Violivoz: Um encontro que encanta, redime e inspira

Texto de Toinho Castro —


Ontem tivemos essa alegria absurda de assistir ao espetáculo Violivoz, esse encontro inacreditável de Chico César com Geraldo Azevedo. Sair de casa num Rio de Janeiro tão maltratado, num país tão dilacerado, para ter com essa luminosidade e essa força que é a música desses dois artistas, é uma renovação de fé.

Violivoz se dá num cenário delicadíssimo, que honra as seis cordas desse instrumento que costurou, ao lado da percussão, o coração da música brasileira: o violão. E foi na costura de seus dois violões que Geraldo e Chico desfiaram, em mais de 20 canções, um repertório em que uma pérola sucedia outra. Repertório? Melhor chamar de patrimônio, imaterial, que se materializa na vontade de dançar, de cantar junto, de segurar uma mão e abraçar.

Como é que dois artistas tem uma coleção de músicas como essa? Músicas que todo mundo reconhece facilmente, imediatamente. Músicas que conhecemos os acordes, harmonias e a poesia das letras de cor(ação). E a gente vai ouvindo e se emocionando, porque elas estão carregadas de história, tradição, memória afetivas… de quando tocaram no rádio e as escutamos numa certa primeira vez, que achávamos perdida no tempo e que nos retorna, saborosa. Esse encontro é reencontro que nos alivia.

Cantores, compositores, poetas… carregando o violão que os carrega. O violão que aprendi a ouvir com meu pai, com o disco Abismo de rosas, de Dilermando Reis, que lampejava em nossa casa, em tempos idos. Violões de Baden, Toquinho, Rosinha de Valença, Yamandu Costa e outros tantos nomes que poderíamos enfileirar aqui. A versão instrumental de Bicho de 7 cabeças (que já teve tantas versões), com os dois duelando e se abraçando e se emaranhando como uma hélice espiralada e assanhada de DNA, é de chorar de amor, de se ajoelhar diante desses dois gênios, que residem na grandeza de não pretender o ser.

Geraldo e Chico se completam o tempo inteiro, numa parceria que combina a calma transcendente do primeiro com o espírito saltitante do segundo, ambos mergulhados na alegria que pode ser a representação máxima desse país, desse povo que não para de cantar.

Todo o espetáculo foi um ato, um gesto, uma gesta, de resistência absoluta contra o estado das coisas que quer se impor sobre nossa verve (palavra bem lembrada por Geraldo em suas falas), sobre nosso jeito encantado de viver o mundo, que todas aquelas músicas tão bem descrevem e reafirmam. Foi o ato sagrado do povo que dança, que beija, que vibra e não arreda o pé enquanto o amanhecer chegar. E chegará. Ouvi essa promessa ontem, nas cordas imantadas daqueles violões e daquelas vozes ancestrais, que escuto dentro de mim há tanto tempo. Senti-me criança, possuidor de um futuro iluminado.

Violivoz encanta, redime e inspira. Ô dinheirinho suado bem empregado! Botar dinheiro na cultura do nosso país é acreditar no que ele tem de imenso. Ontem lembrei do meu pai, da minha mãe e dos meus irmãos, com quem aprendi ser brasileiro e ficar assim emocionado.


PS. Gente, Dia branco é nossa Love of my life. Tem essa dimensão que atravessa as pessoas, que todo mundo sabe e todo mundo canta. Se Geraldo e Chico se aquietassem com seus violões, a contemplar a plateia, aquele povo cantaria Dia branco do começo ao fim. Brasileiro nasce com Dia branco espalhada pelo corpo e pelo espírito.


Um jambeiro no Maranhão

Texto de Toinho Castro —


Estava eu a visitar uma comunidade quilombola lá no Maranhão, quando vi um jambeiro enorme. O chão de terra aos seus pés estava coberto do tapete aveludado e magenta de suas flores. Dias depois, pensei que deveria ter fotografado. Mas há coisas que não fotografo, pra guardar na memória. E contar pras pessoas como eu me recordo, sem o testemunho das fotografias. Sinto que as fotos, que tanto tiro por aí, sequestram minha imaginação, e paralisam o instante que deveria ser dinâmico na minha memória. Talvez digam os estudiosos da fotografia que ela é qualquer coisa, menos estática. Talvez seja verdade… mas ainda assim, cada fotografia que tiro me impede de lembrar o que vi.

Então, aquele jambeiro, com seu denso tapete de flores, lá na comunidade de recurso, no Maranhão, é um fotograma límpido e inacessível aos demais, na minha memória. Deve estar a caminho a tecnologia que lerá nossas mentes e fará JPGs da nossa memória, ou dos nossos sonhos. Mas por ora, o jambeiro é um redemoinho alojado na minha rede de neurônios. Em algum lugar do meu cérebro, que nem eu sei onde é. Algo que, no fim das contas, não existe.

Esse dia em que vi o jambeiro e seu tapete magenta de flores cobrindo o chão, era 4 de abril, aniversário do meu pai que já morreu. Data auspiciosa. Ao chegar no Maranhão, lembrei muito de seu Antonio, como todos o chamavam, porque para lá ele diversas vezes, ao longo de seus trajetos Brasil adentro. Íamos, quando eu pequeno, para o aeroporto, para poder falar com ele nas cabines da Telpe, a companhia telefônica de então. Do outro lado da linha, meu pai em São Luís, ou Imperatriz. Sua voz, agora um fantasma. Escrevi um poema sobre isso no Imbiribeira, meu livro que escrevi pra ele, pra minha mãe, para meus irmãos.

meu pai, seu antonio, está morto
mas bem poderia estar em belém
ou imperatriz, ou mesmo santarém
olhando os navios no cais do porto

posso recuperar a sua voz espectral
numa ligação direta a distância
por meio de uma mágica substância
que torne tudo ainda mais irreal

enfim, a morte do meu pai já se deu
restamos minha mãe, meus irmãos e eu
e uma certa noite congelada na memória

noite esquecida dos livros de história
no aeroporto minha mãe, meus irmãos e eu
ouvindo a voz do meu pai que já morreu

É possível que meu pai, seu Antonio, tenha passado por Santa Rita, onde fica Recurso e seu jambeiro (agora meu) no longo caminho entre São Luís e Imperatriz. É possível que existisse já esse jambeiro, próximo à ferrovia, talvez um jambeiro filhote ainda. Jamais saberemos. Jamais saberei.

Lembrou-me, pois, esse jambeiro, os jambeiros que minha mãe plantou, no edifício Inês, em que vivíamos na Imbiribeira. Três jambeiros que cresceram frondosos, essa palavra maravilhosa, e que produziram seus tapetes de flores. Até que foram cortados por uma vizinha que achava que as flores e folhas eram sujeira. Violência é o nome disso. Minha mãe sentiu-se particularmente atingida. Era algo contra ela, contra sua alma. Ela amava os jambeiros e seus veludos magenta sobre o chão. Queriam cimentar tudo, cessar as flores e os sombreados. Eliminar essa coisa incômoda chamada vida. Talvez seja o jambeiro nossa planta familiar. Por isso me emocionei ao vê-lo em Recurso, no dia do aniversário do meu pai, que morreu. Num mundo remoto que ele habitou, percorreu, sem ter tirado fotos.

De volta ao Rio, dias atrás, vi numa rede social as fotos que uma amiga, Angela, publicou da floração dos jambeiros. Ariano Suassuna fala num poema dos “…ouros das acácias do Recife / nos cabelos de sol-pela-manhã“. Joaquim Cardozo e Mauro Mota escreveram sobre os cajueiros e não faltou quem cantasse o verde dos canaviais. Não sei se há poemas sobre os jambeiros e sua floração atapetando nossas ruas, nossas memórias. O jambeiro distante, lá em Recurso, se conecta ao meu pai, e aos jambeiros de minha mãe e sua alma.

Arrastamos assim os vagões dos dias, todos ligados uns aos outros. Cada um carregando sua preciosidade, uma BR no Maranhão, a voz de seu Antonio na cabine da Telpe, dona Lenira lamentando seus jambeiros perdidos.

A leitura do mundo,
da nossa rua e dos vizinhos,
o significado das árvores cortadas
no jardim de nosso prédio
e o jasmim noturno
passavam através de suas palavras.

E agora, também, esse jambeiro altivo, tão verde, majestosamente adornado por uma densa camada de flores no chão de terra aos seus pés. Flores como se fossem sua sombra, circular, dissipando-se nas bordas como as bordas de uma galáxia se desfazendo no oco do universo. Isso tudo diante de uma casa simples, porta e janela, paredes brancas, que a chuva salpicou de barro, ao cair por tantos anos. Essa é a imagem que eu guardo. E que agora, você, que me lê, também guarda. Já de outro jeito, de um jeito que só você sabe e vê. E essa transformação do que eu imagino naquilo que você imagina, é o que me alegra.


Dicas de leitura Kuruma’tá

Não sei se ler é o melhor remédio, mas sem dúvida é bom demais. Ou melhor, pode ser bom demais quando a gente recebe assim umas dicas certeiras. Hoje a gente, aqui na Kuruma’tá, vai destacar algumas leituras que estão valendo MUITO a pena.


Não sei se ler é o melhor remédio, mas sem dúvida é bom demais. Ou melhor, pode ser bom demais quando a gente recebe assim umas dicas certeiras. Hoje a gente, aqui na Kuruma’tá, vai destacar algumas leituras que estão valendo MUITO a pena.

SANTUÁRIO,
de MAYA FALKS

Começamos com o livro Santuário, da Maya Falks, editado pela bravíssima Macabéa Edições. Que leitura maravilhosa! Que livro instigante, divertido, cheio de ironias e lampejos de alegria e tristeza. Enquanto os céus giram sobre a “pacata cidade” de Santuário, vidas ali se debatem contra o tempo, contra a pobreza, a falta de perspectiva. Vidas vividas aos fragmentos em muitas facetas narrativas, que nos surpreendem a cada momento. A cada virada de página. Vale viver Santuário e sua senda. Pequenas histórias que contam uma história maior. Cada um de nós, de alguma forma, habita Santuário.

Vale destacar a beleza da edição da Macabéa. Que livro caprichado, que editora dedicada ao fazer literário. Um trabalho gráfico primoroso embala as histórias de Santuário, com direito a um mapa (com guia turístico!!) da cidade e dois cartões-postais com cópias de ilustrações originais de Maya Falks.

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A FONTE DOS RELÂMPAGOS,
de BRAULIO TAVARES

Eita, que livro danado de bom! É desses que a gente lê de uma enfiada só. Mal abre a primeira página, quando vê já tá na última. E querendo mais! Assim são os livros de Braulio Tavares. A fonte dos relâmpagos, edição guerreira da Editora Arribaçã, reúne textos publicados entre 2013 e 2016 no Jornal da Paraíba, e depois migraram para seu blog, o excelente Mundo Fantasmo.

O livro é uma seleta de causos, histórias, personagens e paisagens, alinhavando os caminhos do Sertão, das cantorias, folhetos de cordel. É o tal do mergulho nas culturas do povo, o Brasil profundo, denso e imenso, onde nascem os relâmpagos e chicoteiam as trovoadas do verso incontido. Braulio é um contador de história das histórias. Como se estivesse numa feira, ou num boteco em Capina Grande, vai puxando a prosa e, por meio de sua narrativa, se descortinam a vida de João Furiba, o Bicho do Mazagão, Lourival Batista e Zé Limeira (e consequentemente Orlando Tejo), e muito mais, como se adentrássemos um rio caudaloso de cultura.

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NOSSOS PRÓPRIOS VAZIOS,
de FRANCK SANTOS

Encerramos as dicas com o novo livro do poeta maranhense Franck Santos. Nossos próprios vazios saiu do forno há pouco, pela Editora Primata, que vem fazendo um trabalho bonito publicando a turma independente. A gente recomenda esse livro, que nem lemos ainda, porque já conhecemos o trabalho de Franck, e apostamos tudo na qualidade desse seu novíssimo rebento. Temos aqui a beleza do seu livro de poemas prefiro regar as plantas (também da Primata!), e seus versos nos fazem esperar o melhor de sua prosa, pois Nossos próprios vazios é um romance. A gente recomenda a literatura em que a gente acredita!

Sobre o enredo, a editora nos dá alguma pista… “Tomo um chocolate quente. Fumaça de incenso perde-se ou acha-se no ar. Um vento anuncia mais chuva. Sempre gostei de chuvas, ventanias e tempestades, me acalma a alma, faz meus pensamentos se ajustarem e preciso disso tudo agora. Ouço o barulho de um papel amassado que rodopia na varanda; se a lua surgisse agora no céu nublado que avisto, eu choraria”.

Suficiente pra correr atrás de um exemplar e atravessar suas 88 páginas com alegria.

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O juazeiro e o tamarineiro

Texto de Toinho Castro —


Ontem, eu e Raquel, minha companheira das trilhas desse mundo, realizamos o que, durante a longa quarentena da pandemia, batizamos de Mini São João. Acontece que, cumprindo a missão de não se expor ao vírus e nem ajudá-lo a circular, nos detemos em casa por um longo período, que acabou por abarcar dois ciclos juninos. Se não existissem tantos prédios, da minha janela, junto à qual escrevo esse texto, eu veria a igreja de Santo Antônio, aqui em Vila Isabel, no alto de sua colina, como se nem houvesse mundo em volta. Por dois anos, pois, deixei de subir sua escadaria de cento e oitenta e tantos degraus, para assistir à missa e curtir a festa de 13 de junho, olhando, com um pote de caldo verde na mão, o bairro espalhado abaixo de nós, com suas janelas acesas como pequenas fogueiras, pequenos oratórios.

Longe da igreja, dos terreiros iluminados, restou-nos, ainda bem, reinventar a festa em nossa casa mesmo. E é assim que funciona: Vamos pra cozinha, acendemos o fogão e assamos milho, salsichão, fazemos um caldo quente, forte, de preferência com linguiça ou paio, ou os dois, e pimenta. Pode ser de batata, inhame ou macaxeira. Pode ter couve, pode ter brócolis. Fazemos um vinagrete e uma farofa pra acompanhar o salsichão e passamos a noite bebendo vinho tinto e escutando Luiz Gonzaga. Foi tal o sucesso da empreitada que extrapolou o período junino. A esse expediente recorremos sempre que julgamos necessário, seja qual for a época do ano. É uma gaveta que abrimos e dela sai o São João, as ruas se preparando para as quadrilhas, o ronco do fole, as estrelinhas e busca-pés, toda a história de um povo a nos embalar. Uma gaveta que abrimos quando urge a saudade da terra ou quando se faz necessário abrir no fim do dia uma felicidade.

Estávamos ontem a comer salsichão e escutar Luiz Gonzaga, quando emergiu da caixinha bluetooth a melancolia de Juazeiro.

https://youtu.be/WmrHPjBiTnI

Juazeiro, Juazeiro
Me arresponda, por favor
Juazeiro, velho amigo
Onde anda o meu amor
Ai, Juazeiro
Ela nunca mais voltou
Diz, Juazeiro
Onde anda meu amor

Juazeiro, não te alembra
Quando o nosso amor nasceu
Toda tarde à tua sombra
Conversava ela e eu
Ai, Juazeiro
Como dói a minha dor
Diz, Juazeiro
Onde anda o meu amor

Juazeiro, seje franco
Ela tem um novo amor
Se não tem, porque tu choras
Solidário à minha dor
Ai, Juazeiro
Não me deixa assim roer
Ai, Juazeiro
Tô cansado de sofrer

Juazeiro, meu destino
Tá ligado junto ao teu
No teu tronco tem dois nomes
Ela mesmo é que escreveu
Ai, Juazeiro
Eu num guento mais roer
Ai, Juazeiro
Eu prefiro inté morrer
Ai, Juazeiro

Na música acompanhamos a conversa molente de Gonzaga com o pé de juá, sobre esse amor perdido, essa moça da qual já não se sabe mais. “Toda tarde à tua sombra / Conversava ela e eu“. O Juazeiro, velho amigo, testemunha do namoro sertanejo, certamente pudico, não tem respostas. Seu tronco, riscado com os nomes dos amantes, sustenta a copa verde e vasta, sustenta mesmo a própria sombra, e os que nele se recostam, para cochilar, para pensar nesse mundão, para amar escondidos. Gira ao redor do Juazeiro o remoinho das acontecências. Partem os amores, voam os anos e os seres. A única consistência é o Juazeiro. Só a quem se pode recorrer nesse mundo de transformações. Disse eu, acima, que não tem respostas, o Juazeiro, para a angústia do namorado abandonado. Sua resposta é sua sombra, acolhedora.

Pusemo-nos a pensar sobre esse anseio nordestino pela sombra. E sobre o papel central da árvore nos ciclos tantos que nos regem. Amor e perda. Vida e morte. Há muitos sentidos em descansar à sombra de uma árvore. Muitos augúrios também. E foi com essa palavra, augúrios, que lembrei de outra árvore. Outra poesia. Debaixo do tamarindo, do poeta paraibano Augusto dos Anjos, constante do seu único livro publicado em vida, Eu.


No tempo de meu Pai, sob estes galhos,
Como uma vela fúnebre de cera,
Chorei bilhões de vezes com a canseira
De inexorabilíssimos trabalhos!

Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,
Guarda, como uma caixa derradeira,
O passado da Flora Brasileira
E a paleontologia dos Carvalhos!

Quando pararem todos os relógios
De minha vida e a voz dos necrológios
Gritar nos noticiários que eu morri,

Voltando à pátria da homogeneidade,
Abraçada com a própria Eternidade
A minha sombra há de ficar aqui!

No poema, Augusto chora a morte do pai junto ao tamarineiro, uma árvore familiar (Guardando a paleontologia dos Carvalhos) , ancestral. Assistiu ir e vir de gerações. A ascensão e a desagregação dos engenhos, das casas grandes. Naquela mesma sombra teria sentado o pai do poeta. E agora, da mesma sombra, ele recolhe poemas e chora o pai em biliões de lágrimas. Quando você chega sob a copa de uma árvore, sua sombra se mistura a dela, e Augusto arrastou sua sombra fúnebre até ali, numa simbiose que a morte há de asseverar.

Duas árvores, duas sombras, duas perdas. O amor e a morte, não como espelhos, mas como amálgama. Essa palavra, ouvi hoje uma canção de Zé Ramalho… És a amálgama da minha couraça. De repente me veio esse pensamento que em Zé Ramalho se amalgamam Augusto dos Anjos e Luiz Gonzaga, sob a lamparina alucinada de Zé Limeira. Coisas pra se conversar, não é mesmo?!

Para encerrar esses assuntos, recordo outra canção que escutamos ontem, no nosso Mini São João. A nostalgia da infância de Estampas Eucalol, na voz de Xangai, naquele belíssimo disco, Cantoria 2 (Com Elomar, Geraldo Azevedo e Vital Farias), evoca outra árvore, mais uma sombra, nos versos: Viajava o mundo inteiro / Nas estampas Eucalol / A sombra de um abacateiro / Ícaro fugia do sol. Talvez o mesmo abacateiro de Gilberto Gil, nessa rede de conexões afetivas que a gente vai percebendo de uma música pra outra, de um poema pra outro, enquanto celebramos um São João fora de época, ou fora do tempo, no recanto da nossa cozinha.


AoVivo Kuruma’tá com Jorge du Peixe | O Baião Granfino de Luiz Gonzaga

O disco Baião Granfino, de Jorge du Peixe, com suas interpretações preciosas de Luiz Gonzaga, foi o tema desse bate-papo maravilhoso do cantor e compositor pernambucano com nossos editores Toinho Castro e Aderaldo Luciano, no You Tube da Revista Kuruma’tá.

Se você perdeu o ao vivo, assista aqui e agora a gravação!

O disco Baião Granfino, de Jorge du Peixe, com suas interpretações preciosas de Luiz Gonzaga, foi o tema desse bate-papo maravilhoso do cantor e compositor pernambucano com nossos editores Toinho Castro e Aderaldo Luciano, no You Tube da Revista Kuruma’tá.

Se você perdeu o ao vivo, assista aqui e agora a gravação!

Em releituras belas e disciplinadas, sem macular as melodias, sem invencionices modernosas, Baião Granfino, de Jorge du Peixe, prolonga a alma gonzagueana, avança sobre os nossos dias com seu timbre rouco, mas afinado, seu selo grave, em momento tão agudo de nossas crises existenciais. Jorge segura o baião como um filho frágil, acabado de vir ao mundo. E o baião o sustenta com sua vitalidade. Quanta beleza em suas veredas sonoras, quanta sutileza no seu cantar que, a alguns deve ter assustado, mas que a mim, apaixonou-me. Não feriu a majestade, vestiu-se e caminhou com ela. Trouxe o Assum Preto e sua sina complexa, difícil, dolente, talvez anunciando a sua mesma dor, abrindo um álbum cheio de lirismo e paz, dentro na luta.

Aderaldo Luciano
em Jorge du Peixe canta Luiz Gonzaga
Revista Kuruma´tá, 20 de setembro de 2021


Lançamento do Disco “Baião Granfino” para o Música #EmCasaComSesc

Escute o Baião Granfino nas plataformas de streaming!


Um assalto aos centros da terra: 3 Tonelada$

Texto de Aderaldo Luciano


3 Tonelada$ foi a melhor série documental brasileira que vi na Netflix. Isso não significa que menospreze outras. Sou um fanático por séries de crimes policiais e de investigações reais. Mas essa me fez observar e constatar quando se tem um trabalho produzido com esmero, com compromisso, poderia até usar a palavra amor, sabendo que estou a resvalar num conceito movente. O trabalho nessa empreitada serial foi assim, segundo minha percepção.

Um roteiro bem amarrado, bem conduzido, sem furos, sem lacunas, pensado e experimentado. Imagens, sequências, reconstituições, ângulos, tratamento de imagens de mídia, encadeamento de falas, idas e vindas no tempo das ações, efeitos, grafismo, letreiragem tudo concorreu para a excelência do trabalho e trabalho duro. Não sei como isso foi recebido pela equipe da Netflix, todavia percebo a força desse empreendimento.

Se a qualidade técnica é inquestionável, recitando-se por padrões internacionais, a poderosa peça de pesquisa da equipe é digna de todos os prêmios nacionais e internacionais. Primeiro porque não é uma série sobre uma pessoa. É sobre um marco social. É sobre o tecido trágico nacional, sobre o universo desconhecido do crime e sua impenetrável tela, sobre uma teia iniciada há muito tempo, unificando todo o país.

À complexa operação de assalto ao Banco Central brasileiro, já contada em filme com ares de ficção, nos é revelada a concomitante investigação policial e sua consequente resposta jurídica. Nos é apresentado um espelho, ou seja, para a operação do roubo houve sua similar operação de desvendamento. À quantidade de pessoas envolvidas para o crime, a mesma quantidade para apuração e prisão de todos os envolvidos.

Esse é o fato real extraído da série. O que não sabíamos, e viemos a saber pelo profundo trabalho de pesquisa da equipe de produção, foi a sua ligação com outros eventos mostrados pela mídia como meras ações de bandidos. Compreender que as ações do PCC que pararam a metrópole paulistana na segunda metade dos anos 2000 teve como fundamento e inspiração a morte de um dos financiadores do grande assalto é mais que um trabalho audiovisual: é uma tese de doutoramento.

Revelar a desgraça pessoal, a maldição do dinheiro vivo, é um outro ingrediente de valor insubestimável. 3 Tonelada$ não glamouriza a competência dos assaltantes, não os torna em heróis, embora reconheça sua engenhosidade e ousadia. No mesmo estradar, não glamouriza o trabalho investigativo, apenas aponta o método, a ação, a mesma competência, o mister do seu trabalho árduo. Entre esses dois lados, há o lado da imprensa, ora cumprindo o dever de comunicar, ora cumprindo a missão de investigar, ora sensacionalizando os acontecimentos.

3 Tonelada$ nos abre a janela nordestina do fazer cinematográfico com competência e amplidão. Ao ver a série percebemos o quanto de tradição audiovisual está presente em seus detalhes. Minha experiência foi como ver uma reunião de documentaristas que fizeram nossas gerações amarem o cinema documental. Ali estão, desde o Ciclo do Cinema Documentário Paraibano e o Cinema Novo, até os respiros de Bye, Bye Brasil e a Escola do Cinema Pernambucano. 3 Tonelada$ é mais que uma série: é uma celebração.


A névoa do cotidiano

A Kuruma’tá é casa da poesia. Versos nos chegam constantemente no inbox e isso, como já escrevemos antes, é de uma grande alegria. Dá noção de que a revista chega nas pessoas, chega em cada poeta que nos procura, que nos escreve. É chegada aa vez de Marcos Mamuth, poeta desde sempre, com três de seus poemas para iluminar nossas páginas.

Seja bem-vindo, Marcos, com a qualidade inspiradora do seu trabalho poético!

Poemas de Marcos Mamuth


Ruptura (l)

Eu,
ao menos,
me lembro de ti,
e não permiti
que a névoa do cotidiano
escondesse de vez
nosso carinho profano,
nossas risadas breves.

Leves
eram os teus passos sobre mim,
e me fustigavas a pele do rosto,
assim,
de um jeito tão oposto
ao que aprendi sobre o amor…
Havia graça
doçura,
dor.

Havia noites
em que eu vagava insone,
sem biografia,
sem nome,
procurando essa tua alma embrenhada
em caminhos perigosos

Havia dias tristes e chuvosos
em que eu morava no ventre
da agonia.

Hoje, é só o teu vulto quem me olha,
e com desdém.
Eu o encaro
também.
Pergunto a ele onde está o resto de ti
que perdi.

Não há resposta.
Os dados rolam na estranha mesa revestida de cetim.
A aposta foi feita,
Perdemos.

Fim?
Sim.


Ruptura (ll)

Olho em direção à tua janela,
e te presumo desatenta,
diáfana e cruel
atrás dela.
Tão inalcansável
e malditamente bela.

Tão impassível,
impalpável,
volátil
e impossível.

Aprecio agora nossa obra final,
feita com sobras do que fomos.
Ah, quanto imploramos
para que não partíssemos.

Essa insólita escultura de gelo criada com memórias,
olhares encantados,
carinho e beijos esquecidos
agora será derretida pelo calor inclemente do verão.
Logo não haverá mais nada,
nem o menor traço
do que foi nossa cruzada.

Fim?
Sim.


Elegia Aos Deuses Gentis

Se soubesses
em quantas noites
se esgueirou cruel a madrugada,
em quantas camadas
de delírio e memória
desenhei nossa história…

Quanto desejo e temor
em amor transmutado
ou coisa parecida,
minha querida…

O que teríamos sonhado,
o que teríamos sido
nessa coisa-vida
que julgávamos esquecida,
só um louco saberia.

Então,
eu não te pediria
mais do que um dia
seguido de outro dia.
E um beijo
contornando a rota incerta
dos teus quadris.

Os deuses,
por enquanto,
por encanto,
por um triz,
cismaram de ser gentis.
Como a gente,
inocentemente,
sempre quis.

Marcos Mamuth

Marcos Mamuth é também (des)conhecido como  Marcos Alberto Taddeo Cipullo. Nasceu em São Paulo, no bairro da Mooca, em 1965. 
Guitarrista e compositor desde 1979.
Psicólogo desde 1988.
Escritor desde 1986.
Professor universitário desde 1993; a partir de 2008, na  Universidade Federal de São Paulo (Campus Baixada Santista).

Poeta desde sempre.


“são sementes que enraízam na gente” — A poesia de Ana Amorim Fontana

O inbox é o centro nervoso da Kuruma’tá, é o ponto convergente da alegria. Sempre que o inbox dá um plim, corro pra ver quem tá chegando com poemas, crônicas, contos ou outras interações sempre bem-vindas.

E foi no inbox que chegaram os poemas de Ana Amorim Fontana, paulista, 15 anos de idade, e poeta. Poesia começa cedo na gente. Quase em todo mundo. Tem gente que esquece; normal Tem gente que pega a pena e não larga mais. A Ana encheu a gente aqui de alegria súbita, não só por ter procurado a Kuruma’tá, mas pela qualidade e força do seu trabalho.

E é com essa alegria, respeito enorme por uma jovem poeta tão vigorosa, que publicamos cinco de seus poemas, acompanhados de uma de suas belas ilustrações, pois ela é também versada no talento das artes visuais.

Arte de Ana Amorim Fontana

Pessoas vazias

aqueles que não se entregam
não mostram seu ser
não pensam em valores
só vivem
essas pessoas não se dão a chance
de se abrir
de ver a si mesmo
de crescer
e florescer
porque a vida é essa fiel desafiante do ser
e basta somente a ele
saber o que os outros veem
ai que mora o perigo
essa escolha
gera medo
gera tamanha insegurança
ao invés de germinar
aos poucos
se perdem
morrem sem perceber
e vazias
são essas pessoas
que padecem
sem ver
sem saber
que nada tem a oferecer


Coisas enraizadas e seus antônimos

a vida pode ser dividida em duas
das coisas passageiras
outra das enraizadas
a primeira é quando pessoas entram e saem
entram rápido
saem aos poucos
mas saem
são as ondas do mar
o sol que se põe
a vida de um lírio
a felicidade
ah essa passa voando
como o pousar de um pássaro
uma hora se está feliz
na outra não
isso tudo é coisa passageira
o que é enraizado mesmo
que vem de dentro
do buraco mais pequeno do ser
é o amor
a tristeza
a raiva
são sementes que enraízam na gente
toda gente tem o lado escuro e sombrio dentro de si
assim como eu tenho enraizado
dentro de mim
a vontade insaciável de falar
de me expressar
de por pra fora
não guardo nada dentro
isso tudo é enraizado no eu


Caracol na mão

é bicho devagar
ao colocar os olhos
se deve ter calma
entender que se tem processos
levando em conta a não importância do ritmo alheio
quando ameaçado
é rápido
porque ferir tem esse ritmo
curar demanda tempo
já machucar
arrancar, não


Solidão

não tenho a solidão
nem o silêncio como amigos
pelo contrário
ambos reforçam a minha situação
de estar sozinha
depois de ter perdido meu alicerce
minha segurança
meu pai
minha vó
não é um momento de paz e reflexão
como muitos romantizam
ao invés disso
é quando os medos e angústias acordam
e tomam posse do meu eu


O tecido frágil e fino que é a vida

Rilke me inspirou em vários de seus poemas e citações
quando fala sobre o destino e suas tramas
são tramas finas e tão frágeis
que podem rasgar a qualquer momento
podem ser rasgadas naturalmente
pela morte
por términos e desencontros
decepções
tudo isso se rasga em um processo lento e entrelinhas
não é explícito
nem visível
acontece onde só a alma habita
o fio da trama da vida
fio esse que pode ser remendado
mas assim como um vaso quebrado
quando quebrado em pedaços nunca volta a ser o mesmo
a trama da vida também não
uma vez perdida, ou rasgada
não se há reparo
que faça voltar a ser o que era antes
a vida é assim
ao longo dela vamos sendo remendados
para poder continuar
mas nunca como nascemos


Ana Amorim Fontana por Ana Amorim Fontana
Tenho 15 anos, nascida e criada em São Paulo, uso a arte como forma de ressignificar tudo o que sinto de mais pesado e sombrio, e me identifico bastante com o trecho do poema “Motivo”, de Cecilia Meirelles,” não sou triste, nem alegre, sou poeta”

A Voz

Texto de Eduardo Maciel —


Olá, kurumateires, tutupom?

Então, primeiramente preciso dizer que esse texto não é distópico ou apocalíptico. É um texto de constatação e esperança.

Quando eu era adolescente (anos luz no pretérito menos que perfeito), costumava dizer que era desses que achava que o mundo estaria acabando. Nessa altura, pensava na decadência do humano no ser, só pra usar o binômio. As pessoas cada vez mais encrudescidas, por si mesmas e pela cauda do cometa tecnologia. E isso me entristecia, porque percebi uma alteração da frequência do afeto, que nos alimenta por dentro. E por falar nisso, comecei também a perceber as tantas pessoas não alimentadas, por falta de comida no prato mesmo ante a desídia do poder estabelecido.

E eu tinha esperança de poder contribuir para um futuro melhor. Tenho tentado.

Mas sobre tudo o que eu enxergava lá atras, continuo a ver a situação bem ruim, agravada agora pela aparente cegueira coletiva quanto à voz da Natureza, ou a voz do Universo, como prefiro definir.

A gente tem a ideia do Universo, geralmente, de forma bem distante e etérea, mas existem leis infalíveis que o regem. E o Universo se comunica conosco. 

Eventos climáticos extremos não são mais uma exceção. Viraram regra. Isso, minha gente, é o Universo gritando pra nós que chegou a hora de ele começar a revidar. Não por vingança ou subjetividade, mas como consequência de uma série de regras lógicas, amparadas pela Ciência, acompanhadas pelas omissões e desídia das pessoas: aquelas, encrudescidas, lembram? Dentre elas se ergue o poder.

E como tudo na vida, cada coisa tem o seu tempo, cada movimento tem seu ciclo, e já podemos imaginar o que nos vai acontecer daqui a bem pouco: vôos não serão mais uma opção, as águas vão subir, o calor será inimaginável, genomas inteiros serão perdidos e, quem sobreviver, em sua maioria vai estar existindo nas ruas no modo sobrevivência. E os demais, vão se recolher em seus arranha-céus, permanentemente encrudescidos e cada vez mais surfando a onda da tecnologia que lhes garante isolamento, enquanto observam (muitas vezes ingenuamente apenas entristecidas) enquanto vemos em todo canto o fim do mundo sendo transmitido via streaming pra dentro da bolha dos arranha-céus. Não acredito que as pessoas sejam ingênuas assim, a ponto de não perceberem ou não darem aos fatos a devida significância e o devido significado. Fico pasmo, de verdade. E nessa renovação madura da premissa adolescente de que o mundo está mesmo acabando, percebo-me a precisar me contradizer. De propósito!

Esse texto não é um texto de constatação e esperança. Infelizmente, é um texto distópico e apocalíptico. Até quando? Essa é a reflexão que lhes convido a fazer.

Fiquem bem, fiquem com saúde. Até mais!


Baú do Braulio: Em defesa da poesia menor

Texto de Braulio Tavares


A grande maioria das pessoas que escrevem poesia não está se preocupando muito com a criação de grandes obras de arte.

As pessoas escrevem poesia para desabafar. Para tentar interpretar os próprios sentimentos. Para captar o sentido de algo que acontece nas suas vidas. Para experimentar novas formas de dizer. Pelo prazer de criar diferentes estruturas verbais. Para dizer coisas que serão necessariamente lidas com atenção por outras pessoas de seu círculo social.

Somente um número reduzido de pessoas-que-escrevem-poesia pensam em seguir uma carreira poética formal: publicar livros, ganhar prêmios, dar entrevistas, fazer parte de academias, etc.

A poesia lírica (porque é a ela que me refiro, por ser muito mais cultivada entre nós do que a épica ou dramática) é uma atividade paraliterária, entre nós. Faz parte da Cultura Informal, e só uma pequena parte dela passa a fazer parte da Cultura Formal: livros publicados por editoras profissionais, poemas estudados em escolas, matérias na imprensa, participação em eventos (palestras, oficinas, feiras do livro, etc.).

Vivemos numa sociedade tão obcecada pelos conceitos de “sucesso”, “profissionalismo”, “mercado”, “fama”, “reconhecimento público”, que temos dificuldade em ver na poesia o que ela sempre foi em todos os tempos: um meio de expressão essencialmente pessoal, individual, destinado a círculos concêntricos de expansão, que muitas vezes não atingem mais do que algumas centenas de pessoas.

É para isso que a poesia existe, e não para as listas de best-sellers, a consagração das teses acadêmicas ou a honraria dos prêmios literários.

Rainer Maria Rilke, em suas Cartas a um Jovem Poeta (1929) deu alguns dos conselhos mais elementares e mais importantes que se pode dar a quem escreve poesia. Toda vez que alguém me pede conselhos, indico esse livro. Não porque exprima exatamente o que eu próprio penso, mas porque pode servir a quem quer levar a poesia a sério. Um desses conselhos era algo como: só escreva se sentir uma necessidade íntima muito forte, se não puder deixar de escrever. 

Não estou falando em publicar livros, nem em ganhar dinheiro, nem em sair no jornal. Estou falando em ter uma forma criativa de expressão pessoal. Uns têm na música, outros têm no esporte, outros têm no romance, outros têm no desenho ou na pintura…

Isso abre caminho também para o que a gente considera “a Poesia Menor”. É a poesia feita por poetas modestos, que jamais ganharão prêmios ou aparecerão em antologias, e que às vezes serão lidos com desdém pelos críticos mais exigentes.

Não há vergonha nenhuma em seu um Poeta Menor num país onde os Poetas Maiores são pessoas como Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar…

O próprio Manuel Bandeira, considerado Poeta Maior por tantos (por mim, inclusive), dizia, num acesso de melancolia: “Sou Poeta Menor, perdoai!…”

Comentando as sucessivas e incontroláveis safras de poetas menores que brotam (felizmente) em nosso país, dizia Wilson Martins (História da Inteligência Brasileira, vol. VII, p. 422):

Entre os demais, nem todos haviam lido as Cartas a um Jovem Poeta, e aqueles que o fizeram parecem havê-las rapidamente esquecido: contudo, correspondendo à necessidade vital de escrever, no plano restrito de cada um (claramente inexistente na origem de numerosos volumes de poesia), há uma circunstância de ordem coletiva, geralmente e erroneamente menosprezada: esses poetas que escrevem sem necessidade criam o ambiente que determina a necessidade de escrever para os verdadeiros poetas e a necessidade de ler para os leitores de poesia.  (…)

Existe sem dúvida, nisso que chamamos de ambiente literário, aquele velho princípio de que a quantidade gera qualidade. Não gera espontaneamente, claro: mas uma certa quantidade de pessoas lendo e escrevendo poesia conduz sem dúvida a uma troca de idéias mais intensa, um compartilhamento de leituras, de opiniões, aquelas conversas intermináveis onde se forma a intuição poética: “isso é bom, isso é ruim, isso está mal/bem escrito, isto é melhor do que aquilo, olha isto aqui como é diferente de tudo…”.

[A] história literária não seria diferente se muitos livros de poesia tampouco houvessem aparecido. A vida literária, entretanto, seria diversa, talvez menos rica e, com certeza, menos exigente, porque são as obras inferiores que nos permitem reconhecer as outras e aspirar por elas.

Ler os grandes poetas ajuda a elevar o nível de pensamento, de sensibilidade e de execução de todo mundo, inclusive dos poetas menores.

E ao mesmo tempo não existe livro de poeta menor que não contenha um grande poema. Não existe poema fraco que não contenha pelo menos um verso memorável. Não existe obra cuja leitura seja totalmente desperdiçada.

Wilson Martins vai ainda mais adiante, e lembra que os próprios conceitos de Poesia Maior e Poesia Menor são fluidos e jamais definitivos:

[A] dialética da criação é mais complexa e, certamente, mais contraditória do que pensaríamos à primeira vista, se é certo, por outro lado, que os julgamentos de valor também têm muito de histórico e conjuntural, o que significa terem muito de conjetural.

O fato é que Olavo Bilac desdenhou com sarcasmo dos poemas de Augusto dos Anjos; que modernistas como Drummond ou os Andrade foram sistematicamente ridicularizados por anos a fio; que ninguém hoje em dia (a não ser eu) lê Olavo Bilac a sério; que ainda há quem pense que escrever sonetos é indício de debilidade mental; e quem pense que o soneto é o único tipo elevado de poesia. Há quem ache a poesia concreta uma palhaçada, e há quem ache que palhaçada é todo o restante.

Não importa. Quem faz poesia como um meio de expressão pessoal lê muito, pensa muito, conversa muito, escreve muito e publica pouco.

 

Escrito e publicado em Mundo Fantasmo em 23 de agosto de 2019.