O HUGAG (Rythinopes inarticulatus)

Do livro Fearsome Creatures of the Lumberwoods: With a Few Desert and Mountain Beasts, de William T. Cox, editado em 1910 — Ilustração de Coert Du Bois. Tradução livre de Toinho Castro. O livro de William T. Cox, reúne lendas e relatos de estranhas feras que habitavam as regiões madeireiras do norte dos Estados Unidos e Canadá.

Do livro Fearsome Creatures of the Lumberwoods: With a Few Desert and Mountain Beasts, de William T. Cox, editado em 1910 — Ilustração de Coert Du Bois.

O livro de William T. Cox, reúne lendas e relatos de estranhas feras que habitavam as regiões madeireiras do norte dos Estados Unidos e Canadá.

Sendo esta uma tradução livre, sugestões de ajustes e mesmo correções são bem-vindas. A ideia é traduzir todo o livro. Se for um trabalho coletivo, tanto melhor.

TRADUÇÃO LIVRE DE TOINHO CASTRO


O hugag é um animal enorme, da região dos Grandes Lagos. Sua área inclui o oeste de Wiscosin, norte de Minnesota e um território que se extende indefinidamente ao norte selvagem do Canadá, até a Baía de Hudson. Em tamanho, o hugag pode ser comparado ao alce, ao qual muito se assemelha na forma. Notáveis, entretanto, são suas pernas sem juntas, que obrigam o animal a permanecer de pé, e seu longo lábio superior, que o impede de pastar. Se tentar usar esse método para alimentá-lo, ele simplesmente chafurdará seu lábio superior na terra. Sua cabeça e pescoço são encourados e sem pelos. Suas orelhas são enrugadas e viradas para baixo. Suas patas de quatro dedos, cauda longa e peluda, pelagem desgrenhada e aspecto geral, dão à fera uma aparência inequivocamente pré-histórica. O hugag tem uma verdadeira obsessão por deslocar-se, e poucos caçadores que tenham seguido suas trilhas apareceram com a fera ou retornaram para o acampamento. Diz-se que caminha todo o dia, em busca de galhos, enrolando seu lábio nas árvores e, ocasionalmente, arrancando suas cascas. À noite, uma vez que não pode deitar, inclina-se contra uma árvore, apoiando-se em suas patas traseira e marcando o tempo com as dianteiras. Os caçadores de hugag mais bem sucedidos, adotam a prática de entalhar as árvores, e quando o hugag se encosta numa delas, ambos, a árvore e o animal, vêm abaixo. Nessa condição de desamparo é facilmente abatido. O último a ser morto, até onde se sabe, foi no rio Tartaruga, norte de Minnesota. Lá, um jovem exemplar, pesando 860 quilos, foi encontrado preso na lama. Foi nocauteado na cabeça por Mike Fylnn, de Cass Lake.


Texto original

THE HUGAG.
(Rythmopes inarticulatus.)
 
The hugag is a huge animal of the Lake States. Its range includes western Wisconsin, northern Minnesota, and a territory extending indefinitely northward in the Canadian wilds toward Hudson Bay. In size the hugag may be compared to the moose, and in form it somewhat resembles that animal. Very noticeable, however, are its jointless legs, which compel the animal to remain on its feet, and its long upper lip, which prevents it from grazing. If it tried that method of feeding it would simply tramp its upper lip into the dirt. Its head and neck are leathery and hairless ; its strangely corrugated ears flop downward; its four-toed feet, long bushy tail, shaggy coat and general make-up give the beast an unmistakably prehistoric appearance. The hugag has a perfect mania for traveling, and few hunters who have taken up its trail ever came up with the beast or back to camp. It is reported to keep going all day long, browsing on twigs, flopping its lip around trees, and stripping bark as occasion offers, and at night, since it cannot lie down, it leans against a tree, bracing its hind legs and marking time with its front ones. The most successful hugag hunters have adopted the practice of notching trees so that they are almost ready to fall, and when the hugag leans up against one both the tree and the animal come down. In its helpless condition it is then easily dispatched. The last one killed, so far as known, was on Turtle River, in northern Minnesota, where a young one, weighing 1,800 pounds, was found stuck in the mud. It was knocked in the head by Mike Flynn, of Cass Lake.

Não me solta se eu voltar pra casa com as mãos sujas de pólvora

Eu me perdi aos quatro anos de idade em meio à multidão na areia, naquela manhã escaldante de sábado, segurando um picolé de chocolate na mão direita. Enquanto ele derretia e percorria dedos, palma e pulso, doce e gelado, algumas lágrimas, salgadas e mornas, desciam as bochechas feito alpinistas desistindo da montanha. [Texto de Eduardo Frota]

Texto de Eduardo Frota


Resolvi ser homem-bala quando a tinta da minha caneta secou e percebi que não havia mais como escrever poemas. Eu não soube apontar os meus lápis. Nunca aprendi a usar lapiseira. Eu não consegui destravar as teclas da máquina de escrever. Nem consegui riscar nada além do meu próprio nome na areia da praia – e confesso, ele sempre foi deletado com uma certa elegância pela correnteza.

Eu me perdi aos quatro anos de idade em meio à multidão na areia, naquela manhã escaldante de sábado, segurando um picolé de chocolate na mão direita. Enquanto ele derretia e percorria dedos, palma e pulso, doce e gelado, algumas lágrimas, salgadas e mornas, desciam as bochechas feito alpinistas desistindo da montanha.

Eu me perdi na praia e nunca me esqueci quando fui encontrado pela minha mãe, pela mão da minha mãe.

Na verdade, resolvi ser homem-bala-perdida. Ou homem-perdido-bala. Porque era assim que eu fazia: justamente por não mais conseguir escrever – ainda que não fosse por fadiga -, vagava de bar em bar feito alma-penada-perdida. Ser um homem-bala para errar o tiro, errar o rumo, errar a mira. Vai ser errante na vida – disse o pequeno cramunhão por detrás do meu ombro gauche, esquerdo. E assim todos podem dizer, com suas bocas cheias de doces, cheias de balas coloridas:

— Lá vai o homem-bala, perdido.

ou

—Lá vai o homem-bala-perdida.

Este homem-bala que um dia foi poeta, mas que não soube apontar os próprios lápis. Pode? Agora é apontar pra se atirar nessa vida de ai meu deus. O homem-bala que não lembra o próprio nome de tanto que as ondas insistiram em apagá-lo da areia. O homem-bala que bebe, bebe mais, bebe mais três ou quatro vezes mais ou menos uns quinze tragos.

Eu, na qualidade de homem-bala, não deveria dizer isto aqui, mas executo divinamente o truque da fuga. Não, saibam que nunca quis roubar o lugar do mágico no circo. Eu fugia tão bem, eu, este grandessíssimo filho de uma puta, que foi moleza adentrar a caravana circense para ser um errante, um homem-bala-errante. Ou homem-bala-perdido? Ou homem-bala-perdida?

Preparar, apontar, fogo.


Amar o mar

Essa fascinação pelo mar me impediu, creio eu, de desenvolver vontade de me aventurar pelos esportes aquáticos (exceto pela natação, em maior parte praticada em piscinas, onde inclusive competi – e venci – em diversos campeonatos infanto-juvenis). Eu não poderia brincar no meu maior templo, usando ondas e todas as possibilidades da superfície fluida e salgada dos mares: seria um sacrilégio pessoal. [Texto de Eduardo MAciel]

Texto de Eduardo Maciel


Olá novamente, meus querides kurumaterires!

Tem algo me atormentando. E não se trata de um tormento qualquer. É daquele tipo de incômodo que acompanha a gente desde a hora de acordar até a hora de dormir. E, não-raro, inclusive vem me perturbar durante o sono. Quando isso acontece, ao acordar não consigo discernir se vivi um sonho ou pesadelo. Já me explico.

Desde criança, quando ainda bem novinho mesmo, sempre gostei de ir à praia. Nada muito difícil quando se tem pais generosos como os meus. Mais fácil ainda quando se mora no Rio de Janeiro e sua variedade de opções à orla.

Já adulto, continuei com minha paixão e me aproximei ainda mais do mar. Nessa época, ele já era pra mim um lugar sagrado e digno do mais absoluto respeito. Em parte em razão de o planeta ser setenta por cento composto de oceanos, e, por outro lado, porque alguém um dia jogou búzios para mim me dizendo filho de Yemanjá (odoyá minha mãe!).

Essa fascinação pelo mar me impediu, creio eu, de desenvolver vontade de me aventurar pelos esportes aquáticos (exceto pela natação, em maior parte praticada em piscinas, onde inclusive competi – e venci – em diversos campeonatos infanto-juvenis). Eu não poderia brincar no meu maior templo, usando ondas e todas as possibilidades da superfície fluida e salgada dos mares: seria um sacrilégio pessoal.  Talvez isso também explique a minha revolta com a poluição nos mares, mesmo em festividades religiosas, com seus barquinhos e oferendas (odoyá minha mãe de novo).

Vim nutrindo durante a vida uma devoção pelo mar, e pelos seres que neles habitam. Afinal, se a Terra é feita, em sua maior parte, de mar, suas criaturas é que são os verdadeiros “donos” do planeta, certo?

Pois bem. Nesse ponto da vida decidi que iria me certificar como mergulhador. Fiz o curso e comecei minha peregrinação ao redor dos sete mares, mergulhando de cilindro no Brasil e fora dele, contemplando muito respeitosamente todas as infinitas cores, formas e sensações que o fundo do mar podem nos proporcionar. Naquele silêncio barulhento e calmo típico das profundezas.

Tempos maravilhosos, sem dúvida.

Até que raia esse ano de dois mil e vinte, e com ele a pandemia da Covid. E com o vírus, a necessidade de isolamento. Tenho tentado cumprir todos os protocolos, o que inclui não aglomerar na praia. A última vez que visitei “o meu lugar sagrado” foi antes do Carnaval. Lá se vai quase um ano de afastamento.

E o que antes era uma falta se transmutou em saudade, e a saudade evoluiu para uma quase obsessão, que nesses últimos dias tem me atormentado e me assombrado, a ponto de me infligir dor física até.

Tentei recentemente procurar praias desertas um pouco mais afastadas, mas lá estavam pessoas, sem máscaras de proteção, para me desencorajar. E permaneço resiliente. Apesar da dor.

E finalmente quando ligo a TV ou quando leio as notícias de uma segunda onda da pandemia, confesso por vezes me deparar com conflitos internos e inéditos a respeito de qual deva ser a minha conduta. E se alternam dentro de mim os ímpetos de deixar os cuidados de lado e a necessidade de permanecer abstêmio. 

Mas a abstinência me consome, e como já lhes disse, me atormenta.

Até agora a prudência fala mais alto. Mas não sei até quando conseguirei suportar. Vai passar, dizem para mim. Vai passar.

E eu, por mais que creia nisso, me pergunto: será que estou preparado para completar um ano inteiro sem a praia?

Veremos.

Peço desculpas a vocês pelo desabafo, mas é que eu precisava mesmo falar sobre isso. E aposto que alguns de vocês hão de empatizar com a minha dor. Não é mesmo?


Literal: Kika e seu disco-biblioteca!

Lembro que na nossa família a gente tinha esse amigo, um violonista muito talentoso, muito sensível. Um artista nato, como se diz. Eu era criança mas lembro muito bem dele, de sua habilidade ao violão, que me impressionava a todos. Na época do vestibular ficamos todos surpresos, porque ele resolvera prestar exames para entrar em engenharia. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Kika – As Fotos são de Mônica Ramalho!

Lembro que na nossa família a gente tinha esse amigo, um violonista muito talentoso, muito sensível. Um artista nato, como se diz. Eu era criança mas lembro muito bem dele, de sua habilidade ao violão, que me impressionava a todos. Na época do vestibular ficamos todos surpresos, porque ele resolvera prestar exames para entrar em engenharia. E todo lhe falava, que ele era tão artista sensível, se não deveria fazer música ou algo de área mais artística. Certo dia, lá em casa, ele respondeu: A engenharia também precisa de pessoas sensíveis. Nunca mais dissemos nada. Ontem recebi uma dica da minha amiga Monica, um novíssimo EP de uma moça que eu não conhecia, a Kika, e lendo sobre ela descobri que ela é engenheira. Lembrei do nosso amigo na mesma hora, do seu violão nas noites de música lá em casa. Bons tempos.

Não falta sensibilidade à Kika, nem à Monica, que falou pra eu escutá-la! E Literal, seu disco, é sensacional. E mais! É um trabalho que nasceu do amor pela literatura. É um disco que começou com um clube de leitura! Entre papos, páginas e encontros, seus livros favoritos acabaram viram músicas! São cinco faixas, e cada uma é inspirada num grande livro. Olha só: Mrs. Dalloway, da Virginia Woolf, parceira da Kika com suas amizades Joanna Lima e Rodrigo Ricardo, O duplo, de Dostoiévski, autoria solo da Kika, Morte em Veneza, de Thomas Mann, e Hamlet, de Shakespeare, ambas em parceria com o amigo Gabriel Versianie, e O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, também só dela. Que ideia gostosa esse disco-biblioteca! E sim, você não precisa ter lido os livros para curtir a música. Mas duvido que você escute literal e não fique com vontade de ir na livraria mais próxima, abrir esse universo em que Kika transita com tanto leveza, humor e inteligência.

O disco, se prepare, é uma pequena festa. Digo pequena porque são somente cinco músicas. Digo somente porque a gente fica querendo mais, pra dançar mais. Mias dicas de livros! Mas não se preocupe, que parece que vem mais músicas por aí, inspiradas em Kafka, Ionesco, Nelson Rodrigues… e quem mais?! É desses discos que não sai da vitrola, então a festa pode render bastante, tocando de novo e de novo os livros que Kika ama!

Posso dar spoiler aqui de cada canção, mas prefiro que você escute e se surpreenda como eu me surpreendi. Adoro quando isso acontece, quando nada sei sobre um disco e ele me assalta o coração e o corpo. A preferida da Kika é Hamlet, inspirada na obra do bardo inglês William Shakespeare. A minha é Morte em Veneza. Não li Morte em Veneza; de Thomas Mann eu li A montanha mágica. E já estou com O retrato de Dorian Gray (“Esse quadro na parede por te magoar”) nas mãos pra reler, que me lembra tanto uma amiga dos meus tempos de faculdade, que amava Wilde. Uma amiga com quem também ouvi muita música. Então Literal faz isso comigo, viajar na afetividade, nas páginas dos livros que amo ou que ainda preciso ler, me faz pensar nas pessoas com quem dancei, com quem ainda quero dançar.

Gente, bom demais. Bota a ficha aí na sua radiola!

Ah, sim! A capa é uma ilustração afiadíssima do designer Fábio Nogueira. E a produção é de Nayana Dornelas. Caprichada., Disco bom de gente amiga. Vale virar vinil!


The way love used to be

Uma fábula de viagens. Um encontro e um caminho perdido. Perdido mesmo? Ou somente uma outra rota dentre as rotas possíveis, dentre os mundos possíveis, abstratos ou não, que colocam adiante quando duas pessoas se encontram? Uma noite, um carro, músicas no CD player. A cada esquina a dúvida e a certeza se embaralhando numa jornada rumo ao desconhecido, ou a algo que já sabemos, já mesmo ansiamos?! “I know a place to far from here…” [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Para Raquel Temporal

— Como assim isso aqui não é o Rio de Janeiro?
— É isso que você ouviu… isso não é o Rio de Janeiro.
— Mas você se perdeu?! Você disse que conhecia o caminho…
— Eu conheço! Mas não sei… Não tô reconhecendo nada por aqui!
— Ué, então vamos voltar pra rodoviária! Dá meia volta!
— É o que eu tenho tentado fazer, voltar pra a rodoviária. Sem sucesso…
— Para o carro! Para o carro…
— Não, não vou parar o carro aqui, a gente nem sabe onde tá! Pode ser perigoso, sei lá…
— Fica calmo… vamos refazer o caminho. Nem que seja de ré!
— Poxa, tô tentando… mas é como se o caminho tivesse se desmanchando atrás de nós.
— Gente, não é possível. Que conversa doida é essa? Qual é o nome dessa rua? Você viu o nome das ruas?
— Vi mas não conheço nenhuma delas… e não consigo reencontrá-las quando tento voltar. Parece que a gente tá andando em círculos sem passar pelos mesmo lugares… você entende isso?!
— Não, não entendo. Isso não é possível… vamos acalmar. Qual foi a última rua que você reconheceu?
— Cara, não consigo lembrar… eu vinha seguindo normalmente e quando dei por mim já era outro lugar.

Começa a chover forte.
— Que merda é essa?! O Triângulo das Bermudas?!
— Não sei… mas não vejo nada aqui que eu reconheça!
— Há horas não vejo ninguém nas ruas… nem carros. Onde foi que a gente se meteu?!
— Pô, acredite…eu sabia o que estava fazendo, pra onde tava indo. O que tá acontecendo aqui não é normal… chame de Triângulo das Bermudas, do que quiser.
— Que saco! Não tá vendo que tô assustada?! Eu vim passar o feriado no Rio, não no inferno!
— Não, a gente não tá no inferno, não! Mas algo aconteceu…
— E a gasolina… e quando acabar a gasolina?! Não vi sequer um posto!
— A gasolina já acabou, meu amor. Não sei o que nos move…

A noite avança.
— Você precisa dirigir um pouco agora. Tõ cansado.
— Encosta o carro ali…
— Não, não vamos parar o carro. Não sei o que pode acontecer se a gente parar. A gente troca de lugar com o carro andando.
— Dorme um pouco… daqui a pouco eu te acordo e a gente troca de novo.
— Quando um de nós acordar terá passado… esse pesadelo. Em algum lugar um de nós dois tá sonhando tudo isso. Um de nós precisa libertar a gente.
— Não é possível que ninguém viva aqui… Não é possível….
— Em algum momento, em alguma esquina que dobramos, tudo mudou e agora qualquer coisa é possível…
— Pelo menos tem uns CDs aqui…
— É verdade. Vamos ver! Kraftwerk… não, esquisito demais! Nick Drake, Nick Cave…
— Acho que tem um do Kinks, não?! Queria ouvir Waterloo Sunset.
— Tá aqui. Esse disco é bonito demais! E essa chuva que não passa… quando essa noite vai acabar?
— Bota Waterloo Sunset na vitrola, que eu vou dormir e não sei se vou acordar. Que seja ouvindo Kinks.
— E sorri. — Mas tem uma linda do Kinks e é essa que a gente vai ouvir, porque não vamos mais dirigir esse carro. Se ele anda sem gasolina pode andar sem motorista e cumprir sua sina.

Ele sorri pra ela no meio da noite chuvosa, dentro daquele carro perdido num mundo estranho… a música começa a toca e ele reconhece enquanto adormecem.

The way love used to be…
— Não sei se é o Kinks mas de repente tenho a sensação de que o que tá acontecendo, se é que alguma coisa está acontecendo, não é ruim.
— Acha que chegaremos a algum lugar?
— Nenhum lugar que nos surpreenda.

Começa a tocar When a solution comes e a chuva já não é tão forte. O céu acinzentado entre nuvens denuncia que está amanhecendo.

— O dia está nascendo… pelo menos o ciclo dos dias e noites funciona aqui. Já é algo…
— Eu e você aqui, seja lá onde for, já é algo. E o Kinks… nossa. Que sorte a gente ter o Kinks.
— Gente, aquilo é uma mangueira?! Ali, antes da esquina, na frente da casa azul… tá carregada de manga. Vamos ver se a gente para esse carro e rouba algumas. Tô com fome…
— Apoiada! Quem sabe atiram na gente!!!! Hahaha!
— Nossas aventuras na dimensão paralela apenas começaram!!!

Ele pulou do carro em movimento, pegou três ou quatro mangas e teve que correr muito para alcançá-lo novamente. As balas zuniam sobre as suas cabeças, sobre a capota do carro. Finalmente estavam felizes.


Entrevista com Jonathan Uliel Saldanha

O músico Jonathan Uliel Saldanha não é uma pessoa fácil de entrevistar, dada a imensidão de projectos que tem. Convenhamos, é impossível estar a par de todos, há sempre um que nos escapa. Portanto, a conversa na Oficina Municipal do Teatro, dois dias antes da apresentação do seu espectáculo com a Vera Mantero no Linha de Fuga, começou com esse facto assumido e acatado. O resto foi o que se segue: um portal aberto para uma espécie de Being Jonathan Uliel Saldanha. [Por Carina Correia]

O músico Jonathan Uliel Saldanha não é uma pessoa fácil de entrevistar, dada a imensidão de projectos que tem. Convenhamos, é impossível estar a par de todos, há sempre um que nos escapa. Portanto, a conversa na Oficina Municipal do Teatro, dois dias antes da apresentação do seu espectáculo com a Vera Mantero no Linha de Fuga, começou com esse facto assumido e acatado. O resto foi o que se segue: um portal aberto para uma espécie de Being Jonathan Uliel Saldanha.

Por Carina Correia

Jonathan Uliel Saldanha – ©Augusto Fernandes

Já sabemos pela Vera Mantero como surgiu o convite para a criação deste espectáculo Esplendor e Dismorfia. O que agora te pergunto é como reagiste ao seu convite para trabalharem juntos.

Reagi muito bem. Eu já conhecia o trabalho da Vera, e depois de a conhecer em França, senti de alguma forma ― não querendo puxar para aqui algum tipo de realismo mágico ― que inevitavelmente fazia sentido trabalharmos em conjunto. E às vezes, quando pensas nelas, as coisas acontecem. Pelo menos, eu sinto isso muitas vezes: que o Universo responde às tuas formulações com uma versão possível dessa tua pergunta. Portanto, pareceu-me que a partir de França seria possível que algo acontecesse, não sabia qual o caminho, mas parecia-me que havia qualquer coisa aí para fazer. Mais do que outra coisa, acho que temos inúmeros pontos em comum na forma como investigamos, e no tempo que dedicamos a essa investigação. Mesmo que às vezes possa parecer que o trabalho — tanto o meu como o da Vera — é altamente prolífico, que as coisas estão sempre a sair com velocidade, sinto na realidade que tudo demora imenso tempo e que cada ideia e cada coisa em que estive envolvido demorou anos a desenvolver-se, só que depois formulou-se em meses. Mas as ideias e algumas das imagens já estavam lá há três ou quatro anos, as coisas sedimentam-se. Portanto, por esse lado da investigação parecia-me inevitável que iríamos partilhar alguma coisa.

Neste espectáculo, fazes a banda sonora e interpretas. Já tinhas feito algum trabalho deste género, assumidamente em palco?

Não, assim tão assumido não. Tive outros momentos e outras coisas, mas não de forma tão clara, com esta sensação de performer. Para mim, foi super-interessante. Lembro-me de a Vera falar e eu ficar a pensar: «E agora como é que eu faço isto?» Ainda para mais, porque não tenho propriamente interesse em performar como músico com o instrumento, aquela dicotomia de alguém que dança e toca um tambor, por exemplo. Sentia que era muito mais interessante para nós fazer uma coisa mais radical e desconfortável. E isso também me fez pensar que não precisaria de estar com um laptop nem com um instrumento, que poderia pensar, que poderíamos os dois pensar. Ou seja, pensarmos os dois em tudo. E isso é muito mais interessante para mim. É mais interessante não ter o papel — aliás, já saltei fora desse comboio há muitos anos — do músico. Durante muitos anos, fiz bandas sonoras para muitas pessoas, mas há uns anos houve um momento em que disse que chegava, que já não fazia sentido para mim, porque começava a fazer as bandas sonoras e rapidamente me convidavam para as equipas de dramaturgia, porque eu estava interessado não apenas em resolver um problema sonoro, mas também em trabalhar nas ideias. E depois também percebi que o meu universo é muito mais de criar a ficção do que propriamente de fazer uma banda sonora. Portanto, acho que este trabalho foi perfeito nessa proposta radical para mim, de reformular a minha forma de estar. E estar em palco é uma coisa completamente distinta para mim.

Tiveste algum tipo de preparação corporal para esta performance em palco?

Não, não tive. E acho que na verdade não fomos por aí. Fomos por sítios bem mais mutantes. Portanto, a minha presença de não bailarino era completamente integrável, pois estes dois monstros não são dois titãs da dança, não é? Não se inscrevem nessa tradição. O movimento e a corporalidade que eles têm não é inscrita numa tradição da dança contemporânea; não tenho de exercer nenhum tipo de referência histórica com o meu corpo.

Sabendo que a música é o teu universo, gostaria de te perguntar se pretendes dizer algo ao mundo através dela. Que te move interiormente?

Achando que tenho sempre muitos indexes no meu acesso ao mundo, tenho muito pouco a dizer ao mundo, mas tenho o meu índex. Tenho uma série de temáticas e de pontos de contacto com a realidade, com as coisas que me interessam, com as coisas que me movem, e como me coloco em relação a elas. Portanto, eu tenho um manual de formas com que interajo com a suposta realidade. Mas não diria que isso tem como fim uma espécie de tese, que alguém possa usar como mapa para compreender o mundo, sendo que o mundo é bem mais interessante enquanto misterioso. Para mim. Ou seja, enquanto impossível de completar, impossível de propor. Tenho uma tendência grande de fugir de ideologia, de propostas claras para resolver o problema de outros. Acho isso complexo. Aliás, parece-me que isso se manifesta complexo agora na dramaturgia geral política do mundo. Há muitas dúvidas em tudo isso para mim, portanto, na realidade, aquilo que me interessa no mundo é a sua complexidade mais vasta e o mistério mais vasto. Tenho muito pouco a oferecer enquanto clarificação. Acho que faço mais parte da secção de humanos que ajudam à mutação e à confusão.

Talvez por isso costumes falar do oculto e da partícula motora do invisível. E isso nota-se no teu trabalho. O que dele conheço faz-me lembrar uma frase que li há pouco tempo num ensaio do H. G. Cancela em que ele diz que a arte, em sentido lato, é «uma experiência que constrói a sua fecundidade na deliberada indefinição da sua natureza».

Olha, nem mais.

Faz sentido então esta minha associação?

Acho que também faz. Não a usaria para fechar a coisa, mas, sim, sem dúvida. Acho que toda essa dimensão de terra ignota e de impossibilidade de tradução é realmente para mim um campo mega fértil e interessante.

Na tua biografia aqui do Linha de Fuga, existe um conceito, no qual trabalhas, que é allopoiesis. Explicas melhor de que se trata?

Há uma série de lógicas, que neste caso vêm da biologia, a lógica do autopoiético, do alopoiético, que foram utilizadas brutalmente por teorias cibernéticas, teorias de sistemas, que deram origem aos computadores, à automatização de fábricas e por aí fora. Alopoiético é… Por exemplo, a construção de um carro é feita por partes e essas partes fazem parte de um todo maior, ou seja, quase que tens elementos absolutamente individuais que não são conscientes do todo de que fazem parte. E isso interessa-me, por exemplo, em música coral, e noutras coisas também, no sentido de criar regras que funcionam numa micro-estrutura ou em micro-relações, mas que associadas a outras regras no curso do tempo geram uma peça mais total, que é a soma destas micro-regras todas, destas experiências todas. É encontrar estes quase graus de camuflagem. Gosto muito de trabalhar em projectos em que, por exemplo, nem toda a gente está a par de tudo e deixar espaços de embate entre a evolução de cada um dos caminhos. Não sei se está claro, mas é por aí.

De entre tantos projectos que tens, existe algum que te dê especial gozo fazer hoje em dia?

Acho que depende mesmo do dia. Acho que estou interessado sempre naquilo que estou a fazer. Ou seja, o momento. O momento em que estou a fazer alguma coisa é o momento mais interessante. Sou muito pouco dado a nostalgia, portanto, desligo-me com alguma facilidade das coisas que fiz. Fico muito mais entusiasmado com aquilo que estou a fazer agora.

Se bem que tens projectos que são contínuos…

Sim, mas quando voltam a aparecer estou outra vez no presente, estou outra vez com eles.

Gostaria de saber um pouco mais acerca da plataforma SOOPA. Que pretendias quando a criaste?

A plataforma começou como um colectivo. Foi criada em 1998, já lá vão 22 anos. Na altura, estava super-interessado em poder colaborar, em fazer algum sincretismo entre músicos, artistas, pessoal mais ligado ao pensamento, e em que pudéssemos encontrar uma espécie de grandes mecanismos criativos onde tudo se misturasse. Mas depois, com o grande insucesso de conseguir fazer isso, reduzi tudo a uma plataforma de ensembles, de música. E só muito mais tarde, diria que só dez anos depois, é que consegui voltar a aceder a coisas que não são apenas música, ou melhor, a música começou a ter também uma dramaturgia visual e tudo mais. Na sua génese, era isso, mas depois foi essencialmente uma plataforma para música, tanto de programação como de organização. E agora, diria que desde 2010, é apenas, e isso sem nenhuma degradação, uma associação. No fundo, é uma produtora: é uma plataforma legal que existe enquanto mecanismo para fazer candidaturas, para albergar uma série de artistas. Ao mesmo tempo, garante um ateliê, um espaço físico que pode ser utilizado para várias coisas. Portanto, há uma espécie de degradação no seu papel artístico, se calhar fruto do neoliberalismo, mas é cada vez mais prática e economicamente viável.

E quanto à tua editora?

Já não tenho. Mas vou ter outra agora: estou a desenhar uma nova editora.

Queres falar disso?

Sim, posso falar. A partir do próximo ano, vamos começar a editar precisamente uma série de peças sonoras corais, estas coisas que andei a fazer durante estes últimos dez anos e que nunca foram editadas. É uma editora que se vai dedicar apenas a fazer sair estas coisas mais complexas.

Por sinal, algumas dessas peças foram apresentadas aqui em Coimbra.

Sim. Em 2017, na bienal Anozero, e outra foi apresentada há dois meses no festival Dar a Ouvir, Paisagens Sonoras da Cidade.

É possível perguntar-te se tens influências musicais?

Acho que é possível. São muitas, é muito difícil. Aquilo que foi mega importante para mim já não é. Talvez possa responder dizendo aquilo que fiz musicalmente enquanto instrumentista. Comecei como percussionista num ensemble de música clássica indiana, tocava tablas, isso quando era puto, com 14 e 15 anos. Depois, comecei a tocar percussão, bateria e estudei trompete, na altura que fazia mais fanfarras e música mais instrumental. Diria que a seguir, quando comecei a fundar ensembles com músicos que tocavam percussão e sopros, deixei eu próprio de tocar e comecei a desenvolver sistemas para esses músicos tocarem, formas diferentes de organizar os instrumentos, pesquisas tonais, etc. Sinto que a minha base foi sempre a percussão e depois os sopros, entretanto cortei completamente com isso e passei a compor e a encontrar estratégias para trabalhar com músicos.

Que música ouves em casa descontraidamente?

Ouço essencialmente dancehall jamaicano, ou tudo o que o Kanye West edita, ou tudo o que a Rihanna edita, por exemplo. Hoje em dia, ouço muita música pop principalmente. Se fosse há dez anos, estaria a combater contra mim próprio, estaria a ouvir coisas mais duras.

Não te desiludiste com o Kanye West?

Eu desiludo-me em geral com o mundo. Mas acho que a desilusão faz parte do fascínio também. Há inúmeras coisas dentro da desilusão que é muito interessante perceber como é que acontecem, porque é que aquilo está a acontecer daquela maneira. Há artistas que protegem menos bem a sua aleatoriedade e claramente o Kanye West é um deles. Mas acho isso mesmo interessante. Hoje em dia, a personagem dele é, diria, fundamental para perceber aquilo que se passa, aliás, mesmo um possível futuro. Quando se fala que há cada vez menos interesse na arte, se calhar era interessante ouvir estes artistas, e perceber como é que eles estão a pensar, onde estão e que tipo de radicalidade está a ser imposta, ou que eles estão a propor. Acho muito importante estarmos atentos a isso. Estou muito mais interessado em ouvir o que o Anselmo Ralph tem a dizer do que alguém da música experimental em Portugal. Muito sinceramente. Há qualquer coisa muito mais pertinente para mim no presente que tem que ver com isso. E que se calhar tem que ver com estes vinte anos em que estive ligado à música experimental. Há coisas altamente circunstanciais que acontecem nesses nichos que acho que podem ser revistas.

Está na altura de falar do teu último disco — Lithium Blast —, que saiu na semana passada [no dia 22 de Outubro] e que foi gravado no Uganda, com um selo da Nyege Nyege Tapes. Como foi essa experiência?

Esse disco foi feito há dois anos e só agora saiu. Entretanto, eu já estive no Uganda outra vez, durante seis meses. Regressei há um mês. Portanto, já gravámos o próximo disco. Este Lithium Blast tem que ver com o início deste projecto, que é um ensemble que fundei lá, em Kampala. Para mim, é sempre difícil quando os discos saem, fico sempre muito desanimado e vazio, não sei. Fico sempre muito desligado do disco. Trabalho sempre até ao dia em que a coisa sai e depois fico noutro sítio, já a pensar no próximo disco. Foi um processo incrível em que aprendi brutalmente, com o ensemble e com o processo de construção do disco, e acho que fundámos uma série de coisas para o próximo disco, que são uma evolução de tudo isto também. Este Lithium Blast é essencialmente um disco de percussão, electrónica e sopro. O disco neste momento está esgotado, o que é fixe para um disco destes. Mas mais do que outra coisa, é uma proposta de trabalhar ritmicamente uma série de lógicas. É um disco que está a ter uma vida muito interessante, já apareceu em muitos sítios. Confesso que és a primeira pessoa em Portugal a perguntar-me sobre ele enquanto entrevista.

Foste tu que propuseste ir para o Uganda gravar?

Eles propuseram-me as pessoas. A Nyege Nyege é uma estrutura fortíssima agora em África, tem um punch incrível. Já há algum tempo que estavam a propor-me ir lá e colaborar com algumas pessoas. Quando fui, propuseram-me especificamente duas pessoas, e depois ainda consegui trabalhar com a fanfarra da prisão de alta segurança de Kampala, o que também foi super-interessante. Portanto, há duas músicas que eles tocam, mas tudo o resto é percussão, uma percussão mutante, com alguns instrumentos tradicionais, electrónica, mas essencialmente manipulação. E uma trompetista, que é uma activista de lá e que tem uma banda de órfãos, ou seja, trabalha com os putos do gueto e põe-nos a tocar — eles dormem na rua e vão ensaiar com ela. Ou seja, são pessoas muito intensas com quem tive uma conexão forte, e fizemos uma investigação densa de que ritmos queríamos experimentar e por onde evoluir com eles. Neste ano, fui outra vez para o Uganda para gravar os Fulu Miziki, que é uma banda congolesa, e ia somente por duas semanas; depois foi o fecho das fronteiras e fiquei seis meses. Portanto, acabei por fazer uma série de coisas e de colaborações com artistas locais. Neste próximo disco, todas as pulsões são electrónicas, ou seja, estamos a evoluir para um sítio completamente mutante.

Sai para o ano?

Sim. Já está quase pronto.

Para finalizar, peço-te uma reflexão acerca do contexto actual, no qual se vive uma crise pandémica e uma crise na cultura. Como vês isto tudo?

Acho que vão existir mudanças fundamentais. Inevitavelmente, há mudanças estruturais que terão de ser operadas. Não sou muito positivista, falando do positivismo enquanto figura histórica, que emergiu do Iluminismo e depois de uma frincha científica. Depois, isso tudo foi por terra com a física quântica: quando a quântica chegou à física, o positivismo foi destruído enquanto estrutura. Esta lógica de que o humano está numa constante superação de si próprio e a chegar a um sítio cada vez mais perfeito parece-me irreal e impossível, porque, lá está, o cosmos é bem mais complexo e é absolutamente indiferente às emoções humanas, ou seja, aquilo que nós achamos que está bem é indiferente. Portanto, não me parece que exista algo melhor que venha de uma provação, a não ser em casos pontuais e talvez algumas experiências pessoais. Acho que há diferenças fundamentais e nessas diferenças vão sempre existir soluções. Se calhar, a única fé que tenho é… deposito fé na capacidade criativa dentro da adversidade. Portanto, diria que há coisas boas que vão chegar, mas parece-me que vão chegar de sítios que não são aqueles de que estamos à espera. A sensação que tenho é de que os sítios que têm estado em diminuição em todas estas eras capitalistas são os que se calhar se vão adaptar melhor e ter mais soluções e mais coisas a dizer no pós-COVID. Se calhar, o grande Sul vai ter coisas a dizer de forma muito intensa. Se calhar, sítios que estão menos cansados, ou menos cansados da sua própria imagem reflectida, vão chegar com uma série de respostas criativas, e com menos medo de mudanças ontológicas e fracturas estruturais.


Este texto integra a coletânea produzida pelo grupo Crítica de Fuga, que acompanha os trabalhos dos artistas e as atividades do Festival Internacional de Artes Performativas – Linha de Fuga.


Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa: Casa Assombrada

Não havia nada demais naquela casa. Agora, de menos havia muita coisa.
Se essa casa fosse um livro, talvez o título pudesse ser Crônica de Uma Casa Assassinada. Se outro autor já não tivesse escrito um livro com esse nome. [Texto de Fábio Fernandes]

Texto de Fábio Fernandes


Para Lúcio Cardoso

Era uma casa nada engraçada. Não tinha afeto, não tinha nada.
Tinha quatro pessoas vivendo ali.
Pai e três filhos. Não tinha mãe e nem rima.
Não havia nada demais naquela casa. Agora, de menos havia muita coisa.
Se essa casa fosse um livro, talvez o título pudesse ser Crônica de Uma Casa Assassinada. Se outro autor já não tivesse escrito um livro com esse nome.
Não que algum morador daquela casa soubesse disso. Não que algum morador daquela casa soubesse de qualquer coisa.
De vez em quando alguém sugere que eles se mudem. Que um deles se mude. Se mande. Se mate. Que alguém faça alguma coisa.
O modo como o tempo ali parecia parar sugeria que talvez algo assombrasse aquela casa. Ninguém ali jamais viu. Mas provavelmente teriam concordado.


Numa Ciro, a Flor

Numa Ciro é a flecha atravessando o sertão do cariri, remoendo as águas do Açude Velho de Campina Grande, desobedecendo as curvas e atalhos recifenses, caindo nua-lúcida-luminosa numa reunião ordinária da Academia Brasileira de Letras. O mofo acadêmico não suportará sua carga. A poeira da velhacaria desaparecerá em desabalada carreira frente seu sopro criador. [Texto de Aderaldo Luciano]

Texto de Aderaldo Luciano


Numa Ciro é a flecha atravessando o sertão do cariri, remoendo as águas do Açude Velho de Campina Grande, desobedecendo as curvas e atalhos recifenses, caindo nua-lúcida-luminosa numa reunião ordinária da Academia Brasileira de Letras. O mofo acadêmico não suportará sua carga. A poeira da velhacaria desaparecerá em desabalada carreira frente seu sopro criador. A ela, eu, o Cego Aderaldo, devo a visão do mar revolto, a espuma se chocando em meus dedos entrevados, curando-os da artrite, trazendo certa instabilidade, recebendo alguma transcendência.

Um dia, quando cheguei da Paraíba, com o cós da calça elevado acima do umbigo, quase no pé do pescoço, ansioso por uma vaga no mestrado em Poética da UFRJ, no Fundão, esbarrei com essa mulher chamada Numa Ciro. Formaríamos um trio de possibilidades, nos anos seguintes: Nonato Gurgel (saudade!), ela e eu. Meu sonho era inscrever-me na mala da intelectualidade local, os autores dos livros que não li na graduação, mas que formavam a cabeça dos cabeças de onde eu provinha. Foi ela quem preparou-me uma armadilha e me disse com autoridade e divinação: você vai estudar cordel, seu cabra!

Na sala de sua casa em Santa Teresa, a pintura colossal de Hildebrando olhando para nós, a própria Numa retratada, agora estampando esse disco maravilhoso, ela cantou-nos sua trilha sonora, seu alto mundo lírico, sua ordem performática. Tanta energia, tanta vida, tanta urgência, tanta lira, tanta voz, tanto coração, tanta fera. Esse álbum, Numa, agora nas prateleiras digitais do mundo é muito, muito, muito. Mais. É uma cascata de Vida. Dentro dele vem o fora dele. Nele vem a Origem. O origami e o astro. Pois que começa com a frase da memória: quando eu era menina!

Este seria um texto de observação sobre o produto musical, encontro nada acidental com Lan Lanh, produtora e linha sequencial da obra, mas, pela paixão, admiração, cumplicidade que nos une, transforma-se em linguagem do meu próprio agradecimento. Agradeço a Numa por nos oferecer esse trabalho. É a força que ela nos empresta. É a oportunidade para nossos ouvidos, para nossos corpos, para o que há além do nosso cérebro, inclusive a lágrima e a celebração. O álbum Numa é um girassol para nós. Para mim é a encarnação da Flor. É meu Socorro quando levanto os olhos para as montanhas.

Capa do disco NUMA – Clique na imagem para acessar as plataformas de streaming

A relva de Campina

Outro dia, tempos atrás, num mundo sem pandemia, Numa Ciro convidou a mim e minha companheira, Raquel, para assistirmos seu Cabaré Concreto. Isso foi o que? Uns três anos atrás, lá na Casa Rio, em Botafogo. O Cabaré Concreto em que Numa fazia releituras de canções, adaptava letras em temas instrumentais, provocava surpresa, emoção e nos cobria com o afeto de sua voz. Era uma espetáculo que fazia algo impossível de ser feito, resumir Numa Ciro. [Texto de Toinho Castro]

Texto de Toinho Castro


Outro dia, tempos atrás, num mundo sem pandemia, Numa Ciro convidou a mim e minha companheira, Raquel, para assistirmos seu Cabaré Concreto. Isso foi o que? Uns três anos atrás, lá na Casa Rio, em Botafogo. O Cabaré Concreto em que Numa fazia releituras de canções, adaptava letras em temas instrumentais, provocava surpresa, emoção e nos cobria com o afeto de sua voz. Era uma espetáculo que fazia algo impossível de ser feito, resumir Numa Ciro. Na verdade, ao invés de resumir, prefiro condensar. O Cabaré Concreto condensava no espaço da Casa Rio, naquela pequena e aconchegante sala, as dimensões atemporais de Numa, que traz em si os futuros possíveis e os passados prováveis, os sertões e praias, o Nordeste intenso de sua Paraíba e o mundo em aberto. Como se toda matéria de que Numa se faz pudesse ser comprimida, condensada, na sua voz. Uma voz que parecia até sair da gente, de tão íntima e presente.

Foi lindo.

E ali estava as sementes do que viria a ser, num dos futuros possíveis, o disco que hoje Numa publicou, pelo selo Dubas, nas plataformas de streaming, um disco que só podia mesmo levar seu nome, NUMA, e seu rosto na capa, num belo trabalho do artista plástico, amigo e parceiro de Numa, Hildebrando de Castro. Uma capa impressionante, aliás. Dessas capas necessárias, intensas. Fico imaginando esse disco em vinil, ia ser um arraso. Quem sabe um futuro financiamento coletivo não realiza esse sonho?!

Voltando ao disco, o que Numa mais fez foi espalhar dessas sementes. Uma deles, sem dúvida, foi outro espetáculo, A Arte é Mulher, projeto da multi-instrumentista Lan Lanh, apresentado no CCBB – Centro Cultural Banco do Brasil, do Rio de Janeiro, no ano passado, e movido pela força feminina e feminista de várias protagonistas como Heloísa Buarque de Holanda, Maíra Freitas, Jussara Silveira e muitas convidadas, além da própria Numa Ciro. Aquele palco foi uma forja, ali Numa cresceu ainda mais rumo a esse disco, que veio a ser carinhosamente produzido pela Lan Lanh. E cá estou aqui, depois de tatas histórias, a escutá-lo. Um disco múltiplo e sem medo, que brinca de ritmos e encontros, que marca belamente os 70 anos de Numa Ciro, completados nesse ano pandêmico de 2020.

O disco começa bom de começar, com Desproporção, e Numa cantando, a capella, o verso Quando eu era menina havia um rio enorme atrás da minha casa, que carrega a gente lá pro começo, pra Campina Grande, como um fiat lux que dispara a existência de um mundo. A partir desse princípio que parece solitário mas que carrega muitas gentes, o disco é só generosidade e festa, porque numa flagra o passado mas não vive de nostalgia. Numa é ousada, vibrante, é Dadaísta e arquiteta de parcerias inesperadas. O disco está cheio delas, com Luiz Gonzaga, Hermeto Paschoal, José Miguel Wisnik, Braulio Tavares, Tibor Fittel, César Lacerda, Socorro Lira, Claude Burg, Tania Christal, Flaviola e Lan Lanh, que assina com Numa as deliciosas Psicodélica, primeiro single do álbum, e A Arte é Mulher, que namora com o funk carioca e vem lá do espetáculo do CCBB. Tem o sabor e a leveza dos bailes em Do esperar, parceria com João Donato, que leva a participação de Rodrigo Faria e Donatinho! O Baile está divertido! E está mesmo! E agora, preste atenção no detalhe… Vigésima hora é uma música sensacional em parceria, e com participação, de Tania Christal! Estou louca, estou louca, canta Numa, e é essa loucura que vai mandando o disco pra frente, e a gente com ele, admirados da versatilidade dessa artista, que sabe do seu lugar preciso entre os ritmos e as melodias. E aí se encaixa A Arte é Mulher, pra passar o bastão para um xote irresistível, pra arrastar as cadeiras do salão e dançar até amanhecer. Xote à primeira vista é parceria com Tibor Fittel , e quando acaba só não deixa saudade porque na sequência vem nada mais, nada menos, que a parceria com Hermeto Paschoal, iluminado o terreiro com Novena, tema instrumental que ganhou poesia de Numa e virou, no disco, A feira grande de Campina Grande! Não bastasse, tem a participação das vozes de Jussara SIlveira e Tadeu Mathias, além da condução preciosa de Itiberê Zwarg. A cada faixa o disco faz mais e mais sentido, seu compromisso com o legado brasileiro e com esse olhar pro horizonte. Horizonte de país que tem na música se recanto e seu conforto. O nome disso é aula.

Quero falar assim um pouquinho de cada música, que vou escutando enquanto escrevo, indo e voltando, pra dar conta do caráter de partilha que esse trabalho tem. Coisa de amigos que se encontram, que se reconhecem no que são e no que fazem. Daí volta Jussara Silveira, dividindo com Numa Rua da saudade, parceria com José Miguel Wisnik, um fado lindo que ganhou um poema comovente de Numa. Que vontade de sentar na calçada dessa rua, num fim de tarde, a ouvir na distância essas duas vozes, mediadas por essas feras que são Armandinho e José Miguel Wisnik, dando um banho de talento e nos transportando para as casas de muro baixo, com o jasmim noturno.

E como se trata de Numa Ciro, na esquina da Rua da Saudade a gente encontra o Cabaret Voltaire, em Dada Isso, parceria com Claude Burg. É aí que a gente pensa na pluralidade de Numa e do seu trabalho, do quanto ela está mergulhada no redemoinhos da poesia de ruptura, do verso que desafia. Numa é, essencialmente uma poeta. Da voz, do corpo… chegue junto de Numa que você sente o ar se mexendo ao seu redor. Numa altera a gravidade de onde está. Em 2018, nos juntamos eu, Aderaldo Luciano, Braulio Tavares, Otto e Nonato Gurgel e Numa para lançar um livro de poema, o Lendário Livro. A poesia de Numa naquele livro é um entrecorte, um canion, que nos obriga a olhar pra dentro dele, vertiginoso.

Os quatro elementos na beira do mar é um encontro com Recife, via o grande Flaviola. Numa, o disco, é essa viagem de tirar o fôlego por um Brasil que capta o mundo. Flaviola é raro, referência poderosa, e o resultado desse encontro nos comove, carregado de mitologias poéticas. Parece que a gente escuta com os pés nas águas da praia de Boa Viagem, olhando os arrecifes. Tô aqui ouvindo de novo e de novo. Que bonito! E depois a gente se aprofunda com uma valsa do mestre Luiz Gonzaga, de 1941, chamada Numa serenata, que Numa pegou e pôs letra, levando a gente a se debruçar na janela pra olhar a rua, talvez a mesma Rua da Saudade, onde dançam os casais no chão de terra batida. Lembro da minha mãe, que ama valsa e me ensinou a amar a música e a poesia.

O disco vai chegando ao fim com uma resposta de Numa ao poeta, também de Campina Grande, nascido no mesmo ano que ela, Braulio Tavares. Meu nome é Numa Ciro, poema musicado pela paraibana Socorro Lira, é uma resposta de mulher ao Meu nome é Trupizupe, de Braulio, poema publicado no seu livro Sai do meio que lá vem o filósofo! Resposta em martelo agalopado, caprichado no bom humor e na ironia, desafiando a tradição masculina da cantoria. Uma beleza!

Meu nome é Numa Ciro
Sou a relva da Campina
Meu nome é Numa Ciro
A providência divina

E pra fechar esse disco, Numa segue na conversa com Braulio, com a sua versão, primeira gravação, do poema A hipótese do Hipopótamo Tartamudo (Uma balada comportamental), que o poeta publicou no seu folheto de 1981, Cabeça elétrica, coração acústico. Recordo agora Numa recitando esse poema para uma plateia de jovens encantados, junto com Braulio, no Centro de Artes da Maré. Que poder! Acompanhei Numa enquanto ela preparava esse disco, e sua especial animação com a gravação dessa música. Acho que é lindo encerra o disco com essa amizade, essa encontro bom de dois amigos que nasceram no mesmo ano, na mesma Campina Grande, que os gerou pro mundo com essa eletricidade da criação. E aos dois hoje com 70 anos, na mesma Rio de Janeiro, trocando ideias, trocando versos e festejando a riqueza artística das nossas gentes. Veja que Numa chega ao primeiro disco nesse ano de 2020, esse ano estranho, difícil demais. Então é um disco que nos chega redentor de muita coisa, em pleno novembro. Como a cada dia somos mais bombardeados com notícias ruins, tristes, com a devastação e o abandono da Covid, e de repente Numa Ciro nos resgata numa jornada que começa quando ela era menina, sem noção das proporções do mundo, mas intuindo que essas proporções a gente constrói, distorce ou se eleva acima delas pra ter uma visão mais clara das coisas. Essa plataforma em que Numa se ergue é a arte, a Arte Mulher, a arte que engendra o mundo e bota ele pra girar, pra dançar, pra amar.

E sim, esse disco é um disco de amor.

Vocês me perdoem mas esse texto foi escrito de uma tirada só, escutando e escutando essas canções, enternecido, em plena madrugada. Pode, pois conter erros, ausências, idiossincrasias. Assumo. Mas quis reagir logo à beleza desse disco. Digo isso e já lembro que Jorge Luis Borges, no prólogo de um de seus livros escreveu algo como “espero que vocês encontrem aqui algo mais que a Beleza. A beleza, nesse mundo, é comum”. NUMA, certamente, nos carrega para além da beleza e nos oferta encontros, reencontros, surpresas e encantos. E vozes que são nossas vozes, nesse redemoinho do mundo.


— O que será de nós? O que será?

Concedo hoje a liberdade de publicar na Kuruma’tá uma pequena seleção de poemas escritos pela minha mãe, Lenira Castro. Não por nada… é que ontem ela me perguntou o que era preciso fazer para publicar uns poema na revista. Que singeleza de pergunta! Tenho aqui comigo os poemas, nos cadernos em que ela os escreveu. Fico feliz em publicá-los, pensando na riqueza enorme e anônima da poesia do Nordeste, em que cada família tem pelo menos um poeta.

Concedo hoje a liberdade de publicar na Kuruma’tá uma pequena seleção de poemas escritos pela minha mãe, Lenira Castro. Não por nada… é que ontem ela me perguntou o que era preciso fazer para publicar uns poema na revista. Que singeleza de pergunta! Tenho aqui comigo os poemas, nos cadernos em que ela os escreveu. Fico feliz em publicá-los, pensando na riqueza enorme e anônima da poesia do Nordeste, em que cada família tem pelo menos um poeta.

Os poemas aqui reunidos foram publicados em 1996, no livro Folhas esparsas, do poeta potiguar Wellington de Campos Leiros, meu tio, casado com a irmão da minha mãe, minha tia Bita. Porque poesia é coisa de família, geração após geração. Ao publicar seus próprios poemas, Wellington, generosamente abriu espaço nas suas folhas esparsas para a produção de poetas amigos, incluindo aí os versos de dona Lenira!

Toinho Castro, editor da Kuruma’tá!

Poemas de Lenira Castro


O que foi feito?

O que foi feito amor, do nosso amor?
Do teu olhar no meu a perguntar:
— O que será de nós? O que será?

O que foi feito amor, das nossas mãos,
que se apertavam, como se estivessem
na hora triste de uma despedida?

O que foi feito , amor, de tanto amor,
que arrebentou me ser, me esmagou…
e que morreu, levando minha vida?

Desencontro

Pela estrada da vida
fui um dia
Em busca da ilusão
de um amor
Braços abertos
risos de alegria
no coração
ternura, fé, calor

…e te encontrei
sozinho caminhavas
como ma folha
de outono
Solta ao vento
Só o desejo de amar
alimentavas

Me encontraste
Nos encontramos
Nossos sonhos
unimos num abraço
Nossas vidas
se confundem
nos amamos

Mas pela longa estrada
nos perdemos
Algo cruel partiu nossos abraços
e o nosso amor caiu
como uma chuva
e aos nossos pés morreu
feito em pedaços

Mágoa

Eu fiquei só,
cercada de saudade…
Sem ti a vida
terminou p’ra mim.
Parti pra longe,
pra outra cidade,
por uma estrada
que não vejo o fim.
Se tu soubesses
como sofri tanto…
A tua ausência
me desesperou.
Diante de um
abismo me encontro
sozinha,
com a lembrança
que ficou.
Do teu sorriso
que me encantava;
do teu olhar moreno,
tão tristonho;
do sonho louco
que por ti sonhei,
tudo passou.
Se foi tal qual
o vento.
Só ficou em minh’alma
esta saudade,
esta dor, esta mágoa,
este tormento.


Esses meus versos…

Esses versos que faço
sem saber,
sem querer…
Por que?

Não sei dizer.
Sei que os faço…
e que, hoje, são meus…
só meus.

Se, mais tarde forem lidos, recitados,
ou em páginas de livros, editados,
quero que saibas que já foram teus.