A grande festa democrática de Lula no Recife, pelas lentes de Ana Vallestero
Bem-vinda à Kuruma’tá, Ana Vallestero, com essas imagens incríveis daquilo que a gente quer que o nosso país seja, uma festa da diversidade, do afeto, da energia poderosa das gentes, das muitas vozes e sorrisos! A gente só agradece por esses registros!
No dia 14 de outubro o Recife provou a sede do Pernambucano por mudanças. As ruas do Parque 13 de Maio e o caminho pela Avenida Conde da Boa Vista até a Igreja do Carmo, percurso da comitiva, tingiu-se de vermelho nas veias da Cidade que pulsava o desejo e a esperança por um novo País. Um Brasil inclusivo com um líder que não prega o ódio. Lágrimas corriam de forma espontânea dos rostos de um povo que tão rico em conhecimento e cultura acabou sendo alvo da ignorância, uma alienação vestida de polaridades que nada mais é que um mecanismo para entreter a nação enquanto a corrupção passa as suas costas. Não somos um povo dividido, o Brasil é a pátria do amor e qualquer pessoa que pregue o oposto não deve ser ouvida. E foi essa a mensagem do Candidato Lula enquanto balançava as bandeiras do Brasil e da terra dos altos coqueiros e das mentes iluminadas pelo sol.
— por Ana Vallestero
Todas as fotos por Ana Vallestero
Publicitária de formação, se autodenomina Artista Audiovisual, sempre vê oportunidades onde veem limites, por isso está sempre crescendo e se descobrindo. Pernambucana de nascimento, mas com asas tão grandes acaba sendo uma cidadã do mundo, enquanto temos apenas esse para existir.
“Sol, você merece o sol” — Habilidades extraordinárias é o disco novo de Tulipa Ruiz
Queria que toda primavera trouxesse um disco assim. Lançado no último dia 23 de setembro em tudo que é plataforma, Habilidades extraordinárias (Brocal, 2022) é o quinto disco da cantora e compositora, e ilustradora, Tulipa Ruiz! Eu poderia entrar numa assim de dizer que o disco foi gravado no modo analógico, com rolo de fita. Ou que é o primeiro de músicas inéditas em sete anos… Mas prefiro começar dizendo que é um disco muito foda. De arrepiar.
Na primeira música já pensei em mim mesmo, anos atrás, lá no Recife, indo na loja de discos para investigar as novidades e comprar algo que me surpreendesse. E você encontrar um disco como esse, assim, do nada, é incrível. É esse meu sentimento. Falo assim porque, preciso admitir agora, conheço pouco o trabalho da Tulipa. Sei dela, sei que arrasa, porque tenho amigos que não me deixam viver na ignorância. Jorge Lz me falou de Tulipa, a Anne Rocha, célere fada que salpica na minha vida música feita por mulheres, me falou de Tulipa… Mas a gente não dá conta de tudo que quer saber e amar.
Mas hoje dei com Tulipa e seu discaço, nem sei como, por acaso, revirando não a lojinha de discos mas os becos da internet. E já me pegou no coração a música que abre o disco, Samaúma.
Vou misturar vogais com sementes Vou fazer uma bolsa de água quente Vou tingir com terra os meus quadris Delírio quando encosto meu corpo no rio
Diria que por conta da tal da captação analógica das canções (adoro essa palavra… canções), o disco essa textura orgânica, algo aquecido e aveludado, mesmo na hora da porrada. Porque tem porrada. Mas prefiro atribuir isso à gente que tá ali, manipulando sons e palavras, gente movida a sangue nas veias e sistemas nervosos pipocando clarões entre versos e acordes, pois. A voz de Tulipa é uma água límpida que vai achando o caminho, ou melhor, abrindo caminho na mata complexa dos meus pensamento e formando cristais.
A primeira impressão é: Música de verdade. Música de gente reunida, que se faz presente. Música afirmativa, rebelde, poética. Desses trabalhos que a gente joga na cara de quem diz que a música brasileira morreu, que o rock morreu (vi a Rita Lee pontilhada aqui ou acolá?!). E nesse disco a gente tem noção clara da força criativa feminina que impulsiona essa cultura brasileira a todo vapor. Outro dia comentei que a melhor música produzida hoje em dia é feita por mulheres. Habilidades extraordinárias seria prova disso, se algum distraído por aí precisasse de prova.
Tulipa, aliás, é ganhadora de Grammy, sabe?! Não que pra mim isso seja medida do que quer que seja. A mim basta a energia que ela exala, a qualidade inquestionável do que faz e o amor antropofágico, incontido, com que ela faz essas canções.
Produzido pelo irmão de Tulipa, Gustavo Ruiz, o disco traz participações de Negro Leo, Jonas Sa e… porra, JOÃO DONATO, fechando o disco em parceria com a belíssima, gostosa, O recado da flor.
Nessa primeira primavera depois do ciclo mais devastador da pandemia, esse disco vem como um anunciador de manhãs, um expurgador da dor que passamos, um chamado para a dança, para o encontro, para cantar junto. Uma afirmação da poesia que é sobreviver, se desembaraçar das redes lançadas para nos deter. E sair assim, com integridade e cabeça erguida.
Posso ficar falando, escrevendo, debatendo Habilidades extraordinárias com vocês, mas bom mesmo é ouvir, em looping, que nem criança que pede pra escutar a mesma história outra vez. Disco de amor à primeira vista, disco de comprar e correr pra casa pra ouvir. Disco pra ligar pra melhor amizade e dizer: Tu não sabe o som que ouvi inda agora?!
A primeira vez que dobrei os joelhos, não carregava pecados, eram pequeninos os meus olhos, minhas mãos, cabiam como pérolas em concha, enquanto outra mão fazia o sinal da cruz.
Ajoelhei-me seguidamente enquanto crescia, entregando a Deus meus pedidos e promessas com a ingenuidade dos que não sabem o que é pecar.
Os calos, sinal dos tempos, deixaram minha pele seca tanto quanto meus olhos, parecia ser o amor coisa insana, de doer na carne, véu que não se pusesse, desonra e castigo, o prazer, momento de elevar a alma, se tal casta, tudo de não se encaixar, de não se entender, “é mesmo louca… aos ouvidos se falava a deixar-me emudecer.
De pé, tudo parecia longe, cansaço constante só de pensar, mas, à margem de um sinuoso caminho, entre barro, mata e espinhos, também nasce flor, planta que guarda água, sombra que resguarda, sol que surge depois de tanta escuridão, e a luz se faz, e o corpo se refaz, hora de recomeçar.
De nada faço pena, não crio mágoa pra não ter que voltar no tempo levando desavenças perdidas, coisa mesquinha vira migalha, joelhos dobrados, e isso, não mais.
Se faltar força pelos idos de tanto correr, deixo pegadas para que me alcancem, novos andantes, todos muito falantes, estes, aprenderão comigo a não se dobrar .
Cantora e compositora, Ana Egito é uma artista com trajetória internacional. Aclamada por crítica e público por sua performance e voz afinada seu primeiro contato com a música veio através dos Festivais da Canção e sua carreira profissional teve início na década de 1980, tendo como padrinho e mentor o saudoso cantor e ator Ivon Cury. Ele a levou para se apresentar como caloura no programa de TV “Cassino do Chacrinha”. Naquele dia ela ganhou o prêmio e foi convidada para participar da “Caravana do Chacrinha”.
Joaquim Camburão
Texto de Toinho Castro Para Luiz Antonio Simas
Jangada no Estado do Rio Grande do Norte, setembro de 1970. Arquivo Nacional. Fundo Correio da Manhã.
Caríssimo Simas,
tomo a liberdade de te escrever esse texto por conta da leitura do seu livro, Santos de casa: Fé, crenças e festas de cada dia (Bazar do Tempo, 2022), editado pela Bazar do tempo.
Que viagem pelo Brasil, pelos nossos caminhos e descaminhos enquanto povo em permanente formação. Lembrei dos versos de Haiti, de Gil e Caetano:
E a grandeza épica de um povo em formação Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Lendo seu livro, os sortilégios, mandingas, orações, receitas, encontros, visagens, percorri novamente minha infância, minha família, que se constituiu e se espalhou, unida pelo fio, tênue, às vezes, da fé. Mas sobretudo unida pela festa, pelo terreiro e pelas histórias que vivemos e aprendemos a contar. Que livro bonito e nosso.
Mas o que me traz até essas linhas que escrevo, foi São Longuinho, de quem puder ler o que se sabe e o que não se sabe, o que se inventou, imaginou ou adivinhou de sua vida e seu martírio, do destino de sua lança.
Moro no Rio de Janeiro desde 9 de fevereiro (Dia do Frevo) de 1997, quando desembarquei no Galeão vindo do Recife. E com a passagem da vida e dos anos, fui me acostumando com o chamado a São Longuinho, a fim de encontrar objetos perdidos, bem como com o três pulinhos, para agradecer ao Santo ao fim da busca bem sucedida. Recordo um amigo, que tendo perdido a chave de casa nas areias da praia do Leblon, de madrugada, e levemente embriagado (Talvez um pouco mais que isso), rogou a São Longuinho e prometeu-lhe mil pulinhos! Vagando pela praia, sem esperança, deu com a chave e cumpriu a oferenda inflacionada dos mil pulinhos.
E digo que tive que me acostumar porque cresci com outro rito, muito distinto. Em nossa casa, para encontrar o que quer que se perdesse, invocámos Joaquim Camburão, a quem agradávamos, ao encontrar o que procurávamos, jogando-lhe a esmo algumas moedas. Não havia nenhum chamado específico, nenhuma oração. Apenas pedíamos: Joaquim Camburão, me ajude a encontrar tal coisa, isso ou aquilo. Costumávamos jogar as moedas pela rua, onde possivelmente acabariam encontradas, talvez, por alguém que precisasse delas.
Joaquim Camburão, pois, era como um membro secreto da família. Não lembro de ter visto quem quer que fosse apelar a ele em outros lugares, outros núcleos familiares, cidades, etc. Parecia-me, porém muito natural, e eu acreditava que todos recorressem a Joaquim Camburão. Até chegar no Rio e dar com São Longuinho. Senti-me possuidor de um mistério. Cúmplice de uma sociedade secreta.
Quando li seu livro e esbarrei com a história de São Longuinho, tudo isso me veio ao Juízo. Liguei pra minha irmã e perguntei-lhe, afinal, de onde vem essa história de Joaquim Camburão. Consultando os mais velhos, disse-me ela que tratava-se de um pescador, da região da praia de Touros, no Rio Grande do Norte, de onde vem minha linhagem maternal, que procurava por pessoas perdidas no mar. Ele mesmo, por fim, teria desaparecido, em meio a algum temporal, e a partir de então todos dali passaram a chamá-lo quando precisavam encontrar algo que se perdera.
Quando criança, a imagem de Joaquim Camburão me assombrava. Podia imaginar seu vulto, uma vez que o chamávamos, revirando a casa para revelar as coisas perdidas. Havia um assombro e também um alívio. Algo de protetor, de espírito do lar, cristalizava-se na imagem de Joaquim Camburão. E até hoje o invoco com solenidade, com respeito, sempre, antes de pedir, me certificando de que tenho as moedas para a oferenda.
Até hoje, enquanto te escrevo, numa casinha em Ilhabela, para onde vim passar uma mini-férias, com seu livro debaixo do braço, me pergunto quem mais saberá de Joaquim Camburão. O quanto desse rito se perdeu ou vai se esvaindo enquanto os mais velhos vão indo embora. E penso: que ele mesmo não se perca de novo. Invocá-lo sempre, para encontrá-lo.
No mais, obrigado, Simas. A leitura do seu livro foi estimulante em muitos sentidos, sobretudo nesse momento em que vivemos, e precisamos nos agarrar a quem somos.
Abraço fraterno,
Toinho Castro
Jangada no Estado do Rio Grande do Norte, setembro de 1970. Arquivo Nacional. Fundo Correio da Manhã.
Se liga: EM BUSCA DE 40 POEMAS – Projeto “Versão brasileira: a voz da mulher”
Gente, a Kuruma’tá recebeu essa dica preciosa e está repassando pra você, com muito carinho” Se liguem!
Até o dia 1 de novembro, o projeto “Versão brasileira: a voz da mulher” vai selecionar 40 poemas inéditos de pessoas que se identificam como mulheres para fazer parte de uma coletânea digital. Os versos devem contemplar a Independência do Brasil sob a perspectiva da mulher, de uma forma plural, subjetiva e até os dias de hoje, e, para concorrer, a candidata deve morar no Rio de Janeiro e se inscrever através do formulário:
A ser lançado em janeiro de 2023, o livro virtual já terá os versos de sete autoras convidadas: Bruna Mitrano, Claudia Roquette Pinto, Danielle Magalhães, Maíra Ferreira, Milena Martins Moura, Heleine Fernandes e Diana de Hollanda, idealizadora, coordenadora geral e curadora do projeto, que prevê, ainda, podcast, sarau e vídeo sobre o processo criativo das poetas.
“Versão brasileira: a voz da mulher” tem patrocínio do Governo do Estado do Rio de Janeiro e da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, através do Edital Retomada Cultural RJ2.
Eu liberdade
Chegando uma nova voz na Revista Kuruma’tá! É a Cantora e compositora, Ana Egito, que tem uma super trajetória musical e esse talento para escrever que você confere em seu primeiro texto para a nossa comunidade! Bem-vinda, Ana!
Antes que me diga que estou só, lhe digo, esta é a minha casa, onde não escondo minhas asas, vontades, aptidões, nada e nem ninguém pode sobrepor a paz que almejo, nenhum ladrão me rouba o sono, nem mesmo a chuva emudece meu canto, ao contrário, me encanta o ritmo que as gotas promovem junto às folhas, os galhos são marquises que não me deixam encharcar.
Do alto, consigo ver os porões dos dias cinzentos, ao mesmo tempo, apuro os atalhos verdes e ensolarados onde outros cantos se juntam ao meu, resistimos aos predadores na camuflagem da paisagem que ninguém vê, nós sim, somos poesia viva das cores que encantam os homens que também querem aprender a voar.
Se meu canto falasse, seria sim, em alto e bom som, se meu canto chorasse, seria não, talvez nunca mais, se meu canto é canto por puro que é só ser, ele é esperança, bondade, beleza que não se esnoba, liberdade que não se acaba, pequenos vôos de fazer-se ninho, grandes sonhos de inúmeros laços.
Sim, esta é a minha casa, sem portas ou janelas, à sombra, você pode repousar.
Cantora e compositora, Ana Egito é uma artista com trajetória internacional. Aclamada por crítica e público por sua performance e voz afinada seu primeiro contato com a música veio através dos Festivais da Canção e sua carreira profissional teve início na década de 1980, tendo como padrinho e mentor o saudoso cantor e ator Ivon Cury. Ele a levou para se apresentar como caloura no programa de TV “Cassino do Chacrinha”. Naquele dia ela ganhou o prêmio e foi convidada para participar da “Caravana do Chacrinha”.
Era uma vez Josélia, uma ninfeta saltitante por entre as veredas da caatinga, andava com os pés descalços partindo seixos e os cabelos soltos em crinas.
Tá de brincadeira, amiga? Vão me chamar de ju-men-ta! Só faltou colocar os cactos do sertão, soltar um oxente mainha e dizer que parti em retirada para ver o mar. Argh! Tenha paciência. Não quero a minha história contada assim não, olhe, estais me saindo como uma péssima escritora. Melhor eu ir pegar a ficha para as autoras de renome, porque você nem para arremedo tá servindo.
Era uma vez Josélia, uma mulher refinada da alta sociedade, política de berço e família de terras. Seu sobrenome abria-lhe portas, escancarava janelas, tirava cisco do olho e fazia o sol nascer. Contudo, pela lei do berço, o nome que outrora a encastelava, descobriu não ser da sua linhagem. O infortúnio assolou seu destino de forma inesperada. Na idade da donzela, quando o coração é o órgão central da existência, viu seu amor romântico pintado com as cores do incesto e a fantasia da família desmoronar.
Josélia? Vai contar a história de Josélia? E não era a vez de Amélia, depois a minha e aí sim é que seria Josélia?
Nada disso, Juliana! Eu por último, coisíssima nenhuma! Assim que a digníssima veio para a cerimônia de escrita, eu já puxei a cadeira e cá estou esperando a princesa começar o tec, tec no teclado. É muita comiseração perpassada para sair duas linhas.
Josélia, você é baita de uma fura fila! Já estou aguardando essa lerda e seu tec, tec há três histórias atrás. Não só eu, mas foi assim com Bibi, o cara morto, Amélia e as mensageiras. Aí vem a lindeza e simplesmente passa na frente?
Não tenho culpa se não prestam para musas inspiradoras, coach de protagonismo, psicologia de botequim ou fantasma na hora de descanso. Eu me empenho em me ver finalmente com vida, alegrando algumas horas dessa louca. Acha fácil disputar espaço na mente barulhenta dessa infeliz? Dancinha da moda; música nova lançada; lembrar de comer; fazer feira; responder as mensagens; angariar clientes; tentar vê-la calma, concentrada, com coragem para finalmente sentar e escrever? É uma roleta russa sem fim! O que é pior, porque se tivesse, já teríamos desistido e partido para outra literata.
Ah! Pois já que a beldade acha tão difícil assim, pode sair da cadeira; é a minha vez. Vá andar atrás de escritoras de renome, vá! Juliana e eu não fazemos questão alguma.
Concordo com Amélia!
Nada disso, minhas queridas! Tenho um parágrafo inteiro escrito, se atrapalhar o fluxo da belezinha, já sabem, ela para tudo e temos um novo carrossel de coitadismo. Meu trabalho vai por água abaixo. Então…
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Nem mais um piu | Texto de Marina Pereira Dantas
— Já disse várias vezes, eu não sei quem ela é. Juro! Deve morar pelo caminho e me ver passar todo santo dia quando vou e volto do trabalho. Eu sou um homem conhecido, único médico da cidade, você acha mesmo que eu não serei visto e as pessoas não irão saber quem eu sou? A questão é que eu não dou trela. É uma criança escrevendo carta de amor com essa letra tão desenhada. Você leu?
— Já disse várias vezes, eu não sei quem ela é. Juro! Deve morar pelo caminho e me ver passar todo santo dia quando vou e volto do trabalho. Eu sou um homem conhecido, único médico da cidade, você acha mesmo que eu não serei visto e as pessoas não irão saber quem eu sou? A questão é que eu não dou trela. É uma criança escrevendo carta de amor com essa letra tão desenhada. Você leu? É apenas uma menininha qualquer apaixonada…nada se compara a você, meu amor. Vou trabalhar para nosso bem e o bem dos nossos filhos. Quero ver eles dormindo tranquilamente assim, sob um teto, com comida, com um pai de família, como deve ser. Estamos é perdendo nossa noite de sono com essas suas besteiras. É essa sua desconfiança no seu marido que envenena tudo. Agora nem atender a menina eu posso. O que vou dizer à família dela quando vier ao consultório? Que a avó entre só na sala e ela fique de fora?
— Você num disse que não era uma menininha qualquer? Agora já atendeu ela e a avó?
— Claro que não, Maria! Lá vem você com suas implicâncias torrar a paciência uma hora dessas. Fica enchendo o saco com essas histórias de ciúme, até confuso eu fico com tanta falação. É só uma carta boba. Sou homem sério e se tiro brincadeira é porque deram ousadia. Você quer me ver humilhado por aí? Tenho uma reputação para zelar, sabia? O que vão dizer de mim? Hã? Que o doutor agora joga no outro time? Que não sirvo mais pra nada e não dou conta do recado? É isso? Ora! Oxe! Quem já se viu ficar questionando o marido? Eu deveria lhe ensinar a me respeitar. Você é muito boazinha, viu? Deveria me agradecer por ter lhe dado um futuro bom. Uma casa, um carro, tirado a raça boa de você com esses meninos. Tem tudo e ainda quer o que mais? Hã? Vá! Me diga, deixa de seu chororô e fale. Vem com história de conversa, mas agora fica muda? Não vire a cara para mim, estou falando com você, sua malcriada. Olhe assim nos meus olhos.
— Ora vamos! Deixe desse seu coitadismo! Coitado sou eu que trabalho o dia todo e quando chego em casa todo dengoso para receber amor, tenho que ouvir suas queixas. A janta ainda está por fazer, os meninos ainda não foram dormir e você tá brincando com esses moleques. Passa o dia fazendo o que, por acaso? Soube que andou de conversinha na casa de Antônio. O que tem lá? Hã? Me diga! Tá querendo enfeitar meu juízo, é? Hã? Fale! Fica passeando pela vizinhança pra quê? De coxixo por aqui e por ali, pra quê? Hã? Me diga! Pensa que eu sou burro de carga para tá dando luxo a uma sem futuro feito você a troco de nada? É da lei do casamento! Você ouviu o padre na missa? Tem que respeitar seu marido.
— …
— Eu sou muito mole e besta, viu? Fico fazendo tudo o que querem, veja o que recebo em troca? Nada! Sempre penso nessa família. Trabalho feito um condenado, recebendo todo tipo de gente para você e seus filhos terem tudo do bom e do melhor, e o que me adianta, hã? Recebo ingratidão e um par de chifres pra enfeitar a testa. Quer trocar de lugar comigo, quer? Quero ver se aguentaria uma esposa da sua qualidade. Tem muito que me agradecer! Quer voltar a morar naquela beira da estrada, quer? Vá morar naquele buraco de peba de onde tirei você. Quero ver ter tempo de chorar e ficar inventando essas histórias. Avalie se vai ter tempo de ficar de conversinha pela vizinhança.
— Eu só fui ter com Alvanir mais cedo, porque ela ia me ensinar uma receita de…
— De como pular a cerca? De como acabar com a fama do marido? Hã? Aquela lá é uma vagabunda de marca maior. Desquitada! Pense como vai dar bom pra mim você se enturmando com aquelazinha. Tá bom demais, viu? Vai ser bom, vai? Olha aí o que eu arrumo: ingratidão, chifre e descuido. Depois de tudo o que faz, ou melhor, do que não faz em casa e vadia na rua, acha que tem moral de me cobrar o que? Hã? Vamos! Me diga! Só fica com esse seu fungado…faz eu me sentir um marido ruim, um homem mal, quando na verdade não cumpre seus deveres. É muita moleza sua, viu? Eu devia era endireitar seus pensamentos. Colocar-lhe um punhado de juízo nessa sua cabeça. Num instante você se orienta. Fique aí calada, fique, porque assim você é uma poeta. Hã! Vai dizer nada não? É isso mesmo?
— Eu só tava conversando, não fiz nada de mais, só levei os meninos para brincarem e tava todo mundo conversando, quando Antônio apareceu.
— Ah! É muito bom, tá vendo? Eu trabalhando e você de conversinha…Pois tome o que merece… Tome mais outra pra deixar de suas queixas…olha aí, tá vendo, sua desastrada! Fica quebrando as coisas em casa e acha que tem moral para exigir algo a mim…Essa cadeira custou uns R$600,00 reais, sabia? Acha que você vale isso tudo? Hã? Nem mais um piu, viu? Nem mais um piu.
A Morte de João | Texto de Daniel Rodas
Já é uma felicidade receber textos no nosso inbox mágico, mas hoje a alegria é multiplicada por muitas, pois que recebemos um conto do amigo, parceiro de batalhas contra os moinhos de vento, o querido Daniel Rodas, bravíssimo editor da Revista Sucuru. Bem-vindo, amigo querido!
Já é uma felicidade receber textos no nosso inbox mágico, mas hoje a alegria é multiplicada por muitas, pois que recebemos um conto do amigo, parceiro de batalhas contra os moinhos de vento, o querido Daniel Rodas, bravíssimo editor da Revista Sucuru. Bem-vindo, amigo querido!
Texto de Daniel Rodas
Vergou-lhe o peito a ossatura gasta. Sob o sol-manhã. Pôs a mão na enxada e sentiu. Enfiada na pele a doçura da ida. Aquele canto trinado. Brindado de chuva. Duas noites atrás. Agora. Suor. Destrinchando a face. Entre rugas e rios. De lágrimas brota. O som. Sorriso engasgado. Ele vê a si. Já voando na bruma. Das folhas colhidas. Baraúna. Cuja sombra destece. Traço e laço. Os dedos que descem. Passo a passo. Em redor do peito. Prensando de leve. Sentindo na brisa. Qual vento leve. O calor que escapa. Ele sabe. A tapa. Que a vida lhe dá. Partindo. Sob os nós dos dedos. Parindo. O mistério do roxo. Crescendo. Onde as pernas fraquejam. Deitam no solo. E os olhos se fecham.
A poesia de Fabiano Silmes
Fabiano Silmes, poeta de São Gonçalo, entusiasta do underground e da literatura marginal, chegando na Kuruma’tá e fazendo valer o nosso inbox mágico com a qualidade pungente de sua poesia. Seja bem-vindo, Fabiano!
Fabiano Silmes, poeta de São Gonçalo, entusiasta do underground e da literatura marginal, chegando na Kuruma’tá e fazendo valer o nosso inbox mágico com a qualidade pungente de sua poesia. Seja bem-vindo, Fabiano!
UM POEMA PARA JACK
deitado numa velha rodoviária tremendo de frio sob o céu cravejado de estrelas (ursa maior cruzeiro do sul…)
perdi o ônibus perdi as moedas pro cigarro perdi o rumo de casa perdi até o sono
perdi quase tudo nessa vida mas nem tudo está perdido eu ainda estou aqui, firme
esperando outro ônibus que me levará em segurança para algum lugar calmo depois das montanhas
perto do sol, na luz da manhã.
FLUX
o sol faz ver quem olha o sol não vê nada com lente escura dá para olhar e ver escurecer o olho dentro do olho e o sol brilhar escuro o cu é uma palavra pequena e ao mesmo tempo palavrão a cigarra não fuma cigarro o cigarro fuma pulmão a mente sabe o que sentimos ela faz a gente sentir o que sentimos quando sentimos o que ela quer mas todo mundo diz que o culpado é o coração que é um músculo que bate no peito dizendo que não é o culpado não.
ESFINGES MIDIÁTICAS
aceite inerte pálidos agrados áridos falidos movimentos em postos nus nos arredores do nada e não reclame pelo enxame de promessas não cumpridas mastigue-as apenas e continue sorrindo para a TV.
SEGUNDO PLANO
tiros y bombas y sangue y lágrimas a mídia que filmava editou a imagem como que corta uma cebola e chora sem sentimento algum o alvoroço das reivindicações do povo acuado
diante das lentes a tv filmou mas não registrou cortou e mostrou outra cena o grande milagre da televisão brasileira é a possibilidade de colocar a verdade sempre em segundo plano.
POEMA PARA NÓS DOIS
curioso é colocar voz nos versos bastante silêncio nas palavras consertar os erros que sequer sabíamos erros quando errávamos por aí, incautos, mundo à fora deserto aqui dentro – sempre- um pensamento me consola enquanto outro me consome lentamente como um cigarro aceso ao acaso dos instantes entre a pressa cega de seguir e dessa vontade louca de ficar olhando você dormindo, rindo quem sabe sonhando comigo indo te encontrar nos teus sonhos.
Fabiano Silmes nasceu em São Gonçalo, Rio de Janeiro. Publicou Comida para Bicho-cabeça em 2011, editora Multifoco. Entusiasta do underground e da literatura marginal, costuma postar poemas e crônicas em sua página no Facebook e também em blogs e revistas literárias.