PERFORMANCE POÉTICA PARA OUVIDOS MAMULENGO

Poema de Numa Ciro Para FLAVIOLA e Tio-Zé-Victor

Poema de Numa Ciro


Para

FLAVIOLA
e Tio-Zé-Victor

O DIA QUE EU VI
QUANDO LAMPIÃO LEVOU O CEGO VIVALDO
P’RA VER O MAR
ou
EU NÃO VEJO MUITO BEM

Somente o cinema mudo sabe dizer o que é isso
Isso é coisa de Eros

INTRODUÇÃO AO DIA

1.
Eu jamais esquecerei aquele dia ensolarado.
O verão fora do tempo, que ano desachuvado!
Corria o mês de São João, São Pedro trancafiado
Bebendo a água do céu e o chão na terra abrasado.

2.
Acordei naquele dia, ainda estava sonhando.
Levantei tangendo raven e o never me puxando.
Vesti a saia de pálpebras, os olhos abrindo e fechando.
Para onde irei nessa luta entre o logo e o não-sei-quando?

3.
Logo, o logos me expulsou para os lados da saída.
Sem destino, de memória, ouvindo a ópera Aída,
Segui a passos velozes pisando a dúvida vencida.
Das asas do vento arador, caí nos braços da vida.

4.
Oito léguas mais tarde, uma voz me alcançou.
Uma voz inesperada. Ora, ninguém me avisou.
Tatuei meus pés na estrada. Ora vejam quem chegou!
Nenhum passo para frente, ora, para trás é que eu não vou.

5.
Em segundos minha sorte foi laçada pelas musas.
Ou eu canto o mote certo, ou me assombram as medusas.
Então chamo em meu socorro as fusas e as semifusas,
Metáforas e metonímias. De medo troquei dez blusas.

6.
Quem diria que eu teria aquela surpresa danada?
Do meio do mato escondido salta a surpresa na estrada.
Adivinhou quem pensou que eu quedei atordoada.
Imaginou mas errou quem pensou numa emboscada.

7.
Via tudo acontecendo na minha frente e atrás.
À minha volta rodavam cenas de nunca e jamais.
Vi gente que não me via no mesmo instante e, aliás,
Desentendi quem vivia, se era eu ou os demais.

8.
Escorreguei na surpresa e caí na sedução.
Me deitei nos trilhos do sonho e esperei a salvação:
O apito do destino ou um aviso da razão.
Quem vai me dizer agora? O que diz meu coração?

9.
Meu coração tem razão quando diz que desconhece
As razões do coração de quem depressa me esquece.
Eu esqueço num segundo o Bê, o Cê, e o Esse,
O A, o Zé, e o X do nome de quem não merece.
10.
Não merece o quê, my dear? Vou naquele requebrado
Voltar pra beira da estrada. Lá vou eu de pé trocado.
As musas me largam sozinha nas horas do descantado
E as medusas aparecem, não carecem de chamado.

11.
Como eu estava dizendo quando dei curva no tino,
No instante em que troquei dez vezes de figurino,
Seguirei a estrada afora de xique-xique: eu me defino.
Até parece esfreguei um lampião aladino.

12.
Eu disse o quê? Lampião? Bonita! vou me acender.
Esse nome alumiou as coisas que eu vou dizer.
Lampião foi a surpresa que saltou e me fez ver
Naquela estrada deserta a visão de quem não vê.

13.
A visão além do alcance somente ao cego há de vir.
A luz dos olhos acende o prazer de se iludir.
A mentira e a verdade se casaram pra fingir
E seus filhinhos herdaram as feições do confundir.

14.
Foi justamente esse tema que afundou meus pés no chão:
Nem pra frente nem pra trás, batestaca o coração.
É de casa ou é de fora, essa estranha aparição?
Fecho os olhos e escuto mão amolando facão.
15.
Aperto os olhos mais fundo e levo as mãos ao pescoço.
– Vão sangrar minha esperança de ficar velha, seu moço?
– Se não era uma emboscada, fica fria, que alvoroço!
Era apenas a lambida do pensamento no osso. Ouço.

16.
Aos poucos fui desmanchando a pose aterrorizada.
Alternei os pés no chão e caí na gargalhada.
Os palhaços me cercaram e eu virei mulher barbada.
O mágico tirou a barba sem nenhuma navalhada.

17.
Quem disse que em tela dos outros não se mete la couleur?
O mágico, ateu do ditado, ante mim virou danceur.
Daí eu já era outra, um pouquinho mais meilleur.
A domadora das feras com chicote et sans rancoeur.

18.
A mascar chiclete bem alto, tirando a calcinha da bunda,
Fingindo ser dona das feras e do Olimpo oriunda…
… Cansei da jaula e montei na minha própria carcunda
E num segundo pousei na superfície profunda.

19.
O picadeiro na Strada era caminho e lugar.
Andarilhos, residentes, gente e bicho a conversar.
Onça pintando perigos, gavião riscando o ar,
Preguiça engolindo saliva com preguiça de buscar.

20.
Era tanta coisa que eu via que nem dava pra saber
Se era real ou encantada a beleza do prazer.
Eu era tudo o que eu tinha e tinha tudo pra ser
O que o desejo quisesse que nem soubesse dizer.

21.
Subi de novo nas asas de um pensamento infiel.
De volta ao futuro dos vivos: um presente tão cruel.
Passei o passado a limpo, mas só matei cascavel.
Dei várias voltas ao mundo em cada lua de mel.

22.
Casei tantas vezes quanto as artistas de cinema.
Casavam e se arrependiam: cada galã!!! que dilema,
Escolher apenas um, jogando os outros no Senna,
Ops! Na cena! Quem iria recusar rimas raras num poema?

23
Não importava quem fosse o belo protagonista:
O mais famoso, o mais rico, o herói, o grande artista;
Sempre havia um com estudo, o mais tesudo, o equilibrista.
Entre o homem e a mulher, uma criança se avista.

24.
Um anão apareceu trazendo Macunaíma;
Gigantes-pernas-de-pau andando pra baixo e pra cima.
A ninfa Eco gritava somente as letras da rima:
Das frases que não falava, escoava a sua estima.
25.
Nunca estive nesse conto… mas passava aqui todo dia.
Estranho a estranheza do espanto: é tristeza ou alegria?
Uma saudade aparece Nua! Tesuda! Vadia!
Saudade das que maltrata e mata nas covaRRRdia.

26.
Estou dormindo sonhando? Ou sonhando acordada?
Essa multidão de artistas fazendo palco de estrada…
Somente pra me alertar com essa pergunta malvada:
Por onde a arte caminha? É pela beiiiira do nada?

27.
Quem me olhasse não veria esse íntimo alvoroço,
Andando sem data certa, sem endereço no bolso.
Ai quem me dera papai pra me pendurar no pescoço.
Ai quem me dera mamãe me desse do peito o almoço.
28.
Estou sozinha de novo oh sol inclemente do céu.
Quero fazer malabares nesse tal de mundaréu.
E as surfistinhas da noite? a andar de déu em déu?
Cadê a doida? Quem dava pra louca?
E eu sempre rrrrr-eu!

29.
De repente eu escuto esse raríssimo diálogo:
– Boa tarde, Cego Vivaldo, és de fato meu análogo.
– Boa tarde Lampião, te procurei ali no catálogo.
Esse encontro já estava escrito lá no decálogo.

30.
Esquentei dos pés à cabeça e fiquei toda arrepiada.
Se foi delírio esse encontro yo lo transmito medicada.
Se foi real, cai no mesmo, a fantasia é sagrada.
Irei contar por aí, mesmo sem prova nem nada.

31.
Solo sé que me volvi em direção à conversa,
Para ver com os próprios olhos que novidade era essa.
Disse assim assim com meu rirri*: – olha pra isso sem pressa.
Desliza bem nos detalhes, o inusitado atravessa.

32.
O detalhe foi the best que podia acontecer.
Eu via os dois e eles dois não demonstravam me ver.
Assim eu fui testemunha do mais louco entardecer.
Debaixo de um pé de estrelas armei rede pá escrever.

33.
Não pense qu’stou tão cansada a ponto de me omitir.
Saí de casa tão cedo e como foi duro partir.
Mas quando disse: – Já vou! Vim logo p’ra não desistir.
Agora cheguei nesse ponto: vou me enredar pá transmitir.

34.
Quero seguir em silêncio, passo a passo, essa história,
Para botar sic ao lado de cada interlocutória
E para isso é preciso que não me falhe a memória.
Se eu conseguir, eu prometo pagar promessa na Glória.

P.S. OH! Glóóóóória$$$$$!

SECONDESTATION

isso é
de segunda mão
quero dizer
Brechou
ou então…
… de olho na coisa fora do costume…

METODOLOGIA DA TARDE

1.
Como seguir em silêncio, se a história é barulhenta?
Muito barulho por tanto vou contar até quarenta.
Não quero Babar ali, já me fartei de água benta.
Corri pra roubar o verso que alegra e amamenta.

2.
O desejo abre as asas aos anjos das internetes.
São asas velozes do tempo, avohai marionetes!
Quem corre mais do que eu, pilotando patinetes?
Um pé lá e outro cá, num pescar d’olhos esqueces.

3.
Esqueces que te beijei? Que eu conheço teus segredos?
Esqueço a panela no fogo imaginando folguedos.
Moi crê nos improvisos e sente tremores sem medos:
Criança se vê na vitrine do mais cobiçado brinquedo.

4.
Sigo e persigo os mistérios, porqu’ eu sei que nada tem
Nem aqui nem acolá, nem nos olhos de alguém.
O beijo inventou a boca e o cafuné, foi meu bem.
Eu me mato todo dia, mas não morro por ninguém.

5.
Eu sou cega de nascença sem ser cega de verdade.
Cê entendeu o que eu disse? Nunca nego minha idade.
Eu só minto pra mim mesma, ess’ é minha vaidade!
Orgulhosa que nem faço concessão à novidade.

6.
Nada de novo, anjo bom, foi assim, coisa e tal.
Tal como era uma vez, outra vez desigual.
Se o pecado existe, e a escolha, a preguiça é capital.
Lembro de tudo que eu quero, só esqueço o principal.

7.
De repente, sem querer, vi dois pares de alpercatas.
Parecidas, paradinhas, frente a frente colocadas.
Andei com a luz do cinema… do chão às nuvens aladas.
O corte no olho do sonho acordou as mascaradas.
P.S. Flechei o foco e parei no perfil dos camaradas.

8.
Pareciam dois bonecos de cera de pano ou de pau
Parados no meio da cena antes do ponto final.
A imagem congelada e lá  ao fundo o milharal
Agitado pelo vento survivant et virtual.

9.
Vou mexer neles, nos bonecos, e fazer a cena voltar
Ao tempo em que o mudo cinema falava que ia falar.
Falaram aos quatro ventos que o mundo iria acabar!
Acabou-se hen, Borito**? Era o medo de avançar.

10.
Avançamos tanto que a cena ficou incompreensível.
Mas voltarei ao instante em que tudo era possível:
Lampião a passear descontraído, intangível,
Sem rifle, sem lenço e chapéu, sem nada de compatível.

11.
Por isso desconfiei… se estava mesmo acertando
A identidade do cara, sem cara de banda e de bando.
Mas apostei no disfarce, continuo procurando.
Se acho a máscara não tiro o rosto, nem confessando.

12.
Mana, Hermano, podem crer: o erro é um modo de ver.
Estou plugada e escuto rádio, virei nativa, fui de TV.
Abro a porta, abro os braços: Est-ce-que és tu ou você?
Lisboa paraibana, fiminino arômado prazer…

13.
A noite que tudo esconde é propícia aos canibais.
Ao dormir, sonho com anjos, não me vejo entre os mortais.
Beijo com avidez os lábios da minha paz.
Quando acordo, eu não acordo, eu atiço os animais.

14.
Eu dou asa à cobra, não sou deus.
Porém jamais! usaria as de cetim.
Viveria das sobras do apogeu
De quando eu era anjo-da-guarda para mim.

15.
Les choses, das ding, cabra safado.
Olhos de gata, gatas no telhado.
Cachorro solto meu dono está do lado.
Baby pássara fugiu com seu veado.

16.
Pelos muros do silêncio, uma boca se esfregava.
Mas um deus intrometido, por descuido suspirava
E o perfume do seu hálito fez dormir quem se agitava
E o perfume do seu hálito fez falar quem se calava.

17.
Daí… disse o que bem quis e os que jamais foram falados.
Jamais nunca se diz nunca e jamais separados. 
“Or now or never”, he say, “maintenant ou jamais”,
tá ligado?

Quem não tiver medo da morte se
atire
                                                              dos
                                                                       7
                                                                                                         P
                                                                       e
                                                                           c
                                                                               a
                                                                                   d
                                                                                       o
                                                                                           s

18
Assim, pois, falou o truta***, mano a mano, desarmado.
Direto Plateia Via personagem-ressuscitado.
No lusco-fusco da dúvida, depressa foi para o lado
Que dava pras vistas do lago, o daquele espelho falado.
P.S. Falaram que viram Narciso, Si olhando-se pelado.

19.
Esse mundo é nadador e essa vida nada assim.
Dizem mato com os olhos e as paredes ouvem sim.
Não pretendo confundir o começo com o fim.
O fim começa onde acaba e recomeça tudim.

20.
Eu não consigo domar nenhuma concentração.
Jurei escutar conversa dos vultos vulgos do sertão:
Um d’eles desviveu como? E o outro? Não digo não.
Mas agora estão aqui diante da minha ilusão.

21.
Eu m’iludo trezumana, de coração na malícia.
Dou sol à pele que atrai os escravos da carícia.
Ganhei meus dotes de bruxa nos caminhos da Galícia,
Y ahora ya no sé transformar fúrio em notícia.

22.
Já passa das dezenove, só vejo as galáxias do céu.
O sol nem disse até logo, saiu à francesa, nem Kréu.
Foi visitar o oriente, é dele esse t’all mundaréu.
Enquanto eu     pedia na terra      ele ganhou foi o céu.

23.
Mas o céu é de Acauã. Pisquei os olhos? Foi logo embora.
Bateu asas e voam saias daquelas moças de outrora.
Avoa cantando o seu nome e a fauna toda decora.
Acauã! Diz que voltarás! Nunca mais é sua demora…
24.
Lampião esclarecia o que vim fazer aqui.
Vivaldo percebia e, pelos olhos de Zumbi,
Eles eram poliglotas! Simultânea, traduzi
Grego, Araimaco, Latim, Tupi, Yourubá, Guarani.
P.S. Pra Purtuguês de Portugal e Brasilêro Nordesty.

25.
A conversa se arrastava e depois criava tensão.
Nenhum dos dois pretendia esconder a condição
Que fazia deles dois precisarem de oração.
Nas frases jogavam dois tudo pelo sim e pelo não.

26.
Depois de muuuiiiiiiiita conversa, colhi o fruto maduro.
A partir desse momento, nenhum galho é seguro.
Se da morte a vida escapa, ness’ idade eu me aventuro.
“Al di lá delle stelle…”, ouvi cantar o pré-futuro.
P.S. Vivaldo e Lampião brincavam com um anuro.

27.
Um convidava o outro, eles queriam partir
Desde então nem sei p’ra donde, não fui capaz de ouvir.
Vou segui-los passo a passo, só não posso aplaudir
Em cena aberta o perigo é o ator se distrair…
28.
E perder a inocência que permite ele brincar
de ser um e depois outro e quantos puder carregar
Pelas sombras de las noches!.. ou sob um sol de xaxar.
O desastre é confundir onde fica o tal lugar.

29
Yo me voy sin saber? Para onde irei? hei! vocês dois!!!! Esperem por mim, por Tupã! alcançá-los… hei… depois
Daquela curva onde a estrada se contorceu, mas não foi,
Não foi de dor, foi de risada, ria a estrada, pois, pois…
P.S. Cada vez que acompanhava as brincadeiras do boi.

30.
Fazendo xixi acocorada, avistei o cruzeiro do sul.
Eles foram por ali > D’eles, nem vejo o azul.
Esperei tanto eles dois… vou rezar pra Capitu,
Que adulterou sem saber, se soubesse dava o cu.

31.
Dar qualquer coisa é difícil? Peça ao rico para dar.
Tem camelo e orifício, agulha deixa passar?
Pegue um punhado de pedras sem nem sair do lugar.
Nem que o tesouro for o teu, pirata vai te pegar.

32
Amarcord… pipoca ou cigarro? Eis a questão DaDa.
Quem tem bunda… se vire com a lua. – Vai pisá?
Perguntou São Jorge. – Ou vai montá?
Perguntou seu cavalo querendo cavalgá.

33.
Só tu vendo como eu ri dos escrachos d’ Irakitã!
Sério. Imaginava boleros dançados por um titã.
Quero ver é de perto um disco voador de manhã.
Na hora do sol poente prefiro a percussão de Lan Lanh.

34.
Sedento do dito tem rio que só dá pa precipício.
O passarinho passou levando a semente do indício.
A pregação é diferente do sermão e do comício.
Aos ouvidos tudo igual na largura e no suplício.
P.S.  Une fois qui est donnée «c’est si bon » ao vício…
Dividir o bagulho é tipo tudo-bem-pra-começo-de-ofício.

35.
Essssssscorreguei pur’alísss com lábios-de-entra-e-sai.
Ouvi batidas nas portas que abri pr’os carai****!
“Estrada não tem porta”, riscou com a adaga, um samurai.
Lampião! Cadê o cego? Vivaldo! Arrivolta!  CARAI!!!!!!

Terceira Estação

Sobe e desce e sobe e desce e sobe e desce e sobe e desce e sobe e desce e sob

porém…

Só mente
Eu
diz o não nome!

Isso é tudo

ou

tudo isso passa

Teoria da noite

1.
Era mesmo qu’estar a ver o cinema chapliniando,
Musicado por Wisnik e o futebol argumentando.
A pintura surrealista acertava mesmo errando.
Tarsila, star na vista! e as cores orientando.

2.
Sorrindo subi o morro a procurar puro sambista.
Chorando vi quando Nasce o samba do Morre na pista.
Na subida vend’os olhos e na descida pago a vista,
Só me interessa cantar com voz de timbre hedonista.

3.
Sei bordar, pregar botão e conversar mundo afora.
A pedidos eu abri as janelas pra Aurora.
Senhora me dê seu macho, só quero por uma hora.
Devolvo homem e desarmado e com as costelas de fora.

4.
Bora contar cada uma e mostrar quantas terão.
Na nossa conta não falta costela no tronco de Adão.
Se apanhei pra nunca mais! dizer qualquer palavrão,
Quando disse: Paralelepípedo, esperei um caminhão…

5.
… Em vez disso eu ganhei a fantasia e o destaque.
Brinquei na rua e cantei, toquei surdo e atabaque.
Pulei pro bloco seguinte, levando meu badulaque.
Beijei palhaço, colombina e tudo que fosse de araque.

6.
Misturei joia e miçanga e escorreguei na fusão.
Só não caí para trás porque já estava no chão.
Porque já estava no chão, rolei na relva e então
Rodava Eros comigo… a gargalhar meu coração.

7.
Lá do chão eu avistava belo-céu-azul-de-anil.
Fiquei assim o mês inteiro, desde o primeiro de abril.
Tive tanta paciência, que até Jó armou fuzil.
Perguntaru se’eu era baiana. Respondi: mais de dez mil.

8.
Porém depois foi me dannndo… um troço de tédio
tão tão danado,
Que deu amargo na boca do ouvido sintonizado.
Disse assim, assim de mim tipo meu eu cansado:
– Não estás vendo esse anil? há muito já está desbotado.”

9.
Nem dez botas de mil gatos, nem 1000 pulos de delfins;
Nem correndo do tarado, nem procissão de Merlins;
Nem avião ou navio, nem asas de Querubins
Vão me fazer alcançar aqueles dois nos confins.

10.
Cada um risca o seu norte, teme o seu-fraco-seu-forte,
E come na mão do consorte quando tem fome de morte.
Bebo eu na minha cuia, tenho amor e tenho sorte.
Dinheiro aparece assim, oh, é só puxar pelo po(r)te.

11.
Se aqueles dois estiverem passeando por aír
Conversando distraídos como estou sonhando aquir
Logo logo eu pego eles dois bebendo e fazendo el xixir
Posso até balançar a vista só pra ver pingo cair
r
r
r
r
r

12.
Aqueles erres finais nos versos lá de cima
São firulas da garganta limando a matéria prima.
Gargareje aqueles erres ao estilo pantomima
E piche o nu nas vidraças sprayando a cor da rima.

13.
Nem o sábio rima à toa com rimas que dizem não.
É preciso muita bossa pra rimar barquinho e chão.
Cada vez que acendo vela aparece Lampião.
Maria Bonita me disse: – Lampião tem coração.

14.
Lampião acendeu praça pro cego Vivaldo ler mão.
O eco visível no cego espalha o dom da razão.
O cego Vivaldo conecta os sinais da vibração:
E fica logo sabendo se naquela mão tem cifrão.

15.
Nisso passou a vizinha num rebolado rodriguiano.
Seis vezes pagando na valsa o reveillon daquele ano.
Estava tão bonitinha… a ordinária em seu plano
Que esbarrou com os dois olhos nesse cego froidiano.

P.S. Só deu N’UMA, num d’Eu n’OUTRA!

16.
Foi nela mesma, em Dorotéia, que a nudez foi consagrada.
A vida como ela é só precisa ser bancada.
Amar e ser feliz, ao mesmo tempo? arre danada!
Princesa que já foi plebeia sabe de um tudo e do nada.

17.
Sabe tudo… esse Anjo Negro: um tanto assim de segredo.
Joga no só e dá brinquedo: sabe onde está o sossego.
Vive de sonho e aconchego. De tudo!!! cria um enredo.
Não sua, nem treme: de medo.

P.S. Caiu do céu muito cedo!

18.
Essa mulher sem pecados tem namorada e namorado.
Sua mãe é falecida, dela só guarda um retrato.
No seu álbum de família mamy sorri com recato:
A mão da mãe no decote de um pulsar inconformato.

19.
O pai da moça comprara um Vestido de Noiva pra’i ela.
A moça de véu e grinalda atravessou a passarela,
No Aterro do Flamengo, só para ver a primavera.
Mas, no meio do trajeto, espiou pela janela…

P.S. …E viu o beijo no asfalto: era mudança de era.

20.
Onde eu deixei o cego? Onde estás oh Lampião?
O mar é perto daqui? Ou mais longe que o Japão?
Deixei Vivaldo sumir pensando naquela paixão.
Perdi Virgulino de vista vendo as aves d’ arribação.

21.
Olha só! quem vejo ali: en-cos-ta-dos-na-pa-re-de???
Parece que são os dois tentando matar a sede.
Vou me hospedar naquele hotel e cair naquela reeeeeede:
Aquele terraço vê tudo, até onde um cara foi meide.

22.
Não posso me distrair mais uma vez, vejam só:
Se eu perco de vista eles dois, mais uma vez, tenham dó!
Dó ré mi uni duni tê Aposto que vão pro forró.
No pé da serra tem coquista, tem zabumba e tem xodó.

PS
E tem mais:

23.
Vivaldo cega mais nítido quando afina sua rabeca.
Um Lampião distraído deixou cair a boneca:
“O rabequeiro foi p’a escola?”. Vê que pergunta indiscreta.
Deu calado como resposta. Tinha uma senha secreta:

P.S. O cego arregalou a pergunta pra rabeca.

24.
A rabeca respondeu com o toque do arco nas cordas.
O cego aceso de arte, subiu ao palco nas costas
Dos fãs e tietes aos gritos e pegou a dar mil voltas
Nas escalas musicais. A voz e a rabeca soltas…

25
De tudo quanto era modo o cego falava de amor:
O amor do cego era cego como é cego todo amor;
Cada amor se reconhece e se admira no amor…
… Estar de amor é só deixar o tempo amar o amor.

27.
O cego cantando dizia, o cego parece que via.
Quanto mais ele rimava mais plateia aparecia
De todo lado que tinha vinha gente e a gente ria.
O cego enxergava tudo o que a plateia carecia.

28.
Lampião, perfumado, não saía do seu lado,
Cochichava ao cantador o sentimento encantado
Que animava a multidão ao ouvir seu rabecado.
Vivaldo quis saber quantos eram no gramado.

29.
É muito difícil contar um a um na multidão.
Mas ideia é que não falta e pra mostrar tem Lampião.
Maria Bonita me disse: – Virgolino tem razão.
Pra quê vigiar número em desarmada multidão?

30.
Pensei, com as ideias da arte, em cair de mão em mão…
… Até caí na conversa da cobra que enganou Adão.
Eu disse a Maria Bonita: Bonito fez Lampião.
Derrubou a espingarda quando te viu no portão.

31.
Quem vai acreditar agora se eu disser que Lampião
Acendia o feminino masculino do sertão?
Os lenços de seda… e os anéis de prata… espia o ouro do cordão!
O danado customizou o chapéu d’ Napoleão.

32.
Assim foi naquela noite. Era um novo desafio:
Um Lampião desarmado acendia seu pavio
Enquanto Vivaldo cantava sob o seu próprio assobio
E nas cordas da rabeca, olha o arco em rodopio.

33.
O solo do cego er’ um bordado. E ousaria:
Seu desafio enfrentava a forma da arte em cantoria.
O poeta era o crítico da sua própria autoria.
De repente…
… Pra ser feliz sem sofrer: qualquer um se mataria.

P.S.
E eu, no meio da multidão, fazendo etnografia.

EPÍLOGO

O jogo das luzes

ou

a peleja das lâmpadas com as estrelas.

Aconteceu naquela noite

01.
De repente, fui convidada a subir no palco do cego.
Vivaldo, o cantador? Enxerga até formiga no prego.
Como então adivinhou minha presença? Eu não nego:
Aquela noite inesquecível foi demais para o meu ergo.

02.
Um furi-furi na multidão… vou fugir par’uma ocara.
Vou pegar o trem das onze na estação Jabaquara.
Neste instante mim viu eu pintada que nem uma arara.
Entrei na cena e cantei: tenho seiva Nhambiquara.

03.
Comecei a dizer versos para me apresentar.
Cantando disse meu nome e o que gosto de cantar;
Quem sou, de onde vim e quem desejo encantar.
Agradeci o convite e botei o cego no altar.

04.

Assim, no primeiro pé de verso, já driblei competição,
Como está enraizada na peleja até então.
O desafio que eu proponho não é “Eu ou tu no chão”.
É não matar e nem morrer somente pra ter razão.

P.S. Uma onda de sussurros crescia da multidão…

05.
Ora! ninguém acreditava que pudesse acontecer
Uma peleja engraçada sem as armas do poder.
Ora, ora, vamos ver a graça que isso vai ter:
Nenhum dos dois vai ganhar, nenhum dos dois vai perder.

P.S. Arte não é esporte. Tem outro jeito de ser.

06.
Semente de arte não vinga em solo competitivo.
Não dá folha, não dá fruto, nem sombra pra lenitivo.
Quem é da arte sente a dor do soco lá no umbigo
Quando o EGO se engrandece com a desgraça do “inimigo”.

P.S. Saber rimar não coincide ‘comigo versus contigo’.

07.
À multidão sugeri, com calma, sem alarido:
Levante a mão quem não quer ser no amor correspondido.
Todo mundo olhou pro céu e, pra si mesmo, escondido.
Depois, virou-se pro lado… e se entregou iludido.

P.S. A esperança nunca deixa seu seguidor sem sentido.

08.

Um mar de gente… e as ondas sussurrantes saíam do coração:
Da mina-que-dizia-Slam no trem e na estação;
Do motoboy que brincava de capacete na mão;
Do soldado emocionado perdendo de vista o ladrão.

BO. Vi até desassassino desamolando facão.

09.

As ondas quebravam no palco e escorriam sem Tabu:
Na viúva que vestia sus recuerdos do baú;
Nas feministas sonhadoras apaixonadas por Pagu;
Na prostituta elegante montada na Grife DASPU.

10.
A cantoria saudava a negra no ministério
Pra desvendar o racismo e acabar com esse mistério
De um país tão cordial só ter branco no ministério.
Somente o preto no branco para escrever BRASIL(s)ério!

PS. Zumbi Abdias Pixinguinha têm medida e têm critério.

BO. O rap mostra onde está quem é quem no cemitério.

10.
Já tem muita ideia contrária em desafio constante.
Não carece de disputa onde se lê Safo e Dante.
A teoria de Darwin não pega em bicho falante,
Nem mulher é retirante de uma custela homilhante.

11.
Vi Mandela com Gandi, bem ali! Oh! na Praça da Concórdia.
Vi Francisco com Jesus tramando misericórdia,
Vi Lennon benzendo hipongos com sete raminhos de córdia,
Vi Tereza de Calcutá ensinando evitar discórdia.

12.
O cego Vivaldo sorria e cutucava Lampião.
Lampião compreendia e falava: “É nós”. Então
Eu vi assim de bem pertinho Jovelina e Jamelão,
Duck, Sarah, Elza e Ella a fazer improvisação.

13.
Madona – mia!!! – uma gata… que geme feito ema:
No Juremá, na França de Flaubert ou debaixo da Jurema.
Lady Gaga, no barco de Leide Lara, nas águas de Saquarema,
Infernizou tanto os paparazzi que eles voltaram pra Ipanema.

14.
Era mais de meia-noite e ninguém arredava Dali.
Nem um casal com sete filhos oriundos do Piauí.
Uma velha enfeitada: brincos, anéis, colares de rubi;
Uma turma de ninfetas descendentes dos Guarani.

15.
Enfermeiros, arquitetos, médicas e dentistas;
Jogadores de futebol, psicanalistas e tenistas;
Cozinheiros e copeiras, feirantes e eletricistas;
Políticos e garis, advogadas e floristas.

16.
Quem seria aquele moço na cadeira de rodas cantando?
Tanta gente de muleta, de bengala e se alegrando.
Crianças correndo a brincar e adolescentes ficando.
Só não vi naquela noite um só vivente chorando.

17.
Impossível descrever os excêntricos ali:
Tinha alguém fantasiado de pirata Bacardi;
Um Homem Aranha subindo no tronco da Mucuri;
Chacrinha compareceu com apito e abacaxi.

18.
O evento parecia um baile de carnaval:
Papangus eletrizados, um rei momo glacial;
Harry Potter, Peter Pan e uma bruxa genial;
Lady Godiva no Pégaso e Frinéia no original.

19.
Os ambulantes venderam, tranquilos, sem gritarias,
todo o estoque que tinham de suas mercadorias:
Bebidas pra refrescar, ou provocar euforias;
Leite, chá, café ou mate pra acompanhar as iguarias.

20.
– Pipoca, cachorro quente, rabanada e alfenim.
– Picolé, algodão doce, maçã do amor e quindim.
– Sorvete, ponche, refresco, suco de fruta, dindim.
Tinha uísque licor e fódica, tudo tim tim por tim tim.

21.
Foi esse o rolé que eu dei de olho no coração…
… E o coração na boca… só namorando canção.
Não escapamos do bis: a vida é repetição.
Mas… cada bizzzzz é diferente, repara na emoção!

22.
Os aplausos foram loucos, calorosos e até
Só não aplaudiram de pé, porque já estavam de pé.
Falei pé? Quedei numas meninas a brincar de Finca-pé,
Obstinadas num jogo de expressões com o nome ‘pé’.

23.
Ganhava o jogo quem saltasse com o pé direito na tábua
E, num pé só, chutasse o vento e emparelhasse com o pé d’ água.
Nenhuma maneca daquelas julgou que a tarefa era árdua,
Mesmo sabendo que ainda teriam de cantar sua mágua.

24.
Pois então, ainda não disse, a tarefa consistia
Em pescar, na pose do Saci, com presteza e valentia
Palavras e expressões que tinham ‘pé’ na grafia.
Fiquei pasma admirando aquela estranha pescaria.

25.
A primeira jogou o anzol sem o sinal da largada.
Mas não houve anulação, este item não constava
Na regra do jogo inventado. Atenção na sua jogada:
“Se dá pé, ninguém se afoga”, pescou um dito, a danada.

26.
Quando vimos, a segunda já havia disparado:
– Pé de cabra, pé de vento, pé de mesa, pé de mato;
Pé na porta, pé na bunda, pé na tábua, pé de pato.
Me dá o pé meu louro que eu te dou o meu sapato.

27.
– Não vou perder o pé (Disse a baixinha).
A nerd tomou os pés pelas mãos e, tadinha,
Jurou de pés juntos que não tira o pé da linha.
A vaidosa confessou não ter olhos pra pés-de-galinha.

28.
Olhando de onde eu olhava meu ponto de vista era belo:
Um jardim de pés de moças com talos de pernas al cielo,
Ímpares, os membros sustentavam a ilusão de um castelo
De cartas, de areia, de vento, de sonhos, de luas de mielo.

29.
Pé-de-chinelo, pé de guerra, pé quebrado.
Enfiar o pé na jaca, em pé de igualdade, pé trocado.
Botar o pé no mundo c’os pés nas costas, pés d’ pecado.
Tem pé quente? Fica no pé de quem por tuas mãos foi coroado.

30.
Pé ante pé, enfiei o pé, apertei o passo.
A multidão vai dispersa e eu seguirei seu compasso.
Sairei à francesa como manda o figuraço.
Para rimar eu fuço tudo quando o sinônimo é escasso.

31.
Nisso que eu ia passando, eu ouvi esse cochicho:
– Sofre que só pé de cego, quem acredita em fuxico.
– Ela já estava com os dois pés na cova por capricho!.
Conversa de duas beatas com os pés fincados no lixo.

32.
Uns cariocas passaram dizendo que tinham prova.
Por isso a boca no trombone quando souberam da nova:
Disseram que viram João Gilberto, dando na ópera uma sova,
Tocando e cantando sem fossa. Tão falando em bossa nova.

P.S. Línguas ferinas sopravam línguas de fogo e de cobra.

34.
Cadê aqueles dois? Nem fui vê-los no camarim.
Era tanta gente vip de pulseirinha e trancelim.
Cansada, fui rangar no hangar do Zepelim
Voltarei voando pra casa cantando feito um vim-vim.

35.
Em vez disso fui m’imbora béradêra pela estrada.
Vou escrever tudo isso assim que chegar em casa.
Mas agora ainda tenho que andar mui disfarçada
Na minha própria esperança, através da madrugada.

APÍLAGO

Isso é

Lagos de mel

ou

mel nos lábios do fim

and

a coda não é o end

Ecos na madrugada

I
Irei contar o que eu vi vestida com a saia de pálpebras:
O mundo se abrindo e fechando, nem precisava de mágica;
O povo do mundo chegando, com coisas da terra e da fábrica.
Para tudo decifrar, foi preciso estudar álgebra.

II
Lampião levou o Cego Vivaldo p’ra ver o mar.
Eu não vejo muito bem, mas enxergo o que não há.
Eu vi com aqueles olhos que a terra nos dá de olhar.
Vi o que ninguém viu e nunca jamais advirá.

III
Eu vi os dois bem ali nas belas dunas de areias.
Lampião, para o cego rir, se montava nas baleias.
Vivaldo chamou Flaviola e tocaram às pareias.
Caymmi chamou Jussara e foi música nas veias.

P.S. Para combinar com a saia de pálpebras…
… vesti a blusa das sereias.

IV
Eu vi: Um mar de gente em silêncio…
E na rabeca, Vivaldo a navegar…
Eu vi: Lampião deu ao Cego a luz das velas do mar.
Eu vi: O Cego mostrar a paz que Lampião deu de sonhar.

V
O mar batia nas pedras e em mim batiam as horas.
Lampião fugiu pra casar e Vivaldo foi embora
P’ras bandas de só-sei-quando onde quem canta não chora.
Ora, ora, bora, bora. Olha a Hora!!!!

VI
Eu jamais esquecerei aquele dia ensolarado.
O verão queimando as horas: nem futuro nem passado.
O presente era o mar, onde o tempo mergulhado
Brincava de se mostrar, entre as ondas, disfarçado.

VII
Para quem quisesse olhar, o tempo lhe mostraria
O fim dos tempos e o começo, no presente que morria
A cada segundo que passa, da meia noite ao meio dia.
Para quem ignorava, o tempo nem se mexia.

VIII
Posso não ver muito bem, mas enxergo o que eu quero:
Os sonhos do meu amor, a alma de um bolero,
A bossa na minha dor. Sem o rock desespero.
Só não vejo como alcançar o tempo que nunca espero.

P.S.

ACAUÃ
nuncamais nuncamais nuncamais nuncamais nuncamais nuncamais nuncamais nuncamais nuncamais
nuncanuncamais
NINGUÉM
nadamais nadamais nadamais nadamais nadamais nadamais
ACAUÃNUNCAmaisNUNCAnuncaMAIS

Notas

* Borito: Bonito
** Rirri: Fecho-éclair ou zíper
*** Truta: Gíria do rap
****Carai: Gíria do rap


Poemas de Jefferson Dias na Kuruma’tá


Jefferson Dias vive e trabalha em Ribeirão Preto, SP. É autor dos livros de poemas Último festim (Multifoco, 2013), Silenciosa maneira (Medita, 2015, mediante ProAC) e Qualquer lugar (Editora Primata, 2020), e da plaquete Políptico apocalíptico (Editora Primata, 2021). Tem poemas, contos, traduções e resenhas publicados em periódicos e portais de literatura Ruído Manifesto, Ponto Virgulina, TriploV, Opiniães, Torquato, Mallarmargens, Aboio, Frentes Versos, entre outros.

Jefferson chega muito bem-vindo na Kuruma’tá.
Bora ler e prestigiar seu trabalho!

Seus textos estão reproduzidos em imagem para respeitar a distribuição gráfica dos versos.





Poesia para a pandemia

Texto de Toinho Castro


É da natureza do poema pertencer
a todos os tempos, ser atemporal.
Paulo Sabino

A poesia é um dos fazeres humanos mais essenciais, mais ancestrais. Não tenho esse estudo todo, mas arrisco afirmar que é anterior não só à própria escrita, como a muitas outras manifestações do espírito. Ela tá alinhada nessa espécie de código genético, pulsando dentro da gente que nem sangue, coisa que a gente só percebe quando aflora, quando chama. E digo que recorremos à poesia constantemente, que na nossa linguagem cotidiana, de conversas e encontros, aparecem mais que frequentemente pequenos versos soltos, às vezes rimados, às vezes livres… porque tem coisa a ser dita que só se encontra o dizer na poesia.

E dito isto, louvo a iniciativa do poeta e produtor cultural Paulo Sabino, de organizar e botar no mundo uma coletânea de poemas para nos guiar esse período amargo de pandemia que, anda, atravessamos. É nesse entendimento, da poesia como lenitivo, como janela a permitir a entrada da claridade, que o livro Poesia para a pandemia (Selo Bem-te-li – Editora Autografia, 2021) se movimenta e transborda vontade de viver. E não, não se trata da panaceia motivacional, muito pelo contrário. Trata-se do poema como afirmação da força vital, que é terna, é afetiva, mas também com suas arestas e assimetrias.

Poesia para pandemia nasceu nas teias enredadas das redes sociais. Paulo viu sua agenda de trabalhos desabar de uma hora pra outra com o lockdown a disseminação descontrolada da Covid, mas não ficou parado. Criou o projeto 40tena em versos e pôs-se a ler poemas online. A fonte era sua invejável biblioteca pessoal de poesia, de onde, dia após dia, tirou textos e energia para se segurar nesse mundo que de repente ficou virado, de pernas pro ar. Formando um acervo de cerca de 160 leituras, Paulo não resistiu à ideia de que aquilo pudesse ser um livro. Generosidade é a palavra.

Outra palavra, chave nisso tudo, é curadoria. Poesia para pandemia é resultado de uma curadoria de rara sensibilidade. Com olhar a tento Paulo Sabino nos guia nessa cornucópia que despeja diariamente esse tal de conteúdo, em que se fica cada vez mais difícil discernir o que merece ou não nossa preciosa atenção. Embalado num projeto gráfico bonito demais, que faz jus a uma diversidade impressionante, o livro é um imenso (em vários sentidos) diálogo com (e também entre) as mais distintas e ricas vozes poéticas da literatura brasileira. São quase 600 páginas dedicas à poesia, ao fazer poético. Dedicadas à fruição desse sentido do poético, que funciona na gente como uma subtarefa, como se fosse essa rede permanentemente embaixo da gente, enquanto caminhamos na corda bamba de tudo.

Acredito na poesia como essencial. Acredito que ler poesia resgata em nós o poeta, nos torna poetas. Então esse livro que Paulo Sabino organizou e nos ofereceu, é uma oportunidade a que devemos nos agarrar, não como náufragos, mas como surfistas. Vamos subir nessa prancha e deslizar, ao longo da vida. E olhe, você pode até devorar suas páginas numa empreitada só, mas digo desde já que é um livro clássico de cabeceira, de leitura saborosa, recorrente, distraída. Desses que levamos na mochila, numa viagem.

No prefácio de um dos seus belos livros de poesia, Jorge Luis Borges comenta que seu editor disse-lhe que, se ele escrevesse trinta poemas num ano, daria para publicar um livro; ele então afirma sem piscar: Não é possível que não ocorram, em um ano, trinta oportunidades de poesia. Poesia para Pandemia são muitas, muitas mesmo, oportunidades de poesia. Senão de escrever, mas de ler. E isso já nos faz, como afirmei antes, poetas.

Obrigado, Paulo. E que inveja da sua biblioteca!


A dança do Verão

Crônica de Toinho Castro


Já não sou mais aquele sujeito que senta na mureta do Forte de Copacabana com inveja daquela gente do mar. Da última vez que lá estive, ainda nesse janeiro que finda, mirei uma moça com seu cachorrinho numa prancha de Stand Up Paddle. Me detive na alegria daquele cachorro que se jogava ao mar calmo e retornava à prancha sozinho. Sim, às vezes ele era meio inconveniente e a moça, sua parceira de alegria, tinha que resgatá-lo da água segurando pela alça de seu mínimo colete salva-vidas. Sem falar que, em tamanho diminuto, circulava pela prancha como se estivesse a passear num corredor, passando por baixo das pernas da moça, indo e voltando e saltando novamente, intempestivamente, bravamente, no mar.

Tava lá o cachorrinho no mar a se esbaldar, e eu ali na mureta, tomando café da manhã, invejando e pensando que um cachorrinho daquele tamanho, quase uma gota no oceano, se jogava destemidamente ao sabor do mar, enquanto eu relutava no meu medroso recanto do ser. Medo de subir na prancha, medo de cair, medo da onda que virá, e sim, ela virá, medo de nunca jamais me equilibrar sobre a planura, a planície daquele artefato, a prancha, tão bem explorado pelo cachorrinho aventuroso.

Olhe só. Raquel, minha companheira, com 14 anos de Cidade Maravilhosa, nunca havia tomado um bom banho de mar em Copacabana. A gente só ia em Ipanema, no Arpoador, um Leme ocasional… talvez devido a uma preguiçosa tradição que se formou nos meus 25 anos de Rio de Janeiro, por conta de pequenos acasos.

Mas no último fim de semana de feriado numa quinta, com a sexta imprensada ao nosso dispor, chegou a vez de Copacabana na vida de Raquel. Por conta daquele café da manhã no Forte, em que ela percebeu a calmaria daquele pedaço de mar, recostado ao Forte, acabamos fincando bandeira no Posto 6, ali juntinho da estátua de Dorival Caymmi, pela qual passei agradecendo as dádivas de Morena do Mar, Dora, rainha do frevo e do maracatu, O vento e outras tantas de generosa beleza. Agradeci e sentamos ali, naquela faixa estreita praia, naquele pouco espaço entre a cidade e o Atlântico.

O sal da água gelada do verão carioca nos renova sempre. É sempre essa vibração infantil ao pôr os pés no mar e mergulhar, com o alarido da criançada ao nosso redor. O vai e vem dos vendedores, as famílias reunidas sob a sombra auspiciosa da Deusa Barraca, o sabor da água de coco e esse céu sem nuvens, límpido, inacreditável, cortado eventualmente por aqueles enfadonhos teco-tecos de publicidade, carregando suas longas faixas amargas. Mas tudo bem, o mar é maior, o sal no corpo, nos cabelos, é maior. Danem-se os teco-tecos do mercado.

Dali mesmo, com minha cerveja na mão, eu mirava então o ir e vir das pranchas do tal do Stand Up Paddle, o movimento dos remos, de um lado pro outro, impulsionando o adentrar das águas de Iemanjá. Da minha parte, me foi ensinado que o mar não tem cabelos
que a gente possa agarrar
. Criado e crescido nas piscinas mornas do Recife, protegidas pela amurada dos arrecifes na maré baixa, o mar do Rio de Janeiro sempre foi de me deixar temeroso. Nunca deixei de curti-lo, de aproveitar suas ondas, seus dias de mansidão transparente. Mas tantas vezes cheguei na sua beira, molhei os pés e recuei, por conta de sua agitação, cá entre nós, exagerada e desnecessária. Frustração é a palavra pra chegar na praia no alto verão carioca e não poder entrar no mar. Ter que se contentar com o chuveirão… uma lição de humildade, do mar com nosotros!

Mas ali, na mansidão do Posto 6 de Copacabana, resolvi criar coragem e fui até a barraca das pranchas, a SupCopa 6. Fiz os acertos necessários e, depois de breves instruções, era eu que deslizava a prancha naquele mar, seguindo à distância, mas paralelo ao muro do Forte. Segui meu rumo com o coração a mil de emoções. Ainda sentando de pernas cruzadas sobre a prancha, já me sentia senhor de algo, senhor de algo em mim. Percebi rapidamente que não se tratava, em momento algum, de arrumar coragem, e sim disposição. Disposição de ser eu mesmo e me doar àquele território de natureza tão distinta daquele que habitamos e nos movemos, a terra firme. Tão distinto e ao mesmo tempo tão familiar e querido, impresso de tantas maneiras na memória afetiva, nas marcas da pele, no instintivo movimento de nele se jogar e saber o que fazer com esse corpo, ora desajeitado, ora desenvolto, em seu reinado de peixes, tartarugas, algas, corais, celenterados e toda sorte de criaturas que o povoam, desde a areia lavada pelas marolas às suas profundezas escuras e remotas.

Dois dias levei pra sair da casa de caramujo em que eu estava entocado sobre aquela prancha. Foi no terceiro dia que pensei: Se é pra ficar sentado nessa prancha, é melhor eu procurar um caiaque ou o que o valha! Foi aí que respirei, segurei o remo com as duas mãos, transversal ao plano da prancha, e me ergui. Me ergui, digo, que nem pássaro a voar, e num sentido novo de liberdade e alegria, dei minhas primeiras remadas de pé. Olhos no horizonte, no Pão de Açúcar lindo e reverente, céu pleno de azul. Sabe que dá uma emoção quando você entende, ou melhor, quando seu corpo, essa coisa que parece ser, mas não é separada de você, entende que não se pode ser rijo sobre o mar. É preciso flexibilidade, jogo de cintura, saber que espaço se ocupa nessa dança. Pois sim! Entendi que é uma dança em que minha parceira era a prancha. Essa compreensão foi súbita e reveladora. A prancha é meu par e é ela, na sua conversa com o mar, que dita o ritmo desse bailado. E é nela que me apoio com firmeza e ternura, os pés a ler seus movimentos, se ajustando em lampejos de energia que vão subindo para o resto do corpo, dando-lhe sentido e conforto. E uma confiança de que enquanto eu estiver nessa valsa, atento a minha parelha, atento aos sinais que ela e o mar te enviam o tempo todo, eu estarei bem. Eu não estarei só, mas integrado a uma natureza da qual a gente nunca deveria ter se deslocado.

Do alto da prancha olhei pro Rio de Janeiro, minha cidade. Que eu amo. Pela primeira vez, depois de 25 anos, desde que aqui cheguei pra morar, pude me dar a tranquilidade dessa visão. Copacabana se estendendo à minha vista… remei remei ao longo de seu litoral. Inevitavelmente pensei em quem a viu pela primeira vez, da amurada da embarcação, imaginando talvez o valor de toda aquela madeira a se perder de vista, subindo os morros, talvez absorto em algum sentimento que lhe era desconhecido, sentimento sentido ali, pela primeira vez. Encanto? Maravilhamento? O resto é história.

Ali estava, diante de mim, o purgatório da beleza e do caos. De longe os automóveis, como um rumor. O espanto de uma ou outra criança cortando o ar até ali, onde eu me encontrava, no meu pequeno milagre. Vi peixes céleres, e até uma tartaruga encantada que passou rente à prancha. Cumprimentei-a, porque fiquei assim meio bobo naquele salão em que eu e prancha dançávamos, cuidando um do outro e de si. Minha vontade era nunca mais sair dali. Mas na areia meu amor me aguardava. Devia tá de olho no mar, procurando pela minha figura. Ou nem… somente curtindo o coco gelado e as gentes bonitas a vagar pela areia, entrando e saindo da água nesse encontro gostoso com a ordem da natureza.

Subi naquela prancha fragmentado e retornei inteiro. Com uma consciência melhor de mim mesmo e do que sou capaz, com meu campo magnético, acredite se quiser, arrumado e ajustado ao da terra. Despedi-me naquele dia da minha parceira nessa dança de verão e cometi, não muito tempo depois, a indiscrição, com jeitinho de pequena traição, de retornar ao salão, iluminado pelo sol, sem ela, pra dar uns mergulhos e braçadas. Mas já sonhando e planejando a próxima festa, a próxima dança entre eu e ela.


Quero muito agradecer ao pessoal da SupCopa 6, que me estimulou nessa jornada que agora não tem fim. Grato pelas dicas e pela paciência com o marinheiro de primeira viagem. E também um super obrigado à turma da Barraca 187, do Jerônimo, que tá ali na gentileza e no apoio da água de coco, da cerveja gelada e da sombra boa nesse sol de verão.


Sobre Lucia

Texto de Eduardo Maciel


Olá, queridos kurumateiros!

Espero que estejam todos bem. Eu não estou. Enquanto escrevo, tento de alguma forma preencher esse vazio que tem me acompanhado nos últimos dias. Um vazio do tipo que dificilmente poderá ser preenchido, e já explico o motivo.

Recebi uma ligação inesperada dando conta de que a minha psicóloga foi encontrada morta em seu apartamento. Assim, de repente, de causas que desconheço. 

Durante a pandemia estávamos fazendo as sessões por vídeo. Mas meu tratamento com ela se iniciara no ano 2000, então foram 22 anos de tratamento, onde ela me acompanhou em minhas venturas e desventuras, fracassos e vitórias, meu amadurecimento em si. Passei metade da minha vida até aqui contando com ela.

Eu sei que a princípio vocês devem estar achando estranho, pois em teoria não deveria haver contato pessoal nessa relação entre psicólogo e paciente. E é verdade. Mas depois de 22 anos é impossível que não se crie algum tipo de laço para além do consultório. Especialmente com ela. Lucia. Lucia Ornelas, que Deus a tenha.

A mera ciência de sua existência por si só me fazia forte, porque foi junto com ela que enfrentei meus maiores desafios até hoje: minha orientação sexual diversa, doenças físicas, assédio moral, desemprego, falência financeira, abuso de substâncias e até mesmo o temor da morte. Ela foi sempre incansável, nunca me tomando o protagonismo, mas me fortalecendo para que eu mesmo desse os passos necessários em direção à cura e solução das minhas inúmeras questões interiores.

Mas, sem ela, eis que me deparo com esse vazio. Mas não confundam, pois pra mim é claro por demais. Não se trata do vazio por dependência de suas palavras ou presença física, mas do medo, de não mais poder contar com ela em qualquer evento extremo futuro.

Pude lhe fazer homenagens em vida: dediquei um soneto a ela em meu terceiro livro, a incluí nos agradecimentos do quarto livro, e a reconheço como minha maior incentivadora a me deixar levar pela arte como propósito de vida, principalmente no início dessa jornada.

O medo é uma doença. Se não tratada, te consome. E o único tratamento para o medo é enfrentá-lo. Sem armas, mas com a força do pensamento organizado. Por isso, escrevo para vocês sobre essa tragédia.

Preciso fazer com que essa minha história de terapia interrompida seja útil, como se fosse a grande lição que Lucia deixou para mim, e que agora preciso compartilhar com vocês.

Sejam cientes dos seus medos. Por mais aterrorizantes que sejam, os convidem para um café. Entendam suas formas de operar. Saibam em que partes de vocês eles se acoplam. Assim, e somente assim, vocês serão capazes de entendê-los e depois enfrentá-los, com chances de vitória. 

Esse texto serve para isso. E ao terminar de escrever, estarei aniquilando o vazio do qual falei no início.

Todos nascemos sozinhos, e morremos sozinhos, infelizmente. Nossa única real companhia é o que aprendemos. E a Lucia me ajudou a compreender tantas coisas que usarei todo esse ensinamento como argamassa para selar o vazio. O que morre é o corpo, e não o que o intelecto desse corpo produziu em vida.

Ah, que maravilhosa essa sensação. Já não tenho medo, ao menos não tanto. Já a gratidão, admiração e reconhecimento, esses levarei comigo até que meu corpo se torne inerte. E que Deus tenha piedade de mim assim como certamente teve com a Lucia.

Descanse em paz, loura. Você é luz. Sempre foi, e sempre será. Muito obrigado por tudo!

E quanto a vocês, kurumateiros, peço que reflitam. Porque tudo começa e termina em nossas mentes.

Fiquem bem, fiquem com saúde. 

Até breve!

+ Tays Melo na Kuruma’tá

Crônica e poemas de Tays Melo — Ah, a ingratidão! Suspiro ao pensar. Um suspiro exausto, com olhos baixos, semblante perdido, desidratado e melancólico.
Ah, a ingratidão… Esta coisa abstrata que embora esteja no outro é em nós que causa tanta dor.
Há corações que não batem, mas não matam seu dono. O deixam perambular, mortos-vivos, incapazes de perceber a diferença entre agravo e doação. Corações secos, continuam lá, abrigando coágulos gélidos.

Crônica e poemas de Tays Melo


Um brinde aos simplórios ludibriados!

Ah, a ingratidão! Suspiro ao pensar. Um suspiro exausto, com olhos baixos, semblante perdido, desidratado e melancólico.
Ah, a ingratidão… Esta coisa abstrata que embora esteja no outro é em nós que causa tanta dor.

Há corações que não batem, mas não matam seu dono. O deixam perambular, mortos-vivos, incapazes de perceber a diferença entre agravo e doação. Corações secos, continuam lá, abrigando coágulos gélidos. E o seu frio é soprado sobre as almas quentes para rasgar seus mantos calmosos, cobertores dos desabrigados, desprotegidos, atirados à poça de cuspe dos ingratos. Às vezes é difícil ser alma quente, cobertor dos desalmados.

Mas hoje, eu já não quero esclarecer nada a ninguém. Não quero falar com ninguém. Quero apenas descansar. Hoje eu só quero ficar quieta e quem sabe chorar. Choramingando uma lágrima por vez, escorrendo lenta e morna pela face como se, na verdade, não quisesse cair. Como se sentisse que quem a fez derramar, não merece que ela caia e cumpra o propósito da cura de uma doença que não está em mim.

Ah, a ingratidão… Como arranha! Como fere! Ainda que não tenha nascido em minha ação, de um olhar meu, de meu desamor, nasceu de desatenção minha. Talvez por isso me sugue, tente me esvaziar, quando me deixa triste, solitária e sem acreditar. Porque a ingratidão sempre vem de onde não se espera, no risco, na entrega, simplesmente por doação, por mera razão de com o outro se importar.

 


Um café, por favor.

Hoje provei desse café amargo.
Despejei naquela xícara verde-abacate
E o vi cair lentamente, melódico,
não expresso, expressivo, ardente.

O som debulhando borbulhoso
No centro da queda negra
Que formou o primeiro gole
armazenado ao fundo.
Sinuosa e emergente a fumaça
Trazendo o aroma da melancolia.

Não consegui adoçá-lo.
É cortante, imerso no amargor
Que precisa ser alcançado
Desse café mal coado
Que não desce nem cede
E que me favorece travando à garganta.

Desse café, desce café
Dá esperança ameaçada de morte
Companheiro noturno das agonias
Do operário que pesca e não dorme.

Café que acompanha a ilusão
Dos poetas e estudantes contumazes.
Esse café de 29, de sacas incendiadas,
Atiradas ao mar pela esganação do mercado
Oferecido aqueles com quem se quer fazer as pazes.

Esse café
Da alma marcada que sangra na sombra.
Degusto todo dia, alargando as sendas
Com linhas costuras, retalhos e emendas
No abismo talhado que me assombra.

Do aroma desce sabor, desce saber
É forte, é quente, dói e sacia.
Ferve, se eleva, se derrama
Espalha seu pó, faísca na chama,
Aquece o sol ainda que saído
De um pote de água fria.

 


A mesa do fascismo

De orgulho em estilhaços
Nos becos alguém grita, implora…
O estômago colado aos espinhaços
Da criança raquítica que chora.

Exala-se nas esquinas da estupidez
A cobiça do helminto esganado
Nos monturos chafurdados do burguês
Em eflúvio se arvora o escorralho.

De suas almas,
E do choro
Do desespero,
E do chorume
Avulta-se o espectro derradeiro
Fruta podre
E estrume.

Ruas frias, morros altos, becos úmidos
Cachorro, mulher, criança, homem
Arranham a panela com olhos túmidos
Em ânimos trapaceados pela fome.

 


Gatilho

É fácil quando se pesa
o que é mais importante
E não se menospreza
o peso de elefante
que esmaga a consciência
com castigos torturantes.

Nestas noites abrasivas
Largue-se peso inocular
na consciência puida
de quem não soube validar
a fortuna auferida
que todos sonham alcançar.

É gratificante ser
fiel a quem se deleitou
De suas alegrias e agruras
Engolindo sal do dissabor
Ao teu lado nas torturas
Tonturas das doçuras do amor.

Não se dá constrangimento
A quem já sabe usar o não
Ao que só causa sofrimento
Banhos frios de aflição
Mágoa e arrependimento
Não se lava com sabão.

Quem quer jogar ao nada
das ruelas espremidas
de uma vida tão suada
o amor de sua vida?

Volta para tua casa
Abraça os teus filhos
Beija a boca da pessoa
Que emenda os teus trilhos

Abraça forte como nunca
revela teus sonhos exauridos
Pois ainda dá tempo, meu caro
Não vá puxar este gatilho.

Tays Melo | Areia -PB

Meu primeiro grande amor

Texto de Toinho Castro


Meu primeiro grande amor foi a música eletrônica. Certa vez, aos 12 ou 13 anos, menos ou mais, não sei, acordei de uma soneca pós-almoço, na casa do meu primo, Carlos Henrique, em Natal, no Rio Grande do Norte, ao som de Autobahn, do Kraftwerk. Foi como se eu acordasse dentro de um sonho. Foi como se, ao acordar, algo também despertasse em mim, como se eu tivesse ido dormir uma pessoa e acordado outra. Acho que foi a primeira vez que eu senti o que senti, e acho que também a última. Nunca mais senti nada assim, ouvindo qualquer música, por mais que encantasse. E muita, muita coisa de grande beleza escutei depois disso. Músicas que até hoje carrego comigo. Mas o que aconteceu ali, com Autobhan, foi uma iluminação. Na medida em que um menino de 12 ou 13 anos pode ter uma iluminação.

Naquela época, naquela geografia terceiro mundista provinciana e periférica em que vivíamos, era difícil, pois, conseguir uma cópia em vinil do disco Autobahn, que até então não havia sido lançado no Brasil… Na verdade acabei de pesquisar e consta, na Discogs, a informação de uma edição brasileira, com aquele belíssimo selo Vertigo, de 1975. Olha só! Mas pra mim, moleque, morando na Imbiribeira, era como se não existisse. Era uma coisa de um outro planeta.

Mas… na loja A Modinha, lá no centro do Recife, rua Nova, talvez, tinha um exemplar, exposto na parede de discos atrás do balcão de atendimento, do Trans-Europe Express, do mesmo Kraftwerk. Lembro de voltar à loja com minha irmã (Na primeira vez que vi devo ter ido com minha mãe, num de seus passeios pelo centro), porque eu não tinha, então, idade para ir ao centro da cidade sozinho. Apontei para o disco e minha irmã pediu pra ouvir. Senti certo embaraço quando aquela música estranha soou muito alta na loja, e as pessoas ali olharam com aquela cara recifense de “mais o que diabos é isso?!”. Rapidamente confirmei que era aquilo mesmo que eu queria, aquela música esquisita, metálica, mínima, tão pouco melódica , como que saída de… de uma máquina. Eu havia me tornado oficialmente o esquisito da família, quando, pra mim, esquisito era não enxergar a beleza naquilo.

Escrevendo agora, lembro que, antes disso, comprei um compacto do Kraftwerk no supermercado MiniPreço, em Natal mesmo, com The Model de um lado e Spacelab do outro, ambas do disco The Man Machine, de 1978, que foi o segundo disco que comprei (com o dinheiro da minha mãe, claro!), provavelmente numa loja que tinha lá no bairro de Afogados, a Rubi Discos, que tinha um moço muito simpático. Com uma paciência grande com aquele menino que dava seus primeiros passos naquelas sonoridades, ou mesmo no mundo da música. Lembro que falávamos do Kraftwerk e outras coisas eletrônicas ou progressivas, e ele me falou do Giorgio Moroder, do LP From here to eternity, que estava lá, na parede de discos por trás do balcão, que toda loja de discos tinha então. Comprei o compacto do Moroder, com From here to eternity de um lado e Utopia – Me Giorgio, no lado B.

Mas eu ouvia mesmo era o Kraftwerk, e aos poucos ia adquirindo novos discos, como o Radio-Activity e o Computer World. Ouvir esses discos era como observar uma molécula de DNA. Era um código fonte. Paralelo a isso eu ia abrindo outra frentes, outra variáveis… a meditação eletrônica do também alemão Tangerine Dream, as elaborações eruditas do japonês Isao Tomita, o francês Jean Michel Jarre com seus primeiros três discos (Oxigene, Equinox e Magnetic fields) e, claro, Wendy Carlos e seu pioneirismo de Switched-On Bach

Muita gente torce o nariz, hoje, para um sujeito como o Jean-Michel Jarre ou mesmo Tomita, por serem comerciais, pastiche, sei lá. Vão dizer que eu deveria ter escutado algum artista obscuro que só lançou um disco e desapareceu na névoa dos anos 70. Mas não ligo, esses artistas me ensinaram muito como apreciar a música eletrônica e buscar por ela nos caminhos confusos do pop e também do erudito. Lembro das tarde que passei no sebo do Humberto, um ponto clássico da comunidade rock’n’roll recifense. Se você buscava um disco estranho, raro, difícil de encontrar, Humberto era o cara. Foi lá que dei com o Zeit, de 1972, álbum duplo monolítico do Tangerine Dream. Nesse dia eu tinha um dinheirinho e levei pra casa. Hoje adorna a casa do meu amigo Pedro, que herdou meus discos que deixei no Recife.

A música eletrônica invadiu a música pop, e hoje em tudo tem a natureza eletrônica, por baixo, no meio ou por cima. Antigamente era uma coisa de iniciados, que achavam saber de algo que pouca gente sabia. Hoje tá mundo, tanto melhor! Da Disco Music ao Pós-punk, passando pela multiplicação da tendências regionais, como o nosso tecnobrega, a música eletrônica evoluiu, se popularizou e dominou as pistas de dança mundo afora. Com Giorgio Moroder produzindo Donna Summer, o New Order emergindo das batidas sombrias do Joy Division, Brian Eno com sua Ambiente Music e tantas outras experiências, mais pops ou experimentais, a música eletrônica gerou sua própria árvore genealógica de bandas e músicos, populares ou eruditos, que cruzaram seus fazeres. E eu, um amante apaixonado, ouvi muito de tudo, num exercício cotidiano de descobertas.

Amo música, como um todo. Escuto muita coisa, muitos estilos, tendências, de gerações diferentes. Me dedica a conhecer coisas novas constantemente e vibro com as descobertas. Mas a música eletrônica sempre me será mais íntima, sempre mexe comigo de um jeito diferente, mais profundo. Porque evoca aquela tarde lá em Natal, em que escutei o Autobahn e meu jeito de olhar o mundo mudou de maneira irreversível. Essa pessoa que você conhece, existe porque uns alemães nascidos no pós-guerra escreveram uma música incrível de 22 minutos sobre uma viagem numa autoestrada, sonhando sonhos elétricos. Imaginando uma modernidade das máquinas e de um mundo fluido, viajante, sem fronteiras. Uma música que nos põe em constante movimento.

Wir fahren, fahren, fahren auf der Autobahn

Como eu amo essa música. Como jamais esquecerei esse encontro. Tem gente que passa a vida tentando reviver ou recuperar uma sensação, um sentimento de uma época ou de uma experiência. Eu revivo esse sentimento sempre que escuto Autobahn, e vivo nele minha própria história de viagem pelos tantos caminhos da música eletrônica que essa audição me proporciona. Minha luta cotidiana é de não perder esse encantamento, esse maravilhamento. De sempre me surpreender ao escutá-la, como se tivesse acabado de acordar.


A música romântica popular brasileira tem nome: Conde

Texto de Aderaldo Luciano


Foto originalmente publicada na Fanpage do Conde Só Brega!

Em 27 de dezembro de 2021, o cantor João Gomes, do meio da caatinga, com seus camaradas, tomando café em um copo, de chinelas havaianas, camiseta, sanfona, violão e sax, gravaria seu último vídeo do ano. Com sua voz orientada pela tradição da vaqueirama, retira do seio do povo os primeiros versos da canção Espelho do Poder, chamando atenção para as catástrofes do sul da Bahia, chuvas violentas, desabrigados e esquecidos pelo poder central brasileiro. “Eu queria ter o dom de poder cantar/ igual aos pássaros que Deus fez pra viver/ livres para voar nesse azul sem dimensão./ Queria ter poder pra poder fazer/ você às vezes dizer sim ao invés do não/ pra fome, pra saúde, pra miséria, educação…”

São versos fortes extraídos da canção romântica popular brasileira escrita por Ivanildo Marques da Silva, o Conde Só Brega. Recifense, nascido na Mustardinha, assinalado desde o berço pela tríade da música: a melodia certa, a harmonia exata, o ritmo do coração, Conde é o oceano para onde correm os rios e riachos da sensibilidade. Cresceu se alimentando dos clássicos nordestinos veiculados pelo rádio. É herdeiro de nossa música mais rica e florescente. É o senhor de nossos sonhos de amor, sem se distanciar dos problemas sociais, das dores físicas causadas pelo salário desigual. Conde habita com sua voz e performance nossas casas, nossos lares, nossas ruas, levada e trazida pelas ondas internáuticas.

A música chamada de brega pelas elites econômicas, que em determinado momento se fundem com nossas elites culturais, foi responsável por sustentar gravadoras, executivo e cantores distanciados do povo. Elino Julião, Núbia Lafayette, Carlos André, Agnaldo Timóteo, Evaldo Braga, Carlos Alexandre, Ângela Maria venderam discos e canções por si e por toda a Bossa Nova, pelo Tropicalismo e pelo rock. A canção brega é a canção brasileira. A canção romântica é a canção brasileira. E Conde, hoje e agora, traz a Luz e o Som para dentro dessa tradição. Conde levou a canção ao alfaiate e lhe fez uma roupa sob medida. Levou, cobriu de seda e a produziu com a riqueza cosmética que lhe trouxe a alma para a superfície de sua pele.

Ouvindo o DVD Livre Para Voar, no streaming de música ou no YouTube, somos capturados pela estética viva de um universo que não se perdeu e que Conde revigorou. Sua performance nos traz a época de ouro dos cantores de rádio, junta-se ao que de melhor se produziu em termos de romantismo e aproveita os novos caminhos sem se entregar ao modismo fácil, à batida repetitiva, à letra pobre. Voz firme e bem colocada, instrumental disciplinado, cozinha bem temperada, direção de arte afinada, roteiro elaborado e bem realizado: é o que nos oferece esse valoroso senhor de seu ofício. Aos 67 anos, momento em que muitos decaíram, Conde sobe vertiginoso ao topo da iluminação. Desbrava o céu azul sem dimensão.


3 poemas inéditos de Claudia Schroeder

Publicar 3 poemas inéditos de uma poeta como Claudia Schroeder é uma alegria e um privilégio. Seu livro, As partes nuas, mexeu com a gente, como só a poesia pode mexer, sacudir, despertar. Que coisa boa então receber no inbox a mensagem que nos trouxe esses poema que hoje publicamos. Seja sempre bem-vinda à Kuruma’tá, Claudia. Portas e corações abertos. — Poemas de Claudia Schroeder

Publicar 3 poemas inéditos de uma poeta como Claudia Schroeder é uma alegria e um privilégio. Seu livro, As partes nuas, mexeu com a gente, como só a poesia pode mexer, sacudir, despertar. Que coisa boa então receber no inbox a mensagem que nos trouxe esses poema que hoje publicamos. Seja sempre bem-vinda à Kuruma’tá, Claudia. Portas e corações abertos.

Poemas de Claudia Schroeder


estou marcando exames
saber se vou morrer com aviso
prévio

assim como quando ligo para você
convenço-o ao encontro às escondidas
a nossa pequena morte enxuta sabida
antes que o meu amor e o seu amor
voltem para casa
fazendo de vivos


a solidão tem muitos metros quadrados
é maior que a casa dos meus sonhos
ela faz muitas voltas no quarteirão
se eu fosse da NASA teria como saber as reais
dimensões

mas estou aqui num sofá de dois lugares
você está sentado à minha esquerda
a solidão cobre seu corpo com um lençol empoeirado
e branco


por que os mesmos nomes —

o nome de um homem que muito admiro
é o mesmo nome do homem que mais desprezo

o nome de minha mãe é o mesmo nome
da colega desgostosa

o nome da rua onde moro
tem o nome do médico que não salvou meu pai

a amiga que tanto gosto leva o nome
da dona de um puteiro

a filha do melhor amigo tem o nome
da ex-namorada que eu temia que voltasse
pra você

o meu nome e o meu nome
quantas mulheres frias e cruéis
e um tanto melhores do que eu


Também publicou, em 2021, plena pandemia, o livro As partes nuas, pela editora Francisco Alves, que a gente comentou aqui na Kuruma’tá!

Que esse livro, As parte nuas, tenha sido publicado agora, em meio à pandemia, à ruptura dos distanciamentos, das máscaras e da assepsia, é de enorme precisão. Uma leitura que cai certeira, a nos recuperar como gente. Dores, prazeres, amores, cheiros, a velhice, a pele, o sexo, as bocas, os medos. Lista infinda do que é uma criatura no mundo.

Claudia Schroeder nasceu em 1973, em Santo Ângelo, Rio Grande do Sul. É formada em Publicidade e Propaganda pela PUCRS e desde 2014 dirige sua agência de estratégia criativa.

Publicou o livro de poemas As partes nuas (Francisco Alves, 2021), Leia-me Toda (Dublinense, 2010), participou da coletânea A Poesia é para Comer (Babel, 2011) e lançou o livro infantil A menina que descobriu o Sol (Kazoca, 2018).

Claudia vive e trabalha em Porto Alegre.

Instagram da autora: @claudiaschroeder.poesia

A poesia de Nirlei Maria Oliveira na Kuruma’tá

Poeta e Bibliotecária com mestrado em Ciência da Informação, Nirlei Maria Oliveira nasceu em Formiga MG, e reside em Campinas, SP. Nirlei descobriu o caminho até a Kuruma’tá, para nossa gratidão e alegria, e nos oferece aqui 5 de seus poemas. Nirlei é Autora do livro de poemas Palav(Ar) (2021). Organizadora das coletâneas: Quarentena Poética (2020) e Cotidiano, Poesia, Resistência (2021).

Seja bem-vinda, Nirlei, ao recanto afetivo e guerreiro da Kuruma’tá!


Eu sou Alice de vez em quando

calma, Alice, sairemos deste looping
deste caos em tempo dos absurdos
destas manhãs que não amanhecem
e das noites solitárias e iguais

pois é Alice, o relógio parou
– “Ele mostra o dia do mês e não mostra a hora!”
estamos imersos em silêncio de angustiantes dias sem fim

corremos atrás do coelho há meses
estamos a desbravar novos rumos e trilhas
à espera morosa de sonhos e magias
por enquanto, Alice
apenas caminhar e caminhar
essa é a nossa jornada

somos reféns da Rainha e do Rei de Copas,
neste mundo paralelo de acasos e imprevistos

onde está a porta na árvore?
a passagem para o retorno ao normal?
estamos perto, Alice…falta pouco

por enquanto, estamos apenas aguardando
dias de festas com o chapeleiro maluco
afinal, “O segredo, querida Alice,
é rodear-se de pessoas que te façam sorrir o coração.
E então, só então que estarás no país das maravilhas.”

*frases com aspas foram extraídas do livro Alice no País das Maravilhas de Lewis Caroll.


Caminhos

desvios e margens
andar viajante
sujeito e objeto
refém
das sutis emoções

poeta
que bebe e cheira
nas bordas das palavras
ávido
em sua gula
embriaga-se com letras

para nos desvios
bordeja no desconhecido
vez ou outra
atravessa vãos e frestas
de espinhosos caminhos

viaja no tempo e espaço
busca a potência poética
a palavra que seduz
que embala
que contrapõe e resiste

grita nas vazias praças
persegue ressonâncias


Mundinho particular em dias estranhos

é pela manhã
que dou conta do meu mundo
nas regularidades dos afazeres

rotineiramente
cuido das plantinhas
leio partes de um livro
vejo jornais pela internet
assisto às séries boas e ruins
escrevo um poema ou menos que isso
penso no que fazer para o almoço
só penso – detesto cozinhar
assisto às aulas pela internet
videoconferências do trabalho
muitas conversas nas redes sociais
olho a rua através da janela
vejo pessoas com máscaras
tenho medo
volto a pensar em bordar


Estrelas no café da manhã e suco de laranja

peço pouco
apenas as estrelas que brilham no escuro da noite

no café da manhã:
suco de laranja e pão de ontem

desejo linhas de fuga
do agora

quero a(s)manhã(s)
com explosão de luz(es)
entrando nos seus olhos
e nos meus


dizeres de amor

o amor precisa de palavras
sem elas, não prospera
não cria o visgo das gameleiras
o grude, a cola dos afetos

palavras de amor
são cheias, redondas
repletas até a bordas
que transbordam
e caem pelos vão dos lábios
em calorosos beijos

palavras de amor são inscritas
descritas em suaves desenhos
na epiderme
benditas que sejam ditas
pelas bocas
e
línguas
com ávidas palavras de amor


Nirlei Maria Oliveira tem poemas publicados nas revistas: Travessias Literárias, Cult – Lugar de Fala, Literatura e Fechadura, A Palavra No Agora do Museu da Língua Portuguesa, Literatura Brasileira no XXI, Partilhas Poéticas do Museu Ema Klabin, Acrobata, Tamarina Literária, Aboio, Ser MulherArte, Ruído Manifesto, Sucuru, Errancia (Universidade Nacional Autônoma do México), Desvario, Entreverbo e Revista Toma Aí Um Poema!.

Tem poemas nas antologias: Enluaradas(2021), Mulheres Maravilhosas I e II (2021), Na força e no grito, na palavra persistimos!(2021 ), Casca, Azeda e Doce: 1 Coletânea da Revista Tamarina Literária (2021), Nascer pela Segunda Vez (2021), Mulherio das Letras para Elas ( 2021), Infâncias (2021), Comer é um Ato Político (2021), Poetizando em Pirituba (2021), Estrada para os domingos (2021).

Participou da EXPOSIÇÃO | Para fazer poesia hoje: a desdomesticação do olhar e Poesia de Rua. Participa dos coletivos: Mulherio das Letras, Mulheres Maravilhosas e Nua Palavra.

Tem poemas nos podcast: Quarentena Poética, Revista Errancia… la palabra inconclusa, da Universidade Nacional Autônoma do México, Tomaaium poema, Poesia para os ouvidos e Rádio Graviola.