Orgulho LGBTQIA+: coletivo Toma Aí Um Poema promove ações poéticas para junho

Coletivo promove “O amor é gigante”, período de declamação e distribuição de poesia, e uma campanha de financiamento de antologia de autores LGBTQIA+


No mês do orgulho LGBTQIA+, o coletivo Toma Aí Um Poema promove duas semanas de declamação e distribuição de poesia de autores LGBTQIA+. Nomeada como “O Amor é Gigante”, a ação será realizada de 15 a 30 de junho e contará com contribuições de nomes de destaque na literatura, como Nina Rizzi, Bruna Mitrano, Amara Moira, Simone Brantes, Carla Diacov, Maya Falks, Francisco Mallmann e Matheus Guménin Barreto

As poesias serão distribuídas em mais de 15 plataformas (entre elas, Spotify, YouTube e Instagram). Serão lidos entre 30 e 50 autores. Atualmente, o podcast do Toma Aí Um Poema é considerado o maior podcast de declamação de poesia lusófona, somando mais de 70 mil ouvintes diferentes ao longo do tempo e tendo sido escutado em mais de 130 países.

Neste mês, a editora do Toma Aí Um Poema ainda lança acampanha de financiamento coletivo do “LGBTQQICAPF2K+: O Amor é Gigante”, organizada pelo coletivo como parte da “CEMana de 22”, projeto que tem como objetivo, 100 anos depois da Semana de Arte Moderna, organizar, mapear e registrar a produção contemporânea de poesia.

Dentro da edição, foram selecionados 45 poetas brasileiros, entre eles Simone Teodoro, poeta, mestra e doutora em Literatura Brasileira pela UFMG; Brune Motta, artista híbride não-binárie de Curitiba (PR); Giselle Ribeiro, poeta e professora de Teoria Literária na Universidade Federal do Pará (UFPA); Lilian Farias, escritora, professora, ganhadora do prêmio Uirapuru 2021, na categoria romance; Neuza Doretto, poeta, atriz e diretora de teatro EAD/USP; e Pedro Moreira, poeta, autor de Malemá (Patuá, 2021) e finalista do Prêmio Mix Literário 2021.

Um coletivo feito por mulheres, pessoas trans e não-bináreis

O Toma Aí Um Poema é um coletivo preocupado com a inserção de autores e autoras independentes em novos espaços de divulgação e promoção de literatura. É um projeto social de acolhimento, de incentivo e de desenvolvimento da escrita e da leitura. É uma potente publicadora de material literário em múltiplas mídias: podcast, revista, livros físicos e digitais e redes sociais.   

O coletivo é feito por mulheres, pessoas trans e não-bináreis. Jéssica Iancoski, editora-chefe do projeto, é pessoa não-binária e é casada com Belise Campos, assistente editorial. Monique Sandrielly, social media e designer, é pessoa não-binária;  Nícola Otávio, web desenvolvedor, é homem trans; Andreia Moema, responsável pelas relações públicas e declamadora, é simpatizante; Neusa Doretto, curadora e declamadora, é homossexual; e Erika Kash, das relações públicas, é pessoa fluída. 

“Isto quer dizer que todas as profissionais que estão envolvidas na criação do livro sofrem violência de gênero, decorrente de relações de poder manifestadas socialmente”, frisa Jéssica Iancoski, editora-chefe.

Um dos principais objetivos da TAUP é publicar o máximo possível de poesia, incluindo minorias, e fazer circular novos pontos de vista dentro da literatura brasileira, também auxiliando e fornecendo informações para autores independentes sobre o mercado editorial brasileiro. “Queremos contribuir e estimular a literatura gratuita e livre para todos”, frisa Jéssica. 

Parte do coletivo, através da poesia, busca combater ideais culturais de dominação e repressão. “Em nossas edições, muitas vezes, praticamos  valores sociais para que seja possível publicar autores que pertencem a grupos minoritários; a decisão é uma tentativa de promover o fortalecimento social dos indivíduos e a emancipação de autores. É um grito contra as editoras-sugadoras e prestadoras de serviço – em sua maioria lideradas por homens-héteros-cis-padrão – que geram capital através da exploração da cultura e do trabalho dês autores”, argumenta a profissional.


A poesia de Renata Ettinger


“Gosto de pensar este como um livro sobre transformações e processos. O próprio título já traz a mudança. A mesma vida é outra é um livro de percurso, desses que a gente vai e volta e, se não estamos mais no mesmo lugar, também estamos. É uma espiral. Os recomeços insistem, incluem a estrada já percorrida e incluem nossas transformações. Por isso, também é um livro sobre estar em movimento, sobre o tempo e sobre estar viva”
— Renata Ettinger

Presença baiana na Kuruma’tá! Hoje a gente destaca a poesia de Renata Ettinger, com seu livro A mesma vida é outra. Sempre essa alegria de descobrir essas joias no inbox da Kuruma’tá. O tempo é curto e a equipe pequena, mas aos poucos a gente vai dando saída a todo esse trabalho bonito que nos chega, sempre surpreendendo.

Li com imenso interesse a poesia de Renata Ettinger. Com encanto esbarrei em versos assim: eu, cheia d’água, / fui escrever… / molhei o papel. Que riqueza de imagem, que fala tanta coisa sobre o fazer poético, sobre o estar em si, ter essa ciência do que somos e do que nos fazemos do que somos.

Paro agora de falar e deixo vocês com o melhor dessa página, os versos de Renata Ettinger.

esse perigo

uma pilha de livros
caiu hoje sobre a mesa
fui empilhando os livros
poema por poema

quando a pilha
despenca
ela me lembra dos poemas
que não li
ela me lembra dos poemas
que não escrevi
secretamente empilhados
por dentro
esperando o exato momento
de despencarem todos
no papel
na voz
no que sou

poemas empilhados
esperam para me ser

eu sou
essa pilha de poemas
esse perigo de estar
sempre na beira
de me despencar
poema-inteira

 


lapso líquido

entre o que escrevo
e o que vivo
tem um lapso
de alguns segundos

pensamentos
se perdem em mim
enquanto escrevo
a palavra de antes

meu futuro se perde
do meu texto
cai na mesa
tal como leite derramado
e é incapturável

não cabe mais
na garrafa que sou

encharco um pano
com o leite de um porvir
e corro até a pia
para espremê-lo
e deixar o futuro
do pretérito
seguir seu fluxo
pelo ralo

um lapso líquido
que se desfaz
enquanto escrevo

 


seca

insisto
na poesia
que não quer
chegar

secou a fonte

secou o poço
ficou só o pó

o copo, antes
meio cheio,
agora
vazio inteiro,
sujo de mãos
de poeira

insisto
e minha palavra
é sertão

resisto
suplicante
por uma gota
que seja

e
não cai
uma lág-rima


 

terra-palavra

minha terra-palavra
sofre com a seca

sou toda
a aridez do verso
clamando por água

acolher a pausa
um sentir semente

e esperar o tempo
do verbo-chuva

 


poema enxuto

eu, cheia d’água,
fui escrever…
molhei o papel.

e poderia não funcionar
papel e água e caneta
mas parece que,
com a água,
as palavras fluem melhor…

agora,
estendo no varal
o papel encharcado
de palavras-lágrimas
e deixo secar
ao sol…

me comove saber que,
em algum momento,
o papel irá secar
e as palavras-lágrimas
ainda vão estar lá,
molhando os sentimentos…

e o poema, enxuto,
há de fazer sentido.

 


atemporal

sangro presente
a cada amanhã

eu não sei
me conjugar
futuro

conjugo
agoras

que é quando sei
o tempo que sou

 


desfuturos

a gente conjuga
o verbo amanhã
como se futuro
fosse

a gente esquece
que amanhã
o verbo é
hoje

 


exercícios para uma angústia que não cabe

1
o corpo
é um copo de angústias

copo que está
sempre até a boca

quanto de angústia
ainda me cabe
eu não sei

tempo

o corpo
é um copo cheio
de angústias

tempo

o corpo é um copo
já cheio de angústias
que não se sabe
quando irá
se irá
transbordar

a qualquer
tempo-angústia
o corpo-copo
irá quebrar

corpo-copo
em cacos
existindo
num mundo de angústias

tempo
não há

2
a angústia
e seu fôlego

as estruturas da casa
não se sustentam

experimentar derreter
dissolver-se nesse mar

o sal da angústia escorre
e não há lenço que contenha
essa água
e não há tempo para voltar
ao que já não é

uma angústia-pena pesa no ar

um tempo sem vento
me ensina o voo
no chão

3
quanto pesa
um quilo de angústia?

perguntei sabendo
o tamanho do fardo
que iria carregar

o preço
não perguntei

examinei meu copo
para achar em mim
onde coubesse

querendo meu corpo
expandir-se do que sou
me desfazer
dos meus descabimentos

trincada
ou em cacos
carrego esse quilo
que não sei
quanto pesa
ou se posso

o preço
não perguntei

 


desabapoema

quando pareço
desabar
corro

pro poema

e poeta
faço minha
cena, dou
trela

estremeço os verbos
pra ver o que cai

às vezes
desabo
no choro

outras
em mim

 


alinhavos

minha mãe
sempre olhou
o avesso das roupas
o cuidado com os acabamentos
sempre lhe disse muito
uma costura mais torta
um forro barulhento
todo o invisível que
poderia interferir
no caimento

às vezes cabia uma
pinça para realçar
as estruturas
mas ela sempre fazia
um alinhavo
antes de passar
qualquer costura

hoje
olhando
meus avessos
vejo o quanto tenho
cuidado dos acabamentos
reparo nas linhas
soltas
trabalho em cada costura
fazendo sempre
um alinhavo antes
de firmar as estruturas

minha mãe
me ensinou
a me costurar

 


fluxos

a mesma vida
testa seu fluxo
em mim
e vira do avesso
pra ver se estou
do meu lado
certo

a outra vida
me testa
pra ver se sou
a mesma
ou se sou outra
habitando
o mesmo corpo

a outra vida
é sempre a mesma

a mesma vida
é outra a cada dia

e sou sempre
a mesma e a outra
a testar
e atestar
as vidas

 


existindo apesar

a vida
existindo apesar
do tempo
do medo
de mim

existindo
sendo a mesma
sendo outra

apesar
de ser a mesma
de ser outra

a vida
existindo

existindo apesar
de não sabermos
a vida

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Baiana, nascida em Itabuna, Renata Ettinger é uma poeta e dizedora de versos que encontrou na palavra um lugar de ser. Publicitária e arteterapeuta, ela fala pelos poemas desde os 12 anos. “A mesma vida é outra” é o seu terceiro livro de poemas. Também publicou os livros “GRITO: silêncios ecoando em minha voz” (2020), “Oito Polegadas” (2018) – uma coletânea lançada com os poetas Mário Garcia Jr., Nalini Vasconcelos e Ricardo Guedeville – e “Um eu in verso” (2002), todos de forma independente. Leitora voraz de poesia contemporânea, durante o período de isolamento social, realizou o projeto “Quarentena com Poema (QCP)”, em que compartilhou um poema em áudio por dia com amigos e interessados em poesia. Foram 215 dias consecutivos de poesia para ouvir e sentir, com mais de 70 autores contemplados. Depois, Renata criou o podcast “Trago Poemas”, iniciativa que caminha para o segundo ano em formato semelhante ao QCP. Ambos podem ser conferidos nas principais plataformas de streaming (Spotify, Deezer, Google Podcasts, entre outras). Para mais informações, basta acessar o instagram @renataettinger.


Tijucano no Império da Tijuca 

Texto de Eduardo Maciel


Olá, kurumateires! Tudo certo?

Trago novidades do meu coração e da minha servidão consentida à arte. Espero que não achem este texto autorreferente, porque a razão de ser dele é a gratidão e o amor.

Quiseram os deuses da arte e os protetores do carnaval que eu pudesse receber a maior das honrarias, e a maior das responsabilidades da minha vida!

Fui acolhido como Diretor Executivo do Império da Tijuca, tradicional escola de samba do carnaval carioca.

Para mim, tijucano e já figurinha fácil em diversas ligas do carnaval virtual, não tem preço. Foi uma flechada certeira no meu coração. Quem atirou a flecha? Cupido, não tenho a menor dúvida.

Sou vice-presidente, diretor musical, compositor e intérprete de samba-enredo da GRESV Pau no Burro, que desfila no carnaval virtual de desenho. Com o maior orgulho.

Além disso, sou jurado em várias ligas do carnaval virtual: de desenhos, de maquete e de Minecraft, onde ainda sou vice-presidente e patrocinador da LIVESM (Liga Virtual de Escolas de Samba de Minecraft), com o maior orgulho também.

Fora do virtual, componho a tribo Cheyenne do tradicional bloco Cacique de Ramos, e esse ano de 2022 ainda fui jurado da Federação dos Blocos Carnavalescos do Rio de Janeiro, nos desfiles da Intendente Magalhães. Emoção sem igual.

E agora, pinto meu coração de verde e branco sendo parte da família imperial do samba, com o Império da Tijuca.

O Grêmio Recreativo Escola de Samba Educativa Império da Tijuca (ou simplesmente Império da Tijuca) é uma tradicional escola de samba brasileira da cidade do Rio de Janeiro. A escola traz, acrescido ao nome, o termo “educativa“, porque a preocupação principal, no momento de sua fundação em dezembro de 1940, foi com a educação. E ainda o é até hoje! Promovemos durante todo o ano ações sociais e educativas para as comunidades tijucanas, em especial pro povo lindo do Morro da Formiga, a quem dedico meu respeito e mais profundo afeto!

O Império da Tijuca foi a primeira escola de samba a usar em seu nome o termo “Império”, razão pela qual tem uma coroa: símbolo da nobreza, em sua bandeira verde e branca, bem como ramos de fumo e café que traduziam as riquezas do Brasil na época.

De tirar o fôlego essa linda história, que se confunde com a história do carnaval do Rio em si.

Mas para que nenhum de vocês se confunda, o melhor sobre essa notícia não é a notícia. É o que está por vir. É o que pretendo fazer para que se justifique esse acolhimento tão generoso!

Viva o samba! Viva o carnaval! Viva o Império da Tijuca!

Até breve, seus lindos!


Xícaras herdadas | Um conto de Mabelly Venson


Sabedoria de avó é algo sublime. Comecei a perceber isso, na prática, na época em que eu era jovem – tão jovem – que incapaz de compreender os desafios e os ciclos da vida, sofria descomunalmente por situações que fugiam do meu limitado controle, mesmo quando essas, rapidamente se esfarelavam, se deixando levar pelo vento.

Ah, se pudesse voltar no tempo e me embebedar das doses de conhecimento que minha avó, intuitivamente me oferecia e eu, imatura, recusava.

Cai, várias vezes em abismos que eu mesmo cavava. Repertórios infinitos de angústias, dúvidas, reprovações, revoltas. Meu pai, não conheci. Mamãe guardou seu nome, trancado à sete chaves embaixo da língua, levando-o consigo em segredo, para o túmulo antes mesmo que eu tivesse idade suficiente para me revoltar e exigir alguma explicação. De um apartamento bem centro da cidade, fui levada, apenas com uma mala e duas bonecas, para o interior, para viver com Vovó Esmeralda, mãe de minha mãe, aos cinco anos de idade. Uma cirurgia de apêndice, mal feita, tirou Mamãe de nossas vidas.

Eu ainda não tinha 20 anos, mas meu com o coração já era amargo como fel, estilhaçado pela pólvora da angústia, da saudade, da inconformidade. Afogada em autocomiseração e vitimização, diluía minha mísera existência em lágrimas. Via toda minha existência como uma série de sucessivas derrotas.

Em um desses dias enquanto, sentada no chão vermelho da varanda, chorava pela minha cruel existência, Vovó – aquele ser que possuía o aspecto ingênuo e puro de quem já se desatualizou da vida – me fitou enquanto subia os degraus entre o jardim e a casa, se dirigindo até a cozinha. Ela tinha na testa, o aspecto preocupado de quem recorre última estratégia. Em suas mãos enrugadas, um buquê de pequenas flores lilases que espalhavam aquele suave perfume de alfazema.

Minutos depois, enquanto eu já enxugava os olhos com a palma das mãos, Vovó está de volta, agora, caminhando com cuidado, pé ante pé, equilibrando entre as mãos, uma bandeja que trazia de volta, o perfume das alfazemas.

Mal pude acreditar: junto com o perfume, minha avó trazia sobre a bandeja, três peças de seu conjunto de chá. Estranhei, o pequeno bule e as duas xícaras de porcelana antiga, eram as únicas coisas que sobraram de seu enxoval, sendo guardadas, na prateleira mais alta da estante da sala, como tesouro mais valioso que um baú de ouro. Nunca havia presenciado aqueles frágeis recipientes flutuado pela casa. Em meus sonhos de criança, me imaginava passando as tardes bebendo chá com Mamãe. Sorte das xícaras (ou provavelmente minha) que nunca consegui alcançar o auto da prateleira.

Provavelmente o perfume tenha me entorpecido. Fiquei ali parada, assistindo a cena: Vovó pousando, quase que em câmera lenta, a bandeja sobre uma velha mesinha. Em seguida, puxou duas cadeiras, preparando uma pequena festa, o prelúdio de ritual íntimo. Suspirando fundo, esboçando um pequeno sorriso, ela me olhou, fazendo um gesto suave com a mão direita, enquanto a esquerda continuava pousada sobre a mesa.

Vem cá. Sente aqui, meu bem! Vem tomar um chá com sua avó.

Não que me fosse estranho compartilhar a mesa com Vovó – há tantos anos fazemos que somos apenas nós duas, uma fazendo companhia uma para outra. O que estranhei foi o a louça. Durante todos aqueles anos Vovó me preparou, diariamente, uma xícara de chá. Quando criança, logo depois do almoço enquanto nos preparávamos para assistir as notícias do estado – hábito de quem já viveu muitas décadas – ela vinha cozinha, equilibrando dentro de duas xícaras o chá da hortelã colhida de nosso próprio quintal. Segundo ela, era para auxiliar a digestão. Passávamos a meia hora seguinte ali, uma ao lado da outra com olhos colados na televisão e o corpo no sofá de couro sintético. Eu, Vovó e nossas xícaras de chá. Mas, nesse dia em especial, eu estava conhecendo uma nova Vovó. Uma Vovó que parecia ter acabado de ser parida, porém, velha, sábia, alegre, experiente. Dela irradiava um brilho prateado. Seus olhos caídos se tornaram imensos como mar aberto.

Sentadas, nas cadeiras de bambu já desbotadas e carmomidas, Vovó me serviu o chá, não com hortelã, mas de alfazema. Levei a xícara à boca com muito cuidado – Deus me livre de derrubar aquela relíquia – sorvi o primeiro gole lentamente, como quem bebe uma poção mágica. Talvez fosse. Entre o sabor sutil da erva e seu perfume que dançando, adentrava meu corpo através de minhas narinas, ela me contou sobre sua juventude naqueles “outros tempos”. Tempos diferentes de agora, em para a mulher era destinado o serviço doméstico, do terço que era rezado em família todas as noites, de sua infância junto com seus doze irmãos. Pobre Vovó. Foi só naquele dia que soube que ela queria muito estudar, mas só pode frequentar a escola a segunda série primária, sem concluir o ano letivo. Parece que naquela realidade que parecia ser tão distante estudar não era prioridade para as filhas mulheres. Por esse motivo, Vovó aprendeu tudo que pode sobre os cuidados com a terra, o cultivo das plantas, ervas e temperos. Também se aperfeiçoou na costura, que lhe foi ensinada pela sua própria avó em uma máquina de costura movida a manivela – profissão que ainda exerce com maestria, mesmo que a fast fashion tenha colocado as costureiras para escanteio, deixando-as em desuso.

Vovó continuou por horas, revirando dentro de sua vida somente os momentos felizes. Falou amorosamente sobre meu avô e minha mãe, única filha dos dois, sobre o dia em que se mudaram para casa que vivemos até hoje, sobre a infância de minha mãe e seus brinquedos preferidos. Havia momentos em que ela fazia breves

pausas, e olhava fixamente para o nada, mesmo que aquilo fosse o tudo. Era quando seus olhos se umidificavam. Fui percebendo que ela manobrava seus pensamentos, conduzindo-os apenas para as boas lembranças, apenas para os momentos felizes.

Levei muito tempo para perceber que Vovó nunca reclamara de nada em sua vida. Jamais se queixou de sua sorte, de seus infortúnios, de suas perdas, das dores que rangiam através de suas articulações. Se havia alguma tristeza, alguma mágoa, ela deveria guardar com fecho hermético, dentro do pâncreas.

Acredito que Vovó tenha feito essa escolha – conforme conduzia sua vida, à passos agora lentos, deixava pelo caminho tudo aquilo que não lhe remetesse a bons sentimentos. Em algum momento, compreendeu que sua idade não permitia carregar pesos.

A inexperiência da juventude, não me deixou compreender, naquela mesma tarde todos os pequenos- grandes ensinamentos de minha avó. Esse processo se deu lentamente, conforme a maturidade se aprochegava pesando em meus ossos.

Agora, sem a presença de vovó Esmeralda, sempre a alguma tristeza me manda notícias, retorno para aquele dia. Com as xícaras herdadas, me sirvo de doses de camomila, erva-doce, capim-limão ou, quase sempre, de alfazema, enquanto manobro meus próprios pensamentos, os conduzindo apenas para as lembranças dos momentos felizes.


SOBRE MABELLY VENSON
Formada em Matemática e Gestão Escolar, participou de extensões universitárias na área de educação, literatura e cultura. É especialista em Livro, Literatura e Leitura pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e aperfeiçoou-se em literatura infantil e em processos de edição para livros infantis e juvenis. Escreve profissionalmente desde 2017 em blogs e revistas digitais, tendo textos publicados na Revista Vida Simples, Cult e Portal Geledés. Tem escrito livros de literatura infantil, contos e poesias. Participou como organizadora e coordenadora de projetos educacionais voltados para literatura, como o Projeto Leituraço e Cem Anos da Passagem de Santos Dumont pelas Cataratas do Iguaçu.


A poesia de Patrícia Meireles

Patrícia Meireles, uma escritora em ascenção, ribeirapenense  escreve apenas poesia e prosa  mas recentemente quis aliar a música, escrita , das suas grandes paixões num clip, poesia declamada em dueto com a colaboração do ator Paulo Magalhães e convidou um rapper internacional Jorge MK nocivo para a edição/ masterizaçāo do mesmo bem como o instrumental.


Patrícia Meireles em cena do videoclip de Se eu partir amanhã

Relembrar

Relembrar é a única coisa
que faz sentido, agora.
sinto que estou perdido
nas lembranças de um passado
bem vivido.
Não vejo futuro, escrever
é o que me mantém vivo.
Quero alcançar o céu
e ser um anjo destemido
e voar, sem medo
que alguém me mate o sonho
de ser longe, livre e puro.
Menino de ouro, que matou
os genes e os valores snobes
que alguém lhe incutiu.
Gostava de dar amor,
a quem ódio ofereceu.
Relembro triste que, ser eu,
desiludiu, quem idealizava uma mente
que nunca existiu.
Mas relembro o que vivi,
e nunca fui senão um ser,
que é pela essência que se guia
em qualquer coisa que faz.
Sou triste por não te abraçar,
Mas feliz por ser eu.


Não vás ainda

Pouso o olhar, apesar do meu rosto
cansado, sobre a tua pele
que conheço tão bem, e tu a mim.
Hoje, eu quis dizer- te o que sinto
apesar da dor na alma, ser uma constante
agonia, perdoa-me..
Sei lá, por ser talvez um ser que nasceu
para criar, e estar no meu mundo sozinho.
Como as folhas das árvores que vão e vêm,
sinto o tempo a correr-me desesperadamente entre os dedos,
a dor ainda cresce mais em mim.
Tenho tanto para te dizer, mas não sei
como fazer, perdoa-me..
Não vás ainda..
sem a tua presença, perco a esperança
e não consigo remar.
Não vás, por mais que eu queira estar no mundo metafísico, eu pensarei em ti
mesmo não estando contigo
fisicamente, a minha alma
Acredita, nasceu para te amar.
Por isso, sei lá,
ainda é cedo para partir.


Partida

Abandono o silêncio,
e rumo à descoberta
de um ser que cobre o mundo
e um cais de areia
em sangue,
um aborto profundo…
De um ser que quis ser
e ansiava tudo aquilo
que algum dia alguém possuiu:
Ser o detentor da sua alma, perdida,
nunca se encontrou.
Então decidiu partir.
Não chores, aflita, com o meu desencontro.
Nunca fui mais que um mero ser
que sentiu demais por nascer,
numa sociedade inquieta.
Recorda-me apenas, não chores, sei lá!!!
Talvez amanhã,
o teu anjo, te torne a abraçar.


Não há algo

Não há algo,
mais terrível do que a pele.
A pele é vunerável ao tempo,
arde no peito.
há na pele o toque que a alma
precisa, para sentir que o tempo
é finito, e não um tornado
a fazer estrago no corpo,
e a degrada-lo, bruscamente
com a passagem do tempo.
O toque sensorial mais belo,
botão que acende o coração.
não há pele que substitua outra,
nem toque mais belo
que tocar na pele e sentir
o cheiro da alma, como uma flor
a desabrochar em pleno inverno;
Mãe, eu tremo de frio
sinto o sangue a esvair-me pelo corpo
Todo .
Se eu correr para os teus braços
vais conseguir ver o que eu sinto agora?


https://youtu.be/kzobpjxsahM

Patrícia Meireles, uma escritora em ascenção, ribeirapenense  escreve apenas poesia e prosa  mas recentemente quis aliar a música, escrita , das suas grandes paixões num clip, poesia declamada em dueto com a colaboração do ator Paulo Magalhães e convidou um rapper internacional Jorge MK nocivo para a edição/ masterizaçāo do mesmo bem como o instrumental.

Participou em Antologias de Poesia( Edita, 2020), ” liberdade” (chiado books) e Inventário dos poetas portugueses- Antologia do País da Poesia- vol 1 ( Maio 2021).

Lançou duas obras ” Des(ordem), o trocadilho sentido ” e ” C carta que nunca escrevi”( 2021) ambas na editora Poesiafaclube.

Continua a escrever para os jornais brigantinos, revistas e sonha continuar a partilhar o que escreve pelo mundo fora. Tem uma “alma inquieta” e é uma observadora estupefacta do mundo e é isso que a carateriza melhor.


registros de um casulo antropofágico | Os escritos de O Rei Ricardo Coração de Leão 

visual que apresenta suas criações principalmente na ilustração. O quotidiano, a solitude, o sentimentalismo e a fragilidade são elementos também presentes nas produções da artista que, de forma íntima e minimalista, comunica em seus desenhos os pensamentos de seu coração. 


pintura do passado

pinto brutalmente um retrato do passado
( sem nenhuma pretensão)
sinto-me enclausurado
E tudo que já retratei
sinto estar despedaçado –
Não trago mais no coração
do que aquilo pelo qual fui cativado ;
E de tudo isso que amei
sei que um dia deixará de ser lembrado …
Infeliz aquele que se vê
Numa pintura feita do passado.


afrescos

Tudo que me dói
vem do íntimo do
In finito
as coisas que não terminam
mímeses falíveis do destino
Dores diluídas em
Instantes indecifráveis
Momentos errôneos, dos quais
não há retorno para a glória
tampouco escape do sofrimento
Assim, tudo que tenho são afrescos
Enfeitando uma existência de influência duvidosa
Aparentes na superfície enganosa
e de tão falsa, talvez bela
;
Detalhes esplêndidos
princípios primordiais.


Passeio contigo
Pela casa das coisas antigas
e vejo tudo que um dia funcionou
O rádio que não toca
As roupas colocadas no cabide pela última vez
As joias expostas em vitrais
se até as coisas úteis envelhecem
Quem sou eu pra vencer na vida?
Lembro-me de quem fui um dia
fragmentos recortados do passado
de sentir as coisas de outra maneira
de usar uma coisa útil que jamais envelheceria
Erguer bandeiras em prol de
Uma idéia fixa do mundo
de que não importava o resto
O passado é um lugar distante e solitário que volto sempre
Uma coisa útil envelhecida
Onde leio os livros tentando encontrar
rememorando alguém que viveu
E morreu
No mesmo solo
O mesmo tempo comum
A Mesma água correndo no corpo
Os olhos abertos
Enxergando o mundo


Apostar em ideias
Inexistentes
Trabalhoso esforço esquizofrênico
Frente a um combate ilusório
Atravesso todo o relevo
E percebo a paz atormentada que há na desistência
Às vezes prefiro as outras coisas do mundo
Só às vezes
Quando não tenho graça.


chuva ácida

Penso nas coisas como
Passageiras.
Como idéias que existem
e podem morrer a qualquer instante.
Como rios voadores vermelhos
que chovem a doença e a violência sobre nossas cabeças afetadas
Trazendo a guerra de outros estados.
Como uma cortina de fumaça,
penumbra dos novos ares,
que avança cobrindo a luz.
Ímpares impactos
que deixam
– apenas –
marcas.


Creio que o pior é quando passa
Quando podemos sair da caverna
do conforto febril
E visitar o seio ardente da desgraça
da Mãe que chora lágrimas de vida
Por não poder nos aguentar.
O homem
– blindado de uma convicção patológica – ,
Tentando entender o porquê,
Procura falsas explicações nas utopias mais distantes
Inventa modos , novas maneiras …
Nada disso é de verdade
Tudo faz parte do mecanismo do conforto
Do alívio imediato
Para estancar uma dor primitiva
Causada pelo próprio.
Mas não importa
Nossas vidas são um crime que não ficará impune
Uma doença a ser tratada
e expelida pelo próprio organismo …
A natureza nunca nos perdoará


Contemplado pela Lei Aldir Blanc 2020 do município de Jundiaí-SP, o livro “registros de um casulo antropofágico” – digital e totalmente gratuito – traz uma seleção de escritos que são desenvolvidos desde 2017 por O Rei Ricardo Coração de Leão. Tratam-se de registros pessoais que, de forma íntima, revelam uma percepção solitária do mundo. 

As produções partem de um lugar intuitivo, que ao mesmo tempo reflete suas inspirações ligadas ao romantismo, seu caráter individualista, sentimentalista e solitário. 

Procurando potencializar e ressignificar em outros formatos essa poética, a solidão do autor encontra a solidão de Maria João, artista visual que apresenta suas criações principalmente na ilustração. O quotidiano, a solitude, o sentimentalismo e a fragilidade são elementos também presentes nas produções da artista que, de forma íntima e minimalista, comunica em seus desenhos os pensamentos de seu coração. 

CLIQUE AQUI PARA BAIXAR O LIVRO

Ficha Técnica:

escritos O REI RICARDO CORAÇÃO DE LEÃO 
ilustrações MARIANA SANTA MARIA JOÃO 
produção executiva LETÍCIA ROSA 
diagramação e design FELIPE LIMA   


Quatro poemas do Sertão Novo

Wellington Silva é professor da rede pública, músico e mestre em Ecologia Humana. Publicou livros de ficção e de ensaios. Publicou-se dezenas artigos acadêmicos em revistas especializadas. A convite contribui à equipe editorial da Revista Utsanga — Rivista di critica e linguaggi di ricerca. Fundou as Edições Parresia em 2019.

Poemas de Wellington Silva


Foto: Santiago Manuel De la Colina | Pexel

A alma dela é terrosa

A alma dela é terrosa
Como o chão da fazenda
Ao pé da Serra Graviola
A alma dela é terrosa
E é aí que a flor floresce
Que a muda cresce
E um néctar seduz
A toda sorte de voadores
(Eu, vocês, nós e eles!)
Quantas vezes morrerei?
A alma dela é terrosa
E eu afundo as minhas mãos aí
Desenho em sulcos simétricos
Por desenhar, somente
E depois vou-me embora
Levando o restante de mim sobre as costas
A alma dela é terrosa, sim, de argila fina…
E um cordão de prata
Me arrasta de volta e desperto
Desviro-me ave, sapo, lobisomem,
E me pego com o rosto colado nela
À balada pequena de um rádio de som abafado
Minha barba antiga retém areia
Minhas mãos tremulam em seu corpo
E é igual a morte de aroma verde e cortante
De grama rasteira que o demo rebenta


Dois lugares

Dizem que o tempo passa
Nuvem que ninguém percebe
Arco, arcabouço, fumaça
Um ardor de amor perene

O campo cheio de aguerridos homens
Os estandartes, as lançam não cansam,
e nenhum grande fim ao nosso sangue, nunca
O vento quente e a poeira fina roem os nossos olhos

O herói é só mais um ser meio cego
e que chora às primeiras notas da canção
Envolvido em paixão confusa, esqueceu a própria mãe

E após, eu sempre digo — Assenta-te aqui,
amigo antigo! Conversemos! A palavra é abrigo
e o fogo não cessa de queimar em nosso
meio, amolecendo o ferro das espadas


Pele de argila viva

a pele furta-cor do homo universalis
no último discurso bendito da paz
(cê ouviu?)
parece a pele de plástico de um replicante

as mãos gigantes dos serventes de portinari
as três filhas da noite em as parcas de goya

a fuligem do archote de prometeu

todas estas cores têm a sua base no vermelho

a carne mesma retém essa luz oval da vida
que se pinta e que se diz

e anseia existir em paz             quando dá…

mas aqui também habitam certas moiras
(notamos serem todas
amantes dos coronéis)


voar

— de uma imagem em ilford b&w assombrosa

no meio mais entremeado da caatinga
no gris mais intenso da mata
no alto mais alto da serra craunã
o derradeiro profeta çampancê
numa gruta contra o vento luta
num movimento frenético de braços

o pó dos tempos no hiato das cigarras
existencialismo revelatório (dmt)

novo mundo jurema preta
o profeta é liberto/repleto
as epifanias das formas arcaicas
um alfabeto na textura dos lajeiros/
o saúda um anu-preto-deus
a loucura de entrever o divino

corre o profeta! seus pés de fogo/
sua voz fanha aguda grita aboiar

— arêrêêêêê!… arriááááá!… arriarrááááá!…
arroiôôôô!… rááááááiiiii!… irraiááááá!…arêrêêêêê!…

e o céu se abre na palma da sua mão vasada


Wellington Amancio da Silva é professor da rede pública, músico e mestre em Ecologia Humana. Publicou livros de ficção e de ensaios. Publicou-se dezenas artigos acadêmicos em revistas especializadas. A convite contribui à equipe editorial da Revista Utsanga — Rivista di critica e linguaggi di ricerca. Fundou as Edições Parresia em 2019. Destacam-se Ontologia e Linguagem (2014), Figuras da indiferença (2019), Gumbrecht leitor de Martin Heidegger (2020), o reneval (2018), Primeiros poemas soturnos (2009), Apoteose de Demerval Carmo-Santo (2019), Os outros, sertão de argila escura (2021). Há publicações avulsas nas revistas Mirada, Ruído Manifesto, Germina, Gazeta da Poesia Inédita (Portugal), Magma (USP), Revell (UEMS), Letras Raras (UFCG), Literatura & Fechadura, Aboio, Diverso Afins, 7Faces, Eutomia (UFPE), Sítio (Portugal), Tyrannus Melancholicus.


As praias estão desertas — A poesia de Kaio Phelipe

Poesia chegando nas águas da Revista Kuruma’tá. É o nosso inbox mágico, que sempre nos surpreende com criatividade e talento.

Kaio Phelipe é do Rio de Janeiro e tem 24 anos. É autor dos livros Não existe pecado no lugar de onde eu vim, Para o homem descansando ao meu lado e Como cuidar de um girassol.


Visita

Da cozinha, vem gritando o meu nome
com urgência de descoberta na voz
e nas mãos traz uma colher
cheia de geleia caseira de cajá
pra que eu prove pela primeira vez.

O cheiro doce inebria os cômodos da casa
comia muito disso na infância, diz
e reserva uma parte para que eu leve comigo
e me sirva no desjejum seguinte.

Prolongo a minha estadia e depois a minha partida
o máximo que posso sem parecer ridículo
paro alguns segundos no hall de entrada
e o namoro onze andares acima
dessa vez com a mão estendida
como quem diz que me ama na língua de surdos e mudos.

No meu embarque, os últimos vagalumes
do mundo me observam no escuro da estação de trem
encaram minha forma igualmente animalesca
carne provisória e esfinge
meu coração-torniquete de término e lamúria.


E agora, homem?

Ainda vivo do que a gente foi nessa rua
depois disso nada mais floresceu
o Centro fica mais feio a cada hora
antes havia um certo charme nisso
agora a feiura alcança patamares absurdos
quase tudo deserto
cheiros esquisitos
filas enormes de gente passando fome
quase todos negros
e não importa quantos políticos a gente desmascare
há sempre um que está por vir.

Queimamos a faixa amarela
que delimita o fim do mundo
e agora, homem?
Nós que testemunhamos a existência
das árvores, os animais e as salas de teatro
nossa revolta que ia ser transformada em um país melhor
mas o país foi por ralo abaixo
como o gozo de um homem no chuveiro e às pressas.

Não somos mais os meninos sonhadores
elevando o amor ao máximo
hoje a gente transa sempre pela primeira vez
com algum menino bonito esculpido entre ferros de academia
como uma máquina
que só fala de si e do intercâmbio em Dublin
e a beleza não era para ser um defeito
hoje a gente senta em um desses bares hypados da Tijuca
em ruas que não dão vontade de entrar
hoje a gente desperdiça dois corações fartos
em conversas chatas sobre propósitos de vida falhos
que a gente conversa para não ficar fora da curva
uma curva cada noite mais alinhada.

Tudo faz de mim alguém que provavelmente não irá vencer
mas enquanto não me envergonho disso
é urgente que eu diga a você que tenho saudades
e a Rua 20 de Abril está horrível
como Torquato Neto disse: aqui não tem mais nada da gente
a literatura é a única que me abraça quando nada mais funciona [e já não é o bastante].

Quando cruzei a 20 de Abril
eu queria que o menino ao meu lado fosse você
e queria presenciar seu rosto
quando se deparasse com o apocalipse
entre o Hospital Souza Aguiar e a Casa de Swing Mistura Certa
e queria saber quais são suas pontuações
a respeito da aniquilação de toda mocidade e fé que um dia tivemos.


Bichos raros

Os dias que não nos falamos
não valem os cacos de vidro
o sangue pingado pela casa
faço planos de vingança
me masturbo pensando em outro
venço as batalhas sozinho
invalido quando estivemos juntos
e depois me arrependo
fico sentado bem vestido
acompanho o final da novela
vinho em uma mão caso eu te esqueça
e celular na outra caso você ligue
quando o tranco aperta
e sua saudade nos arma um encontro
vou forte feito um touro
com um sorriso de quem venceu
porém falso e estagnado
abstêmico do cheiro do teu sexo
de preparar sua roupa pela manhã
envergonhado corro ao banheiro e me masturbo
tento expurgar o desejo que sinto
mas falho
e morro prematuro como um louva-a-deus.


Os perdedores

Suspenderam a fabricação de biscoitos Globo
as praias estão vazias
assim não há como saber o que pensam os homens
que enfrentam o horizonte
ocasião favorável somente para as infiltrações nas paredes
no lado matéria dura, o mesmo cheiro de mofo e ameaça em tudo
o cenário é cadavérico
plantas de plástico se conservam cobertas de poeira
e eu sei que se tivesse te encontrado naquele sábado a noite
nada disso teria acontecido
toda estação acho que minha rosa do deserto vai morrer na próxima
estou de malas prontas
de acordo com meu tio, o homem mais sensato que já conheci
só é possível ser feliz até os trinta e cinco
para mim faltam alguns anos
para você um pouco menos
já quis que fosse verdade que não há tempo para perder
com memórias
recriar o mundo através de narrativas modernas
precisar de outros inícios
o que não quer dizer adiar a época das tangerinas
abandonar alguém é a verdadeira desventura
perder a cumplicidade também
mas aí a minha ignorância e a minha impaciência

o que mais sei sobre o dia de hoje
15 de maio
é que fundaram a expectativa em 92
não tenho memórias desse ano
se vim até aqui,
foi graças à crise híbrida,
a educação pela tragédia
mas veja que não estou muito bem
você achou que eu ficaria tranquilo no mundo
agora veja com seus olhos
na vida a gente comete dois ou três erros grandes
e temos dois ou três amores inesquecíveis
então faça as contas
se eu fosse fiel às minhas promessas
teria visto o extraordinário
teria sido o paraíso, não só
chegado perto
o primeiro dia de saudade é o mais tranquilo
durmo a maior parte do tempo
mesmo que já tenha perdido todas as possibilidades de descanso
daqui a nove luas, não sei
não há mais nada que mude radicalmente minha vida
para acariciar meu coração e expurgar meus fluidos,
restaram edições G Magazine 2005 e poesias de Anderson Herzer.


Kaio Phelipe é do Rio de Janeiro e tem 24 anos. É autor dos livros Não existe pecado no lugar de onde eu vim, Para o homem descansando ao meu lado e Como cuidar de um girassol.


blues e minotauros | a poesia de bruno gaudêncio

Texto de Toinho Castro


Demoro-me a ler. Não levo jeito pra Tik Tok literário na base de ler 10 livros por semana. Os livros chegam aqui em casa e dormem, esperam. Pego um e leio. Largo, e pego outro. Leio pulando poças. Não me obrigo. E quando leio é com amor. Com carinho. E demoro-me nas páginas, perco tempo com elas. Alguns me corrigiriam: Perda, não! Investimento! Mas pra mim, leitura não é investimento. Leitura é perder-se mesmo. Leio pra me perder no livro. As lições que tiro de um livro é o próprio livro, sua leitura.

Dito isto… no ano passado recebi pelo generoso carteiro que sempre me traz livros, um exemplar do livro de poemas blues e minotauros, do amigo, escritor e poeta paraibano Bruno Gaudêncio, com belas ilustrações de Felipe Stefani. Ao longo desses visitei e revisitei suas páginas, idas e vindas encantado com os versos que Gaudêncio reuniu nesse volume azul. E hoje escrevo um tanto sobre ele, tardiamente, talvez. Mas creio que sempre seja bom trazer à tona um bom livro. E blues e minotauros está de categoria de belíssimo livro de poesia. O que não é fácil, nem simples, de se conseguir.

Gaudêncio escreve com o amor dos que escrevem com amor. No prefácio, Henrique Rodrigues aponta a versatilidade do escritor, que vai da prosa ao ensaio aos quadrinhos e à poesia. E é na poesia que o encontro, onde escreve um poema sobre o ato de não escrever um poema. Assim abre-se essa porta que se fecha atrás de mim. A porta do labirinto. Não é à toa a imagem do Minotauro. Não é à toa no plural… essa velada ameaça que há mais de um Minotauro solto por aí. Quanto à imagem da capa, que nos remete a um labirinto geométrico, é enganosa. As ilustrações que acompanham as poesia, se formam em orgânicos labirintos de linhas. Se eu puxar uma linha desmancharei o labirinto?

A poesia de Gaudêncio é o que encontramos caligrafada nas paredes, algo deixado ali por alguém que quis falar aos que transitam nessa senda, de dias e noites alternados, que é a vida. Viver significa deixar ruínas, escreve o poeta. Será a poesia a ruína de mundos anteriores, ou a vida que reina nessa ruína e reconstrói o mundo? Que coisa boa é ler e se encher dessas percepções, derivas, indagações. Essa poesia do labirinto é feita de marcações, passos na areia ou notas na pauta. Sendo assim, talvez funcione como um mapa. Dizem que se você sempre virar à esquerda num labirinto, chegará ao seu centro. E lá, talvez, encontremos o Minotauro com a guitarra de Robert Johnson a murmurar um Blues, a loa que estávamos ouvindo desde a primeira página imantada desse livro.

Naturalmente isso não é uma crítica literária, mas o relato do encontro de um leitor com um livro, com um poeta, na bruma desses dias. Na dedicatória, ele escreveu: Para o amigo Toinho Castro, estes labirintos. Porque o poeta sabe que no labirintos já estamos e é neles que damos uns com os outros. A poesia é fio de Ariadne, Gaudêncio também o sabe e deixa seu traçado para nós. Não para acharmos a saída, mas para nos perdemos ainda mais, adentramos ainda mais a linguagem.

Ao ler blues e minotauros, não tenha pressa.

blues e minotauros é um livro da Editora Leve

O laborioso Ray Harrihausen

Texto de Luiz Henriques Neto


Ray Harrihausen

“Jasão e os Argonautas”, de 1963, está na Netflix. Provavelmente a obra-prima de Ray Harrihausen, uma casa de efeitos especiais de um homem só. Inacreditavelmente, depois de criar o primeiro dinossauro gigante destruindo cidades em 1953 em “O Monstro do Mar” e os discos voadores com bordas rotativas de “A Invasão dos Discos Voadores”, descobriu que não havia muita demanda para criaturas animadas em filmes de alto orçamento e os com pouca grana preferiam pagar 2 tostões para dar vida a “The Giant Claw” porque o público infanto-juvenil que eles almejavam não ligava tanto – pensavam os produtores – para a qualidade.

O que deu impulso à carreira do Harrihausen foi seu encontro com um jovem produtor, Charles H. Schneer, que amealhou fundos para fitas que, ainda que de baixo orçamento, se submetiam completamente às vontades do sujeito com infinita paciência para modelar e animar quadro a quadro tudo que era tipo de criatura que se pudesse imaginar. A primeira parceria dos dois, “Simbad e a Princesa”, esperou por 11 meses Harrihausen completar seus trabalhos, mas estourou a bilheteria e abriu caminho para o laborioso artesão dar vazão às suas fantasias, que em sua maioria envolviam mitologia grega. Daí, em 1963, já com mais dinheiro no bolso, partiram para “Jasão e os Argonautas”. E botaram a casa abaixo.

A fita tem atores melhores, miniaturas melhores e animações melhores. Se a luta do Simbad contra um esqueleto em “Simbad e a Princesa” deixou o público de queixo caído, que tal então uma luta contra SETE esqueletos simultaneamente? Harrihausen inventou um novo processo de animação, que separava atores dos cenários através de iluminação por vapor de sódio, o que evitava ter que pintar quadro a quadro em um negativo de 35 mm os viventes de movendo, e que permitia incluir seus modelos no meio dos personagens e dos fundos. Ainda assim, assistindo à cena abaixo, as explicações que eu acho mais críveis para sua confecção são a) pacto com o Diabo b) magia negra c) viagem no tempo para roubar um computador.

Os esqueletos seguidamente cruzam espadas com os argonautas – na verdade, a coreografia da luta é extremamente empolgante e bem urdida para a época. Os esqueletos mostram jogo de pés para manter o equilíbro enquanto pelejam. A sombra deles é projetada na mesma direção que as dos argonautas. As cenas têm cortes e mudam de ângulo NO MEIO DE UM GOLPE. E ainda por cima têm o fabuloso movimento extremamente definido da animação de miniaturas quadro a quadro.

O Parque Jurássico abriu as porteiras para computação gráfica quando os técnicos, nos estudos preliminares, desenvolveram um programinha que dava borrão de movimento aos personagens informatizados. Filmes rodam a 24 quadros por segundo e em 1/24 de segundo algo que se mova rapidamente vai parecer um borrão no quadro. Nossos olhos também enxergam a essa velocidade. A animação quadro a quadro com bonequinhos é feita com fotos deles parados, então os movimentos parecem nítidos demais, uma experiência bem diferente do que estamos acostumados a ver. Por isso a animação por computador se tornou tão difundida depois dos dinossauros do Spielberg.

Só que depois que passa a onda de ver monstros hiper-realistas se mexendo, quem cresceu, como eu, vendo esses seres animados quadro a quadro, percebe que essa movimentação hiperdefinida em verdade dá a esses entes uma sensação de irrealidade onírica. Claramente essas criaturas são abominações aos olhos de Deus, antinaturais e nascidas em nossos mais infantis pesadelos. Em “Jasão e os Argonautas”, por exemplo, os primeiros movimentos de Talos em meio à soturnez das estátuas gigantes espalhadas por uma ilha desértica e abandonada são arrepiantemente fantasmagóricos. E remetem aos clássicos pesadelos de monstros gigantes perseguindo VOCÊ em meio a uma cidade. E, recentemente, descobri que não sou só eu que gosta desse efeito sobrenatural da movimentação na animação quadro a quadro. Vários filmes mais recentes usaram computação gráfica sem aplicar borrão justamente em busca dessa atmosfera inquietante.

Tudo isso só pra recomendar que, ei, não percam “Jasão e os Argonautas” na Netflix. A imagem está a mais bonita que eu já vi desse filme – eu consigo ver as harpias direito, o que sempre me foi impossível em 20 polegadas de tevê de tubo na Sessão da Tarde ou em VHS (ou em 32 polegadas e DVD). Harpias, aliás, animadas enquanto voam lutando contra uma rede (!!!!!) E, abaixo, o melhor efeito especial de todos os tempos, pra quem ainda não viu. Corram porque todos sabemos que grandes filmes somem da Netflix mesmo quando parece que ninguém se importaria em levá-los para outra plataforma de estrímem.