70 anos de Guinga com as vozes femininas!

Outro dia a gente estava comemorando aqui na Kuruma’tá os 70 anos de Braulio Tavares, e agora a gente para tudo pra comemorar os 70 anos do grande Guinga! Seu aniversário foi em junho, mas agora a gente tem a deixa do CCBB – Centro Cultural Banco do Brasil, aqui do Rio de Janeiro, para celebrar! Trata-se da retomada da série de espetáculos, interrompidos pelo início da quarentena, GUINGA E AS VOZES FEMININAS. [Texto KURUMA’TÁ]

Texto KURUMA’TÁ


Outro dia a gente estava comemorando aqui na Kuruma’tá os 70 anos de Braulio Tavares, e agora a gente para tudo pra comemorar os 70 anos do grande Guinga! Seu aniversário foi em junho, mas agora a gente tem a deixa do CCBB – Centro Cultural Banco do Brasil, aqui do Rio de Janeiro, para celebrar! Trata-se da retomada da série de espetáculos, interrompidos pelo início da quarentena, GUINGA E AS VOZES FEMININAS, que retorna agora em versão online, pois depois de sete meses ainda estamos enrolados com a pandemia. A idealização e direção é da artista visual e cineasta Fernanda Vogas, e cada live será transmitida ao vivo, direto do CCBB do Rio de Janeiro, pelo canal do YouTube do Banco do Brasil, com acesso gratuito!

GUINGA E AS VOZES FEMININAS acontece entre 8 de outubro a 12 de novembro e tem patrocínio do Banco do Brasil, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura.

Foto de Renato Mangolin

Na agenda das lives, a lista luminosa de convidadas, e também convidados muito especiais para acompanhar o mestre e dessas divas Confira:

No dia 15 de outubro, Guinga vai receber a cantora lírica paranaense Cíntia Graton e Marcus Tardelli, ex-violão requinto do Quarteto Maogani. No dia 22, Simone Guimarães, paulista radicada em Brasília, vai cantar com ele e o violonista Jean Charnaux. No dia 25, será a vez da carioca Anna Paes, também cantora, mais o clarone de Pedro Paes.

No dia 29 de outubro, Guinga e Charnaux acompanharão a jovem Bruna Moraes, de São Paulo. No dia 1 de novembro, a mineira Ana Carolina empresta a sua voz grave ao repertório luxuoso de Guinga, com o reforço de Jean Charnaux. Já no dia 5 de novembro, a potência vocal da carioca Ilessi se somará às cordas de Guinga e Charnaux. No dia 8 de novembro, Luísa Lacerda, ótima violonista do Rio de Janeiro, vai cantar e tocar com Guinga e o sax soprano de Zé Nogueira.

Por fim, teremos ainda três palestras com a violonista e cantora Anna Paes, professora da Escola Portátil de Música: nos dias 24 (“Guinga e Paulo César Pinheiro”) e 31 de outubro (“Guinga, memória, história e identidade”) e 7 de novembro (“Viva Aldir! A parceria entre Guinga e Aldir”). 

Gente, ter uma artista dessa dimensão, aqui entre nós, produzindo, iluminando o palco e a cultura brasileira, é de um privilégio enorme. São mais de 50 aos dedicados à música, quase 20 discos e uma constelação de composições e parcerias. Se alguém chegar junto de você e disser que não conhece Guinga, diga que a pessoa está enganada, que conhece sim e que se nasceu nos últimos 50 anos, traz a música dele entranhada no DNA; porque não dá pra contornar esse monumento. Ele tá inserido na tradição e na inovação, e sua obra é reveladora do Brasil que a gente gosta, que a gente sente falta quando tudo parece perdido. São tempos de escutar Guinga e se conectar com essas raízes, do violão brasileiro, de Villa-Lobos, Pixinguinha, Jacob do Bandolim. Bote Guinga pra tocar, se programe direitinho e assista à essas lives pelo que elas carregam de talento e compromisso com a cultura, bem como pelo que tem de histórico nesses encontros! Vai ser bom demais.

AGENDA DE LIVES

Dia 8 de outubro (quinta-feira), às 20h
Guinga recebe Leila Pinheiro e Marcus Tardelli
(Já aconteceu. Assista aqui!)

Dia 15 de outubro (quinta-feira), às 20h
Guinga recebe Cíntia Graton e Marcus Tardelli

Dia 22 de outubro (quinta-feira), às 20h
Guinga recebe Simone Guimarães e Jean Charnaux

Dia 25 de outubro (domingo), às 20h
Guinga recebe Anna Paes e Pedro Paes

Dia 29 de outubro (quinta-feira), às 20h
Guinga recebe Bruna Moraes e Jean Charnaux

Dia 1 de novembro (domingo), às 20h
Guinga recebe Ana Carolina e Jean Charnaux

Dia 5 de novembro (quinta-feira), às 20h
Guinga recebe Ilessi e Jean Charnaux

Dia 8 de novembro (domingo), às 20h
Guinga recebe Luísa Lacerda e Zé Nogueira

Dia 12 de novembro (quinta-feira), às 20h
Guinga recebe Leila Pinheiro e Marcus Tardelli

CICLO DE PALESTRAS – POR ANNA PAES

Aos sábados, às 20h

Dia 24 de outubro :: Guinga e Paulo César Pinheiro
Dia 31 de outubro :: Guinga, memória, história e identidade
Dia 7 de novembro :: Viva Aldir! A parceria entre Guinga e Aldir Blanc

MASTERCLASS – COM GUINGA

Dia 10 de outubro (sábado), às 20h, com a temática “A influência de Villa-Lobos e Tom Jobim na obra do compositor”
(Já aconteceu. Assista aqui!)

FICHA TÉCNICA

Patrocínio: Banco do Brasil
Realização: Centro Cultural Banco do Brasil
Produção: Vogas Produções
Curadoria e Direção Geral: Fernanda Vogas
Operadoras de Câmera: Thais Taverna e Rita Albano
Design Gráfico: Xabier Monreal
Cenografia: Carmen Slawinski
Sonorização: Spectacle
Técnico de som: Leco Passolo
Operação de luz: Julio Katona
Transmissão: Video Shack e All Net
Assistente de produção: Barbara Mazzola
Fotografia: Renato Mangolin
Assessoria de Imprensa: Monica Ramalho e Rafael Millon, da Belmira Comunicação

Foto de Renato Mangolin

Leitura recomenda: Praia do Eco, de Francisco Paschoal

Antes de mais nada, uma declaração: Sou suspeito. Sou fã dos textos que Francisco Paschoal espalha por aí, ao sabor da internet, sempre surpreendendo a gente. O sujeito é meu amigo e eu poderia simplesmente ficar quietinho a respeito de seu novo trabalho, ou simplesmente mandar um “pô, maneiro…”, expressão que provavelmente nem se usa mais e, decerto, cafona. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Antes de mais nada, uma declaração: Sou suspeito. Sou fã dos textos que Francisco Paschoal espalha por aí, ao sabor da internet, sempre surpreendendo a gente. O sujeito é meu amigo e eu poderia simplesmente ficar quietinho a respeito de seu novo trabalho, ou simplesmente mandar um “pô, maneiro…”, expressão que provavelmente nem se usa mais e, decerto, cafona. Outra expressão que não se usa mais. Mas se trata do volume 1 de Praia do Eco, novíssimo lançamento da Mamakoosa e eu vou fazer o que é certo e afirmar sem pudor: Trate de ler!

E afinal, por que essa urgência? Porque é tudo de bom, de leve, divertido e esperto. E inesperado. Francisco sabe levar a narrativa com o cuidado de não entregar tudo, deixando mesmo a gente sem saber se tem um tudo. Aos pouquinho, a cada página você vê que algo tá se desenhando, que uma estrutura tá se aramando e que algo sorrateiro, subterrâneo, está por irromper. Ou não? Essa é armadilha que nos captura em Praia do Eco e faz a gente se mover de uma página para a seguinte, naquela adrenalina da expectativa de que algo vai se revelar.

Mas, leitores, esse é o volume 1 de Praia do Eco e mais vem por aí. Eu tô ligado mais ou menos do que é, mas não vou dar spoiler. Não vou estragar essa curiosidade que acabei de plantar em você, sobre um exemplo irado de literatura nacional, que bem poderia virar um filme, uma série ou um boato!Lembro quando eu era moleque, lá no Recife, e um dia a gente tava na casa de um amigo, já de noite, sentados na calçada. Um de nós começou a falar de uma história que tava rolando, da Perna Cabeluda, uma lenda urbana sobre uma perna, cabeluda, que andava solta por aí, separada do seu corpo, nas noites recifenses, a assustar e botar pra correr os mais destemidos e moleques como a gente. Um arrepio foi percorrendo todo mundo, saindo de um pro outro. Aos poucos todo mundo foi se levantando e rumando pra casa. Não sem olhar pra trás. Afinal, nunca se sabe.

Praia do Eco tem algo de história assim, que a gente escuta não se sabe exatamente onde, que a gente conta meio que mudando um pouco, acrescentando um susto, algo nosso. Leia com esse espírito. Você não vai largar o livro. Vai ser como maratonar uma boa série e ficar contando os dias para a próxima temporada.

Vale. Vale muito!

PS. Ah, sim… eu escrevi o prefácio. Hehehe

Compre no site da Mamakoosa!

Entrevista à coreógrafa Tânia Carvalho

A entrevista à coreógrafa Tânia Carvalho foi feita uns dias antes da apresentação da sua peça no contexto do festival Linha de Fuga. Apesar de sublinhar várias vezes a sua falta de vontade de parecer que tem certezas, lá foi desfiando o novelo, com cuidado, pois isto das palavras nem sempre é o melhor remédio. A conversa não foi longa, porque o palco do TAGV estava sob o escrutínio de pequenas obras e era preciso ir verificar tudo. É assim o trabalho da Tânia Carvalho: meticuloso. E completamente arrebatador. [Por Carina Correia]

A entrevista à coreógrafa Tânia Carvalho foi feita uns dias antes da apresentação da sua peça no contexto do festival Linha de Fuga. Apesar de sublinhar várias vezes a sua falta de vontade de parecer que tem certezas, lá foi desfiando o novelo, com cuidado, pois isto das palavras nem sempre é o melhor remédio. A conversa não foi longa, porque o palco do TAGV estava sob o escrutínio de pequenas obras e era preciso ir verificar tudo. É assim o trabalho da Tânia Carvalho: meticuloso. E completamente arrebatador.

Por Carina Correia

Outubro de 2020

Tânia Carvalho_Captado Pela Intuição © Rui Palma

Li algures que a Tânia Carvalho fala pouco das suas criações, sendo nomeadamente essa uma das suas imagens de marca. É verdade?

Não é que não goste. Não tenho problema nenhum em dar entrevistas ou a responder a perguntas. O que eu normalmente não gosto é de explicar uma peça, o que desde logo é impossível. Quando falo da peça, as pessoas fecham um bocado a ideia da peça ali, e isso faz-me pena, porque as pessoas têm capacidade para muito mais do que isso. Ao ver uma peça, têm a capacidade de a receber de formas mais originais, sem ser a minha só. E é por isso que não gosto. E depois, porque é mesmo difícil falar-se disto tudo que é a criatividade, de como é que se faz. Podemos falar um pouco, mas não podemos realmente explicar o que é. Depende do tipo de trabalhos, mas no meu trabalho não faz muito sentido, digamos, não é muito óbvia a forma de o falar. Eu não faço articulações de pensamento para criar peças, então não as tenho. Ao responder, parece que as tenho, e depois fica-se fechado ali.

Será que podes quebrar a regra e falar-me um pouco do que trazes aqui ao Linha de Fuga? Captado pela Intuição é uma obra de 2017: «um solo que balança entre o abstraccionismo lírico e o figurativo», segundo palavras tuas. Dois pontos opostos, não?

Eu gosto muito de ser apanhada pelas coisas. Em vez de ir à procura, fico à espera, faço quase exercícios de espera, principalmente nos solos, fico à espera de que as coisas me surjam, que passem através de mim. Na altura, o que me estava a surgir eram formas abstractas; mas depois, fazer formas abstractas com o corpo, e como é o meu corpo, torna-se complexo, porque olho e vejo uma pessoa a fazer figuras, e daí o figurativismo. E aí surgiu uma parte da peça que posso dizer ser mais teatral, entre aspas, é dança, mas vê-se que é uma pessoa que está num certo estado, numa certa situação. No início, não se vê tanto, não se percebe bem o que se está a passar, são só formas. A peça é mesmo como ela aconteceu em mim, enquanto estava em estúdio e a trabalhar. Foi um processo muito solitário. Andei um bocado a divagar, as ideias divagam, não ficam muito fixas. Mas esse texto foi uma brincadeira que fiz com essas duas coisas: esse dualismo que é estar num sítio e estar num outro.

Mas esta peça foi criada em algum contexto específico que estivesses a viver?

Não. Estive em vários sítios e andava sozinha. Quando trabalho sozinha, posso passar muitas horas em estúdio, mas as horas de ensaio da peça em si são poucas, faço outras coisas antes: alongamentos, exercícios. Na verdade, quero estar o mais aberta possível para o que possa aparecer, é assim que gosto de fazer.

A peça teve alguma adaptação para esta apresentação ou está igual?

Está igual.

Que reflexão, se é que existe, está por trás das tuas coreografias?

As reflexões estão sempre aqui, não é? Estamos sempre com a cabeça a mexer. Mas eu não escrevo sobre isso, nunca escrevi, não o faço, não falo com as pessoas sobre isso, não é uma coisa que me dê vontade. Mas os pensamentos andam aqui, penso nas coisas. Depois, olho muito para as minhas peças como espectadora. Não é fácil separar, mas há uma parte de mim que consegue. Consigo ver a peça e a partir daí ver coisas que não tinha visto, tirar conclusões, ou fazer reflexões, lá está, mas não é um exercício que eu faça metodicamente, com intenção, faço sempre sem querer.

Para ti o corpo pode ser também matéria política? Podes desenvolver essa ideia, desse papel que o corpo pode ou não ter, uma vez que o tema deste Festival é precisamente a Democracia?

Eu sei que tudo o que fazemos pode ser visto de uma forma política, mas eu não penso nisso. Eu faço política mais no meu dia-adia do que nas minhas criações. Houve uma altura em que eu tinha um discurso em que dizia que estávamos todos sozinhos, coisas assim, mas já não digo, porque pode ser interpretado como uma espécie de ideia de que estamos separados do resto do mundo e não é verdade. Eu acho que nós somos todos a mesma coisa, embora sejamos extensões diferentes dessa coisa. E por isso é que gosto de fazer este tipo de trabalho, senão não havia tanta ligação. Quando vamos ver um espectáculo e nos sentimos conectados com o que vemos, ou mesmo na rua, estamos realmente ligados. Se eu pensar na minha forma política de estar na arte, é a forma como eu trato as pessoas dentro da arte, como trato os bailarinos que trabalham comigo, os produtores, as pessoas que trabalham nos teatros. Eu vejo as pessoas todas de forma igual, e acho que tem de começar por aí. Não me apetece fazer uma obra e falar sobre os direitos humanos e depois chegar ao teatro e tratar mal um técnico. Isso não faz sentido nenhum. Para mim, a política está no meu fazer do dia-a-dia e não na minha criação. Acho que a criação é importante, e há pessoas que têm muito talento para fazer criação política, conheço artistas que o fazem, mas não é a minha vertente. Por exemplo, o que eu acho que faço é dar às pessoas um trabalho que é uma pesquisa interna profunda, que é um estar à espera do que surja, e querer comunicar-lhes isso, porque também é delas, pois eu vou buscar as coisas a um sítio que é de todos. E trazer cá para cima coisas que estão enterradas, ou a pedir para serem vistas de alguma forma, e comunicar com elas ajuda a que depois as pessoas possam pensar as suas políticas de modo diferente, porque a arte muda as pessoas. Nesse sentido, sim, o meu trabalho é político, mas não directamente. Quando trabalho, não sou eu que mando, é algo que não sei explicar. Acho que os artistas todos têm isso. É algo que sentimos que temos de fazer. O trabalho é que me faz a mim, funciona um bocado ao contrário. E este solo foi muito assim. Tive muito tempo sozinha, muito tempo de estudo, de silêncio, na rua, e as coisas apareceram-me. Essa parte mais política, mental, não me surge, o que não quer dizer que não ache importante.

E a oficina de dança «Flores»? Foi-te lançado, para ela, o desafio de «assumir a intuição como facilitadora do surgimento do ser social». É fácil promover esse trabalho corporal com quem muitas vezes não tem noção ou consciência dessa intuição?

Não é fácil nem difícil, depende das pessoas. São três dias, não vou impingir às pessoas a minha forma de fazer, lá está. Eu vou lá dar algumas ideias de coisas que podem fazer e guiá-las de alguma forma. Mas nunca me passa pela cabeça dizer «eu faço assim e é assim que se deve fazer». Cada um tem a sua forma de fazer e não há uma forma melhor do que outra. Acho que a intuição é importante, que devemos ouvi-la, mas não se ensina de uma maneira específica. E só é despertado quem quer despertar. Alguns alunos irão sentir que gostam deste trabalho, outros não, mas isso é normal. Eu não vou fazer esforço para que sintam afinidade comigo. O que faço é mostrar, partilhar, para ver se surge. Mas eu também vou receber, é uma troca. Por isso, é que acho que não se ensina, só se aprende. Normalmente, corre sempre bem.

A coreografia, o trabalho com o corpo, é só um dos campos em que te moves e crias. Há outros, como a música e o desenho. Pessoalmente, gosto muito dos teus desenhos, apesar de, ou se calhar por isso mesmo, transmitirem uma certa ideia de caos, e talvez até de solidão. E são desenhos que sugerem também movimento. Como é esse processo? Desenhas muito?

Há fases em que desenho mais e outras, menos, não tenho método. Os meus bonecos são sempre os mesmos, mas eles mudam. Os mais antigos são mais… maléficos, acho eu. Actualmente, são mais pacíficos. Creio que todos temos um lado mais negro que escondemos, e essas sombras saem-me quando desenho. Todos temos essas sombras, que por vezes são mal vistas, mas fazem parte de nós, temos de as assumir e estar confortáveis com elas, senão ficam piores. E acho que o desenho é um bom exercício para isso. Há dois tipos de desenho: uns em que são só os bonecos, todos iguais, ou parecidos, e outros em que eles estão uns em cima dos outros, numa espécie de equilíbrio, e que não os vejo como estando sozinhos, porque se tiro um, aquilo cai tudo. Portanto, tudo é preciso para estar bem. Na verdade, representam tudo o que existe, o bom e o mau. São uma espécie de uma fracção de segundo de um mundo qualquer, como um frame de um filme que continua. Mas no fundo, é harmonia o que existe ali.

Pensar a partir do corpo é, à primeira vista, pensar antes da fala, é usar uma outra linguagem que não a da palavra. Achas que são linguagens antónimas?

Nós descodificamos tudo através da palavra, somos seres humanos. Mas há outros seres que não usam a palavra, que usam movimento. Quanto ao corpo, eu antes de aprender a falar já me mexia. E podia nunca ter aprendido, podia não saber falar. A palavra está em tudo porque nós de facto falamos de tudo e é a nossa forma de comunicar mais comum, mas não é a única. Por exemplo, a música é uma forma de comunicação muito forte; podemos falar dela, mas não conseguimos por palavras transcrever uma música. Nós identificamos sons, podemos tentar defini-los, mas não conhecemos, por exemplo, o som do mar enquanto não o ouvirmos. Não conheço o sabor desta bebida que estou a beber enquanto não a provar, por melhor que mo descrevas. Quanto ao meu trabalho de movimento, eu estou a sentir uma coisa e cada espectador sente outra, vê outra. Às vezes, pode até questionar-se se a peça existe ou não. Como é que as coisas existem se cada um tem uma interpretação? Na verdade, não existem, existem interpretações.

Gostas de falar com os outros das interpretações que fazem do teu trabalho?

Gosto de saber, mas não é que isso que me vai motivar. Gosto de ouvir e gosto de falar das coisas que vejo também. O meu problema às vezes é a importância exagerada que se dá às coisas. Por exemplo, uma pessoa vai ver um espectáculo e lê antes aquele texto das folhas de sala e dá-lhe muita importância. Para mim, já está o caldo entornado.

Preferias não ter folhas de sala, portanto.

Preferia, sem dúvida. Mas os teatros querem sempre dar.

Não achas que pode ajudar por vezes ter algumas luzes?

Acho que enquanto houver essa ideia… O papel vai ajudar, mas é uma ficção. Depende dos trabalhos, claro, há trabalhos que precisam. No meu, não precisava de ter o texto. Acho que devia ser uma escolha de cada artista ter esse texto ou não antes. Penso que o meu trabalho é melhor recebido se não se souber nada sobre ele. E até prefiro. Isso faz-me lembrar que as pessoas muitas vezes dizem que não percebem nada de dança. Isso dá-me pena, porque a dança, lá está, não é a palavra que está à volta dela, é só aquele momento em que a pessoa se está a mexer. É como a música. Há pessoas que não sabem nada da escala, nem de notas, e ouvem música e entendem a música. São frequências, são energias, e a dança é a mesma coisa.

A tua vasta internacionalização permite-te fazer algumas comparações com os diferentes estados da cultura e das artes em diversos países. Fala um pouco da tua percepção dessas diferenças.

Sim, existem diferenças, mas acaba por ser muito parecido. Não estamos a falar em termos criativos, certo? Há países onde a dança é mesmo muito importante, muito querida. Por exemplo, na França e na Bélgica. Fazes em França um espectáculo de dança numa terra pequena e o teatro está cheio. Mas é normal, porque fazem dança, têm essa cultura, há muitos mais anos do que nós. Como se para nós fosse o fado, ou algo do género. Em Portugal, acho que não estamos assim tão mal. Não falo de aspectos financeiros, nem de concursos, dessas chatices em que as coisas podiam estar sempre melhores e podiam ser feitas de outra forma, menos complexa, mas isso também existe nos outros sítios.

Ainda tens dificuldades nesse campo ou é algo que já não te afecta por seres reconhecida?

Sim, tenho. Parece que não, mas sim. Concorri aos últimos e não tive apoio, e acho que tinha um bom programa. Mas é assim, não há para todos. Mas também não reclamei: há um júri que decidiu e está decidido. Nesse sentido, não sou privilegiada, mas sou noutros, sinto que já tenho um trabalho válido, por assim dizer. As palavras às vezes são complicadas. Mas sim, tenho um trabalho que é reconhecido aqui e fora, já não tenho de provar certas coisas. Quando trabalho fora, não entro a fundo num sistema, não sei fazer bem essa comparação. Sei que com a Pandemia houve artistas que nem se candidataram a esses concursos, receberam logo o apoio. Mas são países com mais dinheiro. Acho que as coisas têm de se ver de uma forma mais global.

Pegando no assunto Pandemia, mas também no surgimento de diversos contextos podres por todo o mundo, que é na tua opinião suposto fazer-se para que a cultura seja vista de uma vez como essencial, como aquilo que nos permite consolidar a humanidade e lidar com esta espécie de falhanço da vida?

Acho que as coisas se fazem muito no dia-a-dia. E devemos ver as coisas boas e não só criticar. Há uns anos, isto estava muito pior. Nós já melhorámos imenso, é preciso olhar para esse crescimento. Não gosto de falar destes assuntos, porque precisava de os estudar e perceber melhor, não falar só por falar. Quando eu comecei a fazer dança, havia menos pessoas a fazer; havendo agora mais, é normal que o apoio seja menor. Mas há também mais sítios onde fazer espectáculos, e é mais fácil circular, há outras facilidades. Mas o artista devia deixar de ser visto como alguém que fica bem com pouco, que vai resolver, que se vai desenrascar, e essa ideia está intrínseca, muitas vezes nos próprios artistas. É complexo alterar, tem de ser dos dois lados. Por isso, acho que é um trabalho diário. Não é só mudar estatutos, mas um lado psicológico também. Os artistas devem exigir que o seu trabalho seja bem pago. Eu só faço um espectáculo se tiver dinheiro para ele, para pagar ensaios, bailarinos, tudo.

A seguir a Coimbra, vais para onde?

Vou para Marselha. Estou a fazer uma criação nova com uma Companhia de lá.


Este texto integra a coletânea produzida pelo grupo Crítica de Fuga, que acompanha os trabalhos dos artistas e as atividades do Festival Internacional de Artes Performativas – Linha de Fuga.


Captado pela intuição: uma aproximação

Do gosto pelas formas. Da dificuldade de trabalhar com “pessoas”, e, no entanto, estes corpos que são pessoas, essencialmente formas. Do feixe de luz reflexo no corpo vertical ondulando de um ponto a outro. Um plano. A indecisão perante o óbvio. Os movimentos sem aparente razão de ser, aliás, diz-nos, sem razão. Um ser errante no palco das atenções. Do espanto perante os que sabem dançar. Os bailarinos. Do esforço implícito nas mãos, no dorso. A tábua sob um dia de sol depois de uma chuva intensa. A indecisão, o momento interrupto de um a outro: a possibilidade de dança! [Texto de Diogo Simões]

Texto de Diogo Simões


Estamos sós com tudo aquilo que amamos.1
Novalis, Fragmentos de Novalis (2000)

Tânia Carvalho_Captado Pela Intuição © Rui Palma

Do gosto pelas formas. Da dificuldade de trabalhar com “pessoas”, e, no entanto, estes corpos que são pessoas, essencialmente formas. Do feixe de luz reflexo no corpo vertical ondulando de um ponto a outro. Um plano. A indecisão perante o óbvio. Os movimentos sem aparente razão de ser, aliás, diz-nos, sem razão. Um ser errante no palco das atenções. Do espanto perante os que sabem dançar. Os bailarinos. Do esforço implícito nas mãos, no dorso. A tábua sob um dia de sol depois de uma chuva intensa. A indecisão, o momento interrupto de um a outro: a possibilidade de dança!

O que representa aquele corpo? Nós não sabemos em certa medida, como se nos escapasse, e ele ali permanece, sobre um início. A solidão de um corpo, ora que se mostra e esconde ao mesmo tempo. Levado de um estado a outro, sem esforço, apenas a passagem do tempo nele e em nós, espectadores. É um corpo que a cada momento retoma a forma inicial, que não é a mesma e se assemelha, é um corpo que é começo. Esta solidão não é indiferente, não é isolamento, talvez a possibilidade de início. Como se de uma marioneta atracada com fios longuíssimos impossibilitando a retidão dos movimentos. Qualquer movimento. Ou, diante da analogia, a relação que Bragança de Miranda faz do corpo e a suportabilidade da vida:

O «corpo» é uma marioneta porque é puxado pelo «fio da vida» que irrompe da carne. O que podemos é apenas jogar com esse fio, em busca das suas melhores figuras.2

Os movimentos então irregulares, imprecisos e quebrados, são o apelo à forma capaz de provar aquilo que ousa. E então o que é aqui provocado? O que é captado, aqui, onde o corpo é corpo entre outros e, por isso, é já condição de possibilidade do outro? Há algo breve nisto que é captado, porque, não é como se agarrássemos a punho forte a coisa que por essência não pode ser agarrada – não existe, e no entanto teve lugar e apareceu. Inapreensível que é aquele gesto que acontece de um movimento a outro. Porque, precisamente, não será tanto aquilo que depreendemos dos movimentos e depois a fórmula que nos surge límpida, como a coisa que tem lugar e é vista e sentida pelo corpo que se move entre corpos que o veem e o tornam um corpo estranho. Estranho, como se todos nós estivéssemos ali a perturbar a ordem das coisas, a ordem daquele corpo que surge. Daí o questionamento de Tânia Carvalho. «O que é isto? O que são estas coisas?»3 Que lugar estranho!

Captar será então essa aparição quase que sem forma, e, daí, o movimento desprovido de razão. O movimento que é, paradoxalmente, impasse e indecisão. Contudo, isto não impossibilita o movimento, pelo contrário, permite-o, é a sua condição. Jacques Derrida, incidindo sobre a possibilidade do poema, a mão que interrompe, espanta-se diante da indecisão de Hans-Georg Gadamer. Segundo o filósofo, parece haver aí uma suspensão na leitura, alguma coisa que nos impele a tardar pondo-nos alerta:

A indecisão mantém para sempre a atenção ao rubro, quer dizer, viva, acordada, vigilante, pronta para enveredar por um caminho completamente diferente.4

E é nesse momento, em estado de alerta, que se abre e nos abrimos ao movimento:

A indecisão é indecisa, e indecide. Dá o seu sopro à questão que, longe de paralisar, põe em movimento. A interrupção liberta mesmo esse movimento infinito.5

O impasse é a razão em defeito, como sugere Kant, é uma ameaça à ordem das coisas. Mas, precisamente, é a ordem das coisas que é aqui posta em questão. É o ser emotivo, o que sofre a dor da alteridade. Daí então o plano, as tonalidades balanceando entre o claro e o escuro. Um corpo.


  1. Novalis, Fragmentos de Novalis (Lisboa: Assírio & Alvim, 2000), 135.
  2. J. A. Bragança de Miranda, Corpo e imagem (Lisboa: Nova Veja, 2012), 131.
  3. Carvalho, Tânia – Captado Pela Intuição [Em linha]. Coimbra: Linha de Fuga, 2020. [Consult. 2020-10-05]. Disponível na Internet:<URL: https://www.linhadefuga.pt/eventos/captado-pela-intuicao?lang=pt
  4. Jacques Derrida, Carneiros. O diálogo ininterrupto: entre dois infinitos, o poema (Coimbra: Palimage, 2008), 27.
  5. Idem, 28.

Este texto integra a coletânea produzida pelo grupo Crítica de Fuga, que acompanha os trabalhos dos artistas e as atividades do Festival Internacional de Artes Performativas – Linha de Fuga.


Sonho, Lama & Caos

Toda a área do Shopping Center Recife, e seu entorno, era um manguezal. Lembro que havia um cano, uma tubulação, que cruzava parte do mangue e era caminho da meninada aventureira para a praia. atravessar pelo cano era um rito de passagem… foi tudo aterrado e testemunhei boa parte desse processo, que é, essencialmente, um processo de perda. em múltiplos sentidos. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro

Para Beval Freitas


Hoje sonhei que o Pete Townshend dava a seguinte declaração sobre o Who:
The Who é como um parque de diversões. você liga os brinquedos e lá está a música.

No sonho eu citava essa declaração para o Kleber, enquanto explorávamos um manguezal que restava perto do Shopping Recife, num cenário dos anos 90, muito diferente de como deve estar hoje, depois da via mangue e ocupação imobiliária daquele trecho da rua Antonio Falcão, que leva da Imbiribeira até a praia.

Toda a área do Shopping Center Recife, e seu entorno, era um manguezal. Lembro que havia um cano, uma tubulação, que cruzava parte do mangue e era caminho da meninada aventureira para a praia. atravessar pelo cano era um rito de passagem… foi tudo aterrado e testemunhei boa parte desse processo, que é, essencialmente, um processo de perda. em múltiplos sentidos.

Perdemos o mangue, perdemos a aventura do cano, perdemos essa sensação de transição até a praia. hoje é prédio, prédio, prédio e de repente, praia. Antes havia uma espécie de desconstrução até chegar na praia, mesmo considerando os prédios da orla. parece bobagem, e é bobagem, e falta-nos bobagem. Bobagem é coisa séria.

Acostumados que somos a dar sentido às coisas, ponho-me a pensar sobre os possíveis significados desse sonho, eu e Kleber com os pés enterrados na lama do mangue até a canela, conversando sobre uma declaração do Pete Towshend. Talvez fale do cosmopolitismo daqueles manguezais, das antenas enfiadas na lama, atentas ao mundo apesar de estar naquela Recife dos anos 80 e 90, ou talvez dar sentido a um sonho assim seja somente um péssimo hábito que precisamos combater. E seja, ao fim, somente isso, eu, Kleber, Pete Towshend e o manguezal. E isso não é pouco.

De súbito, enquanto escrevo essas linhas, já pensando em finalizá-las, recordo de uma ideia subjacente na minha infância no Recife, de que o mangue era sujo, era lama, algo para ser limpo. Uma ferida aberta na cidade. Impressionante como a ideia de limpeza pode ser poderosa, colonizadora e contaminante. Talvez seja a principal ideia que move a força branca, conservadora e masculina sobre a terra: a limpeza. Do mundo, do corpo, da alma. Porque é tudo sujo. Aterrar o mangue, substituir o caos das florestas pela organização das plantações. O mundo enquanto porcelanato.

Dito isto, recordo certa vez que entrei na livro 7 e dei de cara com esse livro, do poema O cão sem plumas, de João Cabral de Melo Neto, ilustrado com as fotografias de Maureen Bisilliat (Meu amigo Roberval vai lembrar desse livro). Aquelas impressionantes fotos das crianças se refestelando na lama do Capibaribe. Quanta liberdade, que frescor… me vieram à mente as imagens dos elefantes deitando na lama, para dissipar o calor africano.

“Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.
Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos polvos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.”

(de O cão sem plumas, de João Cabral de Melo Neto)

Fomos nos afastando, nos afastando da lama do mangue. Aterrando, fazendo ruas, asfaltando as ruas, construindo, construindo prédios. Hoje os prédios nem tem mais apartamentos no térreo. No térreo ficam as portarias, e acima das portarias, dois ou três andares de garagens, e só então as casas, evitando o mundo. Todos na torcida para que o mundo seja límpido, branco, imaculado, revestido, recoberto, sem compreender que o mundo é detrito, resto de uma grande e primordial explosão que se dissipa universo afora. O universo é uma onda de choque que desarruma. A mecânica celeste é ilusória.

Pode ser que seja uma memória falsa, fabricada, mas lembro de minha mãe me dizer que na primeira vez em que ela foi morar na nossa rua, na Imbiribeira, a rua era estreita, com uma casinha aqui e outra ali, margeada ainda por terrenos baldios e manguezais. Sempre imagino essa cena como noturna, com as janelas dispersas emanando a luminosidade parca e amarela das velhas lâmpadas incandescentes. Um mundo espectral.

assistíamos tv
e o caranguejo
atravessou a sala,
deixando em todos a sensação
de que estávamos errados,
que ocupávamos
um espaço indevido,
que éramos bandidos,
ladrões, saqueadores de mundos.
assentamos nossa morada
numa rota de migração,
no caminho lúdico
para a toca da namorada.
era um fóssil,
o caranguejo das eras
que jaziam sob o assoalho,
testemunha do mangue
que minava ainda
as fundações do edifício inês.
pergunto-me o que ali ele enxergava
se as paredes,
o brilho azul da tela
ou o que lhe ditava a memória,
a terra negra, úmida,
o emaranhado de galhos
e raízes, as folhas pendentes
e seus pares,
à meia-luz noturna da lua.
éramos então os fantasmas,
o futuro irreconhecível.
habitávamos épocas distintas
e nos encontramos
num lapso, num vértice,
numa falha narrativa
nas nossas vidas mínimas.”

(de Toinho Castro, em Lendário livro)

Tudo foi sendo empurrado “para fora” da órbita civilizada, até que do mangue restou um canal, convertido em esgoto a céu aberto. Tal é a noção de mundo que temos. Isso a que chamamos de civilização é uma camada mal posta de cal, tóxica e aniquilante, mas mais para quem está acima dela. Embaixo, a vida ferve, fermenta, erode, consome, pronta a irromper convulsionada.

“O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.

Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.”

(de O cão sem plumas, de João Cabral de Melo Neto)



A caminhada como poesia de uma sensibilidade ficcionada para fazer cidade

Para um autóctone de Coimbra, pré-imaginar a cidade aberta é por si só um jogo. Città Aperta, de Alain Michard constrói-se numa pequena oficina de seis dias, pesquisando o “relacionamento sensorial e imaginário dos participantes com a cidade, (…) delineado e interpretado em comum por todos e composto por experiências que alternam entre performances, conferências, refeições coletivas, histórias e reconfigurações de espaços da cidade”, diz no programa. [Texto de Ricardo Seiça Salgado]

Texto de Ricardo Seiça Salgado

Membro do grupo informal auto-organizado Crítica de Fuga, para o Festival e Laboratório Internacional de Artes Performativas – Linha de Fuga | 12 Set. a 4 Out. 2020, em Coimbra.


Foto: Augusto Fernandes

Para um autóctone de Coimbra, pré-imaginar a cidade aberta é por si só um jogo. Città Aperta, de Alain Michard constrói-se numa pequena oficina de seis dias, pesquisando o “relacionamento sensorial e imaginário dos participantes com a cidade, (…) delineado e interpretado em comum por todos e composto por experiências que alternam entre performances, conferências, refeições coletivas, histórias e reconfigurações de espaços da cidade”, diz no programa. É um percurso concebido numa longa caminhada e participada, gerida por guias mestres-de-cerimónias que são, leem, fazem e elicitam a cidade, brincando em diferentes modos de relação com ela e com o público, jogando com o seu papel na performance e na cidade.

Na performance somos parte do público e somos bailarinos e performers. Na cidade somos cidadãos, habitantes, turistas, estudantes, visitantes a vários prazos e interlocutores da história do lugar no aqui-agora, reinventado em comum. A caminhada e a cidade é feita de uma coreografia interrompida com gatilhos para uma experiência da demo e da performance enquanto ensaio. Como se habita a cidade e/ou a performance que se faz nela? Que relações compomos na negociação das ficções persuasivas dos nossos habitats de significado e o etos da cidade? A caminhada e os acontecimentos-interrupção ensaiados convocam diferentes procedimentos de relação com ambos os planos, performance e cidade. E dão pistas nos seus jogos-momento para abrir a imaginação da cidade comum por vir.

Foto 02

Foto: Augusto Fernandes

A função dos guias é explicar o jogo em cada acontecimento-interrupção ensaiado, entramos com eles no procedimento e no nosso papel, o princípio de relação para com a performance e para com a cidade. Começamos a fazer uma coreografia, dançando onde passei grande parte da adolescência, círculos e linhas, a diferentes velocidades de tempo e de espaço (viewpoints, diria), várias pessoas caminham sob olhar de transeuntes, um happening dentro da performance, dança na Praça da República em tempos de pandemia. Saio daqui com uns óculos que impedem a visão, apenas permitem ver um muito vago sombreado fusco, guiado por um participante do público, em silêncio e separados por um pau de 2 metros pelo passeio, em direção ao Jardim da Associação. Ensaio sobre a cegueira. A audição amplifica-se, a atenção para o caminhar reaviva-se, novamente dança. Mas reparamos, penso fazendo.

Foto: Augusto Fernandes

Que abertura, a desta cidade? Afinal de contas, a cidade e a sua abertura fazem-se. A cidade aberta que se evoca também é performance aberta. Caminhar-fazer. Se a cidade for aberta é cuidar dela, se não for, como abri-la? Tem a cidade abertura na sua ficção persuasiva? E se sim, como? Com que performances? Para alguém que é de cá, que vai e volta, é inevitável reparar na sua pouca capacidade de fixação de pessoas desde há muito tempo, algo que lhe acentua um etos de não inclusão. Perante a minha cidade ou aquela que sintetizo enquanto ficção sociológica persuasiva, como fazer a performance da cidade por vir? Como se constrói uma atitude ativa para a cidade? O percurso faz isso com a cidade física e através da vida social e histórica dos edifícios, das ruas, da sua paisagem e o seu dinamismo social em todos os planos do habitar dialogicamente a rua por vir porque, em conjunto, experimentamos.

Foto: Augusto Fernandes

“Isto é um espaço de uma história famosa. E isto é uma história de famílias da cidade. Eram inimigas. O problema é que eram inimigas mas tinham filhos que não eram inimigos. Alguns miúdos lutam, mas o rapaz e a rapariga não o faziam. O nome dela é Julieta. Vive na varanda do segundo andar. E a porta, no final das escadas, está fechada. Fecharam definitivamente aquela porta. ‘Nós não queremos que o belo Romeu entre neste castelo’. Romeu conseguiu entrar pela porta fechada, mas como era um pouco idiota, nada sabia sobre poesia, viu-se confrontado em abordar aquela donzela. Tentou uma vez mas cedo percebeu que tinha de pedir ajuda. Pediu a um amigo com um nariz comprido que escreve um poema a Julieta. Na fala de Romeu que o diz, Julieta pede um beijo. Mas logo sentiu (o engodo)… Ainda hoje Julieta espera na varanda da enfermeira, da ama. Portanto têm aqui uma varanda em que podem enviar mensagens, poesia para a tua amada. Imaginem vinte aqui, talvez amantes…” (tradução livre da fala em performance de Alian Michard, parêntesis meus), conta o Alain na fachada do antigo hospital velho, agora parte da universidade. A poesia da arquitetura e do teatro, da história e do dramático contaminam-se por via do afeto, ressoando a história. Ao fundo da fachada, uma janela aberta.

Foto: Ricardo Seiça Salgado
Foto: Augusto Fernandes

Guiam-nos pela história da universidade e inventam cruzamentos para a vida social dos edifícios contaminada pela ficção: como a evocação subjetivada da história das escadas monumentais ou do primeiro dia da crise académica de 1969, nas Matemáticas, ou os três écrans de um artista “Miguel Machado” (fictício?), que estão entre as Químicas e as Físicas servem de interpretação da obra, ou a paisagem de quem entra no Botânico por cima, sobre o rio, naquela escala imensa que abrange as pontes ao fundo, é expressa como a obra de Isabel Ortice, no âmbito da Bienal Ano Zero de Coimbra! Realidade ou ficção? Uma ficção persuasiva para a cidade como um todo? Que todo pela parte? Como cruzar as partes da cidade física, da cidade-cabide, da cidade traje, ou da cidade de práticas? Que cidade habitat?

Foto: Augusto Fernandes
Foto: Augusto Fernandes

No percurso aparecem autênticos postais, uma instalação viva que se repete de um casal bonito simplesmente ali sentado, comendo snacks, conversando, e que vamos encontrando em todo o percurso. A cidade pequena dos fáceis reencontros. Real, ficção? Os casos reais são entrelaçados com a imaginação suscitada pela simples elicitação de um encontro, de um engajamento na performance da e na cidade. Na zona comercial da baixa, vejo a bela adormecida dormindo numa montra. Cuidado! Você está a ser filmado! Quererá um beijo, ou será um espelho?

Foto: Augusto Fernandes
Foto: Augusto Fernandes

No Botânico fui planta e contam-me a minha história, a de cada um dos participantes, depois de uma experiência-sensação que ativou o chacra do centro de comando (Ajña) no bambuzal para, no fim, ser alimento numa comunidade de práticas. No percurso somos interrompidos por fragmentos-performance dos projetos que os artistas residentes no Linha de Fuga experimentam e que colaboram. Um belo gaspacho feito em conjunto começou a resolver a minha relação com o pepino (que não suporto) e a cidade. Fazendo vamos, entre a realidade e a ficção persuasiva, na possibilidade de um comum, no pensamento e na ação, para uma sensibilidade de fazer cidade. Afinal, o futuro é sempre uma ficção.

Foto: Augusto Fernandes
Foto: Augusto Fernandes

Este texto integra a coletânea produzida pelo grupo Crítica de Fuga, que acompanha os trabalhos dos artistas e as atividades do Festival Internacional de Artes Performativas – Linha de Fuga.


Três da madrugada, um poema inédito de Braulio Tavares

Outro dia fizemos, eu, Aderaldo Luciano e Numa Ciro, um bate-papo ao vivo, no Facebook da Kuruma’tá, conversando sobre a obra de Braulio Tavares e sua presença no cenário da cultura brasileira, isso por ocasião dos seus 70 anos e também por conta da campanha de financiamento coletivo, para edição dos seus livros A espinha dorsal da memória e Mundo fantasmo, pela Editora Bandeirola. Ele não participou da conversa amas acompanhou tudo e lá pelas tantas mandou a seguinte pergunta: Posso enviar um poema inédito para o saite?!

Outro dia fizemos, eu, Aderaldo Luciano e Numa Ciro, um bate-papo ao vivo, no Facebook da Kuruma’tá, conversando sobre a obra de Braulio Tavares e sua presença no cenário da cultura brasileira, isso por ocasião dos seus 70 anos e também por conta da campanha de financiamento coletivo, para edição dos seus livros A espinha dorsal da memória e Mundo fantasmo, pela Editora Bandeirola. Ele não participou da conversa mas acompanhou tudo e lá pelas tantas mandou a seguinte pergunta: Posso enviar um poema inédito para o saite?!

Ele se referia ao saite que a Kuruma’tá organizou em homenagem a ele, com textos de muitas amizades. Bem, a resposta a tal proposta, naturalmente, foi Claro! Sempre vamos querer um poema inédito do Braulio. E aqui está…

Toinho Castro, editor


Três da madrugada

Já são as três da madrugada.
Estou bebendo na cozinha.
O dia pertence a todos;
a noite é minha.

Entre um copo cheio e um vazio
entre uma carne quente
e um vinho frio
meu olhar corre as paredes
como se acompanhasse
uma lagartixa
que ninguém mais vê.

E chega à lata de lixo
onde, por baixo da tampa,
emerge a cauda de um bicho.
Uma cauda que se mexe
e diz: “Não morri ainda.”

Um rato? Um gato? Um cachorro?
Um bicho que diz: “Não morro,
não me entrego, não desisto,
sou teimoso como um Cristo
que volta, ao terceiro dia.”

Que carrasco deixaria
um crânio decapitado
dizer:
“Não vou ser jogado
dentro da vala comum,
pois eu não sou qualquer um;
sou Eu, sou um indivíduo,
não sou o mero resíduo
do que foi vivo e morreu;
sou isto, sou sempre um Eu
que não se repetirá,
e glória maior não há
do que o mero existir,
o perceber, o sentir,
o responder, o falar,
o ser, o haver, o estar.

“Ser parte do turbilhão
onde a Carne e a Razão
desenham seu pas-de-deux;
onde o diabo e o bom deus
soldam a sua aliança;
onde a guerra aspira à dança
e a dança dilui a guerra;
e o corpo é mais um planeta
sacrificado à Ideia;
onde a Terra é uma carne
queimada por Prometeu?
Quem lhes pergunta sou eu,
cabeça decapitada;
um corpo que não é nada
e retorna à terra fria…”

Que carrasco deixaria
uma cabeça falante
dizer tais coisas diante
da multidão boquiaberta?

Não, não! A coisa mais certa
é queimá-la em mil fogueiras;
cabeças são feiticeiras
botando o mundo em perigo:
porta-vozes do inimigo,
cassandras da perdição,
arautos do armagedon…
Não! Que ninguém ouça o som
dinamitando os contentes.

Pois entre os seres viventes
somente uma lei vigora:
a de ainda estar vivo
para ver romper a aurora.
Viver; viver o momento
ter aceso o pensamento
ter o corpo em movimento
mesmo que o mundo se acabe.
Viver a vida de quem
“tira de onde não tem
pra botar onde não cabe”.

E assim passa meu olhar
e chega à lata de lixo
onde momentos atrás
eu vi o rabo de um bicho…
Era uma tira de plástico,
escuro, comprido, elástico,
que um vento qualquer mexeu.
Não era bicho nem nada.
Era a cabeça cansada
de pensar tanto; era Eu.


Participe da Campanha de financiamento coletivo dos livros A espinha dorsal da memória e Mundo fantasmo, de Braulio Tavares

No mês do Halloween, pro terror eu digo sim!

Resolvi escrever esse artigo para divulgar um autor incrível. Ele escreve livros e contos de terror. Abaixo vocês podem descobrir mais sobre ele na entrevista EXCLUSIVA que ele concedeu à Revista Kuruma’tá!

Como vocês já sabem, no quinto livro da série literária de sonetos que estou publicando, onde os sonetos conversam com outras artes e linguagens, o #SonetERROR, escreverei sonetos para esse gênero literário, dominado desde sempre pela prosa. [Texto de Eduardo Maciel]

Texto de Eduardo Maciel


Olá, queridxs kurumateirxs!

Resolvi escrever esse artigo para divulgar um autor incrível. Ele escreve livros e contos de terror. Abaixo vocês podem descobrir mais sobre ele na entrevista EXCLUSIVA que ele concedeu à Revista Kuruma’tá!

Como vocês já sabem, no quinto livro da série literária de sonetos que estou publicando, onde os sonetos conversam com outras artes e linguagens, o #SonetERROR, escreverei sonetos para esse gênero literário, dominado desde sempre pela prosa.

Mas enquanto os sonetos macabros não chegam, quero prestigiar o que há de melhor nesse gênero literário acontecendo hoje em dia.
Bora saber mais? Com vocês, Jorge Alexandre Moreira!

1- Conta pra gente: quem é Jorge Alexandre Moreira?

Faço terapia toda semana pra chegar mais perto dessa resposta, mas ainda não tenho a menor ideia.

2- Qual o seu propósito na literatura?

Escrevo porque gosto. Sempre gostei muito de ler e ouvir histórias e gosto muito de contá-las. Se eu tivesse que dizer um propósito na literatura, pelo menos nesse momento da minha vida, seria continuar produzindo, publicando, evoluindo como escritor, e me tornar uma pouco mais conhecido para que eu não precisasse ficar me preocupando tanto em me divulgar pelas redes sociais. Esse processo de se divulgar pelas redes é essencial, para os autores que ainda estão tentando se estabelecer e, para mim, pelo menos, é muito cansativo.

3- Como descobriu o ofício das palavras?

Minha mãe me ensinou a ler em casa, muito cedo, antes de eu ir para a escola. E mesmo quando estávamos passando por épocas muito ruins, financeiramente falando, ela sempre fazia um esforço para comprar os livros que eu pedia. Então, sempre fui muito exposto à literatura e o movimento na direção de escrever foi uma coisa natural, que nem sei te dizer exatamente quando começou. Muitas folhas de caderno com contos manuscritos se perderam pelo caminho. A minha fase de contos de terror com começo, meio e fim começou no Ensino Médio, eu devia ter uns 13 anos.

4- Faz um resumão da sua obra pra gente?

Em 2003, pela extinta editora Papel & Virtual, lancei “Escuridão”, que é uma história de terror passada na Amazônia, com um conflito entre Brasil e EUA como pano de fundo. Em 2018, lancei “Parada Rápida”, um thriller sobre uma mulher que desaparece em um posto de gasolina, durante uma viagem de férias. Participei das duas edições do Ghost Story Challenge, que é um evento em que escritores de terror se isolam em uma casa ou sítio e viram a noite trocando ideias, para produzir histórias. Desses eventos nasceram os contos “Vontades” e “Um Lugar Especial”. Meu novo livro se chama “Numezu” e é finalista no III Prêmio Aberst, como melhor livro de terror do ano de 2020.

5- Conta mais sobre seu novo livro?

Numezu conta a história de um casal em crise, Laura e Raoul, que decide alugar um veleiro para passar as férias, para tentar resgatar algo da época em que o casamento ainda era bom. Mas, durante a viagem, Raoul encontra uma antiga estátua que, eles não sabem, é a imagem de um demônio esquecido, aprisionado por uma maldição. Sob sua influência, pouco a pouco, Raoul enlouquece e Laura terá que lutar pela vida. É uma história tensa, claustrofóbica, violenta e rápida. Não tem muito tempo para respirar.

6- Algum recado para os poetas que nos frequentam aqui na Revista Kuruma’tá?

Sigam fazendo poesia, sigam criando. Nós precisamos desse olhar mágico sobre as coisas e sobre a vida que o poeta é capaz de trazer. De quando em quando, na história, ressurgem momentos em que a poesia é mais necessária. Esse é um deles.

Incrível, né? De arrepiar! Esse aí é pra devorar com sangue nos olhos!
Super indico e recomendo!

Jorge Alexandre Moreira – Foto: Divulgação

O Como do Como. Uma noite com Ynaie. EU COMO VOCÊ. Comida É. Comida fui –

Uma terça de outono; noite em COIMBRA. LINHA DE FUGA. Fui ao Trincanas, misto de associação de dança folclórica e restaurante, assistir a uma performance da artista Ynaie Dawson. Uma yansã em corpo de menina. ‘Quer alguma ajuda Yna?’, perguntei ao chegar, a vendo andar, calma e seriamente, entre a cozinha e o salão. ‘Quero que se sente à mesa’, falou firme e sorrindo. [Texto de Lu Lessa Ventarola]

Texto de Lu Lessa Ventarola


Ynaie Dawson – Foto de Augusto Fernades

Uma terça de outono; noite em COIMBRA. LINHA DE FUGA. Fui ao Tricanas, misto de associação de dança folclórica e restaurante, assistir a uma performance da artista Ynaie Dawson. Uma yansã em corpo de menina. ‘Quer alguma ajuda Yna?’, perguntei ao chegar, a vendo andar, calma e seriamente, entre a cozinha e o salão. ‘Quero que se sente à mesa’, falou firme e sorrindo. E colocou não só a mim, como a todos, sentados, feito meninos e meninas, em almoço de família. Na mesa comprida as conversas cruzavam-se animadas. Ynaie passa por cada um (e éramos muitos) perguntando sobre o que queríamos beber: água, cerveja, vinho tinto ou branco? Não estava anotando em lugar nenhum e pensei comigo “vai lembrar-se?”. Os seus dedos dobravam-se, sem muito alarde, em uma coreografia estranha de anotação e … pronto, logo depois chegaram as bebidas conforme os pedidos. Esses dedos…! Estes mesmos, com suas duas respectivas mãesmãos, trouxeram as comidas, que iam logo para as bocas tão curiosas quanto prazenteiras. Antes eram paisagem para os olhos – com suas formas e cores. Sensório. Sensual. Isso tudo se deu – das entradas à sobremesa – em sequência e ritmo. Na boca a comida entrou exigente, quis ocupar espaços e acionar diferentes papilas gustativas – tudojuntomisturado. Satisfez. O molho com pimenta fincou bandeira. Lambuzou. Havia um êxtase coletivo, mas falo por mim e posso falar assim porque a mesa e a comida nos devolvem a nós mesmos. Mesmo que diante do outro -e com o outro- o ato de comer nos lembra que somos também matéria singular e precária. Precisa de cuidados. Ynaie não falou de arte, não usou frases bonitas de efeito, não teorizou. Ia e vinha da cozinha para o salão com bandejas e travessas; para além de explicar, eventualmente, aqui e ali, um ingrediente ou outro, pouco falou, mas disse muito. Disse fazer. Disse cuidado. Disse generosidade. Disse que a vida é feita de Matéria. Mater. Mãe.

No final fui dar-lhe um abraço na cozinha e a senti saciada. Dei-me conta que não fui assistir a uma performance, nem participar ao menos… não… aquilo era outra coisa, fui mesmo ser comida. EU COMO VOCÊ – o nome da performance não são palavras bonitinhas jogadas ao vento. Arte; sem dizer, disse.

Lu Lessa Ventarola, Coimbra, 1 de outubro de 2020.

Um bordado em recado a Ynaie
Foto de Lu Lessa Ventarola

Este texto integra a coletânea produzida pelo grupo Crítica de Fuga, que acompanha os trabalhos dos artistas e as atividades do Festival Internacional de Artes Performativas – Linha de Fuga.


Uma lagoa escura, arrodeada de areia branca

O governo da Bahia quer construir uma estação de esgoto onde? Nas margens da Lagoa do Abaeté. É isso mesmo que você leu… buscar alternativas, não. Vamos lá estragar, acabar, mais um patrimônio natural. Não sou da Bahia, não nasci em Salvador, e nas duas únicas vezes em que estive lá não tive oportunidade de visitar a Lagoa do Abaeté. Mas cresci à margem dela, na areia branca, desde que escutei, pela primeira vez, It’s a long way, de Caetano Veloso, no seu álbum Transa, gravado no exílio em Londres, em 1971, e lançado no Brasil no ano seguinte. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Para Zidi Brandão

O governo da Bahia quer construir uma estação de esgoto onde? Nas margens da Lagoa do Abaeté. É isso mesmo que você leu… buscar alternativas, não. Vamos lá estragar, acabar, mais um patrimônio natural. Não sou da Bahia, não nasci em Salvador, e nas duas únicas vezes em que estive lá não tive oportunidade de visitar a Lagoa do Abaeté. Mas cresci à margem dela, na areia branca, desde que escutei, pela primeira vez, It’s a long way, de Caetano Veloso, no seu álbum Transa, gravado no exílio em Londres, em 1971, e lançado no Brasil no ano seguinte. Nela, Caetano evoca os versos de Dorival Caymmi, da canção A lenda do Abaeté, de 1959. No Abaeté tem uma lagoa escura / Arrodeada de areia branca… No contexto do disco, do exílio, esses versos pareciam-me mais uma fantasmagoria. Talvez as águas escuras do Abaeté assombrassem mesmo Caetano, enquanto vagava pelas ruas frias de Londres. Para mim, na rua Pampulha (Nome de outra lagoa…), lá na Imbiribeira, no velho Recife, esses versos eram como uma pista, a dica secreta de um tesouro escondido. Como se me fossem ditos no meio da noite.

Segui essa pista e ao meu imaginário adicionei essa mapa, esse caminho, esse long, long, long, long, long way até lá. Sentei na areia branca, mirando a escuridão das águas numa noite de lua prateada. Parte de mim senta-se ainda hoje nessa areia, nessa noite de luar que perdura. Ainda há um mistério e uma revelação por vir. Há algo de visagem, que com Caymmi e sua Lenda do Abaeté, se aprofunda. Ele asobia no meio da canção. É o vento na mata, nas árvores? É o vento cisando sobre as águas? Vamo chamar o vento.

O pescador
Deixa que seu filhinho
Tome jangada
Faça o que quisé
Mas dá pancada se o seu filhinho brinca
Perto da Lagoa do Abaeté
Do Abaeté

A noite tá que é um dia
Diz alguém olhando a lua
Pela praia as criancinhas
Brincam à luz do luar

O luar prateia tudo
Coqueiral, areia e mar
A gente imagina quanto a lagoa linda é

Sou cria afetiva da Lagoa do Abaeté tanto quanto do Capibaribe ou da foz do Potengi. São os barulhos de água que escuto dentro de mim.


Assusta-me e revolta-me imaginar que um grupo de pessoas senta-se às margem de sua burocracia predatória e decidem fazem uma estação elevatória de esgoto na Lagoa do Abaeté. Você não fica com o estômago revirado? Daqui de longe, de onde estou, envio meu apoio à luta daqueles que, em Salvador, defendem a lagoa do Abaeté da ação dos destruidores de mundos. Com isso defendem o vento, os barulhos estranhos na mata, as lendas remotas que as águas escuras escondem, os reflexos prateados da lua e, em última instância, as pessoas. E as divindades.


Foto de destaque: Flickr Câmare de Salvador – Modificada a partir de foto original, de acordo com os termos da licença Attribution-NonCommercial-ShareAlike 2.0 Generic (CC BY-NC-SA 2.0)