Não, não se trata de um artigo ou crítica sobre a novíssima minissérie sobre Nara Leão, O canto livre de Nara Leão, disponível na GloboPlay, a qual ainda estou a assistir. É mais um comentário que eu não queria deixar de fazer, estimulado pelos episódios dessa que foi, e é ainda, uma das grandes artistas brasileiras, não só pelo canto, mas pela grandeza de sua atuação no cenário cultural do nosso país. Atuação que deixou marcas poderosas, provocou transformações que reverberam com força ainda hoje.
Certa vez, num desses magazines, dei com um disco recém lançado de Paul McCartney. Era 2001, já um novo século, e encontrar um disco novo do ex-Beatle me deixou curioso. Nunca fui exatamente um fã, um beatlemaníaco, mas acompanhava mais ou menos a carreira dele (preferia então John Lennon!) e resolvi escutar aquele disco nos fones de ouvido da loja. Quando ele começou a cantar na primeira música, uma onde me percorreu. Aquela voz me comoveu.
De repente me dei conta de que eu havia crescido com aquela voz cantando perto de mim, em toda parte. Na minha casa, nas rádios, nos programas de TV. A voz de Macca era a afirmação de que eu pertencia a uma geração, que eu havia crescido, vivido e sonhado num mundo em que os Beatles existiam. Senti um pertencimento.
Ontem, assistindo ao primeiro episódio de O canto livre de Nara Leão, logo nos primeiros minutos, tem ela conversando com um Tom Jobim ao piano. Tom tece alguns comentários, os dois trocam impressões e o maestro começa então a cantar Wave, de sua autoria. Então Nara começa a acompanhá-lo e eu escuto sua voz cristalina, quase impossível. E senti esse pertencimento, essa identidade. Um súbito reencontro comigo mesmo, com minha história e da minha família e das pessoas que frequentavam nossa casa. A história do país em que nasci (Por onde ele anda?). Os amigos da minha irmã, que varavam noites de cerveja e conversa jogada fora, cantando aquelas músicas todas que iluminaram os terríveis anos setenta. Os LPs rodando na vitrola, eu, menino, cantando o disco de 1978 de Chico Buarque, pra minha mãe, no carro em que íamos buscar minha irmã na faculdade.
Conheci Nara em dois duetos, com Chico, em João e Maria, e com Fagner, em Penas do Tiê. Dois artistas a quem Nara abriu portas, e descobri-la por meio deles, não deixa de ser uma curiosidade e também certa justiça se fazendo muito poeticamente e reversamente. Não sei vocês, mas o que eu devo a Nara é enorme. Uma memória, um afeto… uma cristalização de quem produz arte como motor de mudanças na sociedade. O medo do palco, a timidez, nada disso a impediu de seguir em frente, de fazer diferente, de abrir caminhos para si e para os demais, e de nos acalentar e provocar com uma das mais ricas trajetórias de uma artista nesse país. Ou nesse mundo, que tá na hora de parar de circunscrever o talento dessa gente apenas ao nosso território.
Enfim, essa minissérie tá sendo uma oportunidade de reencontro com Nara e todo um universo em que ela atuava brilhantemente e moldou em grande parte o que somos; um universo de pessoas, canções, encontros, lutas. A vida de Nara é uma lição de grandeza e ternura muito bem-vinda nesses dias atribulados que atravessamos. Recuperar sua presença, sua voz tão rara, tão única, é um alento, um conforto e também um chamado a sermos nós mesmos e nos colocarmos com clareza nessa narrativa nublada que nos é imposta. Viva Nara!
Nara Leão entre Zé Keti (à esq.) e João do Vale em “Opinião“.
Gostaria de destacar na minissérie, a bonita abertura realizada por três amizades queridas: Christiano Calvet, Rodrigo Bleque e Valerycka Rizzo (+ Adriano Mota). Parabéns, gente querida! Aproveito para parabenizar o diretor Renato Terra, Isabel Diegues e toda a equipe envolvida no projeto.
Crônicas do retorno: a poesia de Vanessa Vieira Gomes
Mais uma poeta chegando na Kuruma’tá. Nos alegra demais esses encontros, que vão surgindo espontaneamente, da vontade de quem reconhece na revista um espaço aberto, um território carinhoso com quem o adentra e faz daqui seu lugar.
E você que tá aí se encantando com a poesia de Vanessa, clique no link e reserva seu exemplar, né?! Vamos valorizar, comprar, compartilhar a nova poesia, que tá sendo escrita por esse brasil adentro, resistindo a tudo.
Dos autos
Existe algo interessante Sobre declarações de amor Elas são feitas ao tempo Se trancam ao momento Numa fragilidade íntima Que só a ampulheta Consegue simular Como gotas de chuva Se esvaindo pelo presente Imortalizando o momento Se emancipando da gente
Escrever
Escrever é dilúvio Que desagua dos terrenos Hostis das nossas mentes
Escrever é se reconhecer No espelho da temporalidade Do tique-taque que nos Consome da rotina adulta
Escrever é corrida desenfreada, Busca por vocábulos escondidos Flagrantes de rascunhos, Julgamento em preto e branco
E escrever é descanso Dos agouros da vida terrena É leveza que Se preenche Se exata por si
Escrever é respiro Depois de um tiro É suspiro, é acalento Quente e enfeitiçado É verbo e substantivo É sensação e leveza
Escrever é tecer Caminhos e pontes Entre o real e imaginário É convencer opositores Amalgamar continentes Escrever é traduzir línguas Transmutar em sintonias
Escrever é dar corpo A esse turbilhão incerto É gestação de nove meses É contração É anseio em cada linha Até ser contingente
Impermanência
Contraditórias és tu Impermanência que Por onde passa e toca Nos obriga se contentar Com a ironia da semântica dos prefixos
Cético que sou Permaneço na vontade e no desconhecido De estender no desejo por mais de sua polissemia
Contraditórias és tu (impermanência) Exprime no âmago Lições de uma vida E nos debruça por mais joelho Quando somos mais colo
Contraditória és tu (impermanência) Por brincar de ser intransitiva Desprezar complementos Nessa sintaxe que nos convida A conjugar transformação
Zeitgeist
Nossos avós falam das guerras, Da fome, da pobreza;
Nossos pais falam das crises e dos pós-guerras,
Nós falamos dos egos.
Crônicas do retorno é resultado de idas e vindas da autora no âmbito da escrita. Em contato com a literatura desde os 14 anos (blogs sobre música na era otimista da internet) e em pausa desde os 24. Crônicas porque é vivência diária, tempo que marca, matéria-prima para escrever, para pensar, rebobinar, digerir e, por fim, colocar para o papel o que está guardado e pode se corporificar nos escritos. Retorno porque é a volta à escrita após sete anos.
Nascida no final da década de 1980 no Rio de Janeiro, Vanessa Vieira é bacharel em Comunicação com ênfase em Linguística e Estudos em Quadrinhos. Em um breve período, foi estagiária de fotografia e, em seguida, trabalhou no ramo editorial com obras de especialização em informática.
Tays Melo na Kuruma’tá!
Mais gente boa chegando nas páginas da Kuruma’tá! Agora é a vez de Tays Melo. A poeta, nasceu em Natal-RN, mas cresceu e criou-se em Areia, na Paraíba. Prepara seu primeiro livro Não Queria Bonecas; Gostava de Flores, para 2022, fruto da Lei Aldir Blanc.
Esta cidade é como uma jovem mãe pobre, que promete aos filhos que tudo vai dar certo e que, amanhã, as coisas vão melhorar
I
Eu moro em uma cidade chuvosa. Agora mesmo ouço trovões e cai um forte temporal. A terra fica bem molhada. Trilhas de areia se formam em córregos rasos na estrada.
Aqui tudo parece lindo, tudo parece poético, tudo parece tão vivo, tudo parece tão sensível. Os trovões, a paisagem cinza de tanta água de chuva, os morros escondidos no horizonte turvo da umidade, as folhas rasgadas pelos pingos fortes, a água de lama, as pétalas que se soltam por causa dos ventos e os guenzos encharcados, procurando alpendres para se amparar. O calçamento liso, envelhecido, a fantasmagoria triste das praças vazias e os fios de energia, com filas de gotas que despencam com o pouso dos pardais.
Sim, há pássaros que pousam nos fios elétricos sob chuva. É uma ousadia. E esse trovejar? Ah este trovejar… Parece gritos do meu coração em fúria ou a ópera numa encenação sobre saudade.
Hoje estou tão triste que sinto como se eu também fosse chover. Sinto como se fosse pousar sob a chuva em fios desencapados e sinto medo. Aqui, algumas vezes por ano, mesmo as paisagens tristes, parecem belas e mesmo as belezas parecem tristes.
Esta cidade é como uma jovem mãe pobre, que promete aos filhos que tudo vai dar certo e que, amanhã, as coisas vão melhorar. Enquanto debruçado sobre as janelas, o morador da periferia observa as lágrimas do céu descer as ruas enladeiradas, confundindo-as com as suas. E os poetas se afogam nas próprias palavras que não lhe querem sair. Como são lindos os sons estalados das goteiras de encontro ao chão. Será que dói?
II
Um dia eu briguei com os poetas. Eu os xinguei, os chamei de tolos, mas não por mera arrogância ou simples ignorância, e sim por negação. Como criança, quando tropeça e chuta a pedra que lhe machucou os dedinhos do pé, evitando entender que esteve desatenta e que as pedras não são culpadas por atravessarmos o seu caminho e que não sentirão dor e remorso por serem estáticas até pés distraídos lhes alcançarem, eu, furiosa, resmunguei.
É que eu, desnorteadamente, por longo tempo, tropeçava em poesias que me evocavam dores, fraquezas, carências. E entendia que poesia era como pedra na qual se tropeça quando não se observa direito o próprio caminhar e que fui eu quem escolhi o caminho das pedras. E aí, pensei: Não quero os poetas, não quero seus poemas, tampouco sua poesia cheia de pássaros livres e arredios, cheia de curvas revelando segredos e emoções alardeadas. E pensei mais: A poesia dói, a poesia corta e faz sangrar, faz minar sensações de incômodo e nos coloca de frente com faces sombrias que muitas vezes gostaríamos de manter no silêncio.
E a poesia também é lâmina. Retalha-nos e expõe nossos pedaços em praça pública, no teatro e na televisão. Faz de nossas dores um espetáculo onde o público abraça nossa loucura ou apenas rir de nós.
A poesia é navalha afiada, que sangra os poetas e lhes extraem o amargo e lhes expõe as veias lacinantes. É por isso que a poesia dói. E ela sabe doer. É uma dor que salva, um sintoma que singra sobre o sangue jorrado, em vermelho licor, traçando jornadas num corpo que renasce em ferida aberta. A poesia nos rasga, nos fenda, nos rompe, nos aparta para depois nos pangear.
Hoje, em meu sangrar, sinto que transformo coágulos em águas claras. Havia tantas coisas para serem ditas e não encontrei maneira de dizer, enquanto não fiz as pazes com a fera morando em mim. Não há como fugir do que bate com força às portas do peito. Não há como sentar à mesa e se fartar de alimentos estranhos. A gente apenas belisca para não morrer de fome. A poesia só fere enquanto é retida, afinal quem gosta de se manter na prisão? Hoje, a poesia me acorda, alimenta-me, namora-me, acaricia-me, faz-me voar e antes de dormir, eu sonho com o choque de espadas nas suas batalhas travadas contra os assombros das fortes ventanias.
Entre as melhores companhias ainda não há como se satisfazer negando a companhia de si. E como ter a presença de si negando o que se é? Eu pensei que não podia ser poeta. Sempre achei que não entendia nada de poesia, até que acordei numa noite fria de inverno, ouvindo a dobradiça da porta de meu quarto ranger. Uma sombra ligeira que se escondia em cada recanto apertado da casa, sussurrava que não se tratava de compreensão. O cosmo contido precisava ser sentido. Ainda que não fizesse o menor sentido, poesia não exige explicação. Se há uma fera rasgando o peito é preciso sentir e expulsar ao mundo o que se sente, porque o que pulsa dentro da gente não sossega até que saia e abrace as flores enquanto se banha ao sol.
Então, um dia, eu cheguei procurando quem me achara de outros carnavais. Carnavais que perdi, carnavais que me deixaram menina do cárcere das saias que usei.
Cheguei à livraria e estava aberta, porém quase vazia. Havia estantes desarrumadas, livros novos envelhecidos. O moço do balcão não sabia onde estavam os poetas. Eu, que tantos os rejeitei, botei-me a procura como alguém na busca das chaves da casa própria, perdida no dia da mudança. Eu, numa livraria, procurando poesia? Olhei torto na vitrine e vi no reflexo as outras de mim, que não paravam de rir nem cansam de suas ironias. Achei Pessoa, achei Clarice, achei Meireles, na pressa daquela agonia, mas trouxe Drummond, a antologia…
Poética.
Mulher
Mulher, Você é muito forte. Você é muito inteligente. Você é muito capaz. Mas, mulher, você é mulher Demais.
Você deveria aprender a dirigir deveria fazer outra graduação deveria fazer pós-graduação deveria conhecer outro país deveria aprender inglês e ter aulas de violão. . E acumular menos louça na pia Varrer essa casa todo dia E dar mais atenção a sua cria. Deveria arranjar um namorado Investir no seu lazer E começar uma terapia.
Deveria ir ao médico Sair com seus amigos Malhar numa academia Acompanhar os lançamentos Exercer sua cidadania Mantendo as contas todas em dia.
Precisa aprender a teclar Responder aos contatos Do perfil na rede social Você precisa fazer o jantar precisa ir ao mercado E ser mais pontual
Pra não esquecer a reunião de trabalho Nem a reunião de pais Não esquecer de aguar o jardim Nem de trocar o botijão de gás
Leve a criança à escola E não esqueça de ir buscar O dia tem vinte e quatro horas. Um organograma vai te ajudar.
A culpa é sua De não gerir seu tempo De eu apresentar solução E você não querer aplicar.
A culpa é sua De não ter nascido duas De ter braços pequenos E o mundo não saber abraçar.
A culpa é sua por viver reclamando Que tá cansada Que tá doente Que tá com sono Que tá lascada Que quer chorar.
A culpa é sua por viver Querendo se esconder Querendo partir E não querendo sentir Esta falta de ar.
A culpa é sua por decidir Viver sem se explicar Com vontade de fugir E não mais suportar.
E por isto Não faz sucesso Não faz amigos Não faz arte Não faz amor Não faz nada.
Não tem tempo Não tem coragem Não tem leveza Não tem estrutura Pra ditadura Da ampla jornada
Nossa, como eu estava com saudades de vocês! Espero que estejam todos bem de saúde e que tenham tido um belo Natal. Independentemente da sua crença, independentemente de onde moram, a despeito das suas condições financeiras. Porque o Natal é sobre luz, sobre emanar boas energias. E quando muitas pessoas, ao mesmo tempo, no mesmo dia, emanam pensamentos bons, todo o planeta acaba envolto por essa vibração, e ela tem poder de cura. Simples assim.
E por falar em simplicidade, é sobre isso que vim assuntar com vocês hoje. No senso comum, o simples é tudo aquilo que não é complexo, certo? E todos sabemos (e como sabemos) que a vida é bastante complexa.
Mas isso se deve ao fato de que pensamos em nossas vidas de forma genérica, com tudo de bom e de ruim que a vida em si proporciona.
Já pensaram em analisar os dados e fatos da vida cotidiana de forma fatiada? Cada parte da vida separadamente?
Ah, como assim? O que acontece num setor da vida acaba produzindo efeitos nos demais setores, né? Até porque somos um só – individualmente – em todos esses compartimentos. Eu entendo. Mas não vim aqui pra facilitar as coisas. Vim para provocar reflexões, que possam ser úteis para cada um de vocês.
O quão mais fácil seria se pudéssemos lidar com cada parte da nossa vida isoladamente? Pois é, podemos. E ao exercitarmos isso, terminamos por perceber a simplicidade de cada parte. Essa noção é que faz a diferença, uma vez que as coisas simples são mais tranquilas de assimilar e cuidar.
Vendo os noticiários nos últimos dias, meu coração se entristeceu muito com a tragédia das chuvas, inundações e destruição na Bahia. Os estragos e a reconstrução da vida das famílias afetadas representam um problema de alta complexidade. Mas o ato de chover até que é simples. Deveríamos ter sido capazes de antever e proteger essas pessoas afetadas pela simplicidade da chuva, dentro da complexidade do seu alto volume em curto espaço de tempo. Mas não fomos. Ao menos não pra eles, ao menos não dessa vez.
E agora? Agora deixemos as obrigações dos governos (federal, estadual e municipais) com a complexidade das coisas, e coloquemos foco no que podemos fazer, onde e como conseguimos tomar parte nos esforços de ajuda, no nível mais simples possível.
Para tal, basta identificarmos instituições sérias dedicadas a apoiar as vítimas, e, de forma tão simples quanto comprarmos nosso cafezinho com pão na padaria, que façamos nossas doações, na medida do que podemos.
O mesmo se aplica aos planos e metas para 2022. Teremos um próximo ano particularmente complexo e difícil, ao que parece.
Isso dificulta sobremaneira o planejamento, pois olhamos para o ano novo com olhos de generalismo. Vamos fazer diferente? Que tal separarmos apenas as três metas, sonhos ou desejos mais relevantes dos demais? E desses, que tal escolhermos o mais simples e traçarmos um passo a passo de como conseguir alcançar ou realizar? Ao fazer isso, nos sentimos mais capazes, porque estaremos lidando com algo nada complicado e bem mais tangível. Sem expectativas enormes, e portanto sem frustrações maiores ainda.
Aceitam exercitar essa forma de pensar? Fiz assim esse ano e estou bem menos pressionado do que em anos pretéritos, quando achei que poderia abraçar o mundo e resolver todos os meus problemas.
Agora vocês devem estar me achando simplista. Simplista sim, porém nunca simplório.
O que amedronta é a onda enorme, nunca a marola. São os temporais, nunca a garoa tímida. Os tornados, nunca a leve brisa do mar.
Façam as coisas mais simples, e depois me contem se, como eu, se sentiram melhor. Afinal, estamos aqui para sentir e agir, focando em sermos felizes o máximo possível. Sabendo que menos é mais.
E que o ano novo de vocês seja simples. Simplesmente maravilhoso!
Até breve!
Conversação de paz, para além do tributo (merecido) a Sérgio Ricardo
Texto de Toinho Castro —
Destaque para a bela colagem da capa, da artista Jhê
Mais um discaço chegando antes que o ano acabe, antes que o mundo acabe… pois quem sabe assim ele não acabe.
Conversação de paz (Tuhu Music, 2021), de João Gurgel, é sensacional. Um disco enxuto, com sete faixas, todas assinadas pelo grande, grande, Sérgio Ricardo, de quem João é filho e a quem o disco é um belíssimo tributo. Perdemos Sérgio Ricardo no ano passado, mas sua criatividade irrequieta, seu talento múltiplo e sem medo, afirma-se cada vez mais em sua qualidade. A gente ainda vai ver o Brasil prestando a devida homenagem a esse artista incrível. E não tem homenagem melhor que ouvir e gravar sua obra.
Dito isto…
João Gurgel alinha aqui um repertório muito esperto, escapando do óbvio, pinçado com precisão no trabalho de SR. Conversação de paz, a música, do disco Arrebentatação, de 1971, abre o disco com uma contemporaneidade fora de série, marca da poesia e das composições de Sérgio Ricardo, e que percorre todo esse disco. Estamos nesse mundo em guerra, nesse país em que se faz necessária, urgente, uma conversação de paz. Bom demais ouvir a ironia misturada com doçura, do que poderia ser uma conversa em frente a televisão ou no botequim.
Ana Ana Onu Está me dando sono Acordar o dono O dono do sono O dono do abandono O dono do Esporte Clube das Nações O dono do ar que eu respiro Respiro pra te amar
E na sequência vem, pra mim, a grande alegria e surpresa do disco, o resgate de Emília, música tema da boneca de pano que bagunçava as coisas e as ideias, na edição clássica da série do Sítio do Picapau Amarelo, nos anos 1970. Não tenho notícia dessa música que não seja no disco com a trilha do seriado, lançado em 1977. Então trazê-la a tona, com esse arranjo lindo, é um presente pra gente que nem eu, que conheceu Sérgio Ricardo com essa canção assombrosa (Possivelmente minha preferida ainda hoje).
A presença de Cacumbú no álbum, recém gravada pela irmã, Marina Lutfi, no seu álbum Outra dimensão, faz com que a gente tenha nesse ano de 2021 duas versões impecáveis dessa música. São duas leituras distintas, mas ambas com algo de assombroso, algo de soturno nessa crítica dilacerada, cortante, aguda, Caco de faca velha bico de urubu. Trata-se dos mares, das marés. Dos oceanos e dos peixes fugidios, do óleo derramado, mas também de nós, procurando ar pra respirar no meio em que vivemos, afogados na nossa própria natureza, recortados da vida, recortados com ponta de faca da tecitura das águas. Boiando inocentes.
Onde os saveiros onde as caravelas Onde estão minhas jangadas Onde o barco a vela
Gente, que música é essa. O arranjo de João é soturno, misterioso, história contada ao pé do ouvido, pra que ninguém desconfie que estamos tramando, ou que sabemos do que está acontecendo nesse mar que prolifera. Ter duas versões límpidas dessa música num ano que nos arrasou, é um alento.
Apesar desse texto parecer um faixa a faixa, não tenho nem cacife pra discorrer sobre a obra complexa e ousado de Sérgio Ricardo. Vou falando de apaixonado que sou, agradecido demais pelo generosidade desse disco, de João, que ainda nos oferece Bate Palma e Folha de papel, que acabei de conhecer com ele. Bichos da noite, sobre poema do pernambucano Joaquim Cardozo (Da peça O coronel de Macambira, começa com uns sopros, que vou te contar. Um clima de fuga aventurosa, de jornada escondida, pois São muitas horas da noite, são horas do bacurau... Estamos, pois, enfiados na mata noturna, testemunhando a dança dos bichos da noite. Comparada à original, é uma construção surpreendente, altamente cinematográfica. Afinal, o cinema tá impresso no DNA profundo de tudo que Sérgio Ricardo fez. Eu mesmo tenho com essa música uma história de beleza, de cinema, que fez com que ela entrasse na trilha de Bacurau, de Kleber Mendonça Filho. Mas isso é outra história. Vale ressaltar no registro de João, a voz luminosa de suas irmãs, Marina e Adriana Lutfi, num contraponto à escuridão em que a música nos conduz e nos perde. Lindo.
Lá vem a pedra fecha do disco, do disco Do lago a cachoeira, de 1979. Brilha a estrela em noite de orixás!
Conversação de paz é um testemunho instigante da riqueza da obra de Sérgio Ricardo. Confirma a absoluta necessidade de ouvir suas músicas, no Brasil de Hoje e de amanhã. É um trabalho político, de resistência, afetivo, lírico, bem humorado, cheio de ironia. Uma música sem tempo, que ocupa muitos espaços nos caminhos da música brasileira.
Mas é preciso que se diga…
Mais que um tributo (merecido) a Sérgio Ricardo, é um disco de João Gurgel, artista múltiplo e talentoso, que imprime às canções sua própria identidade. Arrisco-me a dizer que, entranhado na obra do pai, ele constituiu um disco autoral. A seleção do repertório, os arranjos, as participações, tudo tão acertado, tão preciso… É o primeiro disco de João, e primeiros discos que tem assim essa luminosidade, são tão necessários, tão renovadores da nossa fé na música. Nada como a alegria de ouvir um disco novo, fresco, cheio de vida e estradas abertas como esse Conversação de paz, que nos chega no apagar das luzes de um ano muito difícil, quase impossível. Chega como potência, promessa de horizontes abertos.
O menino do campo
Um conto de André Moreno — Umas mãos debruçando-se a arar terra, outros colhendo flores e frutos, alguns capinando as matas e plantando as sementes, outros na caça, uns fazendo a alimentação e, as crianças, claro, brincando, imitando os adultos.
André Moreno, mais um voz do Maranhão, de São Luiz. Uma voz jovem, potente e presente. Uma voz que não se cala, que não silencia, voz que se levanta ante a injustiça perene. André, seja bem-vindo à Kuruma’tá!
Mais uma recomendação preciosa da parceira Micaela Tavares!
Um conto de André Moreno —
Tudo isso porque não se confia na delicadeza dum engravatado indelicado.
Umas mãos debruçando-se a arar terra, outros colhendo flores e frutos, alguns capinando as matas e plantando as sementes, outros na caça, uns fazendo a alimentação e, as crianças, claro, brincando, imitando os adultos.
Mas o menino pressentia que naquela tarde a colheita não aconteceria da forma tradicional.
Não por maledicência do clima, muito menos incapacidade dos familiares e companheiros. Mas era por malevolência dos homens que chegavam nas terras vestidos com gravatas e seus ajudantes que possuíam armas.
O menino nunca havia visto alguém de gravata antes, não tinha porque, mas armas via todo santo dia. Já sabia que nem todo dia era santo, mas confiava nos segredos de Deus e na perseverança da comunidade, todos lá oravam aos fins da tarde, mas não puderam naquela específica.
Os homens de gravata e seus ajudantes pistoleiros levaram folhas e mais folhas escritas para mostrar ao seu pai, que não era dos caboclos letrados, mas que tratava dos assuntos da comunidade.
Era uma carta amarelada afirmando para sair daquela terra, isso dito em alto e bom som. Ela era da propriedade de um homem bem poderoso, que nem sangue de brasileiro tinha. Mas talvez eles não soubessem que como eles, de tempos em tempos vão pessoas alegando o mesmo. Dessa vez, os engravatados e armados tinham mais justeza do que falavam, aparentavam sustança na forma como ameaçaram o pai do menino e a comunidade.
Ele entendia que não arredava pé de sua terra, que não precisava ler as palavras para ter certeza das suas próprias, que se não avoassem dali qual galinha em terra de raposa; logo eles armados, mas em pouca quantidade, iriam se arrepender de não ter se despedido das esposas. O homem da gravata arrepiou-se todo, parece nunca ter visto a confiança de um camponês. Puxou o homem da arma para aconchegar no ouvido e sussurrou alguma criminalidade, que logo os dois se apaziguaram. Então eles prometeram de forma aprazível voltar e se despediram, mas ninguém do lado da colheita respondeu.
“Aqui ninguém se engabela com ameaça de grileiro”, afirmou o pai do menino, que logo saiu dialogando com cada companheiro da comunidade. Começaram a cerrar madeira, afiar facão, preparar espingardas que iriam se aposentar temporariamente de caçar bicho e agora protegeriam de gente, guardaram as colheitas no reservatório que era só para os momentos de pressa.
Tudo isso porque não se confia na delicadeza dum engravatado indelicado.
Tudo pronto, começaram a separar as tarefas, o que cada um devia fazer. A palavra “resistir” foi dita de forma uníssona. Aquela terra em que tanto se produziu e conquistou, que tinha casas e histórias, memorias e esperanças, seria entregue por qual razão? Essa pergunta para a comunidade nem existia, já que a resposta é que a terra jamais seria entregue. Cada um mais convicto que outro. O menino confiou-se e brilhou o olhar vendo o pai aprontando tudo para defender a vida das pessoas. Não era advogado, mas este sim defendia a vida das pessoas.
Ouviam nos rádios que as pessoas não gostavam deles, acusavam de invasores, mas como que eles eram invasores, se seus antepassados ali ergueram moradas? Acusavam de criminosos, mas como poderiam afirmar isso, se o trabalho na terra, sagrado pro camponês, era para alimento das famílias e comunidade? As pessoas da emissora não conhecem camponês, e aparentam nem mesmo querer conhecer.
No dia seguinte, os homens não vieram só engravatados e armados, mas vieram junto com os policiais. Desde cedo menino pobre sabe que aquela farda não serve para ele. Brincava de tiro com os outros guris, mas nunca se imaginando fardado. Chegaram lá na maior tirania, provando que não há tanta diferença entre capitão do mato e fardado do estado, e já foram buscando intimidar cada um.
Para estar lá, tinha que ter aval de político, de pastor, de rádio e tv, de tudo isso e o pior de tudo… é que eles tinham.
“Os jornalistas, os pastor das igrejas e os políticos preferem confiar na voz de gringo do que na voz de quem é parecido com eles”, pensou o menino.
“Seus preto imundo”, alegou um polícia, que nem tinha a cor tão branca assim, dirigindo à multidão de enxadas; é como se, ao menos, estivessem nessa terra só pretos. Tinha preto, amarelo, branco, tinha de tudo lá, mas se ele via todos com uma cor só, talvez o problema estivesse com a corporação, que não ensinou bem sobre cor aos comandados.
Viam e tratavam os camponeses como fossem gado, olhavam de forma pavorosa quase babando de tanta raiva. Gritavam e esperneavam alegando que se não saíssem dali o sangue iria pipocar, ignorando completamente que do lado da colheita tem todo tipo de vida.
Derrubaram o barracão onde o menino aprendeu a conviver desde mais menino, tantas vivências e brincadeiras que surgiam naquela mente que deixava a inocência de pouco há pouco. Esparramaram spray de pimenta nos olhos que por segundos acostumaram-se a uma nova visão. Ameaçaram gás lacrimogêneo, e tudo isso sem haver nenhum avanço do povo que ali estava.
Não vieram ter papo dessa vez, vieram dar solução cabal ao papel que nada dizia.
“Saiam dessa terra”, diziam eles. “E vamos para onde?”, indagou o menino.
Até que o engravatado surge da multidão de ombros, dos cachorros embevecidos, e se direciona ao pai do menino, que estava na frente do grupo de camponeses. “Vou dar duas horas para saírem daqui”, afirmou apontando na cara dele. “Vocês são muito canalhas, acham que somos fracos e não vamos resistir? Tão muito enganados. Por acaso nós somos criminosos? Nós somos trabalhadores, não tem criminoso nenhum nessas terras. A terra é de quem trabalha e nós que colhemos nela o que vocês comem!”, responde gritando para os dois lados e para si mesmo, este verdadeiro sujeito homem, revoltado com tamanha ingratidão.
Algo tomou conta do espírito do menino, do fundo da sua alma. Sua espinha gelou. Seus olhos, anteriormente atormentados, agora esvaiam-se em lágrimas, de uma espécie de esperança. De sobrolho dirigiu-se aos seus, viu no rosto de cada um e observou o seu próprio. Percebeu que estavam sozinhos contra todas as figuras imagináveis, mas, nunca estiveram tão juntos. Eram como um corpo só, uma mente só, uma única ideia, um único desejo.
A terra!
E não era somente aquela ali, que tinham desde antes de seu nascer, mas era toda terra que se concentrava nas mãos de homens como o tal gringo, que nem coragem para estar enfrentando-os tinha, que mandava capachos tentar açoitar adultos livres, que nem amava a terra, que nem dependia dela e muito menos iria arar nela.
Tomou-se de sua inocente existência dúvidas incontornáveis.
O que fez aqueles homens embrutecidos olharem seus iguais com tamanho desprezo e nojo, qual bicho qualquer? Por que tomar nossa terra? Por que todos não vivem juntos e de bem uns com os outros? Por que os que mais tem, mais querem ter à custa de outros?
Não se acomodou à sua angústia e ao medo dos seus. Não esperou a oração para exigir as respostas divinas, que aconteceria naquela tarde, e não aconteceu.
Quis responder ele mesmo agindo no ali, no real.
E tomado de revolta e, principalmente, do desejo de dar causa à sua dor, o menino tomou do chão um pedregulho qualquer e o dotou de sentido. O medo em seu âmago foi transformado em certeza da sua ação. Não resistiu à angústia imediata, a incertezas variadas e naquele lançamento, endereçado ao repulsivo homem da gravata listrada, deixou-se de ser um menino qualquer para tornar-se sujeito homem, como seu pai.
O endereço foi certeiro na cabeça do ignóbil homem, que desabou ao chão.
Logo os cabras armados sujeitaram-se ao susto, e apontaram seus fuzis para cima dos bravos camponeses, das mães com olhares pulsando de desgosto e elevando facões, das crianças compreendendo os passos da resistência com pedregulhos nas mãos, dos pais empunhando suas espingardas.
Todos eles perceberam naquele momento que a pedra não foi jogada só pelo menino, mas por todas as mãos, que na colheita agiam em conjunto, que seria feita naquela tarde, mas não pôde se realizar.
O seu pai começou a gritar como em uma guerra, vozes ecoaram como em um batalhão.
Não havia mais medo nos olhares, não havia mais equívocos ou ambiguidades nos pensamentos, muito menos tremelico nos lábios; havia sim uma inquebrantável, desejosa e racional coragem e confiança de que dali só um lado sairia vivo. E ninguém neste lado portava uniforme de polícia ou gravata.
Os polícias até tentaram pregar terror, mas acabaram aterrorizados com os bicos de espingarda, os brilhos dos facões, o formato dos pedregulhos, o ódio de cada um que estava ali gritando a existência para fora do peito. Não apenas as suas atuais existências, mas a de seus irmãos e de seus antepassados que fincaram os pés naquela terra, que se indignaram com o enredo escrito por latifundiários, de grandes lotes de terra na mão de quem produz fome e miséria.
Os polícias não estavam vendo apenas homens, mulheres e crianças; viam uma história de tragédias e de sucessos, de derrotas e de vitórias, de perdas e conquistas que era muito mais profunda e rica do que conseguiam imaginar.
Seus uniformes, umedecidos de suor e pânico, não sabiam se desertavam ou se partiam para o morticínio de um dos lados.
“A terra é para quem nela trabalha”, diziam uns camponeses ali. “Essa terra é nossa”, diziam outros camponeses dali.
E uma canção começou a formar-se dos pulmões extasiados pelo orgulho da união.
“A história não falha, nós vamos ganhar.”
Todos ali, dos dois lados perceberam qual era o momento da história, não havia revezes, não havia questionamentos.
Os homens de uniforme, então, desataram a partir qual preá fugindo de onça ao meio dia. A pinta de coragem desvanece com o primeiro gesto da força do unir de mãos e braços.
O horário daquela tarde definiu a forma como enxergariam a vida em comunidade a partir dali. Não eram os mesmos, não podiam ser. As palavras se tornaram pequenas, até os caboclos contadores de história não estavam acreditando no feito.
Conseguiram apenas dizer o que tinham a dizer ao fincarem a bandeira de sua luta ao chão.
O Sol, retumbando sobre os bonés e chapéus, sobre as camisas e as calças informavam que o luxo de comemorar ainda não havia chegado. Ainda havia trabalho a fazer.
Então o pai montou as equipes para o trabalho.
E olhando o menino nos olhos, percebeu que já não era mais um menino, seu pequeno ajudante até então, mas já era homem feito, de maturidade e responsabilidade.
E, nas novas divisões de tarefa, o menino ficou na parte das colheitas.
André Moreno tem 19 anos e aço faculdade de jornalismo na UFMA.
“Entendo a escrita, e a poesia em particular, como um instrumento de libertação dos oprimidos e acorrentados pelo modus operandi de um sistema de dominação material e colonização das mentes.
Entendo também como uma ferramenta de dar sentido à existência e aos intangíveis, pulsantes e, muita das vezes, dissonantes sentimentos que afloram no âmago das pessoas.” — André Moreno
EM BREVE, POESIAS DE ANDRÉ MORENO, AQUI NA KURUMA’TÁ. SE LIGUE!
Poema interiorano e outros poemas, de André Siqueira
Eis a sempre bem-vinda poesia que nos chega pelo inbox, pelos ventos digitais. É a Kuruma’tá ecoando seu espaço aberto por aí, nas cidades e mentes Brasil adentro.
O poeta André Siqueira, de Jacareí nos oferta generosamente cinco poemas de sua lavra e é com esses versos que começamos a semana Kuruma’tá, que é, essencialmente, uma casa de poesia. Seja bem-vindo, André. A gente agradece a chuva poética que goteja nossos beirais!
o silêncio quebrado apenas pelo pernilongo da casa mata o tempo das horas moucas
Poema interiorano
chove como sempre escreveram nos livros e canções amigas distantes estamos contando os casos enquanto calangos correm na aridez do concreto
fico sentado, vejo o verde aos borbotões entre a folhagem verde suculento que enverga uma saudação japonesa apanhando da gota estúpida
ouvi melhor o meu quintal o mato tomando terreno roça a gotícula infinita restante que desce da telha cerâmica Vila Martins
ligo as telas tão antenadas e transmitem a morte longa percebo o quintal e sorrio o sorriso do filho, canta o galo morador ilustre do bairro, a dona mora ali a tarde anila a calcedônia pelos ares duros do adeus
levanto, saúdo o passeio pela casa trancada em ponto sem final que desce da telha cerâmica Vila Martins
chove como sempre escreveram o pingo bate, fere a folha que recurvada reza e vela vidas lembradas sobre a tarde
uma gota insiste na telha cerâmica Vila Martins
(Sem título)
chuviscou nos telhados simples as gotas dançavam dulcíssimas trespassando os pedestres rápidos indo e voltando pelo asfalto empoçado numa renúncia de quem cansou de tanta gente que passa e não percebe os cacos de esmeraldas nos velhos ombros dos muros plantados nas terras abertas pelas mãos passadas silentes no canto da casa erguida no solo tocado
chuviscou nos telhados simples as gotas acertavam como barcos de papel naufragando no mar de imagens chuviscadas
(Sem título)
o silêncio quebrado apenas pelo pernilongo da casa mata o tempo das horas moucas horas corredoras da noite enquanto na parede o dono é o relógio cafona como a minha cara malpassada nos ponteiros do meu relógio sedento e sisudo conduz a bocarra que enruga e cospe os detritos vãos da memória
Fendido
Aqui começo a ter as fendas na cara pobre. Bocejar sussurração dos que começam a caminhada relutante.
Exercitar o vazamento. Preguiça tosca serpenteia sem condução que tudo para, qualquer momento, vaporoso.
O carcomido borrifar de limo velho avarandado da pele, carne cimentada. E me confundo nesses móveis empanturrados. Empenado dentro da pena sem escrita.
Pincelo a casca leporina, matamatá consome a margem imersa. Limpo a tensa calha tolhida e gasta no apagão encouraçado na água cinza.
Encalacrado o caminhante numa travessa corre ilhado. Finjo mudez atrás da máscara. Aqui começo a ser as fendas.
O cabide
O cabide quase terno de precisas curvas e despidas, na ausência do terno mostra o figurino vazado, vazio de nada. Percebo na estranheza tão guardada que posso, atento, vestir a roupa de magra vista do cabide discreto, guardado, dispensado só.
André Siqueira é poeta e mora em Jacareí, interior de São Paulo e publiciu em 2020 seu primeiro livro de poesia por uma editora, intitulado As Manhãs Fechadas (editora Gataria). Tenho poemas publicados nas revistas Gueto, Mallarmargens, Ruído Manifesto, Subversa, entre outras. Atualmente sou colaborador da revista de literatura Pixé.
De volta a praia, no dia seguinte, Jandaíra ergueu a urna com as cinzas de sua mãe na altura dos olhos, contra o cenário de céu azul e ondas quebrando na areia que se descortinava diante dela. Girou levemente a urna, de um certo prata fosco, sem adornos, a não ser por umas delicadas ranhuras. Jandaíra pensou que era um objeto de bom gosto, em contraste direto com o uso, que era carregar as cinzas inúteis de alguém. “Talvez alguém encontre consolo nisso”, pensou Jandaíra, levantando-se e caminhando, segurando atenciosamente a urna, em direção ao mar.
Adentrou um pouco as águas mornas de Boa Viagem, até cobrir seus pés. Olhou a urna mais uma vez e murmurou: Mãe, você morreu. Abriu a urna e derramou as cinzas no mar. Boa parte foi soprada pelo vento, o que não incomodou Jandaíra. Talvez ela tivesse até respirado um pouco de sua mãe. Dizem que Keith Richard cheirou as cinzas do pai. Ou terá sido da mãe? Ela pensou nessas coisas e aproveitou que estava de biquíni e a maré baixa, que revelava os arrecifes, e deu um mergulho. Ficou boiando na piscina das águas represadas pelos arrecifes, aparentemente a salvo dos tubarões que, dizem, rondavam por ali.
Abriu os olhos e viu os céus acima dela. Pensou nos servidores, murmurando sob o peso de muitas atmosferas, no fundo do mar, talvez não muito distante da costa. Talvez em fossas abissais. Ou talvez seja tudo uma grande mentira, um grande engodo. Concentrou-se ao máximo para captar essas vibrações inexplicáveis na águas, mas nada. Nada além do que seja a água do mar e suas marolas, seus sons, seu toque na pele.
Já em casa, de banho tomado, banho frio. Cheiro de Neutrox no ar e roupas leves porque os dias andam quentes, mais que o necessário para essa época do ano. Jandaíra senta junto à janela e olha pra rua. Ninguém indo, ninguém vindo. Uma cidade que vai se esvaziando de almas e corpos. Jandaíra cremou o da sua mãe, mas os outros… “o que é feito deles?!”, pergunta a si mesma, sem ter um resposta clara, satisfatória. Ela pegou o gravador e começou:
Nada como um dia a trás do outro, uma praia e outro dia, pra esclarecer as coisas. Minha mãe morreu e restou dela uma simulação, um algoritmo tresloucado que acha que é ela. Minha mãe morreu e joguei as cinzas dela no mar. Fico agora pensando nos corpos que foram deixados para trás, que não foram reivindicados. Fico pensando no destino deles. Vala comum ou um grande crematório. Hoje, na praia, quando pensei nisso pela primeira vez, lembrei de Soylen green. Viu o filme? Alerta de spoiler: os mortos são transformados em biscoitos para alimentar uma massa faminta, num mundo sem comida natural acessível aos meros, cada vez mais, mortais.
Se aparecerem uns biscoitos por aqui… serão o pai ou a mãe de quem? Ou quem será? O fato é que o que restou dessas pessoas, esses corpos perdidos, estão tendo um destino que desconhecemos, sobre o qual ninguém fala. Até porque restou pouca gente falando nesse mundo…
O telefone tocou no meio da gravação e Jandaíra, como sempre, toda atrapalhada para atender no meio de outra tarefa, sem saber o que clicar ou o que deslizar pro lado pra poder atender sem perder o áudio.
— Eu falando! (pausa) — Eu sei…. eu sei que fiquei de te ligar. Foi mal. Muita coisa na cabeça. tendo que por em dia umas coisas atrasadas. Enfim… que queres de mim? (pausa) — Huum… sei. (pausa) Sei. (pausa) — É… podemos ir sim. Hoje? (pausa) — Ah, tranquilo. Amanhã tô de bobeira. Posso te ver sim. (pausa) — Ué!? Não vai ser uma despedida, né?! Você não tá exatamente indo embora. E você estará sempre acessível, não é isso?! — Jandaíra riu baixinho e esse acessível foi carregado de uma doce ironia, que Zé percebeu sem muita dificuldade mas deixou passar. — Certo. Amanhã então. Vou de bike… quase não tem mais ônibus. Táxi nem se fala, já não tinha antes! (pausa) — Te vejo amanhã.
Jandaíra desligou o telefone e revirou os olhos de cansaço do mundo e das pessoas deixando o mundo. Quantos amigos ainda tinha? E os corpos? E os corpos?, perguntava-se Jandaíra naquele fim de tarde.
O labirinto de W. J. Solha
Por Toinho Castro — 1/6 de Laranjas Mecânicas, Bananas de Dinamite, novo livro do poeta/escritor, cordelista, ator e artista plástico Waldemar José Solha, ou W. J. Solha, é um labirinto em que a gente deve procurar a entrada, não a saída. E essa busca só tem um caminho, a leitura. O livro é um longo poema, e eu sei que colocar as palavras livro, longo e poema numa mesma frase pode afastar as pessoas. Pois se aprocheguem!
Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo.
— Clarice Lispector
1/6 de Laranjas Mecânicas, Bananas de Dinamite, novo livro do poeta/escritor, cordelista, ator e artista plástico Waldemar José Solha, ou W. J. Solha, é um labirinto em que a gente deve procurar a entrada, não a saída. E essa busca só tem um caminho, a leitura. O livro é um longo poema, e eu sei que colocar as palavras livro, longo e poema numa mesma frase pode afastar as pessoas. Pois se aprocheguem! Do livro, tenho lido sobre sua complexidade, da dificuldade de entendê-lo em seu todo ou mesmo em parte. Parem com isso. No longo poema de Solha há muitos planos de entendimento e ninguém precisa participar de todos, muito menos o tempo todo.
Cito Lispector, que todo mundo é fã, para tirar da mesa a carta do entendimento, da compreensão. As pessoas emocionam-se com uma bela música instrumental, com Bach ou (John) Coltrane, prescindindo de palavras. Entendem aquilo num nível que dispensa o discurso verbal. Não sugiro que a poesia de Solha seja musical, embora o seja. Mas que você pode dar conta dela sem essa pressa de saber o que ele quer dizer.
Suas páginas são como uma janela aberta com o mundo passando. Sentado na cabine do trem, olhando a paisagem através do vidro, quem está em movimento? Você ou o mundo? Em 1/6 de Laranjas Mecânicas, Bananas de Dinamite, quinto volume de seis tratados poético-filosóficos perpetrados pelo poeta (falta um ainda ser escrito), alinha registros, referências, da cultura clássica à cultura pop. A Bíblia em sua narrativa intensa, Shakespeare, Guimarães Rosa, Super-Homem, os césares… caleidoscópico, hipnotizante e bem humorado. Alterna lirismo, ironia, melancolia e surpresa.
Faz parecer que estamos num boteco, numa conversa animada entre velhos companheiros. Conversa que abarca a diversidade do mundo, de largos gestos e risos enquanto cai a noite imensa.
O livro de Solha, nascido em Sorocaba e radicado em João Pessoa, é mesmo esse labirinto, de pontes e desvãos, um jardim de veredas que se bifurcam, nas páginas, em nós, nos dias que se sucedem, adiante e também para trás, porque é, como no conto de Borges, um labirinto no tempo. Vida descortinada, de sobreposições e entroncamentos, vida de palavras e ideias. Que encanta, arrepia, aperreia, movimenta e, sobretudo, espanta.
Gente, LP é bom demais mas tem coisas preciosas acontecendo no mundo encantado dos singles. Hoje a Kuruma’tá, pela mão de seu editor Toinho Castro, seleciona três joias recém lançadas, pra você curtir e, a partir delas, enveredar pelo trabalho desses artistas!
Bora lá conferir?!
BAGUM, com LIVIA NERY
Vem de Salvador esse som novíssimo, que chegou hoje às plataformas. Com um trabalho essencialmente instrumental, a banda Bagumse junta à voz límpida e bits/beats e texturas da Livia Nery para produzir esse beleza de música. Era você, tem letra da Lívia, ancorada num tecido eletrônico, muito bem almagamado com o essa sólida tradição do baixo/bateria/guitarra. Que coisa boa o som da Bagum que, confesso envergonhado, eu não conhecia. Conheci então em grande estilo, abrindo uma porta maravilhosa para novas músicas pra apertar o play!
Livia Nery: Voz Pedro Leonelli: Guitarra Pedro Tourinho: Baixo Pedro Oliveira: Sintetizador e efeitos Gabriel Burgos: Bateria Tiago Simões/Cremenow Studio: Produção, mixagem e masterização Distribuição: Fresh Selects. Vídeos e capa: Gabriel Rolin (@rollinos)
CARU
Ah, Caru, querida Caru, lá de Feira de Santana, com âncora lançada no Rio de Janeiro! Soltando esse super single, que vem na sequência de outra beleza, que é uma versão necessária de Tô voltando, de Maurício Tapajós e Paulo César Pinheiro, eternizada, como se diz, na voz de Simone! Mas isso é outro single! Diversidade Nordestina é composição da própria Caru e fala alto contra os clichês e olha pra gente bem de dentro desse olho atento a tudo que é o Nordeste! O Nordeste que é esse muito mais! Diversidade Nordestina tem força, tem humor e ironia.
Com essa música vou começar a contar sobre a experiência da minha vida de migrante. De pessoa deslocada. De cigania. Nômade. Um calango e seu mosquiteiro. Dessa baiana aqui, que vive em trânsito e longe de casa. — Caru.
Voz: CARU Composição: CARU Produção Musical: Paulo Mutti Preparação Vocal: Cecilia Spyer Guitarras, baixo e percussão: Paulo Mutti Bateria: Ruth Rosa Gravação bateria: Estúdio Caixa Preta Gravação voz: Estúdio Visom Mixagem: Paulo Mutti Masterização: Ricardo Dias
MARCELA DE SÁ
As ondas sonoras estão emanando do Rio de Janeiro, mas o pé tá no Nordeste, a grande estrela dessa seleção de singles! Depois de gravar nada mais, nada menos que Lenine, com sua O dia em que faremos contato, parceria com Braulio Tavares, Marcela de Sá nos chega com outro pernambucano: Otto, e sua Sem gravidade! Com produção e instrumental de João Gurgel, que lança hoje seu disco Conversação de Paz, a voz de Marcela encontra o espaço perfeito para se desenvolver e nos surpreender com essa canção tão somente corpo.
Produção musical e arranjo: João Gurgel Mix e master: Elton Bozza Capa: Toinho Castro Foto: Isabella Fragelli