Se você quiser — Poema de Vitória Gabriela

Poema de Vitória Gabriela — Se você quiser pode fazer tudo duas vezes /
só para garantir que foi feito direito /
se você quiser, pode não fazer nada
só para garantir que não estrague o que podia ser incrível /
mas daí você terá que lidar com a insistência do se /
que pode ser mais pesada do que o peso do é assim

Se você quiser, pode publicar sua poesia na Kuruma’tá. Foi isso que a Vitória Gabriela fez, enviando seu trabalho pra gente e enriquecendo nosso painel literário. Todos os dias a gente abre o inbox da revista com a esperança de poemas, contos, crônicas, devaneios, delírios… cultura em suas muitas formas, em sua diversidade linda.

Se você quiser

Se você quiser pode fazer tudo duas vezes
só para garantir que foi feito direito
se você quiser, pode não fazer nada
só para garantir que não estrague o que podia ser incrível
mas daí você terá que lidar com a insistência do se
que pode ser mais pesada do que o peso do é assim
se você quiser, pode não precisar chorar decepcionada
porém isso vai te custar a capacidade de alcançar o amor de graça
se você nega a vulnerabilidade você assina a cláusula de não estar aberta para a verdade
se você quiser, pode escrever poesia curta & ríspida só porque
gosta da rebulia que esse tipo causa, gosta de como soa a rebeldia
pode brincar com as palavras ousar rimar quando ignorada
ou não rimar porque afinal você não precisa provar nada
e Manuel já libertou a poesia da obrigação de ser rimada
se você quiser, pode dar a luz a si mesma e se tornar sua mãe
fazer de si sua filha, concluir que é disso que é feita a vida: harmonia.
se você quiser, pode ouvir Dylan e atrelar isso a sua fúria e inconsistência
em uma imagem de futuro, ou pode gabaritar artistas que como você
gritam no escuro, se você quiser…
se você quiser, pode beber um Martini ou um Cosmopolitan
como as heroínas das séries que ama, ou pode não beber nada alcoólico
porquê há ali uma linha tênue e você não quer se arruinar
você que ser como as mulheres que estão em molduras acima da sua cama
se você quiser, pode fazer tudo diferente: mudar de bairro, cidade, país
se endividar, pagar o que deve, endividar de novo e ir muito além do material
se jogar para as possibilidades, se encontrar com o chão do fundo do poço
pode abraçar ou vender sua ética, se tornar parte de uma floresta que te engole viva
pode ser o que quiser, fazer o que quiser, se você quiser pode se lembrar que é o que é.


Vitória Gabriela tem 20 anos (2002) e jeito com as palavras. Nascida em São Paulo- SP, filha de pais baianos, escreve desde a infância e atualmente além de possuir material disponibilizado on-line, participou da antologia Alma em Letras (Editora Exílio do Jaguar) e da antologia Poesia Viva 2022 (Coletivo Fomento Literário).


O destino de Jamerson

Texto de Toinho Castro — Jamerson olhou na direção do rio e se recusou a me entregar a bússola. Sabíamos, ambos, que suas esperanças eram vãs, mas nem por isso tive coragem de lutar com ele para tomar-lhe o artefato. Estávamos irremediavelmente perdidos, e o caminho que trilhamos era daqueles que se apagam logo atrás dos nossos passos.

Texto de Toinho Castro


Montagem sobre foto de Lais Castro Trajano [ CC BY-NC-SA 2.0 ], utilizando foto de Eberhard Grossgasteiger

Jamerson olhou na direção do rio e se recusou a me entregar a bússola. Sabíamos, ambos, que suas esperanças eram vãs, mas nem por isso tive coragem de lutar com ele para tomar-lhe o artefato. Estávamos irremediavelmente perdidos, e o caminho que trilhamos era daqueles que se apagam logo atrás dos nossos passos. À nossa frente estava a longa curva do rio que tanto buscamos em nossos sonhos e pesadelos.

Sentados na beira do rio, observando seu volume arrastar-se sobre a terra, fomos obrigados a falar um com o outro pela primeira vez desde nossa última discussão:

— Você se entregou, desistiu… ou veio comigo só para tentar impedir-me no final?
— Não haverá final, Jamerson. Não encontraremos as luzes. O mundo está mudando e você precisa entender isso.
— Então vamos nos perder onde elas se perderam…
— Eu quero voltar, Jamerson. Nem quero me perder… aliás, você confia demais nessa bússola.

Ele começou a atirar pequenas pedras na água.

— Não há para onde voltar. Parece que você não sabe disso, somos tão indesejados quanto as luzes. Espantaram tudo, clarearam a noite… não há refúgio. Eu procuro as luzes porque quero seguir para onde elas seguiram, para onde ainda há espaço pra gente como a gente.
— Eu não sou como você Jamerson. E dizendo isso não quero te ofender, nem criticar. É verdade. Eu vim com a esperança de te resgatar, ainda que no último instante… não cruze o rio, Jamerson.

Sorriu…

— E afinal suas esperanças são tão vãs quantos as minhas


Mais de amor | Texto de Marina Pereira Dantas

Texto de Marina Pereira Dantas — Meu amor, nunca dantes sentido, percebo um vazio se instalar em meu corpo de maneira gélida e descomunal. Sinto como se uma falta começasse a ser ensaiada e só tua presença resolveria todos os meus problemas.

Texto de Marina Pereira Dantas


Meu amor,
nunca dantes sentido, percebo um vazio se instalar em meu corpo de maneira gélida e descomunal. Sinto como se uma falta começasse a ser ensaiada e só tua presença resolveria todos os meus problemas.

Preciso de você em minha vida, do seu calor rápido em solucionar problemas frígidos e dar um sabor vivo ao que irá nutrir meu ser e me manter em pé.

Rogo por seu corpo robusto, compacto, preciso, com suas curvas permeadas de retas impetuosas e bem desenhadas, capazes de preencher minha casa, minha alma, dar vida a minha carne tão desnutrida.

Imploro por sua presença, por seu cuidado e desempenho. Sou sua, completamente sua. Desesperadamente sua. Sem você, penso que poderei definhar e morrer de inanição.

Desde aquela menção do nosso amigo em comum, que já lhe possuiu por inteiro, já caminhou por toda extensão de seu corpo e provou do sabor caloroso que só você consegue dar de forma íntegra, limpa e efusiva, rogo aos céus que meu dia chegue e eu passe a ser sua dona, pois sem você minha existência é mais trabalhosa.

Preciso passar meus dedos por sua estrutura, apalpar-te vagarosamente enquanto você apronta calorosamente o que vai nutrir nossa relação. Sentir o gosto que sai das tuas entranhas deslizar por minha boca até saciar minha fome, é o devaneio que me lembra o vazio nunca antes sentido e impele por todo meu corpo um sussurro de urgência em te ter.

A mera promessa de um dia ser tua dona e as possibilidades do que poderei fazer contigo me deixam desnorteada. É por você que o esforço despendido no trabalho assumiu um novo sentido. O tão benfazejo final do mês é logo ali e a tão sonhada remuneração há de encurtar nossa distância.

O peso que esmagava minha consciência na hora do almoço, passou a invadir o café, a janta e o lanche, tornando sua falta insuportável. Quanto tempo você vai me economizar? Quanta louça eu deixarei de ensaboar sob teu fantasma?

Ô meu amor
Volta depressa por favor
Há quanto tempo, já esqueci
Porque fiquei, longe de ti
Cada momento é pior

Volta no vento por favor…

É a única estrofe identificável de Madredeus por meu cérebro, enquanto tento esvair minha mente da sua suposta completude.
Querido micro-ondas Electrolux, mi 41 s, 31 litros, silver, estou pronta para lhe possuir.

A partir de foto de 19Tarrestnom65

A poesia de Jeová Santana

Jeová Santana chegando com sua poesia na Revista Kuruma’tá, via nosso inbox mágico, que só nos traz alegria e colaborações sempre preciosas. É Sergipe nas nossas páginas, com força e indignação pela palavra.

DOROTHY

Ó nossa devotada Dorothy
Dai o denodado destemor
Para derrotar os homens
De má vontade, sedentos
Das riquezas dormentes
Nos espessos veios da floresta

Deixai essa força dadivosa
Do vosso corpo mirrado
Quebrar a tunda do medo
Para só espalhar a festa
Dessa luz bruta do verde
Nos vastos mundos da floresta

A morosa pena da lei até pune
Quem não tem pena de nada
Mas logo, logo ficam fanfando
Os mandantes e mandatários
Que levam homens e mulheres
A não ver mais o sol da estrada

padre Josimo (1986)
Chico Mendes (1988)
Dorothy Stang (2005)
Raimundo Nonato Carmo da Silva (2009)
Zé Cláudio e Maria do Espírito Santo (2011)
Emyra Wajãpi (2019)
Maxciel Pereira dos Santos (2019)
Paulo Paulino Guajajara (2019)
Ari Uru-Eu-Wau-Wau (2020)
Reginaldo Alves Barros e Maria da Luz Benício de Sousa (2021)
Zé do Lago, Márcia Nunes Lisboa e Joane Nunes Lisboa (2022)
Bruno Ribeiro (2022)
Dom Philips (2022) …

 


TRÊS MERGULHOS NA GARGANTA DO BRASIL PROFUNDO

1. IGNORAR ANÚNCIOS

A conversa daquela juíza
Com esta anônima menina
Não me lembro de nada
Mais ferino na retina

Lembro sim, outra juíza
Que envia outra menina
À cela cheia de homem
Minha memória ilumina

Aquela juíza tão saudável
Com cabelo todo alisado
Nunca triscou na fome
Num quarto despejado

Aquela juíza de sobrenome
Não circulante na ralé
Nunca teve dor de dente
Nem tirou bicho-de-pé

Aquela juíza a querer
Ver a menina a parir
O fruto de um estupro
Faz a luz da vida ruir

Mas não posso imaginar
Em circunstância igual
Outra juíza viesse a usar
A mesma medida do mal

Preciso assim me agarrar
A esse único pobre fiapo
Senão me dano doido
Vou me agarrar ao Diabo

Pois só sob Sua batuta
Encaro tal desmantelo:
Nos olhos da tal juíza
Estou incólume a vê-Lo

24.6.2022

2. AMARGAZÔNIA

de novo
o mesmo filme
com cortes

de sangue
à sombra
do horror

a borrar
sem penas
águas infindas

tantas ideias
tanto amor
à causa verde

se acabarem
num saco
feito lixo

nem plantas
nem pedras
nem povos

o capital
não alisa
diz na lata

para ver
impunemente
passar boiadas

quer na bandeira
verde-amarelo
só desordem

assentar
no coração da selva
a bandalheira

3. QUINTILHA DA VERGONHA

ó minha pacata Umbaúba
batei o tambor da poesia
contra tribulação e tirania
para não veres filho teu
ser trucidado à luz do dia


Jeová Santana nasceu em Maruim-SE, em 1961. É professor titular da Universidade Estadual de Alagoas e da rede pública em Aracaju. É autor de Dentro da casca (1993; 2ª. ed. 2019), A ossatura (2002), Inventário de ranhuras (2006), Poemas passageiros (2011), A crítica cultural no ensaio e na crônica de Genolino Amado (2014), O internato como modelo educacional segundo a literatura: um estudo sob a perspectiva da teoria crítica (2015), Solo de rangidos (2016) e Estilhaços (2021). Participou das coletâneas Chico Buarque, o romancista: ensaios (2021) e Sobressaltos: Antologia de poemas contemporâneos brasileiros (edição bilíngue, França, 2022). É um dos colaboradores do site Brasil 247.


Os marcianos de Mercúrio

Texto de Toinho Castro


Os marcianos estão em toda parte. Estão em Mercúrio também, com suas plataformas e mãos sujas de sangue. Eles não se escondem no lado oculto do planeta. Na verdade não só não estão escondidos como se sentem bem à vontade, negociando escravos e planejando domínios no sistema solar. Como sei dessas coisas? Estive lá, negociei contrabando com eles nos becos escuros sob o chão rochoso de Mercúrio. Eles nos ignoram, com seus olhos grandes, e essa é a nossa sorte.

A astronomia deles não enxergou nada na terceira órbita do sistema. Há ali para eles uma zona nebulosa, de inexplicáveis lendas mas nada real. Nada concreto. Quando digo-lhes que venho do terceiro planeta eles caem na gargalhada; acham que sou um piadista. Passam perto da Terra com suas naves prateadas e translúcidas e não nos enxergam. Entendem as interferências dos nossos satélites em suas comunicações como ruídos de fundo do universo, defeitos em seus equipamentos, sonhos ruins.

Deixemos que sigam assim, pois são gananciosos e estão à procura de novos mundos para multiplicar suas dores e alimentar seus filhos tristes. 

Em Mercúrio, perto da fornalha do sol, construíram torres que não projetam sombras e enviam seus sinais para o centro da galáxia. Dizem que enviam sinais para seus irmãos, para os seus deuses que habitam o buraco negro em torno do qual todos nós giramos. Sabem que o sol vai morrer, sabem exatamente o dia e a hora nos seus calendários e estão a se arrepender.

Não quero voltar a Mercúrio, não quero mais encontrá-los. São os piores da sua espécie e mesmo em Marte não são bem vistos. Mesmo em Marte não contam tudo a eles e resta-lhes pouca confiança. Mesmo em Marte os evitam e celebra-se o dia em que partem para Mercúrio. E aqui mesmo, no terceiro planeta, caminhando pelas ruas, não dou as costas a Mercúrio, nunca. Pode ser que eles despertem, a qualquer momento, desse sonho estranho em que a Terra não existe.

Para Ray Bradbury


O defunto do teu pai | Texto de Marina Pereira Dantas

Texto de Marina Pereira Dantas — Conta meu pai que: — para dar conta das encomendas, fiz o roteiro confiado a mim por meu pai mais de cinco vezes, até porque na sexta parei de ouvir. Quando retornei para casa, a fim do velho conferir toda a carga, lá soube que faltava um bêbado. Nessa de não cabe mais nada e quem manda no meu carro sou eu eu e sob meu teto você respeita minhas ordens, eis que, o banco do passageiro, destinado inicialmente a minha namorada da rua de baixo, teve que ser aquecido por outra poupança, esfriando a minha por tabela.

Seja bem-vinda, Marina, à Kuruma’tá, com sua prosa boa de ler, com esse jeito de contadora de história, que enreda a gente nas palavras, parágrafos, cenários e gentes! Bom demais ler e compartilhar seu texto com nossa comunidade.

Texto de Marina Pereira Dantas

Foto de Marina Pereira Dantas

Certa feita, quando os carros não zuniam acelerados por aí de forma impessoal, meu avô pediu que meu pai fizesse uma viagem de Campina à Taperoá, para levar feira, tralhas e gente.

Conta meu pai que: — para dar conta das encomendas, fiz o roteiro confiado a mim por meu pai mais de cinco vezes, até porque na sexta parei de ouvir. Quando retornei para casa, a fim do velho conferir toda a carga, lá soube que faltava um bêbado. Nessa de não cabe mais nada e quem manda no meu carro sou eu eu e sob meu teto você respeita minhas ordens, eis que, o banco do passageiro, destinado inicialmente a minha namorada da rua de baixo, teve que ser aquecido por outra poupança, esfriando a minha por tabela.

O “dito cujo” era Abelardo, filho de dona Zinha e Neto do velho Manguara, que veio tirar a sorte na indústria têxtil em Campina Grande, para o descaroçar da fibra branca que tornou a cidade uma das maiores exportadoras do fio, atrás apenas de Liverpool.
Em matéria de sorte, o bendito tinha e era muita, destacou-se de Taperoá para Campina atrás dessa modernidade, fugindo da sina de tirador de leite, ao qual o pai, o avô e o bisavô tinham fundado.

Branco por branco, tentou um sólido em fibras que pareciam nuvens, quando as máquinas rodavam e iam dando crescimento as fibras, certas plumas se soltavam e pairavam pelo ar, dando ao trabalho repetitivo um ar singelo. Quem sabe assim deixasse seus sonhos mais pertos do céu?

Com o trabalho conseguiu comprar uma casa nova no alto, que também tinha branco no nome, o Alto Branco, bairro mais afastado do centro e mais barato, por consequência. Lá foi um pai de família. Casou com a filha da dona da venda em frente a fábrica, com quem teve cinco encostos.

Foi neste tempo que a sorte grande diminuiu um pouco, os cinco filhos, logo após crescidos, passaram fugitivos da derrocada dessa suposta candura e foram buscar refúgio no oco do mundo. Alguns chegaram a ocupar cadeira de professor, enquanto outros não têm notícias até hoje.

A fábrica vinha de mal a pior e então fechou. Sumiu da noite para o dia. E os filhos passaram a ser a aposentadoria de Abelardo, mandando apenas o sustento, sem qualquer visita. Afinal, nem todo couro fica inteiro após ser esfolado.

Mandavam certas reservas aos pais, pelos Correios. Todo mês um envelope branco com letras negras: Ao Sr. pai Abelardo Pereira Costa. Nada mais.

Numa dessas, os envelopes foram ficando atulhados nos Correios, até que começaram a ser devolvidos pelo entregador ao remetente. Foi aí que a esposa de Abelardo foi pedir ajuda ao meu avô, ela era analfabeta, mulher que não sabia das coisas. Terminou de ser criada por Abelardo e só sabia lavar louça. Precisava de gente entendida para ver se dava jeito na murrinha do marido.

Nesta altura meu avô fez as vezes de um chefe de família, foi tentar pegar os envelopes nos Correios, mas eles já tinham voltado. Tentou encontrar o endereço dos remetentes, mas eles nunca informaram de onde exatamente vinham.

Sem solução, tentou acudir Abelardo. Tirou ele do quarto úmido e levou-o ao sol. Tentou conseguir Doutor que desse jeito na tosse, sem solução.

O jeito que teve foi de deixar a viúva de Abelardo se acomodar em sua casa e deixá-lo em Taperoá, para ser enterrado com seus parentes, como é o costume da família, com meu pai de motorista, sob ordens de vô.

Nesse caso, foi pai e Abelardo para Taperoá. Nas curvas Abelardo ia tentando mais proximidade, ao que pai respondia: — Sai pra lá Abelardo, deixa de teu enxerimento! Sempre fosse um homem sisudo e agora estais inventando moda?

Curva outra, tome um rela coxa. Uma mão boba pelo braço e outro espasmo do meu pai: – Sai pra lá, Abelardo! Fica quieto que tu é carona e eu te deixo na estrada!

Chegando em Taperoá, as despedidas foram rápidas, sem muita cerimônia. Muitos agradecimentos por parte dos parentes e muita devoção ao meu pai e avô foram dados como garantia. O ano era de eleição e a parentada votou no candidato de vô. Todos ficaram agradecidos, menos a namorada de pai da rua de baixo, que teve que ir no ônibus do sábado, solteira. 


Aposto

Texto de Daniel Ribas — Ontem, quando éramos crianças em meio a grãos amarelados de inocência, brincávamos de quem segurava a respiração debaixo d’água ou quem nadava mais longe enquanto nossos pais olhavam para o lado.

Hoje recebemos uma colaboração preciosa, do amigo, parceiro e agitador cultural, Daniel Ribas. É uma grande alegria pra Kuruma’tá esse texto. É, certamente, o primeiro de muitos!

Bem-vindo, Daniel!

Texto de Daniel Ribas


Ontem, quando éramos crianças em meio a grãos amarelados de inocência, brincávamos de quem segurava a respiração debaixo d’água ou quem nadava mais longe enquanto nossos pais olhavam para o lado.

Hoje, após beijos debaixo dos raios azulados de nosso senhor, trocamos votos de que aguentaríamos nossas bagagens e pesos internalizados. Testamos nossos amigos que não acreditavam que a vida pode ser direta em meio as ondas que criamos. De novo, um concurso de quem iria se distanciar mais, com a intenção de mantermos-nos ao lado do outro.

Amanhã, sentado na poltrona marrom carcomida por boletos e bulas, você seguiu e sumiu no horizonte. E eu olho para o mar, parado, prendo a respiração, descanso os braços e permito que a correnteza me conduza a seu encontro.


Daniel Ribas é um leitor que escreve. Jornalista e escritor, tem livros publicados e colabora com diversas iniciativas culturais.

A poesia de Wendel Golfetto na Kuruma’tá

O Inbox Mágico da Kuruma’tá nos brinda hoje com a poesia do Paulistano Wendel Golfetto. Pra nós é sempre essa alegria, que alguém nos escreva um e-mail dizendo que escreve poesia, ou crônica, ou o que seja, querendo publicar com a gente. Felicidade essa de ver as pessoas se engajando no projeto independente, livre, da Kuruma’tá. Seja bem-vindo, Wendel. Seja bem-vinda sua poesia.

Montagem sobre fotos de Miss Pueblos mágicos e Lucas Pezeta

A Dama de Preto

Nas ruas lavadas pela chuva,
Em desesperado vagar,
Pela madrugada de corpos
Esculpidos em curvas,
Estava a te procurar.
No copo,
A encerrar o vinho,
Mantenho-me fixo
Em eternizados segundos
De um olhar desnudado.
Sua língua a umedecer lábios que sucumbo
Em ardente vermelho,
Refletindo beleza no imponente espelho,
Na suntuosa noite de um céu cinza-chumbo.
Em teu sorriso discretíssimo,
Meu pensamento
Residente no vácuo
De uma taça com destilado líquido.
De seu cabelo solto em sua tez,
Em sono que a encobre com delicada seda,
O despertar de um sentido adeus,
Que no peito se hospeda.
O amor que goteja
Dilui-se em litros na sua presença,
Sob o abrir de seus lindos olhos,
No devastador leito de um ninho.
Despeço-me com o desinteresse fingido.
Deveras, não mais vejo a beleza no mundo
De luzes que fascinam os trópicos úmidos
– Tão somente em noites góticas contigo.

 


Fantasma

Um fantasma no móvel escultural,
Soprado no assovio de uma ventania,
No apagar de luzes de um dia invernal.
Os ponteiros a apontar para o leste
– açoitada visita sem hora marcada –
No apogeu de sombria madrugada.
De origem fétida – matéria orgânica.
Criatura: peço-lhe que a minha casa não infeste.
O que desejas, ser, que a mim causa repugnância?
Digo-vos: vinde diretamente do profundo.
Foste convocado ao inferno.
Causais-me assombro.
Se nem mesmo criaturas imundas assassinei,
Por que seres malvados não assombrais?
Por que minh’alma fora reprovada?
Dizei-me!
Como arauto apocalíptico
Em sua mente lhe trouxe mortes bizarras.
Como quereis seja sua beleza desfigurada?
Seus atos de bondade de nada lhe serviram.
Assassinaram tua esperança, cidadão distinto!
Não há vaga em celestial vida vagarosa;
Mandá-lo-ão aos quintos sem demora.
Mas e o Deus paterno?
Castigai-me!
Salvai-me!
Não pesarão os pais-nossos rezados aos milhares
Sem contar as preces em que fui citado?
Quem te disseste?
Rezaste só por ti
E o fizeste em falsidade.

Ademais, não existem dois serem distintos.
A dualidade é imanente a toda criatura,
Mesmo a mais excelsa.
Deveria ter notado que neste mundo
O comando é o da vontade,
Da natureza que canta os ditames
Sem clemência ou piedade.

O sofrimento é a ordem.
Mata-se de forma copiosa.
Por que achaste que do outro lado
A vida seria plácida e tediosa?
Neste mundo não há sequer espaço.
Após a caçada,
O tédio engana,
No silêncio do pavor que antecede
A penetrada de nova lança.
Quem está lá?
Todos que conheceste em vida,
Exceto os poucos que amaste.
Encontrarás novamente os tolos,
Os invejosos, os falsos,
Enfim, todos os teus amigos!
O que lhe parece?
Eis o inferno!

Mas prega-se na casa do Senhor
A salvação para os que Nele creem.
A casa do Senhor é no descampado,
No tumular noturno das presas.
Ser frágil – imprestável!

O onipresente está na alma de quem caça ou da presa?
Grita dentro do predador pelo êxito da morte iminente
Ou no âmago da carne dilacerada da vítima em
ardência?
O que representa a ti um inseto?
Não sei
Quantos mataste?
Muitos,
Mas qual a importância disso?

Vede!
O fizeste porque lhe pareceram insignificantes.
E o que haveria de ser tu a um Deus, criador do
Universo?
A tua vida é um cuspido no chão sujo.
Os vergéis do paraíso são delírios
De mentes desesperadas.
Somente os mais sábios já previam a infinita caçada.
Não acordarás.
Teu corpo cintila no frio
Da massacrante noite estendida.
Teu sonho de infância se realiza.
Tens agora o poder de voar,
Após vida adulta extinta.
Teu pouso não será neste mundo.
No teu desterro fenecerás,
Na infinitude contagem tumular dos segundos.

 


Inverno Interior

Egresso do inverno interior,
Não mais me reconheço
No espelho de oblíqua noite.
Em mim, o atroz frio cortante
— sensação de iminente horror —
Já não sei o que alucina, o que é torpor.
Nefando lampejo,
A sombria estação
Congelou os pássaros no parque.

O lume brilha fosco,

A noite tremula em cintilante febril,
Tudo escoa no ser de foz horripilante.
Nesse diapasão,
O frenesi despertar
De aguda dor da morte,
Nascida de minhas tristezas,
Prometendo me libertar
Do fardo castigo da eternidade.

 


Locus

Emboca e se desloca,
Embora se conforte na desdobra,
Na oca de cada cumbuca
Se estufa na tumba da retranca
Entravada no agonizante flutuante,
No desgosto tosco do enrosco dos outros,
De nossos futuros obscuros, confusos e sujos.

Arcos amarrados nos barracos,
Estados preclusos e inacabados,
Buracos profundos e elucidados,
Mentes doentes e incontinentes,
Diabos cansados e perturbados,
Criaturas imundas e divergentes.

Moralmente ilegais e inconsistentes,
Seres necrófilos, indecentes,
Seres humanos insuportáveis e indolentes.

Que, entretanto, andando por aí percebi
Sem sentir a fraqueza quase demente
De pessoas horrorosas, odiosas,
Tidas como inescrupulosas,

Que são todos gente!


Wendel Golfetto – Nascido na capital paulista, formado em Direito pela PUC/SP e servidor público. Divulgação de poemas na internet:  https://www.instagram.com/sanatoriodamente/

No Dia Nacional do Maracatu, relembrando o seu primeiro registro fonográfico

Por Luiz Ribeiro Fonseca

Dona Santa, rainha do Maracatu Elefante, em um retrato
do acervo da Fundação Joaquim Nabuco

No dia 01 de Agosto, celebramos o Dia Nacional do Maracatu, símbolo tão importante da identidade brasileira. Essa manifestação de matrizes africanas se dá principalmente no estado de Pernambuco, e é dividida entre Maracatu de Baque Virado, mais tradicional, e Maracatu de Baque Solto, criado por grupos nascidos no interior do estado no início do século XX.

Derivada da coroação dos reis do Congo do século XVIII e das cerimônias do Xangô e da Jurema, o Maracatu desfila nas ruas de carnaval do Recife ao som de instrumentos como o gonguê e a alfaia, compondo uma orquestra percussiva que costuma se apresentar com mais de 30 músicos e apresenta, dentre outras figuras, o Caboclo de Lança e a Calunga.

Entretanto, o primeiro – e pouquíssimo discutido – registro fonográfico da manifestação, a canção homônima “Maracatu”, se deu a partir de uma instrumentação composta apenas por piano e voz: gravada nos estúdios da Odeon, no Rio de Janeiro, em 1929, a canção foi composta pelo maestro pernambucano Waldemar de Oliveira a partir de um poema de Ascenso Ferreira.

Com estrofes que narram o longo e violento processo de tráfico de escravizados sob o ponto de vista dos próprios oprimidos, a gravação foi executada pelo piano sincopado de Nelson Ferreira – que se destacaria futuramente como um exímio compositor de frevo – e pela soprano Alda Verona, que entoava: “Luanda, Luanda, onde estou? Luanda, Luanda, onde está?”. “Maracatu” evoca também a potência das musicalidades negras no Brasil, destacando os “batuques de ingonos” e as “cantigas de banzo” das toadas maracatuzeiras que se tornariam parte da identidade pernambucana. Como resultado do encontro, a obra torna-se parte do recital de Verona – também conhecida como Celeste Brandão – no consagrado Teatro Santa Isabel, localizado na capital pernambucana.

Nelson Ferreira, um dos responsáveis por levar o Maracatu para a Odeon.

Em 2014, cerca de 85 anos depois da primeira gravação do gênero, o Maracatu de Baque Virado foi alçado à categoria de Patrimônio Imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Posteriormente, a partir da PL 397/2019, instituiu-se o 01 de Agosto como o dia nacional do Maracatu.

Dessa maneira, relembrar a obra de Ascenso Ferreira e Waldemar de Oliveira – que ainda seria regravada por Alceu Valença no álbum Cavalo de Pau (1982) – significa resgatar um pequeno retrato que evoca o processo de diáspora africana e marca as primeiras relações entre as musicalidades negras e a indústria fonográfica ao longo do século XX.

Encontre “Maracatu” nas versões de 1929 e 1982.


Luiz Ribeiro Fonseca é jornalista e mestrando em Comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (PPGCOM-UFF). Pesquisa fonogramas de maracatu gravados na primeira metade do século XX.


Sobre o livro Não queria bonecas Gostava de flores, de Tays Melo

Que prosa boa a de Tays Melo, que prosa forte. Esse texto pequeno é pra dizer do seu livro, Não queria bonecas, gostava de flores, trabalho selecionado no Prêmio Literário Lúcia Giovana, da Secretaria de Cultura da Prefeitura de Areia, na Paraíba, via Lei Aldir Blanc. E viva a Lei Aldir Blanc.

Texto de Toinho Castro

Que prosa boa a de Tays Melo, que prosa forte. Esse texto pequeno é pra dizer do seu livro, Não queria bonecas, gostava de flores, trabalho selecionado no Prêmio Literário Lúcia Giovana, da Secretaria de Cultura da Prefeitura de Areia, na Paraíba, via Lei Aldir Blanc. E viva a Lei Aldir Blanc.

Lida a seleção de crônicas que costuram o livro, a vontade que dá é de sentar numa esquina de Areia, numa noite neblinosa e possivelmente assombrada, pra beber uma cerveja e observar Areia passar e transmutar nessa substância mágica que percorrer a escrita de Tays. Escrita de mulher que transcreve a cidade , e que pela cidade é transcrita. Escrita de mulher que cresce nesse mundo de homens no comando. Escrita rebelde e indomada, escrita de Basta e Chega. Também escrita de Repara só! Nas coisas, nas ruas, nas pessoas. Também nos jeitos, nos preconceitos, nas negações e portas que se fecham se você é mulher, se você é menina. Escrita de coragem. A escrita é a arma de Tays, e também bandeira e alento.

Eu poderia ter cresci assim, uma delicada mocinha entendida e submissa apenas ao que cabia ao meu gênero. No entanto, mais do que “coisas de menina fêmea”, aprendi com meus pais, com a escola e a sociedade que ser menina era um grande tédio. Ensinaram-me claramente que eram as coisas mais divertidas feitas apenas para os meninos e, ainda que não fossem produtivas como os adultos gostariam, aos meninos eram permitidas.

Em Não queria bonecas, gostava de flores, Tays vive a cidade, vive Areia. E o que lemos é esse enredado de gente e ruas, e os modos e maneiras em que Tays, narradora, personagem, misturada e separada, transita nesse espaço. E de como ela extrapola, maior que singela malhar urbana e social, cultural. De como ela se amplia a cada passo rumo a suas histórias.

Que livro bom de ler, feito de luta e também de leveza. Como se Tays me pegasse pela mão e me levasse pra conhecer esse universo modular de cidade e mulher, e como uma se insinua na outra, como uma impacta a outra. E disso nasce essa literatura, que em mim vira leitura e uma vivência compartilhada, que me faz saber de Tays, de Areia e da neblina que cedo ou tarde, a tudo cobre.

Eita, prosa boa.


Mais Tays Melo na Kuruma’tá!