Entrevista a Vera Mantero

Fui ter com a Vera Mantero à Oficina Municipal do Teatro numa correria para aproveitar a pausa que tinha do seu trabalho. Enquanto comia uma maçã vermelha, a Vera ofereceu-me a outra ponta do sofá, fazendo notar que era o seu momento de descontracção. Percebo, pois o espectáculo que estaria prestes a apresentar seria tudo menos descontraído, não fosse ele uma viagem ao lugar dos monstros, do obscuro e do feio. E por isso mesmo, a nossa conversa fez-se num ritmo macio, absoluto respeitador do momento. [Por Carina Correia]

Fui ter com a Vera Mantero à Oficina Municipal do Teatro numa correria para aproveitar a pausa que tinha do seu trabalho. Enquanto comia uma maçã vermelha, a Vera ofereceu-me a outra ponta do sofá, fazendo notar que era o seu momento de descontracção. Percebo, pois o espectáculo que estaria prestes a apresentar seria tudo menos descontraído, não fosse ele uma viagem ao lugar dos monstros, do obscuro e do feio. E por isso mesmo, a nossa conversa fez-se num ritmo macio, absoluto respeitador do momento.

Por Carina Correia


Vera Mantero © Ana Soares

Começamos pelo espectáculo ― Esplendor e Dismorfia ― que apresentas aqui em Coimbra, em co-criação com o Jonathan Uliel Saldanha, no âmbito do Linha de Fuga. Ele foi resultado de um convite feito em 2019 pelo Festival de Avignon. Como aconteceu esse convite?

Esse convite foi feito pelo Festival de Avignon no âmbito de um projecto que se chama «Les Sujets à Vif», que é «Sujeitos em Carne Viva», mas depois eles mudaram o nome para Vive le Sujet!, embora eu goste mais do anterior. Nesse projecto, eles juntavam uma pessoa da área da dança, da coreografia, e uma pessoa de outra área. Durante um tempo, eles escolhiam as duas pessoas, mas a partir de certa altura resolveram propor só a uma e que essa uma escolhesse a outra. Então, propuseram-me a mim e eu propus ao Jonathan.

Já conhecias o Jonathan?

Conhecíamo-nos muito mal, tínhamo-nos encontrado num festival em Brest. Quer dizer, eu já tinha ouvido falar dele, tinha uma vaga ideia do que ele fazia, mas bastante vaga. Nesse festival em Brest, vimos o trabalho um do outro. Eu estava a fazer Os Serrenhos do Caldeirão, um solo que eu tenho, e ele estava a fazer um trabalho que é meio instalação, meio performance. Entretanto, falámos dos trabalhos um do outro e gostámos muito de conversar. E pronto, quando surgiu esta oportunidade de escolher alguém, pensei no Jonathan como uma boa oportunidade para o voltar a encontrar e para cruzar as coisas. A proposta desse ciclo era curiosa, porque mesmo a pessoa que não é da área da dança tinha de estar em cena. E isso foi também uma coisa engraçada em relação ao Jonathan, que é uma pessoa que, por um lado, está em cena quando toca, e ao mesmo tempo está atrás dos instrumentos, não está «sem nada». Contudo, é uma pessoa das artes visuais, que cria imagens, situações espaciais, e então achei que era uma situação engraçada para lhe propor.

Mais tarde, foi apresentado em Guimarães, certo?

Sim, fomos a Guimarães em Fevereiro deste ano.

Foi exactamente igual ao original e ao que será apresentado aqui?

Igual, mas tivemos de refazer a banda sonora, porque tem muita palavra. Quando fizemos para Avignon, fizemos em francês, para aqui tivemos de traduzir para português.

Que reflexão, se é que existe, está por trás das tuas coreografias? Ou seja, pretendes dizer algo ao mundo com o teu trabalho?

Bem, isso é muito vasto. Porque depende muito dos trabalhos: nuns, queremos mostrar uma coisa, e noutros, outra.

Fiz essa pergunta para entrar um pouco no contexto do tema do Linha de Fuga, que é «A Democracia». O corpo pode ser para ti matéria política, uma forma de te posicionares?

Eu acho que só pode. Há pouco tempo, alguém perguntava, não me lembro já a que propósito, se somos donos do nosso corpo. E eu disse logo que não. Somos muito pouco donos do nosso corpo. Há imensas regras impostas ao nosso corpo, mesmo que não nos lembremos delas todos os dias. E desde que nascemos. Mal nascemos, há logo uma data de regras impostas ao nosso corpo. Por acaso, uma vez vi um documentário sobre o nascimento e o tratamento dos bebés nas primeiras horas em várias culturas. É interessantíssimo, porque são milhares de maneiras diferentes de nascer e de lhes acontecer qualquer coisa logo nos primeiros minutos: se vira ao contrário, se não vira, se entrapa num trapo, se não entrapa, se lava ou não lava, etc. Essas coisas transformam imediatamente a tua vivência no mundo. E isso tudo é político, é religioso, é uma série de coisas. Mas tu perguntavas acerca do meu trabalho… Há uma coisa que percorre muito o meu trabalho, talvez até nem tanto neste especificamente, que é o estar numa cultura em que o corpo é muito constrangido, apesar de haver outras piores.

Falas numa cultura europeia?

Falo na ocidental. Portanto, sempre me interessou muito investigar como seria um corpo menos constrangido e como é que ele funcionaria, porque uma coisa é achar que ele é constrangido e outra é saber como ele seria e o que faria se não o fosse. E eu não sei, porque não vivo numa cultura que não seja constrangida, então, tenho de experimentar o que é desconstranger: um comportamento, um corpo. Acho que isso é algo que atravessa bastante o meu trabalho, e é uma perspectiva política também.

E isso foi um pouco o que tentaste fazer na oficina que deste no Linha de Fuga: «O Corpo Pensante».

Sim, também. É o tipo de coisa que faço muito.

Parece-me que é possível ligar essa ideia de desconstrangimento a um conceito a que te referes, e que trabalhas nestas oficinas, que é awareness.

Isso é um trabalho que se faz, que não dá para explicar tim-tim por tim-tim. Trabalho muito com o abrir o corpo, com a respiração, com a relaxação, com coisas que façam com que seja possível abrir canais no corpo, abrir correntes a circular no corpo, coisas que tanto o predisponham como o activem. Há uma fina linha entre abrir e ficar sem energia e abrir e activar, e tem de se ficar num meio caminho entre as duas coisas. Abro muitos canais para a voz, tentando usar todos os meios possíveis dos quais a voz faz parte. Uso muito a escrita também, para acordar ligações entre o verbal e o não verbal, e que essas ligações fiquem em acção mesmo quando a escrita entretanto é posta de parte. Depois, trabalho também a própria noção e consciência do espaço e das relações no espaço e no tempo. Este tipo de coisas.

Gostei muito de ler na tua descrição desta oficina a palavra ironia, e o facto de ela «nos levar mais longe». Podes desenvolver essa ideia?

Há coisas que na dança são um pouco complicadas e nas quais é fácil cair. A vaidade, por exemplo. A dança faz corpos bonitos, ficas elegante, e as pessoas crescem muitas vezes à frente de um espelho. Então, se és bonita e passas a vida à frente de um espelho, é tramado não ficares numa postura de um certo poder através da beleza ou da sedução, da imagem, e isso tem de se estar sempre a puxar para trás. E relaciono logo com a ironia, porque é preciso ter uma certa capacidade para rir de si próprio, para não se levar muito a sério, para não entrar nesse género de posturas que são muito desinteressantes, e não é fácil não ir atrás delas, pois estão muito à flor da pele. A ideia de não se levar muito a sério para mim é muito importante porque é logo uma forma de cortar com essas tendências e ir contra a tentação da tomada de poder. Seja pela super-imagem, pela super-sedução, seja pela esperteza, pela suposta inteligência, as tomadas de poder em cena, no geral, têm de se acautelar; tem de se ter cuidado para não se ir atrás dessa tentação. A ironia, o não se levar a sério, ou um certo despojamento, são coisas importantes para cortar as vazas a essas tendências. São questões que eu costumo chamar de ético-estéticas, porque ficam ali a meio caminho entre um problema ético ou estético.

Há pouco dizias que usavas a escrita para criar ligações. Na tua perspectiva, como se cruza então a linguagem da palavra e a linguagem do corpo?

Eu costumo gostar de dizer que não tenho a certeza se foi boa ideia a dança autonomizar-se como forma de arte. A dança só muito tarde é que se autonomiza como forma de arte, como arte cénica, digamos. Tinhas as danças sociais, tinhas danças entrosadas noutras artes cénicas, nas óperas, nos musicais semi-dança, semi-teatro, tinhas assim umas formas híbridas. Depois, a certa altura, a dança fica uma forma de arte autónoma e existe por si só. Se, por um lado, a dança não teria evoluído como evoluiu e chegado aos lugares onde chegou se não se autonomizasse, por outro lado, isso significa que ela perdeu a palavra, ficou muda, perdeu pelo caminho algumas coisas que ao mesmo tempo, eu acho, lhe fazem muita falta, e que não são muito naturais de perder, porque nós na vida também não estamos calados, não é? Mexemo-nos, falamos, fazemos tudo. Portanto, essa autonomização é complicada, mas não a renego, porque vejo que foi importante para levar a dança a lugares a que não chegaria sem ela. Contudo, depois fica desprovida de uma série de ferramentas que são muito importantes também. Fica desprovida de objectos, de entorno, vai-se despindo cada vez mais e mais e às tantas fica numa situação em que tem de tentar dizer tudo ― dizer entre aspas ― só através de esbracejar, de gesticular. Isso é muito ingrato, e muito difícil. Eu acho que na dança querer abordar questões é uma tarefa um bocadinho inglória. É um território um bocado árido. Acho que se chegou a uma altura na história da dança em que uma pessoa começa a ter de pensar em como traz de volta uma série de coisas, para não estarmos nesta aridez, nesta secura total, onde nos faltam ferramentas. E é preciso trazê-las de volta. Na história da dança, vês que se vai para certos lugares porque se começa a ver onde se agarrar para não estar nesta secura, neste deserto, de corpo nu. Em diferentes momentos históricos, a partir das décadas de 1960 e 1970 e até hoje, foram-se encontrando variadíssimas formas de recuperar meios para sobreviver a essa aridez a que se chegou.

És então uma combatente.

Sim, eu faço parte dessa luta.

Gostas mais de dirigir ou de dançar? Há peças em que não entras.

Há, mas não são muitas. Gosto muito de entrar nas peças. Agora que já estou com uma certa idade, parece-me que talvez isso aconteça menos, mas será mesmo só por isso. Gosto muito, muito, de actuar. Acho que é uma oportunidade extraordinária de vivência. É uma vivência intensificada, é uma vivência outra. E é muito raro ter essa oportunidade; a maior parte das pessoas não a tem. A oportunidade de ter uns momentos na sua vida onde está noutra temporalidade, noutro comportamento, noutra postura. Coisa que existe em culturas que têm, por exemplo, muito mais actividades ritualísticas, actividades outras que não sejam do dia-a-dia normal. Nós só temos basicamente o dia-a-dia normal, temos muito pouca coisa que saia dele, da coisa utilitária, da coisa prática. Mas de outras dimensões, sem serem essas do dia-a-dia utilitário e daquilo que serve para alguma coisa, temos muito pouco. Mesmo a nossa religião é muito desprovida de reais actividades outras. Eu, já que tenho estas oportunidades de ter essas actividades em cena, não gosto de as perder, porque são raras e me fazem falta, fazem-me mesmo falta. Isto para voltar à tua pergunta. Na maior parte das vezes, eu faço as duas coisas ao mesmo tempo, o que representa as suas dificuldades, mas prefiro. Eu sempre achei que era muito difícil entender um trabalho de fora, porque por dentro eu entendo, melhor, eu entendo-o pelo dentro, ou seja, entendo uma série de coisas do trabalho por estar lá dentro e não é por o ver de fora, pois não é uma simples questão pictórica. E há essa questão: se, por um lado, estar dentro às vezes dificulta, porque uma pessoa não está de fora e não vê outras coisas que é preciso também ver e ter noção, por outro, faz-me entender coisas no trabalho de dentro que de fora não consigo entender.

E gostas de ter esse retorno que vem de fora?

Também me dá muito jeito, sim. Não é a única forma.

A tua vasta internacionalização permite-te fazer algumas comparações com os diferentes estados da cultura e das artes em diversos países. Queres falar um pouco da tua percepção dessas diferenças?

Eu podia dizer que aqui a arte e a cultura têm perdido lugar, têm perdido importância, têm perdido o seu papel na nossa sociedade, o seu lugar, no sentido em que houve uma altura em que tinham valor. Por exemplo, nas alturas das campanhas eleitorais e dos programas eleitorais, quando vês qualquer debate sobre o que é que vai acontecer, o que os partidos vão fazer se ganharem, etc., nunca se debate o que vão fazer nessa área, nem nenhum jornalista pergunta, nem nenhum político se lembra de dizer. Quer dizer, se ninguém se lembra, aquilo já está enterrado, já não tem importância nenhuma para ninguém. E isso não foi sempre assim. Até seria um estudo interessante o analisar a degradação do discurso acerca da cultura nos vários debates eleitorais ao longo do tempo. Porque é que isto foi perdendo lugar e espaço e importância não sei explicar muito bem. Mas também sei que isto não é só cá e que é uma coisa que tem vindo a acontecer. Por exemplo, quando se pensa na ideia do intelectual e do lugar que tinham os intelectuais há umas décadas, em comparação com hoje, percebemos que faz parte deste enterro da cultura e do papel daqueles que pensam e cujo trabalho é pensar no mundo e nas sociedades. Não vou tentar pôr-me aqui a explicar nada, não sou capacitada para isso, mas também vejo este avanço de um capitalismo muito feroz, de um neoliberalismo em que é só produzir, produzir, produzir, acumular, acumular, acumular, fazer dinheiro, fazer dinheiro, fazer dinheiro, em que isso se tornou no que é o importante. Não há cá espaço para devaneios. E isso claro que tem um lugar nesse enterro das actividades que são de olhar para o mundo, de entender o mundo, de configurar o mundo, de fazer objectos que configuram o mundo.

E como achas que se pode dar a mudança?

Gosto muito da frase do Manuel António Pina em que ele dizia: «quando eu era novo, pensava que ia mudar o mundo, agora que já sou velho, só espero que o mundo não me mude a mim». Portanto, não sei bem, fico aqui na minha escritazinha a ver se consigo manter isto e se não me dão cabo da minha possibilidade de fazer. Vendo nós que este género de movimentos a que vamos assistindo, de um capitalismo muito feroz, de uma mentalidade da produção desenfreada, foram crescendo ao longo de décadas, não vejo assim forma de desmantelar a coisa. Vemos como determinados movimentos muito catastróficos e muito destrutivos foram desmantelados, com grande destruição, por exemplo, em que o pessoal acorda e acha que é melhor não ir por aí. Mas dura pouco tempo. E depois vem tudo outra vez: é andar para a frente e para trás, para a frente e para trás. Portanto, talvez a resposta seja que haja tanta destruição que as pessoas parem um bocadinho. Não sei. Mas sei que graças a qualquer coisa, graças aos céus, há a arte, porque ao menos é um lugar onde uma pessoa pode não morrer tanto.

Agora com a Pandemia, sentes mais dificuldades na persecução do teu trabalho?

Não me posso queixar. Tenho apoios do Estado, tenho propostas, consigo trabalhar, não me posso queixar de todo. Senti grande alteração com a Troika, porque os apoios foram todos cortados a 50%, estávamos em 2012 e voltámos para 1998. Mas neste momento, há muita desprotecção, há pessoas que não têm apoios garantidos, é muito complicado, muito. Ficam a viver de quê? Do ar?


Este texto integra a coletânea produzida pelo grupo Crítica de Fuga, que acompanha os trabalhos dos artistas e as atividades do Festival Internacional de Artes Performativas – Linha de Fuga.


Uma cidade assombrada

Pense numa cidade assombrada! Recife é assim, cheia de almas penando por aí. Casas assombradas não faltam… sobrados velhos abandonados. Abandonados de gentes, mas finamente habitados pela mais alta linhagem de fantasmas nordestinos. Noite na rua Velha, extensão da ponte Velha, que leva até o Largo de Santa Cruz, onde tem a Igreja. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Para Aderaldo Luciano

Pense numa cidade assombrada! Recife é assim, cheia de almas penando por aí. Casas assombradas não faltam… sobrados velhos abandonados. Abandonados de gentes, mas finamente habitados pela mais alta linhagem de fantasmas nordestinos. Noite na rua Velha, extensão da ponte Velha, que leva até o Largo de Santa Cruz, onde tem a Igreja. Já passou por ali depois da meia-noite? Não basta, pois ser noite, tem que ser depois da meia-noite, quando vira o turno e os fantasmas são autorizados a vagar, arrastando suas correntes, suas lamúrias e seus passados. Passar pela rua velha quando começa esse lamento gótico-assombratício não é pra gente frouxa.

O Recife inteiro é essa coisa noturna, cada ponte é um ermo, passando por cima do Capibaribe escuro, moroso. Muitas vezes me debrucei no guarda-corpo da ponte Buarque de Macedo e pensei em Augusto dos Anjos.

Cismas do destino – Augusto do Anjos | Eu e outros poemas

Com o sol brilhando à pino esses pensamentos ainda assuntam. A casa do Agra, a funerária que se estabeleceu na cidade em 1850 e por gerações foi sinônimo de morte e cemitério e desse medo interior, profundo, que Augusto dos Anjos mirava com sua poesia e sua vida. Quando a noite cai sobre a cidade, sobre as pontes… eu falei da noite cair? Perdão, eu quis dizer avançar, quando a noite avança sobre a cidade. Lá se vai o sol, lá por trás dos Guararapes, a escurecência vai se espalhando pelos becos, pelos subúrbios, até chegar ao centro e inundar a rua Velha, depois de cobrir quase tudo. O Recife Velho já está tomado, Santo Antônio também. A Ilha do Leite silenciosa e vivalma nas ruas. Por quantas vezes atravessamos a cidade, de um bar para uma festa, de vidros fechados no carro de um amigo, sabendo que do lado de fora erravam os vagantes.

As histórias são muitas. Gilberto Freyre compilou num livro, Assombrações do Recife Velho, casos e mais casos de aparições lá nos areais dos Aflitos, sobrados assombrados no Pátio do Terço, na rua Imperial, mesmo o Teatro Santa Isabel, ali de costas para o rio, tem suas histórias soturnas. Mas a rua Velha… A rua Velha é de arrepiar, com suas portas e janelas fechadas, seus muitas de suas casas convertidas em comércio e as almas arrastando as caixas de água sanitária, sem compreender que o mundo mudou. Certa vez passei por lá no meio de uma madrugada, eu e esse meu amigo com quem havia tomado umas cervejas, ao som de algum teclado casio um dos pega-bebo que ainda resistiam. Entre a conversa e a cachacinha que carregávamos pra esquentar a consciência, fomos bater naquele vão entre mundos. Lá adiante, na linha reta da rua, pensamos ver um vulto e nos encolhemos. Um arrepio subiu do asfalto, atravessou nossos corpos e saiu pela cabeça em direção das nuvens, carregado de elétrons negativados pela aparição, Demos um gole na caninha, como se nos benzêssemos e passamos a avançar lentamente. E de repente estava posta ali a figura, entre nós e o Largo da Santa Cruz.

— Boa noite! — Sinalizei.
— Boa noite… — Respondeu com uma voz dos além. Os arrepios descarregavam sua eletricidade estática à nossa volta. — Isso é hora de tá na rua?! 
— Estamos de passagem somente!
— Pois vão ter que passar por mim. — Falou como num sussurro, que ainda hoje escuto nas noites mal dormidas.
— É alma ou gente que tá aí?! — Ousei, por causa da bebida, perguntar.
— É Alma, seu cabra safado! É Alma!

Cresceu o coro dos Anjos
E o coro de Satanás.*

A partir daí já não sei mais. Corremos eu e meu amigo, deixando a Alma e a cachaça pra trás! O que foi feito dele não me pergunte, porque corri cego dos olhos! Quando dei por mim estava esbaforido na avenida Guararapes, onde o Recife vai marchando**! Recuperado da bebedeira, senti que soprava uma aragem fria. Recuperei o fôlego e olhei pro céu, só pra ver que uma nesga já se acinzentava pro azulado da madrugada se despindo em manhã. Se eu estivesse em Boa Viagem veria o cocuruto do sol se apresentando para o trabalho de espantar as fantasmagorias de volta para as tumbas, paredes, sótãos e cristaleiras. Ouvia-se ou uivos distantes se perdendo em ecos e as gargalhadas dos barões ensanguentados. Dali caminhei até a Dantas Barreto, pra pegar meu ônibus de volta para a Imbiribeira, para casa…

A casa da Imbiribeira – Gilberto Freyre, em Assombrações do Recife Velho

*Versos do poema A barca do céu, de Ariano Suassuna
**De um verso do poema Chopp, de Carlos Pena Filho

Tesserato: + 2 poemas de Calí Boreaz

Tesserato é o nome do novo livro da poeta Calí Boreaz, cujo trabalho a gente aqui na Kuruma’tá tem acompanhado com atenção e encantamento. Sempre uma alegria quando ela manda poemas pra gente, pelo que há de surpresa, de delicada qualidade em cada verso. [Poemas de Calí Boreaz]

Poemas de Calí Boreaz


geotectônica

existimos porque alguém
pensa em nós
não o contrário
.
mexer-se por dentro da cabeça
até a combustão
não te dá uma partícula de existência
pelo contrário — tira-te
quanto mais as coisas pensadas
existem
ao pensá-las
cada vez mais adias
a tua existência
inclusive se quiseres desaparecer
do mundo o que podes fazer é
pores-te num canto a pensar
só a pensar
/ solidão virá de solidificar
existências — outras
às vezes o passado é sólido
num presente pastoso
às vezes são os presentes paralelos que
demasiado concretamente
se assemelham aos telhados confusos
que olhamos da janela
num lugar oblíquo — íntimo — da cidade
quando olhar pela janela se torna propriamente
um lugar
e o porvir que às vezes perpendicula
ao posto burocrático
como um cínico regato, assim fugidiço
quantas vezes
não sentiste os pés levemente molhados de
um futuro que nunca existirá?
nunca ninguém pensou nisso nos estados
da imatéria?
também há gente estonteantemente rochosa
que não arreda pé de nos furar o ar respirável de
ofegante existência \
se quiseres desaparecer
do mundo o que podes fazer é
pores-te num canto a pensar
só a pensar, dizia eu
enquanto isso vais ver como vais
mirrando
e (sisifiana mente)
en volvendo a ti mesmo
chega uma hora em que vais evaporar
num interstelar sopro mudo
mudo ainda por cima:
ninguém vai re parar
é a chamada
— desistência
ao contrário, quanto mais
pensarem em ti mais
real serás mais
acesa tua constelação de partículas
— de existência
.
mas e quando duas pessoas estão
cada uma em seu canto
apenas pensando
uma na outra?
aí acontece o fenômeno buraco negro
(onde o tempo pára e o espaço rara)
nem existes
nem desapareces
insistes

janelitude

ei ei você
tu, sim
vem cá
apoia-te aqui
no parapeito deste poema
descansa um pouco
posso servir um café, queres?
espera, não vás
pode ser chá
chuva
chocolate
também prefiro
também me acalma
isso, apoeta-te aqui
não bate o sol aqui
aqui é sempre meio madrugada
meio lusco-fusco
sim, também estou em trânsito
embora esteja aqui à janela
mas repara ela não tem vidro
porque isto não é uma casa
isto é um poema
espreita aqui
vês? não há móveis
também não há portas
por que eu chamo isto de janela
então?
boa pergunta
então fica mais um pouco
pousa esse peso
desamarra o cabelo
oi : )
eu reparei logo em ti, sabes
estavas a caminhar com muita pressa de
nada
eu também ando assim
e depois às vezes entro num poema
há vários vazios por aí
nunca tinhas reparado?
é porque nunca tinhas parado
se não se parar como é que se vai reparar
está pronta a chuva
pronto
chuva e chocolate é receita certa de parança
dizes tu portanto que
se não há portas cá dentro
não pode isto ser uma janela pra fora
pois não existindo assim
o próprio dentro e o próprio fora
não haveria precisança de janela
o próprio conceito de janela se tornaria absurdo
sem o dentro e o fora que a condicionam
à função de ser janela
isso está tudo muito certo
do ponto de vista arquitetônico
mas já te disse — isto
não é arquitetura
isto é um poema
achas que só o ramo é que está na árvore?
a árvore toda ela está no ramo esquartejado
assim como um país inteiro está no exilado
e a vida toda se deixa conter num segundo de ponteiro
assim como o universo cabe no teu cabelo
assim desamarrado
então
não são só o dentro e o fora que têm uma janela
a janela também tem em si o dentro e o fora
mesmo que neste preciso momento
a gente já não saiba quem
está fora e quem
está dentro
e por isso é que isto
é a janela de um poema
serve apenas pra parar
pousar o peso
desamarrar o cabelo
descansar um pouco
tomar chuva e chocolate
e prestar atenção nos deuses que
não te prestam a menor atenção


Compre seu exemplar
do livro tesserato, de Calí Boreaz


A fábrica da Tacaruna e a descoberta de Austro-Costa

Em 22 de março de 1986, eu e Roberval fomos ao show do RPM, lá no Centro de Convenções, no Complexo de Salgadinho, entre o Recife e Olinda. O RPM, com Paulo Ricardo à frente, era a banda do momento no Brasil, tocando até encher o saco em todas as rádios com vários hits do seu primeiro disco, Revoluções por minuto. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Em 22 de março de 1986, eu e Roberval fomos ao show do RPM, lá no Centro de Convenções, no Complexo de Salgadinho, entre o Recife e Olinda. O RPM, com Paulo Ricardo à frente, era a banda do momento no Brasil, tocando até encher o saco em todas as rádios com vários hits do seu primeiro disco, Revoluções por minuto. A gente não curtia aquilo, mas Roberval trabalhava, ou estagiava, ou sei lá o que, no jornal da praia, jornalzinho que circulava na praia da Boa Viagem, e tinha dois ingressos promocionais, para fazer a cobertura do show, que prometia um padrão internacional como espetáculo, para o periódico praieiro.

Não lembro da gente ter se divertido ali. Acho que começou tarde, fez muito barulho, não do bom, e terminou ainda mais tarde. A gente que era liso e não tinha carro, e de repente estávamos diante do problema que era voltar pra casa àquela hora. O Centro de Convenções ficava longe demais de onde a gente morava, e seria coisa de pegar dois ou três ônibus naquele começo de madrugada. Um pra sair dali até o centro e outro pra chegar na Imbiribeira. Outro problema era um ônibus passar ali naquele ermo em meio ao breu.

O que você que me lê precisa entender é que aquele lugar era um meio de caminho entre duas cidades, sem residência alguma à vista. A gente só via os carros indo embora, o lugar se esvaziando, nenhuma carona pintando. Nos restou caminhar até o sombrio ponto de ônibus não tão mais próximo, em frente a fábrica da Tacaruna, que é, naturalmente, uma fábrica abandonada.

Fachada da edificação, c. 1900.

Construída para ser a Usina Beltrão, e tendo sua construção concluída em 1895, acabou por virar uma manufatura de tecidos e em 1982 foi desativada. Muitos planos foram feitos para ela mas até hoje segue vazia, se deteriorando e assombrando o Complexo de Salgadinho. E lá estávamos eu e Roberval, às uma e trinta da madrugada, esperando uma ônibus fantasma que nunca viria, em plena escuridão. Hoje existe um Shopping Center em frente à Tacaruna, do outro lado do canal, mas há quase 35 anos… pense! À nossa frente os carros passavam faiscando nas vias expressas que conectam as duas cidades, enquanto conversávamos sobre o que conversávamos, ou seja, discos, músicas, livros, espíritos. Impossível não falar de fantasma na situação em que nos encontrávamos. E quando tudo já estava bem ruim, vimos que um camburão da polícia, uma clássica Veraneio, vinha se aproximando devagar, chegando junto, e a gente ali, tipo, que merda.

— O que vocês estão fazendo aqui?
— Esperando ônibus. A gente tava num show no Centro de Convenções.
— Aqui não é um lugar legal pra vocês esperarem ônibus. Entrem aí, a gente vai deixar vocês no Derby.

O Derby era a civilização mais próxima, com um bom sortimento de ônibus, mesmo às duas da madrugada. O negócio era entrar no camburão sem acreditar que a gente seria deixado no Derby. Dois perdidos numa noite suja… onde fomos nos meter? Bem, até ali… num camburão da PM. Mas contra nossas piores e bem fundamentadas expectativas, o caminho até o Derby foi cordial, gentil mesmo, pontuado por algum bate-papo e o vento entrando pela janela. Da calçada demos adeus à nossa inesperada missão de resgate e dali pegamos um ônibus para o centro, e na Dantas Barreto entramos num Bacurau do Jordão Baixo ou Alto, Destination: Home!


Essa é uma história que gosto de contar e ela sempre surge quando o tema da conversa é sobre essas experiências, esses acontecimentos miúdos da vida, muitas vezes estranhos, e a té perigosos, mas que se tornam engraçados com o passar dos anos. Contar uma história assim também é ua oportunidade de se reencontrar com uma versão de si mesmo, que você não vê há muito tempo. Roberval não lembra dessa história, mais um motivo para eu contá-la e recontá-la. Por mim e por ele.

Recentemente dei com os costados na Tacaruna mais uma vez, virtualmente, é claro. Devo ter comentado essa história com alguém e isso atiçou minha curiosidade pela velha fábrica, que eu sempre fazia questão de contemplar quando passava de ônibus no caminho entre Recife e Olinda. Com mais de um século de existência, a fábrica tem uma história longa e confusa, sujeita aos humores da economia açucareira de Pernambuco no século passado, às idas e vindas dos caprichos do estado e também às ideias do empresário Delmiro Gouveia. Há um bom material sobre a fábrica na internet, inclusive um artigo da Fundação Joaquim Nabuco. Mas no furdunço da internet encontrei o documentário Usina Beltrão e Fábrica Tacaruna, de Lucas Lobato Ferreira, baseado no livro do historiador Limério Moreira da Rocha, Usina Beltrão e Fábrica Tacaruna: História de um empreendimento pioneiro. A partir de uma entrevista com o próprio Limério, e imagens da fábrica e seu entorno, mergulhamos nos muitos vieses de uma história riquíssima que, ao que tudo indica, ainda não terminou. Logo no começo do vídeo Limério fala de sua visão da fábrica, que não é muito diferente da que eu tinha, e mesmo Roberval. A visão daquela grandiosidade abandonada, fantasmagórica, carregando a si mesma como fardo. Recife tem vastas inspirações sobrenaturais e a Tacaruna, ainda hoje, parece-me mesmo uma insólita assombração, a vigiar os caminhos. Naquela noite, eu e Roberval sentíamos seu olhar pesado às nossas costas.

Mas o que esse doc tem de muito bom é que, pra explicar o espanto da fábrica, Limério evoca os versos do poeta pernambucano, nascido em Limoeiro e que fez do Recife seu lugar de vida e verso, Austro-Costa:

O bond parou
Ergui os olhos de meu De Profundis
E surprehndi a treva afflicta
na Noite — irmã da alma de Wilde,
Afflicta, afflicta…

O óleo negro da Noite escorria por tudo.

Porém , os maroins têm lanternas na insídis…
(Os microscópicos anthropóphagos do Mangue!)

De prompto, o assalto.
Mas…
(Oh! A ultriz delícia
de esmagar, a sorrir, com um tabefe de estalo
a perfídia de um átomo de lama!…)

Segue o Bond, de-novo,
Agora, ao longe, a Fábrica
é bem um negro, immenso transatlântico
encalhado no mangue.

Quem me lê com alguma frequência ou me conhece, sabe do meu interesse, amador, diga-se, pela poesia pernambucana, sobretudo a quem Recife como fonte de inspiração. Então, descobrir um novo poeta, que eu simplesmente ignorava, é de uma imensa alegria. Ainda mais com tais versos. Vi a mim e a Roberval nesse poema, nesse bonde, a esmagar maroins contra o corpo, aos tabefes, e a mirar com respeito a Tacaruna. Que riqueza de imagem, um poema que é uma história inteira, um filme quase. Fica aqui a dica, Kleber Mendonça filho!

Assisti ao ótimo documentário e corri às pesquisas, agora em busca de Austro-Costa. Pouca coisa disponível, pouquíssimos poemas reproduzidos em parcos blogs. No Suplemento Pernambuco um delicado e curioso perfil nos oferece uma visão rápida mas bem apurada da passagem do poeta entre nós. Morreu jovem, o poeta, no dia 29 de outubro de 1953. Tinha 54 anos e se foi num acidente de ônibus, um dos primeiros a acontecer na cidade. Estava de pé no coletivo, a ler, e ao súbito impacto caiu e bateu com a cabeça. Lembrei imediatamente de Carlos Pena Filho, outro poeta do Recife que morreu, precocemente, num acidente envolvendo um ônibus.

“Quanto a mim, se não morrer, / vou entrar para a Academia / e isso é pior do que morrer!”

Mais um poeta sobre quem pouco se fala, pouco se lembra. Me vi andando pelo Recife, ignorante de Austro e seus versos, seu olhar sobre o mesmo Capibaribe que olhei tantas vezes ao longo da vida. Um outro Capibaribe que não o de João Cabral, que tanto pontuou meu convívio com o rio.

Capibaribe, meu rio,
espelho do meu sonhar
quero fazer-te o elogio,
mas penso: Se te elogio,
é a mim que estou a elogiar…

Capibaribe, meu rio,
espelho do meu sonhar…

Foi nos arquivos digitais da Biblioteca Nacional, pesquisando as edições das décadas de 1940 e 1950, que acabei por conviver com Austro-Costa. Poemas, encontros, pequenas notas, sua correspondência na posta restante do Diário, os posicionamentos políticos, o olhar sobre o cotidiano da cidade. Andei com Austro por um Recife imaginário, muito anterior a mim, mas ainda assim em mim, de alguma forma. Talvez pelo Recife ter sido sempre velho, mesmo quando eu andava pelas suas ruas, como se tivesse também quase 500 anos. Tudo que cresce de uma cidade, cresce dentro da gente também. Sua histórias, suas vielas, seus lampiões de gás, tudo vem dentro da gente. Veio dentro de mim Austro-Costa, sem saber, nem eu e nem ele. Poetas parecem sempre ser uma resposta ao que ansiávamos. Encontrar a obra de Austro-Costa e sua presença é um reencontro, uma espécie de “Gente! Claro!”. Esteve sempre ali, latente. E foi no espanto do reencontro que emergi dos arquivos da Biblioteca Nacional, agora em busca de um livro reunindo seus poemas. Uma pesquisa, agora na Estante Virtual, levou-me a alguns poucos e caros exemplares de época. Mas para minha grata surpresa, não é que a CEPE tem um volume que traz seus dois livros publicados e uma seleção de sonetos satíricos por módicos R$15?!

Enquanto escrevo aguardo ansioso a chegada da minha encomenda, para folhear suas páginas e conversar com esse poeta, verso a verso. Perguntar a ele se naquela noite, ao parar o bonde, ele não teria visto dois jovens perdidos, a esperar sabe-se lá o que, enquanto os maroins esvoaçavam, esses anthropóphagos do Mangue! Se ele viu, refletido nos olhos daqueles dois, o impossível Recife do futuro, os carros riscando a noite do Complexo de Salgadinho, a Tacaruna abandonada, ainda ancorada na escuridão de onde já não é mais mangue.

Leia também:
Austro-Costa, um Poeta do Recife – Texto de Paulo Gustavo (Revista Será?)
Pesquisa escolar FUNDAJ


Uma viagem musical

Há 11 anos que Marcia Feitosa, pesquisadora, professora, musicista, cantora… Eita, que é muita coisa boa pra uma pessoa só fazer!! Pois são onze anos, com todos esses fazeres e talentos, tocando o projeto Musicandarte, iniciativa pensada, e posta em prática, para levar à criançada a memória viva da nossa música brasileira. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Há 16 anos que Marcia Feitosa, pesquisadora, professora, musicista, cantora… Eita, que é muita coisa boa pra uma pessoa só fazer!! Pois são 16 anos, com todos esses fazeres e talentos, tocando o projeto Musicandarte, iniciativa pensada, e posta em prática, para levar à criançada a memória viva da nossa música brasileira. Vivíssima, porque a gente não pode imaginar essa turma crescendo sem saber quem foi Chiquinha Gonzaga, Cartola, Tia Ciata e tanta gente linda que contribuiu para essa história, que é nossa história como povo.

Como legado desse trabalho, a Marcia nos apresenta agora o primeiro volume de uma séria de livros que aborda com leveza e conhecimento, momentos-chave dessa história. As viagens de Zequinha no terreno dos Chorões (Editora Inverso), com ilustrações de Lhaiza Morena, nos carrega até o Rio de Janeiro nos primeiros anos do século XX, pra gente assistir de camarote a ebulição artística daquele período que nos deu um dos gêneros musicais mais cativantes que a gente conhece, o Choro!

É virando uma esquina que Zequinha, a caminho do campinho pra pelada, adentra magicamente nesse universo em que vamos… Gente, não quero dar spoiler! O livro abre pra gente, crianças e também adultos, o mundo dos Chorões, das rodas de choro, das casas acolhedoras de bairro, de tanta coisa formadora da nossa cultura. É um livro cheio de delicadezas, capaz de tocar qualquer um que se interesse por música, por cultura, e também capaz de despertar esse interesse. E isso é que é importante e o centro da ideia do Musicandarte e do trabalho da Marcia Feitosa. Zequinha viaja no tempo e a gente viaja com ele ao encontro de personagens inestimáveis, cativantes, que nos legaram uma importante herança cultural.

Para adquirir o livro online, visite o site da Casa – Projetos Literários


E agora deixamos você com uma super bate-papo que tivemos com Marcia Feitosa e o violonista Carlos Mas, em que conversamos sobre o livro e o projeto Musicandarte!


A Lua sobre nós

A Lua é mais antiga que a terra, está nos registros mentais mais baixos e inacessíveis. Sonhei com isso, com essa informação. A Lua foi o veículo que nos trouxe até aqui, que nos protegeu no percurso mais difícil da nossa migração. Era verde, rica e foi abandonada. Agora está latente, aguardando os sinais, a movimentação da civilização no sentido de abandonar mais um planeta.

Texto de Toinho Castro


Primeira foto da lua, em 1840, por John Draper

A Lua é mais antiga que a terra, está nos registros mentais mais baixos e inacessíveis. Sonhei com isso, com essa informação. A Lua foi o veículo que nos trouxe até aqui, que nos protegeu no percurso mais difícil da nossa migração. Era verde, rica e foi abandonada. Agora está latente, aguardando os sinais, a movimentação da civilização no sentido de abandonar mais um planeta.

Aportaremos então nos seus vastos campos e rumaremos para o interior, onde descansam as grandes máquinas e os alvéolos semi-transparentes, onde seremos decompostos ao mínimo necessário para empreender uma nova viagem. Todos nós sabemos, no núcleo de alguma consciência que temos, que é assim. Que tem sido assim. Está previsto recomeçar do zero em algum outro mundo. O passo a passo da evolução reencenado por nós, os mais antigos viajantes do cosmos. É um processo contínuo, que está em andamento exatamente agora e algo em nós, perdido em nós, para que não o encontremos, o controla. Posso sentir isso agora, vibrando levemente sob meus olhos fechados. Você não sente porque sentir isso que está acontecendo comigo é um acidente, previsto em matemáticas muito antigas, mas que ainda vamos descobrir.

Agora eu sei e tenho essa memória de gerações de nós, vivendo em mundos diversos, distantes no tempo e devastados, deixados para trás. O longo caminho da nossa civilização, do silencioso vácuo percorrido. Sei agora que não somos terráqueos e a lua é o nosso transporte. Tantas teorias para explicar sua origem e nenhuma que se encaixa, nenhuma que explica. Fomos até lá nos nossos foguetes toscos, enchemos um saco de pedras e voltamos. E nunca mais quisemos retornar. O que os astronautas descobriram que não quiseram nos contar? Talvez meus sonhos e presságios sejam conseqüências desses vôos. Algo iluminou-se, de alguma forma, em alguém.

Eugene Cernan foi o último homem a pisar na lua. Imagino sempre ele contemplando aquela paisagem árida, o céu escuro, a terra distante e uma voz interior que lhe dizia: Vá embora daqui. Ainda é cedo. Eugene esqueceu, certamente, essa voz, como esqueceu o peso enorme sobre os ombro, desafiando a falta de gravidade. Sei que visitaremos a lua ainda outras vezes, sempre em busca de explicações, antes que despertemos todos e sigamos em busca de um novo lugar para nós no grande vazio entre os mundos.

A terra é o décimo quinto planeta que colonizamos, num processo longo e complexo que implica em começar tudo outra vez em cada novo mundo. É assim que temos sobrevivido e destruído uns aos outros. Agora eu sei… sou uma testemunha, um louco.

Vou até a rua e olho a lua. Eu deveria uivar pra ela, como os lobos. É possível que os lobos sejam um sistema, uma conexão, alimentando a lua com dados a cada uivo, dados que os computadores no centro da lua elaboram para colocar em movimento o que quer que precise estar funcionando quando chegar o dia último, em que partiremos mais uma vez.


Eu, a internet e as redes sociais

Fiquei um bom tempo refletindo sobre meu texto para essa quinzena. Não por não ter o que dizer ou o que contar, mas porque são muitos os “causos”. Finalmente resolvi contar pra vocês minhas impressões (ou melhor: reações) a um documentário que assisti recentemente sobre o nosso papel, enquanto humanos, na indústria das redes sociais. E isso me leva a falar da internet, já que é nesse palco que as redes acontecem. [Texto de Eduardo Maciel]

Texto de Eduardo Maciel


Olá, kurumateirxs!

Fiquei um bom tempo refletindo sobre meu texto para essa quinzena. Não por não ter o que dizer ou o que contar, mas porque são muitos os “causos”.

Finalmente resolvi contar pra vocês minhas impressões (ou melhor: reações) a um documentário que assisti recentemente sobre o nosso papel, enquanto humanos, na indústria das redes sociais.

E isso me leva a falar da internet, já que é nesse palco que as redes acontecem.

Pois bem… Quando eu nasci, em 1978, nada disso existia. Minha infância foi recheada de brincadeiras e traquinagens, improvisos e imaginação, fraldas de pano, pipas e peões, bolinha de gude e muitas conexões reais, personalíssimas.

Talvez por isso eu tenha amigos de infância até hoje, e agradeço muito por isso.

Depois, já em plena adolescência, demorei a ceder às primeiras redes e comunidades online: em grande parte por resistência pessoal mesmo, e em parte por incentivo de pais e professores, já que a internet era algo não assim tão acessível a todos e eu precisava manter total foco em meus estudos.

Só que esse “universo paralelo” foi se avolumando, e emulando praticamente todos os formatos relacionais que temos aprimorado desde a idade da pedra. Comércio, ensino, vida financeira e até mesmo sexual e afetiva: para cada humanidade, uma simulação online. Tanto e em tal proporção que recentemente resolveram nos alertar que somos produtos em circulação, gado mesmo, levados de lá pra cá pelos tais algoritmos que eu nunca tive o (des)prazer de conhecer pessoalmente.

Não pretendo aqui examinar o assunto, nem me aprofundar nele. Quero apenas me posicionar, contar pra vocês o que penso e (espero) te convidar à mesma reflexão.

Já sei: provavelmente vocês esperam de mim um discurso eloquente e saudosista, de quem viveu pelo menos uns quinze a vinte anos sem celular e conexão remota. Se esperam isso, hão de se decepcionar. E eu explico…

Seria no mínimo equivocado de minha parte ignorar a realidade, que é sim irreversível, e da qual não podemos escapar. E de certa forma, que bom que não podemos, ou a leitura desse texto (assim como a sua publicação) não seriam viáveis.

Uso a internet para diversas coisas que me trazem comodidade, rapidez e graças a ela consigo alcançar coisas, pessoas e conhecimentos que talvez não tivesse no modo antigo. Sou grato por isso.

Uso também as redes sociais para trabalhar e divulgar o meu trabalho, em um perímetro extremamente mais amplo do que eu poderia fazer no modo antigo. E sou ainda mais grato por isso.

Eu sei… Vocês podem estar se questionando sobre a minha cara de pau de vir aqui nesse espaço de vanguarda que é a Kuruma’tá falar que não tenho medo algum da internet, das redes sociais e tudo o que as acompanha. De certa forma concordo com vocês.

Porém, o cerne da coisa não é discutir aquilo que é inexorável é irreversível. É eivar esforços em pressionar, enquanto sociedade, nossos governos a adotar freios e contrapesos, regulações e regramentos, de ordem pública, para a proteção dos cidadãos. E, de igual forma, pensarmos em como essa coisa toda afeta a nossa vida, separando o que é bom do que não é, bem racionalmente, para que com isso possamos fazer eventuais ajustes e escolhas qualificadas.

Tenho lido textos e conversado com pessoas sobre esse tal documentário, feito pelos “criadores do monstro” nos alertando sobre seus perigos. A velha história do Frankenstein, recontada.

Gente que está considerando deletar suas redes sociais, que está se sentindo usada, que está temerosa sobre seus dados na rede disponibilizados. Leio e escuto tudo com o máximo de empatia, e me solidarizo porque muito me preocupam as próximas gerações, que, ao contrário de mim e meus contemporâneos, não terão outro paradigma para comparar.

Mas não me iludo não. Por acaso algum naïf aí acha que os carros vão sumir? Que as geladeiras hão de desaparecer? Não vão. E se forem, apenas serão substituídos por outras versões (mais evoluídas) de si mesmos.

Então o que faço, afinal? Qual o derradeiro resultado das minhas divagações e pensamentos sobre esse assunto?

Acho que devemos em algum momento parar, nos desconectar e refletir:

  • Como eu uso a internet e as redes sociais?
  • O que eu alcanço de comodidade?
  • Onde estou emulando relações reais em ambientes fantasiosos e pouco críveis?
  • O que eu poderia deixar de fazer na internet e voltar (ou passar) a fazer na vida real?
  • Quanto tempo a internet e as redes sociais demandam de mim?

Feito isso, já podemos nos reconectar com mais autoconsciência, sabedores de que sim, tentam nos robotizar e nos induzir a comportamentos, como um algoz em um relacionamento abusivo. Mas, no fim das contas, tudo acaba se resumindo em uma relação entre A e B, onde o A é o mundo virtual que quer usar você, e o B é cada um de nós, só que num embate pessoal.

E assim sendo, acaba o problema: afinal, quando um não quer, dois não brigam, não é mesmo?


O espelho da bela adormecida e o diabo é o aborrecimento

Diana de Sousa parte do imaginário da bela adormecida e apresenta a versão duracional da performance que se metamorfoseia em vários formatos que por sua vez trabalham diferentes relações com os espectadores. Existe a versão de palco que não vimos no Festival Linha de Fuga, mas ouve a surpresa de uma versão performance-acontecimento montra, inserido na Città Aperta de Alain Michard. [Texto de Ricardo Seiça Salgado]

Texto de Ricardo Seiça Salgado

Membro do grupo informal auto-organizado Crítica de Fuga, para o Festival e Laboratório Internacional de Artes Performativas – Linha de Fuga | 12 Set. a 4 Out. 2020, em Coimbra.


“Conheces a história de uma mulher? Uma mulher forte como um touro que disse que só casaria com quem a derrubasse. Com quem a atirasse ao chão. Durante anos a fio apareceram muitos pretendentes. Muitos visitantes. Chegaram de todas as partes do mundo. Vinham fortes. Partiam fracos… Ninguém o conseguiu, ninguém a conseguiu derrubar.” (www.bela-adormecida.com).

Foto 01_ bela adormecida em Città Aperta, de Alain Michard. Foto de Miguel Cunha.

Diana de Sousa parte do imaginário da bela adormecida e apresenta a versão duracional da performance que se metamorfoseia em vários formatos que por sua vez trabalham diferentes relações com os espectadores. Existe a versão de palco que não vimos no Festival Linha de Fuga, mas ouve a surpresa de uma versão performance-acontecimento montra, inserido na Città Aperta de Alain Michard. E a versão duracional, uma performance-instalação que admite apenas uma pessoa-público e se desmembra e estilhaça do e no conto homónimo agora rescrito da bela adormecida, adensando-lhe o erotismo, o voyeurismo e performer-público mútuo, e a relação que desfabula a mulher da sua expectativa ruído.

Estamos no meio de uma teia de protocolos a cumprir para o encontro, entre o controlo das posições que cada um toma, tu e a bela adormecida, jogando a vigilância dos estereótipos da cultura dominadora patriarcal. Da psicologia do fantástico se faz real sociológico em cada um no imaginário, como o conto te posiciona dentro da performance, ritualizando o encontro, jogando com o poder entre géneros, e de como ele sobrevoa e atua em todos nós, mas atualizando. A bela adormecida e a pessoa-público vão estar num quarto vazio, já veremos.

Tem os contos da tradição popular, seja a Bela Adormecida, a Branca de Neve, a Cinderela, várias princesas e fadas e sempre uma que toma o papel do acontecimento de uma força ruim opressora, talvez voz herdada de um campo energético dorido, privando a princesa disto ou daquilo, reproduzindo a jusante e a montante (e é esse o problema) a figura de retórica (que é poder) da mulher vulnerável, frágil, mulher do lar, como o machismo objetifica a mulher, como no sistema patriarcal, submissa. Na encruzilhada (meia-noite), um sono profundo imenso e a bela adormecida entra então no estado de entre mulher fábula e desfabulada, nessa liminaridade que habita o bosque, aparentemente estéril mas que agora se joga como potencial emancipação, a partir da bela adormecida que se te apresenta.

Do conto tem a performance em duas fases, a preparação do encontro (em chat) e o encontro propriamente dito. Nunca, nem bela adormecida, nem pessoa-público sabem da identidade real de ambos até ao derradeiro encontro. Spooky! A marcação é feita pela produção que pede sigilo, e para entrar no chat é-nos pedido pela produção para inventar um nickname para acertar os detalhes do encontro. Já no chat é-me perguntado como gostaria que a bela adormecida se apresentasse. Ups!_ o que se passa na cabeça de quem vai entrar no quarto de uma bela adormecida por vir? Parece às tantas que a bela adormecida faz uma espécie de questionário-casting, colocando eu-pessoa-público nessa posição de vulnerabilidade. Jogo-dominação. É denso e nonsense estar a falar diretamente com a bela adormecida online. Sai um sorriso que também é atrevido.

Somos chamados aos “protocolos” que este encontro pressupõe ou inclui, como o facto de ir ser filmado, de haver um vigilante que nos recebe e clarifica de todos os procedimentos, e encaminha ao quarto. Há algo de kafkiano em tudo isto. Há num plano acima na escala do social, do lugar político da mulher no sistema de expectativas do senso comum e que o conto conta, e há a escala da autobiografia, o si próprio ou as suas máscaras, nesta trama em que és e estás colocado. Mal sabe que fala com um príncipe libertário, descontraio. Diz-nos afinal no chat, “o engano é pensarmos que um beijo resolve tudo. Um engano. Tudo isto é um engano. Não me acordes.” Spooky! O diabo é o aborrecimento, penso de Peter Brook. A bela adormecida acaba de me aceitar para pessoa-público-performer. Desejo do desejo ou desejo da coisa em si como ela afinal é e para quê? Há um desfoque do desejo que é aqui colocado em jogo e que se quer sempre refocar no encontro. Performance laboratório.

O encontro consiste, então, em passar uma noite num quarto privado com a bela adormecida, das 0h às 07h do dia seguinte, altura em que toca um despertador e a performance tem impreterivelmente de terminar para ambos. Nunca nesse período a pessoa público poderá sair do quarto, o que também determinará para ele o fim da sua prestação, diz nas regras. No quarto, o rigor com que a instalação viva é montada embate em múltiplas direções. São camadas em suspenso, o sono e a mulher da história tradicional, a liminaridade ritualizada do encontro na tua posição no jogo performance. A performance chama-nos. Planos de significado emergem da história dos objetos expostos e o modo como estão meticulosamente organizados suspendem o pensamento na improvisação a que fomos chamados a fazer. Neste beijo (in)desejado totalizador, que meta-beijo possível, a partir dos papéis culturais que sobrevoam o nosso imaginário e que comandam o pensamento do senso comum e que metemos em prática no nosso verdadeiro backstage on the road? Tudo está a ser gravado, por isso o diabo é o aborrecimento. O raça do teatro vida.

À maneira do ritual a performance simula com as suas regras prescritivas e protocolos a seguir. E qualquer ritual amplifica, mesmo que simulado pelo jogo. Encapsulados na anterior bela adormecida estamos, mas a experiência do bosque surte um novo efeito, porque a bela adormecida observa, mesmo em sono profundo. Entramos neste filme, estamos a ser filmados, e observados observando. Nossa!_ o risco de aborrecer a bela adormecida, ou a mulher múltipla não objeto do desejo imposto é a performance. Alguém entra num palco vazio sobre o olhar de outro, diz Brook, é o mínimo para haver teatro. És protagonista, instalam-te nesta performance instalação. Ups! Que espelho perante a bela adormecida quando lhe passas em frente? Bela adormecida aparecida e desaborrecida, o diabo é o aborrecimento.


Este texto integra a coletânea produzida pelo grupo Crítica de Fuga, que acompanha os trabalhos dos artistas e as atividades do Festival Internacional de Artes Performativas – Linha de Fuga.

O número mais perigoso do mundo é retorcer um coração

Meu avô era o Homem Mais Forte do Mundo. Quem me contou foi a minha avó, que o conheceu ainda na tenra idade, quando ele fugiu com a cidade deixando pra trás toda a família circense. Dizia ela que os bíceps, tríceps e quadríceps dele já não davam mais conta do exaustivo e intenso intento diário de carregar tudo nas costas. E eram assim, por detrás da coxia, tremendo de frio com os músculos à mostra, que meu avô invocava o choro mais forte do mundo. [Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota


Meu avô era o Homem Mais Forte do Mundo. Quem me contou foi a minha avó, que o conheceu ainda na tenra idade, quando ele fugiu com a cidade deixando pra trás toda a família circense. Dizia ela que os bíceps, tríceps e quadríceps dele já não davam mais conta do exaustivo e intenso intento diário de carregar tudo nas costas. E eram assim, por detrás da coxia, tremendo de frio com os músculos à mostra, que meu avô invocava o choro mais forte do mundo. E este espetáculo, dantesco aos olhos do senhorio, não interessava mais ao público.

A vida do casal começou a mudar justamente quando se viram, meu avô e minha avó, pela primeira vez, após o espetáculo dominical. Ele quis a carregar no colo, mas ela não se importou em caminhar pela rua salpicada de orvalho. Depois ele retorceu um cano de aço em forma de coração, como se fosse uma folha de papel, mas ela elogiou o formato perfeito do presente, e não os músculos besuntados de óleo de rícino. Mais tarde ele pediu que ela tocasse em seu peito para ver como era rijo, como era definido. Só que ela colou o ouvido nele apenas para deleitar-se com todo e qualquer batimento cardíaco.

E assim, deitaram-se pela primeira vez.

Naquela noite, o meu avô, ainda o Homem Mais Forte do Mundo, não se aguentou e chorou na frente da minha avó, porque era incontrolável a vontade de abraçá-la para impedir que ela fugisse e ele ficasse só. Exatamente como ele fazia com um gigantesco urso durante um de seus números mais perigosos. No entanto, tinha receio de machucá-la. E por conta de toda aquela quantidade de lágrima, ela ofereceu o seio como morada doce e quente. Ele simplesmente encostou ali a parte mais leve de seu corpo naquele momento, a cabeça.

E assim, fizeram amor pela primeira vez.

Desde então, meu avô procura emprego em um circo que o aceite como o verdadeiro artista virtuoso que é: o Homem Mais Sortudo do Mundo.

Poema de Juraci Cruz para Nonato Gurgel, no dia em que as cinzas do poeta foram jogadas ao mar

Nesse dia 15 de outubro do ano de 2020 as cinzas do poeta Nonato Gurgel foram lançadas ao mar. Em sua homenagem a amiga e poeta Juraci Cruz, de Caraúbas, terra de Nonato, escreveu o poema a seguir, recordando a vida gentil e poderosa desse mestre que partiu. [Poema de Juraci Cruz]

Poema de Juraci Cruz


Nesse dia 15 de outubro do ano de 2020 as cinzas do poeta Nonato Gurgel foram lançadas ao mar. Em sua homenagem a amiga e poeta Juraci Cruz, de Caraúbas, terra de Nonato, escreveu o poema a seguir, recordando a vida gentil e poderosa desse mestre que partiu.

Nonato Gurgel

Nasceu escrevendo poemas
Nas pedras do beco
Na Varzinha
Em São José
Caminhou com passos lentos
Olhou pra frente, sonhou
E foi

Os pneus do jeep
Espalharam letras
Pelo chão empoeirado do Seridó
Desceu pro Sudeste
Encontro Ana C
Estudou Clarice
Guimarães
Plantou letras
Regou frases
Colheu poemas
E amizades, eternas

Boina clara
Bolsa a tiracolo
Sorriso largo, piadas
Sarcasmo poético
Foi pra baixada plantar ensinos
Guiar meninos com a sua luz
Ensinou, aprendeu e cresceu
Virou gigante com tanta humildade
Virou luz com tanta bondade

Olhava o mar, se encantava
Fazia de cada onda um poema
Da areia um lugar de descanso

Hoje te devolvemos ao mar que tanto amavas
Vais ser embalado pelas ondas do Leme
Na calçada Clarice te olha e sorri
Pois agora vocês estarão juntos na mesma poesia
E o mar celebra a presença de um ser tão grande.
Vai Nonato
Segue
Dorme ouvindo as ondas
Olhando o céu
Nós seguimos por aqui
Reverenciando sua boina
Horas lembrando o sol da esperança
Horas lembrando a lua de paz.

Macaé, 15 de outubro de 2020