Do inbox mágico da Kuruma’tá, nos chegam os poemas do poeta baiano, de Alagoinhas, Lucas Carneiro. Sempre uma alegria ver que a poesia resiste firme nesse país que precisa valorizar mais o fazer poético. O trabalho de Lucas reafirma a qualidade e diversidade dessa poesia que se faz em todo o Brasil, do Oiapoque ao Chuí, passando por Alagoinhas!
Seja bem-vindo à Kuruma’tá, Lucas. Portas e janelas abertas!
Manhã
sete e quarenta e cinco da manhã pequenos feixes de luz dão boas-vindas pela fresta da janela tapete persa velho empoeirado sacolejando com a brisa matinal mortes são noticiadas cedo pela impressa jovem negro assassinado durante operação policial peste virulenta avançando sem trégua por toda extensão pássaro amarelo repousa quieto sobre a varanda pequenos ruídos trovões e relâmpagos prenunciam uma tempestade clima melancólico vagueia pelo território cama desarrumada, casaco desbotado sobre o aparador livro de poemas apoiado na cabeceira Wallace Stevens, sereno, sorrindo visão matinal me aterroriza aparição fantasmagórica me deseja um bom dia e assim todo o caos se inicia, respectivamente as sete e quarenta e cinco da manhã.
Alagoinhas BA, 23 de janeiro de 2022.
Andanças
caminho pelas ruas velhas turvas, sujas marcadas por paralelepípedos riscados em pólvora pelas comemorações promíscuas de fevereiro
na dobradiça do semáforo um bêbado, nu e desvairado direciona sua prédica louca aos espíritos noturnos que silenciosamente ovacionam os vândalos barbudos que urinam alegremente frente à estátua do poeta
nas avenidas insones manchadas pelo alarido do povaréu um corpo sob uma poça encarniçada agoniza atraindo aqueles a que sem parar caminham pelas frias calçadas em direção as vielas ensombradas pela tenuidade dos lampejos noturnos onde os vermes proferem discursos hediondos contra toda a população nas sarjetas letais do podre planalto central
Alagoinhas, 08 de julho de 2022.
Lucas Carneiro é nascido em Salvador BA, possui 21 anos e atualmente reside na cidade de Alagoinhas. É graduando do curso de letras, língua inglesa e literaturas da Universidade do Estado da Bahia. Atualmente, desenvolve pesquisas sobre poesia moderna em expressão anglófona, com foco no processo de antropomorfização através da força da palavra poética. No curso do período pandêmico, começou a publicar suas poesias com mais frequência.
Poemas de Tayline N
Tayline Nunes tem 24 anos e é Curitibana. Gosta de ler e escrever. Por volta dos 10 anos de idade começou a discorrer textos. Escrevia para se libertar. Sempre deixou ocultas suas redações, até que nesse ano criou coragem para apresentar seus trabalhos para as pessoas próximas. E agora trouxe seu trabalho para as páginas da Kuruma’tá! Seja muito bem-vinda, Tayline! Kuruma’tá de portas e janelas abertas.
Faça como Tayline e envie seus poemas, crônicas, contos, o que seja, para a Kuruma’tá!
Ingênua
Quando me tocaram sem eu deixar, Me senti invadida. Criou–se um sentimento placebo, Frio, sombrio, e aterrorizante. Quis gritar, Vi meu lado ingênuo Tornar–se um lugar duvidoso, Desconfiado, e amargurado A essência de uma criança pura e inocente acabou, Em instantes. Desconfiaram diziam ser mentira Agora eu me pergunto Eu mentiria para quem? Porque? Não me olharam Doeu, Minha mãe coitada, Pobre mãe Que não acreditava, Vestia uma armadura de leoa Não podia ser verdade. Quem fizera seu filho sofrer? Quem rompera a nobreza desse cristalzinho!? Lapidou sua primogênita, Para um qualquer tirar isso dela. Apagaram, Incendiaram, E adormeceram, Seu lindo sorriso. Agora, No lugar de risos Lágrima. No lugar da verdade Mentira. No lugar de lealdade Desconfiança. Por fim, Um vazio. Um silêncio. Me roubaram, Me tiraram, E ainda
Dói.
Santos Andrade
Ao meu redor pássaros, Barulho de água Silêncio. O verde das folhas e árvores Um banco de madeira, parece resistir para não apodrecer igual seres que neles estão sentados Algumas barracas Sabe Deus o que se Vende nelas Será que vendem desafeto? amor? Os prédios vazios Talvez às9 da manhã, nesse sol que já raiou Ainda alguém esteja dormindo, Tomando café, criando coragem para acordar. O branco que clareia a praça Comporta milhares de mentes que querem aprender algo, com alguém; A vista daqui e o silêncio acompanha a solidão que muitos carregam, Embora eu esteja tão solitária Quanto eles. Perguntei para um desconhecido Que vestia amarelo De fone Óculos escuro Se onde estávamos era a praça Santos Andrade Ele com clareza diz que sim, Mas Andrade é tão comum E Santos é a ambiguidade de um ser puro O que te faz diferente disso? As aves voando Buscam também a liberdade que até hoje não encontrei. Ao piar dizem o que? Com olhos a 360 graus avistei algumas pessoas sentadas, Uma criança caiu Vestimenta azul Passou as mãos sobre as calças, como quem limpara para esquecer e sair correndo novamente. A solidão toma conta Silêncio.
O café
O café pode ser amargo como a dor De um amor Não correspondido Mas ele também pode ser tão doce Quanto às palavras que eu descrevo Claramente direcionada á você Suas interpretações O modo que você me decifra Eu sei que não é tanto Mas é o suficiente para nos manter Mesmo sem teu toque eu te sinto Mesmo sem te ter eu te tenho É evidente Eu te sinto mesmo que de longe Será que isso é amor? Eu não gostaria de rotular absolutamente Nada sobre você Dentro de mim tem tanto de nós E eu me perco Eu sou uma poeta desconhecida Que você conheceu O desespero dia após dia sem saber Sem ter repostas Mas quais eu gostaria de ter Se o AMOR supera tudo Eu ainda não superei Se amar for essa avalanche Submeter–se a ser E a ter algo indecifrável Delicadamente te lapido E aos poucos te tenho Soltar você seria como me jogar da ponte A mais alta existente E eu não sei onde encontra–la Você sabe? Seus sinais são apenas vestígios Que instigam E sangram Mas me diga como Me mostre aquilo eu que preciso ver Ao tocar a pele dela te satisfaz? Pudera eu, Pudera por um instante Pudera Suas pupilas também dilatam ao vê-la? A velocidade do seu coração é a mesma ? Me mostre Ao invés de fazer sessões Seja amarga ao ponto de embrulhar meu estômago Ou doce até me dar uma overdose Mas não seja incapaz Tão incapaz De me dizer E não deixe vestígios De que ainda se importa
A palavra Potengi significa Rio de Camarão. É também o nome do rio que corta a cidade de Natal, onde nasci e onde estou agora, passando uns dias para visitar minha mãe. Potengi, palavra, sonora, deliciosa de se falar, legado sinuoso do indígenas, habitantes primordiais dessas terras varridas pelo vento que não cessa, esquina do continente que é. Potengi.
Nasci aqui, na Maternidade Escola Januário Cicco, um prédio que sempre procuro visitar quando por aqui apareço. Visitar que eu digo é passar na frente, de carro, e observá-lo. Deveria, qualquer dia desses, entrar. Quem sabe ainda nessa visita, antes de retornar ao Rio de Janeiro. Aqui nasci, mas aqui pouco vivi. Cresci no Recife, com seus canais, pontes. Com o Capibaribe e o Beberibe alimentando o Atlântico. Com os arrecife, rentes à costa, nos protegendo sabe-se lá de que misterioso perigo. De lá saí somente aos trinta anos de idade, para o Rio de Janeiro, onde vivo há vinte e cinco anos. Faça as contas. De nostalgia do Recife, no meio dessa pandemia, escrevi até um livro. Que Natal tenha uma mágoa comigo, da falta de uma palavra de carinho em tudo que escrevo, não seria de estranhar. Reservei Natal para a minha mãe, que contou suas e histórias de infância e juventude num filme que fizemos juntos.
Ao longo da infância fiz de Natal meu quintal de férias. E digo quintal na acepção lúdica da palavra, lugar de mundos e fantasias, de chão de folhas e frutas machucadas da queda e dos pequenos bichos a assustar e encantar. Natal como terreiro noturno, rua erma e assombrada, que eu percorria ao lado dos primos que eram como irmãos. Mas sempre voltava para o Recife do mangue, da água salobra da ameaça de enchentes, de onde minha mãe olhava para as bandas de Natal, como quem busca um farol que acuse um porto.
Criança do Recife e suas prendes e segredos, cresci sem sentir-me natalense. Depois de adulto a perambular pelo mundo, pude elaborar essa ascendência.
Potengi é parente de Potiguar. Outra palavra folgosa que os mesmos povos gravaram na nossa língua. Comedor de Camarão, é o que significa, e é como chamam aqueles que nasceram nesse território, o Rio Grande do Norte. E é nela que me sei de onde vim, comedor de camarão que sou. Pois não é que o que comemos é o que nos define?
Hoje estou em Natal e quis, pois, alinhar essas palavras de reconciliação com a origem, a fonte que vai minando água, nascente de rio que é, desde longe. Desde antes de mim. Aqui brinquei nas minhas férias, aqui brincaram os meus. Meu bisavô, Pai Miguel, senhor de casas e filhos, minha avó Mariola, que se foi quando eu morava no Rio de Janeiro. Por conta disso, até hoje sua morte é uma irrealidade, um desacontecimento. Ainda penso que posso visitá-la no Alecrim.
De carro, entre um compromisso e outro na cidade, passo na fábrica de doces abandonada da Sams, de onde emanava um cheiro adocicado que até hoje eu sinto. A rua Miguel Castro, o Minipreço (Hoje uma “Igreja”), onde comprei meu primeiro disco, um compacto do Kraftwerk, com Spacelab de um lado, e The model do outro. As tardes de música e aventura, as caixas d’água, enormes, da CAERN, como algo deixado ali por extraterrestres. Natal que eu e meus primos exploramos e mapeamos com o coração. O mar em que nadamos e de onde saímos salgados (Por favor, leia essa crônica de Clarice Lispector sobre o banho de mar; em Olinda, mas vale pelo tema), e o Morro do Careca, no fim de Ponta Negra, com seu topo proibido e inatingível como um Everest de areia (Hoje em dia é, de fato, proibido subi-lo), e o vento sem dó a revirar os cabelos e levantar saias, a mover pensamentos e dunas.
Todas essas visões resistem, sob as muitas camadas de Natal que se sobrepuseram, ao longo dos anos, sobre essa Natal que vivi como um encantado. Como resistem em mim, sob as lâminas dos dias e noites que se sucederam. Uma visita assim é como olhar a cidade com olhos de raio X e, ao mesmo tempo, ser dissecado até esse íntimo em que a gente nela se reconhece.
Quando menina minha mãe via com, com sua mãe, o pôr do sol no rio Potengi. Herdei dela esse pôr do sol e essa palavra, Potengi. Vim aqui tomar posse desse amor. Vim aqui comer camarão.
Por do sol no rio Potengi, hoje maculado pela presença da ponte Newton Navarro
Ela não sabe que existe o Pinterest. Poderia colecionar imagens de nuvens
Vento de ligeiro frio. Todos sentem igual. Nada pode com o vento. O acumulo de ar beneficia as pedras, as plantas, seres que habitam. Tudo agora é qualquer coisa. — Texto de Salma Soria
Texto de Salma Soria
Vento de ligeiro frio. Todos sentem igual. Nada pode com o vento. O acumulo de ar beneficia as pedras, as plantas, seres que habitam. Tudo agora é qualquer coisa. Alguém a faz olhar automaticamente para o seu instrumento de trabalho, um tabuleiro de frutas repousado na altura dos quadris, os ponteiros dos relógios marcam as horas, o tempo segue a norma, silencioso pacto coletivo de não se importar.
Seus olhos são alienados. Nem buzinas, nem megafones rompem a concentração dos sonhos de dentro. O vento desconcerta os cabelos, a ponta de seu longo vestido vermelho flutua perto da parede. Uma placa de trânsito cai rente ao ombro dela.
“São três por cinco senhora”. “Aqui está”. “Obrigado senhora”.
Naquela manhã tudo reluzia com boa vontade. O silêncio, forjado como aceno de paz, se ausenta em meio a gritaria de compre isso compre aqui. A rua inteira se confunde com cheiro de peixe, laranja, melancia, temperos. Chão molhado de gelo. A tranquilidade é inodora.
“Tá fresquinho?”. “Sim, senhora, é de hoje”. “Não quer levar mais alguma coisa?” “Quero não, Selene, muito obrigada!” “Está bem. Até mais!”.
Sempre que termina de embrulhar as frutas vendidas, Selene olha para o céu. Quer fazer umas perguntas. Mas não consegue saber o que falar. O céu é tão longe.
O barraqueiro ao lado se preocupa com os instantes em que Selene se ausenta por longos períodos olhando para cima. Até que ela percebe, isso sempre acontece, não gosta que a controlem, não gosta de ser observada. Disfarça arrumando as frutas. E o barraqueiro também disfarça:
“Ei, será que chove? Tá com cara né?”. “Tô preocupada porque deixei a roupa no varal”.
Com o dia translúcido e céu sem neblina, todo mundo sabia que jamais choveria naquele dia inteiro de julho. Já comentam entre as barracas sobre a sanidade mental dela que evita ao máximo olhar para o céu quando todo mundo a olha. É quando abaixa a cabeça, pega um pequeno caderninho e anota uns detalhes para não se perder.
como as nuvenzinhas se partem pelo meio? por que não caem? é Deus que assopra as nuvens? Quem cuida delas? a fumaça copia o algodão celeste, mas esse fumaceiro não consegue chegar até o céu. nem fumaça nem nuvem o céu aspira a queda igual o asfalto aspira a chuva e o ar aspira as fruta
Por conta da lona preta que forra a casa onde vez ou outra sai voando por aí é que aprendeu a observar no telhado que o céu existe. Gosta dos formatos decorativos de nuvens. Mora só. Sonha com uma casa inteirinha feita de crochê. Esse sonho, quer materializar e sempre quando a vontade bate forte, contempla sozinha no meio da sala.
“Seria tão bom deixar as coisas de casa macias”.
Se alimenta das frutas que sobram no fim do expediente e de vez em quando se dá ao luxo de comer uma fritura. Bolinho. De chuva. Quando come esses bolinhos, gosta de fazer um ritual que a faz sentir como madame: pega a única xícara da casa, não sabe dizer se aquilo é porcelana ou plástico, até que tem um brilho translucido entre a amarelidão crescente das bordas, pega a única colherzinha do armário enferrujado, esquenta a água na chaleira de cabo quebrado, colhe umas cinco folhinhas de hortelã, coloca no fundo da xícara, joga a água fervente, se fascina em ver parte da água evaporar pela cara enquanto sobe um aroma gostosinho, pega os cinco bolinhos que preparou, coloca sobre o papel toalha, cuidadosamente carrega os bolinhos envoltos no papel e a xícara, senta na rede estendida no meio da sala e tilinta por vários minutos a colherzinha na xícara, assopra delicadamente, esperando esfriar. O coração é tomado pelo alumbramento que vem da cara recém aquecida.
“Vaporzinho bom”
Balança a rede com as próprias pernas. Mastiga devagarinho o bolinho para não acabar o momento que nem sabe dizer, só é gostosinho. Se um dia perguntarem a ela, coisa que nunca fizeram, Selene gostaria de dizer que seu prato preferido é bolinho de chuva. Só não gosta de peixe. Nem de peixaria. O motivo foi um pescador que fez o que fez com ela, coisa que nem gosta de explicar. Os dias passam e Selene se entrega ao vento manso, sem contramão. Tem vontade de ser vento, de se germinar por ele mesmo sem saber se essa semente de ventanias dará frutos. Certa vez, um único moço perguntou porque ela gosta tanto de olhar para o céu.
“Acho que as nuvens distraem para a gente não saber de que cor é o vento. Tu sabe dizer se tem como se esconder pelo vento?” “O vento existe para ouvir ele, né?”
Nesse dia, o moço, coitado, balançou a cabeça negativamente e não soube responder a nenhuma das perguntas anteriores. Nos fins de semana gosta de sol, de apreciar beija-flores nos galhos das manhãs.
“Tinha um beija-flor aqui, mas já foi embora”.
Tem um terreno baldio ao lado da casa. A vizinhança escolheu esse lugar para descartar o lixo. Uma vez Selene achou cacos prateados pelo chão, possivelmente bolas de natal quebradas. Recolheu uma a uma e as guardou para enfeitar pelas paredes no dia que tiver uma parede de verdade.
Ela pensa e pensa profundamente no quão longe uma nuvem pode chegar, essa equação sem resposta, sem mais ou menos qualquer outra coisa porque se atrapalha e não consegue saber como. Tem vezes que a ideia se conjuga aflita. Especialmente quando um tomate cai sobre os pés. E isso sempre acontece pela feira. As vísceras molhadas do tomate entre os dedinhos do pé fazem com que se apresse e jogue asfalto por cima da pele para estancar o gelado.
Adora quando passa o Voyage branco 1988 do vizinho e o carburador expelindo fumaça negra. O perfume do escapamento dá uma alegria. O vizinho acelera, desesperado, mas é aí que ela corre atrás dele com toda velocidade que consegue só para desfrutar um pouco mais do vapor arranhado. E quanto mais o motorista acelera, a dura fumaça sobe e um festival de diversas nuances em nuvens escuras se torna perceptível ao olho. De todo mundo.
Selene nunca para de correr atrás desse carro. Corre até as pernas bambearem. É quando a tosse começa, alguma coisa do olho começa a pinicar, o frio de dentro emerge e o corpo todo, subitamente desmaiado, adere ao chão da rua. Neste barro atormentado de tantas marcas é que vez ou outra consegue chegar mais perto de um céu que só ela sabe. Se soubesse que existe o Pinterest, poderia colecionar imagens de nuvens.
Poemas de Três línguas, livro de Verônica Ramalho
Que Verônica Ramalho e sua poesia inventiva, que brinca e desafia e transcende a língua , sejam muito bem-vindas às águas da Kuruma’tá! Alegria grande ler esses poemas, bons de ler em voz alta. Esses versos me lembraram um verso de outro poeta, Caetano Veloso, em sua canção Língua: Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões. É bem isso, falar não é movimento involuntário. É intenção, desejo. Roçar.
Na poesia de Verônica, há ainda esse significado sensorial, da percepção física das palavras. Nos permite sair da emissão vocal padrão, ilusória e despercebida, para sentir o sabor tátil das palavras.
“Invisto em uma linha de comunicação que explora os recursos textuais para deslocar a imaginação da história narrada para os efeitos do texto em si. Para mim, a estrutura do texto é a parte mais importante da escrita”, aponta. “Subverter a língua é um desafio, um jeito de superar o risco, de tensionar as estruturas.” — Verônica Ramalho
Três línguas é dividido em três parte, Deos, Antígona e Jardim, e aqui temos uma seleção de cinco poemas compreendendo essas três passagens.
1 de 5 (Deos)
Coço a orelha com a língua. Toda a massa meio mole, aflição intensa.
2 de 5 (Deos)
Deriva a língua na ponta de cima, a ponta se empina, sinal insonoro. O tempo empilha cada corte de unha, cada resto de resto, cada naco de pele, cada parte de sobra, um grão. Toda a terra o que sou. O caminho se espalha, camadas de cacas, sou todo chão. Provo o relevo novo, subo morros mirantes escalo. Todo o relevo feito do que caiu de mim. O nada se preenche de aparas.
3 de 5 (Antígona)
Trapos amontoado peles restos podres, acampamento desfeito cheiro humano. Rastros frações amortizadas. Tecido papelão roídos, gordura, gosto conhecido. Saibo queima carvão gravado. Calha escorre água preta, linfa urbana escorre encontra grelha, deslizo, sumidouro, ultrapasso. Língua queima, molhado aço. Evapora arrasto.
4 de 5 (Jardim)
Línguas erguidas arfam, tremem secas a agonia da espera. Brancas, amarelas, castanhas, o jardim palpita ocre. Há cortes bolhas bolotas, algumas camuflam herpes. Aftas se reproduzem, escorre pus pelo gramado. Erguidas, as línguas arfam. Exibem sua decomposição.
5 de 5 (Jardim)
Lambidas pardas cortam a névoa, recendem cáseos. A flora muscular fede. Saburra é escudo e espelho pro cheiro forte, miasma intenso atordoa. Lambidas desordenadas se esbarram, alvoroço, indisposição e calor. Corpos em leque, as plantas abanam. Aragem distribui e dispersa o azedo, sopro manso. Assobio simula coro, aravia.
Verônica Ramalho
Verônica Ramalho tem dois olhos míopes e uma língua lépida nascidos em Santos, litoral de São Paulo, em uma segunda-feira de tempestade em 1987. Formada em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos, dirigiu curtas-metragens e trabalhou por dez anos como cenógrafa para televisão, teatro e cinema. Atualmente é tradutora e escritora. “Três línguas” é seu segundo livro, contemplado pelo edital de fomento ProAC.
A poesia de Árion Lucas
Bem-vindo, Árion, às páginas da Revista Kuruma’tá, com sua poesia das boas, dessas que nos assaltam de surpresa. “que susto!”… que verso bom demais pra começar um poema, pra começar a vida, para saudar os encontros!
Bora ler logo Árion!
lanterna
que susto! um macaco esfomeado descendo subindo o cipó sozinho no meio da encruzilhada a galinha olhos vermelhos debaixo da bananeira choca os ovos branca nas penas nesse frio um gato preto passa correndo farfalhando terra três cães atrás o dono em guerra vem resgatar vestes escondidas pra ninguém roubar diz pus óleo esquentei coisa e tal ia jantar veio a chuva pum! caiu assim do meu lado mas saímo ileso foi deus depois cortei isso fui eu fizemo fogueira mas hoje durmo na usina não tem jeito muita cobra recuperando cada toca sabe o que faço se uma dessas aparecer? se me atacar eu mato senão vou assim se não tem? rapaz mas tem muita mais até que as bostas as garrafas e o pano amarelo dobrado no galho com cupins do cimento recém-restaurado preto cremoso sob o pneu do pictograma escorregadio na placa torta ao ônibus da seta as cigarras entrecortadas por carros na lanterna do imperador doada ao alto pelo feudo oriental em 1957 sob a palmeira que corre o risco de apagar
clareira
em sopros de outra vida desassossegos dorminhocos as panelas estão de volta na subida do alto paraíso empilhadas que nem pagode em frente desse caminhão seus vendedores sob o sol dois senhores numa cadeira o galo cantando no morro pra família num piquenique as crianças entrando no mato à procura dos mitos passados dos três troncos quebrados que formaram um triângulo entre os cacos de carinho seus moradores alertando nossa casa é esta terra do povo usando chinelo os corredores sob as copas labirinto de palmeiras cruas entupiu? limpeza de fossas o caminhão perto do vovô que poderia ter sido um poeta mas saltou do táxi pra roncar
do zine rota alto, 2021
Árion Lucas é um autor carioca nascido em 1992. Vende zines independentes no bairro Alto da Boa Vista. Publicou os romances Pequenos Sonhos do Tempo (Jaguatirica, 2019) e Todos os Fins (Urutau, 2021), os livros de poesia Silêncio a Lapsos (Urutau, 2019) e Casa Praça (Trevo, 2022), a coletânea de contos Espelho de Nuvens Sãs (Amazon KDP, 2019), além de escrever quinzenalmente crônicas inéditas em arionlucas.medium.com
Tempo sem cruz | Poemas de Flora Miguel
Conexões maravilhosas. De São Paulo, onde passava uns dias, meu amigo Jorge LZ me fez essa ponte generosa com a poeta Flora Miguel, e com sua poesia. Hoje a Kuruma’tá publica, com alegria, cinco poema do livro Tempo sem cruz, que Flora lançou recentemente, pela Editora Primata.
Conexões maravilhosas. De São Paulo, onde passava uns dias, meu amigo Jorge LZ me fez essa ponte generosa com a poeta Flora Miguel, e com sua poesia. Hoje a Kuruma’tá publica, com alegria, cinco poema do livro Tempo sem cruz, que Flora lançou recentemente, pela Editora Primata.
Nestes poemas, as formas de contragolpear o bloqueio do futuro carregam uma espécie de ambivalência produtiva, estratégia lírica desfolhada em uma bandeira ao mesmo tempo política e afetiva. Se a consciência dos limites (os nossos e os do mundo) se impõem em números e dados objetivos, a força das coisas miúdas também é reconhecida, entre outras coisas, na elegância guerreira das formigas: “folha que é escudo!/ graveto que é lança!”.
Da apresentação de Andrei Reina jornalista de arte e cultura e mestrando em sociologia na USP, com pesquisa sobre a teoria crítica brasileira.
tempo sem cruz
alguém te liga na manhãzinha uma voz de plástico derretido afônica chega até a sua orelha
e você pensa em Olga em Priscila em Luanda Tânia Bruna Mari Sandra
você pensa em toda a revolução social que é um útero dizendo não dizendo não agora dizendo shiu dizendo quando como e por que dizendo escuta, apesar da guerra há maneiras de sangrar
e ainda que você tenha lido que foram identificados 770 óbitos maternos com causa básica aborto no SIM de 2006 a 2015 que se somados aos 220 óbitos que têm o aborto como uma das causas mencionadas representariam um acréscimo de aprox. 30% no total de óbitos associados ao aborto no mesmo período fora a subnotificação, você pensa mais uma viva renova votos na causa [errada?] quer chorar quer sonhar acordada
refugiados
sentir a praça pelos pés discutir Tolstói com as mãos
também desejamos terra
terra é carne que quanto mais se reparte mais se tem
das nuvens nenhuma palavra: pacto de cumplicidade
película de horror
nessa parte arrancada se senta um gato ronrona e aprendo [o diabo é uma mulher chamada Siri e tem sempre tempo para o conhecimento] que gatos domésticos ronronam em frequência máxima de 30,2hz e que diferentemente do miado o ronronar produz um som de timbre grave audível somente a distâncias curtas
nessa parte rasgada à faca afiada cachorros fazem festas
esse trecho esse treco oco é pista para uma mosca que depois de toda vida dedicada à transmutação envelhece como hospedeira de agentes patogênicos como qualquer um de nós
nesse vão se chocam todas as quinas enfiam dedos fincam, seguros e inseguros, os dias
talvez não seja a única a sentir a confusa presença do que é ausente instrumento desafinado aposentado lidando com seus ruídos
formiga
1 estender a canga intervir no trajeto das formigas
por entre as dobras de chita travar batalha minimalista
2 A estudante de Pós-Doutorado em Entomologia do Instituto Nacional de Pesquisa da Biodiversidade Florestal, Luana C., foi responsável por um estudo inédito que monitora o impacto de uma fábrica têxtil de larga escala na fauna das formigas
3 desde a infância Luana C. foi extremamente sensível
fazia dança aeróbica e clássica, brincava sempre de teatro – atriz é porvir desenhava histórias sobre seres fantásticos em pequenos recortes de papel furta-cor
a cada ocasião considerada especial compunha música própria letra e melodia e se fazia um dia de sol e calor coreografava a criação
costumava dizer que seria cientista mesmo com a desenvoltura para as artes em pura combustão
passava horas observando as galinhas do quintal conversava piu, piu, piá no balanço de pneu pendurado em enorme tronco de árvore
anotava suas considerações num grande caderno de folhas mistas tons de terra e céu e encadernação feita pela mãe com maquinário próprio instalado na lavanderia da família das formigas, ao interagir forçosamente mas ainda com o notório embaraço, admirava a elegância: folha que é escudo! graveto que é lança!
4 Luana C. morreu já tem sete anos o rim perfurado pela bala do milico policializado
morreu e eu a procuro procuro e a reinvento que a atriz merece o melhor papel tons de terra e céu pneu nunca de moto parada em nenhuma autopista prêmio Nobel: melhor cientista
5 a gente sem escudo nem lança
sem cortina sem regente
o furo agudo estridente no canto da nossa barriga
a polícia mata a gente como a gente amassa formiga
um faquir no viaduto
na cama de pedras pontiagudas o peito já rasgado não tem mistério em sorrir tamanduá espantar pombos cerrar punhos ver no que dá
magia é a fumaça da moto andando com a moto a moto em zigue zague a troco de quê ninguém sabe
a moto, palito de fósforo riscando sua noite com nuvens
[O viaduto se transforma num céu. Sinos tocam.]
feito o arco de luz que acompanha a porta da sala batendo na cara cala como quem jaz canta como quem chora
no dia em que eu vim embora não tinha nada demais
Flora Miguel é jornalista, trabalhadora da cultura, poeta. Tem textos esparramados por veículos literários no Brasil, Portugal e México.
Este é o meu tio: Alfredinho Bip Bip
Texto lindo, comovente, de Franklin Mello, sobrinho/filho do mestre Alfredinho Bip Bip. Para quem é de fora e por acaso não conheça a história de Alfredinho, saiba, entre tantas coisas e gestos de sua história, ele “comandou” com leveza o boteco mais afetivo desse meu Rio de Janeiro.
E para saber mais, siga o fio do querido Franklin nessa prosa boa!
Este é meu tio. Alfredo Jacinto Melo (erro do escrivão contra os dois L de toda a família), ou apenas, como preferia , Alfredinho Bip Bip. Mais que um tio, um pai. Segurou as pontas quando o verdadeiro progenitor sumiu. Irmão da minha mãe, cuidou para que os sobrinhos tivessem boa educação.
Cheguei a trabalhar com ele; primeiro no escritório de importação e exportação na rua Teófilo Otoni, centro do rio, onde , por uma razão que desconheço, era chamado de Peniche.
Depois, no Bip seminal.
Éramos poucos, Alfredinho, Cristina Buarque e eu, que fiquei responsável, com a ajuda dela, pelo balcão e por lavar os copos. O boteco não tinha petiscos. Só bebida. Nordestinas batidas vindas de Bangu, uísque vodka água e Cerpinha, uma cerveja longneck paraense. Se lembrar de mais, registro.
O banheiro do boteco era reverenciado como o mais limpo da Zona Sul. Era verdade, limpíssimo. E unissex.
Alfredo era católico e comunista . Eu discordo um pouco. Ele era socialista. Tinha um sonho de que no Brasil todos teriam, no mínimo, quatro refeições por dia. Além de educação adequada.
Apoiou quem apostava nesta ideia, neste projeto. Brizola, Darcy Ribeiro. E Lula e o PT. Viveu sua breve vida fiel à ideia de que todos tem direitos básicos.
Seus aniversários eram muito comemorados. Todos podiam participar , desde que trouxessem um quilo de alimentos não perecíveis. Que depois seriam distibuídos às entidades.
Sou testemunha ocular da história: vi montanhas de doações; montanhas.
Depois ele começou a coletar gorjetas em dinheiro no próprio bar (continua até hoje. Participem!). Depositadas numa caixa, vão sendo acumuladas, para financiar, no Natal, um almoço caprichado para os que nada tem . Os amigos ajudam, os restaurantes ajudam, na preparação. Todos ajudam. E num momento em que a alegria invade alguns, a tristeza toma os corações de centenas. O almoço de Natal conforta e aquece esses corações.
Este foi meu tio.
Um real não pesa na sua carteira, mas faz uma diferença na vida de tantos. Este é o meu projeto. Um real para manter as pessoas alimentadas. Estou esperando o projeto do Betinho – para fazer a proposta aqui. Apenas um real (ou doações em alimento) e vamos acabar com a fome no Brasil.
PS. O bip bip está em atividade e continua com os projetos sociais. Procurem o Matias Bidart. Ele é nosso braço forte . Obrigado.
Alguém está perdida. Eu ouvi. De repente histórias se cruzaram. Horários confusos. Relógios trocados. Talvez não dê tempo. O portão verde está fechado. Eu quase que não entro. Quase não te vejo. Quase não encontro. Quase não ganho o xêro que desejei. E que me foi concedido. Carro. Pessoas. Caminho trocado. As unhas agora estão no volante. E mais tarde? Por enquanto, o ângulo do retrovisor não tinha me dito nada. Luzes acesas. Revelando o interior. No centro. Um beijo para começar. Arrepios densos. Pode continuar. Alguém me conta histórias pelo caminho. Eu as ouço. As escrevo. Guardo comigo. Vivo. (Re)vivo. Cada piscar, uma palavra. Cruzamentos. Sinal fechado. Convite para outro beijo. Vaga na porta. Sorte. Gemidos na entrada. O norte. Acho que cheguei. Geme lá ou aqui? Mãos enormes. Lindas. Luzes vermelhas ou verdes? Tanto faz. Acabo de ver em qualquer cor. Um dos únicos pedaços sem pêlos. Boca cheia. Língua farta. E os outros relevos. Geografias. Na faixa. Seu seio no meu. Sabemos quando encaixa. Nessa cama encontramos histórias. Solidões cruzadas. Tatuagens e seus tantos significados. Encontros. Nomes, vários. Chupávamos pitombas imaginárias ali. Nas bocas juntas ou separadas. Uma simples pergunta: posso te alisar? A unha pode te arranhar? Na sua coxa, agora sei o desenho. Talvez eu não veja mais. Será? Vi de pertinho seu furo no queixo. O voo da libélula é ligeiro. Transformações. Alguém está descobrindo novos desejos.
Jorge du Peixe no Circo Voador – O Baião Granfino de Luiz Gonzaga
Pela primeira vez, desde o começo da pandemia que nunca acaba, adentrei a madrugada sob a lona do Circo Voador. É um reencontro com o Rio de Janeiro, com o espírito da cultura livre, com a arte feita por gente. Viva o Circo Voador! Os portões abrem às 22h, mas nada começa antes de meia-noite. Talvez porque o rito exija a transformação, a fada do contrário, que à zero hora nos liberta da abóbora para a farra no palácio.
Era lá pra uma da madrugada quando Siba, primeiro show da noite, pisou no palco para esquentar e animar a plateia, com riqueza rítmica, bom humor e a poderosa carga política e carnavalesca de A Turma Tá Subindo.
A turma tá na rua e não vai mais parar Tão gritando alto pra você ouvir Acima de tudo não é seu lugar Abaixo de todos você vai sumir
Quase duas da madrugada, Jorge du Peixe e sua banda preciosa adentram o palco. Gente, não tenho mais idade pra varar a madrugada desse jeito, mas foi só os acordes e melodias imortais de Assum preto soarem na atmosfera pra eu lembrar que estava ali para reverenciar a obra de Luiz Gonzaga, sua Majestade o Rei do Baião, na leitura comovente de Barão Granfino, disco carregado de afeto que Jorge lançou em setembro de 2021 e apresentava ali, num retorno à luminosidade do Circo Voador, como eu.
Que alegria imensa, nesse junho em que o Ciclo Junino desperta do seu sono pandêmico, ouvir as canções de Luiz Gonzaga em interpretações tão bonitas, realizadas com tanto cuidado e respeito, evocando a modernidade e elegância que é própria do repertório que Jorge alinhou tão bem no disco, e que desfiou ali num palco do Rio de Janeiro como quem pisa o chão dos sertões de Pernambuco. Porque realmente o que Jorge fez não foi modernizar Gonzaga, e sim evidenciar o tanto que sua música é moderna, altamente contemporânea e perene. E assim, o fole roncou e a poeira subiu. Cheiro de São João no ar e a fogueira viva de uma banda profundamente comprometida com essa tradição de um povo, que resiste, insiste e se impõe na hora que a gente quer falar do Brasil
Um show que renovou minhas forças e minha fé.
Música a música, Jorge du Peixe transformou a pista em terreiro de festa do interior. Não decorei setlist porque tava encantado demais e envolvido demais pelo ritmo, pela poesia e pela dimensão gigantesca do mestre Lua., mas escutamos ali o disco inteiro, com algumas adições como O último pau de arara e Festa (Belo é o Recife pegando fogo / Na pisada do maracatu). Ao mesmo tempo que éramos transportados para um Nordeste mítico, a brasilidade desse mesmo Nordeste se declarava por inteiro, tornando irreal essa ideia de uma cultura separada. Tá tudo entranhado, Nordeste é Brasil. Luiz Gonzaga é artista brasileiro.
Voltamos pra casa quase às quatro da madrugada, enlevados, reconectados com a energia vibrante das nossas raízes, que se espalha pelos nossos galhos e folhagens e nos faz crescer. Hoje mesmo, enquanto escrevo essas notas, estou ao som de Gonzaga e do Barão Granfino.
Ai, ai, Baião, você venceu! Mas no sertão, ninguém lhe esqueceu
Longe do Recife, das fogueiras da minha rua de infância, lembrei do dia em que vi Rei do Baião no Aeroporto dos Guararapes, lembrei do meu pai, que na minha cabeça tem essa conexão com Luiz Gonzaga, talvez pela canção A vida do viajante, que foi a vida que meu pai levou. Gonzaga mexe com a gente e o Baião Granfino que Jorge du Peixe apresentou no Circo Voador nos devolve a um Brasil que prezamos, que queremos, pelo qual lutamos. O Brasil da alegria, da poesia, da festa do povo.
Viva o milho verde! Viva o São João!
PS. E ainda encontrei com Caru e Luiza!
Banda Voz: Jorge du Peixe Bateria: Bruno Buarque Baixo: Fabio Pinczowski Guitarra: Lello Bezerra Sanfona: Nanda Guedes Percussão e vocal: Sthe Araújo e Victória dos Santos
Assista ao bate-papo com Jorge du Peixe no AoVivo Kuruma’tá, de 29 de março: