça-se
não pesam peculiaridades
uma média amarela
numa esquina esquecida
do rolé
perdoe-me também
se devo repetir
que ser humano
é resvalar no abjeto.
é suar, sujar e cuspir
limpar do corpo as secreções
que nos disseram impróprias
porque não foram retratadas
nos quadros de santos
porque deus não mancha
com nódoas de suor
a sua toga
nem se narram dele
as excrecências
mas assim se convencionou
falar dos bichos
tenta-se, como ato redentor,
escapar ao humano
que não é senão bicho
com suor
e saliva
e gozo
e choro
imagem
e semelhança
dos que preferem
sentir a terra
com os peitos

Ler poesia é sempre melhor que falar ou ler sobre poesia! Poesia para manter-se vivo. Mais ainda, para viver. Para caminhar entre os seus e entre os demais. Para abrir os braços no meio do corredor e se sustentar nas paredes porque talvez as pernas fraquejem. É o que sustenta. Esse versos, escritos por Milena, arrebatam a gente e também desafiam a remexer nessas gavetas mal fechadas da vida. Que dali se tira o que viver e o que esperançar. Apesar.

Compre A orquestra dos inocentes condenados aqui!


Milena Martins Moura nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro em 1986. Passou a infância no bairro de Madureira e a adolescência no bairro da Pavuna, morando hoje no bairro do Cachambi. Seu Rio de Janeiro não está nas letras de Bossa Nova. Tem ônibus lotado, vendedor de bala no trem, sapato pendurado no fio elétrico, padeiro de bicicleta vendendo o pão de porta em porta e a recorrente menção à Telefunken 1984 sem controle remoto da infância.

Em 2011, lançou seu primeiro livro de contos, Promessa Vazia, que mistura literatura fantástica com relatos intimistas e psicológicos. Seu livro de poemas Os Oráculos dos meus Óculos foi lançado em 2014 num evento com participação da banda Tormentorum, da qual a poeta foi vocalista entre 2013 e 2016. Os Oráculos são sua carta de despedida para seu avô Daniel, falecido em 2010 após um longo e doloroso processo de morte que se tornou temática constante em sua obra.

Lançou também o plaquette de poesia Banquete dos Séculos, em 2021, de maneira independente como e-book. O Banquete é uma introdução a seu projeto independente de contos, a série Violenta, prevista para 2022.

Como escritora, foi publicada em inúmeros portais e revistas, como Cronópios, Subversa, Torquato, Mallarmargens, Ruído Manifesto, Desvario, toró, Arara, Kuruma’tá, Aboio, Arribação, Totem Pagu, Granuja (México) e Kametsa (Peru). Seus poemas também estão em podcasts como o Toma Aí Um Poema. Além disso, integra as equipes de colunistas da revista Tamarina Literária e de poetas do portal Fazia Poesia.


Marfê na Kuruma’tá

A conexão Maranhão está a todo vapor! O poeta Felipe Gabriel, ou Marfê, , que nos chega altamente recomendado pela também poeta Micaela Tavares, traz pra gente uma poesia carregada de força contra a roda que esmaga gente, mas também fresca, vívida, amorosa, vibrando ao sol. Bem-vindo, Marfê, à Kuruma’tá!


EU RECONHEÇO AGORA

Quando quis ser doce, fui amargo
Quando quis ser companhia, fui a peça errada que não encaixou
Foi mal pela falta de tato, pelos meus olhares perdidos, estava tentando resolver todo caos interior
A gente se amou no tempo errado
Como eu poderia ser o seu o sonho, se eu era a sua insônia?
Eu sei, eu sei, você realinhou a sua rota e eu fico feliz por isso, por favor, acredita em mim
Sei que foi bem melhor para nós dois a distância, nos regulamos
Descobrimos um novo ser dentro de nós, cada um em seu próprio apê, colocando seus próprios estilos musicais bem distintos
Você colocava Vivaldi – La Primavera e eu colocava Liniker – Psiu
Você optava por beber uma cervejinha no barzinho que a gente amava e eu decidia me arrumar para mais tarde assistir à uma peça dramática para despejar toda a minha saudade de você naquele lindo teatro
E assim eu finalmente descobri a falta que você faz, me desculpa

SABE NADAR?

Feche os olhos
Escute o mar
Respire fundo
Abstrato exclusivo só pra quem sabe nadar no meu mar
Sabe nadar? Nade em mim, sinta a minha água salgada e deixa eu te temperar
Dê um bom mergulho e fale “que delícia”
Sabe nadar? Cuidado para não afundar nos meus textos molhados, a correnteza é confusa e não faz sentido
Se eu puxar você para baixo, você estará no topo
O salva-vidas da ilha se chama “ALÍVIO”, sim, o mesmo que a gente sente de chorar por horas
Sabe nadar? Não? Não tem problema, eu abrirei, com meu tridente, o caminho certo para você chegar à beira do mar da renovação

SUMI, VIREI ARTE IMATERIAL

Não poderás mais me abraçar
Não poderás mais me beijar
Talvez poderás me sentir, porém no âmago da madrugada e de forma surreal
Não te prendas a mim, até porque não sou mais um, virei muitos
Sumi, virei arte imaterial
Não sei se terás dificuldade na reflexão, introspecção cruel
Me observarás no seu ouvido e no seu estômago embrulhado
Sumi, virei arte imaterial
Amarelo queimado fictício
Vermelho sangue surreal
Roxo desconfortável interior
Azul tristeza temporário
Verde misterioso sinistro
Marrom despelado eterno
Sumi, virei arte imaterial
E ainda me procuras.

ÚLTIMO TIRO

Eu nunca ganhei flores, mas me nego recebê-las somente em um funeral
Os 80 aplausos foram silenciados e transformados em 80 caçadores de alma e nunca escutarei a música desse meu irmão de cor
A vermelhidão que eu gostaria de ver era a de um guará alçando voo à beira-mar, e não espalhada no asfalto quente ou no chão de terra batida, consegue entender?
Quando será o último tiro?
Dizem que a vista do último andar dos apartamentos é sempre a mais bonita, menos naquele 2 de junho, gostaria de ver aquela criança cheia de vida sonhando mais
Acordo, esquento o café, vejo o jornal anunciar mais uma morte e volto há 2018 me perguntando “Quem será que matou?”
Os tiros tiram e tiraram a vida dos meus irmãos!
Os tiros tiram e tiraram a vida dos meus líderes!
Ergo o meu braço direito com a mão fechada!
Uso preto para expressar minha força e minha dor!
Não pense que sou amargo, só estou mais realista
Nunca mais as ilusões gritaram contra mim
Apenas me pergunto “Quando vou ganhar flores e quando será o último tiro?”

MAKTUB

Olha, esse Maktub me bagunçou de um jeito…
Não pediu licença e puxou o meu tapete (a queda foi feia)
Já peço desculpa pela acidez na segunda-feira, mas não posso fazer muita coisa sobre isso
Apenas escrever, escrever para não gritar comigo, escrever para centrar a energia no que importa
Bom, tinha que acontecer, não posso negar
Porém, o objetivo desse jogo não vingou o que sempre planejei e pensei
Realmente, estava gravado nas estrelas, mas olha… me surpreendi
Maktub clichê, que me desorientou e me fez crer que tudo ia dar certo
Hoje observo e interpreto a distância como ALÍVIO
Pra quê ficar se não quer, não é mesmo?
Maktub, pois te vi no show, mas não era você
Maktub, pois te vi no nome de escolas, farmácias e restaurantes, mas também não era você
Te vejo em muitos lugares ainda
Maktub, pois o frio que foi me dado se equilibrou com o cobertor mental que eu sempre tive
Suportei
Consegui mudar
Faz 1 mês que passo 1 hora da noite deitado observando o céu e lendo as estrelas
Você, eu nem quero saber onde está
Maktub eterno

CARAMBOLAS “VERANO”

Pedaços de sol
Doces e azedos
Transbordando na bacia
Eu amo o teu sítio
Carambolas “verano”
Sempre caem bem em dias como esses
Cadeiras e mochilas no porta-mala
Vamos à praia
Tua melanina conforta a minha
Pele de prata preta brilhosa
Carambolas “verano”
Gosto de beijo
Eu repito
Fala verão em espanhol de novo
Por favor
Me dá mais um beijo

EU PRAIA

Minha pele com pelos é a areia de uma praia deserta
Quente e que esfolia
Minha boca tem gosto de mar
Meus dentes brancos são conchas raras
As curvas são dunas para você escalar
Não tente encontrar algum “x” por aqui
O único tesouro que eu posso te dar é a brisa da minha voz ao teu ouvido

UMA TAÇA DE VINHO ROSÉ

Domingo cativante
Cerejeiras no quintal
Perfume de bambu por toda a casa
Cortinas brancas dançam com o vento, bela valsa
Piso de madeira clara e cara
Escada confortável que te leva ao meu escritório
Me olhas de um jeito espirituoso
Colocas “Valerie” da Amy, porque sabe que é a minha favorita
Pegas uma taça de um vinho rosé
E fazes do meu dia, um dia frutado.


Felipe Gabriel – Marfê (22 anos):

Felipe Gabriel, estudante de administração da UFMA, busca intensamente enxergar a vida por uma ótica mais poética possível para aliviar-se do cotidiano caótico de um jovem adulto preto nordestino a partir de seu pseudônimo Marfê. Poeta que aborda várias situações com a sua singularidade artística, tem muito a agradecer ao teatro, sua primeira casa da criatividade, em que dos 13 aos 15 anos viu suas habilidades se expandirem até receber o prêmio de melhor ator em um festival cultural. Marfê nasce a partir de sentimentos reprimidos e da revolta pelas injustiças que fazem do mundo, um lugar mais pesado, manifestando-se juntamente com a fúria e a beleza do mar.


Jandaíra quer ficar – Parte 2

Uma fábula estranha de Toinho Castro — Sentada na praia, Jandaíra olhava o mar. A maré alta cobria os arrecifes e o Atlântico se descortinava para além do horizonte. Apesar do ruído das ondas, o mar parecia-lhe silencioso, contido. Atrás dela, a Avenida Boa Viagem jazia carente do movimento dos automóveis. Agora, somente um outro veículo a atravessava rumo ao Pìna, ao Centro ou Olinda.

Uma fábula estranha de Toinho Castro —


Leia Jandaíra quer ficar – Parte 1


Sentada na praia, Jandaíra olhava o mar. A maré alta cobria os arrecifes e o Atlântico se descortinava para além do horizonte. Apesar do ruído das ondas, o mar parecia-lhe silencioso, contido. Atrás dela, a Avenida Boa Viagem jazia carente do movimento dos automóveis. Agora, somente um outro veículo a atravessava rumo ao Pìna, ao Centro ou Olinda. Na maior parte das vezes, veículos autônomos de serviço, aspirando inutilmente a poeira das pistas e dos tempos, recolhendo o lixo cada vez menos abundante, entregando pacotes a quem ainda encomendava pacotes.

Jandaíra abriu o app de gravação de voz do seu celular, sentindo-se uma personagem daquele filme, Omega man – A última esperança da terra, e começou a gravar. Eis o que ela gravou:

Li, dia desses, que construíram complexos massivos de servidores no fundo do mar. No leito do mar, assim dizia a revista. E aí fico ouvindo as pessoas falando na Nuvem; que vão pra Nuvem, em subir pra Nuvem… Não sei se é uma ironia ou uma doçura, que a Nuvem fique no fundo, no leito do mar. Então imagino essas instalações como grandes navios fantasmas, carregando aquelas almas digitais, que optaram, por vontade própria, movidas por alguma vaidade, abandonar o mundo, por outro outro mundo. Uma Valhala de bits e algoritmos e silício. Nem sei se ainda usam silício, mas que importa?

São sítios secretos, com autonomia, dizem, de milhares de anos, murmurando nas águas geladas das profundezas, como certos monstros marinhos. Os peixes os evitam, repelidos pelo murmúrio contínuo, que faz a água ao redor, sob o peso do oceano acima, vibrar como uma ameaça permanente. Os peixes contornam essas estruturas submersas, que mais parecem abandonadas, à própria sorte, confiando nos tais milhares de anos de autonomia. Essas almas confinadas, que não sabem que a Nuvem, fica no fundo do mar. Milhares, milhões, de almas a vagar. Entre elas, a minha mãe.

Já em casa, Jandaíra abriu o notebook, apagou a luz da sala, deixando apenas uma pequena luminária acesa. O aroma leve do incenso enchia ar, bem como a fina fumaça, se desenvolvendo em pequenas volutas, ao sabor do pra lá e pra cá de Jandaíra pela sala. Sentou-se em frente ao notebook, respirou fundo, e disse pra si mesma: Vai começar a sessão espírita…

— Não vai ligar a câmera?
— Hum… hoje não.
— Mas bem que eu queria te ver. Tô com saudade do seu rosto.
— Como você “vê”?
— Como assim?
— Assim… ver algo é um evento… como dizer? Físico? A luz atravessa a pupila, alcança a retina e é transformada em impulsos elétricos, sei lá, e essa informação é levada ao cérebro, que, por assim dizer, forma uma imagem. Você precisa ter olhos para ver.
— Sério isso?! É isso que você quer saber?! Sei lá como eu vejo! Nem antes eu sabia direito. Pare alguém na rua e pergunte como ela enxerga. Duvido que saiba responder. Eu não sei… só sei que te vejo.
— Você lembra? Ou tá esquecendo meu rosto? Ou tá com medo de esquecer?
— Eu não te esqueço. Jamais. E estou te esperando aqui. Você sabe disso. Eu, seus amigos…
— Alguns.
— Sim, alguns. Nunca são todos, em lugar nenhum que você estiver, Janda.
— Isso aí não é um lugar.
— Ah, chega, né?! Liga a câmera, Jandaíra! Pelo amor de Deus, né?!
— Deus não existe.

Não foi a melhor conversa que elas tiveram. Jandaíra acabou se sentindo culpada, mas o lance de saber como ela enxergava, era uma dúvida legítima, talvez colocada num momento inoportuno. Elas tinham 15 minutos por semana para conversar, para ver uma a outra, seja lá como isso aconteça, e Jandaíra estragou se recusando a ligar a câmera, teimando, dizendo que Deus não existe. E daí?, pensou Jandaíra. Grande merda Deus existir, não existir. Para se redimir, talvez consigo mesmo, Jandaíra fez pra sua mãe um upload do som das ondas que ela havia gravado na praia. Lembrou que as duas costumavam ir bem cedinho e se demorar, assistindo a maré mudar, até o sol encontrar o limiar dos edifícios e a faixa de areia começar a se encher de suas sombras. Porra, ela amava a mãe e sentia uma falta enorme dela.

— Eu reivindiquei seu corpo…
— Oi? Não sei se entendi…
— Seu corpo, eu reivindiquei ele, 
— Como assim, Jandaíra?
— Ema té três dias após a transferência, um familiar pode solicitar o corpo. Bem… eu solicitei o seu.
— Mas que diabos! Pra quê isso, Jandaíra?! Pra quê isso?!
— Para cremar…
— Jandaíra?! Cremar?!
— Sim. Cremei seu corpo, numa pequena cerimônia. Eu e o Joelson somente.
— Eu não morri, Janda!
— Não? Não era o que seu corpo me dizia.

Como você pode ver, foram quinze minutos de papo bem esquisitos.

CONTINUA…


programa _aguaceiro — poesia, música, resistência

_aguaceiro é um programa lindo, produzido pela Monique Lima, e que vai ao ar pela bravíssima Rádio Graviola. Monique é educadora, escritora-letrista, artista inspiradíssima e ativista da cultura!

Toinho Castro e Jorge LZ bateram um papo maravilhoso com Monique, no Konversa Kuruma’tá, sobre o _aguaceiro, poesia, música e sobre a alegria profunda da arte e da parceria entre as gentes!

Bora assistir ao programa e ouvir o aguaceiro que Monique, tão belamente, nos oferece, reunindo poesia, música, talentos e ousadias.


programa mensal de poesia na www.radiograviola.com
_O que é poesia?
Chave para uma orientação pelas estrelas. Naveguemos

PROGRAMA #7
detalhes do programa

PROGRAMA #6
detalhes do programa

PROGRAMA #5
detalhes do programa

PROGRAMA #4
detalhes do programa

PROGRAMA #3
detalhes do programa

PROGRAMA #2
detalhes do programa

PROGRAMA #1
detalhes do programa


Um poema de Monique Lima

Monique Lima, educadora, escritora-letrista, criadora e apresentadora do programa @_aguaceiro, da Rádio Graviola, é quem chega junto da gente nesse sábado, frio no Rio de Janeiro, mas possivelmente quente e de céu azul em outras cidades. Chega junto da gente com poesia, melhor jeito de chegar. E muito haverá entre Monique e Kuruma’tá. Se ligue!


Fito na parede
um relógio de ponteiros
em algarismos romanos

A engenhoca
é uma arapuca de corda

A espiralada concha mecânica
de lâminas afiadas
fatia o próprio molusco

montagem de toinho castro

Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa: Clones

Texto de Fábio Fernandes


Eles são todos iguais.
Eles são todos iguais.

Cópias, é isso o que eles são. Cópias.

Não se sabe quem é o original, como seria possível? Afinal, quando você copia um arquivo dentro de uma pasta de seu computador, coloca a cópia em outra pasta e abre os dois arquivos ao mesmo tempo, é possível saber qual foi o primeiro a ser criado?

Não.
Não.

Com eles é a mesma coisa. Sem tirar nem pôr. A mesma coisa. Todos lêem os mesmos livros, vestem-se sempre do mesmo jeito, estão sempre nas mesmas festas, acontecimentos e happenings. Todos têm o mesmo discurso. O mesmo discurso, sem tirar nem pôr.

Eles podem até não ser exatamente iguais por fora. Mas por dentro não há a menor diferença. A menor diferença.

Foto de Mike Chai no Pexels